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terça-feira, 12 de abril de 2022

Centésima crónica - Dos livros



De livros, e do que deles fica, se tem falado por aqui. Na centésima crónica, algumas justificações para a leitura e para os livros. Diversificadas, mas sempre com o prazer da leitura e do livro em fundo, por alguns dos que escrevem.
Afonso Cruz: “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.” - O vício dos livros (2021).
Alice Brito: “Pode-se frequentar um livro, um verso, uma página. Há livros que têm melhor vida que outros. Em carícias, sublinhados, empréstimos, conversas e paráfrases. Há livros que têm mesmo uma vidinha de lordes. Emprestam imaginários, personagens e vistas largas. São referidos, referenciados, estudados com deleite. São lidos por muitos olhos. À noite, de dia, às escâncaras ou clandestinamente. É a vida. Também há alguns que não valem nem o papel que gastam. Só dizem parvoíces.” - As mulheres da Fonte Nova (2012).
Aquilino Ribeiro: “Para uma criança, livraria que ela possa revolver e folhear à vontade é divertida como um presépio e mais instrutiva que uma escola. Frontispícios, gravuras, cul-de-lampes, vinhetas, que curso de humanidades!” - Anatole France (1923).
Dulce Maria Cardoso: "Os livros oferecem-se sem escolha a todos os que os quiserem ler. E, se redimem, fazem-no de forma tão caótica e tão insondável que ninguém poderá ter nisso qualquer esperança. Talvez os livros escrevam direito por linhas tortas. Como Deus." - na antologia O Prazer da Leitura (2011).
Eduardo Lourenço: “O relacionamento com os livros – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas.” - em entrevista a Carlos Vaz Marques, em Os escritores (também) têm coisas a dizer (2013).
Eugénio Lisboa: “Quando um livro nos impressiona e marca profundamente, a seguir a ele, nenhum outro livro nos parece apetecível.” - Vamos ler - Um cânone para o leitor relutante (2021).
João Bigotte Chorão: “Os livros podem fazer um erudito, mas é duvidoso que tornem civilizado quem o não seja.” - Diário 2000-2015 (2017).
José Régio: “Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” - Páginas do diário íntimo (1994).
José Tolentino Mendonça: “Em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” - O que é amar um país - O poder da esperança (2020).
Maria Judite de Carvalho: “Quem não lê não sabe o que perde. Os livros são os nossos melhores amigos, é uma frase feita mas é uma frase certa. Amigos que nos ajudam, que nos acompanham, que nos enriquecem com o seu saber, que nos dão momentos agradáveis de fuga ao quotidiano ou momentos pouco agradáveis mas necessários de chamamento à pedra da vida.” - Diários de Emília Bravo (2018).
Rita Ferro: “Livros são bússolas que me guiam nos momentos sem Deus, substitutos de um misticismo que não me foi destinado, ou que a vida, com os anos, foi dissolvendo.” - Veneza pode esperar - Diário 1 (2014).
Serafim Ferreira: “O livro será o melhor instrumento para decifrar todos os códigos e desvendar os paraísos artificiais (ou não) que pela eternidade hão de alimentar a aventura do homem.” - Olhar de Editor (1999).
Valter Hugo Mãe: “Nenhum livro se faz sem essa rendição à maravilha em detrimento da verdade.” - Contra Mim (2020).
* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 826, 2022-04-12, p. 11.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

"Arrábida, em contínuo": Um livro virtual em louvor da serra e dos 40 anos do Parque Natural da Arrábida



Chama-se Arrábida, em contínuo. Não existe em suporte papel, mas está ao alcance no formato virtual. É um livro de uma centena de páginas que pretende assinalar os 40 anos da criação do Parque Natural da Arrábida, passados em 2016, agora editado pelo ICNF, sob a orientação editorial de Eduardo Carqueijeiro e Miguel Henriques.
A Arrábida é perspectivada em diversas áreas - da geografia à literatura, do ambiente à história, da geomorfologia à filosofia -, servindo para todas as áreas de interesse e para múltiplos saberes.
A lista de colaboradores é vasta e diversificada: Viriato Soromenho-Marques, Pedro Castro Henriques, Fernando Santos Pessoa, Robert Manners Moura, Tito Rosa, Francisco Ferreira, Miguel Henriques, Nuno David, Eduardo Carqueijeiro, Ricardo Paiva, João Reis Ribeiro, Anabela Trindade, Jorge Humberto, Pedro Soares Vieira, Pedro Holstein Beck, António Mira, Pedro Arsénio, João Joanaz de Melo, José-António Chocolate e Francisco Borba.
O livro pode ser descarregado aqui.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Para a agenda: António Manuel Ribeiro apresenta "És meu, disse ela"



António Manuel Ribeiro conta a sua experiência autobiográfica em És meu, disse ela, obra a apresentar em Setúbal em 16 de Fevereiro, pelas 21h00, na Biblioteca Municipal. Sobre a obra falarão Manuel Fonseca e Alexandrina Pereira. Uma realização da Casa da Poesia de Setúbal. Para a agenda!

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Para a agenda: A história do Balneário Paula Borba em livro evocativo



Em Agosto de 1917, em Setúbal, uma homenagem a um médico transformou-se numa iniciativa cívica em prol da saúde dos sadinos: nascia a ideia do balneário público que, depois, viria a ficar consignado documentalmente que se chamaria para sempre Balneário Paula Borba.
Um século depois, Francisco Borba, neto do patrono, conta a história desta instituição no livro O Balneário - Memória de Setúbal, obra prefaciada por António Cunha Bento e apresentada por João Reis Ribeiro. No dia 9 de Dezembro, pelas 16h00, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal. Para a agenda!

sábado, 28 de outubro de 2017

Para a agenda: Mário Moura, o médico que continua a testemunhar aos 90 anos



Mário da Silva Moura (n. 1927) é personalidade sobejamente conhecida em Setúbal, com uma vida dedicada à medicina (licenciatura em Coimbra em 1952), à intervenção cívica e à vida da Igreja, sobre quem têm recaído diversos prémios e condecorações, num gesto de reconhecimento pelo envolvimento e pelo compromisso.
Autor de obras como, entre outras, E o Homem Novo? - Testemunhos de dez anos de actividade de um jornalista cristão (Setúbal: Caritas Diocesana de Setúbal, 1995) e À Conquista da Liberdade (Lisboa: Âncora Editora, 2013), vai agora apresentar mais um título, desta vez entrando pelo mundo dos contos, Os “Acasos” na Construção da Vida, divulgado como “contos médicos que dão sentido à Utopia, à Fé e ao Amor, como exemplos da Liberdade e Humanidade”.
A sessão acontecerá em 30 de Outubro, pelas 21h30, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, estando a apresentação a cargo de José Poças, clínico e também autor de obras relacionadas com a profissão médica.
No livro que publicou em 2013, relato autobiográfico e de afirmação de convicções e valores, Mário Moura não esconde o seu gosto pelo testemunho e pela escrita. Concluído quando fazia 85 anos, esse livro dá a conhecer uma personalidade múltipla e o horizonte de esperança que animava o seu autor, dizendo a dado passo quanto ao momento que vivia: “Dediquei-me de alma e coração à leitura e à escrita, passei a dar aulas numa universidade da terceira idade, ensinando matérias relacionadas com a medicina, com o envelhecimento e com os variados problemas do dia a dia. Como era inevitável, passei a pensar e reflectir sobre a vida e o seu termo, assim como a tentar decifrar os males do mundo.” E, mais adiante, afirma o seu principal compromisso: “Aos 90 ainda não sei qual é o imposto, mas não deixo de pensar como Agostinho da Silva - já não corro como corria, já não salto como saltava, mas ainda sonho como sonhava!”
A experiência, o testemunho e a convicção constituem argumentos fortes para que este livro de Mário da Silva Moura seja lido. A partir de 30 de Outubro. Para a agenda!

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Para a agenda - Rever a Festa da Ilustração em catálogo



O Catálogo Geral da Festa da Ilustração, iniciativa que já leva dois anos em Setúbal, vai ser apresentado publicamente na quinta-feira, 27 de Outubro, na Casa da Cultura, em Setúbal, pelas 19h00. Para a agenda.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Alexandrina Pereira e Mariana Ricardo - "Somos Setúbal": poemas e desenhos em favor da memória



Comecemos pelo título – Somos Setúbal. Duas palavras apenas, mas fortes e intensas, a oporem-se àquilo que o filósofo José Gil chamou o “medo de existir”, característica comum em Portugal, recanto que foi de nevoeiro e de “não inscrição”. Duas palavras que afirmam e intensificam a identidade – se, por um lado, remetem para os valores de uma cidade, de uma comunidade, por outro, essas mesmas palavras assumem neste título que “ser Setúbal” não é uma questão apenas dos outros, mas de um “nós”, em que entram, não só as figuras que vão ser tratadas, mas também os leitores, mas também as autoras, uma pela escrita, outra pelo desenho. Uma certeza: ambas se afirmam como fazendo parte desse universo que é o de haver uma maneira de “formar Setúbal”, isto é, uma marca colada a estas margens do Sado, que passa pelas pessoas.
Na nota que abre o livro, assinada pelas autoras, este pormenor da identidade não é esquecido, lá sendo dito que se trata de um “modesto contributo para a memória futura da história desta cidade”. Então, este é um livro de comemoração, em que são memoradas figuras que se identificam com Setúbal, independentemente do tempo em que por cá andaram ou do tempo que as continua a fazer estar entre nós.
E, quanto ao conteúdo, ele é feito de imagens e de palavras. O traço é de Mariana Ricardo, fotografado por Paulo Alexandre Ferreira, traço que se passeia pelos rostos de personagens desta cidade, quase todos eles com um sorriso esboçado, muitos deles conotados com a fotografia que conhecemos, com a imagem que temos. Visualizar as personagens é uma forma de as actualizar, de lhes dar consistência, de as tornar presentes no nosso tempo e nos nossos momentos, de as incorporar na nossa vida, com entradas pelas janelas das páginas, a contemplarem as palavras, os retratos escritos que delas são feitos, num jogo de espelhos – ora a imagem, ora a impressão dada pela escrita.
As palavras são de Alexandrina Pereira, autora bem conhecida em Setúbal, sempre dada a estas marcas de identidade e de afecto à terra e às gentes, para o que põe ao serviço a sua veia poética. Como referem as autoras na nota introdutória, trata-se de um livro “em que as palavras organizadas poeticamente se entrelaçam com a imagem de cada pessoa aqui incluída”, duas formas de arte e de expressão, ambas se congregando na busca e no enlevo de uma maneira de “ser Setúbal”.
Entra o leitor por estas páginas e encontra vinte nomes, vinte imagens, vinte poemas, vinte curtas biografias, constituindo esses nomes o tema de cada um dos poemas e de cada um dos registos biográficos, abrangendo os universos da música, do teatro, da poesia, da intervenção social e cívica, do desporto e alguns que, pela sua singularidade, podem ser entendidos como “únicos”. Falamos de um livro que é um itinerário de visita à memória de catorze nomes e de convívio com meia dúzia de outras figuras do nosso presente, que povoam o nosso quotidiano, todos alinhados por ordem alfabética, de A a Z, qual chave que abre e fecha um universo de referências, num horizonte temporal que viaja entre o século XVIII, protagonizado por Luísa Todi e por Bocage, e se despenha sobre o século XXI, num encontro com Eugénio da Fonseca (o de data de nascimento mais recente), Carlos Rodrigues, Fernando Tomé, Georgete de Jesus, Manuel de Jesus e Odete Santos. O trilho é ainda alicerçado em Álvaro Félix, António Maria Eusébio (o que alcançou maior longevidade, com quase 92 anos), Carlos César, Fernando Guerreiro, Francisco Finura, Mário Regalado, Sebastião da Gama (o que teve menos tempo de vida), Xico da Cana, Xico Jorge, Zé dos Gatos, Zeca Afonso e Zeca Gregório.
Marcas fortes trazidas para todas estas personagens são a capacidade de sonhar, a humildade e uma filosofia de vida. O livro abre com uma expressão do universo do teatro, como se fosse um espectáculo aquilo a que o leitor vai assistir – “Sobe o pano, entra o actor”, uma forma de apresentar a personagem do poema, o actor Álvaro Félix, mas também de partilhar o palco da escrita com esta assistência que somos nós, por ali desfilando a história e as histórias, os afectos, os trabalhos, as recordações de momentos, as pessoas.
Os poemas contêm aguarelas de apreciação, que vão desde a personalidade à obra produzida, todos assentando numa base que pretende ser também uma homenagem. Esta aspiração revela-se no prazer de serem mostradas as características, usando marcas de proximidade e mensagens que ligam a poesia à figura, muitas vezes se socorrendo de um tratamento por “tu”, como se se tratasse de uma carta, de uma conversa a dois. Nessas mensagens vão sendo apontados os indicadores das vidas, os traços de personalidade, os efeitos das obras e dos percursos, a admiração partilhada. Mas também flui o testemunho, veiculado pela memória de quem escreve ou desenha, num vaivém entre o passado e o presente, entre as histórias contadas e as revividas.
As escolhas que deram origem a este livro vão sendo marcadas pela admiração e pela amizade, é certo, mas também pelos princípios seguidos na vida, correspondendo os valores apontados também a um perfilhar desses mesmos valores. Por esse facto, também aqui se joga no tabuleiro dos princípios, naquilo que pode constituir um conjunto de referências para a sociedade – o “não fazer mal a ninguém” (apanágio do poeta Calafate), a busca e a luta pela liberdade (linhas de força em Bocage, Odete Santos e Zeca Afonso), a ousadia e a determinação (como no caso de Carlos César), a partilha de alegrias e de sonhos (relevado de Manel Bola), a solidariedade contra o esquecimento e a pobreza (resultante de Eugénio da Fonseca), a capacidade criativa para representar a vida (decorrente de Álvaro Félix e de Fernando Guerreiro), a humildade (marca de Fernando Tomé), o assumir a diversidade e a afirmação da diferença (presente em Francisco Finura e em Zé dos Gatos), o respeito pela tradição (visível na paixão pelo fado apresentada em Georgete e Manuel de Jesus), o trabalho necessário ao sucesso (pairando em Luísa Todi), o convívio e o respeito pela inspiração (emergente em Mário Regalado), o afecto pela Natureza (testemunhado em Sebastião da Gama), o culto de capacidades (simbolizado em Xico da Cana e em Zeca Gregório), a felicidade no que se faz (patente em Xico Jorge). Enfim, um programa de humanidade, uma multiplicidade de caminhos que ajudam à afirmação da vida, de um povo.
Somos Setúbal é, por isso, um espelho que reflecte imagens e exemplos edificadores e edificantes de uma comunidade, de uma identidade. Assim haja vontade para descobrir naqueles que nos rodeiam os dotes e as marcas que podem ajudar a que uma sociedade se afirme, desde que esses traços se revistam em favor da humanidade. Por isso… somos Setúbal!
[na apresentação da obra, em 13 de Fevereiro, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal]

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Para a agenda - Revisitar a indústria conserveira sadina



As conservas sadinas vão ser objecto de mais um livro a ser apresentado em 19 de Dezembro, em Setúbal, nos Paços do Concelho, pelas 16 horas. O título A indústria das conservas de peixe em Setúbal, devido a José Madureira Lopes e a Alberto Sousa Pereira, afigura-se como documento importante para a crónica setubalense, sobretudo porque a identidade desta terra passa obrigatoriamente pelo sector das conservas, que eram saboreadas além fronteiras.
É conhecida a história passada com Sebastião da Gama, que, na sua deslocação a Paris, em 1948, aproveitou o último dia para entrar numa livraria e adquirir obras de autores franceses que admirava. No final, não tinha francos em quantidade suficiente para o pagamento. Pediu à senhora da livraria para os trazer fiados, que lhe enviaria o dinheiro logo que chegasse a Portugal. No decorrer da conversa, a livreira percebeu a origem geográfica do poeta e pediu-lhe: "Já que é de Setúbal, quando lá chegar, faça-me o pagamento não em dinheiro, mas enviando-me o equivalente em conservas de Setúbal..." Sebastião da Gama lá trouxe os livros e, chegado a Portugal, cumpriu a dívida e correspondeu ao pedido.
Para a agenda, pois, esta revisitação ao universo conserveiro de Setúbal!

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Para a agenda: Histórias do Manuel Bola



A Festa da Ilustração de Setúbal também traz a graça e o humor de Manuel Bola, aliás, Carlos Rodrigues. Histórias do pincel da barba é um conjunto de quatro narrativas protagonizadas por personagens que podiam enfeitar o nosso quotidiano, assinadas por Manuel Bola e ilustradas por Gonçalo Duarte. Em 18 de Junho, na Barbearia da Baixa, em Setúbal.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Para a agenda: António Cagica Rapaz - A reedição dos contos



António Cagica Rapaz (1944-2009) é autor de um interessante conjunto de títulos ligados à identidade sesimbrense. Amanhã, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, vai ser apresentada a reedição de Noventa e tal contos, trazidos por João Augusto Aldeia e Pedro Martins. Um bom pretexto para simpática leitura e para um olhar literário sobre Sesimbra. Para a agenda!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

José-António Chocolate: poesia entrelaçada de tempo



O mais recente livro de José-António Chocolate, Este tempo que nos come (Setúbal: ed. Autor, 2014), poderá ser do melhor que o poeta alentejano de Santa Eulália, que tomou Setúbal como terra de adopção, fez num trajecto ligado às letras com quase 35 anos.
O título não é inócuo, pois desvenda logo o agente responsável pela duração da vida, pela ocupação dessa mesma vida, num processo de absorção que se afigura imparável. Em acrescento, há fotografias devidas a José Alpedrinha e a Ricardo Fonseca que vão enlaçando a poesia com as rugas do caminho a que metaforicamente chamamos vida, que vão registando sulcos do tempo.
Em quatro partes surge organizado o conjunto, tantas como as estações, todas ultrapassando as estações porque mexem com formas de estar e de absorver o próprio tempo ou a vida ou de sermos esculpidos por ela. “O tempo, do que se faz” é o primeiro grupo, um título em construção poética, que abre com a força desse medidor que é “Ampulheta”, mais próximo da prosa poética, anunciado com palavras quase bíblicas: “A vida não se vive, desvive-se vivendo. Cada segundo vai caindo ao ritmo certo e um a um se devolve o grão de areia caído da âmbula cheia que nos foi entregue no momento de nascer.” É este primeiro conjunto o passo para o cinzelar de uma identidade, sujeita a transformações, a sonhos, a construção lenta e medida, que se conclui com uma confidência, “Confesso que gosto de ser português”, assente em vivências e nessa identidade construída sobre uma “alma lusitana” que “nos faz acreditar que sonhar é possível”.
É de poemas mais intimistas que se compõe o grupo “O tempo que faz”, num envolvimento do sujeito poético com o seu tempo, com os seus momentos, sejam os do calendário, os da meteorologia, os das partículas de quotidiano. O texto que interrompe este grupo, “Primavera no Alentejo”, é uma declaração de afecto a esse quinhão de paraíso, criação que conseguiu confundir o seu autor – numa visita à paisagem fortemente povoada de natureza que se estende qual tapete Alentejo adentro, “Deus Criador fez-se de tamanha admiração / na dúvida que aqueles campos áridos que criou, / não fossem mais aquilo que a sua criação.”
“O tempo que se desfaz” é o quadro das memórias, o encontro com passados, trazidos ou invocados através de pessoas, de sítios, de lembranças – a casa, a infância, os amigos reencontrados ou rememorados, os momentos de descoberta – num revelado filão autobiográfico, com marcas temporais e geográficas do percurso do autor. É de grande sensibilidade o poema que finaliza este ciclo, retomando a intimidade dos momentos, convocando os ausentes, aproveitando o momento de aniversário da mãe, uma escrita que sugere a presença de interlocutor, como acontece em muitos dos textos que integram este livro – “Assim quiseste a mesa composta no dia dos teus anos, / só eu e tu, mãe, como se todo o mundo ali estivesse / e nos bastassem as conversas repetidas e as lembranças. // (…) // Assim quiseste a mesa composta no dia dos teus anos, / só nós dois tendo todos os nossos por companhia. / Tantos corações num só batendo, quando / o amor era preciso para celebrar este dia.”
Apresenta-se o quarto grupo sob o título “O tempo, o que nos faz”, período de visitação do poeta a si mesmo e às suas idealizações e convicções, momento de respeito pelas palavras e de reflexão sobre os passos do presente. Em “Sigamos o tempo”, o poeta deixa-se convencer pelo poder da sorte – “Sigamos o tempo no seu decurso / que os destino traçou.” – para, logo na estrofe seguinte, anunciar o que é o seu presente de desvendamento – “Cada vez mais procuro / encontrar-me na verdade / das coisas simples.” Mas não é apenas o destino o responsável por este presente, pois que uma outra orientação surge, como é revelado no poema de homenagem ao pai, “Que tristeza é esta…?”: “Vem-me de dentro esta dor que não enjeito / e quero que minha permaneça sentindo a tua companhia. / Podes crer, pai, que a tua bondade para mim é bom exemplo / e a tua mão calejada é que me guia.”

Pela poesia de José-António Chocolate, em Este tempo que nos come, passa uma corrente de imagens fortes do encontro do poeta consigo, transitam os valores e as convicções a que não são alheios “Abril, a clara luz da primavera” ou a opinião sobre o presente (“Onde nos leva esta gente”) ou o acentuado pendor para a evocação ou para a saudade de um tempo povoado de histórias e de pessoas que passa e que apenas se consegue reter porque a poesia tem essa capacidade de transformar as palavras em marcos de vida visitada.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Para a agenda: José-António Chocolate e o tempo como motivo poético



José-António Chocolate é nome conhecido na dinamização e na produção poética em Setúbal. Poeta há mais de três décadas, desde que, em 1981, se revelou com Ninfite - Mal de Poeta, tem publicado individualmente e tem organizado antologias de poetas. Este tempo que nos come é o seu mais recente título. Uma obra que traz o tempo para motivo poético, porque... é do tempo que se faz a vida. E, para que dúvidas não restem, o primeiro poema chama-se logo "Ampulheta". Em 21 de Fevereiro, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal. Para a agenda!


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Ana Teresa Penim: a educação e Sun Tzu



O nome de Sun Tzu anda associado à sua obra A Arte da Guerra, escrito com dois milénios e meio de vida, durante muito tempo entendido como um manual orientador de estratégia e teoria militar, mas trazido para outras áreas do saber, como a gestão, tão ricos e de plurais leituras são os princípios enunciados.
No final do ano passado, uma editora lançou uma colecção de reflexões nas mais diversas áreas, partindo de enunciados de Sun Tzu e incluindo o título da sua obra nos diversos títulos da série, nela entrando temas como a negociação, a gestão, o treinador, a liderança, o serviço ao cliente, entre outros, sempre abordados por diferentes autores. De Ana Teresa Penim é A Arte da Guerra na Educação e Formação (Lisboa: Top Books, 2014), um repositório de dezanove capítulos que constituem outros tantos momentos de reflexão para quem trabalha na área da educação.
Cada um dos capítulos abre com uma citação em jeito de epígrafe (devidas, não só a Sun Tzu, mas também a figuras como Aristóteles, Cocteau, Darwin, Einstein, Erasmo, Gandhi, Mao Tsé-Tung, Paulo Freire, Puig ou Rousseau, aqui entradas por ordem alfabética), a que se segue o relato de uma história vivida pela autora, incluindo curta reflexão que fecha com um lote de perguntas ao leitor no sentido de este pensar sobre os seus procedimentos perante situações relacionadas com a história contada.
A história inaugural poderia ser colada a muitos dos leitores: uma amiga telefona, em desespero, porque o seu filho de 14 anos, no 9º ano, vive “um cenário negro” na escola e “já não sabia o que fazer” com ele, com resultados catastróficos que estavam ainda a condicionar a sua auto-estima, ainda por cima tendo o pai sido também aluno do mesmo colégio, com um, percurso feliz. O pedido final era o previsto: como “encontrar novas estratégias para o percurso escolar do filho”?
Está assim esboçado o caminho para que o livro aborde as “competências para a vida” (“life skills”), mesmo pelos exemplos que, mais adiante, são invocados e não constituem nenhum paradoxo: três nomes indiscutíveis quanto à sua importância na cultura universal como Beethoven, Darwin e Einstein passaram por fases de rejeição e foram rotulados de incapazes – o primeiro, desajeitado com o violino, recusava melhorar a sua técnica e era visto pelo professor como um compositor fracassado; o segundo, desistente de um percurso médico, foi considerado pelo pai como estando abaixo da média por só “ligar à caça e a animais”; o terceiro viveu longamente visto como sonhador, gozado, expulso e recusado em escolas, um “caso perdido” até à construção da sua teoria em 1919.
As relações pessoais e as ligações com os outros saberes, os percursos e os interesses das pessoas, a relação com o quotidiano, a gestão do que corre menos bem e a energia para contagiar positivamente os outros, a cultura organizacional e o protagonismo de todos, a avaliação, a capitalização do medo, a auto-reflexão sobre as práticas educativas, a trilogia que associa os gostos à motivação e à novidade, a capacidade de adaptação, todas estas ondas constituem o conjunto de olhares e de pensamentos que se nos impõem ao longo da pouco mais de centena e meia de páginas deste livro. E, a terminar, nem falta um texto em forma de manifesto em favor da educação e da aprendizagem ao longo da vida, assente em vinte e dois princípios, que culmina, seguindo a linguagem militar, na “conquista”, assim explicitada: “Nesta batalha sem tréguas, a liderança por todos, a 360°, independentemente da patente que possuem, assume uma missão determinante: fomentar o sonho e as práticas para a conquista de um ideal de Aprendizagem”.
Uma forma de desafiar cada um a perguntar-se como melhorar, tendo em vista a acção pedagógica com o outro, o sucesso em que um e outro têm de estar envolvidos.

Sublinhados
Aprender – “A aprendizagem e a felicidade são uma batalha constante que não estão isentas de esforço e dor.”
Aprender – “Quem morre na vontade de aprender morre para a vida.”
Emoção – “Por vezes, a guerra em que nos vemos envolvidos é tão forte que a emoção não nos deixa pensar. Nesses casos é melhor abandonarmos o terreno de batalha e dar tréguas às emoções, sem deixar que o pânico se instale nas nossas tropas.”
Medo – “É no lugar onde o medo habita que moram as maiores oportunidades de desenvolvimento e de vitória.”
Negativo – “As emoções básicas negativas boicotam ou paralisam a proactividade, energia, criatividade e capacidade de relacionamento com os outros, pelo que tudo deve ser feito para não se deixar contaminar negativamente.”
Perfeição – “O ser humano tem a beleza de estar irremediavelmente inacabado.”
Simplicidade – “A simplicidade está um passo acima da complexidade. Não há nada mais complexo e que exija mais arte do que ser capaz de simplificar.”
Solução – “Quem quer encontra uma solução; quem não quer encontra uma desculpa.”

Para a agenda: Miguel Real, a utopia e o seu novo livro



Uma das vozes importantes da cultura portuguesa do presente, Miguel Real, vai apresentar o seu novo romance em Sesimbra, na Biblioteca Municipal, em 14 de Fevereiro, pelas 16h00. O Último Europeu e a procura de uma utopia. Para a agenda.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Para a agenda - Textos de Daniel Nobre Mendes



Daniel Nobre Mendes revela-se Fragmentos - Retalhos de mim, conjunto de textos líricos. Na Casa da Baía, em 24 de Janeiro, à tarde. Para a agenda.
O autor, bejense nascido em 1941, foi emigrante no Brasil e residiu em Setúbal, tendo trabalhado na Câmara Municipal sadina e por aqui tendo proferido conferências e colaborado no periódico O Setubalense. É o seu terceiro livro.



sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

João Magueijo: um olhar sobre Inglaterra



“Estou no cimo de uma serra, estou no céu, ou se calhar voo pelos ares de asas abertas numa nuvem sem borbotos, e vai-se a ver estou a nadar no mar alto sem ter fundo, que ao fim e ao cabo isto vai dar tudo ao mesmo: uma grandessíssima arrelia. Não se enxergava uma polegada britânica à frente do nariz, com os cristais de gelo sobre as pálpebras parecia que nem o próprio nariz se via. E é isto vir de férias nesta ilhota do mar do Norte.” Assim começa Bifes mal passados (Lisboa: Gradiva, 2014), a obra de João Magueijo (n. 1967) que, entre Junho e Novembro, atingiu onze edições e que tem por subtítulo o explicativo dizer: “Passeios e outras catástrofes por terras de Sua Majestade”.
Não vá o leitor enganar-se e pensar que está perante um livro de viagens, o subtítulo desengana logo e o primeiro capítulo não lhe fica atrás. Sugestivamente intitulado “weekend”, esse texto de abertura relata uma ida a Helvellyn, em Lake District, caminhada cheia de peripécias demasiado catastróficas para se recordar um bom passeio. Essa abertura serve ainda para o autor mostrar a sua ligação a Inglaterra e para se justificar do tom a utilizar: “Tendo vivido vinte e tal anos em Inglaterra, depois de acumular duras experiências, munido da sagacidade que a rude prática nos traz, hoje em dia, quando quero ir de férias, espairecer um bocado, desaparecer um fim-de-semana, a primeira coisa que faço é comprar um bilhete de avião. E fugir deste ilhéu a sete pés!” Não é, pois, feliz o retrato que vai ser feito do país de acolhimento do autor…
Ao longo das quase duas centenas de páginas, o leitor vai conquistando a surpresa do mal-estar que invade a memória do narrador. Com efeito, o livro, extensa crónica de vivências diversas, com opiniões que partem de histórias do acaso, é também um repositório memorialístico, já que as experiências aconteceram na primeira pessoa e contêm a marca autobiográfica. Por lá passam apreciações da paisagem, dos hábitos, das pessoas, em suma, de uma identidade do outro, perscrutada por um estrangeiro que acaba por se habituar e por se inserir na sociedade de que tanto se ri e sobre outro tanto ironiza.
À medida que os comentários sobre Inglaterra vão correndo, vai o leitor percebendo que a vida do narrador se alicerça sobre o conjunto de experiências que vai vivendo e sobre as memórias que vai tendo do seu país, de Portugal, ora pela evocação de tempos da sua infância e juventude em Sesimbra ou no Alentejo, ora pelo conhecimento que detém de uma certa forma de ser português, mais prático, mais imediato, mais popular, a tentar compreender um mundo novo, que não tem semelhanças com o de origem.
O tom de riso ou de humor é logo marcado pelas epígrafes que abrem a obra, de Petrónio e de Jerome K. Jerome, e, ao longo do escrito, há ainda referências a Orwell, a Bergerac, a Baudelaire, a Eça, a Rentes de Carvalho, todos eles suficientemente críticos e praticantes de humor e de dizeres sobre outros povos. Apesar disso, vai-se o leitor interrogando sobre o ponto a que chegará esta obra, tão intenso é o tom crítico, atingindo por vezes um certo mal-estar no que se lê, seja por algum aparente exagero, seja por não se saber muito bem a partir de que ponto uma experiência pessoal pode passar a marca generalizada…
O capítulo designado “Epílogo” faz as pazes ou estabelece a harmonia entre o narrador, o leitor e o mundo que foi (re)criado. O título que lhe é dado contém também uma chave para a leitura – “Agridoce”. E é num desabafo que essa chave se inicia: “agradeço a quem me leu até aqui por ter aturado as graçolas de mau gosto, mas espero que tenha ficado claro que não são gratuitas – se as disse é porque esta é a única forma de lidar com este país sem recorrer ao suicídio.” Daqui para a frente, o autor revê-se na sorte que teve em ter passado esse tempo em Inglaterra – “Foi esta a pátria  adoptiva que me permitiu fazer o que gosto: a minha vida como físico e cosmólogo tem sido uma longa história de amor com as tradições científicas britânicas, que não são perfeitas, longe disso, mas também não é isto amor platónico, é uma relação carnal que aprecia a sua verrugazita. Pelo contrário, se tivesse ficado em Portugal teria sido a asfixia.” A justificação para o tom de gozo e de ironia utilizado expõe-na João Magueijo numa observação sobre o auto-retrato que os ingleses de si mesmos produzem: “Uma das particularidades do humor britânico é que frequentemente é self-deprecating, auto-depreciativo: consiste em fazer pouco de si próprio, levado a um extremo que deixa os estrangeiros constrangidos.” Com esta reflexão, o autor assume já o seu quê de britânico, melhor, de inserido no espírito do país que o recebeu e de que ele se ri, porque, afinal, o riso e a gargalhada surgem sobre as suas experiências, não as que lhe passaram ao lado mas as de que ele foi protagonista.
Por isso, a crónica encerra com algo que pode ser um princípio salutar: “As pessoas às vezes levam-se demasiadamente a sério. Não há nada mais saudável do que rir às gargalhadas de si próprio.” E é isso que ressalta neste Bifes mal passados: as aventuras de um português que assume um percurso de descoberta e de inserção em terras de Sua Majestade… nem sempre agradável, é claro, mas que serve para se inserir e para a afirmação da sua identidade também.

sábado, 29 de novembro de 2014

Valter Hugo Mãe: a simplicidade dos afectos



“Reparo desde pequena que os adultos vivem muito em casais. Mesmo que não sejam óbvios, porque algumas pessoas têm par mas andam avulsas como as solteiras (…)” Assim se inicia o recente livro de Valter Hugo Mãe, O Paraíso são os outros (Porto: Porto Editora, 2014).
E as observações da menina narradora seguem o caminho da visão do amor, acompanhado pelas ilustrações de Esgar Acelerado. A primeira frase convida-nos para a seguinte, a seguinte, a seguinte. E cada uma delas revela-se pela beleza da simplicidade, mostra-se repleta de sentido, dá um contributo para que o amor se apresente, ondule nos gestos de vida. Um livro bonito sobre os afectos, sobre a simplicidade dos afectos, sobre a vitória dos afectos. Entusiasma!

Sublinhados
Amar – “As pessoas que amam estão sempre com ar de urgência, porque têm saudades quando não estão acompanhadas e sentem uma euforia bonita quando estão juntas.”
Amor – “O amor é um sentimento que não obedece nem se garante. Precisa de sorte e, depois, de empenho. Precisa de respeito. Respeito é saber deixar que todos tenham vez. Ninguém pode ser esquecido.”
Feio – “Ser feio é complexo e pode ser apenas um problema de quem observa.”
Esperança – “A esperança parece inventada pela espera.”
Tristeza – “[A tristeza] é como algo descartável. Precisamos de usar mas não é bom ficar guardada.” 

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Para a agenda - Eduardo Paz Ferreira, Soromenho-Marques e Pinto Ribeiro



Mais uma tarde com a chancela da Culsete, em Setúbal. Um livro - Da Europa de Schuman à não Europa de Merkel - e um trio de luxo - Eduardo Paz Ferreira, o autor, Viriato Soromenho-Marques e José António Pinto Ribeiro. No sábado, às 16h00. Para a agenda.

domingo, 16 de novembro de 2014

Uma porta cheia de livros



Há livros? Há, há! Uma porta que dá acesso aos livros, uma porta cheia de livros... Será que já leu alguns destes?
A fotografia tem mais de um ano. A dita porta despertou na Rua 26 de Setembro, em Setúbal, ali perto da avenida que tem o nome da cantora lírica, ali perto da Fonte Nova. Uma porta cheia de livros graças à imaginação de Olinda Lima!