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quarta-feira, 7 de abril de 2021

Andersen: um tempo feliz em Portugal em 1866



Em 3 de Maio de 1866, o dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) tomou a diligência de Madrid para Mérida, onde apanhou comboio para Lisboa, tendo como companheiro, por coincidência, Garcia Peres (que dali a quatro anos passaria a viver em Setúbal). A chegada à margem do Tejo aconteceu três dias depois, instalando-se Andersen na Quinta do Pinheiro (Sete Rios, Lisboa), propriedade de Jorge O’Neill. Em 1868, consequência desta viagem, publicava o relato Uma visita em Portugal em 1866, só editado em português em 1971, em tradução do setubalense Silva Duarte (1918-2011).

A memória que Andersen levou de Portugal foi de um tempo feliz, num “paraíso”, em que não se cansou de classificar o que por cá sentiu como momentos de bem-estar que lhe faziam lembrar a sua Dinamarca - estava, portanto, “em casa”, situação que também lhe foi proporcionada pelo facto de privar com amigos antigos.

Depois de atravessar a fronteira entre os países ibéricos, Andersen anotava: “Que transição, ao entrar em Portugal, vindo de Espanha! Era como sair da Idade Média para entrar no presente. Via à minha volta casas acolhedoras caiadas de branco, matas cercadas por sebes, campos cultivados e nas grandes estações podia-se sempre tomar qualquer refresco. Aqui haviam chegado também, como uma brisa, as comodidades dos tempos modernos da Inglaterra, ou do restante mundo civilizado.”

Esta viagem de Andersen começara em 31 de Janeiro, em Copenhaga, cidade onde regressaria apenas em 9 de Setembro; em Portugal, o contista dinamarquês esteve entre 6 de Maio e 14 de Agosto, data de embarque para Bordéus. Nos três meses lusitanos, viveu em Lisboa (na Quinta do Pinheiro), em Setúbal (na Quinta dos Bonecos, de Carlos O’Neill) e em Sintra (na Quinta do Duche, de José Carlos O’Neill), com deslocações rápidas a Aveiro e a Coimbra.

Curioso pela cultura e pela identidade portuguesas, conheceu Feliciano de Castilho (em Lisboa) e Manuel Maria Portela (em Setúbal), convivas que lhe falaram de Camões e de Bocage. Perspicaz e com sentido de humor, não olhava o mundo sem lhe pôr a sua marca - dirá, em Lisboa: “O cemitério maior não o vi, tem o nome de Prazeres. Quase nos faz crer ter sido um humorista que baptizou o lugar. O mesmo sucede com o nome do palácio da Rainha: Necessidades.” A Setúbal dedicou um dos mais longos capítulos do livro - conheceu a cidade, andou pela Arrábida e S. Luís, chegou a Palmela, atravessou para Troia, participou na festa de Santo António, viu uma tourada. Deixou-se ofuscar pela Igreja de Jesus, ao comentar: “Pequena igreja das mais belas que até agora vi. Tem algo de aéreo e luminoso.” Na Praça de Bocage, associou-lhe o seu sentir de poeta: “A maior e mais bonita praça é incontestavelmente aquela que tem o nome do poeta português Bocage, nascido em Setúbal e que, como é frequente com os poetas, morreu em pobreza. Vai agora ser-lhe levantado um monumento, para o qual se está a fazer uma subscrição. Setúbal é orgulhosa do seu vate.” Efectivamente, Bocage ali viria a ter a sua estátua anos depois, em 1871...

É ainda sabido que, em Setúbal, Andersen arranjou motivo de inspiração para o seu conto “O sapo”, como documentou em anotações feitas em 1868.

Viajante persistente (30 viagens entre 1831 e 1873, equivalendo a nove anos fora da Dinamarca), Andersen descobriu-se em cada saída, o que lhe permitiu afirmar, ao concluir o relato da viagem a Espanha em 1862: “A vida é o mais maravilhoso dos contos.”

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 595, 2021-04-07, pg. 10.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Para a agenda: "A Casa Verde" no centenário de Silva Duarte



Silva Duarte, setubalense, nasceu há 100 anos numa casa sita na Avenida Luísa Todi, ainda hoje existente, que ele próprio designou como “casa verde”.
A sua vida foi uma peregrinação pelo mundo, pelo saber e pela cultura. Pintor, escritor, poeta, tradutor, professor, Silva Duarte foi o mais importante andersenista português, sendo o responsável pela maioria das traduções de Hans Christian Andersen disponíveis no mercado português, aí se incluindo a totalidade dos contos e o relato de viagem que o autor dinamarquês fez em Portugal em 1866.
A LASA (Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão) e a Câmara Municipal de Setúbal, com o apoio indispensável de Fátima Ribeiro de Medeiros, estudiosa de Silva Duarte, têm um programa para cumprir durante um ano, homenageando este autor setubalense em diversas actividades - a primeira, uma conferência sobre a sua vida e obra, proferida por Fátima Medeiros, teve já lugar em 5 de Junho, o dia dos 100 anos. A segunda vai acontecer no sábado, 30 de Junho, pelas 17h00, na Casa Bocage, com a apresentação do livro A Casa Verde, homenagem do autor à casa em que nasceu.
Para a agenda!

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Para a agenda - Festa da Ilustração em Setúbal


A  Festa da Ilustração 2018, em Setúbal, está a chegar: amanhã é o dia de abertura da Festa e de algumas exposições: João Fazenda, na Casa da Cultura, às 00:00; Silva Duarte, ilustrador de Andersen, na Casa Bocage, às 15:00; José Paulo Simões, no Museu do Trabalho, às 15:30; ilustrados vários do concelho, na Galeria Municipal (ex-Banco de Portugal), às 16:00; Alberto Lopes e Outros, na Casa d'Avenida, às 16:30; pessoas reclusas no Estabelecimento Prisional de Setúbal, na biblioteca Municipal de Setúbal, às 17:00; ilustrados vários, no Cais 3 do Porto de Setúbal, às 17:30.
Para o dia 9, está prevista, pelas 19h00, a abertura da exposição de Tóssan, na Galeria Municipal do 11.
Um programa e uma oportunidade a não perder. Absolutamente! Para a agenda! 

Para a agenda - Silva Duarte: O maior andersenista português é setubalense



Em 5 de Junho, passam 100 anos sobre o nascimento do setubalense João José Silva Duarte, que ficou conhecido pelos apelidos de família Silva Duarte, nome com que assinou a sua produção literária.
Investigador na área da literatura, andersenista, professor, tradutor, poeta e pintor, Silva Duarte vai ser tema de diversas actividades ao longo do ano do seu centenário, que se inicia já em 5 de Junho com uma conferência na Casa da Cultura, em Setúbal, por Fátima Ribeiro de Medeiros, a pessoa que mais conhece sobre a obra de Silva Duarte. Na mesma sessão, vai ser feita a apresentação da obra A Casa Verde, poema em que o autor homenageia a casa (na Avenida Luísa Todi) e a terra que o viram nascer, pela primeira vez publicado autonomamente em livro.
Uma parte da obra de Silva Duarte poderá também, a partir de amanhã, ser vista na Casa de Bocage, com abertura prevista para as 15h00, em exposição incluída na Festa da Ilustração 2018, apresentando ilustrações a propósito dos contos de Hans Christian Andersen.
A não perder! Para a agenda!

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Celebrar as efemérides de 2018



O ano de 2018 vai ser ocupado com um grande tema, o do património, uma vez que assinala o Ano Europeu do Património Cultural (por responsabilidade da Comissão Europeia).
Em 2018, passam 50 anos sobre a Revolta de Maio de 68 em França, sobre os falecimentos de Martin Luther King (04.04), de Helen Keller (01.06), de Cristovam Pavia (13.10), de Ramon Menéndez Pidal (14.11), de Enid Blyton (28.11) e de John Steinbeck (20.12), e sobre a publicação de obras tão icónicas como O Delfim (de José Cardoso Pires), O Meu Pé de Laranja Lima (de José Mauro de Vasconcelos) e da encíclica Humanae Vitae (de Paulo VI).
100 anos passam em 2018 sobre o fim da Primeira Grande Guerra (11.11.1918) e, ainda no plano da Grande Guerra, sobre a Batalha de La Lys (09.04), que dizimou o Corpo Expedicionário Português na Flandres. Relacionado com este momento histórico, passa também o centenário sobre a publicação de obras como Em Tempos de Guerra e De como Portugal foi chamado à Guerra (de Ana de Castro Osório) e de Nas Trincheiras da Flandres (de Augusto Casimiro). Igualmente centenária é a obra Sintaxe Histórica Portuguesa (de Augusto Epifânio da Silva Dias), tornada pública em 1918. É ainda em 2018 que passam os primeiros cem anos sobre as mortes de Gustav Klimt (06.02), de Claude Debussy (26.03), de Santa-Rita Pintor (29.04), de Richard Feynman (11.05), de Amadeo de Sousa Cardoso (25.10), de Wilfred Owen (04.11), de Guillaume Appolinaire (09.11) e de Olavo Bilac (28.12) e sobre os nascimentos de Dalila Pereira da Costa (04.03), de Vitorino Magalhães Godinho (09.06), de Ingmar Bergman (14.07), de Nelson Mandela (18.07), de Leonard Bernstein (25.08) e de Alexandre Soljenitsine (11.12). Registe-se ainda a passagem centenária sobre a instalação de semáforos em Nova Iorque para regulação do tráfego.
Um século e meio passa em 2018 sobre a publicação de obras como Morgadinha dos Canaviais e de Uma Família Inglesa (de Júlio Dinis) e de Mulherzinhas (de Louisa May Alcott) e sobre o aparecimento do periódico portuense O Primeiro de Janeiro (01.12).
É ainda em 2018 que passa o bicentenário sobre os nascimentos de Máximo Gorki (28.03), de Karl Marx (05.05), de Charles Gounod (17.06), de Emily Bronte (30.07), de Ivan Turgueniev (09.11) e de James Prescott Joule (24.12) e sobre a publicação do romance Frankenstein (de Mary Shelley).
Ainda na relação de 2018 com datas redondas, é de assinalar o 70º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adoptada em 10 de Dezembro de 1948.
Quanto à importância de datas de 2018 para Setúbal, além da referência a Ana de Castro Osório já feita, as três efemérides mais importantes serão as do centenário do nascimento de João José Pereira da Silva Duarte (escritor, pintor e tradutor de Andersen, em 05.06) e dos 150 anos sobre o nascimento de Arronches Junqueiro (13.01) e sobre a inauguração da Escola Conde de Ferreira (07.01), podendo ainda referir-se a fundação do Asilo da Infância Desvalida (28.06.1868). Passam ainda o bicentenário do nascimento do músico sadino António Nascimento e Oliveira (13.06.1818) e o 650º aniversário da criação da Confraria de Nossa Senhora da Anunciada (1368).

terça-feira, 3 de abril de 2012

Andersen no dia de ontem

Ontem foi o Dia Internacional do Livro Infantil, caído em 2 de Abril por ser esse o dia em que, em 1805, nasceu Hans Christian Andersen, o contista dinamarquês universalmente conhecido, que foi também viajante e andou por Portugal em 1866 (passará, dentro de quatro anos, o 150º aniversário dessa viagem), dessa experiência tendo deixado relato.
Setúbal foi um ponto de poiso nessa longa jornada e foi nesta terra que lhe surgiu a ideia para um conto como “O sapo” (“Skrubtudsen”, no original), narrativa que homenageia o sonho de ir mais além, apesar dos riscos.
O fascínio dos contos de Andersen, na sua totalidade traduzidos para português por um setubalense, João José Pereira da Silva Duarte (1918-2011), mantém-se sobre os seus leitores, independentemente das latitudes ou das gerações.
Há poucos meses, a M. C., minha aluna de 7º ano, leitora compulsiva, fazia-se acompanhar do livro Os contos, de Andersen, numa edição devida a esse espantoso divulgador e amante da obra do seu conterrâneo que é Niels Fischer, feita em 2005 (aquando do bicentenário do nascimento de H. C. Andersen). Pedi-lhe uma opinião sobre a sua leitura e a resposta deu para conversa em parte significativa de uma aula: “Os contos de Andersen não são tão felizes na escrita como aparecem nos filmes, dizia, mas são muito mais bonitos e encantadores, mais surpreendentes, na leitura do que nas versões que nos mostram.”
É claro que, perante uma observação destas, uma parte considerável da turma quis saber as razões que levavam a M. C. a falar assim e quiseram saber a opinião do professor. Daí o tempo que, em aula, se gastou a falar de Andersen… com a consequente recomendação de leitura de “O sapo”, que tinha sido gerado em Setúbal, e com olhares atentos para uma (re)descoberta de Andersen graças à M. C.
Quanto a “O sapo”, o início é nas profundezas, enquanto o final é nas alturas. Assim começa:
“O poço era fundo, por isso a corda era comprida. A roldana rodava com dificuldade quando se puxava o balde com água para a borda do poço. O sol nunca conseguia descer para se espelhar na água, por muito clara que fosse, mas até onde chegava o seu brilho, crescia a erva entre as pedras. (…)”

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Memória: Silva Duarte (1918-2011)

Conheci Silva Duarte através do Manuel Medeiros, numa daquelas ações a que o Livreiro Velho me habituou na sua Culsete, já lá vão uns anos. Fiquei nessa altura a saber que o maior andersenista português era setubalense, com estudos e traduções de Hans Christian Andersen, o escritor e viajante que andou por Portugal em 1866 e que também esteve nas terras do Sado.
Li a biografia Andersen e a sua obra (Lisboa: Livros Horizonte, 1995) e li Uma visita em Portugal em 1866 (Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984) e as Histórias e contos completos (Vila Nova de Gaia: Gailivro, 2005), uma e outras devidas a Silva Duarte, a primeira de sua autoria e as restantes, de Andersen, por si traduzidas.
Num dos poucos encontros que me foram proporcionados – acontecidos quando da Alemanha rumava até cá para ver a sua Setúbal e alguns amigos –, falámos do poeta limiano Feijó e da sua passagem enquanto diplomata pelos países nórdicos. E Silva Duarte, gentilmente, regressado a Würzburg, apressou-se a enviar-me pelo correio a sua obra António Feijó e a Suécia (Lisboa: 1961).
Já há uns anos que não o via, mas ia sabendo pelo Manuel Medeiros informações que davam conta do seu débil estado de saúde. Agora, que acabei de ler a notícia final (recuada a 23 de outubro), recordo o trato fino, uma sensibilidade enorme, um saber grande e a presença afável que revestiam o artista que era Silva Duarte. Gostei de o ter conhecido e, sempre que ler Andersen ou Feijó, terei de o lembrar.´
[foto: retirada de chapéu e bengala]