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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Afonso Cruz e os vícios da leitura e da escrita

 


São cerca de quarenta crónicas em que predomina o “vício” do leitor, todas subordinadas a uma epígrafe de Jorge Luis Borges (ele próprio um ávido e “viciado” leitor), que explica, justifica e engrandece o estatuto do “vício”: “Há aqueles que não podem imaginar um mundo sem pássaros; há aqueles que não podem imaginar um mundo sem água; ao que me refere, sou incapaz de imaginar um mundo sem livros.” O primeiro texto puxa para título uma mescla resultante de leituras, associando Shakespeare e o prazer — “Ler ou não ser, eis a questão”, uma defesa intransigente do acto de ler, apesar do trabalho e das condições que a leitura exige. Estamos perante a obra O vício dos livros - II (Companhia das Letras, 2025), de Afonso Cruz (n. 1971), volume aparecido quatro anos depois do primeiro (em que não era anunciada sequência).

As crónicas são intervaladas com reproduções de pintura (devidas a nomes como Magritte, Massys, Rivera, Picasso, Larsson, Renoir ou Spitzweg, entre outros, num conjunto de dezasseis telas) que têm como condição permanente o livro enquanto objecto, sempre aberto, disponível para o leitor que as personagens dos quadros são, persistência que ganha eco numa crónica como “Livro aberto”, onde é dito: “É a leitura que cria o livro e o constrói a partir dos signos de tinta impressos em papel. (...) O livro, sem leitura, não existe. Aliás, com a notação musical ocorre um fenómeno semelhante: a partitura só é música quando é lida e executada.” Esta crónica é, aliás, a oportunidade para Afonso Cruz citar Massimo Recalcati, numa referência cheia de poesia a propósito da razão de ser e da identidade do livro — “um livro fechado é, na verdade, um contra-senso: não é um livro. Como o mar, o livro é uma imagem extraordinária do ‘aberto’. Abre o mundo em vez de o fechar. Um livro é um mar e não um muro.”

Questões como o acto de ler, a criação literária e a escrita, a censura ou as redutoras leituras apenas das parangonas dos títulos, a força imanente de uma biblioteca, a capacidade de descrever e de contar, a pluralidade da interpretação, a força do silêncio, o papel da literatura dita infantil, as marcas de autor, os livros que fazem e marcam um leitor, entre outras, povoam as crónicas aqui apresentadas, sempre num testemunho de paixão pelo livro e pela liberdade de ler, recorrendo à experiência de leitura, muito mais do que à teorização, e convocando nomes como Raul Brandão, Lao Tse, Steiner, Brodsky, Primo Levi, Tchékov, Rilke, Marguerite Duras, Eliot, Saint-Exupéry, Camus, Dostoievski, Joyce, Orwell, Umberto Eco, Lídia Jorge, Santo Agostinho ou Fernando Namora para sustentação das considerações feitas.

Nestas crónicas não faltam as marcas de poesia, sobretudo para provar que a literatura pode dar imagem do real, mas ultrapassa esse real, recriando-o a partir da emoção, da criatividade e do olhar, erigindo-o em arte, como quando se recorre ao exemplo da descrição da casa: “Quando descrevo a minha casa de forma concisa, objectiva e despersonalizada, deixo inevitavelmente de parte algumas das suas dimensões mais essenciais. Estou a descrever uma casa, mas não estou a descrever um lar. As emoções que o lar convoca escapam a uma descrição factual. No entanto, é isso que constitui o lar: não só o espaço, mas a experiência que nele é vivida. Um lar não se reduz a espaço e tempo (como conceitos físicos), é lugar e história. A casa, enquanto entidade física, é perfeitamente apreensível. (...) A casa pode ser medida, esquadrinhada, modelada em software, reduzida a dados e projecções. O lar esquiva-se a essas descrições. Ao despersonalizar a casa, estou a desabitá-la simbolicamente, a desumanizá-la. Torno-a um lugar genérico, qualquer casa. Mas o lar é sempre singular. É feito daquilo que não se vê: os hábitos, os afectos, os silêncios e os ruídos íntimos que ali se repetem. Só as artes são capazes de descrever o lar. (...) A casa importa, mas é o lar que tem significado.”

A todo o momento o leitor sente a presença do princípio deste livro, em que se equaciona a tarefa de ler, mediante três questões: “Como pomos os adultos a ler mais? Como pomos os jovens a ler mais? Como se formam leitores?” A pertinência das interrogações aumenta quando se sabe que a leitura “não tem uma gratificação imediata”, contribui para o nosso isolamento dos outros e do mundo, requer atenção e “obriga ao esforço da descodificação”, em suma, dá trabalho. Mas é a compreensão de tudo isso que leva à descoberta das compensações e ao fascínio do que é ler — assim, poderemos sorrir quando testemunhamos histórias como as que Afonso Cruz evoca: “alguém está a ler num transporte público, quando ouve uma voz dizendo: ‘Não mude de página, que ainda não acabei.’”; ou a que é retirada das Confissões de Santo Agostinho, que “ficava admirado ao ver Santo Ambrósio ler em silêncio, uma prática incomum na época”, porque o “impressionava como os olhos de Ambrósio percorriam o texto, deixando em descanso a voz e a língua”. Encantos com pequenas coisas que só o silêncio do leitor consegue entender!...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1602, 2025-09-17, pg. 9.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

Resendes Ventura entre os papéis e a leitura



Dê-se a palavra ao autor: “Vivo no meio dos livros. Alto preço / paguei por esta escolha. / Ele há vidas assim. Há tantos modos / de se passar pelos destinos / em que está embarcada a vida humana.”

A citação pertence a Resendes Ventura - assinatura literária de Manuel Pereira de Medeiros (1936-2013), micaelense de Água Retorta e setubalense por adopção, onde foi livreiro e fundador da livraria Culsete (1973) - e consta na sua obra Papel a Mais - Papéis de um Livreiro com Inéditos de Escritores, saída em 2009 (Esfera do Caos Editores), a abrir uma estrofe do poema “Leitura”, quase no final do livro. Somos levados para a relação daquilo que o autor assumiu como tendo sido - um livreiro, um leitor, um autor de “papéis” (que não um escritor, apesar de o ter querido ser). Desta quase trindade surgiram as considerações e poemas que compõem o livro, alinhado em quatro grupos: dois reflectidos e exuberantes ensaios sobre a leitura, aglomerado de poemas em jeito antológico (recorrendo ao seu título de 1993, Mãe d’Alma, e trazendo mais algumas criações), textos de autores amigos oferecidos ao livreiro e colaborações diversas na imprensa.

Os ensaios reflectem o estado da leitura e lançam pistas para o seu futuro. Estava-se em tempos em que se discutia o fomento da prática da leitura (e não estamos ainda?), em que o estudo da leitura dava os primeiros passos como preocupação na prática universitária. As reflexões sobre a leitura (o seu estado e a sua dinamização) surgidas nesta obra associam-se a incursão pela memória, relatando o papel da Culsete nessa promoção e as inumeráveis sessões de animação do livro e da leitura que o livreiro levou por diante, não sem que paire o autobiografismo do trajecto do leitor que se foi formando desde a infância e da experiência de escrita que também foi namorando o livreiro.

A reflexão que fica é contundente e provocatória, não deixando dúvidas quanto às responsabilidades que todos - todos - temos na leitura. Leia-se, no primeiro ensaio, e pense-se: “Como é que um país pode ser culto sem edições disponíveis de obras fundamentais quer da cultura nacional quer da universal? Miséria de editores ou miséria de leitores? Nunca compreendi. Mas a conclusão, sim: miséria de leitura.” E, já agora: “nunca encontrei quem se admirasse de um livreiro ser ignorante como leitor”. No segundo ensaio, uma proposta: a livraria como “oficina de leitura”, não como “mercearia de livros”. Entre a escrita dos dois textos que constituem este grupo medeiam seis anos, notando-se, no segundo, uma maior confiança nos caminhos abertos à prática (porque não ao hábito?) da leitura, texto que é também uma quase despedida de um percurso dedicado ao livro.

As colaborações de Resendes Ventura na imprensa, trazidas para final da obra, caucionam o percurso dinâmico do autor na actividade cultural, particularmente no que ao afecto ao livro respeita. São recortes por onde passam o sentir poético da vida, o contributo dado em Setúbal para a memória de Sebastião da Gama ou de Andersen, o testemunho de leitor de vários tempos. Valorizando todo este desempenho, surgem também os “inéditos de escritores” (15 nomes, no total), que, maioritariamente homenageando o livreiro Medeiros, são também um contributo para o testemunho e para novas pistas de conhecimento.

Quase no final do livro: “É mesmo inevitável a pergunta: quem mais irá ler, para além de alguns amigos de cada autor, muito do que se edita? Uma pessoa interroga-se com razão.” Cabe a cada um de nós responder, mas será triste desconhecer este contributo de Resendes Ventura para a discussão e para a memória local...

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 793, 2022-02-23, pg. 6.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Eugénio Lisboa cativa leitores relutantes


O título envolve um convite, embrulhado em emoção, numa exclamativa. É curto, duas palavras. Mas um subtítulo chama a atenção para o que tão conciso título pretende. Vamos ler! - Um cânone para o leitor relutante é o mais recente livro de Eugénio Lisboa (Guerra & Paz, 2021), leitor contumaz, a falar da felicidade de ler para interlocutores a conquistar.

A aventura começa com recuo à infância moçambicana do autor, numa família sem “folga financeira para comprar livros, para além dos escolares”, numa casa cuja arrecadação guardava num baú, “dezenas e dezenas de números de uma revista brasileira, com um título que era um verdadeiro chamariz”. Chamava-se... Vamos ler!, oferecendo “reportagens, verbetes dedicados a grandes escritores do passado e do presente (daquele presente!), contos de autores famosos, novelas policiais excitantes e até peças de teatro”. O trilho da leitura: “à falta de livros, fui-me embrenhando na boa e variada literatura que a revista me oferecia. ‘Vamos ler!’, dizia o título da revista - e foi isso mesmo que me dispus a fazer: ler.”

A persistência e o gosto levaram o jovem para um cruzamento de géneros, tempos, culturas, numa viagem fascinante que o faz afirmar: “As pessoas que nunca adquiriram o gosto de ler não fazem ideia do prazer incomensurável que desperdiçam.” Esta asserção conduz a Virginia Woolf, pelo seu cenário do Dia do Juízo, no momento de recompensar heróis - dirá Deus a Pedro, quando alguém chegar com livros debaixo do braço: “Olha, estes não precisam de recompensa. Não há nada que possamos dar-lhes. Eles já gostam de ler!” Criados os passos, Eugénio Lisboa diz ao que vem: “Era precisamente para este estatuto de ‘pessoas que já gostam de ler’ que eu gostaria de seduzir as pessoas pouco habituadas à leitura. E uma coisa prometo, desde já: não fazer batota.”

Vamos ler! apoia-se em dois vectores: o da sedução e o da sinceridade de leitor experimentado. Se aquele cativa vontades, este aponta caminho não complexo nem difícil. Isto é: neste livro “trata-se de congeminar uma isca astuta e não de exibir uma cultura sofisticada e faraónica.”

O fingimento sentido no mundo literário é repudiado por Eugénio Lisboa, sobretudo pelo snobismo do “fica bem” ou do “dar estatuto”. Daí a palavra “cânone” no título, termo habitualmente guardado para associar a ideologia ao gosto, à norma, prescritivo, mas que Eugénio Lisboa usa em dimensão modesta e próxima, chegando a dizer não ser o “seu”, mas “um” cânone para que não haja leitores relutantes e também para ironizar com os cânones que deixam de fora, por exemplo, uma poeta como Sophia...

As visitas propostas passam por uma lista de 50 obras de 35 autores, todos portugueses (na verdade, são muitos mais e há imensos estrangeiros, pois as incursões sobre os seus gostos literários são outros tantos “iscos”, ainda que fora da lista), ordenada do “mais recente para o mais antigo”, estratégia pedagógica iniciada com Miguel Sousa Tavares até chegar a Camões, também descobrindo em alguns canónicos dos programas escolares as virtudes que ficam normalmente à porta do estudo. Não, não vou dizer quais são os autores - apesar de poder haver alternativas válidas, a proposta de Eugénio Lisboa é coerente, pois assenta no princípio de que “vale a pena ler”, verdade tão universal que até Bill Gates afirmou: “Os meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros”, porque, “sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever, inclusivamente a sua própria história.” E conclui o autor: “E, agora, VAMOS LER!” 

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 591, 2021-03-30, p. 10.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Setembro, mês de Bocage (28)



Saiu recentemente uma Antologia de Poesia Erótica de Bocage, organizada e prefaciada por Fernando Pinto do Amaral (Lisboa: Dom Quixote, 2017). A propósito dessa novidade literária, o JL - Jornal de Letras, na sua edição de ontem (nº 1226, 2017-09-27, pg. 23), publicou curta entrevista com Pinto do Amaral, cheia de referências à importância do poeta setubalense Bocage. O entrevistado sabe do que fala e vale a pena reter e acreditar numa das suas frases: "Neste momento há uma geração de leitores que tem uma genuína curiosidade em ler os textos bocagianos." Assim seja! É mesmo importante que Bocage seja lido.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ler Prazer Ler P'ra Ser - Aluna de Palmela ganha primeiro prémio



O primeiro prémio do concurso “Ler Prazer, Ler p’ra Ser”, na modalidade “trabalho individual do 3º Ciclo do Ensino Básico”, inserido na 11ª Semana da Leitura, promovido pelo Plano Nacional de Leitura, foi atribuído a Adriana Martins Ferreira da Costa Rodrigues, aluna do 8º ano na Escola Secundária de Palmela, e será entregue em cerimónia a ter lugar em 14 de junho, no pavilhão da APEL, na Feira do Livro de Lisboa.
O trabalho apresentado pela jovem palmelense, intitulado “O prazer de ler em todos os momentos e em todos os lugares”, consiste numa animação de 14 segundos, ilustrativa da descoberta do prazer de ler, resultante de 84 desenhos originais (seis imagens por segundo de animação), contendo fundo musical inspirado em compositores clássicos como Mozart, Schubert e Brahms.
A candidatura do trabalho da Adriana Rodrigues foi acompanhada pela professora Maria José Ribeiro, que, na Escola, dirige o Centro de Recursos e Biblioteca Escolar. Com este galardão, a biblioteca escolar receberá também livros para renovação do seu acervo documental no valor máximo de 500 euros.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Duas notas de fim de semana: entre concertos e livros



Primeira: Assisti aos dois concertos promovidos conjuntamente pelo Coro Gospel de Azeitão e pelo Coro do Conservatório Regional de Setúbal. Foi o concerto “Happy Days”, primeiro em Azeitão, no auditório da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em 21 de Abril, e depois em Setúbal, no Forum Luísa Todi, em 22 de Abril.
Uma combinação perfeita, dominada por espirituais negros tradicionais, experiência inicial entre os dois coros, com público entusiasmado e participativo, com coralistas empenhados e um trabalho notado. Valeu bem a pena! E, por isso, o agradecimento a todos os participantes, a todos os “fazedores” deste evento, sobretudo a John Fletcher, professor do CRS e orientador do Coro Gospel, que dinamizou a actividade e lhe emprestou uma marca pessoal.


Segunda: Passou o Dia Mundial do Livro, homenagem ao objecto livro, aos autores e aos leitores. Poderíamos dizer que também somos o que lemos. Tive pena, ao passar pela FNAC, por ver que não houve este ano a edição antológica de contos O Prazer da Leitura. Desde 2008 que a FNAC (em conjunto com a editora Teorema nos três primeiros anos e com a Teodolito nos seguintes) tem vindo a publicar, no Dia Mundial do Livro, esta antologia, um volume por ano, reunindo contos inéditos de autores portugueses contemporâneos, já num total de 50 autores e correspondente número de contos (o volume de 2008 integrou 10 autores e cada um dos seguintes foi alimentado por 5 autores). Não posso esquecer o entusiasmo dos meus alunos mais novos quando lhes leio um conto que surgiu no primeiro volume, “Verba volant, scripta manent”, de João Aguiar, experiência que tenho repetido quando tenho alunos novos, conseguindo sempre o mesmo entusiasmo... Esperava encontrar-me com a edição deste ano, mas... Pena, porque é um interessante projecto e dinamiza a leitura do conto e a diversidade de propostas de leitura!