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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Máximas em mínimas - Alexandre Dáskalos


Eu – “O meu íntimo é uma catedral / que ninguém viu.”

Silêncio – “Só no silêncio a vida se descobre.”

Procura – “Sempre haverá o que se busque / embora o que se busque não se encontre.”

Vida – “Só existe / o que amanheceu. / (…) // A vida banhada em Sol é que dá vida.”

Alexandre Dáskalos. Poesia.
2ª ed. Col. “Autores da Casa dos Estudantes do Império”.
Lisboa: União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa – UCCLA, 2015
[colecção em publicação pelo semanário Sol]

sábado, 25 de outubro de 2014

Para a agenda - Ricardo de Saavedra e "O Puto"



A obra que Ricardo de Saavedra agora apresenta, O Puto - Autópsia dos ventos da liberdade (Lisboa: Quetzal Editores) resulta de uma longa, longuíssima, entrevista (género que o autor cultiva esmeradamente, como já se viu em trabalhos anteriores) feita nos idos de 1979, em Joanesburgo, ao protagonista da história. Agora, 35 anos volvidos, vem o texto escrito, resultante da entrevista, sem as perguntas. No prefácio, Óscar Mascarenhas comenta: "O Ricardo sabe contar uma história, escreve muito bem, escorreito, sem literatices, a narrativa vai-nos entrando como um soro intravenoso". A história do "Comandante Paulo", que esteve no "Esquadrão Chipenda em Angola" e participou na construção do túnel de 28 metros que levaria à fuga do forte militar de Alcoentre...
Apresentação em 28 de Outubro, na Livraria Bertrand Picoas Plaza, por Rui Ramos. Para a agenda!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

António Oliveira e Castro: "Tambwe" ou o mundo pelos olhos de Eugénio

O mais recente romance de António Oliveira e Castro, Tambwe – A unha do leão (Lisboa: Gradiva, 2011), com ilustrações de Nuno David, é uma história que prende o leitor ao trajecto de uma personagem como Eugénio, figura que, ora procura a morte, ora assume o seu trajecto sozinho, ora peregrina até às raízes. A história é intensa e o leitor é convidado a passar por paisagens diversas, europeias (Portugal, França) ou africanas (Angola), por corredores diversificados de uma sociedade que nem sempre se rege pelos melhores princípios, convivendo com figuras da baixa política, com revolucionários, com mercenários, e tendo momentos de paragem, também fortes, em pensares de tempos de solidão ou em reflexão com figuras que constroem e se alojam na identidade.
É uma história dramática, em que o narrador dialoga com o leitor, tentando convencê-lo da verosimilhança das situações e levando-o a pensar a actualidade, o papel da política, o encaminhamento do mundo, o ser cidadão. É uma história dolorosa, com desvios e demandas, mortes e utopias, caos e ordem, poesia e horror, em que a liberdade e a prisão coexistem e a fragilidade do mundo e dos sistemas é posta à prova. É a história de uma solidão sempre e sempre testada, numa fuga ao tormento.
Sublinhados
Palavras – “As palavras, por maior que seja o seu conteúdo, não têm peso, sustentam-se de aparentes levezas, da aragem dos êxtases.”
Mistério – “Nem sempre o universo do homem se pode resumir ao encontro com a razão, na equação entram outras incógnitas, indecifráveis e misteriosas.” 
Faltas – “O que mais há na terra é paisagem e o que mais falta é o amor.”
Escrever – “Nenhum escritor escreve sobre acontecimentos insignificantes, procura sempre o lado sombrio, sujo, sanguinolento, colérico e escondido do Homem; descreve os campos de batalha onde se fuzilam os inocentes e assinam acordos de paz com os generais; o artífice da palavra relata, com a emoção de que é capaz, a loucura dos heróis, o medo dos cobardes; leva-nos até aos que jazem, na agonia da morte, debruçados sobre a terra que lhes escuta o lamento; faz-nos tropeçar nos corpos dilacerados que se espalham sobre os degraus dos edifícios em ruínas.”
Amor – “O amor é um fenómeno muito mais complexo que a morte; enquanto um regenera, o outro remete para o esquecimento.”
Vida – “Mesmo a vida mais verdadeira não passa do resultado do acaso, a que só a fé dos homens confere normalidade.”
Gerações – “O mundo acaba apenas para velhos que já não são capazes de se transformar, continua para os jovens generosos e sonhadores, que precisam de mudança.”
Futuro – “Nada, nada mesmo, obedece à lógica; apenas a aventura, o perigo, o risco, o sucesso imprevisto comandam o futuro.”
Castigo – “Os castigos são sempre subjectivos. Dependem de quem está no poder. Herói se vencer, traidor se for derrotado.”
História – “A história despreza os seus actores, reescreve-lhes o drama a seu bel-prazer; a qualquer instante pode matar num jogo de contradições, de paradoxos, de ironias, de injustiças; oportunista, caminha sobre uma estrada de cadáveres.”
Guerra – “A guerra não distingue os homens; tanto se lhe dá que sejam honestos ou assassinos, jovens ou velhos, pouco lhe importa que se encontrem exaustos ou frescos. Aliás, a violência tem especial predilecção pelos mais incautos, pelos mais fracos.”
Actor – “Apenas quando encarnam personagens que um qualquer dramaturgo inventou, os actores são belos, sedutores, insuspeitos, assim que abandonam o palco e a ribalta regressam à miserável condição humana que os agasalha.” 
Pátria – “Para que precisamos de nações? Os cidadãos precisam é de paz!”
Povo – “A história dos povos tem as suas regras, o seu tempo lento, mas as mudanças são muito mais definitivas quando a violência da guerra se torna conselheira da razão e das emoções.”
Trincheira – “Nas trincheiras, sempre morreram os jovens crédulos, cadáveres  condecorados com a crueldade do martírio. Indiferentes à hecatombe, os proprietários da pátria, latifúndio com milhares de hectares, que fazem crer ser também nossa, oferecem-nos o privilégio de lhes amanharmos o solo, de lhes produzirmos a riqueza.”
Horizonte – “A dimensão dos homens vê-se para onde olham, se para o umbigo, se para a montanha.”
Ambição – “Os homens, quando guiados apenas pela ambição, perdem a noção da realidade, escutam o umbigo quando tudo à volta se desmorona.”

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

História a partir de "Poesia de Angola" (um livro que não estava perdido mas que foi reencontrado)

Há uns anos – bastantes, talvez 15! –, a Adelina foi minha aluna numa disciplina em que se estudavam as literaturas africanas de expressão portuguesa. As aulas passaram por autores como Francisco José Tenreiro, Pepetela, Baltasar Lopes, Manuel Rui, entre muitos outros (pois os alunos puderam ainda escolher autores, lê-los e trabalhá-los). E também por contos tradicionais africanos. E ainda por poemas diversificados (quanto às épocas, às nacionalidades dos autores e aos temas).
A Adelina deixou-se levar pelo entusiasmo com que se falava de todas estas coisas e, um dia, trouxe-me um livro para eu ver. Era Poesia de Angola (Luanda: Ministério da Educação e Cultura, 1976). Era também a poesia da sua Angola, das suas raízes. Perante o meu interesse, deixou-me ficar o livro para ler. A título de empréstimo, claro.
No entanto, as aulas acabaram e eu deixei aquele estabelecimento de ensino. Perdi o contacto da Adelina e o livro, depois de lido, foi repousando, à espera de um encontro casual ou de qualquer outra possibilidade que o levasse até à origem.
Passaram anos. Um dia, no Centro de Saúde de Palmela, por mera coincidência, encontrei a Adelina. Houve troca de contactos e conversa sobre o livro. Havíamos de ter um encontro e a devolução seria efectuada.
Mais um ano passou, no entanto. E, numa manhã de Dezembro passado, lia o seguinte mail: «Caro João, será que se lembra de mim? tudo bem? Daqui Adelina, sua ex aluna (…). Estivemos juntos no hospital de Palmela há tempo. Sim, a aluna que há mais de 12 anos emprestou-lhe um livro de poemas de escritores angolanos, relíquia do meu adorado e falecido pai. Por favor e, encarecidamente, peço-lhe de volta o meu livro. É exactamente nesta quadra festiva que que mais falta sinto dele, gostaria de poder dedicar ao meu filho os belos poemas que o meu estimado cota recitava em família. Por favor joão da-me este presente de Natal.”
Senti a urgência de lhe devolver o livro. Palavras tocantes, sentimentos, poemas… tudo se misturava. Tivemos encontro marcado para antes do Natal. Impossível, por posteriores compromissos dela.
Remarcámos e encontrámo-nos hoje, com a alegria de qualquer reencontro, acrescida do motivo. Fiquei a saber que os pais dela se tinham conhecido através da poesia - o pai recitava poemas para a mãe. Depois, o pai lera-lhe poemas de autores angolanos e oferecera-lhe o livro. Agora, com um filho de 10 anos, queria ler ao rebento os poemas do encantamento que o pai lhe transmitira. Agarrou o livro como a melhor prenda. Ou como a tábua de salvação de uma viagem pelo imaginário. Ia cumprir-se a tradição. Ia cumprir-se o encontro com as raízes, a identidade. Fiquei feliz pelo reencontro e por esta história. Vulgar, eu sei (há tantos livros "desaparecidos" e, por vezes, reencontrados!...). Mas forte!
Poesia de Angola tem prefácio assinado por António Jacinto, à data Ministro da Educação angolano, que assim fazia valer a força dos poetas do seu país: «Literatura da clandestinidade, cantada na clandestinidade, ressurge, à luz clara do dia, nas Escolas. Literatura de revolta, de afirmação combativa, de luta, de guerrilha, irá cumprir uma missão didáctica. (...)"
Esta era apenas uma impressão. O livro pretendia fazer face ao programa de Literatura Angolana, dividindo-se em três partes: "Poesia tradicional", "Precursores da poesia angolana" e "Geração moderna (anos 40-70)". Quem passava por estas páginas? Um povo e uma identidade, é claro. A tradição, também. E, entre os precursores: José da Silva Maia Ferreira, J. Cândido Furtado, Eduardo Neves, Cordeiro da Matta, Lourenço do Carmo Ferreira e Jorge Rosa. No período dos anos 40-70 do século XX: Tomás Vieira da Cruz, Maurício de Almeida Gomes, Aires Almeida Santos, Viriato da Cruz, António Jacinto, Agostinho Neto, Tomás Jorge (filho do citado Tomás Vieira da Cruz), Alda Lara, Alexandre Dáskalos, António Cardoso, Arnaldo Santos, Costa Andrade, Ernesto Lara (Filho), Henrique Guerra, João Abel, Deolinda Rodrigues, Emanuel Corgo, Nicolau Spencer, Ngudia Wendel, Rui de Matos, Sá Cortez, Joffre Rocha (pseudónimo de Roberto de Almeida), Ruy Duarte Carvalho,João Maria Vilanova, David Mestre, Manuel Rui Monteiro, Jorge Macedo, Samuel de Sousa e Adriano Botelho de Vasconcelos. Acima de três dezenas de nomes, pois. Que cantavam a guerra, o amor, a infância, o combate, o lirismo. Poesia, é evidente.