Mostrar mensagens com a etiqueta mar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta mar. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 17 de março de 2021

Raul Brandão: o mar como paleta



"Quando regresso do mar, venho sempre estonteado e cheio de luz que me trespassa". Quem assim escreve é Raul Brandão em Os Pescadores (1923), livro de descrições e narrativas, de reportagens e de memórias, "apontamentos rápidos" num cenário apelativo - "esta paisagem - mar, rio e céu - entranhou-se-me na alma, não como paisagem, mas como sentimento", confessa, redesenhando o universo numa quase trindade. 

As recordações infantis não andam arredias quando do mar e dos homens se fala, pois conhecer as pessoas ligadas ao mar, suas forças e fraquezas, não lhe é tarefa difícil - "sento-me nos degraus da minha velha casa e sei a vida toda desta gente". A vetusta idade da casa deixa transparecer a figura do avô, personagem a quem dedica o livro e de quem Brandão relata uma morte eufemística: "Meu avô materno partiu um dia no seu lugre; minha avó esperou-o desde os vinte anos até à morte, desde os cabelos loiros que lhe chegavam aos pés, até aos cabelos brancos com que foi para o túmulo".

Toda a escrita em Os Pescadores é uma desnudação do mar, dos mais diversos ângulos, incluindo o humano. Importante quanto aos pescadores é a referência ao nome de muitos deles, sinal da proximidade estabelecida, para além de citar muitos nomes de barcos, o instrumento de trabalho que os simboliza. É com carinho que os homens do mar são tratados, por vezes revelando-lhes uma certa inocência, a denotar uma relativa fragilidade. Com eles, estão sempre as mulheres, repletas de predicados abonatórios, destacando-se o trabalho e o papel que desempenham, mas também a tragédia que lhes está cometida ao terem de aguentar em terra todos os desgostos de que o mar é responsável. Ao mesmo tempo que o mar é a fonte da inspiração máxima para escrever a paisagem, é também a ameaça permanente, a morte liquefeita.

Em defesa destes homens e mulheres, é criticado um certo selvagismo existente no universo da pesca: pelo Estado, ao abandonar as populações à sua sorte; pelos proprietários que vegetam na capital, alheios ao sofrimento; pelo lucro fácil dos industriais, ao desprestigiarem a pesca artesanal, gerando desequilíbrio na Natureza - "cultivar o mar é uma coisa - é ofício de pescadores; explorar o mar é outra coisa - é ofício de industriais". 

As alusões à pintura e à tela são vastas. "O que eu queria dar só o podem fazer os pintores", escreve. As duas cores mais utilizadas são a azul e a verde, a primeira em quantidade maior, ambas para a qualificação do mar e da terra, vestidas de imensas tonalidades. Mas muitas outras cores surgem no espectro brandoniano, numa paleta inesgotável nas combinações. "Tenho a alma a escorrer tintas estranhas", regista. A aproximação a Setúbal é um exemplo: “onde o mar atinge a perfeição é em Setúbal. Em Setúbal é imaterial. Sonha ao pé da estrada que vai a Outão, e reflecte na água cismática a sombra avermelhada dos montes, a grande curva voluptuosa com a Arrábida por pano de fundo. Ali sente-se que a água anda presa à baíazinha, a Outão e à serra. Contemplam-se e não se podem deixar. O mar não tem consistência: não é o verde do norte, não é o caldo azul do Algarve - é poeira e luz.”

Datado de 1923, Os Pescadores mereceu quatro edições durante o primeiro ano. Razões favoráveis são a fácil leitura, a galeria de tipos e de vistas, a proximidade humanista à epopeia destes homens e mulheres e a sensibilidade pictórica na transposição para a literatura.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 581, 2021-03-17, p. 10


quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Em dia de Fernando Pessoa (7), 82 anos depois da partida



"Mar Português", um dos mais extraordinários poemas em língua portuguesa. Na loja do "Mundo Fantástico das Conservas Portuguesas", em Lisboa.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Tróia e a subida do nível do mar



O testemunho de Tróia na subida do nível do mar nas páginas do Público de hoje (13.Dez.2016, pg. 26).

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Sobre "Os últimos marinheiros", de Filipa Melo



Magnífica reportagem, é o mínimo que se pode dizer do livro Os últimos marinheiros, de Filipa Melo (Col. “Retratos da Fundação”. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015), uma reportagem que mistura o retrato, a informação, o sentimento, as vozes, a opinião, em que não se apagam os afectos de quem narra. Lê-se o título e percorre-nos uma sensação de fim de ciclo ou de final de história, não porque um ou outra se cumpram, antes porque os tempos são o que são, antes porque a relação de Portugal com o mar, sendo geográfica, tradicional e histórica, é também paradoxal. É assim que sucede com Os últimos marinheiros, título a cheirar a nostalgia, a barcos no cais, a contemplação do mar e das vidas.
O contado resulta de duas viagens a bordo: uma, em 2009, no “Port Douro”, navio de carga da Portline Bulk International, em circuito entre Lisboa, Leixões, Caniçal e volta; outra, em 2015, no “Neptuno”, navio de pesca de arrasto, ao largo da Figueira da Foz. Ao longo das duas viagens, Filipa Melo conta as especificidades de cada um dos navios, esclarece muito do vocabulário náutico, ouve as personagens reais com quem viajou, conta-lhes e deixa que elas contem as suas histórias, dá nota das dificuldades e da camaradagem na companha, enquanto o leitor vai entrando nesse universo, quase integrando a tripulação ou, pelo menos, com ela confraternizando também.
São retratos de descrição do estado das coisas ou que favorecem uma leitura quanto a esse estado das coisas, essa (suposta, talvez obrigatória, talvez frágil) ligação de Portugal com o mar. Logo no início do livro, uma verdade que nos flagela os sonhos: “Em Portugal, os homens do mar estão em vias de extinção, ou quase”. E, dois parágrafos adiante, a crueza: “Inclinados perante a Europa, virámos as costas ao mar. País de marinheiros? A actualidade do nosso imaginário mítico marítimo dissolve-se no desprezo colectivo pelo mar. Estendidos nas praias, vemos passar navios, ao longe, cada vez mais ao longe. O mar não existe nem sequer como conceito do poder da nação.” Fortes estas imagens! Logo associo ao nome de um restaurante lisboeta que, perante a vista que se esparrama sobre o Tejo, não foi baptizado de forma estranha: “A ver navios”. Afinal, a poesia da saudade e dos longes que uma frase contém também pode esconder a face do desprezo… Quarenta páginas andadas, depois de relatos e de vivências, a mesma conclusão: “O declínio do nosso sector das pescas acompanha a tendência da maioria dos países com tradições piscatórias. Mas a falta de interesse dos portugueses pelo mar como activo nacional importante diz mais da difícil gestão dos nossos imaginário simbólico-poético e herança histórica e da ainda mais difícil distribuição de estatuto social. Se a nação fosse de marinheiros, com certeza a mais-valia das pescas ficaria no sector. Não é de todo o que acontece por cá.” Que dura conclusão para António Nobre, que, hoje, não poderia convidar Georges a vir visitar o seu “país de marinheiros”!
Ao longo de setenta páginas, vamos convivendo com portugueses “cuja principal fonte de sustento ainda é a navegação no mar”, homens e mulheres que “estão acostumados ao horizonte que se eleva, permanece em cima por segundo e volta a mergulhar. Uma vez, outra, outra, outra. Alguns, mesmo nos momentos mais difíceis, mantêm a placidez da gaivota, pousada sobre a imensidão da água como se de um banco de jardim se tratasse.”
Pelas histórias reais que Filipa Melo vai registando vai passeando também a literatura, com incursões de Conrad, de Pierre Loti, de Fernão Mendes Pinto, de Hemingway, de Camões, de Antero de Quental, de Sérgio Godinho, de Raul Brandão, de Baudelaire, de António Vieira, de Álvaro de Campos, de Yukio Mishima, de Ternazi, de Jorge Amado e de Júlio Verne, havendo ainda lugar para o romanceiro chegado através da “Nau Catrineta”, segmentos de obras de ficção, de poesia ou de relatos, que sustentam a grandeza do que é a relação do homem com o mar (com pena de que não tenha sido trazido também o nome de Bernardo Santareno a partir das suas crónicas de Nos mares do fim do mundo). Nessas histórias reais, os entrevistados falam do que sabem – da família, do mar, dos seus sonhos e de como chegaram ao mar, das aventuras e perigos passados, das suas leituras, das epopeias de que eles são heróis. E dão-se-nos, entre muitas, as experiências de Cristina Alves, a mulher que tem histórias bem dispostas para se inserir numa comunidade que era apenas masculina, ou a do sesimbrense António Rocha, cozinheiro de bordo, com uma história de vida que dava um livro…
Viajando num navio de carga ou num navio de pesca de arrasto, Filipa Melo é sobretudo sensível à experiência humana perante os oceanos – “O denominador comum das histórias e casos de vida que reproduzo ao longo deste livro é a necessidade de ajuste, mais ou menos voluntário, mais ou menos violento, do homem ao ritmo do mar.” E, mesmo depois de realizadas as viagens, a vida das personagens foi seguida, havendo a preocupação de localizar no presente mesmo aqueles com quem viajou em 2009.
Neptuno, o deus romano dos mares que dá nome ao navio da experiência de 2015, terá recebido bem este retrato em que o mar se destaca não só pela matemática da lonjura e do infinito, mas também por ser respeitado, pois, como confidencia Telma Cunha (que era oficial-imediato em 2009 e agora é capitã e também tem o hábito de frequentar o festival poveiro “Correntes d’Escrita”) sobre o mar: “Pode estar num momento muito calmo e, logo a seguir, ficar todo trapalhão. Dentro do navio, sente-se sempre, a toda a hora, a imensidão dele à nossa volta. É esmagador, não nos podemos fiar.”

Sublinhados
Mar – “O mar tanto oferece, tanto ruge, segundo leis desconhecidas. Despreza mitificações e romantismos, faz pagar caro os despiques, exige submissão absoluta. Se ele é a religião da Natureza, a poucos homens é concedida a verdadeira graça do culto.”
Descobrir – “Só se descobre aquilo que já existe.”
Olhar – “Cada um olha para o mar da maneira como olha para dentro de si mesmo.”

sábado, 20 de setembro de 2014

Para a agenda - Dia Mundial do Mar



O Dia Mundial do Mar, em Setúbal. Seminário, visitas a embarcações (e que embarcações!!!), exposição de bd... Quando tanto se fala do mar e do alargamento do território português sobre o mar; quando se sabe que o mar é parte indispensável da identidade lusitana... A não perder!

sábado, 2 de novembro de 2013

Máximas em mínimas - Katherine Mansfield


Partilho algumas máximas, depois de ler o Diário, de Katherine Mansfield, em tradução de Fernanda de Castro (Col. “Contemporâneos”. Porto: Livraria Tavares Martins, 1944).

Criação – “Serei eu capaz de exprimir algum dia o meu amor pelo trabalho, o meu desejo de perfeição, a minha ânsia de um labor mais consciencioso? Serei eu capaz de dizer esta paixão que sinto – esta paixão que substitui a religião, porque é a minha religião… que substitui a companhia dos outros, porque sou eu que crio os meus companheiros… que substitui a vida, porque é a própria vida? Sinto-me às vezes tentada a joelhar diante do meu trabalho, a adorá-lo, a prostrar-me, a ficar um tempo infinito em êxtase ante a ideia da criação. (31 de Maio de 1919)”
Diário – “Tenho de pôr o meu diário em andamento e depois tenho de conservá-lo em dia. Mas serei eu capaz de ser honesta? Se mentir, esse diário não servirá para nada. (Fevereiro.1921)”
Honestidade – “A honestidade (porque será?) é a única coisa que me parece mais preciosa do que a vida, do que o amor e do que a morte. Só ela permanece. Acreditem-me! Feitas as contas, a verdade é a única coisa que merece ser possuída… A verdade é mais comovente, mais alegre e mais ardente do que o próprio amor… Tudo acaba por nos abandonar mas ela não pode trair-nos. (Setembro de 1919)”
Mal – “Quando um mal está diagnosticado, qualquer demora que atrase o esforço para curá-lo causa um enfraquecimento fatal. (…) Quando se é negligente, as más ervas pululam. (18 de Outubro de 1920)”
Mar – “O mar, aqui, é mar verdadeiro. Encapela-se, levanta-se e torna a cair com um barulho estrondoso, seguido de um longo rolar macio; por vezes, dir-se-ia que tenta escalar o céu e vêem-se os barcos empoleirados nas nuvens como querubins voadores. (22 de Maio de 1918, em Looe, Cournouailles)”
Morte – “Como seria intolerável morrer deixando apenas fragmentos, esboços, nada de verdadeiramente acabado! (19 de Fevereiro de 1918)”
Partir – “Cada vez que abandonamos um sítio qualquer deixamos atrás de nós qualquer coisa de precioso que não deveríamos matar mas que morre. (9 de Fevereiro de 1922)” (Katherine Mansfield. Diário. Col. “Contemporâneos”. Porto: Livraria Tavares Martins, 1944, pg. 256)
Representar – “Todos nós começamos por representar um papel e, quanto mais perto estamos do que desejaríamos ser, mais perfeito é o nosso disfarce. Por fim chega o momento em que já não representamos; este momento pode mesmo colher-nos de surpresa. Então, contemplamos, talvez com espanto, a nossa bela plumagem, que já não é de empréstimo. Os dois aspectos confundiram-se: o primitivo e este; representar, agora, é agir. (24 de Novembro de 1921)”
Ser – “Para fazermos seja o que for, para sermos seja o que for, precisamos de ser inteiros, de fortificar a nossa fé. Um ser desunido não pode fazer nada de jeito. (1 de Fevereiro de 1922)”
Sofrimento – “Não há limites para o sofrimento humano. Quando se pensa ‘Agora toquei o fundo do abismo, agora não posso descer mais fundo…’ – eis que descemos mais, ainda mais e assim até ao infinito. (…) O sofrimento não tem limites, é a própria eternidade. (…) O sofrimento pode ser vencido. (…) Temos de nos submeter. De não resistir. De o acolher. De nos deixarmos submergir. De o aceitar plenamente. De fazer da dor uma parte da vida. Tudo o que na existência verdadeiramente aceitamos sofre uma transformação. Assim, o sofrimento deve transformar-se em amor. (14 de Dezembro de 1920)”

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Para a agenda: "As idades do mar"



Está quase a terminar a exposição "As idades do mar", na Fundação Calouste Gulbenkian, que reúne cerca de uma centena de obras sujeitas ao tema do mar, repartidas por seis áreas: "A idade dos mitos", "A idade do poder", "A idade do trabalho", "A idade das tormentas", "A idade efémera" e "A idade infinita". São obras vindas de várias partes do mundo, passando por várias épocas, numa junção rica, forte, intensa. Lá figuram também portugueses, entre os quais o setubalense João Vaz, com duas telas.
Uma boa e plural antologia sobre o mar!
Estive lá ontem. E não pude deixar de me lembrar de uma citação de L. S. Lowry, de 1968, numa entrevista televisiva (Tyne Tees Television): "I have been fond of the sea all my life: how wonderful it is, yet how horrible it is. But I often think:... what if it suddenly changes its mind and didn't turn the tide? And come straight on? If it didn't stop and came on and on and on and on and on... That would be the end of it all." E ainda de um outro momento, de leitura, buscado no livro de um autor muito ligado à Gulbenkian e às suas bibliotecas itinerantes, Branquinho da Fonseca, quando, em Mar santo, pôs o velho lobo do mar "Ti' Bártolo" a dizer: "O mar nã tem amigos... O mar!... Mata a gente e nã tem crime... O mar engana Cristo!... Sabes lá o qu'é o mar!... Ah, mar santo!..." Duas citações sobre o mar, para os quadros das tormentas ou do trabalho, para a imensidão e o fascínio!
Uma exposição a não perder. Nos poucos dias que faltam. Até domingo, 27. 

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Máximas em mínimas (93) - Sabedoria e polimatia

“Vivemos tempos de muita informação, mas de escassa sabedoria. Tempos de polimatia. Neles assistimos, demasiadas vezes, a decisões insensatas, portadoras de consequências negativas para o longo prazo, apoiadas na ilusão arrogante de um conhecimento incapaz de compreender os seus limites e insuficiências.»

O parágrafo que transcrevo é a abertura do texto de Viriato Soromenho-Marques na última edição do JL (“O saber do mar”. JL – Jornal de Letras: nº 1103, 09.Janeiro.2013, pg. 33). Essa colaboração versa a questão do mar e da atenção que Portugal lhe deveria dar e vale a pena ser lida para que não se ande sempre a desprezar o óbvio. Mas esta abertura é oportuna também pelo momento em que estamos, porque ela vale para os cenários que nos têm sido apresentados, de contínuo desgaste, de desaproveitamento, de inconsistência, de arrogância... de falta de sabedoria. O mar será, apenas, um exemplo...

domingo, 30 de dezembro de 2012

Jorge Fonseca - Setúbal entre o rio e o mar nos séculos XVI-XVII



Dividido em quatro capítulos, este Setúbal – O porto e a comunidade fluvial e marítima (1550-1650), de Jorge Fonseca (Lisboa: Edições Colibri, 2012), constitui um excelente olhar sobre o quotidiano da população setubalense, sobretudo aquela que mantinha estreita relação com o rio e com o mar, nas mais diversas funções, no período abrangido. Muito embora o título delimite uma fatia cronológica (opção que o autor justificou com o facto de existirem “abundantes fontes notariais, indispensáveis à abordagem da vertente social” que pretendia destacar), certo é que são feitas referências a muitos antecedentes, deixando este estudo em aberto um retrato das condições que iriam de alguma maneira formatar a história de Setúbal no futuro.
São cerca de 140 páginas com abundante informação, partindo do que terão sido os primórdios desta região e seu consequente desenvolvimento, partes necessárias de contextualização para uma chegada ao período em estudo. A partir daí, o leitor vai convivendo com cidadãos comuns da urbe sadina, nas suas diversas tarefas e até na sua forma de viver, perscrutando-lhes maneiras de trabalhar, relações sociais, caminhos de negócios, ambiente familiar, num quase passeio pelo quotidiano que animava a faixa ligada ao rio e ao mar.
A pesca e a repercussão que o pescado de Setúbal teve no reino e no estrangeiro (de tal forma a sardinha de Setúbal tinha procura que, desde cedo, “para que não viesse a faltar sardinha para abastecimento da população local, os pescadores eram obrigados a reservar para os moradores parte da que capturassem”), o sal sadino e o horizonte geográfico a que se estendeu a sua comercialização (tendo havido uma época de apogeu, já designada por “idade do ouro branco”, e uma consequente decadência, a partir dos fins do século XVII, por motivos concorrenciais desde o estrangeiro), o valor e diversidade das transacções comerciais por via flúvio-marítima (aí entrando as madeiras, o vinho, as pedras de mó, o açúcar, o tráfico negreiro), a possibilidade que o mar e o rio ofereciam como forma de circulação (de tropas, de degredados, de comerciantes) ou actividades como a moagem e a construção naval constituíram razões fortes para intensas permutas, grandes viagens e para que o porto de Setúbal fosse “um dos mais activos e rentáveis do reino”, de tal forma que, em 1527, “o seu Almoxarifado era o segundo do país, abrigando uma das maiores comunidades humanas dedicadas às actividades marítimas”.
Tão intensa actividade não era feita sem o elemento humano, que merece assinalável destaque nesta pesquisa de Jorge Fonseca, seja do ponto de vista das relações sociais, não esquecendo as trocas culturais e as chegadas e partidas nos caminhos das migrações, seja da perspectiva das formas de viver, aí se incluindo informações como as das características das habitações, as relações familiares, a estrutura social, a vida espiritual, o associativismo, a propriedade e marcas demonstrativas da existência de uma sociedade “interessada na sua coesão, mas também na reprodução do modelo hierárquico”, responsável também pela “expansão e estruturação do próprio aglomerado urbano”.
É um livro útil, interessante e rico, com intenso recurso a fontes até aqui por explorar, num ritmo em que a análise das situações e os casos que fizeram o quotidiano da terra e das gentes se harmonizam de maneira a que o leitor assista ao filme de uma comunidade, a da margem do Sado frente a Tróia, que se constituiu “num dos exemplos mais paradigmáticos de uma sociedade fluvial e marítima no Portugal da época Moderna”. Setúbal – O porto e a comunidade fluvial e marítima (1550-1650) é um elemento indispensável para se estudar a identidade sadina, um título a não esquecer em qualquer pesquisa que relacione Setúbal com o Sado, com o mar e com a História.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto VI

* “Para conheceres as melhores mentiras de um país ou de um homem terás que te sentar longamente ao pé dele. Ninguém mente aos gritos, de longe.” (est. 2)
* “Não se aprende a ser sábio como se aprende a resolver uma equação. Nas duas aprendizagens exige-se atenção total, é certo, mas há no caminho para a sabedoria mais obstáculos, como se algures, deuses de voz rouca tivessem assumido o compromisso de não deixar a filosofia sensata ocupar por completo os homens. E talvez a causa seja puramente egoísta, pois se todos fossem sábios quem precisaria de templos?” (est. 7)
* “O mar não é como o fogo em que uma pequena parcela dá ideia do conjunto: o mar não existe em caixas, não se mantém intacto quando passa para um aquário. O mar não é apenas água salgada, é a sua grandeza que lhe dá o nome.” (est. 18)
* “A coerência de uma coisa, de um objecto ou de uma pessoa, dispensa a inteligência dos outros, dispensa ainda a investigação. (A excitação depende mais daquilo que está escondido do que do visível, toda a gente o sabe.)” (est 22)
* “A Natureza é mais ágil no ataque do que na defesa: constroem-se cidades em cima de florestas, mas debaixo das estradas e dos estabelecimentos comerciais há uma vida animal que persiste e faz ruído.” (est. 24)
* “De entre os vários reinos e géneros animalescos, os mamíferos são de longe os que melhor põem a funcionar a amizade; mas mesmo assim, nessa amizade, surgem avarias constantes.” (est. 31)
* “Se a ligação entre os homens fosse perfeita não teria existido a necessidade de inventar a linguagem. Falar é a maneira mais civilizada de marcar uma distância de segurança; os animais rosnam entre si, os homens elaboram sobre o clima e citam autores clássicos. Mas ambas as acções têm o mesmo efeito.” (est. 32)
* “Há no escutar, que parece acto passivo e pacífico, uma estranha parte activa, que são os olhos. Escuta bem quem tem olhos atentos.” (est. 39)
* “A timidez não é um valor benéfico no campo de batalha. Ou se avança ou se foge muito rápido, hesitações demoradas transformam-se habitualmente na última acção de um soldado.” (est. 46)
* “Cada homem tem, de modo telegráfico, as duas faces: tem medo e mete medo. Um homem unilateralmente corajoso não existe, a não ser que seja unilateralmente pouco inteligente.” (est. 53)
* “O que é contar uma história senão esticar a distância entre a primeira palavra e a última?” (est. 69)
* “O sítio essencial de um corpo é o sítio por onde se começa a morrer ou por onde a doença é inaugurada. Cada morte diz qual o bocado do corpo que afinal deverias ter defendido.” (est. 70)
* “Perigos nunca fizeram adormecer, nem cansadas ficam as pernas que fogem ou perseguem.” (est. 95)
* “No mundo, o sofrimento ensina mais do que cem professores bem-intencionados. (…) Os sofrimentos não são todos da mesma espécie animal: de uns, sais aperfeiçoado, de outros, canino e obediente.” (est. 97)
Gonçalo M. Tavares. Uma Viagem à Índia. Alfragide: Leya / Caminho, 2010.

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril: Portugal como "razão de esperança", diz Presidente da República

Do discurso do Presidente da República Cavaco Silva, pronunciado na Assembleia da República hoje:
SALGUEIRO MAIA – “(…) Como o retratou Sophia de Mello Breyner, Salgueiro Maia foi 'aquele que deu tudo e não pediu a paga'. Um exemplo notável para muitos Portugueses dos nossos dias, que tantas vezes cedem às seduções vazias e efémeras da sociedade de consumo e outras tantas vezes medem o valor dos homens pelo dinheiro ou pelos bens que ostentam. (…)”
36 ANOS SOBRE O 25 DE ABRIL – “(…) Neste dia, devemos ter presente um facto muito singelo: em 2010 completam 36 anos aqueles que nasceram em 1974. São mais de três milhões os Portugueses que não possuem qualquer recordação do que foi o 25 de Abril de 1974 porque, pura e simplesmente, não tinham nascido na altura. Vêem a democracia como um dado adquirido. (…)”
MEMÓRIA – “(…) Temos, pois, um dever de memória para com aqueles que nasceram já depois de 1974. Devemos ensinar-lhes o que custou conquistar a liberdade e que a defesa da liberdade deve ser um princípio de acção para os agentes políticos e para todos os cidadãos. (…)”
DESIGUALDADES - “(…) A sociedade portuguesa é hoje mais justa do que aquela que existia há 36 anos. No entanto, persistem desigualdades sociais e, sobretudo, situações de pobreza e de exclusão que são indignas da memória dos que fizeram a revolução de Abril. A sensação de injustiça é tanto maior quanto, ao lado de situações de privação e de grandes dificuldades, deparamos quase todos os dias com casos de riqueza imerecida que nos chocam. Na minha mensagem, no primeiro dia do ano de 2008, disse: “sem pôr em causa o princípio da valorização do mérito e da necessidade de captar os melhores talentos, interrogo-me sobre se os rendimentos auferidos por altos dirigentes de empresas não serão, muitas vezes, injustificados e desproporcionados, face aos salários médios dos seus trabalhadores”. Embora este meu alerta não tenha então sido bem acolhido por alguns, não me surpreende que agora sejam muitos os que se mostram indignados face aos salários, compensações e prémios que, segundo a comunicação social, são concedidos a gestores de empresas que beneficiam de situações vantajosas no mercado interno. (…)”
DÚVIDAS – “(…) Deixámos o império, abraçámos a democracia, escolhemos a Europa, alcançámos a moeda única, o Euro. Mas duvidamos de nós próprios. Os Portugueses perguntam-se todos os dias: para onde é que estão a conduzir o País? Em nome de quê se fazem todos estes sacrifícios? (…)”
PERIFERIA – “(…) No mundo actual, a periferia está onde mora a ineficiência do Estado, a falta de excelência no ensino, a ausência de conhecimento, de inovação e de criatividade, em suma, a periferia está onde mora o atraso competitivo. (…)”
MAR – “(…) Que justificação pode existir para que um país que dispõe de tão formidável recurso natural, como é o mar, não o explore em todas as suas vertentes, como o fazem os outros países costeiros da Europa? (…) Temos de repensar a nossa relação com o mar. Repensar o modo como exploramos as oportunidades que ele nos oferece. Importa afirmar a ideia de que o mar é um activo económico maior do nosso futuro. Setenta por cento da riqueza gerada no Mundo transita por mar. Devemos pois apostar mais no sector dos transportes marítimos e dos portos. Mas também no desenvolvimento de fontes marinhas de energia, de equipamentos para a exploração subaquática de alta tecnologia, de produtos vivos do mar para a biotecnologia ou das indústrias de equipamento, de reparação e de construção navais. Temos de incentivar a prospecção e exploração da nossa plataforma continental, cujo projecto de levantamento se encontra em apreciação nas Nações Unidas. (…) É essencial que criemos condições e incentivemos os agentes económicos a investir no conjunto dos sectores que ligam economicamente Portugal ao mar. (…) Sem querer transmitir a ideia de que o mar é a panaceia para todos os nossos problemas, entendo que o mar deve tornar-se uma verdadeira prioridade da política nacional. (…)”
PORTO, OUTRO PÓLO – “(…) Além da capital do País, o Porto é uma cidade que dispõe de todas as condições para ser um pólo aglutinador de novas indústrias criativas, ligadas às artes plásticas, à moda, à publicidade, ao design, ao cinema, ao teatro, à música e à dança, mas também à informática, à comunicação e ao digital. Não é de hoje a vitalidade cultural portuense, como não é de hoje a capacidade empreendedora das gentes do Norte. O Porto sempre se orgulhou da sua vida intelectual e esse orgulho é legítimo: das letras às artes plásticas, passando pela arquitectura, aí existe muito do melhor que Portugal fez nas últimas décadas. Uma aposta forte dos poderes públicos, conjugada com a capacidade já demonstrada pela sociedade civil relativamente a projectos culturais de referência, poderão fazer do Porto e do Norte uma grande região criativa, sinónimo de talento, de excelência e de inovação. Aí existe um tecido humano feito de gente activa e dinâmica, um espírito de inovação e de risco, um culto do que é novo e diferente. Há capital humano de excelência, há estabelecimentos de ensino e equipamentos de qualidade. Só falta mobilizar esforços para transformar o Porto e o Norte numa grande região europeia vocacionada para a economia criativa e fazer desse objectivo uma prioridade da agenda política. (…)”
ASSUMIR O PAÍS, ACREDITAR – “(…) É nosso o País. Temos florestas e temos o mar. Temos jovens talentosos que aqui querem viver. Temos cidades e regiões à espera de se afirmarem. É desta matéria-prima que se fazem os sonhos. No dia de hoje, celebramos a esperança dos que acreditaram, sobretudo em si próprios. Sem ilusões nem falsas utopias, devemos acreditar porque temos razões para isso. Há uma razão, acima de todas. Motivo de ser como somos, ela é a nossa maior razão de esperança. Connosco a temos, há muitos séculos, com ela vivemos desde que nascemos. Essa razão de esperança tem um nome: chama-se Portugal.”

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Depois de ler uma história em que o narrador é um cão...

O ponto de partida destas citações é o livro Sempre do teu lado – Carta de um cão, de Maria Teresa Maia Gonzalez (Lisboa: Verbo, 2008 - reimp.), uma história de amizade entre um cão (Félix) e o seu dono (Guilherme, entre os 13 anos e o casamento). A história é cativante e Félix, o narrador, no que será o seu derradeiro gesto, conduz o leitor pela vida adolescente de Guilherme.
Felicidade - “Há momentos (…) em que só nos faz falta quem ali está connosco fazendo-nos sentir que, finalmente, ficámos completos, inteiros e tão emocionados de felicidade que mal conseguimos respirar.”
Mar - “A seguir aos astros, o mar é a coisa mais interessante do Universo (…). O mar tem tantos segredos como uma estrela bem antiga.”
Milagre - “Um milagre é assim uma espécie de fenómeno inacreditável que se espera que aconteça sem se acreditar que vai mesmo acontecer. Mas (…) a quem não acredita não acontece nenhum milagre.”
Amor - “O amor só conhece uma regra: amar sempre.”

sábado, 16 de agosto de 2008

Azul & azul

"O mar, esse elemento que tão caprichoso se nos antolha e que todavia tão sujeito é ás leis pela Natureza dictadas, essa vastidão de aguas que umas vezes fascina como um abysmo e outras apavora como uma fera, mas que sempre nos causa admiração e sympathia, - o mar, estrada aberta á comunicação das terras e dos povos, esphynge que excita as elucubrações do philosopho e os devaneios do poeta, - o mar tem-se imposto desde remotas eras ao espirito do homem sempre que este se ha incontrado em presença das scenas maravilhosas de que as suas aguas são theatro."
in O Mar. Col. "Bibliotheca do Povo e das Escolas" (52). Lisboa: David Corazzi Editor, 1883.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Rostos (42)

Monumento ao Homem do Mar, de António Pacheco (2006), em Setúbal, junto do Sado