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sábado, 17 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (6)

 


Entre os leitores que escreveram a Sebastião da Gama a propósito do seu primeiro livro, Serra-Mãe, contam-se também os testemunhos de Hernâni Cidade (1887-1975), António Botto (1897-1959) e Bertil Maler (1910-1980). Em carta datada da “Ante-véspera de Natal de 1945”, Cidade (que também foi professor do jovem poeta) reagia, logo após a leitura do livro: “Agradeço-lhe a hora gratíssima que me deu à alma. À alma, muito mais do que aos sentidos, que a sua Poesia é toda tocada de transcendente e, em si, o folhado, como a maresia, como tudo com que encanta os sentidos a sua Mãe-Serra, tudo acorda ressonâncias fundas de alma eleita, da linhagem de Frei Agostinho, tão famintas de Infinito que só pairando sabem cantar, como as cotovias.” Uns dias depois, em 5 de Janeiro, era o poeta António Botto que enviava curta mensagem, a exigir mais do escritor que se iniciara: “Este seu pequeno volume de versos podia ser, se você quisesse, uma verdadeira grinalda de Poeta! Há umas notas muito bonitas, mas um propósito tão acentuado de brincadeira ou ironia, que parece uma rapaziada à margem dessa divina arte maravilhosa!...” Também o hispanista sueco Maler (que publicou estudos sobre literatura portuguesa), em 21 de Agosto de 1946, cerca de um mês depois de regressar de Lisboa a Estocolmo, enviava missiva para Sebastião da Gama, dizendo-lhe que lera o seu livro durante o período de descanso da viagem, fora da capital — “Li e reli os seus belos poemas. Não se devem ler no barulho das capitais, é a solidão da serra - que muito se parece ao campo sueco - que lhes convém.” E acrescentava: “A leitura do seu livro deu-me um verdadeiro prazer. Não só um prazer estético causado pela beleza da forma e do ritmo, mas ainda um prazer emocional. (...) A simplicidade sublime - algumas linhas até me deixaram uma impressão como se estivesse a ler os salmistas -, o sentimento da Natureza, a profunda religiosidade, eis o que retenho dos seus poemas.” 

Além das opiniões chegadas via epistolar, a imprensa foi um meio importante para a divulgação de Serra-Mãe, quase desde o momento em que apareceu — saído o livro em 18 de Dezembro de 1945, a recepção crítica manteve-se a um ritmo constante até Outubro do ano seguinte. Logo dois dias depois do seu aparecimento, Álvaro Salema (1914-1991), no Jornal do Comércio, na rubrica “Horizonte”, dizia da obra que vinha “revelar ao nosso estreito meio literário uma personalidade vigorosa de lírico e de místico, arrebatado em visões interiores e em ansiedades que constituem riqueza profunda de uma alma”, apresentando como sendo “um notável poeta este moço de alma perturbada, talento literário de forte inspiração, inquieto pesquisador de imagens.” Salema voltaria a escrever sobre o livro na Vida Mundial Ilustrada, em 10 de Janeiro seguinte, afirmando que “Sebastião da Gama é, inegavelmente, um artista de grandes possibilidades”, embora “o esplêndido ritmo de que se mostra capaz” se quebre “inutilmente, muitas vezes, por exageros de modernidade formal que pouco significam”.

O mês de Dezembro de 1945 viu mais duas notas de leitura a propósito de Serra-Mãe — sob o título “Carta ao Poeta Sebastião da Gama”, Luís Filipe Lindley Cintra escrevia no Diário Popular (26 de Dezembro): “Tu sabes que discordei do título do teu livro. Hoje arrependo-me. Fizeste bem em conservá-lo. Era preciso que todos soubessem que o Poeta em ti nasceu da Arrábida, dessa Arrábida de que tu fazes parte, que eu não posso conceber sem ti. (…) A Serra existe para ti como tu existes para a Serra. Tinha de ser assim.”; e, quase a terminar o ano, em 29 de Dezembro, José Noronha Gamito (1922-2011) apreciava no periódico setubalense A Indústria: “Em Sebastião da Gama, quando o tom descritivo aparece não é já aquele descritivo com fulcro no exterior, aquela conformidade primária com a perspectiva que obriga à narração daquilo que está patente aos olhos do corpo, mas antes o especial descritivo interior, que se desenvolve inteiramente sobre aquela outra paisagem íntima, subjectiva, complexo pessoal de imagens, sentimentos e ideias. (…) Sebastião da Gama descreve-nos a Arrábida espiritual, subjectiva, gigantesca e especial na intimidade de cada homem que sabe pensar o que vê.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1675, 2026-01-14, pg. 10.

Foto: Sebastião da Gama contemplando a Arrábida, 1943 (Arquivo Associação Cultural Sebastião da Gama)


quarta-feira, 9 de abril de 2008

La Lys, em 9 de Abril de há 90 anos… (2)

As perdas portuguesas em La Lys rondaram os 7 mil homens, tanto como cerca de um terço da força combatente portuguesa nessa data: 398 mortos e 6585 prisioneiros. A acrescer, mais ou menos um milhar e meio de feridos. Entre os prisioneiros, 233 viriam a morrer durante o cativeiro. Portugal mobilizara cerca de 100 mil homens para participar na Primeira Grande Guerra, deixando no local do confronto cerca de 8 mil. Ao longo dos 51 meses que a guerra durou (a contrariar as expectativas iniciais de que o conflito seria rapidamente resolvido), houve 65 milhões de mobilizados, 8 milhões e meio de mortos, 20 milhões de feridos e milhares de prisioneiros e desaparecidos. Números que impressionam nesse tempo entre o início de Agosto de 1914 e 11 de Novembro de 1918, data da assinatura do armistício.
Com a batalha de La Lys, o sector português foi aniquilado. Às perdas somava-se o cansaço pela longa permanência na frente, o abatimento moral, o abandono a que Lisboa votara o Corpo Expedicionário Português (CEP) e a falta de pessoal, essencialmente de oficiais.
De todas as figuras participantes em La Lys bem poderíamos falar de um herói colectivo, mas a história encarregou-se de encontrar um símbolo no soldado “Milhões”, de seu nome Aníbal Augusto Milhais, originário da Infantaria de Chaves. Em 9 de Abril, com uma metralhadora, em Huit Maisons, esquecendo o fogo inimigo, protegeu a retirada de muitos militares portugueses e escoceses.
Em Portugal, já não há combatentes da Primeira Grande Guerra vivos, mas muitos dos seus nomes são lembrados em placas toponímicas, em listagens locais, em pequenos memoriais, nas sempre procuradas avenidas “dos Combatentes” e nos monumentos aos “Mortos da Grande Guerra”. São marcas que vão ficando e bom seria que não passassem. Estamos, obviamente, longe do que aconteceu em França, onde não houve família que não tivesse um parente na linha de combate. Talvez por isso a memória seja lá mais viva e constantemente estejam a ser produzidos estudos sobre a Primeira Guerra Mundial. Lá mesmo, num inquérito a 1015 pessoas realizado no início de Novembro de 1998 para o jornal Le Monde e para France 3, a fim de serem indicados os acontecimentos marcantes do século XX, foram obtidos os seguintes resultados: 2ª Guerra Mundial – 62%; movimentos estudantis do Maio de 68 – 43%; queda do regime soviético – 38%; 1ª Grande Guerra – 35%, seguindo-se a construção europeia, a descolonização, o choque petrolífero dos anos 70, a crise de 1929, a revolução russa de 1917 e a revolução islâmica iraniana – dados que se tornam importantes uma vez que foram os inquiridos mais jovens a colocar a 1ª Guerra nos lugares cimeiros (a classe dos 15-19 anos atribuiu-lhe o 2º lugar).
A literatura memorialística e militar deu destaque ao 9 de Abril. Mas também a ficção não lhe foi alheia, tendo a data servido, por exemplo, para título de uma narrativa assinada por José Rosado e pelo capitão Silva Neves (Lisboa: João Romano Torres & Cª – Livraria Editora, s/d) e de uma peça de teatro assinada por António Botto (Lisboa: Livraria Popular de Francisco Franco, s/d). E ainda recentemente, em 2004, José Rodrigues dos Santos procedeu à recriação do sucedido em La Lys no seu romance A filha do capitão (Lisboa: Gradiva, 2004).
Muito embora a presença de Portugal nos campos da Flandres tenha ocorrido apenas a partir de Janeiro de 1917, certo é que o nosso país teve de combater também nas frentes de África, em Angola e em Moçambique. Das três participações ficaram relatos interessantes e sentidos, numa prática da literatura do vivido, do testemunhado, da memória, intensa, ainda que, hoje, quase só sejam lembrados os escritos memorialísticos de autores como Pina de Morais - Ao parapeito (Porto: Renascença Portuguesa, 1919) e O soldado-saudade na Grande Guerra (Porto: Renascença Portuguesa, 1921) -, André Brun - A malta das trincheiras (Lisboa: Guimarães & Cª, 1919) -, Augusto Casimiro - Nas trincheiras da Flandres (Porto: Renascença Portuguesa, 1919) e Calvários da Flandres (Porto: Renascença Portuguesa, 1920) - e Jaime Cortesão - Memórias da Grande Guerra (Porto: Renascença Portuguesa, 1919) -, apesar de muitos outros terem deixado o seu testemunho.