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terça-feira, 7 de abril de 2026

Os “Fuzilados de Setúbal” lembrados por Diogo Ferreira (2)

 


Todo o trabalho levado a cabo por Álvaro Arranja ao longo dos anos em torno dos acontecimentos ocorridos em Setúbal nas greves do início da República justifica que Diogo Ferreira abra esta obra, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres (editado pela Câmara Municipal de Setúbal, em e-book, podendo ser descarregado no sítio oficial da autarquia), com uma saudação “em memória do professor Álvaro Arranja”, justificando que foi o “historiador que contribuiu para que os trágicos acontecimentos narrados nesta obra fossem preservados na memória coletiva”.

Neste trabalho, a investigação vai até ao ponto de quase nos fazer a reportagem circunstanciada do que aconteceu naquele 13 de Março, bem como nos fornece uma completa identificação das vítimas, trabalho possível pela consulta atenta de arquivos, pela leitura comparada dos relatos e opiniões transmitidos pela imprensa da época, fosse ela local ou nacional, e pela procura de documentos relacionados com os eventos, por vezes com interpretações divergentes. Para o leitor, fica a fita do tempo, mais ou menos circunstanciada, ilustrada com recortes jornalísticos e com documentação fotográfica diversa, além do recurso ao traço do pintor Nuno David, que idealiza o cenário do acontecimento e faz corresponder a imagem aos retratos escritos então feitos. 

O leitor conhece os antecedentes, dados pelo ambiente vivido no seio da indústria conserveira, assim como contacta com o ambiente político na cidade — greve iniciada em 21 de Fevereiro, reclamando aumentos salariais, denunciando abusos sexuais sobre as jovens trabalhadoras e dando a conhecer as duras condições de trabalho; polémica que envolveu Ana de Castro Osório e Paulino de Oliveira na condenação desta greve e no esvaziamento do seu sentido, mesmo por interesses particulares, pois uma das fábricas pertencia a uma irmã de Paulino de Oliveira; descontentamento com a nomeação para administrador do concelho de alguém que ocupara o mesmo cargo na fase final da Monarquia; intensa acção dos representantes sindicais e da imprensa sindicalista. Depois, é apresentada a reconstrução dos acontecimentos, possibilitada pelo cruzamento das diversas informações publicadas, bem como são identificados os feridos e fornecidas informações biográficas sobre os mortos. Finalmente, o leitor contacta com os acontecimentos dos dias seguintes, sobretudo as manifestações de protesto “contra as fatalidades ocorridas à beira do Sado”, lê o relatório da sindicância realizada para averiguar as responsabilidades envolvidas nos trágicos acontecimentos, conhece a opinião complacente do Ministro do Interior António José de Almeida e as consequências resultantes do apuramento de responsabilidades.

Com este trabalho, divulgado quando passam 115 anos sobre os acontecimentos relatados, Diogo Ferreira vai mostrando como fez a investigação, não só porque indica as referências de que partiu, mas também porque mapeia os caminhos que percorreu, quer nas perguntas que motivaram a investigação, quer nas dúvidas que se mantiveram ao longo desse caminho, assumindo a descoberta de algumas respostas e a falta de algumas explicações. Aspecto notável é o cruzamento das informações, venham elas da imprensa (seja generalista ou politicamente comprometida, seja local ou nacional), partindo dos textos noticiosos (ora cautelosos, ora pormenorizados) ou dos artigos de opinião, ou venham dos documentos oficiais ou de relatos de memórias entretanto publicados ou recolhidos. Fica o leitor com a sensação de estar perante a reportagem que faltava, trabalho que noticia, questiona, comenta, lança pistas de interpretação e deixa espaço para a formulação de opinião, sendo-lhe ainda permitido conviver com algumas das fontes, visitando documentos importantes do processo, que ajudam a contar toda esta história.

A história, sobretudo a história local, muito se enriquece com esta investigação, Os ‘Fuzilamentos de Setúbal’ de 13 de Março de 1911 — a História de António Mendes e de Mariana do Carmo Torres, de Diogo Ferreira, um útil contributo para o avivar da memória, quer pela dimensão pedagógica sobre o método no trabalho do investigador, não escondendo as dificuldades do caminho e as pequenas descobertas que vão fazendo um todo, convidando mesmo o leitor a participar na investigação pelas perguntas que vai pondo, quer pelo conhecimento que traz e partilha. Uma boa forma, também, de assinalar os 115 anos!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1729, 2026-04-01, pg. 10.


quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (1)

 


Em 11 de Dezembro de 1945, uma terça-feira, Sebastião da Gama (1924-1952) escrevia uma carta para a namorada, Joana Luísa (1923-2014), comunicando-lhe a saída do seu primeiro livro, notícia não desprovida de entusiasmo: “Hoje devem dar-me a gravura e amanhã começam a fazer a capa. Só sexta ou sábado teremos o nosso livro. Meu Amor!...” Feitas as contas, o livro estaria pronto a 14 ou a 15 desse mês, ali bem próximo do Natal. Não sabemos exactamente se o livro ficou pronto num desses dois dias; mas, numa carta de 18 de Março de 1946, Sebastião da Gama lembrava à namorada: “Faz hoje três meses que a Serra-Mãe saiu a lume. Estou a lembrar-me da minha comoção quando eram já onze horas da noite, e a vi na montra da Portugália, 18 de Dezembro — havemos (sim, Amor?) de ensinar esta data aos nossos filhos.”

Desde essa data, o livro Serra-Mãe tem feito um percurso em louvor da Arrábida e o seu título tem servido outras artes — a Serra, pela força transmitida pela paisagem, é constantemente motivo artístico, na fotografia, na pintura (no início da década de 1940, Hélène Beauvoir registou o Portinho na tela, imagem muito divulgada nas publicações de carácter turístico da época; hoje, pintores como Rogério Chora ou Nuno David, entre outros, cultivam a Serra como tema), na música (lembremos a composição Caminhos da Arrábida, de Rui Serodio, de 2001, ou a de Agostinho Caineta, que tomou o epíteto de Sebastião da Gama para título de uma composição que a Banda Filarmónica Perpétua Azeitonense gravou em 2000) ou na escrita (são inúmeros os poetas que têm dedicado as suas métricas à Arrábida, como ainda recentemente aconteceu com Alexandrina Pereira, ao publicar o seu Arrábida - Entre a Cor e o Verso). Mas a designação “Serra-Mãe” foi ainda mais longe e emprestou o seu nome a uma marca de vinho (produzido na SIVIPA) ou, mais recentemente, à Unidade de Saúde Familiar azeitonense (USF Serra-Mãe).

A fortuna identitária desta designação metafórica e afectiva que Sebastião da Gama atribuiu à Arrábida levou mesmo a que o título da obra fosse considerado na toponímia (facto não muito vulgar, apesar de, em Portugal, serem conhecidos os casos de Os Lusíadas, em várias ruas de diversas localidades, e de Amor de Perdição, um largo no Porto), uma iniciativa apresentada por António Cunha Bento à Associação Cultural Sebastião da Gama e à Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão no início de 2016, dois meses depois aprovada pela Câmara Municipal de Setúbal (23 de Março), com descerramento de placa de identificação toponímica em 30 de Abril seguinte, assim se assinalando, na altura, os 70 anos sobre a publicação desta obra (sublinhando-se na placa tratar-se da “1.ª obra de Sebastião da Gama, 1945”). A designação “Rua Serra-Mãe” só podia ter aplicação num espaço que tivesse ligação com a Arrábida e com o poeta azeitonense, dando nome à rua por onde se acede ao Portinho da Arrábida, a partir da Estrada Nacional 379-1.

A construção da obra Serra-Mãe demorou quase tanto tempo quanto a vida do seu autor. Com efeito, a Arrábida desde cedo impressionou o jovem Sebastião da Gama — lembrava sua mãe, Ana Cardoso, que, ainda em criança, ele terá acompanhado alguém num passeio na Serra e, ao chegar, disse-lhe que fizera uma quadra: “Fui passear / à serra da Arrábia / e encontrei / uma mulher grávia.” Coincidência ou não, certo é que a ideia da serra e da maternidade se conjugariam uns anos depois para dar título a um poema e ao primeiro livro, como é certo que a Arrábida desde cedo pontuou nos versos de Sebastião da Gama — o mais antigo poema em que a menciona data de Julho de 1939 e, sob o título “Conselho”, recomenda ao irmão que fuja com a amada “p’ra serra Arrábida chamada / cuj’ alecrim belo perfume emana”... Ainda do mesmo ano, de Dezembro, é o mais antigo poema em que a serra surge como motivo — intitulado “Arrábida” (o nome da serra aparece apenas no título), a primeira estrofe diz-nos que “Portugal (...) / num local / ‘scondidinho / um canteir’ abençoado / tem, que pasma toda a gente”; na seguinte, há uma descrição da paisagem, como “linda serra, / a seus pés / estende-se o mar muito calmo / verde, azul e prateado”; a última faz a apologia da beleza da paisagem, recorrendo à contemplação e à comparação favorável à Arrábida, ao dizer que “tod’ a vista / que encerra / encanta muit’ e deslumbra; / do panorama a beleza, / que é mista / - mar e serra - / deixa Sintra na penumbra.”

*João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1652, 2025-11-26, pg. 10.


quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Alexandrina Pereira e Nuno David dão voz e cor à Arrábida



O livro Arrábida - Entre a Cor e o Verso, de Alexandrina Pereira, com ilustrações de Nuno David, recentemente publicado (com trabalho gráfico de Raul Reis), surge numa aliança de palavra e imagem, ambas criadas para servir a possível descrição dos sentimentos e emoções que a Serra consegue incutir-nos. Comecemos pelos dois primeiros textos, ambos premonitórios quanto ao que vamos encontrar — o de Alexandrina Pereira, que logo confessa resultarem os seus poemas de um “profundo amor pelos cantos e recantos de um lugar mágico e sagrado”, e o de Nuno David, que, num discurso anafórico, demanda, em oito perguntas, se “haverá outra serra” tão importante como a Arrábida pela sua localização e inspiração e como espaço de poetas e de santos, concluindo, de forma absolutamente decisiva: “Haverá? Não, não há!” Com certeza, os dois autores subscreveriam os três primeiros versos do longo poema à Arrábida assinado por Alexandre Herculano, essa referência da cultura portuguesa que bem viveu esta Serra, de dia ou de noite, a partir do Calhariz que o acolheu — “Salvé, ó vale do sul, saudoso e belo! / Salvé, ó pátria da paz, deserto santo, / Onde não ruge a grande voz das turbas!”

Aos referidos textos de abertura, seguem-se 30 poemas, que são outros tantos louvores da Arrábida, ora personificada, ora indescritível, ora magnífica na sua grandiosidade, sempre sugerindo e suscitando poesia, em viagem por caminhos, íngremes umas vezes, apaziguadores noutras, ao encontro da meditação, num trajecto em busca da palavra essencial, do sentido maior, da experimentação do que será uma via da transcendência, da oração, da fé.

Saltitam os versos por atalhos onde crescem o alecrim, a alfazema, o cardo, a esteva, o folhado, a giesta, a madressilva, o medronheiro, a rosa, o rosmaninho, a salva, o trevo ou a urze. Brotam as palavras por entre o respirar do arvoredo, olhando as aves, contemplando a vastidão, ouvindo o silêncio, com um fundo musical de vento e de cor, venha ela do rio ou da Serra, numa oscilação entre o azul e o verde. O discurso do espaço arrábido constrói-se sobre uma sinfonia de vozes rumorejantes — do mar, ali aos pés; do canto das aves, em escalas diversas; do sibilar da folhagem; do esgar sugerido pelo sorriso das flores; da fragrância mesclada no ar; dos esvoaçares que surpreendem ou levam o nosso olhar; das tonalidades de verde entre o azul da água e o azul do céu; dos passos que procuram, restolhando ou enxergando os degraus que conduzem ao céu...

A Serra afigura-se como um cenário grandioso (de dia ou a horas crepusculares, à luz do sol ou em diálogo com as estrelas), onde o poeta constrói o seu altar para a celebração da poesia, um pouco na esteira dos seus muitos antecessores, com os nomes de Agostinho da Cruz e de Sebastião da Gama invocados diversas vezes, num acto de reconhecimento dos percursores que foram nesta celebração da Arrábida como templo de contemplação.

Os seis desenhos que Nuno David apresenta nesta obra abrem espaço para este hino à Arrábida, seja pelas imagens captadas dos caminhos e da amplidão da Serra, seja por aquelas que nos remetem para os recantos onde se exprimem manifestações do sagrado. As tonalidades discretas escolhidas deixam margem para a diversidade de tons que a paisagem apresenta, ao mesmo tempo que o traço adensa a dose de mistério e de descoberta. O olhar é convidado a ir ao encontro do que é mais importante, deixando que o linear escuro tanto sustente a natureza, o chão ou as formas construídas, num jogo entre a perfeição advinda do pormenor e a vastidão a descobrir. Estamos perante um olhar que se deixa impressionar por matizes essenciais e primordiais para o retrato da Arrábida, espaço dominado pela luz e por variações de verde e de azul.

Temos assim o verso e a cor em deambulação por esta Arrábida interiorizada, em poemas curtos de Alexandrina Pereira e em telas fecundas do que é essencial devidas a Nuno David, todas as composições vibrantes entre a grandiosidade dos momentos que o olhar permite e os instantes que prefiguram a reflexão e a oração.

Num texto datado de 1949, publicado na revista Flama, Sebastião da Gama escrevia sobre a serra com quem o Sado se encontra: “O mais difícil não é ir à Arrábida (...). Difícil, difícil, é entendê-la (...).” E, depois, justificava esta dificuldade com a necessidade de cada um demandar, sozinho, “a religiosidade que dá à Serra da Arrábida elevação e sentido”, o espaço onde “é fácil estar a sós com Deus”, descobertas possíveis pela persistência e pelo silêncio que têm permitido à Serra o seu estado de “meditação que já dura há séculos”. E não deixa de ser oportuno mencionar o aparecimento desta obra de Alexandrina Pereira e de Nuno David quando passam os 80 anos da publicação dessa outra que, por empréstimo, deu nome literário à Arrábida — Serra-Mãe, de Sebastião da Gama, surgida em Dezembro de 1945, primeiro livro do poeta azeitonense, que já invocava Agostinho da Cruz para patrono...

Os autores de Arrábida — Entre a Cor e o Verso, ambos experimentados em escrever e pintar o panorama e o coração da Serra, conseguem levar-nos até essa via do conhecimento que nos exige, a cada dia, “entender” a Arrábida.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1607, 2025-09-24, pg. 2.


quarta-feira, 21 de maio de 2025

José-António Chocolate: o que baila num poema

 

 

Deverá o poeta tentar explicar o que perpassa pelos seus versos? Caber-lhe-á mostrar as lágrimas que podem correr de desalento ou de paixão no interior do poema? Serão necessárias mais palavras para explicar a palavra? Estas questões serão mera retórica, mas vão ao encontro do que José-António Chocolate se propôs na obra À Descoberta de um Verso (Colibri, 2025), um objecto com finalidade didáctico-pedagógica, deixando perpassar a poesia e debruçando-se sobre ela, trazendo momentos de transfiguração surgidos a partir das telas, que assumem novas interpretações.

Neste livro, poesia, crónica (por vezes, analítica) e ilustração entrelaçam-se, na proporção de um poema para um desenho e para um texto em prosa, funcionando este como descodificador de símbolos, a orientar o caminho, eivado de memórias, de reflexões, de chamadas de atenção, afinal, no cumprimento de uma intenção: sensibilizar para a poesia, “procurar conquistar o leitor para o gosto e uma leitura de poesia, através da desmistificação da palavra e dos versos, tantas vezes associados a alguém fora da realidade e pairando num ambiente lunático”, por um lado, e abrir a fonte do “entendimento da palavra poética”, por outro.

Fala-se, pois, de sensibilização para. E correrá o leitor os caminhos da produção poética, das motivações, do dizer, onde são sinais a força da palavra, a chamada do silêncio, o colorido das memórias, o efeito trazido pelo deleite e pela voluptuosidade de momentos ou de visões. Vê o leitor que todas as vidas se transformam em palavras — o lu(g)ar, simultaneamente conforto, protecção e tempo; a aldeia e as vivências da infância; a labuta e as dificuldades da vida; a paisagem entre a planície e o mar alentejanos; a brutalidade da realidade; o sorriso e a indignação; a sensualidade de momentos; as operações que se fazem com o tempo, às vezes longo, às vezes não mais do que instantâneo; o equilíbrio entre o eu que se expõe e o espelho que o olha; o pacto de quem se diz com a avaliação do caminho feito; a faceta sensorial que nos liga ao mundo; a casa que se constrói em torno do que se é; os sentimentos, por vezes contraditórios, ora libertadores, ora opressivos; a predestinação que quase nos impomos...

Pelos intervalos, passam as palavras de outros, como as perguntas do eterno questionador Pessoa ou o deslumbramento do caminho trazido pelo sevilhano Antonio Machado, passam os retratos dos mais antigos aconchegos, passam os reflexos deixados pelas experiências. Passa também a interpelação, exigindo a conivência do leitor, num trabalho que tem a preocupação de levar a pensar a poesia (ou de a construir), abrindo caminhos a leitores, independentemente da sua maturidade leitora, conjugando o poema (valorizado pela palavra essencial) com a prosa, que lhe giza um possível mapa e ajuda a entendê-lo, e com a arte do traço, outra forma de perscrutar o sentir do mundo, espelhado por autores como Carlos Pereira da Silva, Eduardo Carqueijeiro, Fátima Falcão, Paula Falcão de Lima e Nuno David.

Duas linhas de força correm em paralelo: a ideia de que o poeta não é um “lunático”, antes uma entidade que se expõe pela palavra, reinventando-a e constituindo-a como força metafórica; o princípio de que a poesia leva o seu criador e o seu leitor à descoberta, verdadeiro acto de fé que contempla a epopeia da simplicidade do quotidiano nesse trajecto da procura de quem somos. É este percurso da procura de sentido que José-António Chocolate nos proporciona, ora num acto de revisitação da sua própria poesia, ora com poemas novos, sempre tentando descobrir os seus versos ou dando-os a descobrir, contando histórias, contextualizando, apontando linhas de sentido ou de leitura, num trabalho que tem também a sua dose de didactismo e de desocultação do acto de poetar. É que a poesia é algo que adorna o mundo, assim a saibamos sentir — isso ensinou-nos Miguel Torga num livro de 1950 (que nem sequer é de poesia), quando construiu uma bela metáfora sobre o texto poético: “Poema é toda a página aberta diante de mim, caligrafada de esperança e de calma. Poema é o facho de claridade que incide sobre as coisas e os seres, acariciando com a mesma ternura inefável o bom e o mau, o perecível e o imperecível.” (em Portugal, 1950). O que é preciso então é partir... à descoberta de um verso e das suas cores!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1534, 2025-05-21, pg. 10.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Para a agenda: Conversa com vista para o Sado



O programa "Sextas Arte e Ciência", promovido pelo Synapsis, começa nova temporada com temas em torno do Sado, sob o sugestivo título "Conversa com vista para o rio". Os intervenientes convidados têm leituras próprias e vão partilhá-las: Alberto Pereira, Eduardo Carqueijeiro, Nuno David e Salvador Peres alimentam a sessão. Filmes, palavras e opiniões, com o Sado por fundo. Na Biblioteca Municipal de Setúbal, em 22 de Setembro, sexta, pelas 21h30. Para a agenda!

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Para a agenda: Nuno David guia a exposição



"Numa manhã perfumada de um dia qualquer" é o título da exposição de Nuno David patente na Casa da Baía, em Setúbal, desde 19 de Novembro, com termo anunciado para 8 de Janeiro. Se até lá ainda o visitante se pode deliciar com os traços e as paisagens de Nuno David, também pode, no dia que antecede o termo da exposição, em 7 de Janeiro, fazer o percurso das telas guiado pelo seu criador. Uma tertúlia cultural em torno da obra de Nuno David promovida por Synapsis que deve ir para a agenda!

sábado, 12 de novembro de 2016

Para a agenda - Nuno David e as manhãs perfumadas




"Numa manhã perfumada de um dia qualquer" é o título da exposição de Nuno David, que será inaugurada em 19 de Novembro, na Casa da Baía, em Setúbal, pelas 17h00. Pintor arrábido, Nuno David costuma enveredar por um traço repleto de matizes essenciais, quase tão primordiais quanto a Arrábida, ela mesma. A ver! Para a agenda!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

António Oliveira e Castro: "Tambwe" ou o mundo pelos olhos de Eugénio

O mais recente romance de António Oliveira e Castro, Tambwe – A unha do leão (Lisboa: Gradiva, 2011), com ilustrações de Nuno David, é uma história que prende o leitor ao trajecto de uma personagem como Eugénio, figura que, ora procura a morte, ora assume o seu trajecto sozinho, ora peregrina até às raízes. A história é intensa e o leitor é convidado a passar por paisagens diversas, europeias (Portugal, França) ou africanas (Angola), por corredores diversificados de uma sociedade que nem sempre se rege pelos melhores princípios, convivendo com figuras da baixa política, com revolucionários, com mercenários, e tendo momentos de paragem, também fortes, em pensares de tempos de solidão ou em reflexão com figuras que constroem e se alojam na identidade.
É uma história dramática, em que o narrador dialoga com o leitor, tentando convencê-lo da verosimilhança das situações e levando-o a pensar a actualidade, o papel da política, o encaminhamento do mundo, o ser cidadão. É uma história dolorosa, com desvios e demandas, mortes e utopias, caos e ordem, poesia e horror, em que a liberdade e a prisão coexistem e a fragilidade do mundo e dos sistemas é posta à prova. É a história de uma solidão sempre e sempre testada, numa fuga ao tormento.
Sublinhados
Palavras – “As palavras, por maior que seja o seu conteúdo, não têm peso, sustentam-se de aparentes levezas, da aragem dos êxtases.”
Mistério – “Nem sempre o universo do homem se pode resumir ao encontro com a razão, na equação entram outras incógnitas, indecifráveis e misteriosas.” 
Faltas – “O que mais há na terra é paisagem e o que mais falta é o amor.”
Escrever – “Nenhum escritor escreve sobre acontecimentos insignificantes, procura sempre o lado sombrio, sujo, sanguinolento, colérico e escondido do Homem; descreve os campos de batalha onde se fuzilam os inocentes e assinam acordos de paz com os generais; o artífice da palavra relata, com a emoção de que é capaz, a loucura dos heróis, o medo dos cobardes; leva-nos até aos que jazem, na agonia da morte, debruçados sobre a terra que lhes escuta o lamento; faz-nos tropeçar nos corpos dilacerados que se espalham sobre os degraus dos edifícios em ruínas.”
Amor – “O amor é um fenómeno muito mais complexo que a morte; enquanto um regenera, o outro remete para o esquecimento.”
Vida – “Mesmo a vida mais verdadeira não passa do resultado do acaso, a que só a fé dos homens confere normalidade.”
Gerações – “O mundo acaba apenas para velhos que já não são capazes de se transformar, continua para os jovens generosos e sonhadores, que precisam de mudança.”
Futuro – “Nada, nada mesmo, obedece à lógica; apenas a aventura, o perigo, o risco, o sucesso imprevisto comandam o futuro.”
Castigo – “Os castigos são sempre subjectivos. Dependem de quem está no poder. Herói se vencer, traidor se for derrotado.”
História – “A história despreza os seus actores, reescreve-lhes o drama a seu bel-prazer; a qualquer instante pode matar num jogo de contradições, de paradoxos, de ironias, de injustiças; oportunista, caminha sobre uma estrada de cadáveres.”
Guerra – “A guerra não distingue os homens; tanto se lhe dá que sejam honestos ou assassinos, jovens ou velhos, pouco lhe importa que se encontrem exaustos ou frescos. Aliás, a violência tem especial predilecção pelos mais incautos, pelos mais fracos.”
Actor – “Apenas quando encarnam personagens que um qualquer dramaturgo inventou, os actores são belos, sedutores, insuspeitos, assim que abandonam o palco e a ribalta regressam à miserável condição humana que os agasalha.” 
Pátria – “Para que precisamos de nações? Os cidadãos precisam é de paz!”
Povo – “A história dos povos tem as suas regras, o seu tempo lento, mas as mudanças são muito mais definitivas quando a violência da guerra se torna conselheira da razão e das emoções.”
Trincheira – “Nas trincheiras, sempre morreram os jovens crédulos, cadáveres  condecorados com a crueldade do martírio. Indiferentes à hecatombe, os proprietários da pátria, latifúndio com milhares de hectares, que fazem crer ser também nossa, oferecem-nos o privilégio de lhes amanharmos o solo, de lhes produzirmos a riqueza.”
Horizonte – “A dimensão dos homens vê-se para onde olham, se para o umbigo, se para a montanha.”
Ambição – “Os homens, quando guiados apenas pela ambição, perdem a noção da realidade, escutam o umbigo quando tudo à volta se desmorona.”

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Synapsis, em Setúbal

Synapsis é o nome de um novo grupo de “intervenção cultural e cívica” que vai apresentar-se publicamente na noite de hoje, no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal.
Música, poesia e pintura serão as três artes que vão integrar este programa, animado por Nuno David, Salvador Peres, João Completo, Alexandre Murtinheira, Diná Lopes Peres e Carlos Medeiros. Alguns dos temas musicais acompanharão poemas de David Mourão-Ferreira (“A Secreta Viagem”) e de Sebastião da Gama (“Quem me quiser amar” e “Soneto do tempo perdido”).

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Rostos (99)

"Adamastor", por Nuno David (proposta para ilustração de Os Lusíadas Manuscrito, em Setúbal, 2007)