Mostrar mensagens com a etiqueta conto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta conto. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Teresa Meireles e contos para levar no bolso (2)

 


Ideias importantes que perpassam pelas temáticas destes 101 Contos de Bolso, de Maria Teresa Meireles, relacionam-se com o comum que todos somos, num desafio à nossa forma de estar e de viver o mundo e à construção social em que estamos inseridos: convivem cenas de tédio de algumas vidas com os pequenos infernos que os outros acabam por criar ao minimizarem os efeitos provocados sobre a vida dos vizinhos (a situação da gaiola de periquitos que alimenta um dos contos é paradigmática deste abuso); há instantes em que surge a necessidade de degustar o tempo interior e de olhar o mundo (em torno de um chá, por exemplo) e outros que são ocupados por uma epifania contributiva da descoberta da nossa identidade; conflituam a forma plural de sermos, em que um sujeito se compõe de diversificados e antagónicos eus, com a culpa sempre atribuída aos outros, fruto de uma raiva e de um olhar de desprezo sobre o que nos cerca; viaja-se até à infância, em que se cruzam as crianças “adoráveis” (mas formatadas e intimamente pobres) com a ternura resultante de momentos tão memorizados como o acto de ter aprendido a contar pelos dedos da mãe; revisita-se a escola como espaço de convívio e de estranheza, resultante de fenómenos tão excêntricos quanto as aulas à distância no período da pandemia (e o que elas possibilitaram que se visse do desconhecido que todos mantemos) ou quanto a estranheza dos pais perante as atitudes dos filhos na comunidade escolar; ridicularizam-se as mitologias do quotidiano, expressas nas datas comemorativas que nada alteram quanto ao rumo ou ritmo das vidas e num duvidoso poder argumentativo em torno de um “achismo” desmesurado; ironiza-se sobre o absurdo, a superficialidade e as manias de algumas vidas e sobre os “homens das cavernas” que, por vezes, invadem os nossos espaços. Enfim, um leque vasto de quotidianos, retratos de um olhar sobre o mundo de forma crítica.

As histórias rápidas, depuradas, por vezes com final abrupto, inesperado, deixam o leitor a pensar, algumas a terminarem com uma pergunta retórica que incomoda ou com afirmações que avivam o sentido crítico das narrativas, pois, como é dito no conto em que se pretende pôr em causa os preconceitos dos olhares sobre geografias que nos são estranhas, “o contrário da realidade não é a irrealidade nem tão-pouco a ficção”.

Por estes contos passam duas fundamentais verdades que tecem os percursos de cada um: por um lado, a comodidade que vamos construindo num mundo muito próprio, pois “só vemos o que queremos ou podemos (que é uma maneira de dizer que todos vemos desequilibradamente, por excesso ou por omissão)”; por outro lado, a necessidade da reflexão e do olhar crítico sobre o nosso universo, pois “pensar agita por dentro e derrama para fora como leite em fervedor”.

Destes movimentos de oscilação, sai uma aprendizagem para que uma das narrativas nos convida: “a realidade é mais misteriosa e imaginativa do que qualquer estória que eu pudesse inventar.” Por isso, é que o derradeiro conto, “Parapeitos”, termina de forma peremptória: de peito assente no parapeito, a tia não se apercebeu dos factos que envolveram um pequeno pardal, mas a narradora relembra o sucedido, embora não o tendo compreendido - “Não sei o que aconteceu, ainda hoje não percebo, mas o pardal foi pulando, pulando, pulando até se acercar do vestido florido da minha tia e desaparecer por entre os seus seios para nunca mais ser visto - e a minha tia Graça nem deu conta do sucedido. Juro!” Este compromisso com a autenticidade, expresso numa exclamativa de juramento, serve para fechar o livro e para o leitor ser chamado a respeitar o pacto do narrador com a realidade.

Livro intenso, este, que mereceu o Prémio do Conto Manuel da Fonseca de 2022 e que nos desnuda perante as formatações e nos protege dos mecanismos que abalam e pautam a forma de se ser na nossa contemporaneidade, frequentemente desmontando convenções, outras vezes valorizando pequenos gestos do quotidiano, outras ainda levando-nos ao riso sobre nós próprios. Um bom convívio com o mundo que todos os leitores podem guardar no bolso...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1178, 2023-11-02, pg. 9

 

quinta-feira, 26 de outubro de 2023

Teresa Meireles e contos para levar no bolso (1)

           

O título diz tudo - 101 Contos de Bolso. A quantidade de textos e a extensão dos mesmos pode ser um convite para a leitura desta obra de Maria Teresa Meireles (a que foi atribuído o Prémio do Conto Manuel da Fonseca no ano passado, agora publicada pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém), onde quer que estejamos, cultivando o aproveitamento do tempo. Assim, nunca o leitor será defraudado pelas interrupções, salvo se elas decorrerem das corridas da imaginação, porque, como refere a epígrafe escolhida, de Lídia Jorge (no seu conto A instrumentalina), “um conto breve faz um sonho longo”. E este é o primeiro desafio que Teresa Meireles apresenta, ainda que através de palavras emprestadas - cada um destes “contos-de-bolso” cumpre-se com a conivência do leitor, levado a participar na história pela imaginação que o texto suscita. Se isto é verdade para qualquer obra literária, muito mais importante se torna quando os elementos fornecidos pelo narrador se pautam pelo minimalismo e pela rapidez narrativa...

Podemos assentar logo na primeira história que nos é apresentada, “Gostava de miniaturas”, uma quase-teoria da micro-narrativa, em que tudo o que rodeia e suscita a vida da personagem tem a ver com o minúsculo - dos brinquedos ao vestir, da alimentação aos livros preferidos, das memórias de infância até à vontade de imitar personagens diminutas, da profissão escolhida até ao objecto da sua investigação, do trabalho em torno de uma tese até à sua perda entre grãos de areia... Mas este conto é ainda importante pelas remissões que faz para o mundo da literatura, não só pelo entusiasmo e conhecimento que a personagem revela quanto a nomes que construíram a tradição literária do universo das pequenas coisas (Jonathan Swift, com Gulliver; Alexis Carroll, com Alice; Charles Perrault, com os seus contos), mas também porque deixa a porta aberta para a eventualidade de outras possíveis referências literárias a surgirem - e, de facto, elas visitam-nos a cada passo, chamadas a propósito de estabelecimento de relações ou de lembranças, vindas de variadíssimos universos - Pablo Neruda, Jane Austen, Karen Blixen, Rousseau, os irmãos Grimm, Simone de Beauvoir, Colette e também o referencial da Bíblia.

A entrada nos sucessivos contos abre as portas ao leitor daquilo que podem ser cenas dos quotidianos - casos da vida, em que interferem as nossas inseguranças, as nossas desistências, as nossas des-ternuras; histórias da vida, em que sobressai o valor do momento, o ímpeto da decisão ou as suas consequências, o convívio com os hábitos que nos vão fazendo, a inacessibilidade ao que o outro sente, a insistência na não-violação da privacidade e da intimidade.

A relação das personagens com o narrador vai variando ao longo dos textos, sendo mais frequente o distanciamento para a terceira pessoa, embora haja também muitos exemplos de narração na primeira pessoa, seja ela masculina ou feminina, por vezes mera testemunha do visto. O ambiente que rodeia as personagens decorre frequentemente da família, dando espaço para uma presença muito marcante dos avós e, por vezes, dos pais e do namorado ou marido.

Interessante é acompanhar o valor dado à expressão através da força da palavra nestes 101 Contos de Bolso, que ocorre através de múltiplas situações: a construção de neologismos (“termo-incompatibilidade” ou “verbotropismo” - fica o desafio para descobrirem os seus significados na tarefa de leitura); o louvor da língua, da fala e da comunicação, presentes, por exemplo, numa narrativa em que o assunto ronda uma contadora de histórias; a criação de situações do fantástico através do jogo de palavras (sugerido, por exemplo, através da imagem de uma hera trepadora e invasora) ou por via da riqueza imagética (como no caso do pardal que desapareceu entre os seios de uma tia de vestido florido); a valorização de uma pequena história como uma anedota; a articulação entre as palavras e a vida, numa interessante associação do que possam ser “conjugações irregulares”, vinda da incompatibilidade entre palavras etimologicamente próximas e semanticamente ligadas, como “cônjuge” e “conjugar”; a descoberta das mensagens constantes em cartas arrecadadas num sótão, enviadas pelo avô combatente da Grande Guerra, como possibilidade de imaginar o romance entre os dois apaixonados que se carteavam; a força de uma palavra no momento oportuno, como acontece no conto “O segredo”, levando a destinatária a vencer o medo e a aprender a crescer... enfim, um mundo de valorização da palavra e dos contextos que ela origina, uma homenagem também à língua que nos aproxima.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1173, 2023-10-25, p. 9

 

quarta-feira, 22 de dezembro de 2021

Torga e a homenagem a Garrinchas pelo Natal



Garrinchas povoa, dominante, “Natal”, de Miguel Torga (1907-1995), incluído em Novos contos da montanha (1944), uma das mais belas narrativas a propósito desta quadra, num trajecto em que se misturam a rudeza da vida e o carinho imanente do homem, a pobreza material e a riqueza espiritual.

Caminheiro que cruza o percurso da vida, saindo de Lourosa para aí tentar regressar após ter sulcado os penhascos da pedincha, passando por Loivos, Carvas, Fetais e Senhora dos Prazeres, Garrinchas, se é partidário de uma vida pincelada de relativo e obrigatório cirandar, gira sempre em volta do seu centro, num esforço de sacralização da terra-natal, buscando alimento (ou aquilo que lhe possibilite alimentar-se), embora à sua maneira. Pronto a aceitar tudo - “viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara” -, arrasta consigo a simplicidade dos ricos de espírito. É filósofo por via popular, muito presumivelmente homem de provérbios, mas sempre de resposta pronta para as aventuras e desventuras que lhe estão reservadas e com um pensar crítico sobre o que vê e sente.

Quando parece que vai desistir da luta com a serra por causa da neve, a história surpreende-nos com o desabafo consolador do “algodão em rama” e Garrinchas, “com patorras de elefante e branco como um moleiro”, conserva um misto de aspereza e de ternura - se bem que rude pelas brutalidades da vida, é, ao mesmo tempo, o retrato vivo da pureza que se reveste de branco para não destoar da neve.

Tendo já percorrido uma longa etapa (tem 75 anos), mantém-se como um penedo e admira, no meio da brancura da paisagem, os penedos “que lembravam penitentes”. Na verdade, Garrinchas aprende, em cada momento que passa, a lidar com a Natureza como se sua família fosse. Por isso, não conseguirá chegar à sua terra-natal para consoar - esse momento de comunhão e partilha acontecerá na capela, na solidão de uma noite serrana, não sem ter o cuidado de não gastar todos os fósforos que lhe restam (lembrando-se o leitor de idêntica noite passada pela “Menina dos fósforos”, essa com trágico final).

Garrinchas, criativo e religioso até ao âmago, arranja, busca, inventa companhia, procurando o centro do mundo, a origem dos espaços que percorre, numa capela que será o eixo gerador de vitalidade, o abrigo, com a Virgem e o Menino como companhia, já que convidou os dois para consoarem com ele, momento em que se distancia da vulgaridade para atingir o sagrado, o belo.

Se os milagres só acontecem com os simples e com os crentes, Garrinchas conseguiu ter o Natal, talvez o melhor Natal da vida que se habituou a conhecer. Para completar o trio, personifica-se em S. José, trazendo a santidade para a vida humana e vencendo a solidão do momento e aquilo que parecia ser uma quase profanação do lugar.

Lutador em extremo, acaba por transformar a viagem em oração e a paragem em paraíso. Eminentemente prático, recusa as ladainhas incompreensíveis porque a vida lhe parece a melhor credencial para a obtenção de espaços e momentos felizes.

Ao leitor nada mais resta do que aderir a esta personagem pela vertigem que ela causa, um todo, um eu cada vez mais sagrado e sempre próximo do imenso. Muito contribui para essa aproximação a escrita torguiana que alia a dureza da vida aceite, a aspereza da alma e o sentimento interior da personagem, numa audição do monólogo que Garrinchas entabula consigo mesmo, talvez para que seja compreendido e aceite.

Um dos mais belos contos de Natal na literatura portuguesa, este, que Torga nos legou!

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 759, 2021-12-22, pg. 2.


quarta-feira, 7 de julho de 2021

Matilde Rosa Araújo entre a verdade e a redenção (3)



O conto foi a tipologia literária que Matilde Rosa Araújo preferiu para o seu percurso de escritora, marcando todo o seu trajecto literário, opção justificada desde cedo: em 18 de Julho de 1944, Sebastião da Gama era o destinatário de uma carta de Matilde, que incluía alguns poemas anunciados como partes integrantes de um futuro livro, “Mar Alto” (que não viria a ser publicado), em que a preferência pelas histórias era registada - “Creio bem que o Mar Alto há-de ficar sempre numa gaveta à espera de maré. Prefiro publicar novelas que são menos eu. Tenho medo de que digam mal do mar alto porque dizem mal de mim.” E, uns meses depois, em Março de 1945, o poeta da Arrábida recebia nova carta, acompanhada de páginas do diário de Matilde, que proclamava, em 24 desse mês: “Eu vou fazer um conto quando tudo grita poesia. Mas a poesia não conta, fala sem dizer. E o conto conta, diz. (...) Eu tenho que dizer.”
Depois de se ter estreado com A Garrana em 1943, Matilde Rosa Araújo foi publicando contos em revistas diversas. Pela Páscoa de 1947, publicava Estrada sem Nome (Portugália), reunindo vários deles, depois de uma hesitação entre a conhecida editora da capital e a Coimbra Editora. Por todos passam vidas, num desejo grande de as contar, povoadas por crianças muitas vezes, mas sobretudo por personagens femininas - a solidão de uma professora (“Raquel, Raquel, Raquel”), o ciúme a atiçar o contrabandista e a faina dura de uma mulher que trabalhava para alimentar sete filhos de sete pais (“Papoila vermelha”), uma história de amor inventada entre solidão (“Catarina”), a viuvez de uma mulher que vira “barco sem vela” (“O marido que Deus tem”), a angústia perante o silêncio (“Atlântico”), a mistura dos sentidos e dos sentimentos (“Sala de espera”), a consciência do crescimento a partir do olhar sobre o corpo (“A menina das pernas grandes”), a ocupação do tempo e as distâncias sociais (“O aquário”).
A mais extensa narrativa assume o título do livro e surge pela voz de um narrador masculino, Manuel, em catorze partes. História contada em jeito de memórias ou de autobiografia, o relato de Nelo é uma entrada pela sobrevivência e pela descoberta do amor, redigida num momento de doença vivida em seis meses de hospital, forma que a personagem assume para se despedir de histórias do seu passado numa aldeia da zona monçanense e para encetar nova vivência do amor na capital, seduzido pela insistência da enfermeira que lhe vai lendo esses escritos um pouco às escondidas.
As vidas que perpassam por estes contos são marcadas pelo sofrimento e pela tristeza, pela doença e pelas dificuldades da vida, pela desprotecção e pela miséria, pelo trabalho infantil e pela solidão, numa permanente insatisfação medida na distância que vai entre a realidade e o sonho, muitas vezes com refúgio num imaginário salvífico, conjunto favorecedor de retratos de denúncia, intensos na estética neo-realista.
A aceitação do destino é bem descrita por Nelo: “A gente não sabe como as coisas começam, não. Primeiro são as folhas que caíram, a fazer remoinho. Depois sem mais começa o vento que até arranca as árvores. E nós somos o canavial que vai ficando moído sem se quebrar...” Quando Matilde Rosa Araújo dizia, na entrevista ao Século Ilustrado, que a literatura seria “verdade e redenção”, estaria, com certeza, a defender esta personagem, que, para tentar dar a volta ao destino, optou pela escrita para se libertar, para encontrar a redenção...
* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 658, 2021-07-07, p. 9.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Duas notas de fim de semana: entre concertos e livros



Primeira: Assisti aos dois concertos promovidos conjuntamente pelo Coro Gospel de Azeitão e pelo Coro do Conservatório Regional de Setúbal. Foi o concerto “Happy Days”, primeiro em Azeitão, no auditório da Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense, em 21 de Abril, e depois em Setúbal, no Forum Luísa Todi, em 22 de Abril.
Uma combinação perfeita, dominada por espirituais negros tradicionais, experiência inicial entre os dois coros, com público entusiasmado e participativo, com coralistas empenhados e um trabalho notado. Valeu bem a pena! E, por isso, o agradecimento a todos os participantes, a todos os “fazedores” deste evento, sobretudo a John Fletcher, professor do CRS e orientador do Coro Gospel, que dinamizou a actividade e lhe emprestou uma marca pessoal.


Segunda: Passou o Dia Mundial do Livro, homenagem ao objecto livro, aos autores e aos leitores. Poderíamos dizer que também somos o que lemos. Tive pena, ao passar pela FNAC, por ver que não houve este ano a edição antológica de contos O Prazer da Leitura. Desde 2008 que a FNAC (em conjunto com a editora Teorema nos três primeiros anos e com a Teodolito nos seguintes) tem vindo a publicar, no Dia Mundial do Livro, esta antologia, um volume por ano, reunindo contos inéditos de autores portugueses contemporâneos, já num total de 50 autores e correspondente número de contos (o volume de 2008 integrou 10 autores e cada um dos seguintes foi alimentado por 5 autores). Não posso esquecer o entusiasmo dos meus alunos mais novos quando lhes leio um conto que surgiu no primeiro volume, “Verba volant, scripta manent”, de João Aguiar, experiência que tenho repetido quando tenho alunos novos, conseguindo sempre o mesmo entusiasmo... Esperava encontrar-me com a edição deste ano, mas... Pena, porque é um interessante projecto e dinamiza a leitura do conto e a diversidade de propostas de leitura!

domingo, 29 de janeiro de 2012

Três olhares sobre Trindade Coelho


 No número de 7 de Novembro de 1897 da revista Branco e Negro, aparecia um artigo de Trindade Coelho expondo o seu pensamento sobre o que seria um conto. Reconhecido como contista a partir da obra Os meus amores (publicado em 1891), o escritor de Mogadouro confessava as razões que o levavam a considerar o conto como uma arte do seu tempo: “É uma forma literária encantadora (conquanto não mencionada ainda nos livros didácticos); e o maior assunto, ou o mais complexo, cabe no conto, pela mesma razão que nas proporções delicadas de uma miniatura pode caber, desafogado, um grande quadro. Tudo se reduz a uma questão de processo; e pelo que toca à emoção, o conto pode dá-la mais intensa, creio eu, do que o romance. Depois, os próprios jornais, com a sua insistência cronométrica de todas as horas, o seu carácter de enciclopédia, a sua variedade, ou absorvem, ou fazem aborrecido, o hábito de ler demorado – e livros, são às dúzias, e na grande maioria livros maus, o que também desanima. A vida, hoje, e cada vez mais há-de ir a pior, é pouco extensa e muito intensa. Nada, pois, de coisas demoradas: tudo se quer breve, curto, incisivo, como essa linguagem do telégrafo, que é bem a deste fim de século alucinado…”
Depois deste enquadramento circunstancial e marcado pelo tempo, Trindade Coelho tenta definir a estrutura e o modo de fazer um conto, partindo do seu percurso: “Mas como se faz um conto? O que é o conto? Não sei. Quem o sabe? Tenho dele, desse delicado género de poesia literária, a visão de uma coisa redonda, sem princípio, nem meio, nem fim, e todavia geométrico e perfeito, como uma bola de fino marfim. Isto é talvez grosseiro, este modo de exprimir – mas confesso que não tenho outro e peço desculpa…” O leitor passa por este parágrafo e reconhece o tom dos contos do seu autor, eivados das características aqui anunciadas e sentidas, justamente o modo literário que deu a Trindade Coelho o reconhecimento na literatura, embora tenha sido autor de outra obra vasta nos domínios do direito, da didáctica e da cidadania.
Em 1949, Júlio de Lemos dava à estampa o opúsculo intitulado Elogio do contista Trindade Coelho (Lisboa: revista Ocidente), com meia centena de páginas, num texto assumidamente comprometido com o título – a única parcela da obra de Trindade Coelho aflorada é a dos contos e o ensaio percorre o que foi a recepção da obra Os meus amores, vista por numerosos escritores, críticos, admiradores, portugueses e estrangeiros. Esta obra é ainda importante pelas duas listagens apresentadas no final: uma, de bibliografia constituída por títulos de escritores que homenagearam Trindade Coelho; outra, dos periódicos que, entre 1879 e 1905, em geografias diversas (Bairrada, Braga, Bragança, Coimbra, Elvas, Famalicão, Lamego, Lisboa, Paris, Ponte de Lima, Portalegre, Porto, Serpa, Viana do Castelo e Viseu) e alguns por si fundados, mereceram a colaboração de Trindade Coelho.
Júlio de Lemos conhecia bem Trindade Coelho e entre os dois existiu uma relação epistolar, tendo a revista Limiana, publicada em 1912 e dirigida por Júlio de Lemos, dado a conhecer, em vários números, um total de 34 cartas de Trindade Coelho, escritas entre 1897 e 1907. Daí que não nos surpreenda o início deste Elogio: “Pelo que observamos há cinquenta anos e pelo que desde então viemos lendo e reflectindo, estamos convencidos de que com o aparecimento do livro Os meus amores principiou uma transformação na vida literária portuguesa.” O que estava em causa era uma crítica ao Naturalismo e àquilo que era visto como os excessos dessa fase, sendo enaltecido em Trindade Coelho “a literatura casta, suave, iluminada e emotiva, que nos banha a alma numa torrente de espiritualidade, bondade e graça, a literatura que respira saúde moral e, portanto, doce, límpida, repousante e construtiva”. Júlio de Lemos alia-se, assim, ao colectivo que escolheu para apreciar o conjunto de contos de Trindade Coelho, definindo que “as constantes artísticas de Trindade foram a pureza dos seus temas e da sua linguagem, a simplicidade formal e o amor à nossa terra, que tanto louvou e exaltou”, para o que contribuem a “naturalidade, singeleza, claridade rebrilhante, cadência, musicalidade”, sentindo necessidade de sublinhar a existência de uma “simplicidade estética” na obra em apreço.
A ligação de Trindade Coelho à terra onde nasceu foi devidamente destacada por outro escritor, João de Araújo Correia, alto-duriense e também contista, quando, no último dia de Junho de 1961, para assinalar o centenário do nascimento de Trindade Coelho, discursou na Casa de Trás-os-Montes, em Lisboa, sobre o Perfil trasmontano de Trindade Coelho, conferência que verteu livro (Lisboa: Portugália Editora, 1961), dizendo, logo no início, que o escritor de Mogadouro, apesar de ter andado por várias terras (Coimbra, Sabugal, Portalegre, Ovar e Lisboa), “nunca saiu de Mogadouro”, justificando: “nunca saiu de lá, porque lá lhe ficou preso o coração à rama dos negrilhos”.
Este é o ponto de partida para considerar o “trasmontanismo” do autor de Os meus amores, apresentado por ter sido um escritor “independente”, que “não se enamorou de modas literárias” e manteve, “em cada linha escrita do seu punho, Trás-os-Montes pintado por uma pena”, com as cores da rusticidade e da delicadeza. A melhor tela, segundo Araújo Correia, está nesses contos, que revelam “o cenário do planalto, os animais rasteiros e os passarinhos, a leiva e a nuvem, a árvore e o homem, os tonilhos contados à lareira em linguagem imaculada”.
No mesmo ano em que se assinalava o centenário do nascimento de Trindade Coelho, era publicada a obra de Rogério Fernandes Ensaio sobre a obra de Trindade Coelho (Lisboa: Portugália Editora), que continua a ser uma excelente leitura da obra do escritor trasmontano.
Rogério Fernandes começa por analisar o livro mais conhecido que é essa colecção de contos intitulada Os meus amores, para introduzir a questão da arte de narrar, bem como a reflexão sobre a eventual proximidade de Trindade Coelho da estética realista.
Sem dissociar a intenção do autor de contar histórias no cenário rural da sua região, trazendo para a literatura a simplicidade e a emoção do homem do campo, considera Rogério Fernandes que as narrativas de Os meus amores são “perfeitos como realização literária” e “consistem sempre na narração de um caso, elegantemente desenvolvido nos seus lineamentos principais e encerrado com soberba mestria”, além de haver nelas, “para além dos seus episódios e da caracterização de tipos, um pensamento moral e social subjacente”. Quanto à questão do realismo, pensa Rogério Fernandes que “o realismo de Trindade Coelho é, de facto, um realismo amável, uma poetização da realidade”, já que, “no espectáculo horroroso que a sua província oferecia, o autor de Os meus amores seleccionava, unilateralmente, aqueles elementos mais susceptíveis de uma idealização lírica.”
Quase metade do estudo é dedicado a outra faceta do escritor de Mogadouro: o seu envolvimento enquanto cidadão e a sua actividade em prol da instrução, da escola e da formação cívica. Rogério Fernandes passa pelas obras que exibem o pensamento social de Trindade Coelho com uma adesão de simpatia, demonstrando a verticalidade e o compromisso do escritor, com amplo recurso a citações de obras suas e a opiniões de seus contemporâneos. Alheio a honrarias, preocupado com a necessidade de instrução popular, autor de uma proposta de forma de ser cidadão, de Trindade Coelho nos dá este ensaio um retrato vigoroso e coerente, onde cabem momentos difíceis e um percurso de vida que acaba sinuoso, com o suicídio. Só um homem “que se bateu ardorosamente pela elevação material e intelectual do seu povo e pelo ressurgimento do País” pode ter mantido a sua independência ou o caminho da sua sinceridade nos moldes em que se apresentou em carta a Luís Derouet: “A sinceridade é indisciplinada; não transige. E eu, como sincero, sou intransigente, e seria sempre, por isso, um mau partidário – fosse do que fosse e de quem fosse”.
Os contos de Os meus amores não têm, felizmente, andado esquecidos e com facilidade se encontram reedições (igualmente acessíveis quanto a custos). O facto de esta ser uma obra recomendada para leitura no ensino básico também sustenta essa presença nos escaparates. Mais difícil será encontrar a recolha que Viale Moutinho fez, em 1985, de diversos contos de Trindade Coelho que tinham ficado em jornais ou se mantinham inéditos, sob o título de Outros amores (Lisboa: Editorial Labirinto), narrativas construídas na esteira de Os meus amores. Ler Trindade Coelho continua a ser um encontro com a sensibilidade e com as histórias que têm feito a identidade de Portugal. Os três contributos aqui lembrados constituem outros tantos pretextos ou convites para ler Trindade Coelho ou para ajuizar do que foi a sua importância na literatura portuguesa.

domingo, 4 de setembro de 2011

José Leon Machado, "Fluviais"

Se há justificação para um título como Fluviais, que reúne 37 narrativas, ela só pode ter relação com o que é a suposta vida de cada personagem, um corredor que, desde o nascimento à foz, é povoado por intrigas e problemas. Fluviais (Porto: Campo das Letras, 2001), de José Leon Machado, congrega, assim, quase quatro dezenas de caudais, uns mais tempestuosos do que outros – camilianos alguns deles –, mas todos no encalço de personagens mais ou menos misteriosas e detentoras de um segredo que a escrita vai desvendando.
Os contos estão divididos por dois grupos – “À sombra sob as parras”, com 21 histórias, e “Ao sol sobre as fragas”, com 16. O que separa uma e outra é a geografia em que as personagens se movem – no Minho, a primeira, em Trás-os-Montes, a segunda, ambas as regiões metonimicamente apresentadas por cenários como as “parras” ou as “fragas”, que as identificam; na primeira, girando as vidas na proximidade de Braga; na segunda, circulando entre Valpaços e a raia, com entradas na Galiza.
Por estes contos passam figuras que são os heróis das suas próprias vidas, por vezes com finais infelizes, num ambiente rural, em que a tasca é, frequentemente, centro – a do Canhoto, na primeira parte, a do Riqueto, na segunda – e em que convivem as infidelidades, as vinganças, as experiências de vida difíceis, a embriaguez, os amores contrariados, o contrabando, a emigração, as relações de vizinhança, a solidão.
Há personagens que se aproximam dos mitos – “De pé à ré, o pau como remo, em gestos lentos de quem está senhor do rio e do barco, parecia um deus”, referindo o tio Né, barqueiro, no conto “A Máscara da Ninfa” – e outras que vão construindo os seus próprios ditados, formulados à medida das suas necessidades e vícios – “Sem vinho não há alegria e antes alegria que tristeza; (…) tristeza bastava a que carregamos no lombo desde o berço”, pensava o Farra, no conto a que dá nome. Há personagens que se confrontam com questões intensas, como a descoberta da morte, no conto “O Armador” e há crítica de práticas habituais – “O que mais o espantava é que as pessoas, à frente de uma imagem por pintar, dificilmente se ajoelhariam e pronunciariam uma prece. Mas perante uma imagem pintada, imaginavam-se perante uma encarnação do santo”, reflecte Mestre Paulo em “Lascas de Cal”. E há o amor, curiosamente a determinar a abertura e o fecho do livro – idealizado, no início, em “A Máscara da Ninfa”, sugerindo a descoberta de uma ilha dos amores, e instintivo e realizado, no último conto, “A Professora Nova”, com o apelo do corpo a determinar a relação.
Contos breves são estes de Fluviais, que nos apresentam um modo de viver e de pensar longe de toda a globalização e constroem uma quase arqueologia do sentir humano, em que o instinto e a reacção a quente vencem, muitas vezes deixando o leitor desarmado perante finais inesperados ou rumos das histórias subitamente alterados.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

António Manuel Couto Viana - "Tens Visto o Antão? (Contos Pícaros e Outros Não)"

O primeiro livro póstumo de António Manuel Couto Viana não foi de poesia, mas de contos, arte e escrita a que se dedicou com afinco no último período da sua vida, tendo publicado três títulos que lhe granjearam elogios merecidos, além de terem constituído surpresa na sua ficha bibliográfica, sobretudo ocupada com poesia, teatro e memorialismo.
Tens Visto o Antão? – Contos Pícaros e Outros Não (Lisboa: Quetzal Editores, 2011), em edição preparada por Ricardo de Saavedra, prossegue a narrativa picaresca com que Couto Viana tinha brindado os seus leitores, enredada em dezena e meia de histórias de onde não estão ausentes a paródia de costumes, o retrato impiedoso das situações mais caricatas de uma determinada sociedade, a montra das fraquezas e das pequenas vaidades humanas.
Os narradores dos vários contos vão variando no nome e na sua caracterização, mas conservam sempre algo de uma memória que lhes é comum, construída nas vivências da “cidadezinha” que o leitor desde cedo percebe ser Viana do Castelo, terra de infância e raiz do próprio Couto Viana.
As histórias deste livro partem das memórias distantes do seu autor, cruzadas com o fazer narrativo, com a obra de arte, havendo lembranças de sítios, de pessoas, de hábitos e costumes, de saberes, da paisagem, sendo ainda possível ver tratados assuntos de todos os tempos, como a questão da identidade (em “Onde, o Natal?”) ou um elogio à paternidade (como em “Pai Incógnito”).
O leitor chega ao final de cada conto e tem vontade de sorrir, tais são o espírito certeiro com que as personagens são esculpidas ou a vivacidade posta na narração de situações caricatas que todos podemos facilmente imaginar por verosímeis. Mas o primeiro a usufruir desse prazer é o próprio narrador, como o demonstra no final da história de Elisete Fernandes, personagem do conto que fecha o livro e que lhe dá título: “Eu arrebatei a papelada, atirei para a mesa as moedas do café e do bagaço e corri para a esplanada, a soltar uma gargalhada colossal!”
Fim da história, conclusão do livro e a gargalhada da satisfação, depois de uma representação em que, pelo menos, outras tantas personagens quantos os contos desfilaram, mostrando-se e… talvez mostrando-nos.
Para mim, que conheci António Manuel Couto Viana e de quem ouvi a leitura de alguns dos contos aqui inseridos, acabadinhos de fazer (privilégio, eu sei), torna-se difícil ler estes contos sem ver passar a figura do seu autor, gargalhando e revivendo as histórias que estiveram na origem destes textos, ainda que ele se tenha disfarçado na escrita usando a personagem de outros tantos narradores.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Máximas em mínimas (67) - Dulce Maria Cardoso

Tempo – "O tempo perde importância à medida que escasseia. Quanto mais escasso menos valioso. Deve ser a única coisa que vale menos à medida que se torna mais rara."

Vida – "Quase todas as vidas dariam maus livros por causa das verdades absurdas de que se fazem.”

Reparar – "Não se repara no que se viu fazer desde sempre."

Passado – "Os passados só se tornam acessíveis se os mapas os assinalarem e se para lá houver caminhos.”

Assinatura – "A nossa letra compromete-nos quase tanto como o nosso sangue. Um nome assinado torna-nos proprietários. Ou desapossa-nos. Riscos feitos por uma mão. Riscos que não valem nada e que afinal são os que os fazem."

Livros – "Os livros oferecem-se sem escolha a todos os que os quiserem ler. E, se redimem, fazem-no de forma tão caótica e tão insondável que ninguém poderá ter nisso qualquer esperança. Talvez os livros escrevam direito por linhas tortas. Como Deus."

Dulce Maria Cardoso. "A Biblioteca". O Prazer da Leitura. Lisboa: Teodolito / FNAC, 2011, pp. 101-119.

sábado, 22 de janeiro de 2011

"Quartzo - Vidas de um Veterinário", de Manuel Cardoso

São vinte e três histórias e mais um “glossário breve” – as narrativas trazem-nos episódios rurais, o glossário é composto por cerca de três dezenas de termos ou expressões surgidos nas histórias para ajuda do leitor que lhes esteja menos habituado. É este o corpo do livro Quartzo – Vidas de um Veterinário, de Manuel Cardoso (Coimbra: Quarteto Editora, 2000).
A começar o livro, há um texto introdutório que justifica a escrita destas histórias. Curtas, elas são “tecidas de uma realidade vivida e simples, o dia-a-dia de um trabalho feito com empenho e dedicação, também com sacrifício e esforço, e bordadas de uma fantasia quão simples quão vivida também”, havendo, “nalgumas, a serenidade de um ritmo de épocas passadas; noutras, a premência de uma pressa que urge a prender o presente”. Característica comum a todas: “a paixão pela terra deste torrão precioso de Trás-os-Montes”.
Sendo o autor médico veterinário de formação e naquela região exercendo a sua actividade, fácil se torna concluir estarmos perante um registo autobiográfico, aqui e ali marcado por indicadores que o vão confirmando – como o nome de algumas personagens das histórias, que são as mesmas do círculo familiar do autor, ou a referência explícita ao próprio nome do autor, cumulativamente personagem e narrador, como acontece no texto “Visitas e Visitantes”.
Pelas histórias vai desfilando um mundo de crendices, de hábitos, de uma sociedade rural, em que os animais são a maior preocupação, seja pelo sustento, seja por serem vistos enquanto garante, em lutas que são pela vida e contra a morte ou contra o azar da doença, questões essenciais quando o que está em causa é a sobrevivência – seja dos homens, seja dos animais. Daí que o narrador considere a sua profissão de veterinário como algo que também dá para fugir à rotina, porque o homem se torna actor – “o pequeno grupo que se forma quando uma consulta é um bocado mais demorada é muitas vezes o colorido que faz desta profissão uma actividade em que a rotina é uma rara ocorrência”, em que “o interlocutor nunca é o doente mas o dono”, sendo que, “quando uma doença se declara, muitas vezes pior não é diagnosticá-la nem dar-lhe solução – é lidar com o dono do animal”.
Paralelamente, vai sendo mostrado que nem tudo é pacífico e que um profissional se faz com os conhecimentos da tradição, por vezes empíricos, mas também com a inovação, haja em vista o que é relatado no conto “O Detector de Metais”, em que tal equipamento se revela útil à detecção de objectos metálicos ingeridos pelos animais, mas cuja utilização causou espanto – “Uma das novidades que eu trouxe para cá quando acabei o curso foi o acto de não medicar animal nenhum sem lhe medir a temperatura e sem o auscultar. Isso causou-me algumas situações mais amargas com alguns colegas porque o costume era o de receitar pela história e sintomas colhidos a olho e levaram a mal que um franganote a principiar os ultrapassasse na mise-en-scène. Contudo, eu não desarmei e até reforcei a panóplia de possibilidades quando apareci a empunhar um detector de metais.”
Quartzo – Vidas de um Veterinário é, pois, a experiência de um joão-semana dos animais, já não montado numa égua, mas cavalgando um “Panda” ou um “UMM”, visto como salvador, como confidente, atendendo pastores, pequenos agricultores, ciganos, convivendo com a caça furtiva e as pequenas vinganças, com os mistérios da vida e da terra, penetrando nos modos de ser e nas intimidades familiares. Tudo isto valorizado por uma descrição da paisagem dos arredores de Macedo de Cavaleiros – geografia destes pequenos contos – decifrada com as cores do tempo e as tonalidades agrestes da serrania, com os cheiros intensos e os ruídos de um cenário que ganha animação graças ao homem que o povoa e nele se refugia.