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domingo, 4 de março de 2018

Mário Moura - Contar Setúbal através das histórias médicas



No prefácio à edição espanhola de Retalhos da Vida de um Médico, de Fernando Namora, o crítico madrileno Gregório Marañon (também ele escritor e médico) escreveu algo como: “O essencial da profissão médica não é a dor, não é a doença, mas as circunstâncias que a rodeiam. O acto de curar, teoricamente, as maleitas que se podem curar é um problema de dois e dois serem quatro que qualquer um poderia aprender em poucos meses. Mas o importante na Medicina é o halo misterioso de circunstâncias imprevistas que rodeia a doença, que dependem, umas, da personalidade do doente, e outras, as mais importantes e numerosas, do seu ambiente”.
Recorro a esta citação para a associar ao mais recente livro do médico e também escritor Mário da Silva Moura (n. 1927), Os “Acasos” na Construção da Vida (Book Link, 2017), que, como subtítulo, na capa, apresenta a explicação seguinte: “contos médicos que dão sentido à Utopia, à Fé e ao Amor, como exemplos de Liberdade e Humanidade”. Só esta nota de apresentação envolve um programa ou uma forma de estar na vida e na medicina, de tal maneira são referências os valores que a integram, ficando o leitor a pensar que, pelo caminho das narrativas, eles vão ser o norte e a âncora de personagens e de práticas.
Os treze contos são antecedidos de um texto preambular em que o autor descobre a origem dos escritos, maioritariamente publicados no âmbito de colectâneas de contos médicos sujeitos ao mote “o lado humano da medicina”, incentivadas pela Associação Portuguesa dos Médicos de Clínica Geral, pela indústria farmacêutica e pela editora Padrões Culturais. Mas a vantagem de este texto introdutório é mais vasta, pois faz considerações sobre o percurso da prática médica do próprio autor, evolução que, já no final, sintetiza desta maneira: “Em toda esta minha caminhada na compreensão do adoecer humano, fui avançando da medicina exclusivamente biológica dos meus tempos de faculdade para os conceitos mais globais da medicina psicossomática, entrando rapidamente na consideração das influências do meio no desenvolvimento do ser humano e depois, como é evidente, no seu adoecer; o que nos levou à medicina biopsicossocial, e daí à consideração dos processos definidores dos nossos ambientes, bem como da acção da nossa capacidade criativa.”
Assim mostrado o percurso, Mário Moura abre depois o pano para que vários dos seus pacientes desfilem no seu consultório e nas suas vidas, sempre tendo como fundo o cenário de Setúbal, que conseguimos reconhecer pela paisagem histórica, geográfica e social que nos vai sendo apresentada, sempre com pinceladas de autenticidade, caucionadas por referências ao contexto.
Muito embora as personagens povoem histórias que podem sugerir o domínio do ficcional, a verdade é que todas elas foram construídas a partir do cruzamento de pessoas com o autor, assim se estando perante narrativas autobiográficas, algumas bem coladas à história real de vida, como acontece logo com a primeira, em que perpassa a história de amor entre o médico e a paciente. Personagem central e permanente em todos os contos é o médico, sempre o mesmo, como é referido no relato “História dum crime... já prescrito”, invocando acontecimento de 1954, ao mencionar “o protagonista destas histórias”. E o médico, muito embora mereça do narrador o tratamento preferencial na terceira pessoa, assim sugerindo alguma ficcionalidade, passa também por relatos na primeira pessoa, sendo dado ao leitor observar a sobreposição dos momentos da vida do autor e dos passos da narrativa (estudo em Coimbra, chegada a Setúbal, hospitais e serviços em que trabalhou, prática jornalística, por exemplo - esta junção de percursos poderá ser mais evidente se o leitor acompanhar a leitura desta obra com outra que Mário da Silva Moura publicou em 2013, À Conquista da Liberdade, esta assumidamente autobiográfica).
O último conto, “A história de um ombro”, resolve definitivamente a questão da autobiografia, recorrendo mesmo ao autorretrato: invocando a história passada em 1954 relatada no primeiro conto, é dado o salto para seis décadas depois, em 2014, quando, “ali ao lado, estava sentado num cadeirão o nosso clínico, agora marido da doente, de cabelo e barba branca, (...) ainda com algum vigor intelectual, mas algo alquebrado pelos seus 86 anos de idade”. O tal “velho clínico” aproveitava para rememorar a sua vida enquanto acompanhava a hospitalização da esposa, momento em que “seis décadas de vida passaram em revista” com sinal positivo - “Era o saldo duma vida de paixão e amor. Era o saldo duma vida de trabalho, vivida a dois, era a visão daquele braço que nascia daquele ombro, segurando ao colo os nossos cinco filhos”. É um texto em que o narrador se junta com a personagem central, momento que legitima a autobiografia. E a terminar o conto e o livro, novamente essa sobreposição, agora justificada pela oferta a “esta mulher a quem dedico este escrito, vivenciado no quarto dum hospital comigo ao seu lado.”
Ao longo dos contos, Mário Moura assume muitas vezes também o seu papel de comentador, fazendo considerações sobre a medicina, sobre as condições de trabalho, sobre a prática médica, defendendo sempre o interesse pela Medicina Geral e Familiar, revelando uma preocupação com a evolução na sua área de trabalho e uma atenção permanente à nobreza do acto médico.

Este livro conjuga, assim, as histórias dos pacientes e a história do próprio médico, parecendo um hino de amor à profissão e também uma ode ao amor vivido pelo próprio narrador-autor, deste modo se justificando a chamada inicial da referência de Marañon e a afirmação dos valores expressos na brevíssima apresentação do subtítulo da obra. Por outro lado, mesmo tratando-se de um conjunto de experiências pessoais (e também por isso), este livro afirma-se como um contributo importante para a história da medicina e da assistência em Setúbal, quer pelas descrições que faz da vida no Hospital do Espírito Santo, quer pela formação que reclama para a evolução da medicina local, quer pelos retratos sociais que dão corpo às suas narrativas.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Para a agenda: A arte de cuidar, segundo Cristina Pinho



Há diferentes vias na prática da medicina? Cristina Pinho, conhecida médica de Setúbal, dá o seu testemunho em Médico Unicista - Ensaio sobre a Arte de Cuidar, obra que será apresentada em 12 de Maio, na Casa da Baía, em Setúbal.
De acordo com nota de apresentação, a autora "defende a homeopatia clássica (acompanhada por nutrição e suplementação individualizadas) e o placebo (apoiado pelos conhecimentos científicos da física quântica) como os principais métodos terapêuticos deste momento, aqui, agora. Faz-nos ver que somos o nosso próprio curador e que o terapeuta tem a responsabilidade de promover e ensinar a auto cura como caminho para melhorar os cuidados de saúde neste planeta."
Para a agenda!

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

Para a agenda - José Poças, a medicina e a arte




José Poças convida para a apresentação de Ode ou Requiem, obra que define como "alegoria sobre a natureza do acto médico, a propósito de algumas histórias clínicas reais". O tema alicia, haja em vista quantos médicos, além de prescreverem, escreveram também. Em 24 de Outubro, no Forum Luísa Todi, às 15h00. Para a agenda.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Mário Moura, o primeiro premiado Miller Guerra



Mário Moura (n. 1927), conhecido médio setubalense, quer pela actividade exercida profissionalmente, quer pela intervenção cívica que tem mantido regularmente, é a primeira personalidade a receber o prémio Miller Guerra, instituído pela Ordem dos Médicos, que será entregue amanhã.
O galardão visa contemplar um profissional da área da medicina que se tenha distinguido ao serviço dos doentes, assentando sobretudo na dimensão humanista da prática médica.
Mário da Silva Moura é autor de múltipla bibliografia no âmbito da medicina e também dos títulos E o homem novo? – Testemunhos de dez anos de actividade de um jornalista cristão (1995), A trajectória do amor: Ensaio sobre a medicina familiar (2000) e À conquista da liberdade (2013).
Um reconhecimento merecido!

domingo, 25 de maio de 2008

José Paulino Pereira e o bisturi como chave da memória

Bisturi do tempo, de José Paulino Pereira (Setúbal: 2008) é título rico de sugestões, quer pela imagem médica ligada ao seu autor, quer por esse trabalho de precisão a fazer na memória para que não sejamos por ela traídos. E, depois, há ainda aquela possibilidade dupla: um bisturi que age sobre o tempo ou o tempo visto como bisturi?
Este livro recolhe textos que, na sua quase totalidade, foram já publicados e que, como regista o autor, em texto que serve como apresentação da obra, foram “inspirados em situações vividas”. A observação é importante, pois garante o pendor autobiográfico desta escrita, onde se cruzam espaços, pessoas e histórias vividas pelo narrador das evocações.
Podemos referir que este conjunto de textos constitui a geografia de José Paulino Pereira. Paradigmaticamente, a primeira narrativa intitula-se “A minha rua” e constitui a chave que permite a entrada no livro e a viagem até à infância em Torres Vedras – “foi nela que nasci, cresci e brinquei”. E é um desfiar de lembranças de amigos, de familiares, de intimidades.
O grupo de escritos dedicados a Torres Vedras tem ainda espaço para lembrar a história das Termas dos Cucos (narrativa em que descobri uma afinidade com a minha aldeia, pois houve alguém que, de Alvarães, no concelho de Viana do Castelo, pelos idos de 1932, questionou a legitimidade do testamento que fizera passar as termas para as mãos de José António Vieira), a pretensão já sentida de Torres Vedras querer ser a capital de um distrito que chegou a estar pensado para a região do Oeste, a história da medicina torriense, a ligação à Associação de Bombeiros.
Os outros pontos desta cartografia do tempo assentam em Coimbra (com histórias do tempo da formatura universitária e das visitas ali feitas depois, a propósito das reuniões de curso), Peniche (local de férias, com histórias vividas de descoberta) e Setúbal (ponto de fixação profissional nos hospitais – primeiro, da Misericórdia e, depois, de S. Bernardo –, com referências múltiplas à história local e a episódios passados com os respectivos pacientes).
Neste itinerário descontínuo e seleccionado de vida, há também lugar para identificações e preferências, aliando as sensibilidades de outros à descoberta própria, conjugando arte e saber, como surge neste exemplo que relembra uma viagem à Arrábida: “Eu não sou poeta. Não tenho esse dom, mas ninguém me impede de subir ao cimo da imponente Serra da Arrábida, imitando nessa caminhada o príncipe dos poetas setubalenses que se chamou Sebastião da Gama. Ninguém como ele conhecia os seus segredos que o convidavam à meditação.”
Quando Paulino Pereira fala de pessoas, são-lhes enaltecidos os dotes, que podem entrar para o lote de valores a preservar. Assim, surgem referências de apreço a mestres ou a figuras que foram importantes para a formação do próprio narrador por características como o trabalho em equipa, a formação humanista, a competência, a disponibilidade para os outros, a relação próxima e afectiva entre médico e doente. O humor está também presente, seja por alguns momentos relembrados e pelo cómico da situação que constituíram, seja pelo tom com que, à distância, são evocados. As qualidades das personagens e o sentido de humor conjugam-se bem nos quatro contos que constituem a última parte do livro, de tal forma que nem parece que se entra no registo da ficção, antes se continua no da memória…
Ao longo destes textos, o leitor vai ainda convivendo com a coerência do homem e do profissional, que não deixa margem para dúvidas depois de uma crónica como “Decisão na hora certa”, em que, a propósito da facilidade com que se põem em causa as práticas dos profissionais de alguns serviços, nomeadamente da saúde, Paulino Pereira relata a decisão que teve que tomar, ao levar um doente para o hospital, à sua própria custa, contra a vontade da família mas com o acordo do paciente, numa situação que poderia ser decisiva. A intervenção acabou por ter sucesso e a crónica conclui com a seguinte reflexão: “O êxito foi total. Mas, se o desfecho fosse outro, o que me teria acontecido? Os homens que me julgassem. Perante o tribunal da minha consciência ficaria absolvido.”
A escrita de Paulino Pereira neste Bisturi do tempo é simples, acessível e directa, parecendo que se está perante um contador de histórias de vida. Os retratos que ressaltam são os da disponibilidade e do prazer no exercício médico, quase nos surgindo pela frente um João Semana, distante do que Júlio Dinis nos apresentou no séc. XIX pelas mudanças operadas pelo tempo, mas próximo pela sensibilidade e pela humanidade no trato e na vida, marcas que popularizaram e notabilizaram essa personagem como médico.
[A obra, cuja chegada às livrarias (em 12 de Maio) aconteceu cerca de uma semana após o falecimento do seu autor (4 de Maio), vai ser apresentada, numa sessão que também será de homenagem a Paulino Pereira, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, em 31 de Maio, pelas 16h00.]