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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

Fernando Gandra, no rumo da utopia



Fernando Gandra (1947-2021), algarvio de nascimento, exilado por ideias, setubalense por adopção, fez, entre a poesia e o ensaio, contínua reflexão sobre a palavra, demandando utopias, numa difícil relação com o tempo, que, no seu segundo livro, As forças amadas (1981), apresentou como “a imensa cinza da idade”.

A palavra, para Fernando Gandra, apresenta-se como se nela se encontre a liberdade de ser, de fazer, de sentir... ou não se intitulasse o seu primeiro livro Para uma arqueologia do discurso imperial, percurso sobre o significado da linguagem quotidiana e as suas implicações no pensamento. Um exemplo: “Que significa ‘funcionar bem’? Funcionar sem resistência que, aliás, é condição de qualquer funcionamento.” Clara definição, pretexto para explicar o papel da lei, do poder, definidores do que é a desordem e de formas de estruturar o desejo, num caminho em que se fala da natureza, por um lado, e da cultura trazida pela norma, por outro. No final desse livro de 1978, surge um dos temas de eleição que Fernando Gandra irá sempre trabalhar - a utopia, aqui definida como “esse erro iluminado como um santuário que nos faz viver e pelo qual muitos ascetas têm morrido, calcinados pelo sonho.” Nada lacónica esta definição... que retomaria, por outros dizeres, no prefácio que assinou para a obra A noção de cultura nas ciências sociais, de Denys Cuche, em 1999: “Terra de ninguém, lunar, a utopia é uma imobilização artificial do tempo, uma redenção de baixo preço, apressada, fulminante.” Na última obra ensaística, O sossego como problema, de 2008, a utopia continua a preocupar as suas letras, com tonalidade poética: “A linha do horizonte situa-se no ponto indefinido onde o céu e a terra se unem. É indefinido porque recua à medida que avançamos. A linha do horizonte só é fixa e acessível à distância.” E assim vai construindo o percurso que visa entrar pelo horizonte, aproximar-se da utopia, embora sabendo que essa distância nunca se reduz…

Fernando Gandra valoriza a palavra no ensaio, aí fazendo dela objecto; tonifica-a na poesia. A palavra contém todo o saber e toda a justiça do mundo, quase como se só ela fosse a concretização da utopia. É por isso que os dois versos de O lado do cisne, de 1984, nos advertem: “À gente simples ninguém perdoa / o sábio voo das sílabas.” Esta metáfora do dizer permite que o discurso se adeque às circunstâncias, nos transporte pelas distâncias, nos fidelize ao tempo e à paisagem, como, harmoniosa e subtilmente, nos lembra num poema de Os lugares, de 2015: “Não, isto não é o cais das colunas / não, aqui não há índias nem brasis para encontrar. / Não, isto aqui não é o Ca d’Oro / da longínqua e sumptuosa Veneza / que enriqueceu com as especiarias. / Aqui falamos banalmente / de sargos e de enguias. / E na maré baixa, / quando muito baixa, / de lodo.”

Num poema de 2019, não publicado, Fernando Gandra escreveu sobre um dos seus espaços de eleição, Tróia: “esta península de deus / esta improvável língua de areia / talvez seja uma filial do céu. / (...) / Aqui pratico o amargo prazer da escrita. / (...). / Resta-me fazer e refazer nesta pacífica areia / o meu estranho mapa-mundi.” A sua utopia, poderíamos dizer, que, no livro de 2008, pintou como paisagem do silêncio: “É um sermão sem palavras que nos convida a pensar sobre o que já ouvimos e sobre o que ainda não dissemos, nem vamos dizer. Sobre a tentação de falar e o incómodo que é, que pode ser, ouvir.”

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 783, 2022-02-09, pg. 8.


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Memória: Fernando Gandra (1947-2021)



Um dia, num encontro de acaso na rua, cruzei-me com o Daniel Pires e um outro amigo, que logo me foi apresentado: o Fernando Gandra. A partir daí - não sei em que ano, mas recordo-me do sítio -, falámos muitas vezes, convivemos, trocámos ideias, participámos juntos em algumas actividades, conhecemos as famílias respectivas com mútuo apreço.

Por amizade, convidou-me para, em 2008, apresentar em Setúbal o seu livro O sossego como problema (peregrinatio ad loca utopica), o que fiz com o gosto de quem descobre vasto conjunto de ideias e uma escrita que oscila entre o filosófico e o poético, na abordagem de temas sérios como a reflexão política, a cidadania.

Li os poemas do Fernando Gandra e as nossas conversas versavam sempre a actualidade, a ironia do mundo e, obviamente, a escrita, a literatura. Fui conhecendo o seu percurso - desde livreiro da “Orfeu”, em Bruxelas, com a esposa, até ao gosto de viver no seu mundo. Sempre que o convidei para uma colaboração poética, nunca se escusou - e sempre apresentou inéditos - o seu último contributo escrito, um poema sobre uma questão actual, "Great again (America)", saiu no nº 13 da Revista LASA, em Outubro.

No último ano e meio, o Fernando confrontou-se com grave problema de saúde - e vi-o assustado por causa da vontade de viver, mas também o vi com momentos de confiança num futuro. Por último, veio a pandemia. E o Fernando Gandra partiu ontem, 27, depois de internamento hospitalar de dois dias. 

Fica-me a saudade, a pena das conversas com improvisos que não voltaremos a ter e dos poemas que não voltarão a acontecer. Quero crer que foi para mais um exílio - depois daquele que teve de fazer antes do 25 de Abril. Obrigado, Fernando Gandra! 

 

sábado, 1 de junho de 2019

"O que muitos andaram para aqui chegarmos." - Andanças de exílio para conquistar o horizonte



Deixem-me começar por uma quadra de Daniel Filipe, do seu livro Pátria, Lugar de Exílio (1963): “Pátria, mas terra agreste; / terra, apesar da morte. / Pátria sem medo a leste. / Lugar de exílio a norte.” Esta quadra não entrou no arranjo musical que deste poema fez Luís Cília em 1973, no disco “Contra a ideia da violência”, mas bem podia ter entrado!
Se trago estes dois nomes para começar a falar do livro que para aqui nos convocou - O que muitos andaram para aqui chegarmos (Bruxelas: Poemar, 2019) -, tal deve-se ao facto de Daniel Filipe ser um bom poeta do exílio e ter sido perseguido pela polícia política, como vários dos participantes na obra de que hoje falamos, e ao facto de Luís Cília (que foi incentivado a musicar poetas pelo próprio Daniel Filipe) ter sido uma referência para muitos exilados portugueses, designada e assumidamente para um dos participantes nesta antologia testemunhal, Manuel Jorge Gonçalves, que o conheceu em Paris.
Mas há ainda uma outra razão para terem sido estes versos de Daniel Filipe os escolhidos: é que eles condensam muito do que sobre o exílio se possa dizer em termos de expressão literária - o exilado tem de dar corpo à contradição, vivendo a ausência e assumindo esse estar fora com dor (“Pátria, mas terra agreste” é verso que reúne esse estar preso e estar distante em simultâneo, um paradoxo da existência que vai muito para lá da geografia); o exilado procura a utopia para se salvar (“lugar de exílio a norte” é o verso que bem explica o conforto que Maria Augusta Seixas vai encontrar em Bruxelas, a que chama a “casa dos desertores”, abrigo e porto seguro, ou o paraíso que o já citado Manuel Jorge Gonçalves vai descobrir no país que o acolhe, quando exclama: “Bélgica, terra de liberdade, tão mais progressista e evoluída!”). 
Estão assim projectadas duas linhas de leitura que determinam este livro: por um lado, o registo testemunhal do exílio, vivido e sentido, como experiência dos limites e como risco indispensável para dar corpo à existência; por outro lado, a Bélgica e Bruxelas como unidade de espaço, varanda de ver o mundo e desejar o futuro, comum a todos os intervenientes nesta obra.
O livro conta com dez testemunhos e uma justificação, constando esta no capítulo que encerra o volume, em cujo título se questiona Maria Manuel Gandra: “E as mulheres?” Com efeito, das dez colaborações apenas uma é assinada por uma mulher, Maria Augusta Seixas; contudo, tem razão Maria Manuel Gandra quando refere que elas estão “na sombra, discretas e seguras figuras de segundo plano”, apesar de esse “segundo plano” não estar isento de heroísmo, de luta, de dor, de sonho, afinal os mesmos ingredientes que fizeram mover os homens que por aqui passam - é que praticamente todos os textos são povoados pela figura feminina, independentemente de ser a namorada ou a mãe, a companheira ou a protectora dos refugiados, a mulher humilhada por um agente da PIDE ou aquela que é trazida a Portugal e acaba por se deixar adoptar também pela pátria de exílio do companheiro.
Bruxelas foi encarada como “porto seguro” por todos estes “pássaros de arribação” (metáfora que é usada no curto texto introdutório) depois de um voo rasteiro, demasiado rasteiro para não dar nas vistas, com passaporte falso, sob a protecção das sombras da noite, num itinerário “a salto”, calcorreando estradas de fronteira e Pirenéus, vivendo a insegurança e o medo, tudo numa “rocambolesca viagem para o exílio”, como a classificou Carlos Marum.
No horizonte que ficava para trás, estava a polícia política, estava a guerra colonial iminente e impositiva no trajecto de cada um, estava a militância política e obrigatoriamente clandestina. No horizonte que ficava para trás, estava também um tempo em que, como refere José de Matos, “desconfiança era a palavra que filtrava tudo o que ouvia”. Tão intensa era essa treva do receio de dizer e de pensar que Vítor Ascensão reconhece que, mesmo fora de Portugal, “durante muito tempo, viveu com os pesadelos de medo, de insegurança e fragilidade” e “o sentimento de que qualquer coisa [pudesse]acontecer acompanh[ava]-o”.
A insegurança vestia, muitas vezes, a roupagem da ilusão, obrigando estes actores a um regime de atenção e de cuidado, sobretudo na percepção do perigo, como aconteceu com José Matias, quando lhe apareceu uma personagem a querer formar um grupo para uma invasão na ilha da Madeira, criatura que não era outra coisa senão um informador, um “bufo”, que pretendia chegar ao topo da organização política de oposição com que Matias simpatizava.
No trajecto até Bruxelas, havia a França, com paragem em Paris por tempo variável. Era a oportunidade para encontros com outros exilados, para um olhar já mais higiénico sobre o mundo - recorda José de Matos que entrar em França “foi lavar as roupas bolorentas dos regimes fascistas de Portugal e Espanha”. As ruas de Paris foram também o espaço que permitiu a alguns participarem no Maio de 1968, como foi o caso de José Coelho, que sentiu o fascínio de “ver a liberdade com que aqueles milhares de pessoas se manifestavam a reivindicar uma mudança de um sistema autoritário vigente para um sistema com maiores liberdades.”
Contudo, o apelo mais forte vinha de Bruxelas, ali onde lhes era possível deixarem a clandestinidade e reapropriarem-se da identidade, através do estatuto de refugiado político atribuído pela ONU. A cidade era, além disso, o novo mundo, terra de abundância e de trabalho, de liberdade, onde, depois da fuga de um “país triste, acabrunhado, onde o lindo céu azul de Lisboa parecia cinzento” e “podia desabar na cabeça a todo o momento”, como evoca Maria Augusta Seixas, valia a pena o trabalho (muitas vezes, de sobrevivência), o esforço, numa capacidade de adaptação e de mudança impressionantes, alicerçadas na convicção e na esperança.
Os textos até aqui citados caracterizam-se sobretudo pela marca da memória e do testemunho, num contar da experiência pessoal, vários deles redigidos por outro que não o protagonista do que é contado e um deles sob a forma de entrevista. Ressalta em todos um balanço positivo do percurso feito e a passagem do testemunho à escrita afigura-se como uma forma de reencontro ou de aproximação ou de partilha, como descobre Carlos Melro no final da sua prestação: “Acabei por dizer coisas em que nunca tinha pensado, contei histórias que nunca tinha contado, mas tudo saiu espontaneamente.”
Restam ainda por referir dois textos, o de Diogo Pires Aurélio e o de Fernando Gandra. Não porque o percurso até Bruxelas tenha sido diferente ou porque as dificuldades tenham sido menores, mas porque, na sua concepção, estes dois textos ultrapassam o registo do testemunho e deixam-se impregnar pela literatura.
Diogo Pires Aurélio, ao puxar “Vocabulário do exílio” para título, abre o caminho da liberdade da semântica, selecionando palavras, expressões, acrónimos e datas como “a salto”, “carta”, “clandestino”, “comboio”, “esquemas”, “guerra”, “nevoeiro”, “noite”, “ONU”, “STIB” e “25 de Abril de 1974” para, a propósito de cada uma das entradas, contar a sua história. Cada uma delas adquire um novo significado para lá da marca denotativa que o dicionário lhe confere, da mesma maneira que o narrador, por vezes, é independente da personagem sobre quem conta, um tal D., que se percebe ter sido um empréstimo do autor ou que narrador e personagem se mesclam, como se num vaivém entre os arquivos da memória e os acontecimentos tornados presente. Por estas onze secções passam os momentos de glória e de medo e as pequenas histórias que carregam a marca do desespero do momento; passa ainda a reflexão, em termos muito pragmáticos e em tom de resposta antecipada às conjecturas do leitor, para ajudar a entender atitudes que só existiram por causa das circunstâncias, por causa do sofrido.
“Porque não há vento?” é a questão trazida para título por Fernando Gandra, num texto de metáfora forte, enveredando por uma escrita poética, de imagens intensas, em que o leitor é logo desafiado a observar a gare de Austerlitz, onde passam “milhares de portugueses numa aflição calada” ou, depois, levado até Bruxelas, onde “a saudade é uma lâmina sangrenta que nada pode contra a inflamação do longe”. Mas o texto rapidamente adquire um tom épico ao enumerar as razões que os candidatos ao estatuto de refugiado político apresentavam, chamando as razões de um colectivo, que vão configurando também o retrato da alma de um país (se é que ela não estava também em fuga!): “fugimos do Cais de Alcântara e dos seus lenços de adeus até ao meu regresso que era os mesmos que acenavam na Cova da Iria altar do mundo (...) / fugimos da naftalina e do quanto mais me bates mais tenho ciúmes e anda encosta o teu peito ao meu / (...) / fugimos dos raciocínios do contumaz almirante Américo que sofria de microcefalia (...)”, etc. No total, dezoito recorrências anafóricas, todas pintando um país que fora abandonado e era satirizado em cada um dos motivos apresentados.
Numa segunda parte, o texto de Fernando Gandra aproxima-se da escrita biográfica, traçando o seu perfil na terceira pessoa e concluindo com a afirmação da identidade da actualidade: “Anos depois, cansado da bruma, optou pelo sol e dedicou-se exclusivamente à escrita, a sua vocação de sempre.” Um terminar que justifica o rasgo literário posto neste texto de memórias!
Mas até onde se projectava o horizonte de todos estes intervenientes e autores e actores dos seus percursos? Esse horizonte, que a utopia prometia e que a luta pela vida caldeou, foi comum a todos eles, cristalizado numa data repleta de promessas e de esperança: o 25 de Abril de 1974. Fernando Gandra refere que esse dia fez com que tivesse “terminado o Portugal teologal”; José de Matos não consegue descrever o que sentiu, apenas “uma alegria, uma coisa grande”; outros revelam que acreditaram com reservas; outros viveram o dia normal de trabalho, porque tinha de ser e talvez porque fosse preciso ver... Mas aquela quinta-feira acabou por tocar todos, uns com a ânsia de regressarem, outros observando a distância, uns a querem descobrir a diferença possível relativamente àquilo que tinham deixado, outros a assumirem a continuidade em Bruxelas... no entanto, sempre com a ideia de que o horizonte tinha sido conquistado.
Enfim, O que muitos andaram para aqui chegarmos. é um repositório intenso de emoções e de humanidade, um bom retrato do exílio na literatura, um contributo para mapear as distâncias entre o país triste que foi abandonado e o país reencontrado. Vale por isso este livro, mas vale ainda, e sobretudo, para percebermos que o “aqui” que se afirma no título é o sinónimo do “hoje” e do nosso estado, possível pelo que outros, muitos, andaram e lutaram, registo que a memória deve ajudar a ser incorporado na nossa identidade para que o presente valha sempre a pena, não apenas porque estamos cá, mas porque ele foi construído também por aquilo que muitos andaram.

(Na apresentação do livro, em 30 de Maio de 2019, na Fundação José Saramago, em Lisboa)

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Contar o exílio em "O que muitos andaram para aqui chegarmos"


O que muitos andaram para aqui chegarmos (ed. Poemar) é um livro colectivo em que se testemunha o exílio, a vida de recusa de injustiças impostas como a guerra colonial ou a prisão pela PIDE; em que se partilha a experiência dos riscos, dos medos, das solidões; em que se inventaria o tempo desse sofrimento. São dez autores, todos eles tendo sido exilados: Fernando Gandra, José de Matos, Vítor Ascensão, Carlos Melro, José Matias, Maria Augusta Seixas, Diogo Pires Aurélio, Carlos Marum, Manuel Jorge Gonçalves e José Coelho. Em comum, têm o facto de terem desaguado em Bruxelas, o espaço que lhes abria a sua utopia.
A apresentação será na Casa dos Bicos (Fundação José Saramago), em 30 de Maio, pelas 18h30.
Convidados.


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Orfeu, a livraria portuguesa de Bruxelas

A edição da revista Tempo Livre deste mês (Lisboa: Inatel, Dezembro.2011, nº 232) traz, com a assinatura de Humberto Lopes, a história da livraria Orfeu, "a única livraria portuguesa na região do Benelux", com sede em Bruxelas, actualmente gerida por Joaquim Pinto da Silva. A peça conta a intervenção cultural que tem sido marca daquela livraria, um projecto que foi começado há 25 anos por Fernando Gandra, escritor que adoptou Setúbal para se fixar.



quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Para a agenda - António Oliveira e Castro: um convite para se saber o que andava o herói a fazer por Paris e por outros lados do planeta

A dado passo da narrativa, regista: “Nenhum escritor escreve sobre acontecimentos insignificantes, procura sempre o lado sombrio, sujo, sanguinolento, colérico e escondido do Homem; descreve os campos de batalha onde se fuzilam os inocentes e assinam acordos de paz com os generais; o artífice da palavra relata, com a emoção de que é capaz, a loucura dos heróis, o medo dos cobardes; leva-nos até aos que jazem, na agonia da morte, debruçados sobre a terra que lhes escuta o lamento.”
E, num outro passo, o leitor pergunta qual o sentido da personagem em Paris, vagueando sem ser em passeio, refugiando-se, escondendo-se, procurando-se… numa história intensa, num viajar na personagem até ao âmago, acompanhando, de novo, o narrador, que exige a nossa conivência: “Apenas nós sabemos que Eugénio é um homem imprevisível, contra quem resulta infrutífera qualquer táctica, falível a mais elaborada estratégia; apenas nós sabemos (…) que mesmo a vida mais verdadeira não passa do resultado do acaso, a que só a fé dos homens confere normalidade.”
Personagem de sonhos, de contrastes, de forças e de tempos este Eugénio que surpreende em cada página de Tambwe – A Unha do Leão (Lisboa: Gradiva, 2011), de António Oliveira e Castro!
No sábado, 3 de Dezembro, na Culsete, em Setúbal, o autor e esta obra vão ser apresentados por Fernando Gandra, enquanto o actor José Nobre lerá excertos da narrativa. É um bom pretexto para se sentir convidado!

António Oliveira e Castro (n. 1951), a residir em Setúbal, teve já a sua incursão pela poesia, de que é exemplo o título Houve mesmo um dia de desespero em que se cultivaram campos de cicuta (Col. “Caminho da Poesia”. Lisboa: Editorial Caminho, 1985), mas, nos últimos anos, é a faceta de contador de histórias que o tem atraído, tendo publicado o romance A especiaria (Col. “Tempos Modernos”. Lisboa: Guerra e Paz, 2008) e este que agora vai ser apresentado.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

"Arte para uma cultura de segurança", em Setúbal

“Arte para uma cultura de segurança” – Assim se chama a exposição que, desde terça-feira, está patente no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), em Setúbal, organizada pelo próprio Museu e pelo Governo Civil de Setúbal.
Nas palavras de Eurídice Pereira, Governadora Civil, que abrem o catálogo da exposição, pretende-se que sejam alteradas “práticas menos consonantes com as exigências da salutar convivência colectiva e alertar a população para temáticas que exigem a mobilização de esforços colectivos, como é o caso da sinistralidade rodoviária e do combate e prevenção dos fogos florestais.” E uma e outra situações são sentidas, de forma contundente, na nossa região: só em 2008, nas estradas do distrito, morreram 77 pessoas; por outro lado, se pusermos os olhos da memória sobre o que foi o incêndio na Arrábida em 2005, talvez fiquemos com o ar de preocupação acentuado, tanto mais que, ao que parece, cerca de 80% dos incêndios que nos amedrontam têm origem humana não criminosa… Números para pensarmos, claro!
A exposição passa por quatro núcleos: “Imagens para um álbum do desassossego”, uma foto-reportagem assinada por António Marques sobre o incêndio na Arrábida, com momentos fortes de destruição e de restauro da Natureza, de paisagem soturna e de paisagem vivida; “Arrábida: a vida secreta da serra”, com fotografia de José Costa, na variedade macro, captando insectos que fazem a vida da Arrábida e nos surpreendem vindos dessa labuta silenciosa, minimizada, mas constante e perturbadora; “Escalas”, em fotografias de Rosa Nunes, em que o corpo feminino e o relevo da serra se medem, num roteiro que começa com a música do silêncio e acaba com o restolho que alberga hipóteses de vida, depois de o olhar passar também pelos estados de agressão à serra; “Morte ou vida na estrada: a escolha é sua”, com pintura de Ana Isa Férias, Luís Valente e Rita Melo, três manifestações que outro grito podem ser contra a morte facilitada e em favor da vida preservada.
Diga-se ainda que esta exposição, que vai estar até Setembro, surge também na sequência de parcerias e do compromisso estabelecido aquando da assinatura, em 2008, da Carta de Europeia de Segurança Rodoviária. Ao visitante é oferecida também a possibilidade de se comprometer com a cidadania rodoviária ao assinar um documento em que assume contribuir para a segurança e entender esse projecto como “desafio comum”.
Como as mensagens são fortes nesta exposição, por onde passa ainda a palavra, junto o texto de Fernando Gandra, intenso na sua verdade:

[reproduções a partir do catálogo da exposição: duas fotografias de António Marques; "E agora...", de Luís Valente (2009); "Promessa" (excerto), de Rosa Nunes (2009)]

sábado, 10 de maio de 2008

Fernando Gandra - "O sossego como problema (peregrinatio ad loca utopica)"

Que espécie de livro é este que entra abruptamente no domínio das utopias, sem dizer ao que vem ou porque vem, fazendo o seu próprio percurso de inquietações, de pensamento e de citações (em que, deliberadamente, se misturam poetas com filósofos, clássicos com contemporâneos, músicos com pintores)?
Uma possível razão para este tipo de entrada é o seu primeiro parágrafo, que diz: “A linha do horizonte situa-se no ponto indefinido onde o céu e a terra se unem. É indefinido porque recua à medida que avançamos. A linha do horizonte só é fixa e acessível à distância.” E assim se vai construindo o percurso que visa entrar pelo horizonte, aproximar-se da utopia, ainda que sabendo que a distância que nos separa da utopia nunca se reduz… Sabemos que, neste caminhar, “a utopia coloca-nos entre a terra e o céu, ou, se quisermos, entre a razão civil e o mito escatológico (…). É uma revelação que registamos como improvável mas que, mesmo assim, põe em causa a coesão do nosso esmagador património de certezas. (…) É pura promessa, isto é, diálogo silencioso com o destino.”
A ideia transmitida pelo subtítulo – “peregrinatio ad loca utopica”, resultante de um empréstimo de Jorge de Sena (Peregrinatio ad loca infecta, de 1969), que também já a recolhera de uma Peregrinatio ad loca sancta, composição de uma provável freira bracarense do século IV – é aquela que mais dirá sobre o objecto deste livro: a história das utopias, numa romagem pessoal, em que entram a filosofia, a literatura, a história, a música e a política.
Uma segunda linha de apresentação do livro advém da citação de Eduardo Lourenço, que abre o discurso – “O ensaísmo no seu risco mais profundo não tem objecto próprio, mas inventa o seu objecto”, acentuando o autor que o “risco” contém a duplicidade do sulco e do perigo, um e outro na emergência de se construírem com palavras ou de à palavra darem a primazia.
Este inventar, no sentido de criar ou recriar, é o que faz com que Fernando Gandra alinhe a sua escrita, ora pela discussão em género de ensaio, ora pela evocação e apelo à memória, ora pela incursão autobiográfica, ora pela construção poemática, ingredientes que, naturalmente, determinam que este livro não seja facilmente catalogável. A propósito do resumo que faz de um conto de Eça de Queirós, o autor é o primeiro a tentar justificar o carácter compósito desta obra, jogando na antecipação relativamente ao leitor: “é natural que se pergunte o que faz um texto literário tão longamente transcrito num trabalho que, embora transdisciplinar, se pretende sobretudo concebido no registo da filosofia”. E, depois, vem a resposta: “É que se a filosofia, como, aliás, a religião, tem a vocação de estipular verdades universais, tanto como a história tem a de estabelecer a coerência dos factos, é a arte, literária ou outra, que elucida como e porquê o homem comum vive essas verdades e esses factos, como e porquê integra nos seus comportamentos ordinários e (aparentemente) fugazes os universais que os transcendem e orientam. É a arte que estabelece a complexa relação entre a verdade e a vida, entre a essência e a existência, entre o eterno e o efémero.” Extrapolando… a arte permite esse encontro e aproximação do homem com a utopia. E daí o recurso a abundantes citações por onde perpassam os nomes de Fernando Pessoa, Camões, Almeida Faria, Rilke, Baudelaire, Aquilino, Beckett, Brecht, Almada Negreiros, Drummond, Unamuno, Platão, Tomás Moro, Victor Hugo, Miguel Torga, Goethe, Ruy Belo, Ovídio… E daí também o espaço para a música, na companhia de Beethoven, Vivaldi ou Stravinsky, ou para a pintura, nas telas de Gauguin, Picasso, Bellini…
A transdisciplinaridade é definida por Fernando Gandra como “uma espécie de sinestesia cognitiva que transgride as prescrições académicas porque dá espaço ao regime dos afectos”, um argumento mais para sustentar este seu livro, em que se cruza a filosofia com os gostos e os desgostos do mundo e da vida, em que se torna evidente a rejeição do academismo, demonstrada, por exemplo, no valor que à análise confere a experiência pessoal ou numa escrita em que o eu se não esconde ou, sobretudo, numa exposição em que as remissões bibliográficas não são inseridas e em que é mesmo recusada a necessidade de um índice remissivo, curiosamente com o argumento da liberdade – “aqui não há índice remissivo porque é quase só papel vadio, desprevenido”, diz, a fechar o livro. (...)
Que espécie de livro é este, então?
Para falar das utopias, Fernando Gandra parte, muitas vezes, de coisas simples, com que nos confrontamos no quotidiano, tais como: o adágio “água mole em pedra dura tanto dá até que fura”; a pergunta “porque fechamos os olhos e a boca aos que acabam de morrer?”; a questão da energia em que se apoiam as revoluções; os hinos nacionais, encarados como a imagem que um povo tem e quer de si; as lâmpadas sempre sujas, nas prisões e nas esquadras; a simultaneidade da existência dos “novos ricos” e da “pobreza envergonhada” na utopia do dinheiro; o valor de gestos como a “palavra de honra”; as intuições de género como aquela, feminina, de saber a importância do calar-se; a valorização de expressões como “muro de silêncio” ou aquela construção comparativa do “como se” ou outra, mais expectante, do “espero que”…
A saída [depois de se confrontar com Rousseau e a democracia, com Hegel e o absoluto à mistura com Beethoven, com Marx e os "ismos" comunismo e nazi-fascismo, com a utopia do Estado Novo] é pela utopia do silêncio, algo que já vinha anunciado no primeiro capítulo do livro, algo que suscita a “ambiguidade ontológica”, algo que “sabemos que existe, mas não sabemos bem em que consiste”.
No último capítulo, uma epopeia do silêncio, sabemos que, se absoluto, é “o último episódio de um curriculum” ou “o fim de um estado civil”, duas excelentes imagens que permitem ao homem ser a ponte entre o silêncio inicial (a “mudez pré-natal”) e a escuridão total onde “o silêncio não tem obstáculos”.
Sobre: Fernando Gandra. O sossego como problema (peregrinatio ad loca utopica). Lisboa: Fenda, 2008
[Excertos da apresentação da obra na noite de ontem, na Culsete, em Setúbal]

Máximas em mínimas (26)

Encontrar o silêncio
"Está na sabedoria muda, incomunicável. está na pergunta simples e na resposta impossível. Na espuma que se forma contra o costado de um navio em alto mar. É um prémio de consolação, um privilégio como quando andamos a altas horas numa rua deserta. Há silêncio no desânimo e quando temos frio, muito frio. Há ruído nas evidências, silêncio no seu desprezo. Nas mais obscuras paixões e nas súplicas que as alimentam. Há silêncio nas fábulas onde os animais, porque sabem muito, só dizem o que é preciso e decisivo. Quando se vai ver um filho preso ou a mãe morta. Quando no metropolitano se ouve o violino de um refugiado da fome ou de um cego e um senho de gravata deposita uma moeda sem se baixar um pouco. Há silêncio nos cais de embarque. Há sossego quando se morre tarde; ruído, agitação e lágrimas quando se morre jovem.
O silêncio está na véspera e no dia seguinte. Na confidência e na conspiração. Na sumptuosa sombra de uma árvore antiga e quieta quando há calor e ervas pobres ondulam à nossa volta. No alto voo dos pássaros e numa casa em ruínas. Está na rotina e na grande ambição. No pasmo e no desaire. No vício quando é grande e na virtude quando é imensa.
Há silêncio na voz dos vagabundos, na sua muda heresia. Há silêncio quando algum desistente pára a meio do mais alto aqueduto da cidade. Há silêncio na astúcia, na tenacidade e no desgosto. Há silêncio no primeiro botão apertado da tua blusa."
Fernando Gandra. O silêncio como problema (peregrinatio ad loca utopica), 2008.
[foto: desde Seixal, Madeira]

Máximas em mínimas (25)

O silêncio...
"... é um sermão sem palavras que nos convida a pensar sobre o que já ouvimos e sobre o que ainda não dissemos, nem vamos dizer. Sobre a tentação de falar e o incómodo que é, que pode ser, ouvir."
Fernando Gandra, O sossego como problema (peregrinatio ad loca utopica), 2008.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Sugestão

O livro O sossego como problema, de Fernando Gandra (Lisboa: Fenda, 2008), vai ser apresentado amanhã em Setúbal, na Culsete. Fica a sugestão, que valerá muito mais se houver uma viagem até à obra...

sábado, 3 de maio de 2008

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da Auto-Estima – 80
Juventude – No discurso a propósito do 25 de Abril, no Parlamento, o Presidente da República revelou os dados de estudo sobre os jovens portugueses e a política, tendo mostrado que, para as perguntas “qual o número de Estados da União Europeia, quem foi o primeiro Presidente eleito após o 25 de Abril e se o PS dispunha ou não de maioria absoluta no Parlamento”, as respostas denunciaram que “metade dos jovens entre os 15 e os 19 anos e um terço entre os 18 e os 29 anos não foi sequer capaz de responder correctamente a uma das três perguntas”. Admiraram-se os responsáveis políticos, num discurso “politicamente correcto” e, para o cidadão comum, ficou quase a ideia a perguntar: então não era sabido? Numa sociedade que tanto capricha em fomentar as flexibilidades e as futilidades, que importância terá que os jovens não saibam responder a questões como essas? Grave é haver adultos, e até responsáveis a vários níveis, que desconhecem essas respostas de igual modo!... Os jovens crescerão e, se interessados, demandarão as respostas para essas questões, mesmo porque não terão sido testemunhas da História que lhes foi perguntada… No entanto, percebe-se a preocupação presidencial: é que esta “ignorância” terá razões profundas, às quais não será alheio o desinteresse pela causa política, a descrença nesse meio decisor que vive a ideia da festa, das recepções e da permanente atenção dos holofotes e dos media, ao mesmo tempo que a vida dos jovens e das suas famílias não esconde a sua dureza… Veremos, nas reuniões que estão previstas para Maio e que vão surgir por iniciativa presidencial, o que vão as representações juvenis dizer ao Presidente da República quanto a este desinteresse…
Década – O “Sem Mais” completou a década, o que é motivo de satisfação para o grupo de comunicação social que o suporta e anima. É óbvio que lhe têm que ser dados os parabéns! Adstritos ao “Sem Mais”, estão os títulos regionais e locais, como, por exemplo, o “Correio de Setúbal”, que também terá motivos para aplaudir o aniversário do pai, claro. Mas, enquanto leitor e colaborador, gostaria de ver este jornal a cruzar-se com o quotidiano das pessoas, dos setubalenses, com a vida que as próprias pessoas fazem e não com a vida que lhes querem fazer ou mostrar. Nessa altura, creio que poderíamos dizer estar perante o melhor projecto jornalístico da região, sem qualquer favor. Até lá, vamos acreditando nessa possibilidade e na vida que nos é transmitida por um jornalismo que tem ousado ser diferente, que por vezes se tem aventurado no questionar e no reportar. Mas é preciso mais. Para bem dos leitores e da própria região!
Sugestões – Seja-me permitido sugerir dois títulos para leitura, ambos devidos a autores ligados a Setúbal (não porque cá tenham nascido, mas porque para Setúbal vieram e ficaram), recentemente editados: no âmbito do pensamento e do ensaio, proponho a obra O sossego como problema (peregrinatio ad loca utopica), de Fernando Gandra (Lisboa: Fenda, 2008), que terá apresentação pública em Setúbal em 9 de Maio; no domínio da ficção narrativa, assinalo o aparecimento de A especiaria, de António Oliveira e Castro (Lisboa: Guerra e Paz, 2008), romance que passa pela história de África também, com data de apresentação pública em Setúbal ainda não definida. Um e outro já experimentaram a escrita em formas diversas; têm, portanto, provas dadas. Embarquemos nas respectivas criações!

sábado, 5 de abril de 2008

Em leitura: Fernando Gandra e as utopias

É algarvio, divide as estadas entre Bruxelas e Setúbal, percorreu os caminhos do Direito e da Filosofia, tem escrito poesia e ensaio. Acabou de chegar às livrarias o seu último livro, O sossego como problema (peregrinatio ad loca utopica), com a chancela de Fenda Edições. Começa assim:
"A linha do horizonte situa-se no ponto indefinido onde o céu e a terra se unem. É indefinido porque recua à medida que avançamos. A linha do horizonte só é fixa e acessível à distância.
Na verdade, nunca temos o que queremos. Nem teremos. É o não-ter ou o não-ter-ainda que alimenta o desejo. É o vazio que sustenta a avidez. O já-ter extingue o desejo. A vivência do ainda-não-ter ensina-nos a esperar, a ter esperança, categoria mental em que o tempo é simultaneamente castigo e recompensa. Não-ter coloca-nos num estado de tensão que nos desestabiliza e nos obriga a dirigir para o exterior de nós mesmos, a partir à aventura sem objecto ou com objectos provisórios e frustrantes, nada pacificadores do desejo inicial que assim muda de direcção em pleno movimento. Isto, quer se dirija ao pão, à mulher ou ao poder."
Em leitura.