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domingo, 13 de setembro de 2009

Depois do frente-a-frente tão esperado...

O frente-a-frente que a SIC transmitiu na noite de ontem entre Manuela Ferreira Leite e José Sócrates confirmou dos dois políticos a ideia que já havia deles. Não trouxe, portanto, nada de novo. Mas serviu para lembrar as diferenças. E, agora, com a campanha eleitoral a começar hoje, não sei se haverá algo a transmitir aos eleitores que eles não saibam já.
O estilo de Ferreira Leite poderá ser austero, mas não é alterável; o de Sócrates poderá ser alegadamente moderno, mas tem tido tantas alterações (e é tão frágil no plano das convicções) que resta saber em que é que se deve acreditar. Não me comove esta faceta de serenidade que Sócrates tem estado a apresentar ao país depois dos resultados das eleições europeias, marcados que estamos pelo feitio que o próprio apresentou ao longo do mandato. Bem podem as assessorias e as técnicas da comunicação levar Sócrates a dar uma diferente imagem, mas à superfície vem sempre o que é genuíno. Ontem, quis substituir a jornalista e interrogar Ferreira Leite sobre as portagens, chegando a dizer que ia ele mesmo responder à pergunta em vez de Ferreira Leite, táctica de menosprezo e de ataque imediato ao adversário. Ontem, também, Sócrates quis dar a entender que era o PSD que estava a ser julgado; não era de julgamento que se tratava; mas, se fosse, o objecto lógico do julgamento seria a política socialista deste mandato. Ontem, também, quis pôr em causa os critérios que levaram à escolha de João Jardim para candidato a deputado (e valeria a pena questionar sobre a cobertura que o PSD dá a Alberto João Jardim), mas as premissas estavam erradas. E, finalmente, a equipa ministerial, no caso de Sócrates ganhar, já sabe uma coisa: não será reconduzida (assim o deixou esclarecido quando disse que o novo governo terá novos ministros). O único a continuar no Governo, no caso de o PS vencer, será então Sócrates, ele mesmo. Vá lá saber-se o porquê desta insistência…

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Ah, o silêncio!...

No Público de hoje, uma interessante crónica assinada por Miguel Gaspar, intitulada "A sombra do silêncio". Curiosa, porque estamos numa sociedade que se farta da classe dos políticos que falam por tudo e por nada e que também se incomoda se nessa mesma classe há quem opte por momentos de silêncio. Um problema de senso, apenas? Transcrevo o início e o final da crónica.
«O que é que estamos a dizer quando estamos calados? A pergunta pode parecer paradoxal, mas não é. Enquanto seres humanos, estamos sempre a comunicar. Se não dizemos nada, falamos através dos gestos ou da roupa. E mesmo se desaparecermos do campo visual dos outros seres humanos, estamos a dizer aos outros que desaparecemos. E os outros perguntam: mas afinal de contas, por que é que ele desapareceu?
Falar muito ou não dizer nada podem não ser coisas tão diferentes quanto isso. O anterior líder do PSD, Luís Filipe Menezes, era muito falador (e outros antes dele, como Santana Lopes, também). A páginas tantas, apetecia dizer-lhe o mesmo que o rei de Espanha disse a Hugo Chávez: por que não te calas? O longo (mais de um mês) silêncio da actual líder da oposição levou-nos a perguntar: mas por que é que não fala?
Nunca estamos sós quando falamos (ou quando ficamos calados). À volta do que dizemos, os outros constroem uma trama. Por que é que ele disse isto? E por que o disse agora? E por que não disse outra coisa? E por que foi ele a dizê-lo? Essa trama é a soma das inferências que os outros fazem a nosso respeito. Por isso, a vida está cheia de equívocos. É por causa de tramas dessas que passamos a vida a tramar-nos. Assim terá acontecido, dizem alguns (mas por que será que o dizem?), com Manuela Ferreira Leite. Antes de falar, já estava tramada por ter ficado tanto tempo calada. (...)
José Sócrates, como Santana Lopes e Filipe Menezes, é filho de uma geração para quem fazer política é sobretudo uma maneira de fazer televisão. No PSD sempre gostaram de o fazer seguindo o modelo da telenovela, atribuindo-se ao líder o papel do galã. Com José Sócrates é mais tecnologia, tipo The Matrix, um país em forma de realidade virtual onde um dia todos os eleitores serão como Mr. Smith. Manuela Ferreira Leite quer cortar com essa escola, num certo sentido regressando ao passado. Calando-se, tornou-se apenas um duplo dos políticos prolixos. Tem de encontrar o tempo da sua palavra. Não o conseguirá se continuar a viver à sombra do silêncio.»