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terça-feira, 16 de julho de 2013

Para a agenda - Música e Dança da Bela Vista, em Setúbal



Uma tarde de música e dança na Bela Vista, em Setúbal. "Mudar o olhar". Para que nos olhemos. Para a agenda.


sexta-feira, 15 de maio de 2009

Um outro olhar sobre a Bela Vista (Setúbal)

Somos alguém
«Podemos ser pobres, mas somos alguém. A Dulce, do café, a Carla do CCA, a Felismina da Associação Cabo-verdiana, a Mena do Supermercado, são alguém. O Tony e o Toninho mortos pela polícia, apesar de já não estarem entre nós, também eram alguém.
O Bairro da Bela Vista, em Setúbal, é muito mais que a violência relatada na imprensa, por estes dias. Esta ideia de que a Bela Vista e outros bairros pobres são uma ameaça social é, justamente, construída pela forma como são veiculadas as notícias relativamente aos mesmos, o que contribui, sem dúvida, para o aumento da sua estigmatização.
É preciso lembrar que no meio daquele caos urbanístico moram homens, mulheres e crianças que vivem com dificuldades a vários níveis - social, educativo, laboral - e estão limitados nos seus direitos políticos. Estas pessoas esforçam-se, diariamente, por uma vida melhor e não necessitam da tolerância dos outros, mas sim da garantia dos seus direitos.
Porém, estes não fazem as primeiras páginas de jornais. O que as faz são as rusgas, os bloqueios policiais e a violência.Não é fácil conviver com estes cenários. Por mais que as pessoas do bairro estejam habituadas, é sempre uma profunda humilhação ser-se recorrentemente revistado na rua, viver com recolheres obrigatórios e perímetros de segurança, proibido de ir trabalhar, de ir estudar, como se não bastasse a carência e a exclusão.
O problema da Bela Vista não se resolve com rusgas e bloqueios policiais, mas sim através de políticas públicas transversais que resultem de uma profunda articulação entre os vários actores sociais: a população do bairro, a autarquia, as associações, as escolas, a segurança pública, etc. A Bela Vista sofre de problemas sociais estruturais que vêm de anos de invisibilidade, isolamento e discriminação, para além de padecer de uma enorme falta de auto-estima.Perante esta realidade é urgente requalificar o bairro, garantir mais respostas sociais, novas infra-estruturas e coisas simples como melhorar a iluminação, a recolha do lixo, a limpeza, etc.
É preciso quebrar o ciclo de pobreza, apostar na formação e diminuir a precariedade laboral e o desemprego. Ao invés de demonizar, ainda mais, o bairro, espero que estes episódios sirvam para reflectir sobre os problemas da Bela Vista, criando respostas e soluções que contribuam para melhorar a vida dos seus habitantes, aqueles que não fazem as primeiras páginas dos jornais. Quando o reverendo Jesse Jackson escreveu o poema I am somebody fê-lo com a intenção de promover o respeito e o diálogo intercultural. As pessoas da Bela Vista são alguém, não podem ser rejeitadas, discriminadas e têm direitos. É só isso que os moradores da Bela Vista querem.»
Mónica Frechaut. "Somos alguém". Público: 14.Maio.2009

domingo, 10 de maio de 2009

A Bela Vista (Setúbal) lida por Vasco Pulido Valente

Um aviso
«No Bairro da Bela Vista, em Setúbal, construído em 1976, vivem à volta de 7000 pessoas. É, segundo o Diário de Notícias, a "zona mais multirracial" da cidade (africanos, ciganos, timorenses). Certamente por isso é também a zona com mais desemprego: no último trimestre o desemprego no distrito andava pelos 10,5 por cento (um número inquietante) e na Bela Vista por mais do dobro - 23,5 por cento. Como seria de esperar, também a taxa de escolaridade está muito abaixo do normal, porque ninguém estuda sem esperança de trabalho. O presidente da junta de freguesia também se queixa da falta de "equipamentos lúdicos", de "equipamentos de lazer" e do mau estado do "parque habitacional". Apesar de tudo, a criminalidade está "muito abaixo" da de outros bairros de Setúbal e as relações entre a população e a polícia têm sido normalmente "boas".
Mas já houve um caso de violência grave, em 2002, quando um agente matou a tiro um jovem e quinta-feira à noite, depois do enterro de outro jovem local também morto a tiro (desta vez no Alvor, pela GNR do Algarve), um grupo atacou a esquadra da polícia à pedrada e com cocktails molotov. Pior ainda: sexta-feira, a meio da tarde, um homem (com capuz) voltou a atacar a esquadra com uma caçadeira de dentro de um carro "em alta velocidade". A PSP não acha - e aparentemente com razão - que se trate de um gang organizado. Acha que o episódio, embora dramático, foi um acto da mesma natureza dos tumultos da véspera: um gesto de revolta contra a ausência de futuro e a miséria de uma geração.
O "Bispo Vermelho", ou seja, o bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins, concorda. Numa declaração solene, avisou que um "incidente" desta natureza pode com facilidade "encontrar" uma "fogueira", "preparada para incendiar o país". D. Manuel não pensava, evidentemente, numa conspiração. Pensava na fome. "Sem pão", disse ele, "ou mato ou me mato". Não custa a imaginar que se comece por matar. O bispo emérito não é o primeiro a profetizar uma explosão brutal e generalizada, sem qualquer objectivo político e fora de qualquer partido. Sucedeu em França e sucedeu na Grécia; e Mário Soares não pára de prevenir que nada impede - e muita coisa indica - que venha a suceder aqui. Se o sistema de representação legal - o Parlamento, o Governo, o Presidente - deixa de facto de representar o povo ou parte dele (e não uso aqui a palavra demagogicamente), o que fica é, como de costume, a acção directa.»
Vasco Pulido Valente. "Um aviso". Público: 10.Maio.2009