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domingo, 18 de junho de 2017

Setúbal entre 40 destinos europeus da "Hola - Viajes"



O nº 25 da revista espanhola Hola - Viajes, recentemente saído, é dedicado ao tema “40 Escapadas desconocidas a lugares únicos por Europa en bici, en barco, a pie, en coche”. A estas propostas são acrescentadas mais “10 Viajes increíbles por el resto del mundo”.
Fixemo-nos nas 40 primeiras, em que Portugal obtém três propostas de itinerários e de visitas: às adegas e vinhedos do Douro, aos arredores de Lisboa (“De Belém a Mafra”) e a Setúbal (“Avistar delfines en el estuário del río Sado”).
A cada proposta de visita são atribuídas quatro páginas, incluindo texto e fotografias. No caso do roteiro para o estuário do Sado, assinado por Andrés Campos (que subscreve as outras duas propostas lusitanas), a referência começa com a Arrábida, mais especificamente com o palácio da Comenda (“En 1964, pocas semanas después de que asesinaran al presidente Kennedy, su viuda Jacqueline decidió retirarse al lugar más discreto e insospechado del mundo, donde nada ni nadie le recordaran constantemente quién era y lo que acababa de suceder. Ese lugar no estaba en la Polinesia, ni en el Índico, ni en la Patagonia, sino en Setúbal, a solo 50 kilómetros al sur de Lisboa. Medio siglo después, el palacio da Comenda, donde Jackie se refugió con sus dos hijos, es una ruina melancólica que no encuentra comprador porque custa 45 millones de euros y también porque la gente que podría pagarlos prefiere fondear su yate en parajes exclusivos más que un cala que, a diario, es un paraíso solitario de agua esmeralda, donde nadan confiadamente los delfines.”
Assim iniciada a rota, a proposta faz o viajante seguir pelo Parque Natural da Arrábida, com visita às suas praias, incluindo a Lapa de Santa Margarida e a prática de vários desportos e actividades radicais. Lembra ainda a observação de aves no estuário, os golfinhos e, na gastronomia, o choco frito, que, com ironia, refere da seguinte forma: “en realidad, lo extraño no es que haya delfines, sino que aún queden chocos, porque entre los que devoran estos cetáceos y los que comen a todas horas los setubalenses, sobre todo, fritos, debían de haberse extinguido en la bahia hace siglos.” E termina com esta tirada, talvez irónica, talvez mágica: “Ciertamente, estas aguas son milagrosas.”
A proposta segue ainda pelo moinho de maré da Mourisca, onde pode ser feita a prova do queijo de Azeitão e respectivo moscatel e onde o visitante pode avistar aves. Entre os monumentos, a revista chama a atenção para o Mercado do Livramento, o Convento de Jesus, a Galeria Municipal (no edifício do Banco de Portugal), a fortaleza de S. Filipe.
As propostas podem ser lugares comuns, mas figurar ao lado de recomendações de visita às baleias na Islândia, aos ursos selvagens na Finlândia, às abadias de Lovaina na Bélgica, à magia da Cornualha em Inglaterra, entre muitas outras, vale bem a pena esta promoção de Setúbal. Entre os 40 destinos europeus, apenas Portugal, França e Áustria surgem com três propostas; com duas, há a Islândia, a Escócia, a Itália, a Alemanha, a Finlândia, a Croácia, a Noruega, a República Checa e a Grécia; com um itinerário surgem países como Inglaterra, Geórgia, Montenegro, Chipre, Roménia, Holanda, Polónia, Suíça, Eslovénia, Malta, Bélgica, Irlanda e Eslováquia.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Letras ComVida - Entre outras coisas, a Grande Guerra na literatura



O mais recente número da revista Letras ComVida - Revista de Literatura, Cultura e Arte (Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras - CLEPUL, nº 8, 2016-2017), dirigida por Annabela Rita e Miguel Real, nas suas 330 páginas, dedica cerca de um terço à Primeira Grande Guerra sob o título “A Primeira Guerra Mundial - Grande Guerra - Impactos e Modelações Culturais”.
Nesse dossiê, pode o leitor aprofundar assuntos como: “Impactos e Modelações Culturais”, por Ernesto Castro Leal; “José de Macedo - O Conflito Internacional e a Renascença Portuguesa”, por Teresa Nunes; “Memorialismo de Guerra - Os Exemplos de Carlos Selvagem e João Pina de Morais”, por Miguel Real; “História de uma Guerra Esquecida - A Tropa d’África”, por Bruno J. Navarro; “Ilusões e Desilusões de um Repórter Português na Guerra”, sobre Adelino Mendes, por Manuel M. Cardoso Leal; “Pincéis, Lápis e Baionetas - A Ilustração como Instrumento de Propaganda durante a Primeira Guerra Mundial”, por Vera Mariz; “Entre a Memória e a Recriação Literária - O Testemunho de Alexandre Malheiro”, por Rui Sousa; “Os Modernistas e a (Des)Construção do Ineludível”, por Dionísio Vila Maior, e “Nacionalismo, Darwinismo, Guerra e Paz”, por Joaquim Miguel de Morgado Patrício.
Obviamente, a revista tem muito mais (e com interesse): trabalho sobre José Blanco, de Onésimo Teotónio de Almeida; leitura de Não é Meia Noite Quem Quer, de Lobo Antunes, por Norberto do Vale Cardoso; estudos sobre Aquilino Ribeiro (de Carlos Nogueira), Eça de Queirós (de Elisabete Correia Campos Francisco); entrevista com Mário Cláudio (por Annabela Rita, Miguel Real e Carla Sofia Luís); dossiê sobre João Rui de Sousa; textos sobre Gago Coutinho e Manuel Sérgio.
Um número com muito interesse (como, aliás, se deve dizer relativamente a todos os anteriores). Para consultar, para ler!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Para a agenda - "DiVersos", nº 18





Com a presença de três dos poetas incluídos (José Manuel Teixeira da Silva, Luciano Moreira e Teresa Ferro), naturais do  Porto ou fixados na região, e dois dos tradutores (José Carlos Marques e Teresa Ferro), também aqui fixados, será apresentada a série DiVersos - Poesia e Tradução, a propósito da publicação do seu n.º 18. Na sexta-feira, 17 de maio, às 18:15, no Porto, no Palacete Viscondes de Balsemão, à praça Carlos Alberto n.º 71.
Fundada em 1996 por quatro poetas e/ou tradutores naturais do Porto ou ao Porto ligados, a DiVersos é já hoje em Portugal uma das publicações de poesia mais longevas. A sua ligação ao Porto em nada impede que seja também decididamente universal, tendo até hoje traduzido mais de 130 poetas de 16 línguas diferentes e inserido poemas em língua portuguesa de mais de 130 autores, incluindo numerosos poetas do Brasil, e alguns de outros países de língua oficial portuguesa ou a eles ligados (Angola, São Tomé, Moçambique).
Obviamente… para a agenda!


domingo, 6 de março de 2011

O número 100 da revista "Ler"

Já está nas bancas o número 100 da revista Ler (da Fundação Círculo de Leitores) correspondendo à sua 101ª edição, uma vez que da colecção faz parte o número 0 (zero), saído no Outono / Inverno de 1987, com a indicação “fora do mercado” (o número 1 corresponderia ao Inverno de 1988, já ao preço de 300$00, algo como 1,50 €).
Em torno do número 100 andam as recolhas que esta edição apresenta: “100 capas”, “100 imagens de páginas”, “100 livros”, “100 figuras”, “100 ideias para o futuro” e “100 citações”, antologias a partir das colaborações e das entradas na revista ao longo da sua história. Depois, vários dos seus cronistas dissertam sobre essa simbologia do centésimo número ou sobre o que foram as 100 saídas da publicação, com destaque para o nome que é colaborador desta revista desde o seu número zero: José Guardado Moreira.
Por falar no número zero, dirigido por António Mega Ferreira, algumas ligações a Setúbal eram nele evidentes: o grafismo era devido ao setubalense José Teófilo Duarte; era anunciada a obra Março Desavindo, de Mário Ventura (nome ligado a Setúbal e à criação do Festróia).
E, neste número 100, dirigido por Francisco José Viegas, também passam diversos nomes que cruzaram a sua história com a região de Setúbal, a saber: nas “100 figuras”, Manuel da Fonseca (de Santiago do Cacém), Pedro Tamen (a viver nas terras de Palmela), Al Berto (de Sines), António Osório (ligado a Azeitão), Luiz Pacheco (que por Setúbal peregrinou), Fernando Campos (que incluiu a Arrábida no seu romance histórico); na rubrica “100 citações”, uma reflexão de António Osório sobre a palavra – “Mas eu entendo que as palavras precisam de ser limpas do sarro que as envolve. Do sarro, do lixo comum. E assim as palavras podem purificar-nos.”
O leitor confronta-se também com uma entrevista a George Steiner conduzida por Beata Cieszynska e José Eduardo Franco. O ensino, o papel necessário das Humanidades, a supremacia da economia ou a corporação multinacional, a crise europeia, a história, a necessidade de ler, as redes sociais e a cultura portuguesa são temas por que passa este académico de Cambridge. Conhece bem Fernando Pessoa, José Saramago, António Lobo Antunes e gostaria de conhecer Camões – “Precisamos de Camões – falta à nossa cultura europeia o conhecimento do génio de Camões”, diz. E, já agora, mais uma achega, que é um bonito elogio à leitura: “Eu sou muito velho, mas tento, todos os dias, ou quase todos, aprender um poema, ou fragmentos de um poema, de cor, porque é assim que se agradece uma bela obra. Que outra maneira tenho eu de agradecer a Dante, a Cervantes, a Lope de Veja ou a Shakespeare?”
Com estes nomes grandes da literatura se cruza ainda o texto assinado por Harold Bloom, “O cânone do génio”, justificação de uma obra, Genius, cuja tradução para língua portuguesa é anunciada para este ano. A problemática em torno daquilo que define um génio é o eixo deste ensaio: a sua vitalidade, a sua sabedoria, o facto de alimentarem civilizações, a sua indispensabilidade. O texto termina com um aviso para os tempos em que somos protagonistas: “Não podemos enfrentar o século XXI sem esperar que ele nos traga um Stravisnki ou um Louis Armstrong, um Picasso ou um Matisse, um Proust ou um James Joyce. Desejar um Dante ou um Shakespeare, um J. S. Bach ou um Mozart, um Miguel Ângelo ou um Leonardo é pedir demais, uma vez que os talentos de tal magnitude são muito raros. Contudo, desejamos, necessitamos de algo que esteja acima do século XXI, seja lá o que for.”
A Ler tem sido assim: múltipla, surpreendente, englobando no seu recheio escritores, cientistas, pensadores, livreiros, leitores, livros, escritas e muito mais. Um acervo de tal forma importante que bem se justificaria a publicação de um índice, tal como é justificada a curiosidade perante cada número que sai para as bancas.
Concluo como Guardado Moreira no final da sua crónica evocativa que entra neste número 100: “e agora, pouco dado a nostalgias, aguardo”, lendo, “a próxima chegada do nº 200”!

domingo, 18 de outubro de 2009

A "Nova Águia" em torno de Pascoaes, com a sua voz

O quarto número da revista Nova Águia (Sintra: Zéfiro, nº 4, 2º semestre 2009), sob a direcção de Paulo Borges, Celeste Natário e Renato Epifânio, já está na rua. O tema de capa é “Pascoaes, Portugal e a Europa”, que reúne abundante e diversificada colaboração, podendo considerar-se conjunto de bibliografia indispensável para o entendimento do pensar de Pascoaes.
Outro contributo importante deste número da revista para o conhecimento do poeta do Marão é a inclusão de um cd reproduzindo a leitura do texto “A alma ibérica” pelo próprio autor, Teixeira de Pascoaes, boa oportunidade para conhecer a voz do poeta que faleceu há mais de meio século (1952) e para ouvir um texto bonito sobre a Ibéria, onde, a dada altura, é dito: “A Ibéria é um corpo e uma alma. (…) O osso ibérico deu o esqueleto de Cervantes; a carne lusitana deu o coração de Mariana e o misticismo panteísta de Fr. Agostinho da Cruz, uma espécie de Francisco de Assis, em ingénua miniatura ou do tamanho da Arrábida.” E, quase no final da gravação, a Arrábida e o poeta de Ponte da Barca (que faleceu em Setúbal) voltam à voz de Pascoaes, depois de falar do sentimento de Unamuno relativamente a Portugal e à identidade ibérica, dizendo que “a expressão elegíaca da Ibéria, a mesma que recebemos na leitura de Fr. Agostinho” é a Arrábida, “olimpo místico e saudoso”.
Deste fascínio de Pascoaes pela Arrábida já nos testemunhara Sebastião da Gama em texto publicado no Jornal do Barreiro (nº 73, 11.Outubro.1951), sob o título “Carta de Setembro – Visita a Teixeira de Pascoaes” (depois incluído na obra O segredo é amar). Em 14 de Setembro desse ano, com Joana Luísa, sua mulher, Sebastião da Gama viajara até Amarante com a intenção de visitar Pascoaes, a quem ia oferecer os seus livros. Regressado desse encontro, em 23 de Setembro, ainda com a memória fresca, Sebastião da Gama redigiu a crónica para o periódico barreirense, testemunhando: “Na semana passada fui ver o Tâmega e o Marão. Fui ver S. Gonçalo de Amarante (…) Ali a dois passos ficava Pascoaes, o cantor do Marão e do Tâmega. Quis conhecê-lo. Tinha obrigação de conhecê-lo. (…) Era a gratidão pela sua poesia. Era mais: que eu fui à sua casa como um peregrino (…). E Pascoaes apareceu. (…) De repente, estávamos a conversar como velhos amigos. (…) Eu levava só a credencial de vir da Arrábida. Mas tanto bastava para aquele homem simples me receber de braços abertos. (…) E mais ainda ouvi-lo dizer: A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte. Foi quando tive pena que Pascoaes não tivesse nascido na Arrábida. (…)”
Em torno do tema que a revista escolheu para este número, estão presentes os seguintes autores: Pinharanda Gomes (“Pascoaes e a alma da Europa”), Pedro Teixeira da Mota (“Da actualidade de alguns ensinamentos de Teixeira de Pascoaes”), Pedro Martins (“Da Terceira Idade à Segunda Vinda: Algumas notas sobre o Messianismo de Pascoaes”), Paulo Borges (“Índias espirituais e ilusão em Teixeira de Pascoaes e Fernando Pessoa”), Miguel Real (“O perfil de Portugal segundo Teixeira de Pascoaes”), Maria Luísa de Castro Soares (“Ser Português e Ser Universal na obra de Teixeira de Pascoaes”), Manuel Ferreira Patrício (“A saudade e a pátria no Livro de Memórias de Teixeira de Pascoaes”), Luís Loia (“A arte de ser Português e a necessidade da educação para a Portugalidade”), Luís G. Soto (“A metade da vida na estrada de Europa”), José Lança-Coelho (“Teixeira de Pascoaes no Diário de Torga”), Fátima Valverde (“Teixeira de Pascoaes e René Char face à grandeza universal do teatro”), Dirk Hennrich (“A terra tardinha em Teixeira de Pascoaes”), César António Molina (“Teixeira de Pascoaes, poeta filósofo”), Celeste Natário (“Teixeira de Pascoaes: Uma metafísica da saudade”), António Telmo (“O passeio que ficou por contar”), António José Borges (“Idealismo e ética: Saudades futuras da nova arte de ser português”), António Cândido Franco (“Nota corrida sobre o pensamento geo-estratégico de Teixeira de Pascoaes”), Samuel Dimas (“Regresso ao paraíso celestial”), Rui Martins (“Pascoaes: Um testemunho vivo das maleitas e dos tormentos do Portugal de ontem e de hoje”), Risoleta C. Pinto Pedro (“A Europa como reflexo da imagem verdadeira”), Renato Epifânio (“Entre Portugal e a Europa: Cinco notas e uma interrogação”), Paulo Feitais (“Portugal, o rosto da Europa? Para uma ética do encontro e da perdição”), José Eduardo Franco (“Polónia, país gémeo de Portugal na Europa”), José Telles de Menezes (“Muros e sebes: Da cidade murada às aldeias a oeste do éden”), Joaquim Miguel Patrício (“Portugal e a Europa numa era global”), João Bigotte Chorão (“Europa, Europas”) e Adriano Moreira (“Europa, a matriz do Ocidente”).
[Fotos: capa do nº 4 da revista Nova Águia e encontro de Sebastião da Gama com Pascoaes em Setembro de 1951.]

sábado, 16 de maio de 2009

Dos bordados de Viana do Castelo

Hoje, no quiosque, ao ver a capa de uma revista com bordados de Viana do Castelo, senti o tempo a recuar sob a pressão da memória. Recordo as toalhas e almofadas bordadas por familiares que se usavam na casa de infância, relembro a habilidade da mãe a decorar a vermelho e a azul pedaços de linho...
Trouxe a revista Belas Ideias (nº 2, Abril-Maio.2009), satisfeito, por esse reencontro. Introduz a história dos bordados vianenses e dá corpo a um lote de propostas de "designers" contemporâneos que jogam com os motivos e com os pontos usados no bordado de Viana do Castelo - toalhas, almofadas, abat-jours, quadros, malas, vestuário, etc. Lindas ideias! E, no final, ainda há uma reportagem fotográfica de algo que me é muito querido: o cortejo etnográfico das Festas da Agonia, que se realizam em Agosto.
Reproduzo um excerto do texto que abre a revista: "Bordar é uma arte antiga das gentes do Minho. Desde o gosto pela decoração da casa, ao traje alegre ou cerimonioso, cuidadosamente trabalhado, até à comunicação mais intimista e amorosa dos lenços de namorados, onde contam, bordando, o que lhes vai na alma. Assim é o Minho, cheio de cores, de formas, de brilhos, de encantos (...)."

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Sebastião da Gama e Ary dos Santos num encontro através da poesia

É possível que Sebastião da Gama e José Carlos Ary dos Santos se tenham encontrado em Vila Nogueira de Azeitão variadíssimas vezes. Com efeito, Ary dos Santos visitou frequentemente Azeitão, de onde sua mãe era natural.
Nascido em 1936, era cerca de 12 anos mais novo do que Sebastião da Gama. Mas, se não há registo de encontro entre os dois, há, pelo menos, registo de convívio poético entre ambos, conforme o prova a publicação Horizonte – Revista de Cultura e Arte, editada em Évora entre Março de 1951 e Setembro de 1952 e dirigida por Manuel Madeira.
No seu nº 3 (Julho-Agosto.1951), colaboraram com poemas nomes como Luís Amaro, Natércia Freire, António de Navarro e Sebastião da Gama, entre outros, enquanto Lima de Freitas, Túlio Espanca e Sant’Anna Dionísio participaram com textos ensaísticos sobre arte. De Sebastião da Gama seria publicado o poema “Crepuscular”, datado de Estremoz (“1951, pelo São José”), postumamente inserido no seu livro Pelo sonho é que vamos (1953). No final da revista, na rubrica “Intercâmbio cultural” (dedicada a respostas a cartas dos leitores), um novíssimo (para a época) poeta se revelava, de seu nome José Carlos Ary dos Santos, que escrevera de Lisboa, referindo a revista: “Envia-nos este amigo uma carta em que se mostra interessado por Horizonte, animado pela nossa chamada aos novos. Conta apenas 14 anos e credencia-se com dois sonetos e um poema.”
Assim apresentada a novidade, seguia-se um breve comentário: “Ficámos surpreendidos, não porque um jovem de 14 anos fizesse versos, mas pela transcendência e preocupação dos temas, sobretudo os dois sonetos que não nos dizem nada dos catorze anos do poeta. Nota-se uma facilidade no tão difícil soneto, um fecho excelente, remate tão exigido neste género, que ficamos suspensos augurando a este poeta de catorze anos o melhor futuro na poesia, se não enveredar por maus caminhos.” Depois, o organizador da secção transcrevia apenas dois versos do poema “Cântico ao Sol” (de que gostara menos) e reproduzia na íntegra os dois sonetos – “Altíssimus!” e “Cruz”. Estes dois poemas seriam, no ano seguinte, incluídos no primeiro livro de Ary dos Santos, Asas (Lisboa, 1952), obra que foi prefaciada por Ramiro Guedes de Campos.
Excluindo os textos de cunho escolar, os dois mais antigos poemas de Sebastião da Gama são também sonetos, que se mantêm ainda inéditos: “Meu amor” (de 29 de Junho de 1939) e “Conselho” (de Julho do mesmo ano), ambos datados de quando o poeta de Azeitão tinha 15 anos.
Num e noutro poeta, a adolescência lançou pistas sobre o destino de ambos…
Uns bons anos mais tarde, Ary dos Santos encontrar-se-ia de novo com a poesia de Sebastião da Gama: em 1960, num recital de poesia organizado pela Casa do Pessoal da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, os textos de Sebastião da Gama foram lidos por Ary dos Santos e por Germana Tânger (dessa sessão se reproduz foto, onde ainda se pode ver Joana Luísa da Gama, esposa do poeta de Azeitão).

sábado, 7 de março de 2009

Vale do Neiva - coleccionismo em revista

A Associação de Filatelia e Coleccionismo do Vale do Neiva, com sede em Barroselas (Viana do Castelo), existe desde o segundo semestre de 1996. Entre as diversas iniciativas que tem promovido (exposições, publicações, divulgação), chegou agora a vez do primeiro número da revista Vale do Neiva Filatélico, publicação que pretende ser semestral e que tenciona, segundo o seu presidente, Marcial Passos, regista no “Editorial”, assumir este recurso como um “espaço aberto de informação”, que apresente “a filatelia como um elemento cultural do desenvolvimento humano numa perspectiva de partilha de conhecimento e informação”.
Por este número inaugural passam textos como “A telegrafia eléctrica em Portugal” (Pedro Vaz Pereira), “Curiosidades filatélicas – Correio-Andorinha” (Mota Leite), “Entrevista ao Jurado FIP Eduardo Sousa” (Núcleo Juvenil de Filatelia da Escola EB 2, 3/S de Barroselas), “Para a história do correio no Vale do Neiva – O correio em Balugães” (Mota Leite), “A 1ª Exposição Filatélica portuguesa” (Eduardo Sousa), “Coleccionando… Postais ilustrados” (José Manuel Pereira) e “Para a história da Associação” (Mota Leite). Há ainda lugar para diversos textos de carácter noticioso que lembram a recriação medieval do percurso a cavalo da mala-posta entre Barroselas e Viana do Castelo (que aconteceu em 28 de Outubro), a XX Exposição Filatélica Nacional e Inter-Regional “Viana 2008” (ocorrida entre 28 de Outubro e 2 de Novembro), entre outros eventos, sendo ainda antologiadas as emissões filatélicas nacionais do 2º semestre de 2008.
Neste número, é evidente a apresentação do coleccionismo – e da filatelia, em particular – como recurso alternativo para a ocupação dos jovens, quer pela intervenção de um núcleo filatélico da escola local, quer pela mensagem de um dos principais coleccionadores da região, com vários prémios já obtidos, Eduardo Sousa, que, em entrevista, recomenda aos jovens: “agarrem a filatelia como um meio instrutivo, como um meio educativo, de investigação, de estudo, que nos pode trazer novos conhecimentos.”
É uma publicação curiosa, a seguir com interesse, que apresenta outras facetas da história local e regional, não a desligando de factores identitários que a todos dizem respeito.
Com este número da revista, foram ainda distribuídos quatro postais, com fotografia de Olindo Maciel, a preto e branco, de uma série intitulada “Usos e costumes do Vale do Neiva” (“ida à feira”, “ida à fonte”, “lavadeira” e “o namoro”), que teve a colaboração do Grupo Folclórico S. Paulo de Barroselas.

António Barreto - mais umas dicas sobre leitura

A revista Ler (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores), na sua saída mensal, é referência indispensável pela vida que dá aos livros, à leitura, à opinião e à cultura. O número de Março, o 78, já está nas bancas. E motivos de interesse não lhe faltam. Destaco a entrevista a António Barreto, figura de capa também, feita por Carlos Vaz Marques, num estilo em que a personagem (se) fala, (se) diz e (se) pensa. E, dela, sete excertos. Que são análise, leitura e conselhos.
Leitura online – “O modo de leitura, a pausa, o sossego, a ponderação, a moderação, a reflexão, a nota, a posição pessoal, geográfica, física com que você lê jornais e lê livros, tudo isso está em vias de extinção, a benefício dessas novas formas que são mais rápidas, que seguramente proporcionam menos reflexão. (…) O que você lia no comboio, o que lia num sítio fora de casa, sem o computador na mão, o que lia voltando para a frente e para trás, escrevendo notinhas, escrevendo no canto dos livros, escrevendo num caderninho que tem ao lado, não creio que seja possível fazê-lo com um palm (…) ou com um laptop, onde tudo está feito para ter uma informação rápida. Com um telemóvel, você, hoje, já consegue ter inúmera informação: tudo sintético, tudo compacto, tudo resumido. Os sentimentos são resumidos, são condensados. As palavras, as frases, o discurso, a narrativa – é tudo cada vez mais concentrado. Porque já se está a viver de uma maneira diferente, a correr.”
Ler – “Ler implica ter uma vida para a leitura; que na sua vida tem de haver espaço para a leitura. Quando você já não tem espaço para a leitura, não é o cheiro [do livro] que vai substituir o que quer que seja, não é o objecto físico que conta.”
Ler em Portugal – “Os portugueses aprenderam a ler muito tarde. (…) Eu não tenho nenhuma crença mística nas nações, mas elas existem. Os povos existem. Há uma memória colectiva. Quando, na nação portuguesa, metade ou dois terços das pessoas souberam ler, isso aconteceu com mais de um século de atraso, pelo menos, em relação a países como a Inglaterra, a Dinamarca, a Suécia.”
Escola e leitura, dantes – “A escola foi uma ajuda muito madrasta da leitura, em Portugal. (…) Se não fosse a minha família (…) e se não fosse um ou dois professores cujos nomes mais de 50 anos depois eu recordo, a escola não me tinha ajudado. A escola do meu tempo não incitava à leitura. Os que gostavam de ler era por outras razões, não era por causa da escola.”
Escola e leitura, hoje – “Passaram 50 anos e, por razões diferentes, a escola hoje destrói a leitura. Seja com a análise estruturalista e linguística dos textos, seja pela ideia de que a escola tem de ser mais a acção e tem de ser mais projecto e mais mil coisas que fazem a nova escola. A leitura na escola é a última das preocupações.”
Magalhães – “Da maneira como o Governo aposta na informática, sem qualquer espécie de visão crítica das coisas, se gastasse um quinto do que gasta, em tempo e em recursos, na leitura, talvez houvesse em Portugal um bocadinho mais de progresso. O Magalhães, nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal. Chegou-se ao ponto de criticar aquilo a que chamaram cultura livresca. O que é terrível. É a condenação do livro. Quando o livro é a melhor maneira de transmitir cultura. Ainda é a melhor maneira. (…) O Magalhães (…) foi transformado numa espécie de bezerro de ouro da nova ciência e de uma nova cultura, que, em certo sentido, é a destruição da leitura.”
Levar um jovem até à leitura – “No essencial, chamar-lhe a atenção para o sentido, para a narrativa, para a história. É como o amor – ou o sexo, para ser mais bruto e cru: você sabe que os sentimentos amorosos e sexuais têm, algures, uma componente bioquímica. São uns produtos que se chamam feromonas ou lá o que é e que desencadeiam umas operações no cérebro, no hipotálamo, no sistema nervoso, mas não é isso que faz o amor. (…) Você não diz a ninguém: as minhas feromonas e as tuas… Não é isso que conta. O que conta é o sentimento, o ver, o beijar. Isso é que conta. É isso que se deve ir buscar à literatura, não a química.”

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Nuno Júdice vai dirigir a "Colóquio-Letras"

«Nuno Júdice é o novo director da revista Colóquio-Letras, na sequência da decisão do Conselho de Administração da Fundação Gulbenkian de nomear uma nova direcção e um conselho editorial para a revista, de modo a garantir a sua publicação regular e os compromissos assumidos perante o público e os assinantes. O conselho editorial da Colóquio-Letras será presidido por Eduardo Lourenço.» A informação foi divulgada hoje em nota da Fundação Calouste Gulbenkian.
A revista Colóquio-Letras, publicação de referência na área da literatura em Portugal, surgida em 1971, teve como directores anteriores Hernâni Cidade, Jacinto do Prado Coelho, David Mourão-Ferreira e Joana Varela.
O último número que saiu (nº duplo 168/169) finalizou a publicação dos textos de "Imagens da Poesia Europeia", de David Mourão-Ferreira. A Colóquio-Letras surgiu em substituição da revista Colóquio (1959-1970) e coexistiu com Colóquio-Artes (também criada em 1971 e já extinta), Colóquio-Ciência (criada em 1988) e Colóquio-Educação e Sociedade (surgida em 1992).
Nuno Júdice é professor universitário, poeta e ensaísta e foi já director da revista Tabacaria, da Casa Fernando Pessoa (números 0 a 8, entre 1996 e 1999).

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Joana Varela e a "Colóquio-Letras"

Se quer testemunhar sobre a Colóquio-Letras; se quer saber a importância com que Joana Varela tem contribuído para o sucesso da Colóquio-Letras; se quer ver a importância que leitores da revista dão a esta história que envolve a Colóquio-Letras, Joana Morais Varela e a Fundação Calouste Gulbenkian; se quer ser um(a) a solidarizar-se com a linha da revista e a tomar posição quanto ao que se está a passar... passe pelo blogue que foi criado para o efeito. É de acesso livre, é uma palavra de leitor(es), é um acto de cultura, é um ponto de encontro e de reunião.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Fundação Gulbenkian – Joana Varela e “Colóquio-Letras”: e depois do nº 169?

Eduardo Pitta, no blogue Da Literatura, conta a história que se está a passar nos corredores da Fundação Gulbenkian quanto a Joana Morais Varela, preventivamente suspensa de funções por razões disciplinares desde ontem, funcionária da Fundação há 25 anos e directora da revista Colóquio-Letras.
Como diz Pitta, “isto não pode estar a acontecer”! Só quem não saiba o que é a Colóquio-Letras [linkada ao lado, em "horas úteis"], pode ignorar a importância desta revista para o panorama cultural, e sobretudo literário, português. Só quem não saiba o que Joana Morais Varela tem investido na qualidade da revista pode aceitar esta situação de braços caídos e com indiferença e entender que um alegado convite para integrar um Conselho Editorial de uma outra revista da Fundação não soava a despromoção. Como refere Pitta, “isto não pode estar a acontecer”!
Fica a pena pela interrupção no decurso de um número que estava a ser preparado com a correspondência de Sebastião da Gama para os amigos e de muitas outras ideias que corriam à frente de Joana Morais Varela para temas da revista. Fica a pena por tudo isto poder indiciar o fim de uma das mais interessantes revistas culturais do país (obviamente feita por uma instituição com posses, mas também por um corpo de colaboradores de referência e com uma qualidade estética e de conteúdos notável). “Isto não pode estar a acontecer", pois!

domingo, 7 de setembro de 2008

Eduardo Lourenço - "O homem que ensina Portugal a pensar"

O último número da revista Ler (Lisboa: Círculo de Leitores, nº 72, Setembro.2008) tem vários assuntos com interesse, como se pode ver na apresentação da capa, ao lado. Da entrevista que Carlos Vaz Marques fez a Eduardo Lourenço, em que pelos seus 85 anos passam a vida, a literatura portuguesa, o pensamento, a escrita, a leitura e o saber, apresento alguns destaques.
Livro – “O relacionamento com os livros – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas. Faltará qualquer coisa quando a nossa relação com eles for puramente electrónica.”
Geração – “Cada geração não é mestra de si mesma. Há sempre um ou dois que são um pouco as referências ou as pessoas que influenciam os outros. Ou porque são mais velhos ou porque são mais brilhantes.”
Poesia – “A grande poesia é aquela que, de repente nos oferece um mundo, no qual a vivência deste se altera em cores e dimensões não sonhadas. É a criação de um outro mundo que se acrescenta realmente ao nosso mundo visível. É isso e não os versos que são muito bonitos.”
Camões – “Tem uma percepção dos valores humanos que não é essa, tranquila e tranquilizadora, que a ortodoxia, a visão católica normal do mundo inculcava. Há já ali uma grande angústia. Apesar de ele ser o autor da nossa epopeia, há nele uma visão pessimista do mundo. É uma visão que anuncia várias coisas.”
Fernando Pessoa – “Não há questão nenhuma, ainda hoje, que nos interesse, que de uma maneira ou de outra não esteja na obra do Pessoa. (…) O Pessoa, se o releio, é sem a sensação de releitura. Se estou muito tempo sem o ler, torno a receber as mesmas impressões, os mesmos choques.”
Homem – “O Homem é um ser ficcionante. Independentemente do que seja o objecto dessa ficção. Nós estamos sempre ficcionando. A nossa relação com o real é uma relação imaginária.”
Escritor – “O que me interessa é o auto-retrato que cada um de nós traça escrevendo. Seja o que for. Nós não precisamos de psicanalista para nada. A gente dá-se. Vende-se. A escrita é realmente a escrita do nosso inconsciente. Uma pessoa não pode trair-se a si própria.”
Outro – “Eu próprio sinto que estou em dívida. Estou em dívida para com a Humanidade inteira, de qualquer modo.”
Gabriela Llansol – “É um caso. Penso que muito se falará dela no futuro. Provavelmente, será – penso eu – o próximo grande mito literário português. A escrita dela é fulgurante. Não há nada que se possa comparar àquilo. (…) Também ela, de uma maneira diferente do Pessoa, vem de um planeta estranho: é aquele mundo flamengo, aqueles Boschs, aquele misticismo renano, aquelas coisas complicadas que aparentemente têm pouco a ver connosco. Já tiveram, em tempos. É poesia da mais alta. Sem se oferecer imediatamente com esse valor da poesia.”
Gostar – “Não é obrigatório gostar da Gioconda. Mas é uma pena não gostar da Gioconda.”
Pérola – “Há um poema extraordinário do Goethe, em que ele conta que Jesus ia com os discípulos, lá na Galileia, e depararam com o cadáver de um burro exposto ao sol. Já só ossos. Os discípulos começaram a falar das orelhas e disto e daquilo, a brincar mais ou menos malevolamente com o pobre cadáver do burro. E Jesus disse-lhes: ‘Olhai para os dentes dele, brilham como uma pérola.’”

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Profissões quase extintas na "Magazine Reportagem"

Aí está o segundo número de Magazine Reportagem, a revista mensal que teve número inaugural em Agosto, devida ao fotógrafo sesimbrense Rui Cunha. O tema desta segunda edição é “Rostos do ofício – Retratos de uma vida de trabalho”, que alinha com fotografias de Rui Cunha e textos de Vanessa Pereira.
Por estas objectivas passam as experiências e as vidas de quatro pessoas: de Maria Emília Pinhal e Domingos Marçal Caiado, agricultores, em Caixas; de José Guilherme Páscoa Simões, barbeiro; de Abílio Caetano Carvalho, relojoeiro (falecido enquanto era preparado este número da revista).
Os textos – pequenas reportagens – descrevem as profissões respectivas e dão a palavra aos actores, excepto no último caso em que a fala é de Rita Carvalho, a viúva. Qualquer um deles constitui um bom pretexto para a identidade local e para a memória e o facto de usarem uma linguagem acessível pode mesmo possibilitar que entrem na sala de aula para estudar um género jornalístico como a reportagem ou o retrato ou para conhecer as profissões (ainda que quase em extinção) e a sociedade local, mesmo porque todos os retratados são também interessantes figuras humanas pelo seu exemplo.
Um pouco do “mundo à frente das objectivas”, pois. Que se vê com prazer, claro.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

"Magazine Reportagem" (nº 1) com a "chincha" em Sesimbra

“Chincha – A arte xávega sesimbrense”, com fotografias de Rui Cunha e texto de Vanessa Pereira, é o trabalho que dá corpo ao primeiro número de Magazine Reportagem, datado deste mês de Agosto. A revista tem 12 páginas, é ocupada apenas pelo texto referido e, na sua capa, apresenta a periodicidade como mensal e um subtítulo que diz muito das intenções que lhe presidem: “O mundo à frente das objectivas”.
«S. Pedro arrastava da terra para o mar e só apanhava banhistas. Um dia Deus desceu à terra e disse-lhe: ‘S. Pedro, experimenta fazer ao contrário. Lança a rede ao mar e puxa-a para terra se queres ver o que é peixe!’» Assim começa a reportagem escrita, numa história contada por um dos mestres sesimbrenses, Serafim Painho, em jeito de explicação para a origem da arte xávega local. Forma de pesca artesanal, a chincha é assim apresentada: «Numa aiola (pequena embarcação típica de Sesimbra), três homens fazem-se ao mar para lançar uma rede em forma de saco, onde se acumula o peixe, que, no areal, os restantes pescadores puxam para terra através de dois cabos (as asas do saco), à força de braços.” Depois, fotografias e texto completam-se – umas, porque mostram expressões, ilustram e levam o leitor até lá; o outro, porque conta a história de pessoas, deixa perpassar o sentimento e apresenta homens que enfrentam a sorte e o mar com as suas mãos, a sua teimosia, a sua força, não faltando a marca da fé no patrono, Senhor Jesus das Chagas.
A publicação é dirigida por Rui Cunha, fotógrafo de Sesimbra. Algumas das fotografias e uma outra versão do texto tinham já sido publicados na blogosfera.

domingo, 4 de maio de 2008

História em revista

Uma fotografia do Maio de 68 constitui tema de capa do número inaugural da revista Visão – História (dirigida por Cláudia Lobo), alusivo ao mês de Abril. Este número é temático, indo buscar o ano de 1968, “o ano que não acabou”, por, como é dito na apresentação, ser uma “data-chave da segunda metade do século XX em que tudo aconteceu e cujas repercussões são ainda bem visíveis”.
Depois, vêm as fotografias desse ano, a primeira das quais é aquele poderosíssimo instantâneo de Eddie Adams, que captou o comandante da polícia de Saigão a executar um soldado vietcong, foto que fez recrudescer o protesto dos americanos contra a guerra no Vietname e que valeu ao seu autor o prémio Pulitzer, que nunca aceitou.
Há também uma cronologia do ano e, depois, vem “O mais longo mês de Maio”, que relembra os acontecimentos e que os analisa, agora que em França se discute essa vontade de acabar com as memórias dos “soixante-huitards”, intenção vista por Daniel Bensaid como “um discurso de exorcismo” porque “acabar com o espectro de 68 é uma tentativa de exorcizar a crença de que ele possa ressurgir”.
Praga, Vietname, Luther King (assassinado em 4 de Abril) e o racismo e a queda de Salazar são os outros destaques. Para lembrar, há ainda alguns livros (O delfim, de Cardoso Pires, ou Os afluentes do silêncio, de Eugénio de Andrade), músicas (Cantares do andarilho, de José Afonso), arte (Warhol e Júlio Pomar) e moda (entre o fim do previsível e o surto do “mosaico”) desse ano.
A finalizar, há um texto de Manuel Villaverde Cabral, exilado em Paris em 1968, que vê o Maio de 68 como uma “revolução cultural” com reflexos que perduram ainda hoje: “A retórica espontaneísta do ‘contra’ deixou marcas profundas e a actual paisagem humana e social seria bem diferente sem ela: contra o Estado e os seus mecanismos de enquadramento; contra a família convencional e o recalcamento sexual; contra o racismo e a subordinação das mulheres e crianças; contra a escola disciplinadora e reprodutora das desigualdades; contra o trabalho penoso e o consumo alienante, etc. Tudo isto é irreversível, tendo sido absorvido e massificado até ao limite do relativismo ante a falência das crenças autoritárias. E a prova está feita. Quando Sarkozy mobilizava recentemente os conservadores com o ódio ao legado de Maio, estava a esquecer-se de que era esse legado que lhe permitia casar e descasar em directo na televisão…”

domingo, 27 de abril de 2008

Já chegou a "Ler"

A revista Ler, do Círculo de Leitores, ressurgiu. Com novo formato e a qualidade que sempre a caracterizou. Dirigida por Francisco José Viegas, que já a dirigira entre 1990 e 2000 (nº 9 a nº 48). E volta-se a sentir o prazer de viajar pela escrita da literatura e da edição. A partir desta saída – com o nº 69, correspondente a Maio –, a revista terá periodicidade mensal, depois de ter acompanhado o ritmo das estações.
Após dois anos de interrupção (o nº 68 foi publicado em 2006), é bom o reencontro com a Ler, ideia, aliás, perfilhada pelo próprio director, que escreve no editorial: “O número que o leitor tem nas mãos é apenas o recomeço de uma ideia que não se perdeu e não poderia perder-se, apesar de ter mudado o seu rosto.”
Pela sua cerca de centena de páginas passam motivos diversos e cativações plurais. Há as entrevistas longas com António Lobo Antunes (em luta contra a intelectualidade, testemunhando que a doença o mudou, falando do amigo Cardoso Pires e de outros, denunciando as suas preferências literárias) e com Paulo Teixeira Pinto (o novo dono da Guimarães, na sua vertente de esteta e de amador de livros e de pintura, que se comenta como estando na entrada de uma quarta vida, depois da política, da academia e da banca) e a entrevista curta com Diogo Pires Aurélio (mais específica, sobre a filosofia e a política). Há o dossier “Os 50 autores mais influentes do século XX e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”, organizado por José Mário Silva, por onde passam os nomes de todas as bibliotecas e a cultura do século, com chamadas de atenção, em duas ou três linhas, para “o que nos ensinou” cada um deles. Há ensaio, como o de Miguel Real, sobre as heterodoxias de Eduardo Lourenço, caminhos de antecipação e de pensamento. Há apreciações a livros, em extensão variável, de géneros díspares, onde até cabe o comentário à última edição do Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora. Há pré-publicação (em extractos), de Lainez e Cortázar. Há autores que se dizem e (se) mostram, como Teolinda Gersão (em escrita de um romance) ou Pedro Tamen (entre a tradução e a sua casa em Palmela). Há crónicas (muitas), entre as penas de Abel Barros Baptista (o primeiro neste número) e de Onésimo Teotónio de Almeida (o último, com um texto sobre a escrita, o ciúme e a rivalidade entre sportinguistas e benfiquistas). Há espaço para ler e pensar, para escolhas e deleites, para esperar pelos números que se seguirão.