Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Pires. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Daniel Pires. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (3)

 


De entre os três sermões de Bartolomeu de Gusmão já indicados, uma palavra mais merece o que é dedicado a Nossa Senhora do Desterro, padroeira dos emigrantes. Proferido em Coimbra, foi especialmente dirigido aos “académicos ultramarinos”, isto é, os estudantes originários do Brasil (de resto, quando foi publicado, teve dedicatória para Manuel de Matos, brasileiro e professor da Universidade de Coimbra). Elogiando os seus conterrâneos, Gusmão faz algumas reflexões sobre o desterro, bem próximas da experiência que ele viveu, logo a começar pela viagem — “Que coisa há mais horrível que uma viagem dilatada por mar? A nau em contínuos balanços, o pavimento a fugir debaixo dos pés; que função fica inteira ou que parte no corpo humano que não padeça? (...) Já se se levanta uma tormenta, aqui é o horror. (...) Assim busca a sabedoria quem conhece o seu preço. Assim se lavra uma coroa de glória e de imortalidade, a si e a esta Universidade quem a vem buscar de tão longe, por tantos e tão evidentes perigos.” Depois, pesa a condição da distância e da saudade — “Eu bem sei que todos os que vêm a esta Universidade deixam a pátria; mas nem todos como a Senhora do Desterro. Os que não são ultramarinos deixam-na para a tornar a ver todos os anos. (...) Ausência que não chega a ano não é ausência nem pode produzir saudades. (...) Só os Ultramarinos imitam fielmente a Senhora do Desterro, que também passou sete anos desterrada sem ver a pátria. (...) Que peito há tão de bronze que não arrebente de dor e de saudade? E que a tudo isto se façam surdos e insensíveis os Ultramarinos, para vir buscar a Sabedoria? (...) que admiração e que alegria para a nossa Universidade.” O sermão conclui-se com um apelo à Virgem, depois de lhe pedir a protecção: “Que gosto tereis vós mesma de ver os vossos desterrados servir de luz ao reino, de honra à sua pátria e de crédito a esta Universidade, nos Lugares, nas Cadeiras e nos Tribunais? (...) Que será quando, livres do comum desterro, os virdes triunfantes na glória?”

O quarto sermão que Daniel Pires inclui neste grupo das obras de Bartolomeu de Gusmão, o Sermão da Paixão, surge acompanhado da nota de se tratar da transcrição de um “manuscrito atribuído a Bartolomeu de Gusmão, existente na Biblioteca da Ajuda”. Diferente de todos os outros, o sermão é construído sobre um discurso de Jesus na primeira pessoa, quando, já crucificado, se dirige aos crentes — “Povo meu (e não cuides que falo com os que agora acabam de crucificar-me), falo contigo, Povo amado, Gente singularmente escolhida”. O discurso é uma reflexão sobre o sofrimento até ao momento em que se entrega nas mãos de Deus, ao mesmo tempo que uma despedida, em que a única intervenção do narrador aparece no final do texto, depois de o crucificado se dirigir ao Pai — “Dizendo isto e dando um grande brado, inclinou um pouco a cabeça o redentor do mundo e expirou.”

O livro Obra de Bartolomeu de Gusmão conclui com alguns documentos oficiais (correspondência e petições alusivas aos seus inventos) relativos ao padre-cientista.

Quando, em Santos (Brasil), nasceu o futuro padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão (1685-1724), já o portuense Tomás Pinto Brandão (1664-1743) era adulto e vivia no Brasil desde 1682, num trajecto que o levou a ser detido várias vezes por “travessuras e excessos”, marca que se lhe colou, entre outras razões, pelo tom satírico em que foi pródigo. Foi esse o recurso que utilizou para caricaturar a criatividade de Gusmão, em quem residia o espírito de inventor e de cientista, construtor da “máquina de navegar pelo ar”, quando escreveu um poema dedicado ao padre, que dizia: “Meu Padre Bartolomeu, / eu, segundo o meu sentir, / não vi outro mais subir / de quantos vi voar eu: / o conceito é como meu, / que o não pude achar melhor; / porém se como Orador / tanto sabeis levantar, / não me deveis estranhar / que vos chame Voador. // (...) // Por força do vosso estudo, / por jeito do vosso estado, / para tudo sois azado, / tendo pena para tudo; / e assim de estilo não mudo / no estranho do meu louvor / (se o não tomais por labéu) / que até chegares ao Céu / haveis de ser Voador.” (décimas reproduzidas na obra Pinto Renascido, empenado e desempenado: Primeiro voo, de 1732). O texto de Brandão, jogando com palavras, ironiza, mas também reconhece a Gusmão a qualidade de escritor, de orador, de criador. Aliás, aqueles que ironizaram sobre a figura e obra de Gusmão acabaram por não ofuscar o valor e o saber do padre cientista — assim aconteceu também com José Soares da Silva (1672-1739), que, na sua Gazeta em forma de carta, ridicularizou o jovem Gusmão contando exagerada e maliciosamente o seu saber, com atributos que, uns séculos mais tarde, José Saramago aproveitaria, com engenho, para apresentar, como inovadora, a personagem Gusmão no seu Memorial do Convento (passo mencionado na primeira parte desta crónica).

O volume que Daniel Pires organizou torna-se um contributo indispensável para o conhecimento das ideias de Bartolomeu de Gusmão. Nunca mais poderemos passar pela estátua ou pelo painel azulejar que o evocam no aeroporto de Lisboa (obras devidas a Martins Correia e a Paulo Guilherme d’Eça Leal, respectivamente) sem pensarmos na justa homenagem que é devida a este pioneiro do século XVIII, simultaneamente um louvor ao saber e à criatividade.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1772, 2026-06-03, pg. 10.


quarta-feira, 3 de junho de 2026

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (2)



No volume da Obra de Bartolomeu de Gusmão, Daniel Pires, depois dos textos alusivos aos inventos do sacerdote brasileiro, incluiu um escrito jurídico, produzido por Gusmão a pedido de D. João V para contestar a sentença que atribuíra o pecúlio da Casa de Aveiro a Gabriel de Lencastre, Duque de Banhos, em vez de ser a D. Maria de Lencastre, Marquesa de Unhão. Das quase quatro centenas de artigos constantes nas alegações o leitor fica a conhecer uma dúzia (aqueles que estão mais despojados de conceitos jurídicos), conjunto de princípios em que se cruzam os acontecimentos históricos do relacionamento entre Portugal e Espanha com o respeito pela Coroa portuguesa fortemente fundamentados.

O grupo dedicado aos textos de cunho histórico é ocupado com as transcrições das intervenções que Bartolomeu de Gusmão teve nas sessões da Academia Real da História Portuguesa, sobretudo dando conta do andamento do seu trabalho Memórias para a História do Bispado do Porto, registadas nas respectivas actas. Das notas efectuadas em tais relatos, fica no leitor a ideia da ponderação, do espírito crítico, da inovação e do rigor como apanágio do trabalho de Gusmão, visível nas observações feitas à metodologia seguida pelos seus antecessores e nas dúvidas perante certas informações e perante alguns documentos — na sessão de 27 de Agosto de 1722, ao anunciar que estava quase pronta a parte respeitante aos dez primeiros séculos das Memórias, disse que “brevemente entregaria esta primeira parte da sua obra, em que protestava que não procurara seguir mais que a luz da verdade quanto lhe permitisse a escuridão em que aqueles tempos estão envoltos, e que, com a mesma sinceridade, a todo o tempo que reconhecer o contrário seria o primeiro que confessasse que errara.”

Dois poemas e dois textos de carácter filosófico integram um outro grupo. Os primeiros, dirigidos a figuras conhecidas de Gusmão, valorizam o discurso da jurisprudência e da verdade; os segundos giram em torno de valores — o papel do louvor no contributo que pode ter para a virtude ou para a vaidade, num (“o verdadeiro louvor é um testemunho da opinião que tem de nós um varão prudente, que se não deixa enganar com as aparências. A vaidade é quando se estima mais o ser louvado que merecê-lo ser. Logo, se o sujeito é capaz de vaidade, não é capaz de louvor; pois não pode ser capaz de louvor quem ama mais o louvor que o merecimento.”); a utilidade da prudência e da temperança, noutro (“a prudência ilustra o entendimento e a temperança aperfeiçoa a vontade, e bem pode ter ilustrado o entendimento quem tiver muitas imperfeições na vontade. A prudência ensina a conhecer as paixões alheias, a temperança a vencer as próprias e não se segue que saiba sujeitar as paixões próprias quem sabe conhecer as alheias.”). 

Relativamente à bibliofilia, o contributo que Daniel Pires (responsável pela obra) aponta é o da importante lista de livros indicados por Bartolomeu de Gusmão para a biblioteca régia, a serem adquiridos em França, em que constam títulos relacionados com áreas como a política, a economia, a geografia, a navegação, entre outros.

Os textos parenéticos ocupam parte significativa desta obra, constituída por quatro sermões, que, segundo o organizador, demonstram “capacidade argumentativa, convicção e um pensamento lógico linear”. Num primeiro grupo, situam-se o Sermão da Virgem Maria Nossa Senhora (Salvaterra, 26 de Abril de 1712), o Sermão a Nossa Senhora do Desterro (São João de Almedina, 9 de Janeiro de 1718) e o Sermão do Corpo de Deus (freguesia de S. Nicolau, 1721), todos eles eivados de uma coerência forte, longos e muito preocupados com o acompanhamento da reflexão pelo auditório, sempre desafiado através de perguntas e de orientação do pensamento, repletos de ensinamentos — “nunca foi seguro ajuizar de pensamentos alheios, principalmente quando se põe de parte da sua natural escuridade o tempo”, “fazer um benefício e estar à vista é ofender o benefício”, no primeiro; “nada no mundo está isento de velhice, os viventes e os que o não são; as cidades, as repúblicas, os impérios; a mesma terra, e até os mesmos céus envelhecem”, “o mais agradável património que a natureza nos deixou é a pátria e os pais”, no segundo; “quando queremos infundir a alguém pensamentos grandes, lembramos-lhe quem é e as obrigações com que nasceu”, “ninguém é grande senão comparado com quem é menos”, no terceiro.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1767, 2026-05-27, pg. 10.


sábado, 23 de maio de 2026

Bartolomeu de Gusmão: obra reunida por Daniel Pires (1)



Quando José Saramago, em 1982, publicou Memorial do Convento, uma das personagens intensas que inseriu na obra foi a do padre Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), imagem das novas ideias a provocarem estranheza no meio português. O inventor do aeróstato surge no capítulo VI, apresentado com 26 anos (mesma idade de Baltasar Sete-Sóis, outra personagem importante para a narrativa): “no Brasil nasceu e novo veio pela primeira vez a Portugal, de tanto estudo e memória que, sendo moço de quinze anos, prometia, e muito fez do que prometeu, dizer de cor todo Virgílio, Horácio, Ovídio, Quinto Cúrcio, Suetónio, Mecenas e Séneca, para diante e para trás, ou donde lhe apontassem, e dar a definição de todas as fábulas que se escreveram, e a que fim as fingiram os gentios gregos e romanos, e também dizer quem foram os autores de todos os livros de versos, antigos e modernos, até ao ano de mil e duzentos, e se alguém lhe dissesse uma poesia, logo responderia a propósito com dez versos seus ali mesmo compostos, e prometia também justificar e defender toda a filosofia e os pontos mais intricados dela, e explicar a parte de Aristóteles (...) e responder a toda as dúvidas da Sagrada Escritura.” 

O que pode parecer um panegírico saramaguiano do sacerdote-inventor nascido em Santos (Brasil) corresponde à pluralidade e riqueza da obra do mesmo, recentemente dada a conhecer pelo investigador Daniel Pires (n. 1951) sob o título Obra de Bartolomeu de Gusmão (Imprensa Nacional, 2025), que teve a colaboração de António Mateus Vilhena para a tradução de documentos em latim.

Na abertura do texto prefacial, Daniel Pires justifica a pertinência da publicação desta obra: “Dois imperativos presidiram à elaboração deste volume: reunir a obra de Bartolomeu de Gusmão e contribuir para demonstrar que, neste importante nome da cultura portuguesa, ao contrário do que as autoridades mais poderosas e os indivíduos movidos pelo preconceito e pela inveja afirmaram, convergiam o idealismo, a procura da transcendência, o visionarismo, a erudição, a criatividade e o espírito científico.” De uma penada, Daniel Pires defende a qualidade da obra e do pensamento de Bartolomeu de Gusmão, sobrevalorizando-a a todas as diatribes orquestradas — desde a perseguição movida pelo Santo Ofício até às ironias de Tomás Pinto Brandão (1664-1743) e de outros, não esquecendo as de proveniência anónima.

Os textos de Gusmão surgem organizados em vários grupos, numa divisão por géneros que, só por si, mostra a diversidade de interesses e de discurso que Gusmão praticou — “cientista, jurista, historiador, poeta e autor de ensaios filosóficos, bibliófilo, orador sacro” —, sendo cada grupo antecedido de uma nota explicativa, com anotações histórico-biográficas, da responsabilidade do organizador do volume.

O primeiro grupo é ocupado com textos abordando temáticas diversas: o projecto da “máquina para se navegar pelo ar”, a construção do sextante, a ideia para uma planta do Observatório Português, o uso de “um invento de fazer subir água”, os modos de extrair água das naus, a obtenção de carvão a partir de terra artificial, os processos de fazer um moinho moer ainda mais.

Nestes textos, as explicações e as construções argumentativas de Gusmão são cuidadas e até imaginativas. Repare-se nas vantagens de existir a máquina voadora: “ter-se-ão notícias a todo o tempo, tanto dos desígnios como dos exércitos inimigos, sem risco, poderão as praças sitiadas mandar avisos, ser socorridas e retirar-se delas as pessoas que quiserem sem perigo; descobrir-se-ão as terras que ficam debaixo dos pólos do mundo, por cessarem no ar os impedimentos que por mar tem havido. Em uma palavra para todo o comércio, levar cartas, fazer jornadas, passar letras, transportar riquezas e acudir a qualquer negócio, nem se pode imaginar caminho nem mais seguro nem mais breve.” A este rol de conveniências, Gusmão faz acrescer ainda outras características como, por exemplo, a rapidez da comunicação — “no qual instrumento se poderão levar os avisos de mais importância aos exércitos e a terras mui remotas quase no mesmo tempo em que se resolverem”. E o interesse do “invento de fazer subir água”? Com tal equipamento “se podem trazer águas muito distantes e baixar a altura necessária para se fazerem chafarizes e fontes públicas para o mato das cidades e conveniências dos povos”. A resolução do problema da extracção das águas do interior das naus mereceu também uma proposta de Bartolomeu de Gusmão, aproveitando quatro princípios da física e da natureza — “primeiro, o vento; segundo, a correnteza da água que o navio vai cortando; terceiro, o movimento que a nau tem no mar livre; quarto, finalmente, a perpétua inquietação das ondas.”

Observador, curioso e pragmático, Gusmão apresenta os seus projectos de forma quase irrebatível, recorrendo à experiência, às leis da física e à vontade de colocar todo o seu saber ao serviço do desenvolvimento.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1762, 2026-05-20, pg. 10.

 

sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (4)

 


Por meados de Setembro de 1945, Sebastião da Gama era apresentado ao crítico João Gaspar Simões (1903-1987), a quem foi entregue o esboço de Serra-Mãe para apreciação, conforme o poeta relatava à amiga Matilde Rosa Araújo, em carta de 20 desse mês: “Fui ontem apresentado ao Gaspar Simões. Simpático, gordo, baixo. Cabelos à Bocage. O Pedro de Andrade quis que ele lesse o livro. A edição é caríssima e quer ter quem o anime a arriscar. Espero que Sua Excelência não torça o nariz.”

Não conhecemos a opinião de Simões sobre o que poderia ser a estreia de Gama; mas podemos imaginá-la se lermos o que, em 1951, o mesmo Gaspar Simões escreveu sobre a publicação do terceiro livro de Sebastião, não apresentando opinião muito favorável sobre a anterior obra do poeta de Azeitão: “o autor de Campo Aberto, que, antes de escrever e publicar os versos deste livro escrevera e publicara versos muito diferentes, (...) procurando ser inspiradamente moderno, confundia a inspiração com a retórica, a ênfase com a adivinhação e o galimatias com a analogia” (crónica reproduzida em Crítica - II, 1962). Se não conhecemos em absoluto a opinião emitida pelo crítico em 1945, o que sabemos é que, datada de 24 de Outubro desse ano, a resposta de Pedro de Andrade (já referida na anterior crónica), co-proprietário da Portugália, excluiu o livro Serra-Mãe do plano editorial da casa editora. No entanto, o sonho da publicação persistiu e, se a decisão tomada pela administração da Portugália abalou Sebastião da Gama, a vontade de publicar ultrapassou o esmorecimento e o cuidado na organização e no conteúdo do livro ocuparam bastante do tempo do poeta.

Em 25 de Julho de 1945, anunciara a estrutura do livro a Matilde Rosa Araújo: “PRESENÇA - Os de tom místico (‘Presença’, ‘Remoinho’, ‘Eternidade’, ‘Rebentação’, etc.). Abrirá por ‘Vibração’ e terá no fim ‘Cortina’. SERRA-MÃE - ‘Harpa’, ‘vida’, etc. - Os em que falo da Serra. Porei talvez ‘Céu’ e ‘Versos ao Mar’. Achas que sim? POEMAS DE AMOR - ‘Pequeno Amor’ (em 1º lugar), ‘A meus Irmãos’, do meu Amor, ‘Para que tu não chores’, ‘Crepuscular’. JESUS - ‘Ressurreição’, ‘Oração de todas as horas’, etc. APONTAMENTOS - ‘Versos da Menina Morta’ (1º), ‘Pasmo’, ‘Apontamento’, ‘Tradição’, ‘Paisagem’, etc. ÚLTIMO LIVRO - A começar, a ‘Elegia desta manhã’. Depois ‘Canção’, ‘Poesia’, ‘Excesso’, ‘Quem me quiser amar’, ‘As rosas’, etc. E quero fechar o livro com ‘Alegria’ e ‘Claridade’. Como se tivesse atingido aquele estado que procuro com a minha poesia.” A amiga responder-lhe-ia em 2 de Agosto, a partir de Peso (Melgaço), em tom fortemente exclamativo: “Viva o Poeta, o grande Poeta 1945! Serra-Mãe é um bocado de sonho, de altura, que vai enluarar os escaparates de Portugal neste inverno próximo futuro!”

A estrutura seguida na obra não foi aquela que o poeta anunciara à amiga, tendo a opção ficado decidida com a ordem “Serra-Mãe, Apontamentos, Jesus, Presença, Poemas de Amor e Último Livro”. O grupo “Presença” abre com o poema “Presença” e conclui com o poema “Cortina”; o poema “Vibração”, que só tem esse título nos manuscritos, foi escolhido para iniciar o volume, ficando conhecido pelo seu primeiro verso - “A corda tensa que eu sou”. No grupo “Poemas de Amor”, constam todos os poemas indicados, embora “Pequeno Amor” tenha tido o título alterado para “Pequeno Poema”. No grupo “Apontamentos”, não constaram os poemas “Tradição” nem “Paisagem” — “Tradição”, datado de Novembro de 1942, só foi divulgado postumamente em obras como O Desafio da Arrábida, organizada por Eduardo Carqueijeiro (edição do Parque Natural da Arrábida / Instituto de Conservação da Natureza, 1996, em artigo assinado por Joana Luísa da Gama), no jornal informativo Cidadãos pela Arrábida (Agosto.2000) e na antologia A Serra da Arrábida na Poesia Portuguesa, organizada por António Mateus Vilhena e Daniel Pires (Centro de Estudos Bocageanos, 2002); “Paisagem”, datado de 13 de Junho de 1944, também não entrou neste volume, só tendo sido divulgado aquando da publicação da poesia reunida de Sebastião da Gama no volume O Inquieto Verbo do Mar (Assírio & Alvim, 2024). No grupo “Último livro”, a alteração resultou de o poema “Excesso” ter passado para o conjunto “Poemas de Amor”.

Lembra Joana Luísa da Gama, no livro Estala de saudade o coração (2013), que, “durante o ano de 1945 é normal encontrar nas cartas o assunto Serra-Mãe. Ou é mais um poema que nasce, ou mais um conselho de um amigo. É o nervosismo de procurar editor”, depois de a publicação ter sido recusada pela Ática e pela Portugália, situação ultrapassada porque os pais lhe disponibilizaram os 4800$00 necessários para uma edição de mil exemplares. E continua Joana Luísa: “as cartas que se seguem são de loucura: as idas à tipografia a acompanhar a impressão das folhas do seu livro, a revisão de provas porque não tinha dinheiro para pagar a um revisor, etc.”

Finalmente, Serra-Mãe, chancelado pela Portugália Editora, apareceria na montra em 18 de Dezembro de 1945, dedicado “à memória de meu tio, Alexandre Cardoso”, tendo na capa uma vinheta concebida pelo artista Lino António (1898-1974), constituído por 62 poemas compostos em 1943 (4), 1944 (39) e 1945 (19), datando o mais antigo de 15 de Agosto de 1943 (“Céu”) e o mais recente de 21 de Agosto de 1945 (“A um crucifixo”). 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1665, 2025-12-17, pg. 14.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

Contributo de Daniel Pires para a bibliografia setubalense (3)

 


Para a bibliografia setubalense, o contributo de Daniel Pires tem sido eloquente também quando se fala do ambiente social e cultural do século XVIII, tempo que fez Bocage. É assim que se valoriza uma obra como Setúbal, Palmela e Azeitão Vistas por Estrangeiros, de 2012, recolhendo testemunhos de oito autores que olharam Setúbal entre 1766 e 1800, destacando nesta antologia o olhar da diversidade e o cosmopolitismo e não escondendo o preconceito ou a isenção presentes nas várias abordagens. Outros dois títulos relacionados com a época são Padre Gabriel Malagrida: O Último Condenado ao Fogo da Inquisição, de 2012, e O Marquês de Pombal, o Terramoto de 1755 em Setúbal e o Padre Malagrida, de 2013, duas peças importantes pela quantidade de documentos que são postos a descoberto ou relembrados, numa transcrição encaixada na narrativa resultante da pesquisa, fundamentais para se perceber o ambiente cultural da época, a acção dos jesuítas em Setúbal, as rivalidades entre a política e a religião, o papel desempenhado pela liberdade de opinião ou pela sua falta, o retrato que de Setúbal ficou após o terramoto.

Outras duas figuras sadinas mereceram a atenção de Daniel Pires num trabalho que não pode ser esquecido: Paulino de Oliveira e António Maria Eusébio, o poeta popular “Calafate”. Do primeiro, fez Daniel Pires ressurgir o livro autobiográfico Em Ferros d’El-Rei (2012), com um prefácio que valoriza a prática da cidadania e destaca a acção do autor como jornalista, poeta, pedagogo, republicano e divulgador da cultura portuguesa, considerando ser esta “uma das obras mais emblemáticas de Paulino de Oliveira, não obstante ser uma das menos conhecidas”. Quanto ao segundo, o poeta popular setubalense, Daniel Pires foi responsável, com Ana Margarida Chora, em 2020, pela edição da obra António Maria Eusébio, o Calafate - Uma Evocação, título que reúne textos da homenagem que Setúbal lhe fez em 1902 (em cuja organização estiveram Ana de Castro Osório, Paulino de Oliveira e Henrique das Neves), parte significativa dos testemunhos que Henrique das Neves coligiu numa obra antológica publicada em 1908 e alguns contributos mais recentes para o conhecimento da importância da obra deste poeta.

A história do jornalismo setubalense passa também pelo trabalho de Daniel Pires, facto interessante porquanto o jornalismo tem constituído para si fonte de informação e objecto de estudo. Se, em 1986, na sua obra Dicionário das Revistas Literárias Portuguesas do Século XX, na longa lista de entradas aparecem três títulos setubalenses, já no Dicionário da Imprensa Periódica Literária Portuguesa do Século XX, editado entre 1996 e 2000, o número de entradas sobe para 26, num trabalho repleto de dificuldades por não existirem colecções completas dos títulos, mas que prova a importância da imprensa periódica nos domínios da polémica, da afirmação de movimentos culturais, da liberdade de opinião e da ligação à sociedade e dá a conhecer as figuras agentes da intervenção nestas áreas ao nível local e nacional.

As obras com que Daniel Pires nos tem presenteado ou que nos tem revelado, “remos para guiar a jangada” (lembrando Tolentino Mendonça) ou testemunhos que provam “a aventura do homem” (recorrendo a Serafim Ferreira), possuem também marcas de uma forma de estar e de olhar o mundo, conseguindo-se perceber a indignação perante as atitudes despóticas, o desrespeito relativamente à memória, a crueldade na recusa dos direitos inalienáveis, os jogos de poder que juntam intenções ardilosas, como se entende a simpatia por uma forma de estar próxima da intervenção em benefício da sociedade e das manifestações culturais, pelo ideal republicano, pelos princípios éticos e pelos direitos humanos. Naturalmente, são contributos importantes para uma bibliografia setubalense, ainda mais relevantes quando o leitor se confronta, no final de cada uma delas, com referências bibliográficas exaustivas e rigorosas e, muitas vezes, com indicação dos locais onde as obras podem ser encontradas, num trabalho que é importante para o presente, mas que também garante que a jangada do conhecimento e da identidade possa vogar no futuro...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1427, 2024-12-04, pg. 8.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Contributo de Daniel Pires para a bibliografia setubalense (2)

 


As imagens da região de Setúbal vindas através da poesia tinham já ocupado Daniel Pires em 2001, quando uma equipa que integrou também Fernando Marcos e António Quaresma Rosa organizou a exposição Setúbal - Terra de Poetas e Cantadores, reunindo uma centena de autores e 349 títulos, recenseados em catálogo, em cuja introdução se insistia na “dinamização cultural da cidade de Setúbal e reconstituição da sua memória”, surgida de “investigação aturada” que pretendia uma “perspectiva diacrónica da poesia de matriz setubalense”, coligindo os nomes conhecidos e “os populares e os menos consagrados”. Assim se originava uma obra que, mais do que uma lista, se transformou num elemento de estudo, fornecendo pequena antologia e notas biográficas sobre os autores, atitude que visava a luta contra a efemeridade das exposições, “fazendo a ponte com os investigadores vindouros que pretendam conhecer a identidade cultural da cidade”, afinal uma obra para poder ser uma referência de estudo e de conhecimento.

A criação do Centro de Estudos Bocageanos (CEB) em 1999 surgiu de uma intervenção de Daniel Pires no Forum “Pensar Setúbal”, realizado no mês de Maio desse ano, em que defendeu a criação de um centro de estudos e de informação sobre o vate sadino, com a preocupação de o âmbito de estudos ser alargado a outras temáticas locais. A ideia conseguiu agregar cerca de 80 pessoas, que foram os sócios fundadores do CEB, e, nos estatutos, publicados em 1 de Outubro seguinte, eram claras as intenções: divulgar a obra e a personalidade de Bocage, “fazer o enquadramento dos escritores locais e nacionais e dinamizar culturalmente a cidade de Setúbal”. Cerca de um mês e meio depois, em 22 de Dezembro (no dia a seguir ao que marca o falecimento de Bocage), o jornal O Setubalense incluía o primeiro número do que foi a “Página Cultural” do CEB, assinando Daniel Pires um texto que revelava uma antiga e rara tradução italiana de um poema bocagiano. A “Página Cultural”, de publicação mensal, prolongou-se até ao número 155, saído em 29 de Abril de 2013, sempre com uma abordagem de assuntos de interesse local e regional, por onde passaram investigadores, escolas e criadores artísticos, numa pluralidade de saberes. Daniel Pires, além de ter sido seu co-coordenador durante uma temporada, aí fez ampla divulgação de textos esquecidos e publicou ensaios relacionados com figuras locais (como Bocage, o poeta popular Calafate e o historiador João Carlos de Almeida Carvalho), com a implantação do regime republicano e suas marcas em Setúbal ou com histórias da educação, entre outros temas, chegando a defender que o CEB deveria ser o motor da constituição de uma Biblioteca de Fundo Local com vista ao “estudo do património cultural da cidade”.

Nesta missão divulgadora, Bocage tem sido, sem dúvida, a figura mais tratada por Daniel Pires, estudo em que nunca esquece a contextualização de Setúbal à época da juventude do poeta, seja colhendo elementos descritivos, seja pela demanda de iconografia sua contemporânea, reveladora do que eram o espaço e a vida sadinos, como se pode ver, por exemplo, nesse repositório de imagens que é a obra Bocage - A Imagem e o Verbo, editado em 2015. Outros contributos como a colecção de postais Bocage na Prisão, de 1999, o baralho de cartas designado Bocage e a sua Época, de 2005 (em colaboração com Manuel de Vilhena), ou a reedição das Fábulas de Bocage, em 2000 (a partir da edição de 1905), mantendo o mesmo espírito de ligação do poeta à região, apresentam também objectivos de divulgação junto do grande público, particularmente em idade escolar, visando o desfazer de imagens fáceis construídas em torno do poeta, como a do herói das anedotas, e dando-lhe a visibilidade merecida como actor de uma época ideologicamente conturbada.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1422, 2024-11-27, p. 10

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Contributo de Daniel Pires para a bibliografia setubalense (1)



Começarei por duas citações, uma de um poeta, outra de um editor, ambas de quem escreve e vive os livros — a primeira, de José Tolentino Mendonça, que nos lembra que “em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada”; a segunda, de Serafim Ferreira, a considerar que “o livro será o melhor instrumento para decifrar todos os códigos e desvendar os paraísos artificiais (ou não) que pela eternidade hão de alimentar a aventura do homem”.

A razão destas escolhas cruza-se com o papel que Daniel Pires tem tido no enriquecimento do que podemos chamar uma bibliografia setubalense, não só pelo contributo que tem trazido desde há muitos anos para os estudos bocagianos —editando a obra de Bocage (nas Edições Caixotim, entre 2004 e 2007, e na Imprensa Nacional, entre 2017 e 2018) ou contribuindo para o seu estudo (Bocage e o Livro na Época do Iluminismo e Bocage - A Imagem e o Verbo, ambos de 2015, Bocage ou o Elogio da Inquietude, de 2019, O Essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, de 2023, além de outras obras em que colaborou), títulos necessariamente relacionados com Setúbal, quer pelas circunstâncias biográficas, quer por algumas alusões, ainda que escassas, de Bocage à sua região de origem —, mas também pelo que tem posto a descoberto no domínio do conhecimento sobre Setúbal, fazendo ressurgir textos do pó dos tempos e construindo outros a partir das suas investigações e demandas por arquivos e bibliotecas várias, todos eles iluminando o que tem sido a aventura da identidade na região dominada pela Arrábida.

E será justamente pela serra que entramos, uma vez que, como tema, ela consta já na tradição literária portuguesa, desde, pelo menos, o século XVI. Durante muito tempo, referências literárias da Arrábida foram dominadas por uns poucos nomes, a começar em Frei Agostinho da Cruz, passando por Alexandre Herculano e desaguando em Sebastião da Gama. No entanto, a persistência de Daniel Pires e de António Mateus Vilhena possibilitaram ao leitor a pluralidade dos muitos olhares que sobre a Arrábida têm surgido na literatura lusa, desde que, em 2002, publicaram a obra A Serra da Arrábida na Literatura Portuguesa. Se, nessa edição, nos mostraram cerca de meia centena de poetas que versejaram sobre a serra que Pascoaes confessou ser o verdadeiro “altar da Saudade”, como nos contou Sebastião da Gama depois da visita que lhe fez em Setembro de 1951, quando saiu a segunda edição, em 2014, o número de autores subia já para cerca de oito dezenas, com textos escritos num período temporal entre o século XVI e 2014, valendo a pena atentar na justificação que os antologistas apresentam nos prefácios de ambas as edições: a pretensão foi a de “dedicar especial atenção ao património cultural da cidade de Setúbal, contribuindo, desta forma, para a sua valorização e para a preservação de uma memória que faz parte integrante da nossa identidade”, tarefa resultante de investigação “metódica em vários arquivos e bibliotecas nacionais”, partilhando textos que estavam “dispersos por livros ou periódicos de muito difícil acesso”, assim contrariando “a impossibilidade da sua fruição pela maioria das pessoas”.

No mesmo ano de 2014, os dois investigadores avançaram também na publicação da obra Descrição da Arrábida, a partir de manuscrito guardado na Biblioteca Nacional, contendo o texto do franciscano madeirense Inácio Monteiro, assim pondo a descoberto uma obra de referência no domínio da literatura de viagens em Portugal, simultaneamente um bom exemplo da “estética literária barroca”, que descreve “a paisagem envolvente” e os dois conventos arrábidos, dá “informações relevantes no domínio arquitectónico” e apresenta “ampla visão da natureza em estado puro e uma panorâmica de resultado da acção humana sobre ela exercida.” Este trabalho, construído no confronto de dois manuscritos e de uma versão publicada no jornal O Azeitonense (em 1920), trouxe ainda luz sobre o seu autor, que, até esta edição, se supunha ser um jesuíta oriundo do Norte do país, com vida feita em Roma e falecido em Ferrara...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1412, 2024-11-13, pg. 10.

 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Daniel Pires e o essencial bocagiano



“Livre-pensador insubmisso, heterodoxo, Bocage foi um arauto do porvir, anunciando algumas das medidas que, mais tarde, a Revolução Liberal de 1820 e o regime republicano implementaram. E, aliando o génio poético à sede de pugnar por direitos humanos inalienáveis, ponderou questões fraturantes que continuam pertinentes na atualidade.” Assim termina Daniel Pires a sua mais recente obra, O essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage (Imprensa Nacional, 2023), forma de demonstrar a importância do vate sadino e de manifestar a sua adesão a esta figura da cultura nacional a partir de Setúbal, sabido como é que parte da obra de Daniel Pires segue a temática bocagiana.

O que será imprescindível saber sobre Bocage passa pela sua vida e pelas circunstâncias do tempo, pela obra legada e pela memória bocagiana - três áreas que correspondem a outros tantos capítulos do livro.

O primeiro capítulo, “O homem e as suas circunstâncias”, é eminentemente biográfico, conjugando a história da família, o contexto da Setúbal da época e a saída de Bocage da sua terra-natal para um percurso recheado de aventura, de risco, de desafio, até à morte em 1805, três meses depois de fazer 40 anos. Cruza-se o leitor com a vida inconstante da personagem, na sua peregrinação pelo Oriente e no seu confronto com as instituições e com o poder em Lisboa (prisão no Limoeiro incluída), assim como é possível acompanhar-se o que seriam os seus círculos de inimigos (provocadores e acusadores) e de amigos (que o ampararam, defenderam, reconheceram, publicaram e até lhe pagaram o funeral). A imagem que domina é a de uma personalidade excepcional, tal como o reconheceu e registou William Beckford, testemunho que Daniel Pires reproduz: “O Sr. Manuel Maria, a mais fora do comum, mas talvez a mais original das criaturas poéticas formadas por Deus”, que deixou o inglês emocionado - “quando começava a recitar algumas das suas composições, nas quais a profundeza de pensamento se mistura com os rasgos mais patéticos, senti-me abalado, comovido.”

O segundo capítulo, “O legado de Bocage”, historia a obra do poeta nos seus vários títulos (incluindo os póstumos) e deixa ressaltar os principais contributos que a caracterizam, evidenciando a paixão que a poesia sempre foi para si, forma maior de viver, como deixou explícito na advertência do terceiro tomo das “Rimas”, ao referir que os poetas “nasceram com a brilhante mania de metrificar, sacrificam os proveitos da vida civil e até as comodidades da existência física”. Assim, Daniel Pires leva-nos a uma viagem na obra bocagiana, mostrando as influências clássica e sua contemporânea, portuguesa e europeia, a prática dos mais variados géneros poéticos da tradição literária, a tradução, a extensão e o escritor multímodo, bem como os temas da sua poesia (lirismo, autobiografia, intervenção política, crítica social, religião, erotismo, didatismo). A vastidão da obra analisada permite que seja olhada como um repositório de muitas influências e de inovações, pois Bocage “cultivou, de forma inovadora e autêntica, a poesia, o drama e a tradução, pondo em causa cânones, aparentemente inamovíveis, contribuindo para a construção de outros mais consentâneos com o dinamismo que caracterizou a sociedade do século XVIII”.

O último capítulo, “Posteridade, és minha!” (título saído de um verso bocagiano), elenca alguns contributos que têm construído a memória do poeta - edições póstumas, biografias, monumentos, homenagens, comemorações e abordagens artísticas (artes plásticas, teatro, cinema, música). Esta parte é curta, embora a lista seja vasta, limitando-se, na quase totalidade dos casos, a mencionar o nome dos autores, sem indicações de datas ou de títulos. O episódio de memória que tem mais larga presença é o da construção do monumento a Bocage em Setúbal (1871, por iniciativa dos irmãos Castilho), bem como as comemorações que nesta cidade foram surgindo (1905 e 1965, centenário do falecimento e bicentenário do nascimento).

Tratando-se de uma obra que pretende apresentar “o essencial”, cumpre bem a sua missão (embora pudesse considerar mais alguns títulos na lista da bibliografia passiva). O texto acessível e de considerável síntese torna este livro num vade-mécum útil e oferece uma abordagem séria de Bocage ao grande público.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1159, 2023-10-04, p. 10.


domingo, 11 de outubro de 2020

Memória de António Maria Eusébio, o Calafate e Cantador de Setúbal

 


Em 1908, Henrique das Neves (1841-1915) publicava em Lisboa a obra O Cantador de Setúbal António Eusébio (Calafate) - Apreciações críticas da sua personalidade coligidas da imprensa e de cartas particulares, título indispensável para o conhecimento do poeta evocado, pela quantidade de testemunhos recolhidos, pela diversidade de abordagens, pelo facto de a maior parte dos contributos advirem de publicações periódicas, correspondência ou momentos circunstanciais, que correriam o risco de se perder se esta iniciativa não tivesse existido.

Henrique das Neves, que se reformou como general, esteve no exército em Setúbal, aqui tendo feito amizade com António Maria Eusébio (1819-1911), graças à qual o nome do poeta “Calafate” pôde ficar registado em adequada bibliografia. A mais antiga referência escrita ao “Cantador de Setúbal” é assinada por Henrique das Neves no periódico Jornal de Setúbal, em Fevereiro de 1868, aí se descrevendo as suas qualidades e reproduzindo um conjunto de sete décimas. Três décadas passariam e, em 1901, o mesmo signatário avançou com a publicação Versos do Cantador de Setúbal, que mereceu prefácio de Guerra Junqueiro. A partir daí, a obra do Calafate passou a ser publicada em folhetos para venda na rua e nas feiras, assim constituindo um contributo para a subsistência do poeta octogenário e de sua mulher até ao falecimento de ambos no mesmo ano.

Para assinalar o bicentenário do nascimento do poeta, Daniel Pires e Ana Margarida Chora organizaram a obra António Maria Eusébio, o Calafate - Uma evocação, recentemente dada à estampa pelo Centro de Estudos Bocageanos, trazendo para o leitor de hoje grande parte dos textos que Henrique das Neves coligiu em 1908 e acrescentando outros publicados após essa data, com passagem por diversos arquivos. A abrir esta recolha, Daniel Pires considera que a poesia do Calafate “reflecte valores éticos elevados, pugna pela justiça social, por direitos humanos inalienáveis, tantas vezes postergados, então, no país”, enquanto Ana Chora estabelece as diferenças entre a poesia tradicional e os poetas populares, sendo que a estes, na época de António Eusébio, “as elites prestaram particular atenção”, haja em vista “a espontaneidade, a filosofia popular e a ironia” ou, “na forma, uma musicalidade imperativa e um ritmo que se precipita em função da própria lógica do conteúdo” que os caracterizam.

Classificado como “herói do improviso” (Manuel Envia), um dos “Homeros da viola” (Afonso Lopes Vieira), próximo de Nicolau Tolentino (Henrique das Neves), o “último troveiro” (Augusto da Costa), o detentor da “beleza única, a beleza moral” (Guerra Junqueiro), um “repentista e improvisador extraordinário” (Fernando Cardoso), “um caso de inteligência poética” (Fialho de Almeida), o poeta António Maria Eusébio foi longe, com uma recepção transversal a toda a sociedade. Leite de Vasconcelos, que palmilhou o país na busca da cultura popular, leu-o e registou: “tem grande poder de observação - pinta tudo o que vê em volta de si, discute os assuntos que no momento preocupam a opinião pública, verbera, com mordaz ironia, o que na vida ou na sociedade lhe não agrada.” E estas são, de facto, algumas das marcas que a sua poesia revela notavelmente.

Esta obra organizada por Daniel Pires e Ana Margarida Chora colige cerca de oitenta contributos sobre o Calafate, da prosa à poesia, da memória à notícia, do ensaio à biografia, tornando-se (apesar de alguns descuidos nas referências bibliográficas apresentadas) um elemento indispensável para o conhecimento da importância do Cantador de Setúbal. Uma bela forma de o evocar, dando-o a conhecer!

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 481, 2020-10-08, pg. 10.

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Bocage biografado por Daniel Pires



Entre os acontecimentos culturais ligados a Setúbal em 2020 ficará, sem dúvida, a edição da obra Bocage ou o Elogio da Inquietude, assinada por Daniel Pires (Lisboa: Imprensa Nacional), que, apesar de ter o ano passado como data de publicação, só surgiu para o público recentemente, em Maio.

Ao longo de vinte capítulos, entra o leitor nos meandros da vida do mais conhecido poeta setubalense, Bocage (1765-1805), que, no mundo das academias setecentistas, ficou conhecido por Elmano Sadino (conjugando o anagrama do seu primeiro nome, Manuel, e a referência toponímica à sua origem). Esse percurso nem sempre foi de reconstrução fácil, avisando Daniel Pires, em várias ocasiões, ser necessário “recorrer ao campo das hipóteses” para acompanhar o poeta em diversas épocas da sua vida, devido à falta de documentos ou à ausência de referências. Contudo, nesses momentos, o biógrafo informa o leitor sobre a explicação hipotética, avançando com elementos que sustentam a sua interpretação, tornando-se, assim, autor e leitor cúmplices nesta visitação a Bocage e ao seu tempo.

Apesar de o adjectivo gentílico ter sido integrado pelo poeta no seu nome da academia, as referências a Setúbal são escassas na obra bocagiana, parecendo que levou à letra o seu verso “Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado” com que abre um soneto, publicado no primeiro tomo das Rimas, em 1791. Informa Daniel Pires que, a partir do momento em que, em 1783, foi transferido para a Academia dos Guardas-Marinhas, “a sua partida de Setúbal foi quase definitiva”, pois “só terá estado na sua terra natal em 1790, na sequência do seu regresso do Oriente, e, em 1802, quando o pai faleceu.” As causas deste afastamento poderão ser várias, mas não serão estranhas a tal “inquietude” que caracterizou a sua vida, o facto de o pai ter caído em desgraça por um crime não provado e, sobretudo, o desgosto amoroso resultante do casamento de seu irmão com a jovem que o vate amava (Gertrúria, nas referências poéticas, filha do governador do Outão).

Da experiência do poeta no seu percurso de quarenta anos salvou-se a escrita, que lhe trouxe o reconhecimento, ainda sentido em vida: “no início do século XIX, Bocage usufruía de um estatuto literário elevado”, testado nas republicações e no valor que os contemporâneos lhe atribuíram - “o estilo genuíno, a autenticidade, o apuro formal, a capacidade de improvisação e a forma peculiar como dizia os poemas despertavam inequívoca admiração”. Bem interessante é a incursão que o biógrafo faz pela vida editorial do tempo do poeta, assim como pelo historial das edições sucessivas dos poemas de um autor que, apesar do valor que lhe era atribuído, terminou, “para cúmulo, sem túmulo” (título do derradeiro capítulo da obra, algo prenunciador de outros nem sempre simpáticos tratos).

O ritmo das ideias, das viagens, das contendas, dos desgostos, das descrenças, das polémicas, da miséria, da prisão e da falta de saúde, e a qualidade literária sempre acompanharam Bocage, apresentando Daniel Pires contextualizações sobre cada um dos tempos ou cada um dos problemas que enformaram o percurso do poeta (ambientes, regras, costumes, hábitos, em Portugal, no Brasil ou no Oriente) com uma eficácia informativa e uma abrangência plural que guiam o leitor, aliando ainda alguns textos bocagianos a certos momentos biográficos, sem que esta colagem se sobreponha ao reconhecimento literário dos mesmos.

Tratando-se de uma obra de leitura acessível, fortemente alicerçada na investigação (muitos documentos são divulgados pela primeira vez), bom seria que ela constituísse também um alerta para que Bocage reocupasse o lugar que merece nos estudos de literatura e cultura portuguesa do ensino secundário, mesmo por uma questão de cidadania!

* "500 Palavras". O Setubalense: nº 416, 2020-06-17, p. 10.


sábado, 6 de junho de 2020

Luís Amaro - Testemunhos para a amizade



Em 9 de Novembro de 2008, em Massamá, Luís Amaro (1923-2018) escreveu quatro dedicatórias em outros tantos livros que Sebastião da Gama lhe tinha dedicado - Serra-Mãe, Cabo da Boa Esperança, A Região dos Três Castelos e Campo Aberto. As mensagens apresentam idêntico teor, com algumas variações, aqui se transcrevendo a que foi exarada no primeiro dos livros: “À Biblioteca do Museu Sebastião da Gama, em Vila Nogueira de Azeitão, terra natal do Poeta e onde este livro - peça bibliográfica única, porque com dedicatória do querido e inesquecível autor! - ficará mais resguardado, como relíquia que é, oferece comovidamente o Luís Amaro - Homenagem também a Joana Luísa da Gama, Companheira do Sebastião”.
O Museu Sebastião da Gama ficava, assim, com a posse de quatro obras autenticadas com as assinaturas de Sebastião da Gama e de Luís Amaro, dois pólos de uma relação intensa construída sobre a poesia e a amizade, que tivera início em 1945, era Luís Amaro funcionário da Livraria Portugal, em Lisboa.
Ao longo da sua vida, o aljustrelense Luís Amaro foi autor de apenas um livro de poemas, cuja primeira edição saiu em 1949, Dádiva, que reapareceria em reedições de 1975, 2006 e 2011, assumindo um título diferente, Diário Íntimo, a que, em 1975 e em 2011, foi acrescido o subtítulo “Dádiva e Outros Poemas”. Uma interpretação rápida dos títulos permite dizer muito daquilo que Luís Amaro foi como pessoa - muito reservado, mas sempre disponível para oferecer o seu contributo aos outros.
A propósito dos seus 80 anos, um grupo de amigos preparou-lhe uma surpresa - a edição de Para lá da névoa - Homenagem a Luís Amaro (Edições Caixotim, 2005), em que testemunharam 16 autores, rol que integrou dois setubalenses, António Osório e Daniel Pires. Em 2020, novo projecto nos vem lembrar o poeta e bibliófilo alentejano através da obra Evocar Luís Amaro (Cosmorama Edições), coordenada por António Cândido Franco, António José Queiroz, Francisca Bicho e Paulo Samuel e reunindo depoimentos de 19 amigos, incluindo Daniel Pires. A linha que perpassa por todos os testemunhos é a da generosidade do homenageado, autodidacta que sempre abriu portas a quem o procurava, epistológrafo genial, já que a maioria das informações que partilhava seguia através de cartas cheias de anotações, apontamentos, referências. No retrato que a sobrinha Maria Dulce P. Amaro lhe traça, é dito: “O seu percurso não teve nada de fortuito, nem de milagroso. Era um perfeccionista, trabalhou arduamente para atingir a excelência, colocando em segundo plano a sua vida pessoal, que de um modo ‘envergonhado’ frequentemente escondia.”
Por finais de 1990, numa deslocação a Monsaraz com alunos, vi um grupo de três pessoas, parecendo-me ser uma delas o Luís Amaro. Nunca lhe tinha falado, mas conhecia-o de uma fotografia publicada algures e sabia de muita da sua acção em prol da literatura portuguesa. Fui ter com ele, apresentei-me e saudei-o. “Mas como reconheceu que sou o Luís Amaro se nem apareço por aí nos meios?” Lá lhe contei a minha história e os meus afectos literários, por onde passavam alguns amigos dele. Ficámos amigos. As cartas que dele conservo são lições sobre livros, achegas para investigações que me têm envolvido, provas de amizade inexcedível, em duas delas evocando esse encontro alentejano. Subscrevo aquilo que Daniel Pires regista no testemunho deste livro de 2020, chamando a generosidade e a disponibilidade de Luís Amaro para traços maiores. Foi também isso que senti, essa permanente dádiva, de que fui um dos privilegiados.
* "500 Palavras". O Setubalense: nº 410, 2020-06-05, p. 17.