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quarta-feira, 12 de junho de 2024

Camões e Vasco de Quevedo num encontro imaginado por Jukovski

 


Em 1837, o austríaco Friedrich Halm (1806-1871) fazia estrear em Viena a peça Camões, que, dois anos depois, o poeta russo Vassili Jukovski (1787-1859) traduziria para a sua língua, num trabalho que, segundo Irina Khoklova, mantém, ainda hoje, “o seu encanto estético”, tendo em conta “as imagens artísticas, o estilo e o conteúdo ideológico” que o tradutor conseguiu incutir à obra, trabalho recentemente traduzido para português (E-primatur, 2024), que está na origem da ópera O Último Canto - Camões e o Destino, de César Viana, estreada há dias. Camões era já conhecido pela cultura russa, tendo havido em 1788 uma tradução de Os Lusíadas por Alexander Dmitriev, feita a partir de uma versão francesa em prosa devida a Jean-François de la Harpe, datada de 1776.

A história trazida por Jukovski desenrola-se em torno de quatro personagens: Camões, José de Quevedo (que, em abono da verdade, se deveria chamar Francisco de Quevedo), Vasco Mouzinho de Quevedo (filho do anterior) e um guarda (entrando este último apenas na curta cena inicial). As quatro cenas decorrem “num quarto superior apertado, numa grande enfermaria de um hospital de Lisboa”, em 1579, pretendendo retratar os últimos dias do poeta, isolado no esquecimento — quando José de Quevedo é conduzido ao aposento de Camões, conversa com o guarda que o leva, inquirindo se ele tem ideia de quem é o doente e ouvindo como resposta: “Qual ideia, qual quê! Desde que tenha um número, não nos importa o seu nome e os boatos.” O guarda não se conteve e acrescentou que o paciente fora para um quarto normalmente não requerido — “Até agora, aqui ficavam os malucos: mas tanto quis ele ficar sozinho, e na altura este quarto livre estava, que eu para aqui o mudei de uma assentada.” E Quevedo reforçou a decisão, ficando o leitor a par das ideias do visitante: “Se por mim fosse, trancava estes malditos poetas num manicómio.”

José de Quevedo mantém longa conversa com Camões durante a segunda cena, num discurso em que se cruzam as memórias de mútuo conhecimento antigo e o motivo da visita. No decorrer do encontro, Quevedo encarrega-se de mostrar ao poeta a diferença social que os separa: ele, “corpulento”, sinal de bem-estar social e económico; Camões, “magro como um cadáver cavo”, consequência de ser poeta... O diálogo é muito mais reflexivo da parte do escritor, considerando sobre o destino, os estudos, a procura do saber, o conhecer mundo, os amores, o sofrimento. Em passo avançado, Quevedo, confiante no seu poder de abastado, anuncia ao que vem: convidá-lo a ir para sua casa para que sirva de exemplo ao filho, Vasco, jovem que segue a tentação da poesia e recusa o caminho do pai, que assim verá a miséria a que um poeta pode chegar...

Camões recusa mudar, mas fica disponível para um encontro com o jovem a fim de o prevenir das agruras da vida. Na terceira cena, um monólogo do poeta faz uma reflexão sobre o esforço para salvar o poema e sobre a solidão do presente, num mundo nem sempre concertado, mas num itinerário em que “o ganho de um sonhador é o seu sonho”.

A visita de Vasco ocorre na quarta cena, sendo a primeira observação de Camões relacionada com o curto tempo que lhe resta até que a morte venha. “Estás a morrer?... Não, não se pode dar o caso de que Camões morra!”, afirma o visitante, que ouve do poeta já firmado conselhos relativos aos perigos que possam decorrer da procura da fama. O diálogo entre o jovem e o mestre prossegue na descoberta do sentimento poético, da construção de um caminho de felicidade, na afirmação das convicções literárias e das intenções de Vasco, a quem Camões não consegue dissuadir, confessando: “Seus olhos resplandecem, as faces enrubescem; e fala-me como um profeta; e todo o meu interior treme das palavras dele; não terá sido o próprio Deus que enviou esta criança até mim?” A última fala cabe ao velho poeta, que, antes de finar, recomenda: “Meu filho, meu filho, sê firme, com a alma sempre viva! A poesia é Deus nos sonhos bem-aventurados desta Terra.”

Inverteram-se assim as intenções do pai interesseiro para a história acabar na glorificação do poeta como ser profético, como figura que nasce para a arte e para a poesia, num final em que Camões e Vasco de Quevedo encontram afinidades e ficam irmanados, sendo possível ao mais velho morrer porque a eternidade da poesia estava garantida...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1318, 2024-06-12, pg. 10.

 

sábado, 29 de abril de 2017

A propósito da "gorda" que é a "Menina da Mala", de João Duarte, em Setúbal, e de outras possíveis esculturas



As celebrações do 25 de Abril em Setúbal foram a oportunidade para a inauguração de uma escultura na Avenida Luísa Todi da autoria de João Duarte, “Menina com Mala”, de uma série de três, conhecidas como “as gordas” (outra escultura, “Menina com Cadeira”, no Largo Francisco Soveral, de 2016, e uma outra, "Dolce Vita", no Largo da Misericórdia, de 2015).
Esta, que transporta a mala, tem também a máquina fotográfica. Turista à procura da identidade dos outros ou apenas curiosa por ver a sua congénere que está no largo mesmo em frente, depois de passado o túnel que lhe dá acesso?
Quanto à máquina fotográfica, não podemos esquecer a cada vez mais presente prática de os visitantes quererem registar o visto (incluo-me no rol). Mesmo quando nos deixamos ofuscar pela prática dos turistas orientais que bombardeiam a paisagem e os museus com disparos de máquinas fotográficas!... A este propósito, não posso deixar de me lembrar de António Ferro, que, a propósito de uma visita aos Estados Unidos no final da década de 1920, registava a seguinte nota de viagem: “O ‘Overland Limited’ vai passar o Great Salt Lake. É uma linha férrea construída milagrosamente, sobre um lago imenso, um lago que sonha com o mar. Uma travessia de mais de duas horas. O ‘Observation Car’ tem uma enchente. Todos os passageiros querem ver o espectáculo único. Os japoneses, na plataforma da carruagem, apontam kodaks, como pistolas, para todos os lados.” (Novo Mundo Mundo Novo. Lisboa: Portugal-Brasil Sociedade Editora, 1930, pg. 158). Já nessa altura os disparos das máquinas fotográficas dos japoneses eram o que se vê... só não haveria os “sticks”!
Mas vamos às esculturas “gordas”. Por mim, gosto! É uma forma de o transeunte, turista ou não, parar, contemplar e rir. Ainda ontem, quando fui ver a escultura, me entretive a ouvir os comentários de alguns passantes. E não fomos em grupo nem combinámos, cruzámo-nos lá. Bem divertido! E todos ríamos com gosto, como se a escultura estivesse ali para suscitar os comentários, para nos interpelar... E estava!
Nas redes sociais, a discussão tem sido acalorada. Normal, num espaço onde se discute tudo, mesmo que não se saiba o quê. Com concordâncias e discordâncias fundamentadas, mas também com apreciações a fazer o jeito à ideologia... Por mim, gosto das esculturas, insisto!
Recordo o momento em que, há uns anos, em Monchique, me cruzei com estátuas nos passeios ou em que elas se cruzaram comigo. E o passeio parava por momentos, como se fôssemos convidados a parar. E gostei.
Por mim, insisto outra vez, gosto. E divirto-me a olhar as esculturas e a ver os outros a olharem-nas e a comentarem-nas. Como gosto das manifestações de “street art” que têm animado a cidade. Ainda bem que, em Setúbal, se está a dar importância à arte pública! Aliás, estamos a dar importância! E digo isto sem qualquer compromisso com o poder, que não o tenho.
É claro que podemos propor a quem de direito outros monumentos. Sobretudo num tempo em que as rotundas vão ganhando espaço. E, por mim, avanço com três propostas: José Afonso, Vasco Mouzinho de Quebedo e Hans Christian Andersen. Discutíveis, eu sei, sobretudo se pensarmos que poderiam ser outras três e outros três os motivos e os homenageados. Mas dou a cara por estas: a do José Afonso, por ser um símbolo de Abril, por ser uma marca dos cantautores e da música de intervenção, por ser um poeta-músico e ter ligação intensa às terras de Setúbal; a de Quebedo, por ter sido o autor da segunda maior epopeia em língua portuguesa, assim considerado pela cultura, e pela sua filiação setubalense; a de Andersen, por ter sido um estrangeiro que visitou Setúbal e de Setúbal disse e escreveu muito bem, justificada ainda porque seria uma forma de honrarmos quem nos visita com a dedicação ao outro, neste caso um estrangeiro (Málaga, em Espanha, que ele visitou e sobre a qual escreveu, erigiu-lhe monumento em lugar nobre da cidade, com cerimónia que envolveu o reino da Dinamarca; Nova Iorque - que ele não conheceu e sobre a qual não escreveu, mas que tem dinheiro - ergueu-lhe estátua grandiosa no Central Park).
Haja espaços e patrocinadores e a identidade de Setúbal continuará a passar também por estas manifestações!

domingo, 2 de janeiro de 2011

Datas para 2011

2011 é o Ano Internacional das Florestas e o Ano Europeu do Voluntariado. Mas o ano de 2011 é também aquele em que passam os centenários da refundação da Universidade de Lisboa e do nascimento de Alves Redol (29 de Dezembro), de Orlando Ribeiro (16 de Fevereiro) e de Manuel da Fonseca (15 de Outubro). Setúbal tem também bons motivos para assinalar em 2011, uma vez que passam os 400 anos sobre a primeira edição de Afonso Africano, de Vasco Mouzinho de Quevedo (5 de Junho), 100 anos sobre o nascimento do pintor Luciano dos Santos (25 de Março) e sobre a morte do poeta António Maria Eusébio, o Calafate (22 de Novembro), e os 50 anos da criação do Museu de Setúbal e da morte do escritor, e também estudioso bocagiano, João Elói Vidal do Amaral (19 de Novembro).

sábado, 6 de novembro de 2010

Estudos Locais de Setúbal (2) – O azar de Vasco Mouzinho de Quevedo

“Ou é azar meu ou é de Vasco Mouzinho de Quevedo; mas digo que é de Vasco Mouzinho de Quevedo e da cultura de Setúbal”. Assim começou Manuel dos Santos Rodrigues a sua conferência de ontem no II Encontro de Estudos Locais do Distrito de Setúbal, intitulada “Os mistérios de Vasco Mouzinho de Quevedo”.
Queria este investigador, com tese defendida sobre este autor setubalense dos séculos XVI-XVII, referir-se ao tempo que passa desde que a Câmara Municipal de Setúbal, em Julho de 2002, assumiu editar a sua obra O "Afonso Africano" de Vasco Mouzinho de Quevedo, tendo para o efeito promovido uma subscrição pública, publicação que ainda não viu a luz do dia, sem que ao autor tenha sido dada justificação para o impasse.
Este incidente prolonga, afinal, o desconhecimento pelo público dessa personagem da cultura portuguesa que foi Vasco Mouzinho de Quevedo, figura que teve a sua vida envolta em mistérios e que, apesar de ser o autor da segunda mais importante epopeia portuguesa, permanece na memória do quase silêncio. Entre outros enigmas que recaem sobre Quevedo, há o do seu nome, uma vez que assinou também como Vasco Mouzinho de Castelo Branco, ou uma vez que o apelido “Quevedo” surge também com as variantes “Quebedo” e “Cabedo”; há ainda o mistério do seu período de vida, garantindo Manuel Rodrigues que ele nasceu antes de 1564 e morreu depois de 1629, mas antes de 1631; e há ainda o não menor segredo que reside na diferença entre o que Quevedo escreveu e deixou nos manuscritos e o que foi publicado…
São mistérios que Manuel dos Santos Rodrigues tem perseguido e tentado desvendar, para alguns deles tendo encontrado respostas. Por resolver continua, no entanto, o enigma com que abriu a conferência…

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Rostos (74)

Vasco Mouzinho de Quevedo, no monumento a Camões, em Lisboa, por Victor Bastos
Quevedo (séc. XVI-XVII), nascido em Setúbal, está representado num conjunto de oito figuras que rodeiam a base do monumento a Camões, construído entre 1860 e 1867. As outras personalidades representadas são Fernão Lopes, Pedro Nunes, Francisco Sá de Meneses, João de Barros , Jerónimo Corte-Real, Gomes Eanes de Azurara e Fernão Lopes de Castanheda .