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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Fragmentos 03 - Seguro


Ao telefone, num inglês esforçado para que se percebesse a mensagem (a explícita e também a implícita), disse-me que estava tudo bem, apesar de um pouco preocupado. “É que a minha namorada, a X…., vai aí para Portugal por um período de seis meses, para Lisboa… Isso é seguro?” Sim, ainda vai sendo, pelo menos por enquanto… apesar de tudo! Parece que ficou um pouco mais sossegado com as condições para o estágio da jovem italiana, sua namorada.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Fragmentos 01 - A vida



O homem terminou a sua conversa ao balcão com a frase “Pois, a vida é um problema…”, sem que os outros presentes tivessem percebido a que se referia o sujeito. Ao virar costas, ainda desejou “boas festas”, assim como quem cumpre um ritual, que a época propicia. E veio dizendo “é um problema” e mais “a vida é um problema” e ainda “um grande problema”. Aproximou-se de um que estava à espera de ser atendido, sorriu-lhe e perguntou “não acha que a vida é um grande problema?” O ouvinte, surpreendido, embasbacou e sorriu. O falador prosseguiu caminho rumo à porta de saída enquanto repetia “a vida é um problema, um grande problema…”
Saiu e foi ter com a vida… ou com um grande problema!

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Em Setúbal, crise mostra-se na saúde e na alimentação

O Setubalense: 18.Abril.2011

Quem é o gajo?

Já não o via há uns dois anos. O encontro foi hoje, casualmente, na cabina de pagamento do parque de estacionamento.
Que é feito? Pergunta dobrada, surgida dos dois lados…. Lá disse da vida, das ideias, dos afazeres, do pensar. Lá me disse que, apesar de aposentado, tinha desistido da intervenção cívica. Gritante!
Participara na vida política a troco de zero durante muitos anos. E também na vida partidária. Mas fartou-se. “Eh pá, sabes o que é estar-se a expor uma ideia e a única preocupação de quem não é da nossa linha é saber: Quem é o gajo? Qual é a cor dele?” Encheu o saco de desprimores e desfeitas. No partido e na vida política local… “A minha vida na política foi por intervenção cívica e nada recebi… Deixei de suportar estar sempre a ouvir para cima de mim as dicas contra os políticos, contra a corrupção e contra os favorecimentos… Eu, que nada tinha a ver com isto, tinha de estar a ser metido no mesmo saco?” Mas o que mais o indignava era essa impossibilidade de se discutirem ideias ou projectos sempre sob o ferrete do “quem é o gajo?”, como se a filiação partidária fosse sinónimo de qualidade ou da sua falta, como se fosse necessário ter um cartão para poder exprimir ideias, para poder apresentar projectos… “Tivesse eu menos idade e ia-me embora daqui para fora…”, rematou.
Bem o entendi. Também já passei por momentos desses do “quem é o gajo?”, ponto de partida para se ser (ou não) aceite numa discussão cívica… Lamentavelmente, é um retrato bem forte da democracia à portuguesa, apesar de todas as maravilhas que dela possam dizer!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Que presente é este?

Perguntei-lhe pela neta, nascida há meses, e lá me disse que ia estando bem, que se ia afeiçoando ao mundo, que os pais estavam muito contentes, mas que não iriam para o segundo filho e, assim, não havia esperanças de ter também um neto. “A vida está difícil, cada vez mais difícil…Sabe que eu e o meu marido já nem vemos televisão quando é tempo de notícias?”
Fartaram-se de ver e de ouvir notícias, vozes, opiniões alarmistas, duras, rígidas, pairando pouca verdade. “Nada sabemos ao certo, parece que ninguém quer dizer o que realmente interessa, só se desmentem e nada corresponde ao que sentimos todos os dias”, explicou. “Não vê o que se passou com os medicamentos? Numa semana, iam descer não sei quanto e, na semana seguinte, já se dizia que as comparticipações iam acabar e iam ficar mais caros a quem deles precisar… Mal de quem precisa, não é? Dantes, as notícias eram um chorrilho de calamidades, de desastres, de azares… agora, é só economia, dinheiro, intriga e nós a termos cada vez menos… Deixámos mesmo de ver notícias… Não acreditamos…”
Há quem meta a cabeça na areia, há quem se revolte e manifeste essa revolta de forma visível, há quem se revolte e se remeta ao silêncio. Não será ainda desespero o sinal máximo, não. Mas é a desesperança que nos está a invadir, qual onda de areia que tudo vai secando e impedindo que o olhar sorria para o futuro.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Como 1 euro (a)trai!

Circula-se num hipermercado, dando cumprimento à lista das compras necessárias para casa. Há quem faça o mesmo, quem olhe as prateleiras com ar de contemplação, quem assuma um ar de estudo dos preços e dos produtos, quem passeie por entre os outros em jeito de quem vai ao campo ou à beira-rio respirar a brisa… Coisas que estamos acostumados a ver, claro!
- Mãe, olha, estes são só a um euro!
E a mãe fez a vontade ao petiz, carregando logo duas embalagens de três pacotinhos de determinada bebida. Eram três pacotinhos de 200 ml pelo preço de um euro, com letreiro garrido a chamar a atenção para o preço. Mas nem o petiz nem a mãe repararam que, mesmo ao lado, sem anúncio multicor, havia conjuntos de três pacotes de bebida idêntica de duas outras marcas (que não eram marcas brancas), com a mesma capacidade, a 79 cêntimos!
Mais adiante, no sector da alimentação, um “pack” de duas embalagens de um dado produto era anunciado como promoção pelo custo de 4,78 €, com o bónus de um vale de 1 euro para abater na próxima compra. Um olhar mais atento sobre uma embalagem individual do mesmo produto e com a mesma dosagem permitiu ver que o seu custo era de 1,98 €. Assim sendo, as duas embalagens ficariam por 3,96 €. Na prática, o tal vale do bónus não significava 1 euro, mas era apenas de 18 cêntimos, porque os outros 82 cêntimos eram pagos adiantadamente pelo consumidor que embarcasse na promoção da dupla embalagem!!!
Faz-se a opção mais certa e procura-se o resto que falta para concluir a lista de compras, enquanto as vidas vão correndo por entre ofertas e ilusões.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Fim de ano com as estrelas

Cada qual em sua mesa, os dois idosos conversavam depois do almoço num gastar das horas a recordar. Eram tempos de juventude, de serviço militar, com recordações de idas ao quartel da Graça e de vidas em Lisboa, à mistura com observações sobre o fado e sobre o agitar da noite. Mas era, sobretudo, o prazer de recordar, à compita, para ver qual deles tinha mais e melhores lembranças, conversa revivida e partilhada com os outros frequentadores daquele restaurante em Palmela.
E o fim de ano? Onde o ia ele passar? Era a pergunta de um para o outro.
- Ah, eu vou a Setúbal, ao Largo onde era a Feira de Santiago. Sabes como se chama? Tem o nome do José Afonso... Há ali um restaurante de frango assado... Não é o Isidro. É o... é o...
O outro não sabia. Ou não se recordava. Se calhar, já estava mais para ouvir.
- Duarte dos Frangos! - disse eu, numa ajuda de memória.
- Isso, isso. O Isidro é lá em cima... Mas vou ali, porque há lá festa de fim de ano.
Silêncio por momentos.
- É que eu gosto de ar livre. E de festa ao ar livre. Vou lá... respirar aquele ar, ver a noite, ver o tempo, ver as estrelas, ver os anjos... tudo isso é que nos guia e eu gosto...
O outro ouvia. Todos ouvíamos. Não sei se o homem estava a partilhar, se estava a sonhar. De repente, parecia que ele se transformava, se soltava dali e todos o víamos a contemplar o universo, falando com as estrelas, dirigindo-se ao firmamento.
- Ah, assim é que é bom! - antegozava no seu espairecer. - É mesmo lá que eu vou, ainda que chova... Gosto muito de lá ir...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A cor do dinheiro

A senhora fazia desfilar moedas em cima do balcão, na procura da importância certa. A vista já não lhe permitia distinguir os 10 cêntimos dos 20 cêntimos ou os 5 cêntimos dos 2 cêntimos...
- E a forma também não... São parecidas, mal se nota a diferença... - explicou, de cima da sua provecta idade.
A rapariga, ao balcão, ofereceu-se, no seu jovem olhar de águia e de experiência, para contar as moedas.
- Ah, faça-me então esse favor! Estas moedas não foram feitas para os velhos... - justificava a cliente.
- Pois, a senhora tem razão. Muitos se queixam do mesmo... Estas moedas, de tão parecidas que são, deviam ter cores diferentes para cada um dos valores, não era? Não rendia mais, mas sempre ajudava a fazer as contas, não era? - alvitrava a jovem por entre um sorriso.
- Como a menina tem razão! Até o dinheiro era mais bonito... Vê-se logo que é uma jovem! - elogiou a idosa, enquanto a importância era acertada em cima do balcão.
Depois, despediu-se e foi povoar o seu dia.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Máximas em mínimas (46)

No restaurante, o empregado, brasileiro, olhou a miúda que ajudava o irmão a acabar de comer. Pelos 10 anos, ela; por metade dessa idade, o pequeno. E o empregado não resistiu...
-Gosto muito do que estou vendo, menina... Muito bonito, mesmo!
Ela sorriu e continuou na sua função. Passados minutos, o empregado regressou à mesa.
- Muito lindo, mesmo! É que existe ex-mulher, ex-marido, ex-prefeito, ex-presidente... mas não há ex-irmão, nem ex-pai, nem ex-mãe...

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Curtas - A queima

O homem entrou e pediu tabaco. Foi-lhe apontada a máquina, supostamente cheia de maços. Introduziu as moedas necessárias, marcou e esperou. Nada! Repetiu a operação e o sucesso foi o mesmo. Nada! Reparou que não havia a sua marca habitual e optou por outra.
- Serem uns ou outros… também gosto destes!... – conformou-se.
Ninguém parecia ligar-lhe, mas tinha necessidade de dizer.
- Sabe? Eu gosto é de ver a etiqueta que, nos maços, diz “fumar mata”… – anunciou, com sorriso matreiro. – É que me dá um prazer dos diabos queimar aquilo que mata! – e riu-se, saindo para dar largas ao prazer.