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quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Abril: 50 anos, 100 mulheres, 2 antologias

 


Meio século depois do 25 de Abril de 1974, torna-se imperioso haver testemunhos que contem o antes, revivam o durante e avaliem o depois, num percurso que seja construtivo e se oriente pela permanente edificação da liberdade e pelo contínuo engrandecimento da humanidade que somos. A data foi pretexto para Alexandrina Pereira desafiar uma centena de mulheres (50 do concelho de Palmela e outras tantas do concelho de Setúbal, de grande diversidade de profissões, muitas nascidas a partir de 1974) para testemunharem sobre as suas experiências, memórias e olhares sobre o feminino, registos coligidos em duas antologias, editadas com o apoio dos respectivos municípios — Abril, Nome de Mulher, para o caso de Palmela, e Liberdade no Feminino, para o de Setúbal, ambas publicadas recentemente.

Para Alexandrina Pereira, “esta variedade de testemunhos poderá ser objecto de estudo em vários meios, com enfoque nas escolas, e principalmente nos mais jovens, para que a memória não seja curta e a história não se repita”, intenção registada no volume editado em Palmela. Um segundo propósito, que completa o anterior, surge no título publicado em Setúbal, ao desejar que “cada página deste livro seja um grito de libertação perante quem foi fechando um círculo à volta da condição feminina”, poder responsável por remeter as mulheres para a “ignorância imposta por leis que as submetia às mais humilhantes situações.”

Os temas que perpassam por esta centena de testemunhos, muitas vezes eivados de reflexão quanto ao presente e quanto ao futuro (mesmo que as aprendizagens advenham do relato transmitido por familiares), são comuns às duas antologias: as condições difíceis de vida antes do 25 de Abril, as memórias da guerra colonial, as lembranças do que era a escola, a falta de liberdade e a prisão, o medo da polícia política, o papel de subserviência atribuído à mulher, o fascínio pelas promessas pressentidas com a Revolução, a força da manifestação no primeiro Primeiro de Maio, o entusiasmo perante uma figura como José Afonso, a influência e aprendizagem vindas das mães e das avós (sobretudo nos testemunhos de mulheres que nasceram após 1970), as referências ao que falta cumprir como direito e garantia de bem-estar social (no âmbito da saúde e da justiça e na afirmação da democracia e da liberdade, tópico que, em alguns casos, reacende a questão do medo e a indignação perante o populismo).

Por muitos dos testemunhos passam momentos de comoção, que foram vividos na primeira pessoa: o ter tido o primeiro cerco da PIDE aos 16 anos (Antonieta Santos), a dureza da vida da conserveira e os cenários de violência doméstica sobre a mulher (Emília Mondim), a vivência da ruralidade (Felisbela Rilhó), o medo da PIDE e dos traidores (Fernanda Pésinho), o castigo infligido na escola por uma professora esposa de um agente da PIDE a uma miúda cujo pai trabalhava em jornal que dava voz à oposição (Isabel Castan), a felicidade das aprendizagens de um percurso de activista (Natividade Coelho), entre outros que constam no volume editado em Palmela; o exemplo vindo da vida em que a mãe disse “não” à humilhação (Cátia Oliveira), a comoção ao ver com o pai a libertação dos presos de Caxias (Dina Barco), a história de família e de afirmação de identidade (Helena de Sousa Freitas), o peso de viver ao pé das instalações da PIDE  e de assistir ao “teatro de sombras” dos informadores (Isabel Victor), a história da mãe que se indignou porque o Estado não assumia a trasladação dos jovens mortos na guerra colonial (Maria Luís Bento), a dura experiência das desigualdades sociais e consequente indignação (Rita Drouillet), entre outros que povoam o livro dos testemunhos de Setúbal.

Quanto ao futuro, as ideias que perpassam são de confiança num regime livre, ainda que muitas vezes exista a apreensão quanto aos perigos — com 40 anos, Ana Pereira, de Palmela, considera: “Agora, crescida, volto a ter medo. Tenho medo de que o fascismo volte embrulhado num papel dourado coberto de populismo. Tenho medo de que as canções de Abril percam as suas palavras e nos esqueçamos de quem lutou e quem morreu pela luta. Tenho medo de que tenhamos perdido o poder da palavra. E o ‘medo’ é das palavras que mais evito usar, mas prefiro ter medo a ser inconsciente.” Helena de Sousa Freitas, de Setúbal, com 48 anos, construiu o seu texto em diálogo com a mãe, Adélia Lino Rapaz, a quem dá a última palavra no testemunho: “Se houver que desenterrar os tempos velhos, que seja para estudar os erros ali cometidos e evitar repeti-los, nunca para matar supostas saudades. E, em seguida, é devolvê-los à sepultura e enterrá-los bem fundo. Sobretudo, enterrá-los bem fundo!”

Convicção e confiança são, assim, dois pilares fortes na sustentação do futuro... construídos sobre a base da memória, que não permite que a história seja traiçoeira.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1398, 2024-10-23, pg. 10.


quarta-feira, 3 de agosto de 2022

Jorge Costa e a condição do “sem-abrigo”


 

“Imaginem o que é viver constantemente na rua, sem um sítio nosso para nos sentarmos a descansar um pouco, sem uma casa de banho para nos lavarmos e fazer as nossas necessidades mais básicas, e sem acesso pessoal a energia eléctrica, sem sítio para arrumar a roupa, guardar a comida, sem nada. Expostos a tudo e a todos, sem privacidade e com uma crescente falta de dignidade.”

Este parágrafo desafiador inicia o relato que Jorge Costa (1967-2022) nos faz na obra Diário de um sem-abrigo (Oficina do Livro, 2022), com prefácios de Marcelo Rebelo de Sousa e de Nuno Markl, narrativa que retrata o quotidiano de um sem-abrigo, não seguindo o género diarístico, mas cultivando a crónica autobiográfica, em catorze textos (inicialmente publicados no jornal Mensagem de Lisboa) que peregrinam pelos dias e noites que o autor viveu nas ruas de Lisboa e pelos sentimentos que o dominaram, cada vez mais próximos daquilo que foi conhecer a ausência de dignidade.

Jorge Costa, contabilista, que não foi sem-abrigo por não ter tentado outras oportunidades (operador de caixa numa gasolineira, operário na construção civil), despedido quando já passara os cinquenta anos, desamparado pelos amigos, rapidamente se confronta com uma dura aprendizagem  - “A sociedade em que estamos inseridos ajuda quem está a subir. Quem está a descer leva um ‘empurrão’ para descer ainda mais.”, sentenças que repetirá no livro por ter sido sentida na pele, num mundo dominado pelas “leis da rua”.

Toda a narrativa é dominada pela emoção, havendo momentos mais intensos - o encontro com a personagem Zé, outro sem-abrigo, que foi “padrinho” e conselheiro; a consciência dos subterfúgios para sobreviver, dramáticos, como o da prostituição nas casas de banho da gare do Oriente; a primeira ida ao contentor do lixo para procurar algo para comer; o assalto de que foi vítima, violento, e o desprezo sentido no mundo dos sem-abrigo; a necessidade de roubar comida nas lojas, contrariando os princípios e as convicções; a constatação de que a única coisa que une os sem-abrigo “é não terem casa para morar, vivendo de forma igual e sendo observados por uma sociedade que lhe coloca uma espécie de rótulo”.

As crónicas deste Diário de um sem-abrigo não pintam as realidades com metáforas. Consegue o leitor sentir o desprezo visto nos olhares, a razão de ser da moeda que é dada, a crueza da linguagem, o abandono e a falta da capacidade de sonhar. O mundo que Jorge Costa frequentou durante oito meses, depois que deixou o seu quarto em Alverca por não ter dinheiro para pagar a mensalidade, ensinou-o a não chorar, a “não revelar aquilo que vai cá dentro”, gestos que só passou para a escrita quando, depois desse tempo, teve direito a uma casa através do projecto “Housing first”, que o mesmo foi ter encontrado um pouco do sonho que o animara no percurso - “só sonhava em viver dignamente.”

No final das catorze crónicas, Jorge Costa reconhece a crueldade da escrita - apesar do equilíbrio físico-emocional reconquistado, “foi duro, foi muito duro escrever estas crónicas”, refere na última, à maneira de balanço e de caução da sinceridade que pôs na escrita. E reconhece também que a sua identidade não podia deixar de fora o que passou nas ruas, tentando definir-se como “um sem-abrigo com casa”. E, da mesma forma que iniciou a série com um desafio ao leitor, conclui com outra provocação - “Um dia destes, dei por mim a pensar que se todos nós sentíssemos a miséria dentro de nós, talvez a miséria não existisse.”

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 903, 2022-08-03, p. 21.


quinta-feira, 30 de abril de 2020

D. Manuel Martins nas memórias de Eugénio Fonseca



“Nem Setúbal nem o País jamais esqueceram D. Manuel Martins. Recordo que, numa das suas vindas a Setúbal, dois ou três anos após a sua saída, passava um pouco mais das 15 horas, e estávamos, ele e eu, a passear na Avenida Luísa Todi, e, em frente ao mercado, ouviu-se o buzinar estridente de um autocarro. (...) Vimos que era um dos veículos que transportava trabalhadores para a, ainda, Setenave. Os passageiros estavam todos do nosso lado a baterem palmas ao Bispo que viram passar. D. Manuel emocionou-se, mas nada pronunciou, acenou-lhes apenas num gesto de saudação.” Este é um dos parágrafos que surge quase no final da obra Testemunho de duas Vidas Compartilhadas, de Eugénio Fonseca (Paulinas Editora, 2020), título memorialístico em que o autor revê e rememora o tempo e as acções em que participou com o primeiro Bispo de Setúbal durante a sua prelatura.
Colaborador próximo de D. Manuel Martins, não faltariam a Eugénio Fonseca momentos, reflexões ou acontecimentos vividos por ambos para poderem ser partilhados. Logo a iniciar o volume, é o leitor informado de que, em várias conversas entre os dois, a questão das memórias de D. Manuel Martins fora aflorada, tendo mesmo o bispo escolhido um título, curto mas eficaz, como “Pedaços de Mim”, todo ele imbuído do essencial da escrita memorialística - o “eu” que se revê e relembra em fragmentos da vida que assumiram a importância de a justificar e de a dar a conhecer. Contudo, não tendo D. Manuel redigido essas memórias, entendeu Eugénio Fonseca, depois de ouvir amigos, dar a conhecer o relato do que com ele viveu e sentiu - “optei sobretudo por narrar vivências partilhadas pelos dois. (...) Sempre que se proporcionou, reconheço que procurei retirar ilações que podem servir de meditação para os leitores.”
Inevitavelmente, por este livro passam os anos primeiros da diocese de Setúbal e vários dos seus protagonistas - os padres João Alves, Joaquim Sampaio, Álvaro Teixeira, Custódio Rodrigues Pinto. Passam momentos da Assembleia Diocesana, da criação do Fundo de Solidariedade, da criação do Centro Social na antiga igreja da Anunciada, da acção internacional em que D. Manuel esteve envolvido - Comissão Episcopal das Migrações, intervenção em prol de Timor, apoio aos campos de refugiados no Malawi.
Mas este Testemunho de duas Vidas Compartilhadas é muito a história da “conversão” do seu autor. Eugénio Fonseca, que testemunha o seu agradecimento à Comunidade Claretiana de Setúbal, pois cresceu envolvido no ambiente da igreja de S. Sebastião (sob a responsabilidade dessa Comunidade), assume um “nascer de novo” a partir do momento em que encontrou D. Manuel Martins - quando, em 27 de Outubro de 1975, à noite, ocasionalmente, andava o novo bispo a conhecer as ruas sadinas, o que leva o autor a considerar: “associado a muitos outros que vieram a suceder-se, com os seus contextos e pretextos, fizeram-me relacionar esta primeira e fugidia troca de palavras com a relação entre Nicodemos e Jesus.” E, neste percurso “renascido”, Eugénio Fonseca não hesita em mostrar as suas convicções e as suas alterações de opinião, assumindo um percurso próprio de esclarecimento e de intervenção muito assente na experiência vivida com o primeiro Bispo de Setúbal.
* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 384, 2020-04-29, pg. 10

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Tarquínio Reis: referência maior de Palmela



Tarquínio Reis é figura incontornável para se contar a vida de Palmela. Nascido no início de Dezembro de 1925, Tarquínio Reis tem sido um homem que tem preservado as tradições, que se dedicou ao movimento associativo (como dirigente, como associado, como fundador de associações) e à solidariedade social.
Desde que o conheci, há uns 30 anos, sempre o vi com enorme admiração. Aprendi com ele, estive com ele na direcção do Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela (GACP), somos amigos.
Esta gravação, da responsabilidade do Museu de Palmela, contém cerca de 8 minutos de entrevista feita a Tarquínio Reis por Pedro Ralo e Teresa Sampaio, em que o destaque vai para as histórias em torno das músicas de Palmela, terra de duas sociedades filarmónicas. Excelente contador de histórias, este Tarquínio, não só porque as sabe contar, mas também porque as viveu e porque delas foi protagonista.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

Contar o exílio em "O que muitos andaram para aqui chegarmos"


O que muitos andaram para aqui chegarmos (ed. Poemar) é um livro colectivo em que se testemunha o exílio, a vida de recusa de injustiças impostas como a guerra colonial ou a prisão pela PIDE; em que se partilha a experiência dos riscos, dos medos, das solidões; em que se inventaria o tempo desse sofrimento. São dez autores, todos eles tendo sido exilados: Fernando Gandra, José de Matos, Vítor Ascensão, Carlos Melro, José Matias, Maria Augusta Seixas, Diogo Pires Aurélio, Carlos Marum, Manuel Jorge Gonçalves e José Coelho. Em comum, têm o facto de terem desaguado em Bruxelas, o espaço que lhes abria a sua utopia.
A apresentação será na Casa dos Bicos (Fundação José Saramago), em 30 de Maio, pelas 18h30.
Convidados.


quarta-feira, 24 de abril de 2019

António Correia: o cidadão, o professor, o amigo



Conheci o António Correia como professor na Escola Secundária de Palmela, quando lá fui colocado, em 1989. Foi meu colega, foi director da Escola (Conselho Directivo), foi meu orientador durante a profissionalização em serviço, foi (é) meu amigo.
O António Correia é sempre um mestre. Sem favor! Tive o privilégio de trabalhar com ele. Tenho o privilégio de o ter como amigo. Tenho tido o privilégio de aprender com ele. O discurso que ouvi neste filme é o mesmo que me contou noutras alturas. Sem ser pretensioso, sem ultrapassar o que lhe é devido. Excelente testemunho, António Correia! Obrigado por tudo.

sábado, 2 de fevereiro de 2019

Nicolau da Claudina: a experiência, o saber, a amizade e a disponibilidade



Nicolau da Claudina (n. 1933) é uma figura carismática de Palmela e de Setúbal. Nome ligado ao movimento associativo, passou pelas direcções do Vitória Futebol Club, do Palmelense Futebol Club, do Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela, da Sociedade Filarmónica Humanitária de Palmela e da Associação Cultural Sebastião da Gama, entre outras.
Homem de um saber e de uma experiência extraordinárias, alia a bondade, a disponibilidade e uma memória prodigiosa que, além de revelar histórias, transmite exemplo. Foi aluno de Sebastião da Gama, personalidade que venera e a quem reconhece ter tido um extraordinário papel na sua formação.
Alegro-me por ter Nicolau como amigo de há muito tempo. E agradeço a Simões Silva a iniciativa de recolher o depoimento e testemunho de Nicolau da Claudina. A ver!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Manuel Medeiros - a derradeira mensagem do "Livreiro Velho"



A mensagem final de Manuel Medeiros. Um testemunho que comoveu os presentes no Forum Luísa Todi, em Setúbal, na tarde de domingo passado, quando se concluía o espectáculo de homenagem aos 40 anos da livraria Culsete. Na manhã de 4ª feira, Manuel Medeiros partia...
Um texto para guardar. Para ouvir muitas vezes. Para se transcrever. Não só por lembrança e por memória. Pela mensagem. Pela essência. Por obrigação. Porque sim. Grande Manuel Medeiros!

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Encontro com o Padre João Felgueiras




Há meia dúzia de meses, encontrei na net a referência ao livro Nossas memórias de vida em Timor, testemunho dos padres jesuítas João Felgueiras e José Alves Martins sobre a sua experiência dura e histórica naquele país (Apostolado da Oração, 2010 – 2ª ed.).
Era um reencontro com o padre Felgueiras (n. 1921, na zona de Guimarães), que conheci em Cernache, onde, em 1969/70, foi meu professor de Latim. Por pouco tempo, pois, ainda nesse ano lectivo, rumou para Timor.
Nunca mais nos cruzámos. Ficou-me sempre a saudade de um homem bom, extraordinariamente bom, atento, dedicado, sereno. Ao longo dos anos, várias vezes o recordei e me questionei sobre o que lhe poderia acontecer, mesmo tendo em conta o que se passava em Timor. O encontro com esse livro de memórias foi uma alegria, quer pelo reencontro, quer pelo facto de saber que o padre Felgueiras continua a espalhar imagem igual àquela que me deixou gravada.
Duas amigas minhas estão em Timor há pouco tempo. A ambas recomendei que conhecessem o padre Felgueiras e pedi-lhes que lhe dissessem desta admiração e afecto que mantenho por ele, apesar de saber que não se lembrará do jovem estudante impressionado porque éramos muitos e o tempo de convívio foi curto.
Hoje, a Cristina enviou-me uma mensagem a dizer que tinha conhecido João Felgueiras e a manifestar o seu deslumbramento. Simultaneamente, deu-me as coordenadas de uma reportagem disponível na net, produzida no ano passado, com realização de Carlos Narciso, intitulada “Padre João Felgueiras – Breve peregrinação”. São 21 minutos de testemunho, de encontro com o passado de Timor e com a liberdade, de lembrança e de lição de vida. Aqui fica o testemunho.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Lembrar Rui Serodio (3) - Eu e o Rui, por Jorge Calheiros

Nunca gostei muito de escrever. E muito menos de escrever muito. Sempre fui mais dado, quando estudava, às Fisícas e Matemáticas. Mas hoje senti um enorme impulso para o fazer e partilhar com todos os que se derem ao trabalho de ler este texto aquilo que foi a minha convivência com o Rui Serodio.
Estaríamos em meados da década de 90 quando, através de um amigo do meu irmão, o Paulo Silva, conheci o Rui Serodio. O Rui estava a tocar num bar num Hotel do Montijo. Ficou desde esse momento claro para mim que era um executante brilhante.
Eu estava a desenvolver nessa altura um projecto para a criação e edição de karaoke em português e o contacto com o Rui vinha no sentido de ele poder colaborar na produção musical dos “covers” de que eu necessitava.
Fizemos umas tentativas, mas a coisa não resultou. Fiquei mesmo embaraçado sem saber o que lhe dizer, quando ouvi as primeiras provas. Iria perceber rapidamente que fazer igual ao que os outros criaram não era para o Rui.
E, com esta primeira experiência fracassada, foi começando aquilo que viria a ser uma amizade muito forte. O Rui foi, é, e será sempre um dos meus Amigos, daqueles que se contam pelos dedos de uma mão… e, às vezes, são dedos a mais.
Em 96 ou 97, já não me recordo, perguntei ao Rui: “Já tanta gente tem escrito, pintado, fotografado a Arrábida, mas nunca ninguém musicou a Arrábida. E que tal se o fizesses?”.
O Rui olhou para mim, algo surpreendido e disse-me: “Boa ideia! Vamos a isso!”
Eu, nessa altura, tinha uma empresa editora e um pequeno estúdio de gravação e disponibilizei-me para trabalharmos em conjunto. Ainda me recordo do primeiro dia de gravações em que o Rui entrou no estúdio, sentou-se ao piano e disse: “Vamos começar por colocar um RÉ”. E premiu uma tecla do piano eléctrico e manteve o som do Ré por vários minutos.
Tudo aquilo era novo para mim e pensei: “Um RÉ? Só isto?”
Assim nasceu a primeira obra que o Rui editou em CD, apenas com instrumentais seus, e que era para chamar-se ARRÁBIDA, mas que mudou o nome para SINTRA, pois acabou por ser editada pela Strauss Evolution e o nome SINTRA era mais adequado pela sua divulgação internacional. O CD SINTRA foi editado em 1998.
O Rui desenvolveu uma capacidade única de acompanhar poesia ao piano, improvisando e colocando as notas no local certo onde as palavras iam batendo. Fê-lo com muitos poetas e declamadores, ao vivo, durante toda a sua vida.
Quando em 1996 surgiu uma oportunidade de criar os fundos musicais para um CD de Sonetos de Bocage cuja produção foi da LASA-Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão, o Rui mais uma vez demonstrou o seu enorme talento. O CD “SONETOS DE BOCAGE” saíu em 1996 e eu tive o previlégio de ter sido o Produtor Executivo.
O Rui não nasceu em Setúbal, mas os vários anos que viveu nesta cidade deram-lhe uma capacidade, aliada à sua enorme sensibilidade, de amar tudo o que tinha a ver com esta cidade. E tanto para ele como para mim o facto de não ter sido possível “cantar” a Arrábida era algo que nos angustiava.
Assim, começámos a preparar um novo CD, em colaboração com a empresa SAL, que, entre muitas outras actividades, tem diversos percursos pedestres na Serra da Arrábida. E nasce em 2001 o CD “Caminhos da Arrábida” com 9 temas sintetizados, muito influenciados pela música tradicional portuguesa, que sempre foi uma base de inspiração para o Rui. Este CD teve uma versão em Inglês denominada “Sounds of the Mountain”. Mais uma vez, tive o privilégio de ser o Produtor Executivo deste CD e acompanhar todo o trabalho criativo do Rui.
E cumpriu-se um desígnio: se Sebastião da Gama foi o poeta da Arrábida, Rui Serodio foi sem dúvida o músico da Serra Mãe.
O Rui adorava desafios, principalmente aqueles que punham à prova a sua capacidade de criação e de execução técnica. Um dia, depois de jantar e na minha casa, nas nossas longas conversas, perguntei-lhe: “Rui: serias capaz de contar 15 anos de história de uma empresa em música, ao piano?”. Com alguma estepefacção pela pergunta e afagando a barba esbranquiçada, respondeu-me: “Isso é muito giro... Vamos fazê-lo!”
E, durante 2 ou 3 horas, eu estive a contar 15 anos de história de uma empresa que eu tinha fundado e da qual era Presidente: a Setcom.
O Rui anotou numa folha A4 dobrada ao meio aquilo que lhe pareceu importante da vida da empresa. Em Novembro de 2001, nos estúdios Shangrilá, o Rui sentou-se ao piano e com apenas aqueles apontamentos na sua frente, criou uma obra musical com 3 partes, cada uma delas correspondendo a um período da vida da empresa. Tudo de improviso e gravado à primeira, sem “picagens” nem repetições. A parte mais curta tem 9:42. Isto demonstra a capacidade ímpar de improvisação do Rui. O CD saíu em 2 versões: uma, personalizada, para a SETCOM e outra com o título “Insights”.
Trabalhar com Rui na música e edição de discos era um prazer enorme. E, para mim, acompanhar de perto a sua genialidade era algo de indescritível.
O Rui, com toda a sua capacidade criativa fora do comum, era uma pessoa simples, humilde e por vezes até ingénua demais. Para ele, a amizade e amor pelos outros estava sempre à frente. E ouvia os outros. Eu funcionava para ele como uma espécie de consultor/produtor para a área do audio, para lhe dizer se as misturas estavam boas, se não havia ruídos, o que é que eu achava da estrutura de certos temas, etc. E que prazer eu tinha em lhe dar as minhas opiniões!
Mas a música e a poesia teriam de continuar juntas. Em 2006 e 2007, mais uma vez trabalhámos juntos na edição de 2 discos de poesia de Celeste Saiedi, editados pela minha editora, a JGC, e com a música de fundo, claro, do Rui.
Em 2007, o Centro de Estudos Bocageanos promoveu a edição de um CD com poemas de Bocage e com a música do Rui, “Perscrutando a inquietude”, no qual também colaborei, tendo a JGC sido a editora.
O nosso último trabalho em conjunto, materializado na forma de CD foi o “ Meu caminho é por mim fora”, um CD promovido pela Associação Cultural Sebastião da Gama, com textos e poemas do poeta da Arrábida e música do Rui Serodio. Mais uma vez tive o grande privilégio de ter sido o editor e ter trabalhado na mistura e masterização do CD. O disco foi editado em 2010.
A produção musical e criatividade do Rui eram inesgotáveis. Ele estava constantemente a compor e a enviar aos amigos os MP3 das suas obras. O que o Rui mais desejava era que as pessoas o escutassem e comentassem os seus trabalhos musicais.
Adaptou-se de forma ímpar à produção musical assistida por computador, o que é de todo invulgar para alguém que nasceu nos anos 30 do século passado.
Ao longo dos anos em que o conheci, o Rui passou musicalmente por várias fases. Depois do uso dos sintetizadores, que podem ser reconhecidos nos trabalhos SINTRA e CAMINHOS DA ARRÁBIDA, o Rui acabou por se dedicar à música de apenas piano, ou quando muito com umas mantas de cordas por detrás, mas tendo o piano como instrumento base e solista. E, com piano, o Rui era imbatível...
Estávamos a preparar um novo CD: “The Mystic of the Piano”. Ele já tinha tudo pronto, faltando apenas algum trabalho de estúdio de mistura e masterização e composição gráfica.
Aliás, alguns dos temas que ele escolheu para o alinhamento até já são conhecidos de muitos dos seus amigos: “An old fashioned pianist”, “Arrábida minha”, “Theme waiting for a movie”, são apenas alguns exemplos.
Na generalidade destes temas ao piano, encontramos uma carga nostálgica muito forte, uma combinação perfeita de linhas melódicas muito simples, pegando em temas de meia dúzia de notas e desenvolvendo esses temas sobre harmonias complexas e brilhantes como ele sabia fazer.
Eu sei que o Rui queria muito este CD. E vai tê-lo, pois eu irei tratar da sua produção e divulgação, para que o maior número de pessoas possam conhecer a arte impar e invulgar de um homem que adotou Setúbal como a sua cidade, e à qual deu muito: a sua ligação à Universidade Sénior de Setúbal e como maestro do coro Afina Setúbal, da CMS, são apenas alguns exemplos.
No dia 22 de Outubro de 2011 o Rui partiu. De uma forma que teve tanto de brutal como de inesperada.
É lugar comum falar bem das pessoas quando partem. Parece que as pessoas ficam maiores e mais importantes do que eram antes da Grande Viagem. Passam a ter o seu nome em ruas ou praças e alguns até passam a estátuas ou bustos.
Mas o Rui já era enorme antes de partir e eu tive o raro previlégio de privar com ele, de trabalhar com ele, de rir com ele, ou, simplesmente, de conversar.
O meu Amigo partiu. A última vez que estive com ele foi no dia 15 de Setembro de 2011 na merecida homenagem na CMS com a entrega da Medalha da Cidade. Que bom ele a ter recebido antes da sua partida!... Nesse dia, vi-o muito debilitado, mas nunca imaginei que o destino seria tão brutal como foi.
Eu e o Rui éramos grandes amigos. Não daqueles que as tecnologias vieram banalizar, mas daqueles que estão sempre num lugar muito especial dentro do nosso coração.
Por vezes, o Rui parecia um Pai. O seu cabelo e barba branca, a sua disponibilidade, a sua compreensão. Outras vezes era o irmão mais velho. Não é por acaso que na intimidade ele me tratava por Mano Novo e eu o tratava por Mano Velho... Outras, parecia um irmão mais novo... A sua simplicidade, às vezes roçando a ingenuidade, própria dos grandes seres humanos como ele era, levava-me a dar-lhe conselhos e sugestões como fazemos aos irmãos mais novos.
Ficou muita coisa por fazer. Fica sempre, é verdade, mas neste caso falamos de coisas concretas, de projectos que ele tinha e onde eu estava sempre disponível para colaborar.
Mas uma coisa é certa: tudo o que estiver ao meu alcance vou fazer, no sentido de dar cumprimento ao que o Rui mais queria: que as pessoas conhecessem a sua música. O site www.ruiserodio.com foi feito e mantido por mim. Irei trabalhar neste site no sentido de o tornar o grande portal da obra de Rui Serodio.
Só uma coisa não consigo fazer. Nem eu nem ninguém. Tocar e criar música como ele o fazia.
Tenho comigo centenas de temas que ele criou e me enviava por email. Alguns são apenas ensaios; outros, obras lindíssimas. Vou tratar de todo este espólio e dar , cumprimento à sua vontade, muitas vezes expressa, e a mim particularmente.
Um deles foi enviado em 30 de Agosto de 2011. Provavelmente o último que ele criou. Deu-lhe o nome GOOD NIGHT, MY BABY... inquietante, este nome...
O Rui partiu mas não morreu. Enquanto a sua música for por todos nós escutada e apreciada, ele estará sempre vivo nas nossas almas e nos nossos corações.
Apenas partiu... só isso...
Até logo, Mano Velho!
Jorge Calheiros

Lembrar Rui Serodio (2) - Tributo a Rui Serodio, por José Luís Nobre

Sábado, 22 de Outubro de 2011.
Ainda a consciência estava trôpega, espreguiçando o corpo e adaptando a mente aos firmes traços da realidade, já o telefone tocava. Não conhecia o número mas atendi. Tinha acabado de dizer bom dia à vida, do outro lado contaram-me da morte de um amigo. Desliguei, senti uma súbita pancada na cana do nariz, foi essa a sensação, e os soluços compulsivos que se seguiram esclareceram-me do que já suspeitava há algum tempo – o Rui Serôdio não era só um amigo. Era meu avô, pai, o tio que ensinava música e coisas da vida, e ainda o irmão mais novo (!) que recebia conselhos, atento, como um miúdo que não se cansava de tentar aprender a desenlear os nós tramados do amor e da amizade.
As causas do sucedido deixaram-me estupefacto pois ele teve o extremoso cuidado de poupar os amigos a qualquer sobressalto, e por isso o choque foi muito maior para todos. Para o Rui seria desnecessário que andássemos por aí preocupados, ele sabia que havíamos de receber notícias brevemente, fossem elas boas ou más.
Com ele percorri um caminho de trabalho, de estudo, de amizade e de generosidade cultural que muito me enriqueceu artisticamente e pessoalmente. Estou-lhe grato pelo que aprendi, honrado e orgulhoso pela nossa parceria, e devassado pela sua perda – o mundo (Cidade de Setúbal naturalmente incluída) ficou com menos um homem bom.
Domingo, 23 de Outubro de 2011
Mais de uma centena de amigos, familiares, conhecidos e admiradores juntaram-se no Cemitério da Paz para a cerimónia do derradeiro adeus.
O Outono, que pedira emprestado o sol que o Verão desperdiçou, parecia apreensivo como se de ontem para hoje, tal como os presentes, tivesse bruscamente alterado os seus humores. A cerimónia prosseguiu, rezou-se, vimos desaparecer o caixão coberto pela terra. Chorámos, e o céu juntou-se a nós no pranto.
Rui Serôdio, Eterna Amizade, Eterna Saudade!
José Nobre

sábado, 2 de abril de 2011

Faltas minhas e compensações pela voz dos alunos

Na tarde de hoje, bem me apetecia ter estado presente num de dois acontecimentos (ou até nos dois, ainda que dividindo o tempo): na entrega do prémio de poesia que o Rotary Club de Palmela promoveu e está a acontecer na Biblioteca de Palmela (mesmo porque integrei o júri) ou na tarde que a livraria Culsete está a promover para celebrar o Dia Internacional do Livro Infantil. Por razões de trabalho, não pude estar presente em nenhuma das iniciativas, ambas louváveis.
Tenho estado a avaliar trabalhos dos meus alunos – testes, adaptações de um conto de Mário de Carvalho e fichas de leitura. Estas últimas tiveram como objecto a obra de Maria Alberta Menéres Camões, o Super-Herói da Língua Portuguesa (Alfragide: ASA, 2010).
Tive de parar quando acabei de ler a do D.A., que, a dado passo, diz sobre este livro: «Este foi um livro que apreciei bastante, porque nos mostra uma vida mesmo muito difícil que Camões conseguiu superar, embora muito difícil de o fazer por vezes, e ainda escrever uma das melhores obras alguma vez feita. Também me surpreendeu muito o facto de nunca ter deixado de amar a sua Pátria: “morro com a Pátria”, depois de ter sido preso, mandado para a Índia para combater e de ter ficado na miséria.» E, como se isto não chegasse, um pouco adiante, torna-se mais evidente: «Este foi um livro de que realmente gostei, porque mostrou-me um verdadeiro patriota português, que sofre pelo seu país, que torna o seu legado na divulgação do grande feito do seu País e que perdoa o seu País depois de o ter deixado passar por tanto sofrimento. Este é um livro que recomendo definitivamente para quem acha que Portugal nunca fez grandes feitos ou nunca teve ninguém que fosse importante para a história do mundo. Ao lermos este livro tornamo-nos verdadeiros patriotas.»
A gente lê isto e tem de parar. Os jovens apreciam os grandes exemplos. E, além disso, as situações de justiça e de serviço ao próximo.
Já num teste feito ontem, um aluno do 9º ano, o M.C., na parte final, em que sugeri que cada qual escrevesse uma carta ao herói que Camões foi (temos andado a ler e a estudar Os Lusíadas), registava: «Acho interessante a forma como você valoriza os Portugueses, pois hoje em dia já ninguém se valoriza assim e você valoriza os Portugueses como um pai valoriza um filho». Mais à frente, a propósito da opinião de Júpiter sobre os Portugueses, o mesmo M.C. considerava: «a maneira como Júpiter nos valoriza é inspiradora pois isso faz um verdadeiro português sentir orgulho no seu país e não desprezo, que é o que se sente hoje».
Repito: a gente lê isto e tem de parar. Estes pequenos comentadores sentem o que vai acontecendo, sentem a nossa actualidade e são capazes de pensar. Isto é óbvio, mas nem sempre é tido em consideração…
Estas reflexões compensam-me das ausências que cometi.

domingo, 28 de novembro de 2010

"Sobreviver ao cancro", de Florindo Cardoso

Quaisquer que sejam os escritos autobiográficos, eles resultam sempre da singularidade de uma experiência pessoal, seja esta singularidade reconhecida pelos outros, seja reconhecida pelo próprio que a viveu. Em qualquer dos casos, o protagonista dessa singularidade está predisposto a reconhecê-la e a considerá-la de tal forma importante que ela pode virar testemunho escrito. Abundam exemplos desses na literatura, resultados de vivências únicas na política, nos campos de batalha, em missões de solidariedade, na prisão, na doença, na profissão.
O que aqui nos traz Florindo Cardoso, no seu livro Sobreviver ao cancro (Setúbal: ed. Autor, 2010), é uma dessas experiências, é a singularidade do estado de doença por que passou, numa experiência de solidão e de confronto com as potencialidades da vida.
Logo na “Nota de Autor” é feita uma curta apresentação da narrativa: “É uma história de vitórias e derrotas, de alegrias e lágrimas, de sofrimento e dor; de uma certa felicidade por ter sobrevivido e poder contar aos outros a minha batalha.”
Esta necessidade de dar testemunho do vivido, apesar dos seus custos (psicológicos, sobretudo) implica também que se fale de esperança, que pode ser algo tão fácil como não alimentar o pessimismo, como viver o momento oportuno para uma palavra amiga dirigida a quem dela precise, vivência que Florindo Cardoso reconhece nem sempre ter tido, como confessa ao encerrar a nota: “Os portugueses têm um defeito terrível que está bem presente em qualquer situação: nunca simplificam, antes complicam, transmitindo uma energia negativa.” Puxão de orelhas, é certo, a hábitos sociais que, na verdade, nada ajudam em momentos difíceis!
A manhã de 6 de Fevereiro de 2009 foi o início deste testemunho, numa história dramática em que o sangue corre pelas pernas, incontrolável; em que a solidão torna o momento mais trágico; em que a calma do outro lado da linha telefónica mais serve para conduzir ao desespero de uma evidência: a luta desmesurada entre o homem e o mal, a obsessão pela vida, o medo da morte.
A narrativa inicia-se com a violência da revelação – “Tem um cancro maligno e está anémico”, frase que penetra “como uma autêntica facada no coração” e que resulta de um confronto brutal com a descoberta, mais sublinhado pela insensibilidade de quem profere a sentença.
A partir daqui, a experiência narrada vive com todas as pequenas coisas a saberem a passos importantes: é a voz de uma voluntária que acalma e incita à persistência na luta, “uma estrela num céu tão cinzento”, pensa o doente; é o olhar pela sala de espera de um hospital, onde estão “dezenas de pessoas a queixar-se de dores e outras maleitas”, contando “histórias incríveis”; é a estranheza perante o tom algo desportivo que vai sendo posto por alguns técnicos na realização das respectivas tarefas… Enquanto anda de um lado para o outro – aqui incluindo o trajecto entre dois hospitais, entre Lisboa e Setúbal –, o doente confronta-se com o facto de que tudo corre “como se ele não existisse”, comentário forte e incisivo quanto ao que deve ser a atitude de quem trabalha na saúde. Apesar do sofrimento, este doente vai tendo energias para algum sentido de humor e de crítica.
A narrativa que Florindo Cardoso nos traz, sendo uma memória de um seu tempo e do seu sentir, não esconde as vicissitudes do protagonista, os seus momentos de fragilidade, como acontece quando está já na cama do hospital de Setúbal: “As pestanas fecharam-se e o medo venceu a dor e as lágrimas.”
Na semana que passou até à intervenção cirúrgica, o tempo foi de revolta, em “dias de muita infelicidade e lágrimas de sofrimento”, ao mesmo tempo que o corpo técnico estava agora a zelar também pelo equilíbrio emocional do paciente. E o decurso da história vai mostrando como um capítulo que se intitula “Revolta” acaba por dizer respeito ao tempo da esperança e do desejo de sentir o mundo que apela lá de fora, apesar da sombra das ideias suicidas.
O regresso a casa, pouco mais de duas semanas depois da manhã da tragédia, é uma pequena saudação à vida: “Que sensação óptima! Parecia um dia de Verão. (…) Sinto-me vivo! Quando entrei no meu apartamento, senti uma alegria enorme. Deitei-me no sofá e saboreei cada momento até adormecer.”
O capítulo que está sob o signo do “Regresso” vai dando conta do que é o encontro com a vida normal, quotidiana, mais numa perspectiva crítica, não faltando a referência aos hábitos sociais – “Parece que virou moda falar desta doença. Se por um lado é bom desmistificar para ajudar os doentes que se deparam com estes casos, por outro, acaba por afundar ainda mais e adensa-se o medo da morte.”
A verdade é que nada é tão forte como os pequenos sinais de libertação. É com graça e alguma curiosidade que decorre o passo de retirada da algália – “Finalmente, a 30 de Março, foi retirada a algália. O alívio foi tão grande. Pedi à enfermeira para mostrar o tamanho do tubo e pasmei com a sua grandeza. Os primeiros passos livres, sem saco para a urina, foram uma felicidade. Quando vi a enfermeira lançar os restos da algália para o lixo, apetecia-me gritar bem alto: estou livre!”
O humor posto em alguns comentários vai aliviando o peso da narrativa, tal como acontece no momento em que é relatado o retomar dos hábitos quotidianos: “Senti-me uma espécie de ‘morto-vivo’, com a sensação de que alguém esperava que já não viesse. Regressei e não houve funeral! Graças a Deus. Havia caras de espanto de pessoas que encontrava na rua.”
No entanto, uma segunda ameaça se preparava e, em 26 de Julho, acontecia nova entrada no hospital. Se a primeira estadia no quarto hospitalar servira para acalentar a revolta, esta segunda vai permitir o sabor amargo da solidão e do sofrimento, com um narrador a mostrar-se sem receio, a revelar-se na sua intimidade, num tom algo confessional: “Essa noite foi mal dormida e com muitas lágrimas. Pensei que tinha secado com tanto choro há três meses. Só que, na solidão do quarto, voltei a ver o filme todo da minha vida e chorei, chorei e chorei até adormecer em soluços.” Porém, depois da operação, é novamente o sentido de humor a intervir, numa ironia do narrador para consigo mesmo – ao ver-se com um dreno em cada lado das pernas, comenta: “Parecia uma árvore de Natal em fim de carreira”; ao ver a quantidade de pontos, considera: “Um cenário de filme de terror, sentia-me o filho do Frankenstein.”
As duas fases seguintes – da quimioterapia e da radioterapia – foram tempos de sofrimento silencioso, quer pelas consequências dos tratamentos, quer pelas forças necessárias para os aguentar. É a mesma escrita de dor, com os pormenores dos medos e dos isolamentos. É o encarar os outros doentes em situação de igualdade e de cumplicidade. É o olhar sobre outros casos com respeito e sofrendo a angústia do que estariam a sentir esses outros protagonistas.
Os quatro capítulos finais são um grito de esperança: “continuo a lutar pela vida com grande garra”. Isto, apesar de se manter uma certeza: a de que “o medo não vai embora, está sempre presente”.
Várias recomendações guarda Florindo Cardoso para este final: a de que “cada dia que passa [é] um sucesso e uma homenagem à vida” vale por muitos sonhos. Mas há também as recomendações mais simples da alimentação e de hábitos quotidianos. E, sobretudo, a última, que encerra o livro: “Encontrar a harmonia espiritual, dar maior importância às coisas simples da vida e descomplexar tantos problemas que surgem no dia-a-dia. Viver a vida.”
Iniciei esta leitura com a singularidade da história. E mantenho-a. Mas este relato não é apenas uma memória; é também um ensinamento e a prova de que a solidão de cada um se deve amparar, tal como Florindo Cardoso recorda: “Só mesmo o meu optimismo, o incrível apoio da equipa médica e da família permitiram vencer o derrotismo e os maus pensamentos.”
Finalmente, uma palavra sobre os apoios que Florindo Cardoso reconhece terem tido importante papel no seu percurso – a apoio do corpo médico e de enfermagem, é certo, que enaltece e a que agradece pelo seu papel de esclarecimento e de acompanhamento; o apoio espiritual, advindo de uma ligação forte à crença e ao sagrado, objectivado na dimensão religiosa de Nossa Senhora de Fátima, várias vezes referida como intermediária e recurso; o apoio familiar, sobre o qual tão pouco se sabe porque os testemunhos são normalmente dos doentes mas escassas vezes de quem os acompanha, assim nos estando vedado um outro tipo de sofrimento e de angústia. No entanto, este livro insere ainda o testemunho da mãe, numa carta dirigida ao filho, que, simbolicamente, abre o livro, memória de uma dor velada, minada por esse paradoxo que é o de “mostrar força”, por um lado, e refugiar-se nas lágrimas da incerteza, por outro. O livro surge, assim, completo, mostrando-nos o sofrimento dos dois lados, ainda que sendo um deles mais silencioso.
Se o discurso de Florindo Cardoso pode decorrer de uma conversa onde nada aparece como definitivo – mesmo o título é comedido, na medida em que não se fala de vitória –, onde algumas reservas vão aparecendo num percurso que é novo, iniciado e que vai sendo aprendido, o discurso da mãe é o da expectativa, manifestando o apoio mas claramente esperando pela reacção à doença… porque se pode ajudar a superar, mas apenas ao paciente é dada a possibilidade de efectivamente ultrapassar a crise.
Um e outro são testemunhos fortes, é verdade. Valem por isso e são necessários. Este gesto de partilha com os leitores é disso prova evidente!
[Na apresentação do livro, em 27 de Novembro de 2010, no Governo Civil de Setúbal.]

sábado, 31 de outubro de 2009

Memórias portuguesas da I Grande Guerra na Biblioteca Municipal de Setúbal

Em 28 de Junho de 1914, dia de São Vito, em Sarajevo (na Bósnia-Herzegovina, sob domínio austríaco havia seis anos), o arquiduque e sucessor Francisco Fernando da Áustria (1863-1914) e sua mulher, Sofia Choteck, duquesa de Hohenberg, foram assassinados pelo jovem estudante Gavrilo Princip (n. 1894), um elemento ligado à causa pan-eslava, que pretendia reunir todos os eslavos do sul sob a coroa sérvia.

O governo de Viena decidiu então acabar com a Sérvia, tendo o Kaiser Guilherme II garantido apoio à Áustria-Hungria. Em 23 de Julho, Viena concedeu 48 horas aos sérvios para castigarem os culpados do atentado, pretendendo ainda enviar agentes seus para uma investigação no terreno, medida que Belgrado não aceitou, apesar de concordar com o ultimato. Em 28 de Julho, Francisco José (1830-1916), tio de Francisco Fernando e imperador da Áustria, então com 84 anos, declarou guerra a Belgrado. As movimentações bélicas aceleraram-se: a Rússia, aliada da Sérvia, decretou a mobilização geral e a Alemanha, sentindo-se ameaçada, declarou guerra à Rússia (em 1 de Agosto) e exigiu à França a sua neutralidade. Mas o Presidente da República francês Poincaré (1860-1934), defendendo a União Sagrada, levou os franceses a acalentar a esperança da reconquista aos alemães do território da Alsácia-Lorena, que tinha sido perdido para os teutónicos em 1871.
Sendo a França aliada da Rússia, a Alemanha tentou atacá-la através da Bélgica, conforme previa o plano Schlieffen. Em 3 de Agosto de 1914, o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Edward Grey, terá desabafado, ao anoitecer, à janela do seu gabinete: “Agora, extinguem-se as luzes em toda a Europa. Não voltarão a acender-se enquanto vivermos!” A Inglaterra entrou no conflito devido ao seu empenho em defender a Bélgica por questões estratégicas. Todas as partes pensavam que a Guerra terminaria antes do Natal, isto é, dali a cinco meses. Aquilo que Bismarck prognosticara estava a acontecer: um erro cometido na zona dos Balcãs seria responsável por uma guerra europeia.
A guerra não demorou os cinco meses; prolongou-se por quatro anos. No final, oito milhões e meio de soldados pereceram nos campos de batalha (7500 portugueses incluídos), ignorando-se o número de civis mortos, bem como o de participantes psicologicamente afectados ou estropiados. Portugal lutou em duas frentes – a europeia e a africana –, verdadeiro suplício para um país que não era rico e que pensou, pela via da participação na Guerra, obter o reconhecimento do estrangeiro.
De tão grande catástrofe ficaria povoada a memória, acentuada nos escritos testemunhais em que, como referiu Hernâni Cidade (ele próprio combatente na Flandres), se nota uma contradição fundamental: “a falta de harmonia entre o homem essencial e o homem exterior, isto é, entre o homem livre no seu sentimento e na sua razão e o homem deformado pela pressão das circunstâncias que o rodeiam”.
Quando estão já desaparecidas as testemunhas e os actores do que foi a Grande Guerra, é urgente estar de acordo com Philippe Dujardin, quando diz que “la militance mémorielle institue un état de veille”, cabendo à literatura um papel primordial. E como contribuíram os testemunhos para a ideia do que foi a Grande Guerra? Naturalmente que, de um ponto de vista da escrita testemunhal, haverá de imediato a tendência para se filiar o registo na genealogia épica, o que se compreende porque a expressão literária da guerra acaba por não se afastar do que foi a história dos homens que a fizeram, viveram e escreveram. Esta escrita testemunhal, veiculada pelo memorialismo, pela diarística, pela correspondência e pelos romances autobiográficos, sentiu o dever de dizer a verdade, de assentar a literatura sobre a experiência e sobre o vivido, num compromisso do escritor com a escrita, exigindo que o leitor se situe perante uma narrativa a que não é alheia a tonalidade da emoção.
É difícil reconstituir o corpus da literatura memorialística portuguesa da Primeira Grande Guerra, apesar de ter já havido várias tentativas de catalogação. Mas, de vez em quando, essas obras vão aparecendo e permitem-nos participar, à distância, na vida das trincheiras.
Aqui se mostram algumas delas, com todas as limitações imaginadas mas com algumas intenções: avivar a memória, mostrar uma faceta da nossa literatura autobiográfica, ver até onde a Grande Guerra é, ainda hoje, motivo de ficção. Aqui e ali, mostram-se também obras estrangeiras sobre o mesmo tempo e sobre o mesmo tema, porque a Primeira Grande Guerra (que levou a que um estudioso, recentemente, a chamasse para apelidar o século XX como “o século de 1914”) teve marca universal. E o que nela sentiram os portugueses não foi diferente do que sentiram todos os outros participantes, independentemente das cores das bandeiras sob que lutavam…
[texto do roteiro que acompanha a exposição hoje inaugurada, que se manterá
na Biblioteca Pública Municipal de Setúbal até 13 de Novembro de 2009]

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Fernando Mendes lembra o "Jogo sujo"

Fernando Mendes, nome dedicado ao futebol, é, juntamente com Luís Aguilar, o responsável pelo livro Jogo Sujo (Alfragide: Livros d’Hoje / Leya, 2009), título que a editora explicou promocionalmente em capa como sendo a maneira de conhecer “o verdadeiro mundo do futebol português”, ali se aliando “doping, prostituição, favorecimentos financeiros, acidentes de arbitragem e não só”. Um mundo, claro!, e que mundo!...
Quase três décadas andou Fernando Mendes no futebol, passando pelos considerados grandes clubes portugueses. O que sai agora na forma escrita é o testemunho do que de pior enfeita o desporto, de um mundo em que o próprio narrador participou – “Quero salvaguardar que este livro não é nenhum exercício gratuito de desculpabilização. Estou consciente de que, ao longo da minha carreira, participei em situações pouco dignificantes para a minha pessoa e para a verdade desportiva. Mas assumo o que fiz e aceito as minhas culpas no cartório.”
Ao longo do escrito, Fernando Mendes insiste na tecla da honestidade várias vezes, e não esconde ao leitor que a sua intenção é a de “contribuir para informar melhor os que vivem desinformados”. No entanto, a forma como a história é contada, não revelando nomes nem datas precisas, lança o leitor numa onda de suspeição, porque os envolvidos nas histórias contadas podem ser muitos. Questão de defesa, já se vê. Até porque, conforme nota final, numa primeira versão do livro, estavam apontados nomes, locais e datas relativos aos factos relatados, pormenores que saltaram da edição definitiva porque, “infelizmente, o clima de medo e de censura instalado no futebol português tornou impossível juridicamente que essas mesmas pessoas fossem expostas”.
Após a viagem por este testemunho, o leitor pode não ficar com mais informação quanto ao mundo do futebol do que aquela que consta na capa. Mas fica com a palavra de alguém que pretende não esconder e que assume ter aceite o doping enquanto futebolista: “Este livro, cheio de verdades e experiências na primeira pessoa, é um dever cumprido. Um dever para com todos os profissionais e adeptos do futebol. Pode ser que depois do meu relato as pessoas percebem porque é que em determinados momentos em determinados momentos certos jogadores rendem mais ou menos do que se estava à espera. Pode ser que passem a ver o jogador de futebol de uma forma mais humana.” Esta seria uma boa causa para dizer a experiência, embora no leitor possa ficar a dúvida se um testemunho como este (onde nem faltam as manifestações afectuosas para a família, especialmente para as filhas, ou o registo do apreço sentido com “uma boa queca”) conterá os elementos suficientes para esse rosto de humanidade que é necessário dar aos desportistas…
O livro é homenagem a uns tantos homens que com o autor privaram – colegas de jogo, treinadores, dirigentes – mas também uma denúncia do que vai mal no mundo do futebol em que todos esses protagonistas (autor incluído) se movimenta(ra)m.
Coisas que ficam:
De pequenino – “Se há coisa que me faz impressão hoje em dia é olhar para as camadas jovens dos clubes e ver alguns miúdos cheios de manias e balelas. Alguns têm qualidade, mas outros não passam de uns bananas que não sabem fazer nada sozinhos. Actualmente, um miúdo que viva a um quilómetro do campo de treinos precisa que a carrinha do clube o vá buscar a casa.”
Deus e o futebol – “Se Deus um dia resolvesse descer à Terra para vir a Portugal ver um jogo de futebol, esse jogo só poderia ser um Sporting-Benfica. (…) Nada se compara ao sentimento que existe num clássico entre leões e águias. É o derbi de todos os derbies. Faz lembrar as histórias de banda desenhada em que o herói não pode viver sem o vilão.”
Futebol – “O futebol é quase sempre racionalizado pela irracionalidade. (…) Os impropérios são a linguagem natural do futebol.”
Vitória de Setúbal – “Tive oportunidade de assinar o meu nome na história de um dos clubes mais bonitos de Portugal. (…) Serão poucas as equipas que têm uma relação tão afectiva e tão próxima das pessoas da sua terra como a que existe entre o Vitória e a cidade de Setúbal.”
Tudo e nada – “Durante os anos em que andei no mundo da bola, percebi da forma mais cruel que, para ganhar, vale quase tudo. A saúde humana é secundária.”
Retrato(s) – “No futebol, conhecemos muita gente enquanto estamos em alta, mas (salvo raras excepções) a maioria dessas pessoas não vale nada. São falsas, invejosas e perigosas. Além disso, no futebol também somos obrigados a crescer muito depressa. (…) Não aprendemos apenas a jogar futebol, aprendemos tudo o resto: as diversas artimanhas e truques que possamos colocar ao serviço da nossa equipa. Com o passar do tempo, vamos ficando peritos em lidar com colegas, adversários, dirigentes e árbitros.”

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Sobre "O barulho das chaves", de Philippe Claudel

Comecemos pelo fim. “A pequena frase que fazia sonhar todos os reclusos que seguiam as minhas aulas, porque ela abria todas as portas, frase que proferi milhares de vezes frente aos intercomunicadores: ‘Claudel, professor…’, frase que, doravante, não voltarei a proferir.” É o último parágrafo de O Barulho das Chaves, curta narrativa de Philippe Claudel (Alfragide: Edições ASA, 2008 – ed. orig.: Le bruit des trousseaux, 2006), que, à boa maneira da escrita autobiográfica, acaba por identificar o narrador, nunca nomeado ao longo da história, com a personagem que une todas as pequenas histórias que vão sendo contadas e com o autor, sobrepondo-os.
Narrativa autobiográfica, onde se acumulam memórias de momentos, de encontros, de histórias, de um período ao longo do qual Claudel foi professor de francês num estabelecimento prisional, onde, ao longo de 11 anos, se deslocou três vezes por semana. O título é sugestivo e recorda o som inconfundível do molho de chaves que se agita na abertura das portas gradeadas. O livro revela a vida da prisão, em jeito fragmentado, vista e sentida por alguém que lá convive e a quem a prisão esmaga.
Logo no início, a primeira reacção de quem sai da prisão pela primeira vez que a visita: “No passeio, na primeira vez que saí da prisão, não consegui começar a caminhar de imediato. Deixei-me estar, alguns minutos, imóvel. Pensava que, se quisesse, podia deslocar-me para a esquerda, ou para a direita, ou ainda sempre em frente, e que ninguém teria nada a dizer. Pensava ainda que, se quisesse, podia ir beber uma cerveja, um Ricard, ou ainda um cappuccino num qualquer café, ou então regressar a casa e tomar um duche, dois duches, três duches, tantos duches quantos quisesse. Compreendi nesse momento que fruíra até então de uma liberdade da qual ignorava a extensão e as aplicações mais comuns, ou mesmo a exacta e quotidiana dimensão.” Este início confronta o leitor com a sua capacidade de ser livre, com as pequenas liberdades que, no quotidiano, se nos apresentam e de que usufruímos, insignificantes, não notadas, de banais. Mas confronta-o também com a riqueza de poder decidir, graças a essa mesma liberdade, aqui valorizada pelo que se viu dentro das grades, onde tudo surge controlado, visado, calculado, com regras próprias.
Depois, as histórias. “Cenas isoladas”, que não demoram mais do que um parágrafo. Muitas, telegráficas, incisivas. E sempre o confronto com a liberdade – “Terminado o meu tempo, saía da prisão. Não saía de prisão. Nunca senti tão intensamente que a presença ou a ausência de um simples artigo definido abrisse ou fechasse tão imensas perspectivas numa língua.”
No final, depois de passar por histórias humanas e de expressar sentimentos relativamente ao visto, o narrador justifica o termo do livro, quase em jeito de desculpa por não ter levado a experiência da prisão até à exaustão e para, simultaneamente, não lhe ser retirado crédito ao vivido: “Enfim, creio ter dito tudo. Dito tudo o que sabia, o que fixei. Pode ser um testemunho, ou mais exactamente um falso testemunho, pois falta-me um coisa essencial para falar da prisão: ter passado uma noite lá dentro. No fundo, não sei se será possível falar da prisão sem nunca lá ter dormido. As horas que passei dentro daquelas paredes formam dias, sim, mesmo meses, mas nenhuma noite, nem uma. Além disso, o que reforça o meu falso testemunho é o facto de ter conhecido apenas um dos lados da prisão.”
Frases vivas
1.A prisão é o lugar onde se dita o que é correcto, admissível, incorrecto, inadmissível. (…) A prisão não elimina as diferenças. Não é de modo nenhum igualitária: o rico continua a ser rico. O pobre é muito pobre. Mas a prisão estabelece a relação entre seres que, em liberdade, nunca se veriam nem falariam.
2. As cores da prisão, raramente alegres ou vivas. As paredes eram pintadas frequentemente mas pareciam sempre sujas, talvez por a própria tinta ser encardida. Lembro-me de amarelos pálidos, de cinzentos um pouco azulados, de beges a tender para o castanho desbotado. A própria luz parecia trabalhada nestas direcções, alimentando uma leve penumbra que nos obrigava a fixar o olhar para distinguir os rostos.
3. Na prisão encontram-se representadas quase todas as idades da vida: bebés nas celas com as mães; velhos, mulheres e homens maduros, adolescentes, vocês, eu. A gravidade dos delitos não depende da idade. Lembro-me de uma rapariga de catorze anos presa por ter estrangulado uma colega da escola, de rapazes da mesma idade à espera de serem julgados por violação colectiva, de um velho, um padre, acusado de pedofilia. A prisão contraria todas as estatísticas, estereótipos, colunas de números tranquilizadores, Limita-se a reflectir o mundo. Muda com ele.

domingo, 31 de agosto de 2008

Max Arthur e as vozes da Primeira Grande Guerra

Em Agosto de 2004, Max Arthur começou a redigir o livro Last Post, título explicado pelo acrescento “The final Word from our First World War soldiers”. Publicado em 2005, foi agora traduzido para português sob o título Palavra de Veterano – Os sobreviventes da Guerra de 1914-18 (Col. “Para que conste”. Colares: Pedra da Lua, 2008).
O que Max Arthur fez foi entrevistar os 21 sobreviventes ingleses da Primeira Grande Guerra que ainda havia nessa altura, homens nascidos entre 1896 e 1900, já todos centenários. Nem todos chegaram a ver o livro com o seu depoimento por terem falecido entretanto, mas foram vários os que ainda puderam ver a obra de Max Arthur. Refira-se ainda que dois desses veteranos ingleses estão ainda vivos – Bill Stone, nascido em 1900, e Henry Allingham, nascido em 1896, com 112 anos feitos em Junho passado, considerado o europeu mais idoso.
No livro, não é dito como foram conduzidas as conversas, mas o leitor consegue perceber que o que estes sobreviventes fizeram foi contar a sua vida, aí incluindo a sua lembrança sobre a Primeira Grande Guerra.
As sensações que perduraram nas suas memórias são idênticas àquelas que, na altura, mais foram vincadas entre os combatentes: a dureza das trincheiras, a convivência com a morte, o sofrimento nas batalhas, a coragem necessária para ver morrer e também para matar.
Mais do que um conjunto de testemunhos sobre o vivido, este é um livro de memórias sobre acontecimentos distantes no tempo – afinal, em 2004, tinham já passado 90 anos sobre o início da Grande Guerra e 86 sobre o seu fim. Mas, pela expressão destes homens (alguns tiveram que mentir quanto à idade para se alistarem e poderem participar) passa a condenação da guerra, a consciência de que se tratou de um tempo e de uma luta sem sentido (que eles fizeram). Alguns referiram mesmo a sua surpresa perante esta lembrança pois nunca o tinham querido fazer. Eles, que tiveram que lutar pela sua sobrevivência, ultrapassaram o século com o pesar de o seu sacrifício não ter servido para nada, nem sequer para acabar com as guerras… Pelo meio, há a evocação dos companheiros e algum humor quanto às condições de vida, como quando John Oborne (n. 1900) refere o caso dos piolhos que coabitavam nas trincheiras – “Eu não tinha piolhos. Os piolhos é que me tinham a mim. As costuras das calças eram o seu ninho – tínhamos de passar as costuras pela chama de uma vela. Lembro-me sempre, havia um tipo, quando estávamos a catar piolhos, que dizia: ‘Ah, pá, vou voltar a pôr-te na roupa e apanho-te amanhã, quando fores maior.’”
A referência à participação portuguesa é escassa – apenas Harold Lawton (n. 1899) refere de relance o Abril de 1918 e o martírio infligido aos portugueses para dizer que por isso teve que ir ocupar uma trincheira com alguns camaradas. A outra referência a Portugal é mais tardia e relaciona-se com a experiência na marinha mercante de Nicholas Swarbrick (n. 1898) – “Estive na Marinha Mercante nos anos vinte – a época perfeita para se estar no mar. Conheço muito bem Portugal e tínhamos quatro dias de três em três semanas e um dia ou dois em Lisboa e um dia na Madeira.”
Alguns destes sobreviventes preocuparam-se também com uma mensagem educativa, como foi o caso do já referido Oborne: “O que é que diria agora a um jovem de dezoito anos? Suponho que lhe diria: ‘No emprego, faz um bom trabalho e tem mais maneiras com as pessoas – sê mais educado.’ Uma data de jovens não têm maneiras hoje em dia. Acho que nunca serão chamados para uma guerra, mas, se o fossem, não tinham energias. Não iam conseguir aguentar o que nós passámos na Primeira Guerra Mundial. A juventude de hoje não aguentava.”

Frases vivas
Alfred Anderson (n. 1896): “Não quis reviver essas memórias. Acabou-se, já passou. Se tivesse ficado agarrado ao que aconteceu naqueles tempos terríveis, nunca teria vivido para chegar à idade que tenho hoje. Tento pôr tudo isso para trás das costas. Não tenho vontade nenhuma de reviver essas memórias. Mas o que vi e aquilo por que passei ainda me afecta, mesmo hoje. (…) Olhando para trás, pergunto-me: ‘O que é que ganhámos?’ Perdemos de certeza muito e, no entanto, voltámos à estaca zero. Acho que o homem combaterá sempre. A guerra é necessária, suponho, para resolver certas coisas – mas talvez haja um método melhor.”
Albert ‘Risonho’ Marshall (n. 1897): “Para ser franco, ninguém chegou muito longe. Tudo o que acontecia era morrerem dez ou vinte pessoas por razão nenhuma. Para chegar a lado nenhum. (…) Durante uma batalha, era impossível dizer quantos morriam de um lado e de outro. A única coisa que sabíamos era qual era o nosso papel. Podia estar a decorrer uma batalha terrível mesmo ali ao lado, mas não se sabia que o nosso melhor amigo morrera senão no dia seguinte. Só se sabia da parte da batalha que podíamos ver, o resto era apenas uma questão de bombas a rebentar aqui, a rebentar ali, a rebentar em toda a parte – e ninguém se livrava delas. Não interessava muito o que se fazia. Por isso, para dizer a verdade, não se pensava para além da zona em que estávamos. De vez em quando, as coisas acalmavam, mas ouvíamo-los disparar mais adiante. Sabíamos que havia gente a morrer, mas não sabíamos dizer quantos. Perdíamos gente todos os dias.”
Henry Allingham (n. 1896): “Pensando na primeira guerra, acho que não sabia o que esperar. Pensava que havíamos de ganhar – mas nunca esperei que tivéssemos de voltar a combater daquela maneira nos cem anos seguintes. Nunca esquecerei os meus camaradas, mas uma pessoa não pode deixar-se afundar nas coisas terríveis que aconteceram. Não se poderia continuar a viver, se fosse assim. Porém, em dias como o do Armistício, rezo por eles.”
Alfred Finnigan (n. 1896): “Não acho que o país em geral tenha apreço pela guerra. É uma coisa que aprendi em jovem, que a guerra – como todas as guerras – era uma coisa idiota. Absolutamente idiota e não gostei de ver os meus mais velhos a apoiarem aquele disparate. (…) Quando me casei, tomei conscientemente a decisão de nunca ter filhos – não estava disposto a fabricar carne para canhão para o exército ou para a indústria. Hoje em dia, não tenho paciência para políticos nem para governos – nem para qualquer forma de religião. Nenhum se saiu bem na Grande Guerra. As lições são ignoradas e a humanidade continua a cometer os mesmos erros. Recuso-me a ver televisão por causa da guerra, das más notícias e da porcaria que dá. Recentemente, sofri uma pequena operação aos olhos que me restaurou a vista, pelo que posso voltar a ler os meus livros. Prefiro manter-me à parte do que se passa hoje no mundo. A Primeira Guerra Mundial foi uma idiotice. Começou idiota e manteve-se assim. Era um disparate, tudo aquilo.”
Harry Patch (n. 1898): “Todas aquelas vidas perdidas para uma guerra que se resolveu a uma mesa. Diga-me lá se isto faz algum sentido. Era só uma discussão entre dois governos.”
William Roberts (n. 1900): “Olho hoje para trás e penso que a Grande Guerra não passa de treta política. Não devia haver guerra. Essa guerra foi uma data de maldita treta política.”
George Rice (n. 1897): “Tenha eu a opinião que tiver hoje, nessa altura essa era a minha função como soldado. Eles eram o inimigo e tinham de ser rudemente combatidos. Era eles ou nós; os sentimentos não entravam na conversa.”
Ted Rayns (n. 1899): “As coisas ainda me afligem, mas nunca falei muito acerca das minhas experiências de guerra. Hoje é duro de recordar. Foi tudo há tanto tempo!”