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sábado, 15 de outubro de 2011

Manuel da Fonseca - "Tejo que levas as águas", por Adriano Correia de Oliveira

Em 1975, Adriano Correia de Oliveira dava a conhecer o disco Que Nunca Mais, colectânea que reunia poesia de Manuel da Fonseca (“Tejo que levas as águas”, “O senhor gerente”, “As balas”, “No vale escuro”, “Tu e eu meu amor”, “Recado a Helena”, “Dona abastança”, “Cantiga de Montemaior” e “Prá frente”) musicada pelo próprio Adriano. Aqui fica “Tejo que levas as águas”, pescado no youtube.

No centenário de Manuel da Fonseca - "Aldeia"


Aldeia

Nove casas,
duas ruas,
ao meio das ruas
um largo,
ao meio do largo
um poço de água fria.

Tudo isto tão parado
e o céu tão baixo
que quando alguém grita para longe
um nome familiar
se assustam pombos bravos
e acordam ecos no descampado.

Planície (1942)

De Manuel da Fonseca e do Neo-Realismo

Manuel da Fonseca faria hoje 100 anos. Ainda neste ano, em 29 de Dezembro, passarão também os 100 anos do nascimento de Alves Redol. E já neste ano, em 7 de Agosto, passaram os 100 anos do nascimento de Políbio Gomes dos Santos. Três nomes ligados ao neo-realismo literário português, três nomes a não serem esquecidos nas escolhas de leituras que se devem fazer.
Uma boa sensibilização para estes nomes e para o que foi a importância do neo-realismo pode partir do dossiê “O neo-realismo ainda conta?” que a revista Os Meus Livros deste mês (nº 103) publicou. Por lá passam abordagens destes três autores; lá se fala da importância de títulos como a colecção “Novo Cancioneiro” ou os periódicos O Diabo, Sol Nascente ou Vértice; ali se evoca ainda Mário Dionísio e Carlos de Oliveira, bem como se podem ver as ligações de Júlio Pomar ou de Manuel Ribeiro de Pavia ao movimento. Por ali vogam as palavras de escritores de hoje como Urbano Tavares Rodrigues (para quem o neo-realismo levou adiante “esse empenho em ser verdadeiro, em mostrar como se é, porque se é”), Paulo Vieira (que rejeita a necessidade de “a literatura doutrinar o leitor”), David Machado (que associa o neo-realismo à datação) ou Valter Hugo Mãe (com as preferências pela poesia de Carlos de Oliveira). Por lá ressaltam também as palavras de David Santos, director do Museu do Neo- Realismo vilafranquense, a requerer estudos críticos e equilibrados sobre a época, bem como as de Maria Alzira Seixo, que, sobre Manuel da Fonseca, diz que “nada [na sua obra] é simplista” e que “cumpre todos os parâmetros de análise literária para ser considerado um autor que não merece não ser lido”.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Datas para 2011

2011 é o Ano Internacional das Florestas e o Ano Europeu do Voluntariado. Mas o ano de 2011 é também aquele em que passam os centenários da refundação da Universidade de Lisboa e do nascimento de Alves Redol (29 de Dezembro), de Orlando Ribeiro (16 de Fevereiro) e de Manuel da Fonseca (15 de Outubro). Setúbal tem também bons motivos para assinalar em 2011, uma vez que passam os 400 anos sobre a primeira edição de Afonso Africano, de Vasco Mouzinho de Quevedo (5 de Junho), 100 anos sobre o nascimento do pintor Luciano dos Santos (25 de Março) e sobre a morte do poeta António Maria Eusébio, o Calafate (22 de Novembro), e os 50 anos da criação do Museu de Setúbal e da morte do escritor, e também estudioso bocagiano, João Elói Vidal do Amaral (19 de Novembro).

sábado, 6 de novembro de 2010

Estudos Locais de Setúbal (1) – Luís Souta e a escola dos escritores ligados a Setúbal

No II Encontro de Estudos Locais do Distrito de Setúbal, que decorreu ontem e hoje, assisti à conferência de Luís Souta (acontecida ontem), de que gostei, pelo cruzamento com identidades e com a cultural local, sem esquecer o mais vasto âmbito da cultura portuguesa.
Intitulada “Na escola da dor e do sofrimento, segundo cinco escritores do distrito”, Souta acentuou tratar-se de um conjunto de retratos feitos a partir de obras literárias, passando por obras de Mário Ventura, Maria Rosa Colaço, Romeu Correia, Manuel da Fonseca e Sebastião da Gama (tendo ainda havido remissões para Carlos Ceia e para Matilde Rosa Araújo), pretendendo mostrar “o olhar da literatura sobre o universo escolar”.
A originalidade da leitura de Luís Souta foi interessante, bem para lá da discussão do autobiografismo na literatura, mostrando que a ficção nasce de realidades, aí incluindo realidades vividas. A evocação de Manuel da Fonseca veio bem a propósito ou não tivesse sido ele a figura destacada (e presente) no I Encontro de Estudos Locais do Distrito de Setúbal que se realizou há 22 anos; também Romeu Correia, outro contador de histórias, mereceu ser lembrado, ele que tem tido a sua obra quase esquecida; igualmente a recordação de Rosa Colaço e desse mítico (e quase fundador) livro que foi A criança e a vida fez recuar no tempo, chamando a atenção para a sensibilidade que, desde cedo, pode invadir a escrita; Mário Ventura foi mencionado a propósito da história de Miguel Zuzarte e, não sendo de Setúbal, por aqui viveu e empurrou o nome da cidade para a história do cinema em Portugal – haja em vista a realização do Festroia –, motivo que levou Souta a sugerir que o nome de Mário Ventura deveria ser atribuído ao Auditório Charlot, espaço municipal sadino de encontros e de cinema (proposta certeira, diga-se, e a merecer ser levada avante); Sebastião da Gama foi chamado pelo seu Diário, obra de referência para a pedagogia e para o pensamento do professor, sobre ela afirmando Luís Souta que “é suposto num estágio o professor aprender”, mas Sebastião da Gama foi “um professor em formação que produziu um texto formador que veio a marcar a pedagogia”, outra forma de dizer que o Diário do poeta da Arrábida, registo do que foi o seu ano de estágio na Escola Veiga Beirão, é a marca de “um professor reflexivo”.
Luís Souta proporcionou, desta forma, um outro olhar sobre a escola. De outros tempos e igual para todos, é certo, mas valorizando a experiência e a literatura, chamando a atenção para a pluralidade de leituras que a arte pode conter.