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quinta-feira, 12 de junho de 2025

Conceição Rendeiro: Sobre o rio das palavras



Impossível olhar para este título, Flúmen, e não associar de imediato o poema de Camões conhecido pelo seu primeiro verso, “Sôbolos rios que vão”, cenário e imagem escolhidos pelo poeta para falar do rio que de seus “olhos foi manado” porque, entre outras coisas, “ali, lembranças contentes / na alma se representaram”. E conseguimos, com um pouco de imaginação, acompanhar a narrativa de Jorge de Sena escrita em 1964, “Super flumina Babylonis”, que nos apresenta essa suposta noite em que Camões poderia ter escrito esse poema, numa luta pela memória e pelo reaver do passado, com todas as suas marcas de alegria e de tristeza, fazendo correr as palavras no flúmen, porque “bem são rios estas águas / com que banho este papel”. Flúmen, de Conceição Rendeiro (ed. Autora, 2025), conhecida médica pediatra em Setúbal, é, pois, um rio, o caudal dos sentimentos que a poesia permite expressar, o espelho que o poeta ajuda a construir e em que se revê.

Os poetas trazidos para epígrafe deste livro ajudam nesta interpretação, haja em vista o poema “Impressão digital”, de António Gedeão, afirmação do olhar individual sobre o mundo e o que o forma, ou um outro, “Inicial”, de Sophia de Mello Breyner, em que o mar, local maior de todas as águas, retribui o tempo inicial depois que agitou, entre ondas e torvelinhos, aquilo que se foi.

Surge este livro organizado em oito partes, indiciando um percurso, a avaliar logo pelo título da primeira, “Prenúncio”, que reúne dois poemas associados a circunstâncias históricas e pessoais, datados de 1969, ano de epopeia estudantil, poemas da busca da paz e da afirmação pela palavra, causa maior da geração, e outro, não datado, mas mais recente, de confessada adesão à leitura de Saramago, num revelar que tal simpatia advém da clareza e da coerência das palavras, apelativas que são para a construção alicerçada da solidariedade.

Nos grupos “Breves” e “Ritmos”, os poemas são dominados pela força dos instantes (resultantes de um “sentir de comoção / que por momentos / nos sacode o peito / e os olhos ilumina”), valorizando o prazer de imaginar um abraço ou de sentir o deslumbramento provocado por um trecho musical, indicando propósito de vida e chamando a atenção para o jogo entre a brevidade que a vida é e a exigência imposta a esta “condição de passagem”, qual seja a do cuidado a haver com o legado, algo entre os valores recebidos e transmitidos. Por vezes, ressalta a poesia que emerge do quotidiano, provenha ela de situações presenciadas (como o cruzar com o homem das castanhas ou o passar pela rua adornada de jacarandás) ou de momentos em que se é absorvido pelo silêncio e pela paragem, contrariando o “viver / em constante sobressalto” como opção.

Em Flúmen, não estamos perante o desabafo de quem se encerra na sua teia, pois também por aqui passa a expressão de preocupações colectivas, como vemos no grupo “Sobressaltos”, em que vive mais um conjunto de textos que toma para tema situações como o confinamento, a guerra, as migrações, os desastres, mazelas de que o poema se apropria para reconhecer a perturbação causada pelo atraso da “alegria / o sentimento / da vida / habitual”. Acrescente-se ainda a este núcleo da vivência do colectivo o poema que fecha o livro, “Cubo mágico”, pelo tom crítico, em que o brinquedo serve para retratar o “mundo desconcentrado” (a que Camões poderia chamar desconcertado...). Também o segmento “Arte de cuidar” agrupa poemas que oscilam entre o olhar crítico e a mensagem a passar, por vezes motivados por situações da contemporaneidade, como as questões de género e as diferenças, ou por referências resultantes do percurso autobiográfico da autora, como surge patente nos olhares sobre as crianças ou, particularmente, no que se intitula “Mensagem de pediatra”, uma quase cartilha orientada pelo terceto inicial que anuncia: “Crescer é aprender / ganhar autonomia / fazer-se gente”.

Os dois últimos conjuntos de poemas, “Vida” e “In memoriam”, são aqueles em que perpassa mais a expressão lírica do eu, ainda que por razões diferentes. No primeiro, essa expressão assenta na admiração pelo outro, na partilha (de que é exemplo o texto “O meu 25 de Abril para ti”, forma emotiva de permitir a comunhão das vivências e a preservação da memória), na glorificação do amor e de tempos de êxtase, de emoção, visando a celebração dos mesmos. Já nos poemas reunidos sob o título “In memoriam”, assiste o leitor à valorização da lembrança que recompõe os últimos tempos da presença do outro, marcados pela dor da perda, anunciada e concretizada — o poema “Na hora do adeus”, à semelhança do que acontecia nas cantigas de amigo medievais, usa a estratégia do desabafo com a Natureza, “brisas trazei / afagos do meu amor”, apelo que acentua a dor, pois nas cantigas de amigo a jovem apaixonada queria saber notícias do amado temporariamente distante e, neste caso, a distância é definitiva.

Flúmen surge, pois, como o caudal que permite que as “lembranças contentes” na alma se representem, que lembra que “o tempo vale / pela qualidade testemunho / intensidade das nossas vivências / empenho e dedicação aos outros / exultação de alegria e prazer / dor pessoal e do próximo / cumplicidade de momentos únicos”. Os poemas são, por isso, uma forma de povoar a memória e também de valorizar o tempo, de usar a palavra para assinalar a intensidade da vida. 

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1548, 2025-06-11, pg. 10.

 

domingo, 19 de fevereiro de 2017

António Gedeão vinte anos depois, com poema na voz de Manuel Freire



Passam hoje 20 anos sobre o falecimento desse magno poeta que foi António Gedeão, o também professor Rómulo de Carvalho. Curta nota biográfica pode ser lida aqui. Mas fica também o registo do seu poema cantado mais conhecido, "Pedra Filosofal", na voz e interpretação de Manuel Freire.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Galileu nasceu há 453 anos



Em 1564, em 15 de Fevereiro, nascia em Pisa Galileo Galilei. A sua biografia pode ser lida aqui. Mas a data é também um bom pretexto para ouvirmos Mário Viegas no "Poema para Galileo" que António Gedeão escreveu.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Bocage no seu mês - 250 anos depois (09)



Manuscrito de "O sentimento científico em Bocage", de António Gedeão
(fonte: Biblioteca Nacional de Portugal)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Para a agenda - Lembrar António Gedeão



Como professor, como físico ou como poeta, Rómulo de Carvalho ou António Gedeão é nome para ser lembrado sempre. Desta vez, sob a ideia da Associação José Afonso, que vai organizar exposição evocativa em Lisboa, a partir de 11 de Janeiro, com a presença de Cristina Carvalho, biógrafa que, em 2012, produziu um livro sobre o pai (Editorial Estampa). Para a agenda.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Poemas de Natal (1) - António Gedeão

Na troca de mensagens natalícias, a poesia entra. Ou não fosse ela rica nas alusões a esta quadra!... Em troca do poema de Côrtes-Rodrigues, que enviei, foram-me enviados outros. Todos bonitos. Aqui reproduzo o primeiro, enviado pela Maria do Céu, assinado por António Gedeão.

Dia de Natal
Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeus enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilowatts,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra – louvado seja o Senhor – o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá tá.
Já está!
E fazia as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão, in Máquina de Fogo (1961)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma noite com Luiz Pacheco

São cerca de três dezenas os textos que compõem Raio de luar (Lisboa: Oficina do Livro, 2003), conjunto de “artigalhada” produzida para jornais, em que revemos Luiz Pacheco na sua força e na sua coerência, apetecendo dizer com Rui Zink (que prefacia o livro): “Já fiz mais-valia com a leitura de Luiz Pacheco. Tradução: já ganhei muito com a sua leitura. E garanto que, nestes tempos cinzentos, não é coisa pouca, encontrar livros que nos dêem mais-valia.”
Pelas páginas de Raio de luar perpassam memórias e olhares sobre o mundo e sobre a cultura portuguesa, ao mesmo tempo que vai ficando um rasto autobiográfico assumido. Pacheco escreve sobre os outros para também falar de si. A variedade temática é grande, ocupando destacado e principal lugar a literatura, seja pelos nomes que são invocados, seja pelos assuntos trazidos (censura e liberdade, epistolografia, movimentos, vida editorial), seja pelas leituras que vão sendo acusadas.
A ironia e o riso surpreendem em muitas ocasiões, numa escrita que acompanha o gesto do próprio “escriba” – “onde o destempero das duas manas me deu enorme vontade de rir, foi quando a Clarinha revelou que tem medo do futuro. Medo de ficar sem emprego. É boa!” Mas também a pedagogia entra neste conjunto de textos, haja em vista a história de uma consulta no hospital de S. José, contada em “Granito? Não, obrigado”, que bem poderia constituir um texto de importância para o atendimento hospitalar… ainda que conclua com a promessa de, numa próxima consulta, transportar “uma moca tipo riomaior”…
Embora falando preferencialmente do que vê e lê, não esquece também as pequenas histórias do que viveu, em muitas ocasiões deixando que o eu se exponha – pelos sítios que frequenta (entre Palmela, no lar, e Setúbal, nas livrarias e na Biblioteca, por exemplo), pelo ambiente do seu quotidiano (o olhar sobre os companheiros de residência), pelas considerações quanto ao que lhe falta (“em Palmela, há um castelo, mas livrarias, que é delas?”, “Setúbal, cidade sob vários aspectos periférica em termos culturais”), pelas identificações (“o que mais me encanta neste livro é a alegria que ali julgo surpreender no acto da escrita”, dirá a propósito de O manto, de Agustina), pelas memórias agradáveis guardadas de alguns professores (Câmara Reys, que lhe indicou leituras, Vitorino Nemésio, o “labioso volúvel” que apreciava, ou António Gedeão, aliás Rómulo de Carvalho, verdadeiro “exemplo do humano”), pelo recuo até à infância alentejana (a propósito de uns poemas de Manuel Alegre), pelos “fait-divers” (como a sua entrada no filme Conversa acabada), pelo seu gosto e orgulho enquanto editor (“se há coisa que me encha de cagança é essa minha actividade de Editor, a qual excede de longe a de Autor e lanço daqui mesmo um desafio: não pode haver em Portugal nenhuma bibliotecazinha decente que não tenha lá um livro editado por mim – poesia ou teatro, cinema, ficção, ensaio”) e pela sua exposição do que considera ser um “escritor maldito” (título com que o cognominaram) em texto que encerra o livro.
Raio de luar lê-se de seguida, que o difícil é parar. E por essa escrita vai passando o tom oralizante de Pacheco, quase como se numa conversa estivéssemos… mas apenas ouvindo-o. Lendo-o, aliás.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

A cultura científica, evocando Galileo e Gedeão

Hoje é o Dia Nacional da Cultura Científica, dia em que passam 102 anos sobre o nascimento do cidadão e professor Rómulo de Carvalho e simultaneamente poeta António Gedeão.
Perante a ciência, fica sempre o fascínio da descoberta, do saber mais e do… quão pouco sabemos. Mas sempre que se pensa em ciência é inevitável chamarmos a memória de Gedeão, que soube, com mister, deixar que a poesia se invadisse pela cultura científica. E a gente lembra-se desse poema lindo e laboratorial que é “Lágrima de Preta”, desse poema também lindo e aritmético que é “Mãezinha”, desse velocipédico e juvenil “Poema da autoestrada”, desse ritmado e suado poema que é “Calçada de Carriche” e de muitos outros, alguns deles musicados e até símbolos de um tempo, mesmo pela maneira como a filosofia da vida invade os versos e os ritmos.
A propósito do que se celebra neste dia, escolhi o “Poema para Galileo”, uma carta ou conversa ou desabafo ou confissão ou retrato, que sempre me leva a imaginar o espectáculo que seria termos a possibilidade de presenciar a troca de impressões entre Galileo e Gedeão, numa linguagem simples, aproximando a ciência da vida. Ainda a este propósito, que as conversas são como as cerejas, corro a procurar o livro de Rómulo de Carvalho Física para o Povo (Coimbra: Atlântida Editora, 1968), que, a abrir o primeiro volume, se dirige assim ao leitor: “Pus-me a pensar sobre várias coisas que o meu amigo poderá ter observado na sua vida diária e que talvez gostasse de saber explicar. Procurei ir ao encontro do seu pensamento e responder às suas prováveis interrogações, sempre do modo mais simples possível, pois sei que o meu amigo não tem os estudos suficientes para compreender certas explicações ou o significado de certos termos que eu deveria usar para ser mais correcto. Não mostre este livro a nenhuma pessoa sabedora porque essa encontraria com certeza muitos motivos de censura nas minhas palavras. Acharia que aqui não estava bem explicado, que ali tinha usado palavras impróprias, que mais adiante não era bem assim como digo, etc., etc. E tinha razão. Mas não se preocupe com isso. Isto é só para o meu amigo. Quando tiver vagar pegue no livro e entretenha-se a ler.
Quem assim escreve deverá ter, naturalmente, condições para conversar com Galileo. Vamos, então, ao

Poema para Galileo

Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano,
aquele teu retrato que toda a gente conhece,
em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce
sobre um modesto cabeção de pano.
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença.
(Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício.
Disse Galeria dos Ofícios.)
Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.
Lembras-te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria…
Eu sei… eu sei…
As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia.
Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença
está guardado um dedo da tua mão direita num relicário.
Palavra de honra que está!
As voltas que o mundo dá!
Se calhar até há gente que pensa
que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-te, Galileo,
a inteligência das coisas que me deste.
Eu,
e quantos milhões de homens como eu
a quem tu esclareceste,
ia jurar - que disparate, Galileo!
- e jurava a pés juntos e apostava a cabeça
sem a menor hesitação -
que os corpos caem tanto mais depressa
quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo?
Quem acredita que um penedo caia
com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia?

Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava agora a lembrar-me, Galileo,
daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo
e tinhas à tua frente
um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo
a olharem-te severamente.
Estavam todos a ralhar contigo,
que parecia impossível que um homem da tua idade
e da tua condição,
se estivesse tornando num perigo
para a Humanidade
e para a Civilização.
Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,
e percorrias, cheio de piedade,
os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas,
desceram lá das suas alturas
e poisaram, como aves aturdidas - parece-me que estou a vê-las -,
nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas.
E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual
conforme suas eminências desejavam,
e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal
e que os astros bailavam e entoavam
à meia-noite louvores à harmonia universal.
E juraste que nunca mais repetirias
nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma,
aquelas abomináveis heresias
que ensinavas e descrevias
para eterna perdição da tua alma.
Ai Galileo!
Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo,
que assim mesmo, empertigados nos seus cadeirões de braços,
andavam a correr e a rolar pelos espaços
à razão de trinta quilómetros por segundo.
Tu é que sabias, Galileo Galilei.
Por isso eram teus olhos misericordiosos,
por isso era teu coração cheio de piedade,
piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos
a quem Deus dispensou de buscar a verdade.
Por isso estoicamente, mansamente,
resististe a todas as torturas,
a todas as angústias, a todos os contratempos,
enquanto eles, do alto incessível das suas alturas,
foram caindo,
caindo,
caindo,
caindo,
caindo sempre,
e sempre,
ininterruptamente,
na razão directa do quadrado dos tempos.
António Gedeão. Linhas de Força (1967)

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Máximas em mínimas (33)

"Todo o tempo é de aprender
desde a hora do nascer
até que a vida se acabe."
António Gedeão. História breve da Lua (1981).

sábado, 17 de maio de 2008

Rómulo de Carvalho e António Gedeão em Setúbal

Foi bom o final da tarde no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal, na sessão sobre Rómulo de Carvalho e António Gedeão, promovida pelo Centro de Estudos Bocageanos.
Frederico Carvalho, filho do homenageado, traçou o retrato do poeta e do homem, inseparáveis na pessoa e inseparáveis amigos, revelou excertos das memórias deixadas pelo pai (ainda não publicadas), conjugou o espírito científico e a veia poética (tardia) de Rómulo e de António, respectivamente.
Manuel Freire leu poemas, testemunhou sobre a simplicidade e o exemplo do poeta, contou histórias e cantou. Inevitavelmente, a sessão acabou ao som da "Pedra Filosofal".
Gedeão, poeta a (re)ler. Muito.
[foto de Cília Costa: Manuel Freire e familiares de Gedeão - Natália Nunes (esposa) e Frederico de Carvalho (filho)]

Entre António Gedeão, Rómulo de Carvalho e Manuel Freire

O Centro de Estudos Bocageanos traz António Gedeão, Rómulo de Carvalho e Manuel Freire a Setúbal. Hoje. Entre uma exposição, a inaugurar às 16 h, e poemas, música e conferência, uma hora depois.