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domingo, 14 de junho de 2026

Diário - Entre o diálogo e a confidência (1)


Ler diários é uma forma de aprender a reagir e a lidar com a vida e com o mundo, seja porque podemos encontrar soluções coerentes ou imaginativas, seja porque podemos conviver com trajectos que não se nos adequam ou que nos fascinam. Em todo o caso, um diário oferece-nos aquilo que é uma aparente confidência, o resultado de momentos de diálogo do diarista consigo, um frente-a-frente do eu com o tempo da escrita (ou consigo), instantes que são de isolamento, de reflexão, de selecção (ou lembrança) dos momentos e dos pensamentos acontecidos ou sentidos, um gesto em que o registo mais se assemelha a um espelho (mesmo que retrovisor), em que fica o que marca, em que se nega o esquecimento. Tinha Ruy Cinatti (1915-1986) os seus 19 anos quando justificou o seu diário — “O que vou fazer, vai-me servir de espelho retrospectivo. Porque eu necessito muito, dadas as minhas condições de vida e a minha maneira de ser; e a melhor maneira de eu me poder analisar é fixar, duma maneira mais duradoura do que a memória, todos os acontecimentos da minha vida, de tal forma que possa desenvolver o que em mim há de bom e combater tudo que me seja prejudicial tanto ao espírito como ao corpo, é redigindo um diário.” (em Diários 1933-1943, Universidade Católica Editora, 2025).

“Aparente confidência”, como ficou registado acima. Inicialmente, é o guardar segredo, uma forma de preservar para si o importante da vida. E assim pode continuar a ser, se o diário se mantiver conhecido apenas pelo próprio. Mas, se lemos diários, é porque alguém decidiu partilhar connosco os supostos segredos da sua vida, construídos sobre os acontecimentos privados ou públicos, sobre os pensamentos e as emoções, sobre a vida como construção e caminho, afinal, o essencial em que assenta um diário, pois, como explicou João Bigotte Chorão (1933-2019), em Diário 2000-2015 (Imprensa Nacional, 2017), “só ao homem interior é dado escrever boas memórias e bons diários”, pois “os diários não são agendas, registo cansativo e um pouco exterior de encontros, leituras, viagens”.

Não se está com isto a dizer que de um diário publicado se devam esperar revelações e segredos. O diarista não desconhece que, ao contar a sua vida, o primeiro trabalho é “o de saber o que deve entrar e o que fica de fora”, disse-o Anabela Mota Ribeiro (n. 1971), em O quarto do bebé (Quetzal, 2023). Foi este cuidado na escolha que, em Tempo Contado - Diário Maio 1994-Maio 1995 (Quetzal, 2010), J. Rentes de Carvalho (n. 1930) confessou não ter tido numa determinada fase da sua vida, o que lhe valeu considerável mal-estar: “Diários daqueles em que se anotam minuciosamente os sentimentos, até agora só tive um. Na adolescência. Quando meu pai o descobriu e julgou encontrar nele a provável razão de, com os meus amores, eu ter descurado o estudo, obrigou-me a ouvir a leitura irónica e declamada que dele fez. Eu tinha dezasseis anos, a humilhação deixou marcas. Hoje, as ameaças desse dia e os insultos, as bofetadas que me deu depois, já não contam. Mas mais que a dor e a humilhação física, o ele ter violado os meus pensamentos e anseios íntimos foi das coisas que nunca consegui esquecer ou perdoar.”

Há diaristas que assumem o critério do que pode ser um diário publicável. Mais reservado, Vergílio Ferreira (1916-1996), romancista, ensaísta e diarista, observou, no seu Conta-corrente, em nota de 1 de Fevereiro de 1969: “Um romance é um biombo: a gente despe-se por detrás. Isto não. Mesmo que não falemos de nós. (...) O meu ‘diário’ está nas centenas de cartas aos amigos.” Mais pragmático, Eugénio Lisboa (1930-2024) afirmou, em Aperto Libro - Páginas de Diário I - 1977/1990 (Opera Omnia, 2018), que “um diário é uma conversa com os outros.” Mais directo, Rentes de Carvalho, em Pó, cinza e recordações - Diário Maio 1999-Maio 2000 (Quetzal Editores, 2014), explica: “Tenho eu a ideia, talvez incorrecta, de que a porção de intimidade que se desvenda num diário não deve ultrapassar a que se revela numa conversa entre amigos. Fazer estendal do privado parece-me fraco gosto, e embora possa decorrer daí um atractivo para o bisbilhoteiro, continuo a acreditar que bom número de pessoas prefere não chafurdar na lama alheia.”

O que une as três opiniões é o conceito do que é partilhável. O critério para o que o diarista deve mostrar, definiu-o muito bem e assertivamente Ambrose Bierce (1842-1914): “o relato diário daquela parte da vida de uma pessoa que, sem corar, ela pode fazer a si própria.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1776, 2026-06-11, pg. 10.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Manuel dos Santos Rodrigues: Romance pelo seminário dentro



Manuel dos Santos Rodrigues dedicou uma boa parte da sua vida ao estudo de uma figura setubalense, Vasco Mouzinho de Quevedo, tendo investigado a sua vida e sobretudo a sua obra, sendo responsável pela mais recente edição dessa epopeia que é Afonso Africano (Setúbal: Câmara Municipal de Setúbal, 2013).
No ano passado, editou o livro de poemas Altar de Pena Escrita, que teve apresentação em Setúbal em Janeiro.
No sábado, 29 de Junho, pelas 18h00, Manuel dos Santos Rodrigues volta à Biblioteca Municipal de Setúbal para apresentar o seu mais recente título, O rubro perfume das acácias, um romance que entra para o corpus das narrativas ligadas à vida do seminário e à condição de padre, com tradição na literatura portuguesa (Vergílio Ferreira, Fernando Faria, Manuel Rodas, Pinho Neno, Francisco Freire, entre outros). A questão do celibato, que sempre tem estado em discussão, domina o romance.
Evento organizado pela LASA. Convidados.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Soeiro Pereira Gomes, a propósito do centenário e de uma personagem (ou três livros que se cruzam)

Hoje, na aula, falava-se do Pedro, o herói do conto “A Estrela”, de Vergílio Ferreira (Contos. 2ª ed. Amadora: Livraria Bertrand, 1976, pp. 191-203). Personagem arrojada, determinada, impaciente, corajosa, assustadiça. Criança de sete anos, ágil, franzina. Tudo bem quanto à caracterização psicológica e física. E socialmente? Quase silêncio. Uns olhares para este, para aquele, para o livro, para o ar, para o professor. Não lhes diz nada o facto de Pedro, à noite, ir para fora de casa descalço? Ou a linguagem usada? Ou o cordel que lhe ata as calças?
Descalço? À noite, no quarto, com pijama, é lógico que está descalço… Cordel? É aquilo que serve para prender as calças do pijama… Não repararam. Pedro foi para a rua, usando a sua vestimenta de todos os dias. Então ele não ia à escola? Escola?! Mas onde se fala de escola?
As aprendizagens deste Pedro vinham do trepar às árvores a espreitar ninhos, da corrida pelos montes, do jogo da vida… Realidades outras que estavam longe do mundo de agora. Invoquei outras crianças a propósito. Sabem que faz hoje cem anos que nasceu Soeiro Pereira Gomes? Escritor, que se remeteu à clandestinidade por pensar diferente, autor de Esteiros (1941), o livro dedicado “aos filhos dos homens que nunca foram meninos”, outros parecidos com o Pedro de “A Estrela”? Homens que nunca foram meninos? Mas…
Sim, é um interessante livro para lerem. Pode ser pretexto para ficha de leitura. Alguns anotaram a referência. Houve uma que disse que já tinha visto o livro lá por casa. Pode ser que…
À tarde, de visita a uma livraria, um título surpreende-me: Banquete de textos, de Madalena Santos (Quinta do Conde: Contra-Margem, 2009). São emoções que ficam de livros lidos. E um deles é Esteiros. E diz a autora: “Esteiros. Há esteiros no Tejo. São pequenos canais na margem do rio, cheios de lama e de lixo e junco, onde nunca deixaremos os nossos filhos meninos, a brincar. Mas outras crianças fizeram dos esteiros florestas e buscaram brinquedos perdidos, que nunca acharam. Como o Gineto, o Sagui, o Maquineta, o Gaitinhas, o Malesso (…). Os esteiros existem e o Gineto também. A personagem inspirou-se na vida dos miúdos pobres, que viviam em Alhandra e em Baptista Pereira, o português que atravessou a nado o Canal da Mancha. A vida valeu-lhe estas duas glórias: a travessia difícil, uma proeza da natação que aprendeu no Tejo, quando por necessidade ou por instinto, se atirava ao rio e o atravessava margem a margem, bem como ser inspiração dum escritor, para uma obra literária de vulto.”
Coincidências. Espero bem que haja algum que escolha Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, para ler e fazer ficha de leitura. Pela história, pela literatura, pela memória, pela infância vivida e escrita. Se assim não for, tenho pelo menos a certeza de que, quando ouvirem falar em crianças descalças ou com cordel à cintura a segurar as calças, não associarão ao conforto do pijama apenas, mas pensarão também na possibilidade do desconforto que as vidas têm… e nas crianças que nunca viveram uma infância.