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segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Contributo de Daniel Pires para a bibliografia setubalense (2)

 


As imagens da região de Setúbal vindas através da poesia tinham já ocupado Daniel Pires em 2001, quando uma equipa que integrou também Fernando Marcos e António Quaresma Rosa organizou a exposição Setúbal - Terra de Poetas e Cantadores, reunindo uma centena de autores e 349 títulos, recenseados em catálogo, em cuja introdução se insistia na “dinamização cultural da cidade de Setúbal e reconstituição da sua memória”, surgida de “investigação aturada” que pretendia uma “perspectiva diacrónica da poesia de matriz setubalense”, coligindo os nomes conhecidos e “os populares e os menos consagrados”. Assim se originava uma obra que, mais do que uma lista, se transformou num elemento de estudo, fornecendo pequena antologia e notas biográficas sobre os autores, atitude que visava a luta contra a efemeridade das exposições, “fazendo a ponte com os investigadores vindouros que pretendam conhecer a identidade cultural da cidade”, afinal uma obra para poder ser uma referência de estudo e de conhecimento.

A criação do Centro de Estudos Bocageanos (CEB) em 1999 surgiu de uma intervenção de Daniel Pires no Forum “Pensar Setúbal”, realizado no mês de Maio desse ano, em que defendeu a criação de um centro de estudos e de informação sobre o vate sadino, com a preocupação de o âmbito de estudos ser alargado a outras temáticas locais. A ideia conseguiu agregar cerca de 80 pessoas, que foram os sócios fundadores do CEB, e, nos estatutos, publicados em 1 de Outubro seguinte, eram claras as intenções: divulgar a obra e a personalidade de Bocage, “fazer o enquadramento dos escritores locais e nacionais e dinamizar culturalmente a cidade de Setúbal”. Cerca de um mês e meio depois, em 22 de Dezembro (no dia a seguir ao que marca o falecimento de Bocage), o jornal O Setubalense incluía o primeiro número do que foi a “Página Cultural” do CEB, assinando Daniel Pires um texto que revelava uma antiga e rara tradução italiana de um poema bocagiano. A “Página Cultural”, de publicação mensal, prolongou-se até ao número 155, saído em 29 de Abril de 2013, sempre com uma abordagem de assuntos de interesse local e regional, por onde passaram investigadores, escolas e criadores artísticos, numa pluralidade de saberes. Daniel Pires, além de ter sido seu co-coordenador durante uma temporada, aí fez ampla divulgação de textos esquecidos e publicou ensaios relacionados com figuras locais (como Bocage, o poeta popular Calafate e o historiador João Carlos de Almeida Carvalho), com a implantação do regime republicano e suas marcas em Setúbal ou com histórias da educação, entre outros temas, chegando a defender que o CEB deveria ser o motor da constituição de uma Biblioteca de Fundo Local com vista ao “estudo do património cultural da cidade”.

Nesta missão divulgadora, Bocage tem sido, sem dúvida, a figura mais tratada por Daniel Pires, estudo em que nunca esquece a contextualização de Setúbal à época da juventude do poeta, seja colhendo elementos descritivos, seja pela demanda de iconografia sua contemporânea, reveladora do que eram o espaço e a vida sadinos, como se pode ver, por exemplo, nesse repositório de imagens que é a obra Bocage - A Imagem e o Verbo, editado em 2015. Outros contributos como a colecção de postais Bocage na Prisão, de 1999, o baralho de cartas designado Bocage e a sua Época, de 2005 (em colaboração com Manuel de Vilhena), ou a reedição das Fábulas de Bocage, em 2000 (a partir da edição de 1905), mantendo o mesmo espírito de ligação do poeta à região, apresentam também objectivos de divulgação junto do grande público, particularmente em idade escolar, visando o desfazer de imagens fáceis construídas em torno do poeta, como a do herói das anedotas, e dando-lhe a visibilidade merecida como actor de uma época ideologicamente conturbada.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1422, 2024-11-27, p. 10

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Contributo de Daniel Pires para a bibliografia setubalense (1)



Começarei por duas citações, uma de um poeta, outra de um editor, ambas de quem escreve e vive os livros — a primeira, de José Tolentino Mendonça, que nos lembra que “em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada”; a segunda, de Serafim Ferreira, a considerar que “o livro será o melhor instrumento para decifrar todos os códigos e desvendar os paraísos artificiais (ou não) que pela eternidade hão de alimentar a aventura do homem”.

A razão destas escolhas cruza-se com o papel que Daniel Pires tem tido no enriquecimento do que podemos chamar uma bibliografia setubalense, não só pelo contributo que tem trazido desde há muitos anos para os estudos bocagianos —editando a obra de Bocage (nas Edições Caixotim, entre 2004 e 2007, e na Imprensa Nacional, entre 2017 e 2018) ou contribuindo para o seu estudo (Bocage e o Livro na Época do Iluminismo e Bocage - A Imagem e o Verbo, ambos de 2015, Bocage ou o Elogio da Inquietude, de 2019, O Essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage, de 2023, além de outras obras em que colaborou), títulos necessariamente relacionados com Setúbal, quer pelas circunstâncias biográficas, quer por algumas alusões, ainda que escassas, de Bocage à sua região de origem —, mas também pelo que tem posto a descoberto no domínio do conhecimento sobre Setúbal, fazendo ressurgir textos do pó dos tempos e construindo outros a partir das suas investigações e demandas por arquivos e bibliotecas várias, todos eles iluminando o que tem sido a aventura da identidade na região dominada pela Arrábida.

E será justamente pela serra que entramos, uma vez que, como tema, ela consta já na tradição literária portuguesa, desde, pelo menos, o século XVI. Durante muito tempo, referências literárias da Arrábida foram dominadas por uns poucos nomes, a começar em Frei Agostinho da Cruz, passando por Alexandre Herculano e desaguando em Sebastião da Gama. No entanto, a persistência de Daniel Pires e de António Mateus Vilhena possibilitaram ao leitor a pluralidade dos muitos olhares que sobre a Arrábida têm surgido na literatura lusa, desde que, em 2002, publicaram a obra A Serra da Arrábida na Literatura Portuguesa. Se, nessa edição, nos mostraram cerca de meia centena de poetas que versejaram sobre a serra que Pascoaes confessou ser o verdadeiro “altar da Saudade”, como nos contou Sebastião da Gama depois da visita que lhe fez em Setembro de 1951, quando saiu a segunda edição, em 2014, o número de autores subia já para cerca de oito dezenas, com textos escritos num período temporal entre o século XVI e 2014, valendo a pena atentar na justificação que os antologistas apresentam nos prefácios de ambas as edições: a pretensão foi a de “dedicar especial atenção ao património cultural da cidade de Setúbal, contribuindo, desta forma, para a sua valorização e para a preservação de uma memória que faz parte integrante da nossa identidade”, tarefa resultante de investigação “metódica em vários arquivos e bibliotecas nacionais”, partilhando textos que estavam “dispersos por livros ou periódicos de muito difícil acesso”, assim contrariando “a impossibilidade da sua fruição pela maioria das pessoas”.

No mesmo ano de 2014, os dois investigadores avançaram também na publicação da obra Descrição da Arrábida, a partir de manuscrito guardado na Biblioteca Nacional, contendo o texto do franciscano madeirense Inácio Monteiro, assim pondo a descoberto uma obra de referência no domínio da literatura de viagens em Portugal, simultaneamente um bom exemplo da “estética literária barroca”, que descreve “a paisagem envolvente” e os dois conventos arrábidos, dá “informações relevantes no domínio arquitectónico” e apresenta “ampla visão da natureza em estado puro e uma panorâmica de resultado da acção humana sobre ela exercida.” Este trabalho, construído no confronto de dois manuscritos e de uma versão publicada no jornal O Azeitonense (em 1920), trouxe ainda luz sobre o seu autor, que, até esta edição, se supunha ser um jesuíta oriundo do Norte do país, com vida feita em Roma e falecido em Ferrara...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1412, 2024-11-13, pg. 10.

 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

Daniel Pires e o essencial bocagiano



“Livre-pensador insubmisso, heterodoxo, Bocage foi um arauto do porvir, anunciando algumas das medidas que, mais tarde, a Revolução Liberal de 1820 e o regime republicano implementaram. E, aliando o génio poético à sede de pugnar por direitos humanos inalienáveis, ponderou questões fraturantes que continuam pertinentes na atualidade.” Assim termina Daniel Pires a sua mais recente obra, O essencial sobre Manuel Maria Barbosa du Bocage (Imprensa Nacional, 2023), forma de demonstrar a importância do vate sadino e de manifestar a sua adesão a esta figura da cultura nacional a partir de Setúbal, sabido como é que parte da obra de Daniel Pires segue a temática bocagiana.

O que será imprescindível saber sobre Bocage passa pela sua vida e pelas circunstâncias do tempo, pela obra legada e pela memória bocagiana - três áreas que correspondem a outros tantos capítulos do livro.

O primeiro capítulo, “O homem e as suas circunstâncias”, é eminentemente biográfico, conjugando a história da família, o contexto da Setúbal da época e a saída de Bocage da sua terra-natal para um percurso recheado de aventura, de risco, de desafio, até à morte em 1805, três meses depois de fazer 40 anos. Cruza-se o leitor com a vida inconstante da personagem, na sua peregrinação pelo Oriente e no seu confronto com as instituições e com o poder em Lisboa (prisão no Limoeiro incluída), assim como é possível acompanhar-se o que seriam os seus círculos de inimigos (provocadores e acusadores) e de amigos (que o ampararam, defenderam, reconheceram, publicaram e até lhe pagaram o funeral). A imagem que domina é a de uma personalidade excepcional, tal como o reconheceu e registou William Beckford, testemunho que Daniel Pires reproduz: “O Sr. Manuel Maria, a mais fora do comum, mas talvez a mais original das criaturas poéticas formadas por Deus”, que deixou o inglês emocionado - “quando começava a recitar algumas das suas composições, nas quais a profundeza de pensamento se mistura com os rasgos mais patéticos, senti-me abalado, comovido.”

O segundo capítulo, “O legado de Bocage”, historia a obra do poeta nos seus vários títulos (incluindo os póstumos) e deixa ressaltar os principais contributos que a caracterizam, evidenciando a paixão que a poesia sempre foi para si, forma maior de viver, como deixou explícito na advertência do terceiro tomo das “Rimas”, ao referir que os poetas “nasceram com a brilhante mania de metrificar, sacrificam os proveitos da vida civil e até as comodidades da existência física”. Assim, Daniel Pires leva-nos a uma viagem na obra bocagiana, mostrando as influências clássica e sua contemporânea, portuguesa e europeia, a prática dos mais variados géneros poéticos da tradição literária, a tradução, a extensão e o escritor multímodo, bem como os temas da sua poesia (lirismo, autobiografia, intervenção política, crítica social, religião, erotismo, didatismo). A vastidão da obra analisada permite que seja olhada como um repositório de muitas influências e de inovações, pois Bocage “cultivou, de forma inovadora e autêntica, a poesia, o drama e a tradução, pondo em causa cânones, aparentemente inamovíveis, contribuindo para a construção de outros mais consentâneos com o dinamismo que caracterizou a sociedade do século XVIII”.

O último capítulo, “Posteridade, és minha!” (título saído de um verso bocagiano), elenca alguns contributos que têm construído a memória do poeta - edições póstumas, biografias, monumentos, homenagens, comemorações e abordagens artísticas (artes plásticas, teatro, cinema, música). Esta parte é curta, embora a lista seja vasta, limitando-se, na quase totalidade dos casos, a mencionar o nome dos autores, sem indicações de datas ou de títulos. O episódio de memória que tem mais larga presença é o da construção do monumento a Bocage em Setúbal (1871, por iniciativa dos irmãos Castilho), bem como as comemorações que nesta cidade foram surgindo (1905 e 1965, centenário do falecimento e bicentenário do nascimento).

Tratando-se de uma obra que pretende apresentar “o essencial”, cumpre bem a sua missão (embora pudesse considerar mais alguns títulos na lista da bibliografia passiva). O texto acessível e de considerável síntese torna este livro num vade-mécum útil e oferece uma abordagem séria de Bocage ao grande público.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1159, 2023-10-04, p. 10.


quinta-feira, 15 de setembro de 2022

Henrique Freire e o romance histórico da fundação do Convento de Jesus (3)



Ao saber do destino conventual de Beatriz (que poderia ser a mulher do seu filho Pedro), após visita ao convento, Álvaro despede-se, como se tivesse cumprido uma missão - “Adeus, mestre Mendo. Selado e brindado tenho o meu ginete, vou-me por aí fora. Deus vos dê felizes dias cá na terra e eterno repouso na bem-aventurança, e se o destino nos não tornar a unir, até ao dia do Juízo Final!” E conclui o narrador: “Despediram-se. De D. Álvaro ninguém mais soube.” Não podemos ler esta passagem sem nos lembrarmos daquele encontro entre as personagens Telmo e D. João de Portugal que Garrett criou para o seu Frei Luís de Sousa, em que o nobre, depois de se certificar sobre a história da família através do fiel escudeiro, entende estar errado no ódio e, despedindo-se, parte, desaparecendo de cena. No caso do garrettiano D. João de Portugal, como no caso do Álvaro Ataíde, de Henrique Freire, ambas as personagens antecipam o seu fim, através de uma morte psicológica, que acontece depois que o mundo se lhes fecha.

Em A Profecia, o espaço medieval da então vila sadina, em finais do século XV, é sempre caracterizado em comparação com a contemporaneidade de Henrique Freire - daí que haja ocasião para louvar a chegada do comboio ou a iluminação a gaz, que estava para breve. Mas, preocupação máxima, para lá da acção narrativa e do desenvolvimento que era sentido na cidade, Freire foca-se na preservação do património, tal como foi propósito da geração de Herculano e Garrett - há diversos momentos em que o desrespeito pela memória (tomando o exemplo da falta de reconhecimento a Bocage, haja em vista que o monumento ao poeta é posterior, de 1871), a falta de conservação dos bens culturais e o uso do camartelo são criticados, desejando que, no futuro, “a mão destruidora do vândalo desta época não se lembre de fazer do seu recinto uma praça de touros” (como acontecera no Convento de S. João, em Setúbal, duas décadas antes). Continuamos a não poder ler estes comentários sem nos lembrarmos do que Garrett ia dizendo no seu circuito por Santarém nas Viagens na minha terra, sempre condenando o despropósito com que o património edificado era deixado ao abandono...

A concluir, um desejo: “Que inteiro ou destruído, esse templo conserve sempre vestígios do antigo poder deste reino; é uma página de pedra do livro das nossas tradições.” E, para que dúvidas não restassem e incorrendo num apelo de consciência cívica, remata: “Eis os sinceros votos que fazemos em prol do Mosteiro de Jesus da cidade de Setúbal que a piedade ergueu há trezentos e setenta anos: praza a Deus nos não façam ainda um dia lançar um brado de reprovação contra os homens sem coração e sem crenças que tem reduzido a ruínas quase todos os monumentos do país.”

Advertência, é verdade, importante para o apelo à intervenção e defesa do património, uma marca que também preocupou os românticos e que foi determinante para a cultura oitocentista. Esta obra de Henrique Freire, partindo de uma profecia cuja autenticidade é discutível, pretendeu ser uma voz de defesa e de promoção da cultura local, eivada de todas as marcas do tempo em que foi escrita, fazendo coabitar figuras da nobreza e populares, exaltando o carácter testemunhal e a responsabilidade dos cidadãos. Uma história que, ao glorificar esta “página de pedra”, é um belo hino em honra do Convento de Jesus!

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 918, 2022-09-14, p. 8.


quarta-feira, 6 de abril de 2022

Bocage pelo olhar de Calafate (4)



O terceiro folheto de temática bocagiana composto por António Maria Eusébio, o “Calafate”, intitula-se Cantigas para Guitarra dedicadas ao aniversário do grande poeta Elmano, o Bocage, publicação de quatro páginas, surgida em 1911, ligada ao primeiro aniversário bocagiano celebrado no regime republicano.

Em 9 de Agosto desse ano, a Câmara de Setúbal decidira instituir o dia 15 de Setembro, data de aniversário de Bocage, como feriado municipal, tendo a primeira celebração ocorrido durante três dias, entre 15 e 17 de Setembro.

As décimas do “Calafate” relatam o entusiasmo vivido na cidade - “Muita gente madrugou / P’ra ver nascer esse dia, / Até alguém cuidaria / Que não vinha, mas chegou. / N’Avenida se juntou / Nobre, rico e pobre artista, / Todos empregavam a vista / Para as bandas do Oriente, / P’ra ver, em aurora luzente, / O dia quinze setembrista.” A adesão popular, a quantidade de visitantes e o ambiente festivo merecem pinceladas fortes do poeta repórter - “Todo o Povo está contente, / Tem muita razão p’ra estar, / Muitos vivas há de dar / Aos autores desta festa, / Porque outra igual a esta / Só Setembro a pode dar.”

A apologia de Bocage, a sua fama, a necessidade de testemunhar e de dar continuidade à memória são acentuadas neste folheto, constando também algum espírito crítico e adesão à decisão republicana de celebração do nascimento de Bocage, pois os grandes eventos bocagianos anteriores tinham ocorrido sempre na data do falecimento - “Foi festa de luzimento / Que se fez pelo centenário, / Só o seu aniversário / Estava no esquecimento. / No dia do seu nascimento / ‘Stava a praça despovoada, / Estando a memória guardada / Por galegos andarilhos; / Setúbal, p’rós seus filhos, / Tinha uma dívida atrasada.” No meio de tal entusiasmo, António Maria Eusébio tem ainda uma palavra para um dos setubalenses que mais pugnaram pela memória bocagiana, Manuel Maria Portela, falecido em 1906 - “Que glória não teria / Portela, se fosse vivo, / Ele que era tão activo / Nos dotes da poesia.”

Se as outras celebrações bocagianas (inauguração da estátua em 1871 e festa do centenário do falecimento em 1905) tinham sido pontuais, ao ter sido feita a opção pela festa do aniversário estava garantida a continuidade da memória bocagiana e a sua celebração anual, aspectos que o “Calafate” antecipa - “Esta festa tão vistosa / Far-se-á para o futuro, / Para não ficar no escuro / Uma data gloriosa. / Bocage é que já não goza / Do seu alto monumento, / Nem vê o acompanhamento, / Melhor que o seu centenário. / Pobre, rico e operário / Festejam o seu nascimento.”

O folheto conclui com uma ideia que o “Calafate” já expusera nos versos de 1905 - a memória bocagiana ficará incompleta sem que se saiba dos restos mortais do poeta: “Tem aqui sua memória, / Seu corpo onde estará?”

Numa associação feliz, o nome de Bocage seria ainda usado em décimas de cunho publicitário que o “Calafate” redigiu para alguns dos seus patrocinadores, como o Mendes Chapeleiro - “Bocage é bom que apareça / (...) / No dia do seu aniversário, / com algum chapéu na cabeça. / (...) / Vão até ao chapeleiro Duarte, / Que tem lá para escolher.”

Não conhecendo a obra bocagiana pela leitura, António Maria Eusébio conseguiu ser um divulgador da memória bocagiana pela história que lhe foi contada, pelo respeito pela memória e pelo empenho nas coisas e nos acontecimentos da terra que o viu nascer.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 822, 2022-04-06, p. 8.


quinta-feira, 31 de março de 2022

Bocage pelo olhar de Calafate (3)



O centenário bocagiano de 1905 foi intensamente vivido em Setúbal, com o jornal O Elmano a envolver a população. Houve hino a propósito; conferenciou-se, recebendo Setúbal palestrantes como Manuel de Arriaga (1840-1917) ou Teófilo Braga (1843-1924); foi cunhada moeda de prata; o artista João Vaz esculpiu a lira que passou a adornar o monumento a Bocage; o cortejo de 21 de Dezembro foi apoteótico, com carros alegóricos, iluminações e filarmónicas; os participantes setubalenses nesse dia de festa rondaram os quinze mil, além de seis mil “forasteiros”, vindos sobretudo da capital.
António Maria Eusébio, no folheto Cantigas para Guitarra, de quatro páginas, publicado ainda em 1905 ou em 1906, reportou o evento em quatro poemas, como anuncia logo na primeira quadra, mote para o primeiro conjunto de décimas - “Parabéns irmão Bocage / Para ti nada faltou / Do teu primeiro centenário / Segunda memória ficou.” -, evidenciando o sucesso das realizações e a comparação, na grandiosidade simbólica, com o que acontecera 34 anos antes, na inauguração do monumento a Bocage. A impressão que ficou no “Calafate” foi tão intensa que a primeira décima se inicia pela hiperbolização - “Não é no século actual / Nem outro que há de vir / Que algum povo há de assistir / A um centenário igual.” No seguimento da narração, depois de considerar que “foi festejo extraordinário” (com “quatro arraiais”, “três sociedades”, “duas bandas regimentais”, “quatro oradores”), aconselha o poeta: “Se no teu itinerário, / Encontrares Camões, / Conta-lhe as manifestações / Do teu primeiro centenário.”

O segundo poema toma como assunto a limpeza que foi feita à estátua por um “peneireiro” habilidoso, fala de alguma desolação pelo final da festa (“Agora tudo tornou / Ao seu primeiro estado / Está o festejo acabado / Sem haver perdas nem danos / Para daqui a cem anos / Ficou tudo preparado.”) e denuncia o facto de não ter sido permitido ao “velho cantador” aproximar-se do centro do evento - “Também quis acompanhar / Esse teu rico festejo, / Mataram-me o meu desejo, / Não me deixaram passar. / Antes eu queria levar / Um bofetão no meu rosto, / Mas sofrendo esse desgosto / tornei p’ra trás, vim-me embora.”

A adesão de António Maria Eusébio a Bocage decorria das informações que lhe chegaram através de uma conhecida figura setubalense, que teve o condão de divulgar a história, as ideias e a importância do poeta, como reconhece: “Quando eu ignorava / Quem Bocage tinha sido, / Tive um velho conhecido / Que dele muito falava. / Valia ninguém lha dava, / Seu saber estava oculto, / Depois que houve o tumulto / Da sua inauguração, / Muitos dizem, e com razão, / Bocage foi grande vulto.” Consegue-se inferir a referência a Manuel Maria Portela (1833-1906), um dos maiores promotores da figura de Bocage em Setúbal.

No último poema do folheto, o tom é algo mais brejeiro. Referindo a conservação da escultura bocagiana, anota: “Tu estavas tão mascarrado / Dos pés até ao pescoço, / Agora és um rapaz moço, / Barba feita e cu lavado.” E, quanto à lira deposta na base do monumento, ri o “Cantador” - “Tens uma lira afinada / Que custou tanto dinheiro, / Sendo tu tão bom gaiteiro / Já não dás uma gaitada.” A finalizar, o “Calafate” exagera, dizendo ao poeta maior: “Ainda hás de ser aclamado / Por D. Bocage primeiro” e “Também hás de ser c’roado.”

À sua maneira, António Maria Eusébio contribuía para a promoção de Bocage, prolongando o inebriamento da festa que honrara o poeta...

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 817, 2022-03-30, pg. 5.


quinta-feira, 24 de março de 2022

Bocage pelo olhar de Calafate (2)


Reconhecendo a distância cultural e social entre si e Bocage, o “Calafate” dialoga com a memória de Elmano Sadino, tendo-lhe dedicado três dos seus folhetos e algumas décimas avulsas.

O primeiro, Cantigas dedicadas ao Centenário do grande poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, de 1905, antecedeu a celebração do centenário do falecimento do poeta, ocorrido em 21 de Dezembro. Na primeira quadra, é assinalada a coincidência biográfica quanto a Dezembro (falecimento de Bocage, em 1805, e nascimento de António Maria Eusébio, em 1819) - “Bocage dá-me licença / Que eu quero falar de ti, / No mês do teu centenário / Tu morreste e eu nasci.” -, proximidade logo contrariada pela diferença cultural (“Bocage tinhas nascido / Para ser astro brilhante / E eu nasci para ignorante / E nada ter aprendido.”) e pela distância social (“Sou um velho sem valor, / Ao pé de ti sou um pobre; / Tu filho d’um homem nobre / E eu filho d’um pescador.”) O poema termina a lamentar a forma de se afirmar a memória - “Só uma falta conheço, / E talvez haja outras mais, / São os teus restos mortais / Não estarem ao pé de teu berço.”

Nas décimas seguintes, o elogio bocagiano sublinha a vida difícil que levou, oposta à glória de que se revestia passados cem anos - “Este é o senhor da festa, / O poeta setubalense, / Tudo isto lhe pertence, / Mas para ele já não presta. / (...) / Foram precisos cem anos / Para ser tão festejado”. Bocage é ainda comparado com Camões, pela miséria em que ambos acabaram - “Se mais tivesse vivido / Sofreria privações, / Seria o que foi Camões, / Que foi na vida esquecido.” Neste preâmbulo aos festejos do centenário, é relembrado que também “em Dezembro a sua imagem / Teve a inauguração” (referência à festa de 1871, aquando da inauguração da estátua) e regista-se o envolvimento social e as influências - “O lojista e o proprietário, / O poeta e o camarista, / todos estes fazem vista / Na festa do centenário. / Não lhes falta o numerário, / Nem falta a boa vontade; / Nenhum tem necessidade / De certos expedientes, / De homens tão influentes / Grande é a sociedade.”

Seguem décimas sobre diversos assuntos elmanistas: biografia bocagiana (valorização da sua arte, alistamento no Regimento de Infantaria de Setúbal, relação de Bocage com o dinheiro e com a vida nocturna, passagem pela prisão, morte em Lisboa); familiares de Bocage que o “Cantador” ainda conheceu - o padre Francisco Barbosa du Bocage (“Este padre espiritual / Chorava pela sua cela: / No convento de Palmela / Foi freire e conventual.”) e Maria Luísa du Bocage, casada com João Lima (“Pois dos Bocages viventes / Só um ramo está em cima, / É o ramo Bocage Lima, / Um dos últimos parentes.”); comparação da “obra rica” do homenageado com a “obra pobre” do “Cantador”; reconhecimento de Bocage em Portugal e no Brasil e necessidade de haver sempre um monumento em sua honra em Setúbal.

Quase no final do folheto, duas décimas reflectem sobre o talento e a fortuna, aproximando-se o “Calafate” de Bocage quanto à sorte, pois sente-se “ora farto, ora faminto, / como Bocage viveu.” A conclusão acontece em quatro décimas, diálogo entre Bocage e o autor, gesto de proximidade social, em que, após agradecimento ao patrono, o “Cantador” se despede - “Seja eu bom ou ruim, / Minhas cartas estão dadas; / Já tenho as contas fechadas / Brevemente darei Fim.”

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 812, 2022-03-23, pg. 9.


quarta-feira, 16 de março de 2022

Bocage pelo olhar de Calafate (1)


 

António Maria Eusébio (1819-1911), poeta popular setubalense, ficou conhecido por “Calafate”, devido à profissão por que optou (contrariando a ideia da mãe), e por “Cantador de Setúbal”, por cantar fado (acompanhado à viola por Josué Ferreira, seu compadre, e à guitarra por Francisco de Jesus, conhecido como “Carga d’Ossos”) e pela prodigiosa imaginação para versejar. Não sabendo escrever, as décimas que produzia eram memorizadas e, depois, ditadas a uma neta ou a amigos, que as transcreviam.

Os seus primeiros versos foram publicados no Jornal de Setúbal, em 9 e 16 de Fevereiro de 1868, por iniciativa de Henrique das Neves (1841-1915). No entanto, só em 1901 voltaria a haver publicação, ainda por ideia de Henrique das Neves, quando surgiu o livro Versos do Cantador de Setúbal. E, ainda nesse mesmo ano, sairia o folheto Tudo e Nada (Reflexões entre um sábio e duas caveiras), conjunto de três poemas construídos sobre décimas, em oito páginas. Provavelmente, foi este o primeiro folheto de Calafate, expediente encontrado para suportar as dificuldades económicas e ajudar na sua autonomia, sem estar dependente dos filhos.

Ignora-se a quantidade de folhetos publicados na última década de vida de António Maria Eusébio - mais de 70, maioritariamente intitulados Cantigas para Guitarra, variando entre as quatro e as oito páginas (vendidos a 10 e a 20 réis, respectivamente), com periodicidade indeterminada, além de mais sete, de cunho autobiográfico, intitulados Recordações da Minha Vida, publicados entre 1904 e 1910, retrospectiva que ficou incompleta, pois as 422 décimas que os compõem apenas relatam a vida do poeta até cerca de 1846. Em toda esta produção, a fórmula mais habitual é a do poema constituído por quatro décimas, que seguem o mote dado por uma quadra, repetindo-se cada verso da quadra no final de cada décima, indo a engenharia dos poemas ao pormenor de repetir o esquema rimático em todas as construções. Os textos destes folhetos foram reunidos por Rogério Peres Claro (1921-2015), seu bisneto, na obra Versos do Cantador de Setúbal (dois volumes em 1985 e terceiro volume em 2008), seguindo o critério da arrumação temática dos textos e desprestigiando o ritmo e o contexto da publicação em folhetos.

O encontro de António Maria Eusébio com a poesia deu-se pelos seus vinte anos, cerca de 1840, e manteve-se pela vida fora, conforme canta numa décima do quinto folheto das Recordações, publicado em 1907, quando tinha 88 anos: “Já ia tomando amor / À musa da poesia / Já cantava e quem ouvia / Já me dava algum valor. / Chamavam-me o Cantador / Foi nome que me ficou / E ainda não se acabou / O nome que vale tanto. / Agora que já não canto / Ainda o Cantador sou.”

Senhor de uma memória prodigiosa e de uma curiosidade incontrolável, ao “Calafate”, os poemas saíam dominados pelo ritmo do fado e povoados pela experiência acumulada numa vida de dificuldades, que tanto lhe servia como fonte para testemunhar e relatar acontecimentos como motivação para reflectir sobre a existência. As temáticas que perpassam pelas suas décimas são diversificadas, um pouco ao ritmo dos acontecimentos vividos e presenciados - factos da vida pessoal, comemorações e festas religiosas, notícias do mundo (sobretudo conflitos internacionais), histórias brejeiras, episódios da vida local (as tramas políticas, as querelas, os costumes, o património), o sentir de classe e o mundo do trabalho, a vida social, reflexões sobre a vida e os valores.

Conterrâneo de Bocage, António Maria Eusébio presenciou vários momentos de homenagem ao vate sadino, razão por que o poeta setecentista não poderia escapar aos versos do “Cantador”.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 807, 2022-03-16, pg. 5.


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Bocage olha o Sado há 150 anos



As referências de Bocage (1765-1805) a Setúbal, onde nasceu, são escassas; no entanto, sempre ficou gravado aquele verso de despedida “Eu me ausento de ti meu pátrio Sado”, que, abrindo um soneto, se outra mensagem não contivesse, sempre atestaria o laço biográfico do poeta com Setúbal. Mas, quando eram passados 66 anos sobre a partida definitiva de Bocage, a cidade encarregou-se de o pôr a olhar eternamente o mesmo Sado de que se despedira, ao erigir-lhe uma estátua, localizada no centro cívico, com os olhos postos na paisagem que se estende até ao rio.

Batiam as duas da tarde de 21 de Dezembro de 1871 quando se iniciou a cerimónia de inauguração do monumento, figura desenhada por Pedro Carlos dos Reis (1819-1893) e talhada por Germano José de Sales (?-1902), com António Rodrigues Manito (1819-1906), presidente da Câmara de Setúbal, a intervir: “Setúbal paga no dia de hoje uma dívida que não era só nossa, era de todos os que falam a língua portuguesa (...), assinala entre os maiores dias das suas glórias este da inauguração da estátua do grande poeta seu conterrâneo.” E, valorizando o papel da memória: “Do alto daquela coluna será Bocage o incitador da civilização dos seus patrícios, o guia dos nossos progressos, e, ainda depois da trabalhosa vida, o escudo da sua terra natal.”

Documento importante para a reconstituição do ambiente vivido nesse dia é o “Auto da inauguração da estátua de Bocage na cidade de Setúbal”, publicado no Diário do Governo, em 29 de Dezembro de 1871, que transcreve também a intervenção do Marquês de Ávila e Bolama (que presidiu à cerimónia) e lista grande parte dos presentes - aí constando importantes nomes das letras portuguesas como Bulhão Pato, Pinheiro Chagas, Silva Túlio ou Feliciano de Castilho, entre outros.

Século e meio volvido sobre esse 21 de Dezembro, o catálogo O monumento a Bocage - 150 anos olhando o Sado, concebido para a exposição com o mesmo título (em curso na Galeria Municipal do 11, com curadoria de Francisca Ribeiro), constitui bom contributo para o leitor ajuizar do que tem sido a memória bocagiana, seja pela reprodução de documentos, seja pela revelação de alguns dados novos, seja pela coerência quanto ao simbolismo que o tempo tem atribuído à estátua - desde a ideia da construção e respectiva angariação de fundos (1864), passando pelo momento da inauguração (1871), detendo-se na celebração do primeiro centenário do nascimento (1905) e mostrando como até hoje o espaço tem merecido a consideração da cidade.

Interessante é ver que, em torno desta figura e deste monumento, se tem congregado e manifestado a população pelos mais diversos motivos locais assim como a política nos mais variados momentos. Não menos curioso é vermos que a celebração de Bocage teve celebração partilhada com Frei Agostinho da Cruz em 1905 - primeiro centenário do nascimento de Bocage e terceiro centenário da chegada do poeta franciscano à Arrábida.

A ideia da construção do monumento a Bocage terá partido de outro poeta, António Feliciano de Castilho (1800-1875), quando soube da colocação da lápide na casa onde se supunha ter nascido Bocage, em 1864, ideia devida ao setubalense Manuel Maria Portela (1833-1906). A conjugação destas figuras e a participação brasileira através de José Feliciano de Castilho (1810-1879) permitiram que a ideia germinasse e se concretizasse sete anos depois.

Este relevo dado a uma figura nacional como foi Bocage não escapa às tonalidades do Romantismo - independentemente do que valham os prefixos, a verdade é que temos um “pré-romântico” (Bocage) enaltecido à custa da ideia de um “ultra-romântico” (Castilho)...

Exposição a ver e catálogo a conservar, pois!

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 758, 2021-12-21, p. 3


quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

O monumento a Bocage e a “farpa” de Ramalho Ortigão



Ramalho Ortigão (1836-1915) e Eça de Queirós (1845-1900) formam o par que alimentou o projecto d’As Farpas - Crónica Mensal da Política, das Letras e dos Costumes (Lisboa: Tipografia Universal), conjunto de volumes de opinião iniciado em Maio de 1871 com um exemplar de 96 páginas e o custo de 200 réis, que durou até 1883 (nem sempre respeitando a periodicidade mensal), embora Eça só tivesse colaborado até Outubro de 1872 por ter ingressado na carreira diplomática (as suas crónicas foram reunidas em 1890 em Uma campanha alegre). 

Pel’As Farpas passou a crítica social, política, artística, religiosa, educativa, retratos de um Portugal pela lente dos que alimentaram a Geração de 70, de maneira a criticarem um certo marasmo. Os objectivos das crónicas com tão acutilante e cáustico título eram claros, como se pode ver logo no primeiro volume: “Leitor de bom senso - que abres curiosamente a primeira página deste livrinho -, sabe, leitor - celibatário ou casado, proprietário ou produtor, conservador ou revolucionário, velho patuleia ou legitimista hostil -, que foi para ti que ele foi escrito - se tens bom senso! E a ideia de te dar assim, todos os meses, enquanto quiseres, cem páginas irónicas, alegres, mordentes, justas, nasceu no dia em que pudemos descobrir através da penumbra confusa dos factos alguns contornos do perfil do nosso tempo.” Recusando cumplicidade na situação, os autores decidem “apontar dia por dia o que poderíamos chamar o progresso da decadência”, recorrendo ao riso, ao humor, confessando: “não sabemos, talvez, onde se deva ir; sabemos de certo onde se não deve estar.”

É assim que o volume relativo a Dezembro de 1871 (publicado em Janeiro seguinte) refere a inauguração do monumento a Bocage ocorrida em 21 desse mês em Setúbal, cerimónia presenciada pelos dois amigos, Eça e Ramalho, que integraram a comitiva vinda de Lisboa.

O texto (que, em 1889, foi integrado no volume 9 de As Farpas, dedicado ao “Movimento literário e artístico”), devido a Ramalho Ortigão, é contundente, pois aproveita o facto de o Marquês de Ávila e Bolama ter presidido à cerimónia para o criticar, na sequência de várias acções ligadas à sua governação. Chega Ramalho a admitir que a presença desta personalidade na presidência da cerimónia era o contrário do que Bocage mereceria - na memória estava ainda a proibição da manifestação cultural que foram as Conferências Democráticas do Casino, ocorrida em finais de Junho de 1871, assinada por Ávila e Bolama, acto entendido como de censura, contrariando o espírito livre do poeta sadino - “Bocage é a contestação acerba e crua de todos os títulos que concorrem no sr. Marquês de Ávila e Bolama”, escrevia Ramalho, que também felicitava Setúbal pela iniciativa - “Setúbal levantou uma estátua ao poeta Bocage, pelo que se nos não oferece senão fazer os nossos cumprimentos a Setúbal” -, embora lamente também que, em vida, Bocage não tenha recebido da sua cidade “um ceitil para o livrar da penúria”.

A imagem do “arrependimento” que a terra-natal de Bocage possa ter tido ao pagar-lhe a celebridade com uma estátua serve a Ramalho para estabelecer o paralelismo com o papel de Ávila ao presidir às cerimónias desse 21 de Dezembro - “Setúbal, levantando uma estátua a Bocage, testemunha o seu remorso pelo que deixou de fazer. O Sr. Marquês de Ávila, inaugurando essa estátua, declara o seu arrependimento por aquilo que tem feito.” E, ironia das ironias: “Àquela cidade e àquele cidadão, os nossos parabéns!” Não se podia falar melhor do aproveitamento político da inauguração de uma estátua!...

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 754, 2021-12-15, pg. 7