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quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Viriato Soromenho-Marques: Entre a normalidade e a salvação do planeta



Vale a pena ler a entrevista que Sílvia Júlio fez a Viriato Soromenho-Marques, publicada na edição do jornal Tempo Livre (nº 25, 2020-09, pp. 12-13), editado pelo INATEL (e disponível no seu "site", em acesso livre). Intitulada "Nós somos hóspedes do tempo", a entrevista incide sobre o actual momento, dominado pela pandemia, e o encontro de uma "normalidade" que seja consentânea com o planeta.

Entrevista de linguagem acessível, directa, quase como se estivéssemos a assistir a uma conferência ou aula sobre ética, com recurso a vários pensadores e tirando da História o que podem ser exemplos para o nosso 'saber estar', a conversa aborda a principal questão da nossa actualidade e da nossa preocupação de forma a envolver cada leitor na responsabilidade máxima. Uma leitura que se impõe.

 

Fica o registo de três momentos:

Normalidade - “Não estamos permanentemente preparados para o trágico, ou seja, para a possibilidade de acontecerem coisas terríveis - como acontecem. Temos de amaciar essa aspereza trágica da realidade, construindo a tal ‘normalidade’ (...) uma ficção, uma construção que fazemos para tornar a nossa vida mais suportável e menos angustiada. No fundo, é dar um padrão de certeza que, de facto, a vida não tem.”

Viver - “Os seres humanos não são donos do mundo, não são donos do tempo, não são donos do futuro. Nós somos hóspedes do tempo. A melhor forma de vivermos no tempo é percebermos as nossas limitações, porque nem os reis conseguem desfiar o destino. (...) Temos de aprender a viver aceitando a nossa falta de controle sobre a nossa própria vida. (...) O melhor sentido da vida que podemos retirar daqui é viver com autenticidade, intensidade e verdade o tempo que nos é dado viver.”

Técnica - “A nossa civilização já não acredita na ética, acredita na técnica. Como não queremos mudar o nosso comportamento, queremos mudar a forma como controlamos a realidade. E como é que fazemos isso? Com a tecnologia. E o mercado é a máquina de fazer tecnologia. Inventámos o mercado com as características modernas.”

Planeta (salvar o) - “Neste momento, o principal problema é salvar o palco da História: o planeta. Este é único - não conhecemos outro, nem no sistema solar, nem na galáxia. Tivemos uma sorte da qual não estamos a ser dignos. (...) Um dos grandes males que nos aconteceu foi a arrogância do controle, a arrogância do saber, a arrogância de que nós resolvemos tudo. Não podemos substituir a arrogância de um optimismo idiota por arrogância de um pessimismo sem esperança. Temos de ter um optimismo crítico, um optimismo activo, um optimismo transformador, um optimismo voluntarista. Temos de acreditar no futuro através de actos que acompanhem e realizem as palavras.”

terça-feira, 3 de abril de 2018

Rui Canas Gaspar conta as histórias da várzea sadi(n)a



“Esta será provavelmente a última oportunidade que teremos para salvar o pouco que ainda resta da várzea de Setúbal, ou seja, dar o devido uso aos terrenos ainda livres de betão. (...) Trata-se de terra agrícola onde, em tempos passados, existiram lindas e produtivas quintas e que presentemente se encontra parcialmente ocupada por edifícios habitacionais, de comércio ou serviços. É aqui que agora se pretende construir o maior parque verde sadino, como se de uma última e necessária fronteira entre o passado e o futuro se tratasse.” Estas são as frases iniciais do mais recente livro de Rui Canas Gaspar, A Última Fronteira - Várzea de Setúbal (Setúbal: ed. Autor, 2018), que, no sábado, vai ter apresentação pública na Biblioteca Municipal de Setúbal.
Pelas suas cerca de duas centenas e meia de páginas passa um texto introdutório assinado por Carlos Frescata, que relembra a sua intervenção em prol do ambiente em Setúbal e o papel que a sua geração teve em torno do movimento “Setúbal Verde”, e passam crónicas repletas de histórias e de memórias da várzea setubalense, que foi povoada por quintas, experiências e vidas agrícolas, um espaço a fazer a ligação entre a Setúbal à beira-rio e próxima do mar e a Palmela mais vocacionada para a agricultura.
Aquilo a que hoje se vai chamando “várzea” é apenas uma parte do que ela na verdade foi. Mas o crescimento da cidade foi implacável com esse território ao longo dos tempos, desde a instalação do liceu e da escola básica de 3º ciclo, dos espaços desportivos, das habitações, dos estabelecimentos comerciais, até às faixas rodoviárias. As quintas que alimentaram e sustiveram a várzea são hoje nomes de referência histórica que preenchem memórias. Neste livro, Canas Gaspar leva-nos a visitar algumas dessas quintas (da Azeda, da Azedinha, da Boa Esperança, da Inveja, da Môca, das Palmeiras, do Paraíso, de Prostes, do Quadrado, da Restaurada, da Saudade, da Varzinha); evoca histórias como as do Palácio dos Aciprestes, da tragédia do dono da Quinta do Paraíso numa escaramuça entre liberais e absolutistas, do corte de passagem junto à azinhaga de São Joaquim levado a efeito por jovens da Quercus; relembra personagens como o chefe escutista Joaquim Farinha (que chegou a encontrar-se com o astronauta Neil Armstrong) ou como Joaquim, “o último pastor da várzea”; chama traços caracterizadores de Setúbal como a produção de laranja e os respectivos licor e doce, como as memórias ligadas à ribeira do Livramento (é, aliás, este curso de água que constitui importante pista para uma visita à várzea e às suas histórias).
No final do livro, Canas Gaspar refere ainda o que é o projecto para o futuro da várzea, um Parque Urbano em que é apontada a área de 400 mil metros quadrados, que, “para além de parque lúdico, deverá ter a importante função de defesa da cidade contra o risco de inundação” e constituirá um espaço recreativo e ambiental de elevada importância. Ainda que este projecto venha pôr fim à várzea enquanto espaço agrícola, Canas Gaspar conclui com optimismo que “a necessária e urgente obra só por si será uma lufada de ar fresco e puro, constituindo certamente a última fronteira entre o tentacular betão que paulatinamente tem vindo a impermeabilizar os solos e o verdejante campo que envolve esta linda cidade localizada estrategicamente entre o verde e o azul, uma terra que cada vez mais pessoas escolhem para viver.”
A Última Fronteira - Várzea de Setúbalé um livro que se lê com agrado, ao ritmo da crónica, apontando como máxima pretensão uma viagem pela identidade através de uma viagem no tempo e também a consciência que todos devemos ter quanto ao papel que a Natureza para si reivindica e que passa pelas condições para que a vida seja mais equilibrada.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Para a agenda: Francisco Ferreira e as ameaças sobre o planeta



Um olhar sobre o futuro ou sobre o que ensombra esse futuro. "Um planeta ameaçado!" é o título da palestra de Francisco Ferreira, setubalense, militante e dirigente da causa ambiental, que acontecerá em 17 de Março, pelas 21h30, no Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal. Mais uma sessão "Sextas - Arte e Ciência" com o selo Synapsis. Para a agenda!

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Tróia e a subida do nível do mar



O testemunho de Tróia na subida do nível do mar nas páginas do Público de hoje (13.Dez.2016, pg. 26).

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"Laudato Si'", a encíclica do Papa Francisco sobre a "casa comum" que temos



Em 24 de Maio, o Papa Francisco dava em Roma a sua segunda carta encíclica, Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum (Lisboa: Paulus Editora, 2015), conjunto de seis capítulos e quase duas centenas e meia de parágrafos em que a ecologia e o futuro são tónicas e em que o apelo à política e a cada um pontuam.
O retrato que o Papa traça do mundo quanto ao ambiente que caracteriza a “casa comum” não é novo, todos o temos visto, todos o pensamos. Mas, ao trazer para título da sua carta uma frase da oração de Francisco de Assis («laudato si’», «louvado sejas»), a figura mais ecológica de todos os tempos, e ao dizer que pretende com esta encíclica “entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (perspectiva que cumpre ao citar pensadores de outras religiões, por exemplo), Francisco aponta para a responsabilidade que todos teremos na “desfiguração e destruição do ambiente”.
O ponto de partida é forte: “A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo.” Depois, é a passagem por áreas sensíveis para a temática do ambiente – o clima, a água, a biodiversidade, os recursos naturais – até à verificação de que a qualidade de vida humana surge fortemente deteriorada, acentuada pela degradação social, uma visão que pretende chamar a atenção para os decisores (e para todos) em prol de um mundo e de uma vida que possa ser mais justa, sem que tenham de existir os “descartados da sociedade”, porque a casa é de todos. Neste ponto, Francisco é incisivo, porquanto assume um ponto de vista crítico quanto às práticas com os mais fracos – “Muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afectam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do Planeta, milhares de milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates políticos e económicos internacionais, mas com frequência parece que os seus problemas se colocam como um apêndice, como uma questão que se acrescenta quase por obrigação ou perifericamente, quando não são considerados meros danos colaterais.”
Francisco opta sempre pela chamada de atenção para o sentir destes outros, quase levando cada leitor a pôr-se na pele deles e a entender do mundo do seu ponto de vista. Talvez o mais importante alerta surja quando diz: “É preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença.” Forte, esta ideia da “globalização da indiferença” que a todos apanha na onda da globalização que nos avassala!
É imbuído do espírito franciscano que o Papa fala do “gemidos da irmã Terra”, aliados aos “gemidos dos abandonados do mundo”, para assinalar aquela que é uma marca deste tempo – “Nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos.” Inevitável é o salto para a definição do que é também a falta grave de hoje – “o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza.”
O discurso papal vai sendo cadenciado por termos que o asseguram como um contributo para a discussão, de tal forma é vasta a lista de referências presente – desde documentos da Igreja oriundos de todos os continentes (incluindo uma referência a Portugal devida à carta pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum”, da Conferência Episcopal Portuguesa, de Setembro de 2003) a citações de clássicos (Dante, por exemplo), de invocações dos seus antecessores até à presença de pensadores contemporâneos (Ricoeur, Chardin ou Guardini, entre outros) – ou de tal forma é a apresentação feita através de “propostas” (insistindo na ideia de “proposta”) para uma discussão maior.
O mais importante dessas propostas papais acentua-se a partir do capítulo IV, em que se fala de uma “ecologia integral”, depois de nos anteriores capítulos ter sido feito um retrato do mundo, em muito dominado pela crise do antropocentrismo contemporâneo. Percebe-se a ideia logo que é dito ser fundamental “buscar soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais”, porque “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental.” Ecologia económica, ecologia cultural, ecologia do quotidiano – todas como responsabilidade de todos, porque “somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder”.
No plano das propostas de linhas de acção, o Papa Francisco insiste no diálogo, passando pela política internacional, pela busca de novas políticas nacionais e locais, pela transparência nos processos de decisão, pelo encontro entre as religiões e as ciências. Nesta insistência no diálogo, há ideias que nos fazem pensar: “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana.” Outra: “A maior parte dos habitantes do Planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a estabelecerem diálogo entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade.”
O último capítulo envereda pela área da “educação e espiritualidade ecológicas”, propondo a construção de uma aliança com o ambiente, de um outro estilo de vida, de uma postura de responsabilidade ambiental, de uma necessária paz interior, de uma atenção aos outros, coordenadas indispensáveis para a felicidade na Terra. E não é sem um sentido autocrítico que, a finalizar, o Papa classifica esta sua carta como uma “longa reflexão, jubilosa e ao mesmo tempo dramática”. Um texto que gira em torno de uma ideia de liberdade e de felicidade para o ser humano e da responsabilidade que cada um tem na construção desse trajecto, que se lê como parte de uma conversa e que, pela sua actualidade e proximidade, apela aos leitores, quase se sentindo necessidade de sublinhar um e todos os parágrafos, tão incisivos eles são!

Sublinhados
Identidade – “Quem cresceu no meio de montes, quem na infância se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava numa praça do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a recuperar a sua própria identidade.”
Crueldade – “A indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos.”
Limite – “Cada época tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limites.”
Homem e Natureza – “Sempre se verificou a intervenção do ser humano sobre a natureza, mas durante muito tempo teve a característica de acompanhar, secundar as possibilidades oferecidas pelas próprias coisas; tratava-se de receber o que a realidade natural por si permitia, como que estendendo a mão. Mas, agora, o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente. Por isso, o ser humano e as coisas deixaram de se dar amigavelmente a mão, tornando-se contendentes.”
Trabalho – “Somos chamados ao trabalho desde a nossa criação. Não se deve procurar que o progresso tecnológico substitua cada vez mais o trabalho humano: procedendo assim, a humanidade prejudicar-se-ia a si mesma. O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal.”
Ética e Técnica – “Quando a técnica ignora os grandes princípios éticos, acaba por considerar legítima qualquer prática.”
Consumo – “Quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir.”
Simplicidade – “As pessoas que saboreiam e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar-se com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas.”

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para a agenda - Ambiente e comportamento humano por José Palma Oliveira


O homem e o ambiente - uma relação para (des)agradar? José Palma falará sobre o assunto no MAEDS, na sexta-feira, 15. O título da palestra alicia: "História do ambiente e comportamento humano: a (in)evitável destruição?" Uma pergunta para todos nós. Para a agenda!

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dina Barco: "Diário de Sara, a Verde"


“Mãe, tens muitos diários cá em casa?”, quis saber Sara, um dia. Pensando nos seus diários da juventude, a mãe confessou que já os destruíra, mas a adolescente logo corrigiu a pontaria – “Não é desses que estou a falar. Quero saber de diários como o de Anne Frank e o outro que andaste a ler!” E a mãe procedeu a rápido inventário do que podia ser encontrado nas estantes lá de casa: Miguel Torga, Sebastião da Gama, José Saramago. Mais tarde, nessa sexta-feira, Sara registaria: “Pelos vistos, a moda dos diários-livros não é coisa recente. Não sei se foi a Anne Frank que começou, embora involuntariamente, coitada, porque duvido que isso a preocupasse enquanto vivia escondida dos nazis. O certo é que, uns anos mais tarde, no meio de outra guerra, a Anne serviu de inspiração à Zlata Filipovic. Depois apareceram a Joana (da Lua), a Sofia (& Cª) e uma tal Bridget Jones (…) Agora há diários para todos os gostos: cruzados, secretos, de bananas, de totós, de vampiros…” E logo veio a decisão da jovem: “Mesmo assim, resolvi experimentar a receita para ver se acabo com as crises financeiras cá de casa. Se os outros escrevem, porque não eu, que até tenho sempre boas notas a Português?”
Está encontrado o pretexto para este Diário de Sara, a Verde, de Dina Barco (Ilustr.: Raquel Barco. Setúbal: ed. Autor, 2011), volume de oitenta páginas, corrido no tempo de um ano escolar, entre o primeiro de Setembro e o 25 de Junho. O género é a forma de escrita diarística juvenil sobre uma história ficcionada e os modelos são vários, como referido acima.
De leitura bastante acessível, transmitindo os sentires de Sara, uma jovem do 6º ano, que vive com a mãe, na cidade do Sado, neste Diário vai a protagonista partilhando com o leitor as preocupações da idade – as amizades, os amores, as zangas, a cumplicidade com a mãe, a escola, o espírito de grupo, a família, as descobertas, a ausência do pai, a identidade…
Por este caminho passam, sobretudo, as aprendizagens e os olhares de uma adolescente atenta à vida – sobre a amizade (“Sabe tão bem fazermos os outros felizes!”), sobre as dificuldades dos outros (ao saber a história de Fábio, desabafa: “deve ser horrível andar a viver daquela maneira, empurrado duns sítios para os outros, sem um único adulto em condições que se preocupe com ele… Como é que eu seria se tivesse uma vida assim?”), sobre os rapazes (“Parece que nem vives neste mundo. Então não sabes que quando os rapazes coram é porque estão apaixonados?”, ensinou-lhe a Inês), sobre o apoio da mãe (“Não ganha muito e portanto também não podemos ter luxos, mas eu não trocava a minha vida por nada! Damo-nos bem, divertimo-nos juntas, fazemos programas interessantes… Ela não sabe, mas é a pessoa que eu mais admiro no mundo.”), sobre os efeitos da paixão (“quando aparecem paixões pelo meio é normal que as amizades se ressintam um pouco”), sobre o primeiro beijo (“depois os lábios dele tocaram os meus e senti uma onda de calor que me deixou literalmente a flutuar”), sobre o sentido das aprendizagens (“já percebi que dentro e fora da escola a vida é assim mesmo, feita de mudanças que nos estão sempre a pôr à prova e a fazer aprender mais qualquer coisa”). E passam também as preocupações sociais (o custo de vida, a solidariedade, a amizade, as cautelas no uso da net, cuidados ambientais), as imagens sadinas (Arrábida, Teatro Animação de Setúbal, Coral Luísa Todi, Coral Infantil de Setúbal, Vitória Futebol Club, Parque Urbano de Albarquel, Museu Oceanográfico, Lapa de Santa Margarida, José Afonso, Casa da Baía), a pedagogia sobre a saúde (alimentação).
Quanto ao cognome “a Verde”, Sara adquiriu-o graças a um projecto que desenvolveu na escola, assumindo uma perspectiva crítica quanto às práticas pouco amigas do ambiente levadas a cabo no meio escolar. A sua forma de afirmação, o seu espírito crítico e a sua convicção granjearam-lhe simpatias e constituíram mesmo um passo determinante para o encontro com o rapaz de quem gostava, assinalando um momento de tal crescimento que, num registo de Junho, a levará a escrever: “Faltam só duas semanas para vermos terminado o ano lectivo mais feliz da minha vida!”
O final do livro é de encontros: apaixonada, Sara consegue reconhecer que a mãe estava perante o mesmo sentimento. E, perante as dúvidas de como poderia ser a sua relação com o namorado da mãe e com a filha dele, a Sara revela-se ainda um outro segredo que lhe traz alegria: o destino das duas jovens já se tinha cruzado, ainda que nenhuma delas o soubesse.
Diário de Sara, a Verde é livro de leitura fácil, que pode suscitar diálogos e momentos de escrita. Não sabe o leitor se Sara deu cumprimento à última promessa que deixou exarada na derradeira página do diário – perante o entusiasmo da descoberta final, que Sara conta já tarde, “cansada e com muito sono”, conclui o texto, dizendo: “Agora vou dormir. Feliz. O resto fica para depois.” Se o “resto” for a continuação do trajecto de Sara, pode ser que, um dia, o leitor se cruze com ele… Não se perderia nada, tanto vale a pena haver retratos de jovens felizes com as suas descobertas!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Golfinhos do Sado vistos e apresentados por Pedro Narra e Maria João Fonseca

“Nos últimos dez anos, acompanhámos de perto a vida dos golfinhos do Sado. Conhecê-los individualmente, observar os seus comportamentos, testemunhar o nascimento das suas crias e até mesmo o desaparecimento e a morte de alguns indivíduos é um reconhecido privilégio ao qual dedicamos o nosso empenho.” Este é o teor do primeiro parágrafo do capítulo conclusivo da obra Golfinhos do Sado (com texto bilingue, em português e em inglês), assinado por Pedro Narra e Maria João Fonseca (Setúbal: 2009, com tradução de Mark Mollet), obra que teve o apoio de duas empresas ligadas ao turismo e de Vertigem Azul, empresa dedicada à observação de golfinhos no Sado criada há pouco mais de uma década pelos autores.
O parágrafo transcrito diz bem sobre o que é este livro: um acto de testemunho e de afecto com uma comunidade animal que tem sido acompanhada nos últimos anos; um acto de civismo e didáctico, que sensibiliza para a preservação e para a forma humana de ver os golfinhos; um acto estético, em que as fotos que povoam o livro nos deixam enlevados numa sinfonia azul, de vida e de graça. Com razão escreve Viriato Soromenho-Marques em texto introdutório a este livro definindo-o como “comovente e belo acto de amor e reconciliação”, explicando: “Uma aposta no verdadeiro perdão que é aquele que se traduz nos actos que comprometem o futuro.”
Logo no início, os autores apelam às suas recordações de infância, momentos em que viam os golfinhos saltando no Sado. E deixam de imediato o recado: “Que este livro sirva como um apelo à preservação deste estuário e que no futuro seja um testemunho de maus tempos que o esforço e o empenho conseguiram ultrapassar.”
Depois, ao leitor cabe ir descobrindo muitas coisas sobre os roazes e o seu habitat – desde a caracterização do estuário do Sado até às histórias de golfinhos, passando pela caracterização individual dos que integram a colónia sadina, chamando a atenção para os cuidados, dando pistas sobre as formas de vida, num quase registo do quotidiano da vida dos golfinhos, onde nem faltam os rituais do amor, da sobrevivência, da brincadeira ou da morte. E é interessante verificar esse deslumbramento dos autores, quer pela sensibilidade posta nas fotografias, quer pela mensagem escrita que registam, tal como acontece quando convidam o leitor (e o visitante) para a delicadeza no acto de ver estes amigos do Sado: “A observação destes animais no seu habitat natural é um privilégio, ao qual se deve corresponder com respeito e, sobretudo, com o máximo cuidado para que, mesmo involuntariamente, não se acabe por prejudicar o seu bem-estar.”
As fotografias são fortes, mas, mesmo assim, no final, cada uma delas surge em miniatura, legendada, podendo o leitor ser desperto para novas leituras depois de, em silêncio, ter visto todo o livro (já que, ao longo do volume, a escrita aparece apenas para introduzir temas, deixando que as imagens fotográficas constituam o texto essencial). E, mesmo nestas pequenas legendas, a sensibilização para a protecção e para a felicidade de se poder admirar estes fragmentos de vida é loquaz.
Um livro a ver. A ler. A usar. Oxalá ele nunca venha a ser a memória de um tempo que se perdeu!

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Sobre dinheiro para os partidos, multas por poluição e touros de Salvaterra

«As emendas à lei de financiamento dos partidos, cozinhadas quase em segredo por todos os partidos e aprovadas também por todos, são o retrato fiel da hipocrisia reinante.
(...) Porque depositar tais quantias de dinheiro não se justifica no tempo dos cheques e das transferências interbancárias, a não ser quando se pretende esconder a origem das notas. O "dinheiro vivo", ao contrário das outras formas de pagamento, não deixa rasto.
É certo que a memória do povo é curta, mas a dos deputados não devia ser e a dos jornalistas tem obrigação de não ser. Por isso há sempre uma campainha de alarme que toca na cabeça de quem se preocupa com a lisura de processos quando se fala em "dinheiro vivo". (…) Há sempre muitas formas de ocultar a origem do "dinheiro vivo". (…) Fui dos poucos a assistir a uma das audiências de um processo em que era réu por causa das notícias que este jornal deu sobre a Câmara de Felgueiras e que ouviu uma das testemunhas dizer, com a maior das naturalidades, que costumava receber os donativos para o PS local em maços de notas embrulhadas em papel de jornal que lhe entregavam no átrio dos Paços do Concelho. Mesmo assim é incompreensível, é mesmo vergonhoso, a forma como, de forma dissimulada, sem discussão que se visse, com quase tudo a ser resolvido em reuniões fechadas à imprensa, a Assembleia da República aprovou ontem a revisão do diploma sobre o financiamento dos partidos em termos tais que não só escancara as portas à corrupção, como cria inúmeros alçapões por onde podem escapar-se os que estiverem dispostos a abusar das regras. Não se compreende que o limite ao financiamento em "dinheiro vivo" num dos países do mundo com uma melhor rede de terminais multibanco tenha sido aumentado 55 vezes. Não se compreende igualmente o alargamento às campanhas não presidenciais da possibilidade de donativos individuais, um mecanismo que permite receber grossas maquias e depois "doá-las" ao partido através de redes de militantes arregimentadas por um qualquer cacique. Isto só para dar dois exemplos mais gritantes.As alterações são chocantes e representam um insulto aos cidadãos eleitores por permitirem que os partidos gastem muito mais em campanha em tempos de crise económica, como mostra a hipocrisia dos falsos moralistas, aqui com destaque para os campeões do comportamento angelical, o Bloco de Esquerda. É fantástico e revelador como, num momento como este, todos estão pateticamente de acordo e não entendem que possibilitar o regresso do tempo das "malas das notas" representa um tremendo retrocesso no que diz respeito à transparência das campanhas eleitorais e do financiamento dos partidos. Mas é também assim que se compreende como nunca foi possível fazer uma lei contra o enriquecimento ilícito. O resto são basófias.
Duas notas mais. Irresistíveis.
Diminuir o valor das multas que as empresas poluidoras têm de pagar invocando as dificuldades das pequenas e médias empresas é criminoso. Quem prevarica tem de continuar a pagar as multas que merece, que já nem eram elevadas. Porquê? Porque perdoar a quem prevarica é distorcer a concorrência e beneficiar as más pequenas e médias empresas que ficam em condições de fazer mais concorrência às que cumprem a lei. Para além de que, antes de abdicar da prevenção do ambiente, há dezenas de outras medidas que aliviaram os problemas de tesouraria do nosso tecido industrial. Mas ao optar por sacrificar o ambiente o nosso primeiro-ministro mostra como é diáfana a sua costela de ambientalista. Já não lhe bastavam os famosos PIN...
Em nome da coerência, o Bloco de Esquerda deverá apresentar em breve no único concelho onde elegeu um presidente da câmara, o de Salvaterra de Magos, uma proposta idêntica à que fez aprovar no concelho de Sintra, onde as touradas passaram a ser proibidas. Se não o fizer, volta a provar que, como aconteceu com a votação da lei de financiamento dos partidos, uma coisa são as suas lições de moral e outra a sua real prática. É pois necessário que Louçã diga rapidamente se vai ou não pregar contra o sofrimento dos touros para Salvaterra de Magos. Temos uma data para lhe sugerir: domingo 10 de Maio, altura da Festa do Melão, que terá como ponto alto o toureio de, citamos, "6 terroríficos touros 6" da "mais antiga ganadaria de Portugal". Era de homem.»
José Manuel Fernandes. "O regresso ao tempo das malas cheias de notas". Público: 01.Maio.2009.

sábado, 3 de maio de 2008

Viriato Soromenho-Marques e a sustentabilidade

Viriato Soromenho-Marques, setubalense, de quem sairá ainda neste mês a obra O regresso da América – Que futuro depois do Império? (Lisboa: Esfera do Caos), tem espaço marcado em curta entrevista no Expresso de hoje a propósito do balanço do Conselho Nacional do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, promovido pela Fundação Calouste Gulbenkian. O retrato que Soromenho-Marques traça da sustentabilidade em Portugal não nos favorece, como deixam ver os excertos.
Planear –O grande problema da sustentabilidade é o planear e executar a longo prazo, o que significa a nossa capacidade para aproveitar bem a energia, as matérias-primas, produzir a menor quantidade possível de resíduos, promover a equidade e a justiça social. No nosso país, com algumas excepções positivas, continuamos a ter da sustentabilidade uma visão onde o longo prazo perde a favor das vantagens comparativas de curto prazo. (…)”
Transportes –Embora tenhamos uma Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável e um discurso oficial sólido e coerente nos compromissos internacionais em matéria de alterações climáticas, (…) continuamos a ter uma política nos transportes que vai no sentido inverso. O nosso plano rodoviário continua a privilegiar as auto-estradas, a prevista terceira travessia do Tejo tem uma valência rodoviária e ferroviária e já se fala na possibilidade de a ferrovia só entrar em funcionamento numa segunda fase, quando deveria ser o contrário. O argumento é muito simples: o comboio não paga portagens. (…)”
Turismo – “(…) O turismo é um sector económico estratégico e uma das razões por que Portugal é visitável é justamente pela sua grande beleza natural (…). Não me parece muito sensato estarmos a construir grandes infra-estruturas turísticas em zonas que pertencem à Rede Natura ou mesmo a parques e áreas protegidas. (…) Alguns investimentos que estão a ser feitos hoje poderão revelar-se no futuro como não sustentáveis.