quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Eugénio Fonseca, o último livro

 




Eugénio Fonseca (1957-2026) deixou-nos quando estava prestes a assumir o cargo de responsável pela Fundação D. Manuel Martins, instituição dedicada ao legado do primeiro prelado sadino (1975-1998), com quem estabeleceu uma forte ligação de amizade e de testemunho.

Presença assídua na imprensa, impulsionador e dirigente de diversas instituições ligadas à supressão da pobreza, Eugénio Fonseca assinou obras como A Acção Caritativa da Igreja: Elementos de Reflexão Teológica e Pastoral a partir do Contexto Português (2011), Estende a tua Mão ao Pobre (2020), Jesus Representa todos os Pobres (2021) e Jesus Cristo Fez-se Pobre por Nós (2022); prefaciou outras, como Quando o Excluído se Torna o Eleito: Vida Partilhada com os Sem-Abrigo (2004, de Michel Collard e Colette Gambiez), Jesus antes do Cristianismo (2010, de Albert Nolan) e Voluntariado Católico com Misericórdia (2016, de Aires Gameiro); foi ainda organizador de Sinodalidade e as Ressonâncias de ‘Fratelli Tutti’ (2023). Mas, inevitável na sua bibliografia, seria a abordagem da obra e da mensagem de D. Manuel Martins (1927-2017), presente em Testemunho de Duas Vidas Compartilhadas (2020) e, na última obra que organizou (e publicou), recolhendo 98 testemunhos, Cinquentenário da Ordenação Episcopal de D. Manuel Martins (2025), inicialmente pensada para ser uma publicação digital, que se deveria manter “em contínuo crescimento”, mas que viria a ser impressa depois da quantidade de pedidos de leitores.

Por essa quase centena de depoimentos passam homens e mulheres, políticos e dirigentes, membros do clero e de ordens religiosas (masculinas e femininas), leigos e muitos setubalenses, desfilando memórias intensas (na maior parte dos casos) e assumindo a intervenção e postura de D. Manuel Martins como exemplo e inspiração. Ao coordenar esta obra, Eugénio Fonseca possibilitou, no cinquentenário da criação da diocese, “recordar aos que o conheceram e aos que não a pessoa que ele foi e as marcas que deixou pela defesa da dignidade humana de todos, mas, preferencialmente, dos que a tinham amachucada por causa de injustiças de variada natureza”. Mas a intenção do organizador assumiu também uma marca pessoal de reconhecimento, como fica patente na introdução ao livro - “entre mim e D. Manuel havia uma cumplicidade muito grande, pois também ele me ajudou a compreender melhor o Evangelho e a tentar viver em conformidade com as suas exigências.”

Entre aqueles que acederam ao convite para testemunhar, podemos lembrar Fernando Paiva (actual bispo de Beja), que relembra D. Manuel Martins desde a altura em que por ele foi crismado, passando pelos tempos do seminário (onde descobriu a afabilidade, a atenção, a cordialidade, o espírito conversador e o tom humorístico de D. Manuel), e relembrando o episódio de uma visita que lhe fez na Maia: “Referindo-se à proximidade do fim dos seus dias, e expressando o desejo de se encontrar com o Senhor, a quem sempre serviu com generosidade ao longo da vida, ele dizia, com um sorriso sereno e uma fé luminosa: ‘Estou mortinho por ver como vai ser.’” Outro testemunho, o de António Alves Fernandes, relembra que, sendo um bispo conhecedor dos pobres, D. Manuel “chegou a indicar a um político a morada de muitos pobres e suas famílias”. Destacarei ainda alguns mais, sabendo que as opções de escolha poderiam ser outras: Bruno de Santa Maria, o autor do mais extenso depoimento, relembra vários episódios e ligações ao bispo, recordando que aprendeu com ele “a ter unidade de vida, lidando simultaneamente com os bens mais espirituais e com os bens mais materiais e burocráticos da vida diocesana”; Conceição Lopes, filha da conhecida figura que foi João Sacristão, destaca a proximidade entre D. Manuel e seu pai, ambos compartilhando “inquietações, dores e soluções”, num tempo difícil de fome, de falta de trabalho, de exploração e de famílias “vivendo em barracas”; Clemência Funenga, professora e directora da Escola D. Manuel Martins, recorda a mensagem que o bispo lhe fez chegar depois de ler o Projecto Educativo de Escola para o ciclo 2003/2006, texto atento sobre o papel da escola e a importância da educação — “A Escola é exigência, espaço e exemplo de Democracia, isto é, de Cidadania. Sem uma Escola assim, preparamos uma sociedade sem futuro, uma sociedade perigosamente comprometida”; Constantino Alves, padre e operário, recua até ao tempo em que foi aluno de D. Manuel e passa pelos momentos em que por ele foi ordenado ou em que, de fato-macaco, ia falar com o seu bispo sobre o encerramento de empresas e suas consequências, traçando a imagem de uma pessoa cujo “coração batia forte” e que “recebia e acolhia, dialogava com trabalhadores e empresários, sindicatos, comissões de trabalhadores, administrações de empresas e responsáveis do poder político local e central”, sempre visando promover “gestos e dispositivos solidários com os pobres e vítimas da crise económica, financeira e social”; Maria Dulce Rocha, que presidiu ao Instituto de Apoio à Criança, chama a atenção para a “sensibilidade especial e coerência rara”, com “o desejo de solucionar, que mostra exigência e rigor”, presentes em D. Manuel.

Muitos mais testemunhos poderiam ser destacados, pelas suas peculiaridades e indicações. Em todos perpassam a coerência e a proximidade, a abertura e a vontade de acabar com as desigualdades. Entre as citações feitas de D. Manuel, a que mais vezes é mencionada é a que foi proferida aquando da sua entrada para prelado: “Nasci bispo em Setúbal. Agora sou de Setúbal. Aqui anunciarei o Evangelho da libertação, da justiça e do amor.” O trabalho que Eugénio Fonseca nos legou, organizando este conjunto de testemunhos, é notável, sobretudo por aquilo que poderia partir daqui para ser um conjunto de princípios inspiradores de um bispo próximo, preocupado, atento e empenhado. Na dedicatória que lavrou no exemplar que adquiri, Eugénio Fonseca termina-a, desejando que, “sempre por causas, mantenhamos vivo o legado de D. Manuel.” Uma boa maneira de homenagear os dois, por certo, num desafio lançado para todos, neste que foi o último livro que Eugénio Fonseca publicou...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1815, 2026-08-26, pg. 2.


domingo, 2 de agosto de 2026

Entre livros e leituras

 


“Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” Assim escrevia José Régio (1901-1969), em 10 Abril de 1923, em Vila do Conde, no seu diário (em Páginas do Diário Íntimo, 1994). Este registo surgia no final do dia, que fora chuvoso, no espaço de pensamento e de refúgio, abrindo portas ao diálogo com os livros, com as memórias do lido ou com a antecipação das leituras.

Uma quase conversa com a biblioteca, pois, que deixava de ser o alinhamento e a ordem para ser o turbilhão das ideias! Uma angústia ou um prazer, no jogo com o acervo em que se alojam histórias, pensamentos, saberes, desejos e memórias! Uma visão quase contrária àquela que Rita Ferro (n. 1955) revelou em Veneza pode esperar (2014), também um diário, quando disse, quanto aos livros, que “podemos ler muitos, mas para nossa tortura só parecem contar os que não lemos.”

E vem à ideia a pergunta clássica que salta de quem chega perante a biblioteca, assente nas estantes, nos móveis e pelo chão: “Estes livros já foram todos lidos?” A melhor resposta que conheço foi dada por Afonso Cruz (n. 1971), no primeiro volume de O vício dos livros (2021): “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.”

A importância do leitor é fundamental para que o livro se realize, é verdade, apesar de o leitor, como os livros, não ter prazo. Perante um livro, está-se sempre à espera de que ele seja aberto, folheado, visto, lido, sob pena de não ter vida. Escreveu Massimo Recalcati (n. 1959), em A libro aperto (2018), que “um livro fechado é, na verdade, um contrassenso: não é um livro. Como o mar, o livro é uma imagem extraordinária do ‘aberto’. Abre o mundo em vez de o fechar. Um livro é um mar e não um muro.”

É essa abertura do livro que nos permite viver outros tempos, noutros lugares ou diferentes histórias, uma verdade que Yu Hua (n. 1960) bem explicou em China em dez palavras (2018): “Se existe na literatura alguma força mística, penso que será esta — a possibilidade de encontrar numa obra de um escritor de outra época, de outro país, de outra língua e cultura, experiências que nos pertencem.”

Ruben A. (1920-1975), com o seu conhecido sentido de humor, registou no sexto volume de Páginas (1970) um conselho interessante, com o seu quê de ironia e de crítica: “Cada médico, ao visitar um doente, receitava-lhe uma dose de literatura. O doente, ou morria, ou ficava sarado. Mais: enquanto se lê não há tempo para maldades, a existência humana pode não melhorar com a receita de leituras, mas de certeza que não piora, o que já é notável.”

Obviamente, a leitura (ou o livro) não tem lugar nas prescrições médicas. Mas as suas vantagens têm sido divulgadas por muitos dos seus praticantes — Fernando Pessoa (1888-1935), através do heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego (1982), explicou que “há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua (...), imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher (...), frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana”; Resendes Ventura (1936-2013) considerou que “um bom momento de leitura tem de ser um momento de felicidade” (em Papel a mais, 2009); Tolentino Mendonça (n. 1965), em O que é amar um país (2020), lembrou que “em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” 

A escolha do leitor nem sempre é clara: às vezes, é para descobrir; noutras, para relembrar; também para encontrar outros sentires; ainda, para saber. O leitor não exige ao livro o remédio para (todos) os males, mas sabe alguma coisa do seu caminho de leitor: “O hábito de ler não faz necessariamente com que sejamos melhores pessoas, mas ensina-nos a observar com o olhar da mente a vastidão do mundo e a imensa variedade de situações e seres que o habitam. As nossas ideias tornam-se mais ágeis e a nossa imaginação, mais luminosa.” Quem o disse foi Irene Vallejo (n. 1979) na obra recentemente publicada entre nós, Manifesto pela leitura.

Afinal, Ruben A. talvez tenha razão na proposta prescritiva...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1810, 2026-07-29, pg. 10.