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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Barack Obama, de novo

Sudarshan Patnaik, indiano, felicita Obama na praia de Puri (Odisha)
[fonte: Expresso]

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Discurso de abertura do ano lectivo

Na aula, falou-se sobre o discurso de abertura do ano lectivo de Barack Obama, de Setembro de 2009. E saltou a pertinência das análises de um 9º ano: “gostei da ideia das segundas oportunidades”; “fala dos nossos deveres de estudantes perante a sociedade e perante os outros”; “compromete-nos”; "foi interessante ter falado da sua experiência como aluno".
Antes de a aula acabar, um perguntou: “porque é que não temos cá um político que nos fale assim?”

sexta-feira, 5 de março de 2010

Mário Soares em entrevista

Foi a primeira de uma dúzia de entrevistas que o Público divulgou hoje. Objectivo? "Reflectir sobre o futuro do país, num mundo em profunda mudança". O primeiro a dizer de sua justiça e de sua sabedoria foi Mário Soares, entrevistado por Teresa de Sousa. Eis algumas das reflexões, postas por ordem alfabética dos temas que não pela ordem sequencial da entrevista.
BLOQUEIOS – "Em primeiro lugar, na Justiça. Sem uma Justiça séria e eficaz não podemos avançar. Depois, é indispensável lutarmos contra as desigualdades sociais, a pobreza, o desemprego, o trabalho precário. E só a seguir importa controlar o défice, diminuir o despesismo, acabar com a impunidade dos corruptos, responsáveis pela situação em que nos encontramos. (…) Temos de encontrar e criar empregos para os jovens. O drama do desemprego juvenil tem a ver com o desespero e a depressão. Temos de perceber que a coesão social pode ser posta em causa. Se não fazemos as reformas sociais, estamos, inconscientemente, a criar revoltas, difíceis de controlar."
CRISE(S) – "Estamos hoje a viver no mundo uma crise do capitalismo financeiro-especulativo, política, social e de civilização. (…) Só se fala de quê? Das crises, das nossas fragilidades, do derrotismo nacional, que entrou em moda. E, obviamente, das escutas ilegais, dos escândalos, das roubalheiras. Mas não se discute como é possível combater tudo isso... (…) Carecemos de princípios éticos estritos e obrigatórios para que um capitalismo diferente, com dimensão social e ambiental, possa sobreviver..."
ESPANHA – "Deveríamos entender-nos a fundo com a Espanha nesse sentido. Fazer da Península Ibérica, cujo papel na história universal não é preciso recordar, um centro de reflexão, de ideias novas - e de iniciativas - para o futuro da Europa, como agente global na cena internacional. Temos boas condições para que as relações entre os dois Estados ibéricos se articulem nesse sentido. Devemos ter políticas europeias convergentes. Temos de pôr a Península Ibérica a falar e a fazer-se ouvir."
EUROPA – "Sou um europeísta convicto, como muito bem sabe. Defendo os Estados Unidos da Europa. Penso que deveríamos estar a avançar nesse sentido. Mas não estamos. Tenho hoje muitas dúvidas acerca do futuro da Europa. Os actuais dirigentes europeus não têm visão de futuro. Não sei se reparou que a maioria deixou de falar de construção europeia, como se a União fosse um projecto acabado. Não é. Ninguém se interessa em saber para onde vamos. Aos líderes europeus interessa manter o statu quo, que é a situação que mais lhes convém para se manterem no poder. Não querem reformas nem querem acreditar que o mundo deixou de ser unilateral, que o Ocidente deixou de ser o que foi. O mundo é hoje multilateral e passou a ser global. (…) O ideal da construção europeia é tão rico, significou um tal avanço para o mundo inteiro, que, a perder-se, seria uma verdadeira tragédia para a humanidade."
JUSTIÇA – "Não é aceitável que os juízes, que tinham antigamente uma distância necessária em relação aos outros cidadãos, que os tornava uma referência, se banalizem, ocupem em força as televisões para ver quem lá vai mais vezes e diz maiores dislates. Só para dar nas vistas. Convencidos de que se prestigiam muito, porque vão ao barbeiro ou ao café e as pessoas conhecem-nos. Viram-nos nas televisões..."
NOTÍCIAS E BANALIZAÇÃO – "Repetir as mesmas notícias, mostrar as mesmas imagens, dizer sempre o mesmo, durante dias seguidos. É a banalização! Se, em vez da Madeira, for outra desgraça que nos emocione - uma criança que desapareceu, um incêndio, a morte de um pescador - é a mesma coisa. Só se fala disso. À saciedade. Sem critério. Não porque não haja novidades e outros assuntos mais interessantes a relatar. Mas por ser mais fácil. Repetir mil vezes a mesma coisa, alimentando as audiências e as páginas dos jornais. Se for um escândalo, ainda melhor."
OBAMA – "Obama está a fazer o que pode, apesar das dificuldades imensas que enfrenta. Está-lhe a cair em cima o peso do mundo. Tem uma oposição interna extremamente aguerrida. Há quem comece a gritar contra Obama, porque os decepcionou. Como se pudesse fazer milagres. Não pode. É preciso ajudá-lo, sobretudo a Europa. É um suicídio se o não faz."
PARTIDOS – "A política, hoje, quase está resumida à actividade dos partidos que fazem uma guerrilha artificial entre si. Não se discutem ideias nem se alimentam relações de cordialidade entre os líderes. (…) Não vejo razões para esta luta feroz entre os partidos continuar. Todos têm culpas no cartório. São comportamentos vazios de conteúdo, artificiais. Os nossos líderes - todos -, para se imporem e serem respeitados pelo eleitorado, têm de mudar. Ser mais flexíveis, tolerantes e menos dogmáticos. Ninguém - nenhum partido -, por si só, é o exclusivo detentor da verdade ou do patriotismo. Têm que se entender e respeitar mutuamente. A democracia vive da alternância. E durante as crises - mormente tão graves como a actual - os partidos e os políticos devem fazer um esforço de entendimento. É o que desejam os eleitores. E são os meus votos muito sinceros."
POLÍTICA HOJE – "[Há] uma certa degradação da política - a sua mediatização, a sujeição ao marketing... Dominada pelo dinheiro, sem princípios éticos, nem visão global. (…) A crise política em que hoje vivemos é, em grande parte, artificial. Decorre directamente da forma como os partidos se digladiam. A ambição do poder pelo poder ultrapassa tudo o resto. Ironicamente, numa altura em que o poder político - ao contrário do que devia - é e continua a comportar-se como um poder menor em relação ao poder dos interesses, das grandes empresas multinacionais e nacionais e dos bancos. (…) A política virou-se contra si própria, ajoelhou-se perante o "bezerro de ouro" e afastou-se do jornalismo sério. A ideia de que os políticos não prestam, são venais, só querem tratar das suas vidas, está generalizada ma2s não corresponde à verdade. Há casos conhecidos em que é assim, mas não são generalizáveis."
POLÍTICA E NEGÓCIOS – "A política e o mundo dos negócios devem ser completamente separados. Deve ser um ponto de honra para qualquer político. O Estado não tem que fazer negócios. Deve ocupar-se da segurança, da Justiça, das questões sociais, dos problemas de cidadania, da posição de Portugal no mundo, da defesa das instituições democráticas, da coesão e unidade dos portugueses. E dar confiança ao país. Não somos um país pequeno e sem recursos. Temos uma história que nos honra, uma língua em expansão, a terceira mais falada na Europa. Hoje, há 250 milhões de seres humanos que falam português, em todos os continentes. Se juntarmos a isso os 500 milhões que falam espanhol, percebemos o que a Península Ibérica pode - e deve - representar no mundo: uma força."
POR UMA OUTRA POLÍTICA – "A política sem ideias e sem causas não tem sentido. É preciso mudar as coisas para melhor. Sabe, estou convencido de que é como nos vinhos: há anos bons e anos maus. Na política, passa-se o mesmo: há gerações boas e há outras menos boas. (…) Quando falo das gerações, boas e más, como o vinho, é para me dar a mim próprio a alegria de pensar que o mundo muda e muda para melhor. As actuais gerações de políticos, formados na escola do neoliberalismo, não serão excelentes, com as devidas excepções. Mas vão vir outras, seguramente melhores. A necessidade obriga. Acredito nisso. E acredito que, por efeito da crise actual, as novas gerações serão diferentes. A que foi contemporânea dos dois mandatos do Bush foi ensinada a pensar que o importante, na vida, é ganhar dinheiro. O que é importante na política, é o marketing. O que é importante é parecer, mais do que ser... Foi, em parte, esse delírio do lucro fácil que conduziu à crise mundial. As pessoas perderam a sensibilidade para os valores morais e para perceber a importância do que é essencial para o futuro dos seres humanos. Só sentem a necessidade de ganhar dinheiro, de qualquer maneira..."
VERGONHAS – "É a maior vergonha que temos: as desigualdades sociais, as manchas de pobreza, o crescimento do desemprego. São a prioridade para a mudança. Mas isso não nos deve transformar em profetas da desgraça. Já temos muitos... Ouve-se muita gente a dizer que estamos perdidos, que não vamos recuperar, que o país não tem conserto. Se, pelo menos, essa gente fosse capaz de apresentar ideias e soluções. Mas não. Dizem mal e vão para casa, todos satisfeitos. Desabafaram..."

domingo, 24 de maio de 2009

Barack Obama em dez discursos

Entre 2 de Outubro de 2002 e 20 de Janeiro de 2009, são dez as intervenções públicas de Barack Obama reunidas em Dez Discursos Históricos (Fio da Palavra Editores: 2009), a maior parte das quais teve lugar a partir do momento em que Obama anunciou a sua entrada na campanha presidencial para os Estados Unidos (10 de Fevereiro de 2007, em Springfield, no Illinois).
O que entusiasma nestes discursos é a capacidade de envolvimento do público num projecto comum, quase como uma espécie de convite ao sonho, que é um desafio para a participação no trabalho de construção de uma outra América. O protagonista é sempre um colectivo “nós”, numa tentativa de irmanar todos em torno de convicções, sendo forte o uso da metáfora, o cruzamento com os momentos históricos do país, o acentuar da história pessoal e familiar, a identidade e o papel do outro.
E dali não surge apenas literatura ou retórica. Há objectivos, há ideias, há linhas mestras. Talvez tudo a explicar a adesão que Obama conseguiu, quer por parte dos americanos, quer dos outros povos. Talvez tudo a explicar uma forma de fazer política, pelo menos nas intenções, diferente, participada, a retornar à ideia da causa e do bem comum. Por lá perpassam as ideias sobre a escola, a política, a guerra e o terrorismo, a democracia, a Europa, o trabalho, o ambiente, o mundo, a América, a história… Por lá passam as ideias que arrebataram e que levaram este filho de negro queniano e de branca americana à cadeira da presidência dos Estados Unidos.
Agora, que se inicia a campanha eleitoral para o Parlamento Europeu, temendo os políticos que a abstenção atinja elevados índices (valerá a pena perguntar porquê e saber se algo tem sido feito para levar os cidadãos a acreditarem e a apropriarem-se de uma ideia de Europa), talvez valha a pena ver como o envolvimento não tem nada a ver com zangas, arrogâncias, distâncias e outros tiques que por aí vamos vendo...


Frases que ficam:
1. “A minha actividade levou-me a algumas das zonas mais pobres de Chicago. Trabalhei com pastores e leigos na resolução de problemas de comunidades devastadas pelo encerramento de fábricas. Percebi que os problemas que aquelas pessoas tinham pela frente não eram de natureza meramente local; que a decisão de encerrar uma fundição fora tomada por executivos distantes; que era possível seguir o rasto da falta de manuais escolares e computadores nas escolas até às decisões dúbias dos políticos a milhares de quilómetros de distância; e que, quando uma criança recorre à violência, é porque tem um buraco no coração que nenhum governo, sozinho, consegue preencher.” (Springfield, 10.Fev.2007)
2. “Esta campanha não poder ser apenas sobre mim. Tem de ser sobre nós: tem de ser sobre o que podemos fazer juntos. Esta campanha tem de ser a oportunidade, o veículo das vossas esperanças e dos vossos sonhos. O vosso tempo, a vossa energia e os vossos conselhos vão ser necessários para nos empurrar para a frente quando estivermos no bom caminho e para nos avisar quando nos desviarmos. Esta campanha tem de servir para recuperarmos o sentido da cidadania, para restaurarmos o sentido de um desígnio comum e percebermos que há poucos obstáculos que possam suster a força de milhões de vozes que clamam por mudança.” (Springfield, 10.Fev.2007)
3. “A esperança é a rocha sobre a qual esta nação foi edificada, a crença de que o nosso destino não será escrito para nós, mas por nós, por todos aqueles homens e mulheres que não se contentam com o mundo tal como está, mas que têm a coragem de transformar o mundo naquilo que devia ser.” (Des Moines, 3.Jan.2008)
4. “Não iremos aproveitar nunca o 11 de Setembro para conquistar votos pelo medo, porque não é uma táctica aceitável para ganhar eleições; é um desafio que devia servir para unir a América e o mundo contra as ameaças do século XXI: o terrorismo e as armas nucleares; as alterações climáticas e a pobreza; o genocídio e a doença.” (Nashua, 8.Jan.2008)
5. “Precisamos de nos unir para resolvermos um conjunto de problemas monumentais: duas guerras, uma ameaça terrorista, uma economia em queda, uma crise crónica nos cuidados de saúde e alterações climáticas potencialmente devastadoras; problemas que não são negros nem brancos, latinos ou asiáticos, mas antes problemas que nos ameaçam a todos. (…) Exprimi já uma convicção firme – uma convicção enraizada na minha fé em Deus e no povo americano: se trabalharmos juntos, podemos ultrapassar algumas das nossas velhas feridas raciais; e, na verdade, não temos outra alternativa, se quisermos continuar na senda de uma união mais perfeita.” (Filadélfia, 18.Mar.2008)
6. “Implica assumirmos plena responsabilidade pelas nossas vidas – exigindo mais dos nossos pais e passando mais tempo com os nossos filhos, lendo-lhes e ensinando-lhes que, apesar de poderem ter de enfrentar desafios e discriminações ao longo da vida, não devem sucumbir nunca ao desespero e ao cinismo; devem acreditar sempre que podem escrever o seu próprio destino.” (Filadélfia, 18.Mar.2008)
7. “A maioria dos americanos já percebeu que a discordância não faz de ninguém um anti-patriota e que não há nada de especialmente inteligente ou sofisticado no desrespeito cínico pelas tradições e instituições da América. (…) Será possível chegarmos a uma definição de patriotismo que, por mais tosca e imperfeita que seja, consiga captar o melhor do espírito comum da América. Como seria essa definição? Para mim, como para a maioria dos americanos, o patriotismo começa por ser um instinto visceral, uma lealdade e um amor pelo país enraizados nas minhas primeiras memórias. (…) Importa recordar, contudo, que o verdadeiro patriotismo não pode ser forçado, nem imposto por lei como um simples conjunto de programas governamentais. Em vez disso, terá de habitar nos corações do nosso povo, terá de ser cultivado no coração da nossa cultura e educado nos corações dos nossos filhos. (…) A perda de uma educação cívica de qualidade em tantas das nossas salas de aula deixou demasiados jovens americanos sem o mais elementar conhecimento de quem são os nossos antepassados, do que fizeram e do significado dos documentos fundadores onde constam os seus nomes. (…) Cabe-nos ensinar aos nossos filhos uma lição que nós, os que estamos na política, esquecemos com demasiada frequência: que o patriotismo não implica apenas defender este país contra ameaças externas, mas consiste também no trabalho constante para fazer da América um lugar melhor para as gerações vindouras. ” (Independence, 30.Jun.2008)
8. “Neste novo mundo, as correntes perigosas tornaram-se mais fortes do que os nossos esforços para contê-las. É por isso que não podemos dar-nos ao luxo de nos mantermos divididos. Nenhuma nação, por grande ou poderosa que seja, pode enfrentar sozinha esses desafios. (…) Os muros entre velhos aliados de ambos os lados do Atlântico não podem continuar de pé. Os muros entre países com mais e países com menos não podem continuar de pé. Os muros entre raças e tribos, nativos e imigrantes, cristãos, muçulmanos e judeus não podem continuar de pé. São estes os muros que agora temos de derrubar. (…) Este é o momento em que temos de nos unir para salvarmos este planeta. Assumamos o propósito de não deixarmos aos nossos filhos um mundo no qual os oceanos subam, a fome alastre e as nossas terras sejam devastadas por tempestades terríveis. Que todas as nações – incluindo a minha – assumam o propósito de agir com a mesma seriedade de intenções com que a vossa tem agido, e de reduzir as emissões de carbono que enviamos para a atmosfera. Chegou a hora de devolvermos o futuro aos nossos filhos. Este é o momento de o mundo falar a uma só voz.” (Berlim, 24.Jul.2008)
9. “Muitos não concordarão com todas as decisões que vou tomar e com todas as políticas que vou traçar como presidente, e todos sabemos que o Governo não consegue resolver todos os problemas. Mas serei sempre honesto convosco a respeito dos desafios que iremos enfrentar. Escutar-vos-ei, principalmente quando discordarmos. E, acima de tudo, irei pedir-vos que vos junteis à tarefa de reconstrução desta nação da forma que sempre se fez na América ao longo de duzentos e vinte e um anos: quarteirão a quarteirão, tijolo a tijolo, mão calejada a mão calejada.” (Chicago, 4.Nov.2008)
10. “A nossa herança de diversidade é uma força, não uma fraqueza. Somos uma nação de cristãos e muçulmanos, de judeus e hindus – e de não crentes. Somos modelados por todas as línguas e culturas, oriundas de todos os cantos desta Terra; e, porque provámos o fel da guerra civil e da segregação e emergimos desse capítulo sombrio mais fortes e mais unidos, não podemos deixar de acreditar que os velhos ódios hão-de acabar um dia; que as divisões tribais se hão-de em breve dissolver; que, à medida que o mundo se vai tornando mais pequeno, a nossa humanidade comum se há-de revelar, e que a América tem de desempenhar o seu papel no advento de uma nova era de paz.” (Washington, 20.Jan.2009)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Da vida nas escolas (2)

“Turmas pequenas, para que cada um aprenda ao seu ritmo, e uma escola comprometida com a transmissão de valores que levem os alunos a ser adultos responsáveis e comprometidos. Esta é a aposta do casal Obama para a educação das suas filhas de dez e sete anos.” Assim abre a peça “Malia recicla lixo, Sasha recolhe vegetais”, assinada por Bárbara Wong, também no Público de hoje, no suplemento “P2”.
As duas crianças, uma no 5º e outra no 2º ano, frequentam a Sidwell Friends School, escola privada em Washington, “de inspiração cristã, mais precisamente quaker”, instituição com mais de 120 anos e com uma filosofia que radica nos “princípios quaker: equidade, integridade, simplicidade, paz e sentido de comunidade”. Contra a acusação de “elitista”, podem falar alguns números: “quatro em cada dez estudantes são de cor e 32 por cento dos alunos são oriundos de famílias necessitadas. Ao todo, são 1097 alunos, do 1.ºciclo do ensino básico ao final do secundário, 145 professores e 103 funcionários.” Quanto às práticas…
1. De pequenino… - “Desde pequenos, os alunos são ensinados a poupar os recursos naturais, a reciclar, a conhecer e a usar formas de energia alternativa. Os novos edifícios da escola foram construídos de forma ecológica, nos telhados há painéis solares, a escola tem moinhos para produção de energia eólica e a água da chuva é reaproveitada. A cantina da escola seleccionou produtores e vendedores locais para evitar que as entregas sejam feitas por carros que percorram longas distâncias, de maneira a evitar esse impacto no ambiente. A comida não se desperdiça, existe compostagem e os guardanapos são reciclados.”
2. Limpezas – “No primeiro semestre, Malia e os colegas do 5.º ano são responsáveis pela limpeza semanal da escola, mas também da vizinhança. À sexta-feira, limpam, recolhem e reciclam o lixo. Esta forte noção ecológica já fez a escola distinguir-se: é ‘a escola mais verde do mundo’.”
3. Pedagogia – “A escola tem um currículo flexível e pode ser adequado a cada criança. Esta pedagogia de ‘ir ao encontro das necessidades educativas e emocionais das crianças’, como é explicado no sítio de Internet da escola, não será difícil de pôr em prática, já que no 1.º ciclo cada professor é responsável por turmas de dez alunos e só no quarto ano é que são 16 estudantes por sala de aula.”
4. Práticas – “Como a educação é vista numa perspectiva global, os alunos aprendem também com a prática. Por exemplo, daqui a dois anos, Sasha, quando andar no 4.º ano, vai aprender o sistema reprodutivo e o desenvolvimento dos bebés desde a concepção e há uma nova disciplina que vai ajudá-la. Chama-se Educação para a Parentalidade e, durante três a quatro semanas, os alunos têm ‘contacto directo com bebés, aprendem como brincar, falar, dar-lhes de comer e o seu desenvolvimento’.”
5. Mente sã – “A Sidwell defende que deve haver um equilíbrio entre a escola e o tempo livre e que as crianças devem ter tempo para fazer outras coisas. Em vez de TPC, pede-se aos pais que incitem as crianças a ler. Aliás, a biblioteca é a ‘base da vida intelectual da escola’. (…) Fora da sala de aulas ainda há tempo para participar nas aulas de teatro, coro, aprender um instrumento, Espanhol, Ciências e saber pesquisar na biblioteca. (…) O ideal romano da ‘mente sã em corpo são’ é levado à letra: cinco dias por semana, os alunos têm de experimentar 12 desportos diferentes. No Inverno, é tempo de aprender desportos como o basquetebol, voleibol, natação, fitness e luta livre americana (wrestling); na Primavera, os campos da escola são usados para aprender lacrosse, basebol, softbol, ténis, hóquei e caminhar (track).”

domingo, 25 de janeiro de 2009

Ainda o discurso de Obama, visto por Ferreira Fernandes

O bom desenho (publicado ontem no Herald Tribune) dizia muito ao primeiro olhar. Obama, uma multidão em delírio e um diálogo. Dizia um (anónimo): "Nunca vi tanto entusiasmo. Quem é esta gente?" Respondia outro (também anónimo): "Gramáticos." Por falar em alguém, alguém disse na televisão portuguesa: "Foi um discurso banal..." E já vi, também sobre o facto da semana - o discurso de posse de Barack Obama -, algumas pessoas a encolher os ombros. Nunca me espantarei o suficiente sobre a capacidade do género humano português em sentir-se enfastiado.
Vulgar, então, o discurso de Obama? Mas o que têm servido a esta gente, há longuíssimos anos, nos discursos de Ano Novo? Que ouvem em discursos de tomada de posse, presidenciais ou ministeriais? Que textos empolgantes, que arte oratória, que temas grandiosos (está bem, houve essa magna questão do Estatuto dos Açores...), que palavras - palavras simples, claras e directas - nos deixaram ligados (mesmo que só o espaço de um discurso) a um político português? Que político, falando, une uma redacção de jornal à volta de um televisor, jornalistas escutando as palavras, não tentando adivinhar as tricas? Quem cala um café inteiro? Quem faz parar o garfo, no jantar solitário na cozinha, e nos remete para a condição de ouvinte, simples ouvinte e nada mais do que ouvinte? Que eu me lembre - e refiro-me a quem exerce o seu magistério essencialmente dirigindo-se ao país e, portanto, quem mais devia cuidar da palavra -, de cada vez que fala um Presidente português saltam sete tradutores, cada um interpretando à sua maneira. E cada um dos sete podendo ter razão, tão vagos, tão impenetráveis, tão óbvios, tão nada, têm sido 98,7% dos discursos presidenciais a que tivemos direito nas últimas décadas.
O discurso de Obama teve aquilo a que aludo no princípio desta crónica, gramática. Gramática aplicada a um discurso, o que quer dizer, muito para lá da concordância do sujeito com o predicado, uma fluência de palavras que encontrou o ritmo capaz de nos galvanizar durante 18 minutos de uma tarde fria. Artifícios estilísticos, metáforas, antíteses...
Mas não, do que eu sinto falta não é tanto da arte oratória mas, tão-só, da função instrumental do discurso. Não, nem peço tiradas - "A capital foi abandonada. O inimigo avançava. A neve estava marcada pelo sangue..." -, como as usadas por Obama por ter encontrado o seu país em crise e querer galvanizar os seus para sair dela. Não, para o que me falta, não me chega ler o padre António Vieira (e esse tenho-o, e melhor do que Obama). Preciso é de políticos que, virados para mim, não digam: "Portugueses", como se eles pairassem sobre o barco. Quero que digam, como Obama virado para os seus, "nós." E que esse nós me faça sentir que há nós.
Ferreira Fernandes. "Em defesa de curta e boa palavra". Diário de Notícias: 25.Jan.2009

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Sobre o discurso de Barack Obama feito ontem

O discurso de Barack Obama (que ontem aqui pus em inglês por só ter tido acesso a essa versão, mas que agora pode ali ser lido em português) comove. Não apenas por ser uma peça literária interessante e bem construída, mas sobretudo porque revela um assumir a América e o mundo segundo valores e de acordo com um espírito de cidadania notáveis. Nele coexistem a verdade sobre a crise e a esperança na renovação e na reconstrução, o compromisso individual e o empenhamento colectivo e mundial, a atenção e a afirmação, o apelo a uma responsabilidade total e universal, os valores e o incitamento a esses valores.
Creio que será um grande discurso para a História e para o século XXI, com respeito pela memória de um país, com veneração pelo passado, com o apregoar de uma identidade que se pretende mais vasta e capaz de interferir pela paz. Não há apelos a globalizações nem a outros modismos que só têm sido responsáveis por políticas que nos afastam e que têm lançado o mundo e os países numa onda de incapacidade. É a palavra da confiança, com um desafio às pessoas e aos países. Quem não se sentiu um pouco a querer partilhar aquela alegria de contribuir para a esperança?
Ah… e os valores. Algo que nos faria bem admitir e encarar, agarrando, praticando e promovendo, algo que contribuirá para um mundo melhor – “Our challenges may be new. The instruments with which we meet them may be new. But those values upon which our success depends – hard work and honesty, courage and fair play, tolerance and curiosity, loyalty and patriotism – these things are old.” Isso mesmo: o haver ao lado de um povo e de um país valores como “trabalho intenso e honestidade, coragem e fair play, tolerância e curiosidade, lealdade e patriotismo”, independentemente do que surja de novo, num respeito pela História e pela tradição, porque aí estão os fundamentos. O apelo está feito a todos. E que bom seria adoptarmo-los para nos sentirmos envolvidos na mudança, que não pode ser só dos outros!

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

O que disse Obama, o 44º presidente americano?

My fellow citizens,
I stand here today humbled by the task before us, grateful for the trust you have bestowed, mindful of the sacrifices borne by our ancestors. I thank President Bush for his service to our nation, as well as the generosity and cooperation he has shown throughout this transition.
Forty-four Americans have now taken the presidential oath.
The words have been spoken during rising tides of prosperity and the still waters of peace. Yet, every so often the oath is taken amidst gathering clouds and raging storms. At these moments, America has carried on not simply because of the skill or vision of those in high office, but because we the people have remained faithful to the ideals of our forebears, and true to our founding documents.
So it has been. So it must be with this generation of Americans.
That we are in the midst of crisis is now well understood.
Our nation is at war, against a far-reaching network of violence and hatred. Our economy is badly weakened, a consequence of greed and irresponsibility on the part of some, but also our collective failure to make hard choices and prepare the nation for a new age. Homes have been lost; jobs shed; businesses shuttered. Our health care is too costly; our schools fail too many; and each day brings further evidence that the ways we use energy strengthen our adversaries and threaten our planet.
These are the indicators of crisis, subject to data and statistics. Less measurable but no less profound is a sapping of confidence across our land _ a nagging fear that America's decline is inevitable, and that the next generation must lower its sights.
Today I say to you that the challenges we face are real.
They are serious and they are many. They will not be met easily or in a short span of time. But know this, America _ they will be met.
On this day, we gather because we have chosen hope over fear, unity of purpose over conflict and discord.
On this day, we come to proclaim an end to the petty grievances and false promises, the recriminations and worn out dogmas, that for far too long have strangled our politics.
We remain a young nation, but in the words of scripture, the time has come to set aside childish things. The time has come to reaffirm our enduring spirit; to choose our better history; to carry forward that precious gift, that noble idea, passed on from generation to generation : the God-given promise that all are equal, all are free and all deserve a chance to pursue their full measure of happiness.
In reaffirming the greatness of our nation, we understand that greatness is never a given. It must be earned. Our journey has never been one of shortcuts or settling for less. It has not been the path for the faint-hearted _ for those who prefer leisure over work, or seek only the pleasures of riches and fame. Rather, it has been the risk-takers, the doers, the makers of things _ some celebrated but more often men and women obscure in their labor, who have carried us up the long, rugged path towards prosperity and freedom.
For us, they packed up their few worldly possessions and traveled across oceans in search of a new life.
For us, they toiled in sweatshops and settled the West; endured the lash of the whip and plowed the hard earth.
For us, they fought and died, in places like Concord and Gettysburg; Normandy and
Khe Sahn.
Time and again these men and women struggled and sacrificed and worked till their hands were raw so that we might live a better life. They saw America as bigger than the sum of our individual ambitions; greater than all the differences of birth or wealth or faction.
This is the journey we continue today. We remain the most prosperous, powerful nation on Earth. Our workers are no less productive than when this crisis began. Our minds are no less inventive, our goods and services no less needed than they were last week or last month or last year. Our capacity remains undiminished. But our time of standing pat, of protecting narrow interests and putting off unpleasant decisions _ that time has surely passed.
Starting today, we must pick ourselves up, dust ourselves off, and begin again the work of remaking America.
For everywhere we look, there is work to be done. The state of the economy calls for action, bold and swift, and we will act _ not only to create new jobs, but to lay a new foundation for growth. We will build the roads and bridges, the electric grids and digital lines that feed our commerce and bind us together. We will restore science to its rightful place, and wield technology's wonders to raise health care's quality and lower its cost. We will harness the sun and the winds and the soil to fuel our cars and run our factories. And we will transform our schools and colleges and universities to meet the demands of a new age.
All this we can do. And all this we will do.
Now, there are some who question the scale of our ambitions _ who suggest that our system cannot tolerate too many big plans. Their memories are short. For they have forgotten what this country has already done; what free men and women can achieve when imagination is joined to common purpose, and necessity to courage.
What the cynics fail to understand is that the ground has shifted beneath them _ that the stale political arguments that have consumed us for so long no longer apply. The question we ask today is not whether our government is too big or too small, but whether it works _ whether it helps families find jobs at a decent wage, care they can afford, a retirement that is dignified. Where the answer is yes, we intend to move forward. Where the answer is no, programs will end. And those of us who manage the public's dollars will be held to account _ to spend wisely, reform bad habits, and do our business in the light of day _ because only then can we restore the vital trust between a people and their government.
Nor is the question before us whether the market is a force for good or ill. Its power to generate wealth and expand freedom is unmatched, but this crisis has reminded us that without a watchful eye, the market can spin out of control _ and that a nation cannot prosper long when it favors only the prosperous. The success of our economy has always depended not just on the size of our gross domestic product, but on the reach of our prosperity; on our ability to extend opportunity to every willing heart _ not out of charity, but because it is the surest route to our common good.
As for our common defense, we reject as false the choice between our safety and our ideals. Our founding fathers, faced with perils we can scarcely imagine, drafted a charter to assure the rule of law and the rights of man, a charter expanded by the blood of generations. Those ideals still light the world, and we will not give them up for expedience's sake. And so to all other peoples and governments who are watching today, from the grandest capitals to the small village where my father was born : know that America is a friend of each nation and every man, woman, and child who seeks a future of peace and dignity, and that we are ready to lead once more.
Recall that earlier generations faced down fascism and communism not just with missiles and tanks, but with sturdy alliances and enduring convictions. They understood that our power alone cannot protect us, nor does it entitle us to do as we please. Instead, they knew that our power grows through its prudent use; our security emanates from the justness of our cause, the force of our example, the tempering qualities of humility and restraint.
We are the keepers of this legacy. Guided by these principles once more, we can meet those new threats that demand even greater effort _ even greater cooperation and understanding between nations. We will begin to responsibly leave Iraq to its people, and forge a hard-earned peace in Afghanistan. With old friends and former foes, we will work tirelessly to lessen the nuclear threat, and roll back the specter of a warming planet. We will not apologize for our way of life, nor will we waver in its defense, and for those who seek to advance their aims by inducing terror and slaughtering innocents, we say to you now that our spirit is stronger and cannot be broken; you cannot outlast us, and we will defeat you.
For we know that our patchwork heritage is a strength, not a weakness. We are a nation of Christians and Muslims, Jews and Hindus _ and non-believers. We are shaped by every language and culture, drawn from every end of this Earth; and because we have tasted the bitter swill of civil war and segregation, and emerged from that dark chapter stronger and more united, we cannot help but believe that the old hatreds shall someday pass; that the lines of tribe shall soon dissolve; that as the world grows smaller, our common humanity shall reveal itself; and that America must play its role in ushering in a new era of peace.
To the Muslim world, we seek a new way forward, based on mutual interest and mutual respect. To those leaders around the globe who seek to sow conflict, or blame their society's ills on the West _ know that your people will judge you on what you can build, not what you destroy. To those who cling to power through corruption and deceit and the silencing of dissent, know that you are on the wrong side of history; but that we will extend a hand if you are willing to unclench your fist.
To the people of poor nations, we pledge to work alongside you to make your farms flourish and let clean waters flow; to nourish starved bodies and feed hungry minds. And to those nations like ours that enjoy relative plenty, we say we can no longer afford indifference to suffering outside our borders; nor can we consume the world's resources without regard to effect. For the world has changed, and we must change with it.
As we consider the road that unfolds before us, we remember with humble gratitude those brave Americans who, at this very hour, patrol far-off deserts and distant mountains. They have something to tell us today, just as the fallen heroes who lie in Arlington whisper through the ages. We honor them not only because they are guardians of our liberty, but because they embody the spirit of service; a willingness to find meaning in something greater than themselves. And yet, at this moment _ a moment that will define a generation _ it is precisely this spirit that must inhabit us all.
For as much as government can do and must do, it is ultimately the faith and determination of the American people upon which this nation relies. It is the kindness to take in a stranger when the levees break, the selflessness of workers who would rather cut their hours than see a friend lose their job which sees us through our darkest hours. It is the firefighter's courage to storm a stairway filled with smoke, but also a parent's willingness to nurture a child, that finally decides our fate.
Our challenges may be new. The instruments with which we meet them may be new. But those values upon which our success depends _ hard work and honesty, courage and fair play, tolerance and curiosity, loyalty and patriotism _ these things are old. These things are true. They have been the quiet force of progress throughout our history. What is demanded then is a return to these truths. What is required of us now is a new era of responsibility _ a recognition, on the part of every American, that we have duties to ourselves, our nation, and the world, duties that we do not grudgingly accept but rather seize gladly, firm in the knowledge that there is nothing so satisfying to the spirit, so defining of our character, than giving our all to a difficult task.
This is the price and the promise of citizenship.
This is the source of our confidence _ the knowledge that God calls on us to shape an uncertain destiny.
This is the meaning of our liberty and our creed _ why men and women and children of every race and every faith can join in celebration across this magnificent mall, and why a man whose father less than sixty years ago might not have been served at a local restaurant can now stand before you to take a most sacred oath.
So let us mark this day with remembrance, of who we are and how far we have traveled. In the year of America's birth, in the coldest of months, a small band of patriots huddled by dying campfires on the shores of an icy river.
The capital was abandoned. The enemy was advancing. The snow was stained with blood. At a moment when the outcome of our revolution was most in doubt, the father of our nation ordered these words be read to the people : "Let it be told to the future world ... that in the depth of winter, when nothing but hope and virtue could survive...that the city and the country, alarmed at one common danger, came forth to meet (it)." America, in the face of our common dangers, in this winter of our hardship, let us remember these timeless words. With hope and virtue, let us brave once more the icy currents, and endure what storms may come. Let it be said by our children's children that when we were tested we refused to let this journey end, that we did not turn back nor did we falter; and with eyes fixed on the horizon and God's grace upon us, we carried forth that great gift of freedom and delivered it safely to future generations.
[a partir de Le Monde]

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Com que noção de política temos (con)vivido?

O Público de hoje noticia que Armando Ramalho, militante socialista, decidiu avançar para a candidatura à liderança do partido nas directas que se realizarão em Fevereiro, apesar de saber estar perante uma missão quase “impossível”. E que motivos cita o jornal para esta aspiração? 1) «‘Porque o PS não existe’»; 2) porque há «um partido e um país ‘tolhido pelo medo’»; 3) porque ‘este país parece um hospício e José Sócrates é o porteiro do hospício»; 4) porque há «falta de debate no PS, um partido em que ‘os velhos socialistas quando falam fazem-no para os peixes’».
No fundo, as críticas que este militante faz são a formalização do que já há muito se vem sentindo. Nota-se que a política não se tem movido por ideais (não dando à palavra “ideal” o sentido de “interesse próprio”) nem por referências fundamentais da cultura, que os discursos de poder que se produzem têm o seu quê de acinte e muitas vezes de irónico e não apelam a uma paz social ou ao esforço conjunto (gostaria de ver em que político dos que nos governam poderia assentar um discurso humanista como o de Obama, por exemplo, sem se ficar com uma caricatura, ou mesmo o tom selecto e também humano que McCain usou no discurso em que deixou de ser candidato a presidente e passou a ser apenas um americano), que tem valido muito mais a propaganda do que a efectividade das coisas.
Tudo isto poderia ser anedótico se não fosse trágico, mesmo pela mensagem que vai passando para a educação e para a sociedade. E não venham com explicações da genética dos povos, da latinidade ou de outras desculpas (como o longo tempo em que em Portugal se teve que calar a liberdade) sempre úteis para justificar o (mau) feitio que temos que suportar. Daqui até às notas de rodapé em que se transformarão muitos dos nossos homens de poder (se lá chegarem) irá um passo. Só que todos temos que suportar e assistir a esse passo.
Aditamento às 20H02:
Acabei de ler agora na Visão online, transcrevendo texto da agência LUSA, declarações de D. Manuel Martins, bispo emérito de Setúbal, que confirmam o estado de espírito de que neste postal se fala. Transcrevo:
«De acordo com o Bispo de Setúbal, vive-se em "dois mundos em Portugal": o "irreal do "foguetório" e o "real das pessoas que andam cá em baixo, com os pés no chão". D. Manuel Martins considera que as "políticas não têm sido acertadas, porque não tem havido um critério humanista". "O Homem é que é o grande critério, o grande fundamento, destinatário e objectivo" da política, referiu. O Bispo desculpa, no entanto, os políticos que "não mandam nada", considerando que são conduzidos pelo poder económico, actualmente envolvido numa economia "super, hiper neo-liberal", que também não tem o "Homem" como objectivo. Face a esta realidade, D. Manuel Martins diz que o medo, que já não é só "físico", se instalou na sociedade portuguesa. "O medo instalou-se na sociedade portuguesa. Este medo foi ainda aumentado, engordou, por causa de toda esta bancarrota da banca. Além deste medo insatisfação que já vem de trás agora, vem este terramoto que só dá para assustar as pessoas", sublinhou.»

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Yes, we can!

No seu discurso de vitória em Chicago, Barack Obama, o novo presidente dos Estados Unidos, passou uma mensagem sobretudo humana e encorajadora, não só para os americanos, mas também para o mundo. É óbvio que não é apenas a vontade deste homem que vai mudar o mundo! Mas ela vai ao encontro de muitos desejos, de muitas boas vontades, de muita esperança. Não pintou o caminho com a cor rosa, não falou contra ninguém (com excepção feita aos inimigos da liberdade); lembrou a diversidade, celebrou os outros, tentou mostrar a mudança através da esperança, da vontade de todos, fazendo depender o futuro e a sua felicidade da quota de cada um. Falou dos ausentes; falou também para o mundo, olhando-o como parceiro; falou da vida experimentada e sofrida e da história dos últimos dois séculos da América ao trazer para o discurso o caso da mulher com 106 anos; falou dos sofrimentos de hoje, mesmo ao lado dos que não sofrem; falou do compromisso individual e colectivo com o futuro. Naturalmente, um discurso destes entusiasma, sobretudo pelo que anuncia de sentir humano; se a vida vai ter rumo diferente do desejado, essa é outra questão que se verá… Por enquanto, vale a pena acalentar a esperança numa postura com valores mais próximos do homem.
Frases vivas
Desafios - «(…) Enquanto estamos aqui a comemorar, sabemos que os desafios que o amanhã trará são os maiores da nossa vida – duas guerras, uma planeta ameaçado, a pior crise financeira desde há um século.»
Lonjuras - «(…) Enquanto estamos aqui esta noite, sabemos que há americanos corajosos a acordarem nos desertos do Iraque e nas montanhas do Afeganistão para arriscarem as suas vidas por nós.»
Famílias - «(…) Há mães e pais que se mantêm acordados depois de os seus filhos adormecerem a interrogarem-se sobre como irão amortizar a hipoteca, pagar as contas do médico ou poupar o suficiente para pagar os estudos universitários dos filhos.»
Diferenças - «(…) Se esta crise financeira nos ensinou alguma coisa, é que não podemos ter uma Wall Street florescente quando as Main Street sofrem.»
Nós e os outros - «(…) A todos os que nos observam esta noite para lá das nossas costas, em parlamentos e palácios, àqueles que estão reunidos em torno de rádios em cantos esquecidos do mundo, as nossas histórias são únicas mas o nosso destino é comum, e uma nova era de liderança americana está prestes a começar.»
Futuro - «(…) Esta noite, perguntemos a nós próprios – se os nossos filhos viverem até ao próximo século, se as minhas filhas tiverem a sorte de viver tantos anos como Ann Nixon Cooper, que mudança é que verão? Que progressos teremos nós feito?»
Agora - «(…) Esta é a nossa oportunidade de responder a essa chamada. Este é o nosso momento.»