Mais uma história do contador de histórias que Mário Zambujal sempre foi: Romão e Juliana, que será tema para conversa no programa "Muito Cá de Casa", a ter lugar na Casa da Cultura, em Setúbal, em 2 de Dezembro, pelas 22h00.
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terça-feira, 29 de novembro de 2016
quinta-feira, 25 de julho de 2013
"Eça agora" - nos 125 anos de "Os Maias"
A passagem dos 125 anos sobre a publicação de Os Maias, de Eça de Queirós (1ª ed.,
1888), obra cuja presença no cânone português é indiscutível, constitui o
pretexto para as releituras ecianas ou para leituras do país e da nossa
contemporaneidade, na peugada de Eça.
Exemplo é o projecto do semanário Expresso, designado “Eça agora”, constituído por sete volumes: três
deles reproduzindo a obra que se celebra; outros três apresentando ficções que
continuarão Os Maias num percurso
temporal até 1973 (em textos devidos a José Luís Peixoto, José Eduardo
Agualusa, Mário Zambujal, J. Rentes de Carvalho, Clara Ferreira Alves e Gonçalo
M. Tavares); o último divulgando esse estudo indispensável sobre a saga da
família Maia, intitulado Introdução à
leitura d’Os Maias, devido a Carlos Reis (1ª ed., 1978).
Um outro exemplo do destaque dado ao romance maior de
Eça é a edição do Jornal de Letras – JL,
de ontem (nº 1117, 24.Julho.2013), que revisita Os Maias,
através de Carlos Reis (dando a sua experiência de leitor da obra, num texto de
marcas pessoais, que o leva a considerar a sua releitura como “uma
aventura sem fim”); de Kyldes Batista Vicente (universitária brasileira que
reflecte sobre a recepção da mini-série que a TV Globo produziu a partir de
várias obras de Eça); de Maria do Rosário Cunha (investigadora ligada à edição
crítica d’Os Maias, que ajuiza sobre
esse trabalho); de José-Augusto França (revelando o fascínio pela construção de
uma personagem como Maria Eduarda); de Filomena Oliveira (analisando a versão
dramatúrgica da obra, de que foi co-autora, com Miguel Real); de Carolina Freitas
(no resultado de uma conversa com o realizador João Botelho, que vai rodar nova
película sobre esta obra); de um painel constituído por Manuel Jorge Marmelo,
Miguel Real, Nuno Camarneiro, Fernando Venâncio, Teolinda Gersão, Mário de
Carvalho e Mário Cláudio, que se aventuram no gizar do que seria o plano ou o
capítulo inicial da obra Memórias de um átomo, jamais escrita mas sempre
prometida por João da Ega; de cinco dos seis continuadores d’Os Maias (não participa Gonçalo M.
Tavares) do projecto do Expresso, que
respondem a inquérito a propósito do trabalho em que se envolveram – destaco o
testemunho de Clara Ferreira Alves, assumida como “queirosiana confessa,
inabalável”, que revela a sua surpresa de cada vez que relê Eça e considera as
personagens queirosianas como integrando a sua “família espiritual”.
No entanto, o título dado a este projecto, “Eça agora”,
existe já desde 2007, ano em que foi publicado o romance Eça agora – Os herdeiros d’Os Maias (Lisboa: Oficina do Livro),
obra colectiva devida a sete autores: Alice Vieira, José Jorge Letria, José Fanha,
Luísa Beltrão, Mário Zambujal, Rosa de Lobato Faria e João Aguiar.
Obra forte, que conquista o humor eciano e critica
fortemente os hábitos sociais do século XXI, nela, “herdeiros” são os autores,
que seguem a via queirosiana, seja pelos reflexos evidentes dos incidentes com
as personagens, seja pelo papel que essas mesmas personagens vão desempenhar na
obra, seja pelo ambiente em que a trama vai acontecendo; “herdeiros” são as
personagens, elas mesmas, intensamente marcadas pelos nomes, determinadas por
um Afonso e um Carlos da Maia, decalcados do original, figuras que surgem
rodeadas por outras que, pelas atitudes e pelas aproximações fonéticas aos
nomes queirosianos, nos dão a aguarela em que assenta esta narrativa – João da
Régua, Dodô Varinho, Damásio Malcede, Palma Cavalito, Além Mar, Maria Moncorvo,
Maria Hermengarda, entre outras – nomes que se cruzam com a Lisboa e o Portugal
contemporâneos, matizados nos partidos políticos, no Gambrinus, na Quinta da
Marinha, nos concertos, em organizações como a Populus Dei, no periódico 48 horas, nos clubes desportivos, numa
capital efervescente de socialite; “herdeiros” ainda pelas intenções, já que é
evidente a crítica social e política sobre o momento em que a obra foi
produzida, eivada de nomes que fazem lembrar os do “Contra-Informação”, como
são exemplos Aristides Platão, “primeiro-ministro”, ou Procónio Guterros,
Morcão Lamoso, Sanlopes Tana, Marcos Arquimendes, Luís Filipe Menelau ou o Dr.
Saulo Cortas, ou mesmo o Presidente Vassilva Caco…
No final, como “delicada alusão”, Carlos da Maia e
João da Régua vão apanhar o metropolitano e, enquanto se lamentam pelo facto de
tudo continuar na mesma e verificam que “nada vale a pena”, decidem correr na
gare rumo ao comboio que estava para partir. “Corre, que ainda o apanhamos!”,
aconselhava João da Régua. E “saltaram degraus a quatro e quatro, entraram de
roldão na carruagem de trás. O comboio pôs-se em movimento e desapareceu no
túnel.”
Os sete autores, que foram construindo os seus
capítulos na sequência do legado pelo autor anterior, em duas voltas (catorze
capítulos, sem que nenhum tivesse sido autor de dois capítulos seguidos),
juntam-se no fecho do romance (ou da telenovela), o “epílogo”, assumindo o
estatuto de personagens que, numa reunião clandestina, têm um encontro com “um
rosto humano, um rosto humano que eles conheciam de fotos antigas, de quadros e
estátuas, um rosto afilado, com um monóculo entalado num dos olhos trocistas…”,
Eça, ele mesmo. Eça, agora. Sinal de que se estava perante uma reunião de “herdeiros”
de Eça. E a obra podia terminar.
No 125º
aniversário de Os Maias, estas
adaptações caucionam a actualidade de Eça de Queirós, indo muito além da
citação em diferentes contextos e provando que a única alteração e actualização
decorre dos cenários, originários da alteração da paisagem citadina ou social,
porque o interior das personagens… ou, como o narrador de Os Maias acentuava no
derradeiro capítulo, quando Carlos regressou do seu afastamento de uma década
da capital, tudo permanece na mesma. Dê-se-lhe a voz: “Foram descendo o Chiado.
Do outro lado, os toldos das lojas estendiam no chão uma sombra forte e
dentada. E Carlos reconhecia, encostados às mesmas portas, sujeitos que lá
deixara havia dez anos, já assim encostados, já assim melancólicos. Tinham
rugas, tinham brancas. Mas lá estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das
mesmas ombreiras, com colarinhos à moda.” Ainda por lá andam, 125 anos depois…
quarta-feira, 2 de maio de 2012
Memória: Fernando Lopes (1935-2012)
Recordo-lhe
a delicadeza com que falava de cinema e a igual delicadeza das imagens.
Relembro filmes como Uma abelha na chuva
(1972), Crónica dos bons malandros
(1984) ou O delfim (2002), todos
adaptações da literatura, de Carlos de Oliveira, de Mário Zambujal ou de
Cardoso Pires. E opto por ver um deles. Gesto frágil, é certo, mas em jeito de
homenagem e de respeito.
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sábado, 25 de outubro de 2008
Hoje, no "Correio de Setúbal"
Diário da Auto-Estima – 88
Cunha – “O nosso povo tem o vício ancestral da cunha. Imaginando de antemão que não poderá, pelas vias legais, alcançar o que pretende, serve-se da cunha. E para tudo a utiliza, mesmo quando desnecessário. Simplesmente porque não acredita na justiça, nas leis e nos regulamentos. Isso, pensa o povo, é para os ricos, os poderosos. O pobre só sobrevive com a cunha.” (José Leon Machado, 2008).
Guerra – “A próxima guerra será silenciosa, esteticamente organizada, não haverá necessidade do ruído desagradável
das bombas e da visão traumática e em último caso perfeitamente dispensável das cidades arrasadas, porque as cidades ficarão intactas, só as pessoas e os seres vivos morrerão, mas em silêncio, sem estertores nem gritos, nem nada de excessivo ou patético, tudo será eficiente, limpo, límpido.” (Teolinda Gersão, 1981).
Noite – “Bem sei que a noite não é a mesma coisa que o dia; que todas as coisas são diferentes, que as coisas nocturnas não podem ser explicadas de dia, pois de dia não existem, e que a noite pode ser terrível para os solitários, desde que sintam que o são.” (Ernest Hemingway).
E-mail – “O correio electrónico – Alucinante, o despacho desta correspondência. Não me apaga, porém, saudades do tempo em que se manuscreviam cartas e não só as cartas de amor. Nada mais pessoal que a caligrafia, a letra de cada pessoa é identificação e intimidade. Os próprios prosadores e poetas conquistados pela desenvoltura do computador não deixarão nos espólios o cunho da caligrafia, o testemunho dos retoques e emendas que ilustrem a criação das suas obras.” (Mário Zambujal, 2008)
Economia – “A humanidade nunca foi tão rica e tão pobre ao mesmo tempo. A pergunta que importa fazer tem dois mil anos: o ser humano é para a economia ou a economia para o ser humano?” (Frei Bento Domingues, 28.Setembro.2008).
Poesia – “Toda a verdadeira poesia é um frémito diante do mistério ou da injustiça; um pressentimento do que está ou devia estar para além da apreensão imediata, da complexidade vibrante das coisas e do tempo, de tudo o que a ciência e a filosofia procuram depois de desvendar e resolver.” (José Rodrigues Miguéis).
Guerra – “A próxima guerra será silenciosa, esteticamente organizada, não haverá necessidade do ruído desagradável
das bombas e da visão traumática e em último caso perfeitamente dispensável das cidades arrasadas, porque as cidades ficarão intactas, só as pessoas e os seres vivos morrerão, mas em silêncio, sem estertores nem gritos, nem nada de excessivo ou patético, tudo será eficiente, limpo, límpido.” (Teolinda Gersão, 1981).Noite – “Bem sei que a noite não é a mesma coisa que o dia; que todas as coisas são diferentes, que as coisas nocturnas não podem ser explicadas de dia, pois de dia não existem, e que a noite pode ser terrível para os solitários, desde que sintam que o são.” (Ernest Hemingway).
E-mail – “O correio electrónico – Alucinante, o despacho desta correspondência. Não me apaga, porém, saudades do tempo em que se manuscreviam cartas e não só as cartas de amor. Nada mais pessoal que a caligrafia, a letra de cada pessoa é identificação e intimidade. Os próprios prosadores e poetas conquistados pela desenvoltura do computador não deixarão nos espólios o cunho da caligrafia, o testemunho dos retoques e emendas que ilustrem a criação das suas obras.” (Mário Zambujal, 2008)
Economia – “A humanidade nunca foi tão rica e tão pobre ao mesmo tempo. A pergunta que importa fazer tem dois mil anos: o ser humano é para a economia ou a economia para o ser humano?” (Frei Bento Domingues, 28.Setembro.2008).
Poesia – “Toda a verdadeira poesia é um frémito diante do mistério ou da injustiça; um pressentimento do que está ou devia estar para além da apreensão imediata, da complexidade vibrante das coisas e do tempo, de tudo o que a ciência e a filosofia procuram depois de desvendar e resolver.” (José Rodrigues Miguéis).
domingo, 17 de agosto de 2008
Mário Zambujal: "Já não se escrevem cartas de amor"
O subtítulo “Um irrequieto enamorado na Lisboa dos anos 50” aposto ao romance Já não se escrevem cartas de amor, de Mário Zambujal (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008), abre perante os leitores o pano do
que vai acontecer na narrativa logo quanto a três pormenores: a personagem, o tempo e o espaço.
Organizado em quinze capítulos, cujas designações resultam do tempo marcado no relógio, entre as 17h35 e as 23h45, o romance vai contando uma história em dois tempos, absolutamente necessários para que o último capítulo os una.
Pelas 17h35 daquele dia é já o lusco-fusco e Duarte, narrador participante, na onda dos seus quase 78 anos, espera, na companhia de Feliciana, que a mulher chegue de uma ida a Lisboa. Tal espera arrasta-se por cerca de seis horas, com preocupações pela demora, com temor pela noite invernosa que se pusera. Mas esse tempo é também o da lembrança e da memória, a pretexto do telefonema de um amigo de juventude, César de Mendonça, a convidar Duarte para a sua festa dos 78 anos, evento a que decide não ir não se fosse quebrar “o fio de recordações” em que via os outros convivas como rapazes, “sem a erosão das décadas posteriores”, todos da sua geração, que, na década de 50, eram jovens e gozavam o ambiente da capital.
O início de cada capítulo é marcado pelo tempo em que a memória se exerce, rapidamente passando a narrativa para o tempo memorado. Apenas o último capítulo, curto mas eficaz na surpresa e na rapidez com que resolve o fecho da história, se situa no tempo do presente. A narrativa da vida nos anos 50 ganha credibilidade com as referências históricas, sejam elas de origem política (actuação da censura e da PIDE, obras públicas), cultural (sucessos de Amália Rodrigues, cinema, literatura que se ia publicando) ou social (emigração a salto para França, marcas de produtos usados e anúncios, desporto, cafés de Lisboa, Casino do Estoril). Simultaneamente, vai correndo a história das paixões de Duarte, centrada sobretudo em duas personagens femininas, Erika e Nora, uma parecendo rumar para o desaparecimento, outra parecendo impor a sua presença.
A distância entre os tempos que alimentam este romance, assim como a sua caracterização, pode ser obtida através de dois exemplos surgidos da forma de comunicação: o agora, tempo de lembrança, em que “ela tem por hábito desligar o telemóvel mal entra no carro” e em que o narrador tenta “enganar a espera sem notícias espreitando o correio electrónico”; o antes, tempo de juventude do narrador, “em que se vivia sem telemóvel e [se sabia] esperar” e em que “grande novidade tinha sido a automatização da rede telefónica, [passando-se] a marcar os números em vez de pedir a uma telefonista a bondade da ligação”. Em algumas situações evocadas, o narrador chama a atenção do leitor para a diferença dos tempos, sobretudo no que se relaciona com os costumes, como se pode ver na referência aos chás-dançantes de final de tarde, em que o frequentador podia, caso não a levasse, procurar companhia feminina – “Sempre se sentia nos braços uma fêmea diferente, conforto menos trivial que actualmente. Quem não viveu essa época, ignora que apalpar a namorada na rua ou dar beijos glutões na boquinha dela era caso de polícia, por atentado ao pudor e à moralidade pública.”
A história presente em Já não se escrevem cartas de amor corre depressa, sobretudo centrada na acção, com algum humor e muitas memórias de uma vida na Lisboa de meados do século passado, (re)vividas por um dos seus possíveis protagonistas, nos caminhos da boémia, da cultura e da paixão. É um romance, mas podia ser um conjunto de histórias da Lisboa desse tempo. É um retrato, mas é também a nostalgia a invadir Duarte, que quis contar a sua história de amor.
que vai acontecer na narrativa logo quanto a três pormenores: a personagem, o tempo e o espaço.Organizado em quinze capítulos, cujas designações resultam do tempo marcado no relógio, entre as 17h35 e as 23h45, o romance vai contando uma história em dois tempos, absolutamente necessários para que o último capítulo os una.
Pelas 17h35 daquele dia é já o lusco-fusco e Duarte, narrador participante, na onda dos seus quase 78 anos, espera, na companhia de Feliciana, que a mulher chegue de uma ida a Lisboa. Tal espera arrasta-se por cerca de seis horas, com preocupações pela demora, com temor pela noite invernosa que se pusera. Mas esse tempo é também o da lembrança e da memória, a pretexto do telefonema de um amigo de juventude, César de Mendonça, a convidar Duarte para a sua festa dos 78 anos, evento a que decide não ir não se fosse quebrar “o fio de recordações” em que via os outros convivas como rapazes, “sem a erosão das décadas posteriores”, todos da sua geração, que, na década de 50, eram jovens e gozavam o ambiente da capital.
O início de cada capítulo é marcado pelo tempo em que a memória se exerce, rapidamente passando a narrativa para o tempo memorado. Apenas o último capítulo, curto mas eficaz na surpresa e na rapidez com que resolve o fecho da história, se situa no tempo do presente. A narrativa da vida nos anos 50 ganha credibilidade com as referências históricas, sejam elas de origem política (actuação da censura e da PIDE, obras públicas), cultural (sucessos de Amália Rodrigues, cinema, literatura que se ia publicando) ou social (emigração a salto para França, marcas de produtos usados e anúncios, desporto, cafés de Lisboa, Casino do Estoril). Simultaneamente, vai correndo a história das paixões de Duarte, centrada sobretudo em duas personagens femininas, Erika e Nora, uma parecendo rumar para o desaparecimento, outra parecendo impor a sua presença.
A distância entre os tempos que alimentam este romance, assim como a sua caracterização, pode ser obtida através de dois exemplos surgidos da forma de comunicação: o agora, tempo de lembrança, em que “ela tem por hábito desligar o telemóvel mal entra no carro” e em que o narrador tenta “enganar a espera sem notícias espreitando o correio electrónico”; o antes, tempo de juventude do narrador, “em que se vivia sem telemóvel e [se sabia] esperar” e em que “grande novidade tinha sido a automatização da rede telefónica, [passando-se] a marcar os números em vez de pedir a uma telefonista a bondade da ligação”. Em algumas situações evocadas, o narrador chama a atenção do leitor para a diferença dos tempos, sobretudo no que se relaciona com os costumes, como se pode ver na referência aos chás-dançantes de final de tarde, em que o frequentador podia, caso não a levasse, procurar companhia feminina – “Sempre se sentia nos braços uma fêmea diferente, conforto menos trivial que actualmente. Quem não viveu essa época, ignora que apalpar a namorada na rua ou dar beijos glutões na boquinha dela era caso de polícia, por atentado ao pudor e à moralidade pública.”
A história presente em Já não se escrevem cartas de amor corre depressa, sobretudo centrada na acção, com algum humor e muitas memórias de uma vida na Lisboa de meados do século passado, (re)vividas por um dos seus possíveis protagonistas, nos caminhos da boémia, da cultura e da paixão. É um romance, mas podia ser um conjunto de histórias da Lisboa desse tempo. É um retrato, mas é também a nostalgia a invadir Duarte, que quis contar a sua história de amor.
Momentos da escrita
1. “O correio electrónico – Alucinante, o despacho desta correspondência. Não me apaga, porém, saudades do tempo em que se manuscreviam cartas e não só as cartas de amor. Nada mais pessoal que a caligrafia, a letra de cada pessoa é identificação e intimidade. Os próprios prosadores e poetas conquistados pela desenvoltura do computador não deixarão nos espólios o cunho da caligrafia, o testemunho dos retoques e emendas que ilustrem a criação das suas obras.”
2. “A serenidade e o silêncio desafiam a memória.”
3. “A memória prega-me partidas. Tanto apaga o que aconteceu há dias, ou minutos, como retém, com nitidez, factos e gente que o galopar dos anos condenaria a esquecer. O que nem sempre me traz é precisão de datas e a sequência real dos acontecimentos.”
2. “A serenidade e o silêncio desafiam a memória.”
3. “A memória prega-me partidas. Tanto apaga o que aconteceu há dias, ou minutos, como retém, com nitidez, factos e gente que o galopar dos anos condenaria a esquecer. O que nem sempre me traz é precisão de datas e a sequência real dos acontecimentos.”
4. “O tempo e as distâncias roem as paixões até ao osso.”
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quarta-feira, 30 de julho de 2008
Minudências (26)
E depois das massagens?
«Marinha proíbe massagens nas praias algarvias pois 'todos sabem como começam mas ninguém sabe como acabam'». A notícia é do Público de hoje, que continua: «Qualquer gesto que possa ser interpretado como uma "situação mais íntima" nas praias algarvias está proibido, por ordem do Comando Marítimo do Sul (CMS). Pedir ajuda para espalhar protector solar nas costas, ainda vá que não vá, mas se o movimento deslizar para uma prática que possa ser interpretada como massagem, a Polícia Marítima avança para aplicar uma coima, não vá algum turista queixar-se de atentado ao pudor.» Tudo terá a ver com a massagem enquanto prestação de serviços…. Mas não deixa de ser preocupante. Como é que num país com febre regulamentadora as massagens tinham ficado de lado? Ainda bem que há uns puristas dos costumes que olham para esta coisas com olhos de poder!!! Não sei se percebi, mas... o problema não é com as massagens, é com o que pode vir depois, não é? Ah, o depois...
Daqui a 50 anos alguém terá que explicar estes pruridos. Ocorre-me agora uma citação do Mário Zambujal no seu último romance - Já não se escrevem cartas de amor (Lisboa: A Esfera dos Livros, 2008): a história passa-se na Lisboa dos anos 50 do século passado e o narrador relembra o prazer dos chás dançantes de final de tarde, logo acrescentando (para os leitores mais novos, evidentemente) que "quem não viveu essa época, ignora que apalpar a namorada na rua ou dar beijos glutões na boquinha dela era caso de polícia, por atentado ao pudor e à moralidade pública". Daqui a meio século, alguém terá de escrever coisa semelhante sobre o verão de 2008 nas praias do Algarve...
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