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domingo, 2 de agosto de 2026

Entre livros e leituras

 


“Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” Assim escrevia José Régio (1901-1969), em 10 Abril de 1923, em Vila do Conde, no seu diário (em Páginas do Diário Íntimo, 1994). Este registo surgia no final do dia, que fora chuvoso, no espaço de pensamento e de refúgio, abrindo portas ao diálogo com os livros, com as memórias do lido ou com a antecipação das leituras.

Uma quase conversa com a biblioteca, pois, que deixava de ser o alinhamento e a ordem para ser o turbilhão das ideias! Uma angústia ou um prazer, no jogo com o acervo em que se alojam histórias, pensamentos, saberes, desejos e memórias! Uma visão quase contrária àquela que Rita Ferro (n. 1955) revelou em Veneza pode esperar (2014), também um diário, quando disse, quanto aos livros, que “podemos ler muitos, mas para nossa tortura só parecem contar os que não lemos.”

E vem à ideia a pergunta clássica que salta de quem chega perante a biblioteca, assente nas estantes, nos móveis e pelo chão: “Estes livros já foram todos lidos?” A melhor resposta que conheço foi dada por Afonso Cruz (n. 1971), no primeiro volume de O vício dos livros (2021): “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.”

A importância do leitor é fundamental para que o livro se realize, é verdade, apesar de o leitor, como os livros, não ter prazo. Perante um livro, está-se sempre à espera de que ele seja aberto, folheado, visto, lido, sob pena de não ter vida. Escreveu Massimo Recalcati (n. 1959), em A libro aperto (2018), que “um livro fechado é, na verdade, um contrassenso: não é um livro. Como o mar, o livro é uma imagem extraordinária do ‘aberto’. Abre o mundo em vez de o fechar. Um livro é um mar e não um muro.”

É essa abertura do livro que nos permite viver outros tempos, noutros lugares ou diferentes histórias, uma verdade que Yu Hua (n. 1960) bem explicou em China em dez palavras (2018): “Se existe na literatura alguma força mística, penso que será esta — a possibilidade de encontrar numa obra de um escritor de outra época, de outro país, de outra língua e cultura, experiências que nos pertencem.”

Ruben A. (1920-1975), com o seu conhecido sentido de humor, registou no sexto volume de Páginas (1970) um conselho interessante, com o seu quê de ironia e de crítica: “Cada médico, ao visitar um doente, receitava-lhe uma dose de literatura. O doente, ou morria, ou ficava sarado. Mais: enquanto se lê não há tempo para maldades, a existência humana pode não melhorar com a receita de leituras, mas de certeza que não piora, o que já é notável.”

Obviamente, a leitura (ou o livro) não tem lugar nas prescrições médicas. Mas as suas vantagens têm sido divulgadas por muitos dos seus praticantes — Fernando Pessoa (1888-1935), através do heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego (1982), explicou que “há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua (...), imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher (...), frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana”; Resendes Ventura (1936-2013) considerou que “um bom momento de leitura tem de ser um momento de felicidade” (em Papel a mais, 2009); Tolentino Mendonça (n. 1965), em O que é amar um país (2020), lembrou que “em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” 

A escolha do leitor nem sempre é clara: às vezes, é para descobrir; noutras, para relembrar; também para encontrar outros sentires; ainda, para saber. O leitor não exige ao livro o remédio para (todos) os males, mas sabe alguma coisa do seu caminho de leitor: “O hábito de ler não faz necessariamente com que sejamos melhores pessoas, mas ensina-nos a observar com o olhar da mente a vastidão do mundo e a imensa variedade de situações e seres que o habitam. As nossas ideias tornam-se mais ágeis e a nossa imaginação, mais luminosa.” Quem o disse foi Irene Vallejo (n. 1979) na obra recentemente publicada entre nós, Manifesto pela leitura.

Afinal, Ruben A. talvez tenha razão na proposta prescritiva...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1810, 2026-07-29, pg. 10.