Mostrar mensagens com a etiqueta Maria de Sousa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Maria de Sousa. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de julho de 2025

Teresa Martins Marques e o romance de Miguéis

 


O assunto é a biografia de José Rodrigues Miguéis (1901-1980), escritor nascido em Lisboa, com passagem por Setúbal em 1925 (onde foi delegado do Procurador da República), que, a partir de 1929, viveu no estrangeiro (em Bruxelas, por quatro anos, e em Nova Iorque, desde 1935 até ao falecimento) e que, em Portugal, teve intensa acção na imprensa (Seara NovaDiário de LisboaDiário PopularO Globo, entre outros). No entanto, é uma biografia com marcas inovadoras e surpreendentes esta, que cruza o biografado com uma sua amiga, a cientista Maria de Sousa (1939-2020), e com a própria autora, várias vezes mencionada no seu estatuto de estudante e de investigadora da obra do escritor. O próprio título da obra chama a atenção do leitor para uma forma de biografar distante do convencional — Nos Passos de José Rodrigues Miguéis - Uma Biografia como um Romance, obra devida a Teresa Martins Marques (Âncora Editora, 2025), cuja primeira obra publicada sobre o mesmo autor data de 1994, O Imaginário de Lisboa na Ficção Narrativa de José Rodrigues Miguéis (Editorial Estampa).

Ler uma vida como se o leitor esteja perante um romance, pois. Miguéis e Maria de Sousa foram amigos e tiveram muitas horas de conversa. Este foi o primeiro pretexto para Teresa Martins Marques fazer destes dois nomes as personagens necessárias para a acção desta obra, num diálogo imaginário, em que ele se conta e ela o ouve e inunda com perguntas e observações. Se a longa entrevista é fruto da imaginação da autora (visando interligar os tempos e as acções, problematizar e informar sobre os contextos, aprofundar o pensamento do biografado, enfatizar o percurso utilizando a narração na primeira pessoa), o seu conteúdo é consequência de aturada leitura e investigação, que passou por: conversas com pessoas que foram próximas de Miguéis (Maria de Sousa e Camila Miguéis, sobretudo) e com estudiosos da sua obra  (David Mourão-Ferreira e Onésimo Teotónio de Almeida, por exemplo); conhecimento exaustivo da obra publicada em livro e em periódicos e de materiais não publicados; leitura intensa de documentação alusiva a Miguéis, particularmente na vertente epistolográfica, em que se destacam destinatários como José Saramago (1922-2010), David Ferreira (1897-1989), Jacinto Baptista (1926-1993) ou Taborda de Vasconcelos (1924-2009), entre outros.

Se a palavra “romance” no subtítulo da obra serve para garantir a fluência narrativa, a verdade é que a sua estrutura, fortemente apoiada no género entrevista, vive de tipologias muito diversas de escrita — do monólogo da personagem, ora em tom diarístico ora em exercício de reflexão e de anotação sobre as histórias que fizeram a sua vida; do ensaio, que surge como leitura feita pelo próprio biografado à medida que os trabalhos sobre a sua obra vão chegando ao seu conhecimento; da epistolografia, que suporta muitas das ideias do correspondente e contextualiza as vivências, permitindo uma proximidade maior ao leitor; do resumo de algumas obras, recurso importante pela dimensão autobiográfica que muitas delas apresentam, contendo mesmo chaves de descodificação dessa marca de vivência pessoal.

Nos Passos de José Rodrigues Miguéis é a biografia necessária para o leitor se aproximar de um autor que, sempre preocupado com o que se passava em Portugal, teve de fazer a sua vida distante do país (numa situação entre a emigração e o exílio), não só em termos geográficos, mas também de mentalidade, pois não teve afinidades com o regime político que “Salatzar” ou “Salaczar” marcou, teve a sua acção controlada pela polícia política, recusou o Prémio Nacional de Novelística (apesar de o dinheiro lhe fazer falta) e afirmava o seu tom contestatário “contra gregos e Caetanos”.

Miguéis, que publicou durante 60 anos (no levantamento da bibliografia activa que Teresa Martins Marques apresenta, o primeiro texto publicado sai em Abril de 1921 no jornal O Sol, de Beja, e o último em Agosto de 1980, no Diário Popular, apesar de não ter sido este o seu derradeiro texto), surge vivo na sua argúcia crítica (sobre os outros e sobre si mesmo, com diálogos construídos sobre citações suas), na sua vida complexa e recheada de muitos dissabores e sofrimentos, na sua qualidade de escritor a ser lido e pensado pelo seu olhar sobre Portugal sem tibiezas. Teresa Martins Marques, cuja obra se estende pelo ensaísmo e pelo romance, conseguiu aliar estas duas tónicas em prol de uma biografia necessária, que passará a ser de consulta indispensável para um mais profícuo entendimento da obra de José Rodrigues Miguéis.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1582, 2025-07-30, pg. 10.


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Diário dos dias da pandemia (2)



Ao longo dos textos de Dias Entreabertos - Diário Breve dos Primeiros Meses da Pandemia, as recomendações encontram também espaço, haja em vista os apelos aos leitores para que “fiquem em casa”, eco dos avisos vindos das estruturas da saúde pública e do medo sentido no vazio das ruas. No entanto, as saídas estritamente necessárias (por exemplo, para ir passear os animais de companhia) foram hipótese que logo serviu para alegrar os caninos, em passeatas contínuas, como sucedeu com “Kiko”, o cão visto a ser passeado por uma senhora e, passados vinte minutos, a ser acompanhado por um jovem, sequência que causou estranheza a Maria do Carmo Branco: “O rapaz, a sorrir, explicou que, como só havia um cão no prédio onde morava, todos os condóminos vinham passear o cão com autorização da dona”..., história que merece nota irónica - “um negócio a ponderar!”

A imaginação tinha de encontrar alternativas para este “desembrulhar dos dias” (João Santiago), enquanto a televisão debitava o “boletim do dia da DGS” e a “evolução da curva” para demonstrar a progressão pandémica, numa invasão informativa, como Fátima Frazão Lopes enuncia em 28 de Março: “Em casa, acordamos com o Coronavírus, tomamos as refeições com o Coronavírus, somos bombardeados até à exaustão com as mortes provocadas pelo Coronavírus em Portugal, na Europa e no resto do mundo. (...) O Coronavírus ‘infectou’ as televisões, as rádios, os jornais, as revistas e as conferências de imprensa.” Desse mesmo dia é o registo de Fernanda Resende, marcada pelo retiro obrigatório e pela busca de uma nova forma de relação com o mundo - “aqui estou em prisão domiciliária, a cumprir a pena que me foi imposta ‘isolamento social’. (...) Procuro reinventar o tempo em conversas com o meu interior.” E conclui: “Hoje não se vive, aprende-se a viver.”

Esta reinvenção passa por cenários gizados por novas coordenadas: “a magia de um brinde com taças de champanhe erguidas do outro lado da cidade”, sobre um aniversário celebrado à distância, ou o reparar na roupa também “em quarentena de utilização” ou nos “sapatos que esqueceram o jeito de andar” (Malice Silva); o cumprir tarefas desde há muito adiadas, como “pensar, escrever, repousar com serenidade, meditar e conviver com a comunidade de familiares” e “aceder à prática do maravilhoso culto da imaginação” (João Santiago); a procura da proximidade para combater o frio do afastamento através daquele “engenho tecnológico que o homem criou para aproximar as pessoas”, permitindo o contacto com os familiares mais directos, sobretudo “aqueles ramos maravilhosos que de nós partiram”, vencendo-se a irrealidade daqueles dias (Sanchez Antunes, o mais assíduo frequentador desta antologia).

Alguns poemas perpassam também por estes Dias Entreabertos, com destaque para aqueles que surgem em nome de uma memória - Resendes Ventura (1936-2013) e Maria de Sousa (1939-2020), trazidos por Fátima Ribeiro de Medeiros, o primeiro a propósito da energia da palavra, partilhado no Dia Mundial da Língua Portuguesa (7 de Maio), a segunda, com um poema produzido quatro dias antes de saber que estava infectada pelo vírus que a vitimaria passados dez dias (13 de Abril), testemunho forte de humanidade: “Mas antes de morrer / Quero que saibam / O quanto gosto de vocês / O quanto me preocupo convosco / O quanto recordo os momentos / partilhados e / queridos / (...) / Porque posso morrer e vós tereis de viver / Na vossa vida a esperança da minha duração.”

A última intervenção é de Arlindo Mota, em mensagem para Ana Bela Aleluia, uma quase justificação para este conglomerado de textos, registando “a perplexidade, a angústia, a incompreensão pelo desconhecido que nos amputa tudo aquilo que faz com que a vida mereça ser vivida”. Momentos intensos de emotividade, surgidos na oportunidade de um diário partilhado, conferindo à literatura o testemunho das dores dos tempos.

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 961, 2022-11-16, p. 9.