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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Ridícula forma de chegar ao fim

Uma senhora desaparece, vizinhos e familiares dão pela ausência e queixam-se da falta. Não é conseguida autorização para entrar na casa da dita senhora. Nove anos depois, descobre-se que a senhora estivera morta dentro de casa durante todo esse tempo. Com ela, estão também mortos os seus animais de estimação.
Isto aconteceu no Portugal que conhecemos, nos tempos que correm, lá para os lados da linha de Sintra.
No último episódio deste romance, a casa em que jazia a senhora foi penhorada pelo fisco e foi vendida por uma alegada dívida fiscal de cerca de mil e quinhentos euros. Segundo o Público, o Ministério das Finanças, ao confrontar-se com o insólito desta situação, garantiu que “a Administração Fiscal actuou sempre dentro da legalidade e com o zelo e a prudência aconselhados pelas várias circunstâncias”. Augusta Duarte Martinho, assim se chamava a senhora, completaria 96 anos neste Fevereiro, mas estava morta desde 2002! Ali, no seu apartamento, no meio da turbulência da cidade!...
História exemplar que dará um bom filme. Um bom e tétrico filme! E um bom retrato do que vale hoje uma pessoa… Muito pouco ou nada, perante o cavalgar de uma civilização que vai matando o que pode haver de humanidade, que vai esquecendo que o ser pessoa devia ser o mais importante!
Triste sociedade, mais tristes tempos, deplorável onda de desumanidade! Tudo num tempo em que há “dia dos vizinhos”, “apoios à terceira idade”, discursos sobre a solidão, voluntariado, verificações e “provas de vida”! Tudo num tempo em que até o ser humano se torna ridículo!
“A velhice ridícula é, porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana.” Disse-o Machado de Assis em 1881, quando escreveu a história de Brás Cubas. Não se aprendeu e chegou-se à morte ridícula!...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Ficha de leitura (1) - Machado de Assis e as memórias de Cubas

Em 1881, Machado de Assis publicou Memórias póstumas de Brás Cubas (título surgido no ano anterior, “em pedaços”, na Revista Brasileira), romance por onde passa a vida de uma personagem excepcional, “um defunto autor, para quem a campa foi outro berço”. É a partir desta afirmação, logo no início do livro, que se constrói a lógica do título, depois de uma curtíssima reflexão sobre a escrita memorialística – “algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte”. O narrador tem consciência da subtileza das memórias e da arte que é construí-las, seguindo uma perspectiva cronológica ou um itinerário de permanente analepse, ainda que as memórias exijam sempre esse olhar para trás e existam por isso mesmo.
História de amores, com adultério à mistura (na personagem Virgília), de ideias, de ironia, com referências a Portugal (onde, de resto, o narrador cursou Direito e onde uma outra personagem, mais velha, o Vilaça, privou com Bocage no “Nicola” em tertúlia poética), estas Memórias mantêm uma frescura crítica (em relação à sociedade, à literatura, às ideias), num ritmo narrativo que desafia o leitor e o põe continuamente à prova pelas invectivas do narrador, num caminho de onde desapareceram os heróis e o homem se confronta com um destino por si construído.
A este romance não é alheia a estrutura das garrettianas Viagens na minha terra (de 1846, também antes saída em periódico, na Revista Universal Lisbonense, entre Junho de 1845 e Novembro de 1846), pela ideia da viagem (ainda que à roda da vida e de uma dada sociedade) e de um ritmo oscilante entre o comentário, a história, a intrusão do narrador (com inúmeras interrupções da narrativa) e a crítica das ideias.

Sublinhados de Memórias de Brás Cubas
GLÓRIA – “Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a cousa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.”
MÉTODO – “Isto de método, sendo, como é, uma cousa indispensável, todavia é melhor tê-lo sem gravata nem suspensórios, mas um pouco à fresca e à solta, como quem não se lhe dá da vizinha fronteira, nem do inspetor de quarteirão. É como a eloquência, que há uma genuína e vibrante, de uma arte natural e feiticeira, e outra tesa, engomada e chocha.”
OPINIÃO (DOS OUTROS) – “Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso, poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo.”
CONSCIÊNCIA – “O modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência.”
OLHOS (fechar os) – “Escrófula da vida, andrajo do passado, que me importa que existas, que molestes os olhos dos outros, se eu tenho dous palmos de um travesseiro divino, para fechar os olhos e dormir?”
BIBLIÓMANO – “Olhai: daqui a setenta anos, um sujeito magro, amarelo, grisalho, que não ama nenhuma outra coisa além dos livros, inclina-se sobre a página anterior, a ver se lhe descobre o despropósito; lê, relê, treslê, desengonça as palavras, saca uma sílaba, depois outra, mais outra, e as restantes, examina-as por dentro e por fora, por todos os lados, contra a luz, espaneja-as, esfrega-as no joelho, lava-as, e nada; não acha o despropósito. É um bibliómano. Não conhece o autor (…). Achou o volume, por acaso, no pardieiro de um alfarrabista. Comprou-o por duzentos réis. Indagou, pesquisou, esgaravatou, e veio a descobrir que era um exemplar único… Único! Vós que não só amais os livros, senão que padeceis a mania deles, vós sabeis mui bem o valor desta palavra, e adivinhais, portanto, as delícias do meu bibliómano. Ele rejeitaria a coro das Índias, o papado, todos os museus da Itália e da Holanda, se os houvesse de trocar por esse único exemplar (…), uma vez que fosse único. (…) Já prometeu a si mesmo escrever uma breve memória, na qual relate o achado do livro e a descoberta da sublimidade, se a houver por baixo daquela frase obscura. Ao cabo, não descobre nada e contenta-se com a posse. Fecha o livro, mira-o, remira-o, chega-se à janela e mostra-o ao sol. Um exemplar único! Nesse momento, passa-lhe por baixo da janela um César ou um Cromwell, a caminho do poder. Ele dá de ombros, fecha a janela, estira-se na rede e folheia o livro devagar, com amor, aos goles… Um exemplar único!”
VELHICE – “A velhice ridícula é, porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana.”
ADULAR – “A adulação das mulheres não é a mesma coisa que a dos homens. Esta orça pela servilidade; a outra confunde-se com a afeição. As formas graciosamente curvas, a palavra doce, a mesma fraqueza física dão à ação lisonjeira da mulher, uma cor local, um aspecto legítimo. Não importa a idade do adulado; a mulher há de ter sempre para ele uns ares de mãe ou de irmã – ou ainda de enfermeira, outro ofício feminil, em que o mais hábil dos homens carecerá sempre de um quid, um fluido, alguma coisa.”
AVENTURA – “As aventuras são a parte torrencial e vertiginosa da vida, isto é, a excepção.”

TEMPO – “O tempo caleja a sensibilidade e oblitera a memória das coisas.”
CARTAS – “Leitor ignaro, se não guardas as cartas da juventude, não conhecerás um dia a filosofia das folhas velhas, não gostarás o prazer de ver-te, ao longe, na penumbra, com um chapéu de três bicos, botas de sete léguas e longas barbas assírias, a bailar ao som de uma gaita anacreôntica. Guarda as tuas cartas da juventude!”
VIDA – “A vida é o maior benefício do universo, e não há mendigo que não prefira a miséria à morte.”
EPITÁFIO – “Gosto dos epitáfios; eles são, entre a gente civilizada, uma expressão daquele pio e secreto egoísmo que induz o homem a arrancar à morte um farrapo ao menos da sombra que passou. Daí vem, talvez, a tristeza inconsolável dos que sabem os seus mortos na vala comum; parece-lhes que a podridão anónima os alcança a eles mesmos.”

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Máximas em mínimas (14)

Glória
Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o amor da glória era a cousa mais verdadeiramente humana que há no homem, e, conseguintemente, a sua mais genuína feição.
Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas (1881)