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quarta-feira, 22 de junho de 2022

Aristides de Sousa Mendes biografado por Cláudia Ninhos


 

“Era realmente meu objectivo salvar toda aquela gente, cuja aflição era indescritível: uns tinham perdido os seus cônjuges, outros não tinham notícias dos filhos extraviados, alguns tinham visto sucumbir pessoas queridas sob os bombardeamentos alemães que todos os dias se renovavam e não poupavam os fugitivos apavorados. (...) Muitos deles eram judeus, que, já perseguidos antes, procuravam angustiosamente escapar ao horror de novas perseguições, por fim um sem-número de mulheres de todos os países invadidos que procuravam evitar ficar à mercê da brutal sensualidade teutónica.”

Assim respondeu Aristides de Sousa Mendes (1885-1954) à nota de culpa resultante do processo disciplinar instaurado em 1940, por ter assinado vistos para cidadãos em fuga da perseguição nazi nos consulados de Bordéus e de Bayona. Mais adiante, afirmava ter-se inspirado “única e exclusivamente nos sentimentos de altruísmo e de generosidade de que os portugueses souberam tantas vezes dar provas eloquentes”. Depois, assumindo ter ultrapassado as ordens recebidas: “Posso ter errado, mas, se errei não o fiz com intenção, tendo procedido sempre segundo os ditames da minha consciência, que nunca deixou de me guiar no cumprimento dos meus deveres.”

A história do cônsul português que Salazar, na decisão sobre este processo disciplinar, empurrou para “a pena de um ano de inactividade, com direito a metade do vencimento da categoria, devendo de seguida ser aposentado”, vem sumariamente contada na obra O essencial sobre Aristides de Sousa Mendes (Imprensa Nacional, 2021, que a disponibiliza gratuitamente na sua página), de Cláudia Ninhos (n. 1985).

O foco deste livro está sobre a carreira diplomática do biografado, percurso relatado a partir das fontes primárias existentes nos arquivos (correspondências e os próprios processos disciplinares em que Sousa Mendes esteve envolvido), seguindo o leitor um trajecto pelos tempos de estudo em Coimbra, ingresso no Ministério dos Negócios Estrangeiros, exercício de funções na Guiana Britânica (1910), na Galiza (1911 e 1927), em Zanzibar (1911), em Curitiba (1918), em Berlim (1921), em São Francisco (1921), em Maranhão e Porto Alegre (1924), em Antuérpia (1929), em Bordéus (1938), detendo-se a biografia no último processo disciplinar que lhe foi instaurado e na vida de sofrimento e tentativa de regeneração do cônsul.

O que fica da história é a luta entre a política cega, a consciência e a ética, com a burocracia das circulares a interferir num processo a que não são alheias a polícia política e muita hipocrisia. Aristides de Sousa Mendes sempre invocou razões humanitárias para a sua decisão na assinatura dos vistos de Bordéus, aspecto nunca considerado. Contudo, Salazar, logo que finda a guerra, dizia, na Assembleia Nacional: “Quaisquer outros na nossa situação acolheriam refugiados, salvariam e agasalhariam náufragos, ajudariam a suavizar a sorte dos prisioneiros, por dever de solidariedade humana e para manter (...) a justiça e a paz. Pena foi não termos podido fazer mais.”

A lenta reabilitação de Sousa Mendes cabe também nesta história, pois apenas em 1988 a Assembleia da República decidiu em conformidade. Ainda hoje, diz Cláudia Ninhos, a memória surge dividida entre “o herói que se transformou em figura de culto e o cônsul que desobedeceu e cujo papel no salvamento de refugiados é objecto de branqueamento por alguns autores, curiosamente, diplomatas como ele.”

Lembrando a data em que, em Bordéus, Sousa Mendes decidiu assinar, em nome da sua formação, vistos para todos os refugiados (resumindo o livro a história de uma família, a do polaco Stefan Rozenfeld, a título de exemplo), o Papa Francisco instituiu, em 2020, o 17 de Junho como o “Dia da Consciência”, assim lembrando uma figura inspiradora em prol da dignidade humana.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 873, 2022-06-22, p. 10


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ruben A.: liberdade no pensamento e na escrita


 

“Para os que quiserem dados objectivos de catalogação, informo que nasci no dia 26 de Maio de 1920, na Praça do Rio de Janeiro, número 25, 1º andar, em quarto que dá para o jardim chamado do Príncipe Real e que tem por lá a árvore mais extraordinária da cidade de Lisboa. Até essa altura eu era propriedade de minha Mãe.” O aviso consta na abertura do primeiro volume de O mundo à minha procura (1964), de Ruben A., nome literário de Ruben Alfredo Andresen Leitão (1920-1975), obra que teve mais dois volumes (1966 e 1968).

A escrita autobiográfica é uma das partes significativas da bibliografia de Ruben A. - Páginas (seis volumes, entre 1949 e 1970) e Um adeus aos deuses (1963) são os restantes títulos, todos com uma escrita vertiginosa, alheia a escolas, única, ao ritmo dos acontecimentos, que alia a cultura, a alegria, o gosto e as histórias intensas de uma vida, contada desde a infância, num misto de memórias, diário, relato de viagens, ironia, literatura, reflexão, inovação - “Escrevo por uma necessidade vital, biológica, fisiológica, anti-séptica, antibiótica.” (Páginas, VI).

Esta intensidade trouxe-lhe amarguras logo no segundo volume de Páginas (1950): lido por Salazar, Ruben A. foi levado a abandonar o leitorado no King’s College e iniciar uma peregrinação difícil, mas sem que o entusiasmo o abandonasse. A escrita, essa, prosseguiria - “um tipo como eu sem caneta é como missa sem padre” (Páginas, III, 1956).

Ao longo dos dez volumes, surge também o retrato social do seu tempo nos mais variados planos. Apreciador do belo em todas as áreas, defende que “a classe de uma pessoa provém 75 por cento da boa educação, 20 por cento da cultura e os outros cinco por cento distribuídos por vários factores mais ou menos racionais” (Páginas, IV, 1960), apontando referências - “Classe: existir no mundo um museu onde só é permitido tocar Bach e Beethoven” (Páginas, I); também Inês de Castro, “a mulher com mais categoria na nossa pátria de pouca história de mulheres para contar” (O mundo à minha procura, II). Em oposição, cria uma personagem como o Dr. Barbosa e Costa, que passa aqui e ali, “a figura mais notável da minha imagística pessoal” (Páginas, VI), para justificar, talvez, que “raras vezes os títulos, os cargos, ou os canudos mudam a coluna dorsal instalada no esqueleto do indivíduo” (O mundo à minha procura, III).

O ideal estético levou-o à Grécia (com esfuziante relato em Um adeus aos deuses), onde visitou nu o Museu Nacional de Atenas - “disse ao director que para ver bem o museu tinha de me despir (...). Meus Deuses, foi a primeira vez que vi as estátuas contentes”. Assim exprimia o desejo “total, absoluto, de penetrar naquele mundo” das esculturas helénicas, autenticidade também experimentada quando, em Epidauro, teve necessidade de ler Ésquilo em voz alta no teatro, surpreendendo os outros visitantes.

A construção da liberdade passa por vivências como a república coimbrã “Babaouo”, a viagem num táxi londrino de 1933 (o “Lord Snob”) de Inglaterra até Carreço, a distinção acutilante entre o Ruben A. e o Ruben B., a invenção de palavras, um mundo em que cada vez se vê “menos teórico nas coisas da vida”.

Miguel Torga, que lhe foi próximo, classificou a escrita de Ruben A., quando soube do seu falecimento, como “a singularidade de um estilo desabusado, emblematicamente vivido” (Diário, XII), traços que devem determinar a sua leitura e o apreço do leitor de hoje.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 528, 2020-12-16, p. 2.

 

quinta-feira, 19 de março de 2015

Para a agenda: Natália Correia em Setúbal 50 anos depois



Uma peça com meio século, O Homúnculo, de Natália Correia, sobe ao palco em Setúbal, com as caras do Teatro Estúdio Fontenova. A peça que terá irritado Oliveira Salazar e que teve o carimbo da proibição logo que nasceu. Entre 20 e 22 de Março, em Setúbal. Para a agenda.
Segundo referiu Fernando Dacosta, em artigo divulgado no diário Público, em 14 de Maio de 2014, «o caso mais surpreendente ocorrido com Natália Correia no tempo da ditadura deu-se (…) com o Homúnculo, arrasadora peça (nunca representada) sobre Salazar — que a leu num serão, não conseguindo, impressionadíssimo, dormir nessa noite. No dia seguinte Silva Pais procurou-o para lhe comunicar a apreensão da obra e a (iminente) prisão da autora. Depois de prolongado silêncio, o presidente do Conselho de Ministros respondeu: “Fizeram bem em retirar o livro mas não toquem em Natália Correia porque é uma pessoa muito, muitíssimo inteligente!”»
Para a agenda!

domingo, 11 de novembro de 2007

Vasco Pulido Valente e o Museu Salazar

No Público de hoje, Vasco Pulido Valente escreve sobre "A casa de Santa Comba Dão", pensando sobre a criação do Museu Salazar que tem gerado controvérsia entre a autarquia local, que o quer instituir, e a esquerda, que fomentou um abaixo-assinado, contestando a sua criação, recentemente entregue na Assembleia da República. Diz VPV: «Santa Comba Dão quer agora fazer "um museu" da casa de Salazar. O que se compreende muito bem. Tanto quanto sei, só a casa de Salazar pode atrair a Santa Comba Dão um ocasional turista; e o "museu" fica por uns potes de cal e uma limpeza. Com sorte, o café da terra, se existir, ganha algum dinheiro e aparece um espertalhão a vender "relíquias". Tudo isto é inofensivo e um pouco patético. Mas bastou para provocar a indignação da velha esquerda pliocénica, que nem sempre se distinguiu pelo ardor democrático. Um abaixo-assinado, entregue solenemente na Assembleia da República, pede que se proíba o "museu", como se o "museu" fosse uma espécie de reabilitação de Salazar e o salazarismo ameaçasse ressurgir do Vimieiro a um euro e meio por bilhete. Não ocorre a ninguém que de Santa Comba Dão nunca virá um culto de Salazar como o culto (aliás, ridículo) de Mussolini em Predappio. Ao neo-salazarismo faltam as forças que provocaram e criaram o salazarismo (…). Salazar é um homem do passado remoto. De um passado irreconhecível. O negócio de Santa Comba Dão com a casa do homem é irrelevante para a cultura política do regime. E talvez não seja para Santa Comba Dão. Os censores da consciência nacional deviam, de preferência, olhar para eles.»

sábado, 10 de novembro de 2007

Pacheco Pereira e o Museu Salazar

No Público de hoje, José Pacheco Pereira escreve "Uma história de dois museus", tomando como objecto o Museu do Neo-Realismo, em Vila Franca de Xira, e o pensado e controverso Museu Salazar, em Santa Comba Dão. Eis o final da reflexão de Pacheco Pereira: "O Museu Salazar desejado em Santa Comba Dão é uma má política de valorização da autarquia, que ganhava muito mais em preservar esses bens e a casa de Salazar e tentar integrá-los num tratamento histórico e científico distanciado. Ou será que a autarquia se pensa a si própria no "espírito" de pobreza do seu homenageado? Quererá o mesmo país pobre e rural, atrasado e limpinho, com altas taxas de analfabetismo e de mortalidade infantil e toneladas de ouro no Banco de Portugal, que Salazar preferia aos riscos da revolução social que significava a industrialização e o "progresso"? Seguirá o senhor presidente da câmara o exemplo austero de Salazar e porá uma mantinha nos seus joelhos e dos vereadores para poupar à autarquia umas despesas suplementares desnecessárias? Que mal tem a mantinha se o dinheiro poupado dá para um fontanário? Se Santa Comba Dão se pretende valorizar como terra de futuro pelo culto de Salazar, dá de si uma péssima imagem, como daria a sua congénere de Vila Franca de Xira se se ficasse pela nostalgia dos meninos dos esteiros e dos trolhas de Pomar. Pensem nisso."
[foto: casa de Salazar em Vimieiro (Santa Comba Dão)]