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quinta-feira, 4 de julho de 2024

Visitar Setúbal pela fotografia de Antero Frederico de Seabra (3)

 


Chegados próximo da capela do Carmo, temos Antero Frederico de Seabra a captar para o seu Álbum Fotográfico um olhar desde a ponte do Carmo sobre o ribeiro do Livramento, sítio de onde são vistas mais três pontes, formas de acesso à zona de Troino e Convento de Jesus, monumento que é também objecto de uma fotografia, apresentando o cruzeiro em sítio diferente do actual, um terreiro arborizado e cruzes dos Passos no exterior do Convento. Ali bem perto, outro registo faculta-nos o panorama que, desde o Largo das Almas, vai até à igreja de Nossa Senhora da Saúde, fotografia que evidencia a vivência agrícola nos terrenos do actual Montalvão, num cenário rural que se manifesta também pelo carro de bois nas proximidades da fonte de S. Caetano. Um pouco mais adiante, Brancanes surge em duas reproduções: uma, a partir do cruzeiro de Brancanes (que já não existe), destaca a Quinta dos Bonecos e o ambiente agrícola em torno; noutra, o convento de Brancanes apresenta a sua magnificência, sendo ainda possível ver aquela que era a fonte de S. João Baptista.

Se, a partir da Praça de Bocage, nos dirigirmos para S. Sebastião, a lente de Antero de Seabra faz-nos parar várias vezes. A primeira, na contemplação da fachada da igreja de Santa Maria, mostrando-nos o revestimento azulejar na base do edifício e as duas cordas sineiras, uma para o toque das cerimónias religiosas, outra para o anúncio de qualquer catástrofe. Segue-se o convento e igreja dos Grilos, com o amplo adro de Palhais na sua frente, espaço hoje dividido entre Palhais e Quebedo, numa delimitação que a via férrea consagrou. Nas traseiras do templo, temos o Cemitério de Setúbal, numa fotografia que revela a escassez de arte tumular e a predominância de campas rasas. Subindo ao designado Largo das Areias, em zona descampada (que equivalerá hoje ao espaço entre a designada Escola das Areias e a avenida Jaime Cortesão), a fotografia apresenta uma visão de Setúbal, apanhando em primeiro lugar os cemitérios da Piedade e dos Ingleses e a muralha, estendendo-se a vista até ao alto onde se situa a fortaleza de S. Filipe, paisagem em que se destacam as torres das várias igrejas da cidade, a baía e a praia e grande quantidade de moinhos que povoam a crista da serra. Do lado nascente, na margem do Sado, há ainda uma reprodução que mostra o movimento portuário, o quartel, as docas, numa vista que nos leva até à fortaleza e aos inúmeros moinhos já referidos.

Na direcção da serra, pode o olhar contemplar ainda uma fotografia do gasómetro, a central que fornecia a luz aos candeeiros da cidade (visíveis em muitas fotografias), localizado junto da praia e do rio, onde se misturam barcos de pequeno e de grande calibre. A partir da praia de Troino, há um registo que nos leva até à fortaleza de S. Filipe, numa paisagem sem arvoredo, mostrando, junto ao rio, o estaleiro e numerosas embarcações com origem na região de Ovar, as “meias-luas”, cujas proa e popa se levantam numa curva muito delineada em crescente. Uma chegada ao convento de S. Francisco permite-nos ver, numa das fotografias, o estado de ruína a que o mesmo chegou, com uma cidade que se divisa ao longe, enquanto noutra, a última do Álbum, uma panorâmica de Setúbal apresenta a cidade ainda quase dentro de muralhas, entre o início do que viria a ser a avenida de S. Francisco Xavier e um espaço repleto de moinhos em território hoje densamente povoado, na freguesia de S. Sebastião, fotografia que mais documenta a ligação da cidade ao rio e também a imagem que parece englobar tudo quanto foi mostrado antes, em ampla visão.

A morfologia e a vida de Setúbal no tempo entre 1866 e 1867 facilmente chegam ao leitor curioso de hoje, que pode associar o relato da visita que a esta cidade fez Hans Christian Andersen em 1866 e as fotografias que, no ano seguinte, Antero de Frederico de Seabra registou na designação conhecida como Álbum Fotográfico (que, agora, a LASA publicou). A impressão vinda da conjunção das duas leituras será, de certeza, mais intensa e diversa do que a fornecida pela quantidade das “kodaks” disparadas pelos japoneses que António Ferro presenciou na travessia do Grande Lago Salgado mais de meio século depois...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1333, 2024-07-03, pg. 10


quarta-feira, 19 de junho de 2024

Visitar Setúbal pela fotografia de Antero Frederico de Seabra (1)

 


Em 1927, António Ferro visitou os Estados Unidos e, três anos depois, deixou relato da viagem num livro cujo título — Novo Mundo Mundo Novo (Portugal-Brasil Sociedade Editora, 1930) — era um deslumbrado olhar sobre essa ideia de novidade avassaladora que parecia definir a construção do futuro a partir da América. No momento em que relembra a visita ao Grande Lago Salgado, no estado do Utah, regista: “O ‘Overland Limited’ vai passar o Great Salt Lake. É uma linha férrea construída milagrosamente, sobre um lago imenso, um lago que sonha com o mar. Uma travessia de mais de duas horas. O ‘Observation Car’ tem uma enchente. Todos os passageiros querem ver o espectáculo único. Os japoneses, na plataforma da carruagem, apontam ‘kodaks’, como pistolas, para todos os lados.” A marca Kodak tinha cerca de 40 anos (fora fundada em 1888) e, por ter criado modelos de máquina fotográfica facilmente transportáveis, rapidamente o nome da marca se generalizou como designação do aparelho fotográfico.

Não foi desse tempo Antero Frederico de Seabra (1821-1883), que faleceu cinco anos antes do nascimento da Kodak. Na sua época, fazer fotografias não era tão acessível nem tão fácil como viria a ser naquela em que António Ferro circulou na América e se deixou impressionar pelos japoneses que apontavam “kodaks” para tudo quanto parecesse memorável. Arte entusiasmante por poder fixar o momento, documentando-o sem rugas para a posteridade, e por poder divulgar pelo mundo o objecto e o tempo olhados pelo artista, a fotografia carecia de equipamento complexo e volumoso e de um processo nada simples de fixação da imagem no papel.

Pela segunda metade do século XIX, a técnica usada para impressão fotográfica era a da albumina, que criava uma película impeditiva da absorção do nitrato de prata pelo papel, conservando a imagem mais contrastante e com relativo nível de brilho. Foi este o método seguido por Antero Frederico de Seabra, o que permitiu que as fotografias que fez na década de 1860 tivessem chegado até hoje com um considerável nível de conservação e de legibilidade.

A paixão deste pombalense pela fotografia começou cedo, tendo frequentado as aulas de Filosofia Química na Universidade de Coimbra em 1845/46, que lhe proporcionaram desenvolver a técnica e a prática fotográfica, granjeadoras da participação em exposições e de algumas distinções. Monumentos e paisagens constituíram os motivos essenciais que impressionaram a sua lente, tendo mesmo obtido licença régia para proceder a um levantamento fotográfico nacional, conforme se pode ver nos registos arquivados no Centro Português de Fotografia, que nos mostram aspectos vários de localidades como Arcos de Valdevez, Barcelos, Braga, Coimbra, Guimarães, Leça do Balio, Lisboa, Lousã, Ponte da Barca, Ponte de Lima, Porto, Viana do Castelo, Vila do Conde e Vila Nova de Gaia.

Entre 1864 e 1867, Antero Frederico de Seabra esteve em Setúbal em funções militares, aproveitando a oportunidade para fotografar a cidade e arredores. O objectivo não era apenas o do registo para sua recordação; passava também pela construção de um Álbum Fotográfico de Setúbal, com a previsão inicial de ser constituído por três séries de dez quadros cada, visando o propósito de ser vendido a assinantes. O trabalho não se terá completado, sendo conhecidas apenas 17 reproduções, iniciadas em 1867, interrupção que se terá devido à transferência do militar-fotógrafo para Elvas e a motivos de saúde.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1323, 2024-06-19, pg. 9.


quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Histórias dos avós na memória



Em 7 de Dezembro de 1998, perante a Academia Sueca, José Saramago iniciava o seu discurso por uma evocação: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. Às quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos. (...) Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro.”

A intenção de Saramago era falar sobre as personagens da sua ficção, inspiradas em pessoas que conheceu e que trabalhou literariamente. Nessa intervenção, que pode ser lida em Último caderno de Lanzarote (2018), Jerónimo e Josefa são apresentados: “bom carácter”, muito pragmáticos, sábios e... sonhadores - a avó, já viúva, confessou ao neto: “O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer”; o avô, pressentindo a chegada da morte, “foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver.” Pelos tempos, ficou ainda a sabedoria do avô, superior contador de histórias, alimento da imaginação do neto: “Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo.”

Igual fascínio pelos avós traz José Tolentino Mendonça no seu mais recente livro de poesia, Introdução à pintura rupestre (2021), peregrinação à infância por onde passam os avós e uma poderosa lembrança da avó num texto final, retomado de outro publicado em 2014: “A minha avó analfabeta (...) foi o meu bosque, a minha viagem, o meu livro. E também um primordial amor.” Já noutra obra, O que é amar um país - O poder da esperança (2020), o poeta madeirense reconhecia: “Quando tomei posse como arquivista e bibliotecário da Santa Sé, uma das referências que quis evocar foi a da minha avó materna, que era uma mulher analfabeta, mas que foi para mim a primeira biblioteca. Em criança, eu pensava que as histórias que contava, ou as cantilenas com que entretinha os netos, eram coisas de circunstância, inventadas por ela. Depois descobri que faziam parte do romanceiro oral da tradição portuguesa. E que afinal aquela avó analfabeta estava, sem que nós o soubéssemos, e provavelmente sem que ela própria o soubesse, a mediar o nosso primeiro encontro com os tesouros da cultura.”

As imagens que dos avós se conservam são habitualmente felizes e nem sempre fáceis de fazer passar. Rita Ferro sentiu-o quando pensou escrever a biografia do avô, António Ferro, figura pública. Depois de várias tentativas e de confrontos com opiniões sobre o seu avô, decidiu adiar o projecto, como refere no diário Veneza pode esperar (2014): “Penoso, pois, um trabalho sobre o meu avô de uma perspectiva consanguínea, particular e desalinhada. (...) Tenho uma ideia íntima de António Ferro, precisa como um retrato e pessoal como uma moldura. É essa e não outra que um dia gostaria de escrever.”

A imagem dos avós é algo de grandioso, alimentada graças às histórias transmitidas, ao saber, ao carácter e a uma visão positiva da vida.  Daí que a personagem de António Canteiro, no romance Vamos então falar de árvores (2020), diga: “Nós, os netos, somos feitos a partir da massa de tender dos avós, a partir das histórias que nos contam e ficam na memória para sempre.”

* J.R.R. O Setubalense: nº 726, 2021-11-03, p. 9.


sábado, 29 de abril de 2017

A propósito da "gorda" que é a "Menina da Mala", de João Duarte, em Setúbal, e de outras possíveis esculturas



As celebrações do 25 de Abril em Setúbal foram a oportunidade para a inauguração de uma escultura na Avenida Luísa Todi da autoria de João Duarte, “Menina com Mala”, de uma série de três, conhecidas como “as gordas” (outra escultura, “Menina com Cadeira”, no Largo Francisco Soveral, de 2016, e uma outra, "Dolce Vita", no Largo da Misericórdia, de 2015).
Esta, que transporta a mala, tem também a máquina fotográfica. Turista à procura da identidade dos outros ou apenas curiosa por ver a sua congénere que está no largo mesmo em frente, depois de passado o túnel que lhe dá acesso?
Quanto à máquina fotográfica, não podemos esquecer a cada vez mais presente prática de os visitantes quererem registar o visto (incluo-me no rol). Mesmo quando nos deixamos ofuscar pela prática dos turistas orientais que bombardeiam a paisagem e os museus com disparos de máquinas fotográficas!... A este propósito, não posso deixar de me lembrar de António Ferro, que, a propósito de uma visita aos Estados Unidos no final da década de 1920, registava a seguinte nota de viagem: “O ‘Overland Limited’ vai passar o Great Salt Lake. É uma linha férrea construída milagrosamente, sobre um lago imenso, um lago que sonha com o mar. Uma travessia de mais de duas horas. O ‘Observation Car’ tem uma enchente. Todos os passageiros querem ver o espectáculo único. Os japoneses, na plataforma da carruagem, apontam kodaks, como pistolas, para todos os lados.” (Novo Mundo Mundo Novo. Lisboa: Portugal-Brasil Sociedade Editora, 1930, pg. 158). Já nessa altura os disparos das máquinas fotográficas dos japoneses eram o que se vê... só não haveria os “sticks”!
Mas vamos às esculturas “gordas”. Por mim, gosto! É uma forma de o transeunte, turista ou não, parar, contemplar e rir. Ainda ontem, quando fui ver a escultura, me entretive a ouvir os comentários de alguns passantes. E não fomos em grupo nem combinámos, cruzámo-nos lá. Bem divertido! E todos ríamos com gosto, como se a escultura estivesse ali para suscitar os comentários, para nos interpelar... E estava!
Nas redes sociais, a discussão tem sido acalorada. Normal, num espaço onde se discute tudo, mesmo que não se saiba o quê. Com concordâncias e discordâncias fundamentadas, mas também com apreciações a fazer o jeito à ideologia... Por mim, gosto das esculturas, insisto!
Recordo o momento em que, há uns anos, em Monchique, me cruzei com estátuas nos passeios ou em que elas se cruzaram comigo. E o passeio parava por momentos, como se fôssemos convidados a parar. E gostei.
Por mim, insisto outra vez, gosto. E divirto-me a olhar as esculturas e a ver os outros a olharem-nas e a comentarem-nas. Como gosto das manifestações de “street art” que têm animado a cidade. Ainda bem que, em Setúbal, se está a dar importância à arte pública! Aliás, estamos a dar importância! E digo isto sem qualquer compromisso com o poder, que não o tenho.
É claro que podemos propor a quem de direito outros monumentos. Sobretudo num tempo em que as rotundas vão ganhando espaço. E, por mim, avanço com três propostas: José Afonso, Vasco Mouzinho de Quebedo e Hans Christian Andersen. Discutíveis, eu sei, sobretudo se pensarmos que poderiam ser outras três e outros três os motivos e os homenageados. Mas dou a cara por estas: a do José Afonso, por ser um símbolo de Abril, por ser uma marca dos cantautores e da música de intervenção, por ser um poeta-músico e ter ligação intensa às terras de Setúbal; a de Quebedo, por ter sido o autor da segunda maior epopeia em língua portuguesa, assim considerado pela cultura, e pela sua filiação setubalense; a de Andersen, por ter sido um estrangeiro que visitou Setúbal e de Setúbal disse e escreveu muito bem, justificada ainda porque seria uma forma de honrarmos quem nos visita com a dedicação ao outro, neste caso um estrangeiro (Málaga, em Espanha, que ele visitou e sobre a qual escreveu, erigiu-lhe monumento em lugar nobre da cidade, com cerimónia que envolveu o reino da Dinamarca; Nova Iorque - que ele não conheceu e sobre a qual não escreveu, mas que tem dinheiro - ergueu-lhe estátua grandiosa no Central Park).
Haja espaços e patrocinadores e a identidade de Setúbal continuará a passar também por estas manifestações!

terça-feira, 24 de março de 2015

"Orpheu", 100 anos hoje



Com o subtítulo de "Revista Trimestral de Literatura", o primeiro número de Orpheu surgiu em Lisboa em 25 de Março de 1915, dirigido por Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho. Passados três meses, em 28 de Junho, apareceu o número dois, dirigido por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Editada por António Ferro (1895-1956), a revista teve capa, nos  dois números, de José Pacheco (1885-1934). Colaboradores dos dois números foram Alfredo Guisado (1891- 1975), Almada Negreiros (1893-1970), Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), Ângelo de Lima (1872-1921), Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), Eduardo Guimaraens (1892-1928, brasileiro), Fernando Pessoa (1888-1935), Luís de Montalvor (1891-1947), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Raul Leal (1886-1964), Ronald de Carvalho (1893-1935, brasileiro), Santa Rita Pintor (1890-1918) e Violante de Cysneiros (pseudónimo de Côrtes-Rodrigues).
Na "Introdução", publicada no primeiro número, escreveu Luís de Montalvor: "Nossa pretensão é formar, em grupo ou ideia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio aristocrático tenham em Orpheu o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos".
A reacção aos dois números da revista (de que há reedições a cargo de Edições ÁticaI pautou-se por classificações que reflectiam o escândalo provocado: "literatura de manicómio" e "doidos com juízo", entre outras. Textos para o terceiro número de Orpheu chegaram a ser impressos, não tendo, contudo, a revista sido publicada (foi feita edição das provas de página em 1984, sob a responsabilidade de Edições “Nova Renascença”). Entre os textos conhecidos para esse terceiro número contam-se como autores Mário de Sá-Carneiro, Albino de Meneses (1889-1949), Fernando Pessoa, Augusto Ferreira Gomes (1892-1953), Almada Negreiros, D.Tomás de Almeida (1864-1932), C. Pacheco (heterónimo de Pessoa) e Castelo de Morais (1882-1949), sendo o texto mais importante o de Almada ("Cena do ódio", depois publicado na revista Contemporânea, em Janeiro de 1923).
Sobre o papel desempenhado por Orpheu escreveu Fátima Freitas Morna: "é um caso particularmente interessante entre os muitos que lhe poderiam constituir paralelo na Europa povoada de 'ismos' e revistas dos anos que rodeiam a Primeira Guerra Mundial. Em vez de se proclamar como um movimento, ou órgão de um movimento, Orpheu aceita ser o lugar de choque e de trabalho de vários movimentos." (A Poesia de 'Orpheu'. Col. "Textos Literários", 26. Lisboa: Editorial Comunicação, 1982).
Ao longo dos tempos, o título Orpheu tem sido apontado como uma das revistas literárias mais revolucionárias e tem sido alvo de inúmeros estudos pelo papel desempenhado na expressão futurista em Portugal. Em Bruxelas, chegou a ser fundada uma livraria vocacionada para a literatura e cultura portuguesas a que foi dado o nome de “Orpheu”. Já neste ano, a revista tem sido objecto temático de várias publicações, como JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (nº 1159, 4.Março.2015) ou Estante (FNAC: nº 4, Inverno.2015). Também recente é a edição filatélica de um selo desenhado sobre quadro de Almada Negreiros, alusivo ao centenário da revista (CTT, 2015). Na celebração destes cem anos da revista Orpheu, estão ainda envolvidas exposições (como a da Biblioteca Nacional) ou edições como 1915 – O ano do Orpheu, organizada por Steffen Dix (Lisboa: Tinta-da-China, 2015).
[foto: selo comemorativo do centenário da revista Orpheu - CTT, 2015]

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Fernando Pessoa: 80 anos de "Mensagem"



Em 1 de Dezembro de 1934, há 80 anos, era posto à venda o título Mensagem, único livro que Fernando Pessoa publicou em português. Para lá da simbologia que poderia haver na escolha da data para a entrada do título no circuito comercial por parte da editora Parceria António Maria Pereira, também é verdade que o livro esteve para ter o título de Portugal.
Se não o teve foi por influência de um amigo do autor e por uma decisão de rejeição. Com efeito, o nome do país andava a ser usado comercialmente em campanha promotora do nome “Portugal”. E Pessoa confessa num dos seus escritos: “O meu livro Mensagem chamava-se primitivamente Portugal. Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar – a observação era por igual patriótica e publicitária – que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia.”
Onésimo Teotónio de Almeida cita texto de José Blanco a propósito do prémio atribuído a Mensagem em 1934: “A Mensagem não chegava às 100 páginas regulamentares, ao contrário do livro do padre Vasco Reis, pelo que concorreu à categoria B (poema ou poesia solta). Foi, como se sabe, por intervenção directa de António Ferro que o montante do respectivo prémio, para o qual a Mensagem tinha sido passada apenas por uma simples questão de número de páginas, foi elevado para 5000$00, exactamente o mesmo atribuído pelo regulamento à obra premiada na categoria A.” (in Pessoa, Portugal e o Futuro. Lisboa: Gradiva, 2014)
Vasco Reis, sacerdote flaviense, ganhou o prémio com A Romaria, também publicado em 1934. Mais tarde, passaria a assinar as suas obras, romances de teor colonial (entre outros: Cafuso, 1956; Filha de Branco, 1960; Caminhos, 1961; Queimados do sol, 1966), com o nome de Reis Ventura, pseudónimo de Manuel Joaquim Reis Barroso (1910-1992). Em vários momentos, o autor de A Romaria confessou que o verdadeiro vencedor do Prémio Antero de Quental de 1934 deveria ter sido Mensagem.