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quarta-feira, 12 de maio de 2021

Afonso Cruz - Por falar em livros...



“Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.” Esta personificação sobre a resiliência dos livros é trazida por Afonso Cruz na sua recente obra O vício dos livros (Companhia das Letras, 2021), três dezenas de textos em que são contadas histórias relacionadas com livros, leitores e descobertas.

Tão interessante sensibilidade dos livros pode ser encontrada num texto intitulado “Porque não há muitos leitores”, exercício de reflexão sobre a vontade que não existe nos não-leitores para descobrirem a mensagem que escorre pelas páginas, com o argumento repetitivo da “falta de tempo”... isto é, para se ser mais claro, reconhecendo que ler dá trabalho e exige condições específicas - a atenção, o silêncio, o recolhimento, numa palavra, a dedicação do leitor, que nunca pode esperar uma compensação imediata.

Por estas incursões passam histórias sempre dominadas pela marca comum da valorização do protagonista que o livro assume ser. Umas são passadas com outros escritores e leitores - Kafka e as cartas de uma boneca para a sua dona-menina até um final feliz, Balzac e a sentida morte da personagem que era a duquesa de Langeais, Dionísio de Siracusa e os seus versos sem arte que nem o autoritarismo conseguiu impor, Eurípides e a força da poesia libertadora de escravos, a máxima que Ramsés II escolheu para a sua biblioteca - “casa para terapia da alma”. Outras ocorreram entre pessoas que sentem a vida pelas histórias que protagonizam - a avó quase centenária que se sentia útil por poder contar as suas memórias ou a discussão nos Montes Urais sobre a maior importância da poesia ou da prosa que levou a que o defensor da poesia matasse o seu oponente. Há momentos que foram vividos pelo próprio autor, relatados numa revisitação autobiográfica enquanto leitor - o adolescente que procurava a distância mais longa entre dois pontos para o tempo render em favor da leitura, a descoberta de uma escritora árabe para quem a leitura originou a sua libertação, a experiência são-tomense em torno do sabor e do afecto revelado pela atenção dada às palavras, a dedicatória deixada pelo avô num livro para o neto só descoberta vinte anos depois da morte do avô. E há a reprodução de muitas reflexões sobre a leitura, geralmente pontos de partida para associação de outras ideias ou para reflexão própria sobre o acto e o gosto de ler - de resto, a obra conclui com mais de três dezenas de referências bibliográficas, maioritariamente relacionadas com o triângulo formado pelo livro, escrita e leitura.

Algumas crónicas deste livro são curtas, quase não ultrapassando o apontamento. Outras surpreendem pelas associações e pelos extremos a que a paixão pelo livro pode levar. Em todas surgem verdades intensas sobre o acto de ler, num enredo capaz de enlaçar o leitor, que nelas acaba por se encontrar. É que “abrir um livro é abrir pessoas e explorar o nosso próprio mundo através da experiência dos outros. O território inexplorado dentro de nós é acessível através dessa imersão em personagens que nunca fomos e jamais seríamos ou talvez venhamos a ser, e em vidas que nunca tivemos e jamais teríamos ou vidas que serão o nosso destino. As personagens dos livros que lemos são o meio de transporte para o que não somos, ou melhor, para o que somos sem ser.” Afonso Cruz, leitor e construtor de personagens, dixit...

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 620, 2021-05-12, p. 9.


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Eugénio Lisboa cativa leitores relutantes


O título envolve um convite, embrulhado em emoção, numa exclamativa. É curto, duas palavras. Mas um subtítulo chama a atenção para o que tão conciso título pretende. Vamos ler! - Um cânone para o leitor relutante é o mais recente livro de Eugénio Lisboa (Guerra & Paz, 2021), leitor contumaz, a falar da felicidade de ler para interlocutores a conquistar.

A aventura começa com recuo à infância moçambicana do autor, numa família sem “folga financeira para comprar livros, para além dos escolares”, numa casa cuja arrecadação guardava num baú, “dezenas e dezenas de números de uma revista brasileira, com um título que era um verdadeiro chamariz”. Chamava-se... Vamos ler!, oferecendo “reportagens, verbetes dedicados a grandes escritores do passado e do presente (daquele presente!), contos de autores famosos, novelas policiais excitantes e até peças de teatro”. O trilho da leitura: “à falta de livros, fui-me embrenhando na boa e variada literatura que a revista me oferecia. ‘Vamos ler!’, dizia o título da revista - e foi isso mesmo que me dispus a fazer: ler.”

A persistência e o gosto levaram o jovem para um cruzamento de géneros, tempos, culturas, numa viagem fascinante que o faz afirmar: “As pessoas que nunca adquiriram o gosto de ler não fazem ideia do prazer incomensurável que desperdiçam.” Esta asserção conduz a Virginia Woolf, pelo seu cenário do Dia do Juízo, no momento de recompensar heróis - dirá Deus a Pedro, quando alguém chegar com livros debaixo do braço: “Olha, estes não precisam de recompensa. Não há nada que possamos dar-lhes. Eles já gostam de ler!” Criados os passos, Eugénio Lisboa diz ao que vem: “Era precisamente para este estatuto de ‘pessoas que já gostam de ler’ que eu gostaria de seduzir as pessoas pouco habituadas à leitura. E uma coisa prometo, desde já: não fazer batota.”

Vamos ler! apoia-se em dois vectores: o da sedução e o da sinceridade de leitor experimentado. Se aquele cativa vontades, este aponta caminho não complexo nem difícil. Isto é: neste livro “trata-se de congeminar uma isca astuta e não de exibir uma cultura sofisticada e faraónica.”

O fingimento sentido no mundo literário é repudiado por Eugénio Lisboa, sobretudo pelo snobismo do “fica bem” ou do “dar estatuto”. Daí a palavra “cânone” no título, termo habitualmente guardado para associar a ideologia ao gosto, à norma, prescritivo, mas que Eugénio Lisboa usa em dimensão modesta e próxima, chegando a dizer não ser o “seu”, mas “um” cânone para que não haja leitores relutantes e também para ironizar com os cânones que deixam de fora, por exemplo, uma poeta como Sophia...

As visitas propostas passam por uma lista de 50 obras de 35 autores, todos portugueses (na verdade, são muitos mais e há imensos estrangeiros, pois as incursões sobre os seus gostos literários são outros tantos “iscos”, ainda que fora da lista), ordenada do “mais recente para o mais antigo”, estratégia pedagógica iniciada com Miguel Sousa Tavares até chegar a Camões, também descobrindo em alguns canónicos dos programas escolares as virtudes que ficam normalmente à porta do estudo. Não, não vou dizer quais são os autores - apesar de poder haver alternativas válidas, a proposta de Eugénio Lisboa é coerente, pois assenta no princípio de que “vale a pena ler”, verdade tão universal que até Bill Gates afirmou: “Os meus filhos terão computadores, sim, mas antes terão livros”, porque, “sem livros, sem leitura, os nossos filhos serão incapazes de escrever, inclusivamente a sua própria história.” E conclui o autor: “E, agora, VAMOS LER!” 

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 591, 2021-03-30, p. 10.


sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Helena Buescu e Inger Enkvist: duas opiniões sobre educação a ler hoje


No Público de hoje, dois bons textos sobre educação que merecem uma leitura e um olhar atentos.

   

O primeiro, de Helena Carvalhão Buescu (a ler aqui), sobre as aprendizagens essenciais, sobretudo no domínio do Português do ensino secundário. Um texto de preocupações que, mais do que serem dos professores, deviam ser dos pais, das famílias e da sociedade. Reduzir o ensino secundário ao “essencial”, seja isso o que for, é dar uma machadada no espírito crítico tão necessário, é deixar ao livre arbítrio dos níveis de exigência (não da exigência em si) a preparação e o apoio aos alunos, á ajudar a que se pense e conheça cada vez menos. Os argumentos de Buescu, que subscrevo (para que dúvidas não restem), fazem-me lembrar uma história passada com um colega, professor de Português, há uns anos: uma mãe de um seu aluno de 11º ano encontrou-o e, feliz, contou-lhe que o filho estava a estudar Os Maias. Quando o colega quis saber como era feito esse estudo (que só podia ser através da leitura da obra, obviamente), a progenitora explicou que, todos os dias, à noite, lhe lia um bocadinho do romance até ele adormecer...

O segundo texto é uma entrevista feita por Bárbara Wong à professora universitária sueca Inger Enqvist (que pode ser lido aqui), que, nos seus 71 anos de saber e com uma simplicidade impressionante, diz verdades fundamentais que variadas correntes têm andado a contestar e a alastrar essa oposição, estando a deixar marcas nos sistemas educativos. Marcas que, como sabemos, são fenómenos de moda e que deixarão resquícios de que nos viremos a arrepender, por certo. Vale a pena ler a entrevista na íntegra, independentemente de nos situarmos na sociedade como pais, como professores ou como educadores. Acho que serve para todos, sem excepção. Deixo algumas citações:
“Aprender a aprender”- O “aprender a aprender” dá a ideia de que se aprendeu alguma coisa que se pode usar noutras situações, mas a investigação diz que não. É preciso aprender os factos para se ser capaz de pensar, compreender e chegar a conclusões. É preciso ter muito conhecimento para ser capaz de pensar bem. 
“Em Portugal ou no Reino Unido, ninguém quer ser professor” -É um problema também noutros países. Em comum, têm o facto de terem introduzido a “nova pedagogia” que diz que o estudante tem direitos e não é obrigado a obedecer ao professor. Quando o aluno pode entrar ou sair da sala de aula, quando pode chegar e não trazer os trabalhos feitos, ou pode dirigir-se ao professor de forma desrespeitosa, ninguém quer ser professor.
Perfil de um bom professor- Para ter bons professores é preciso ter um Governo que imponha boas regras. Um bom professor tem de ter uma boa preparação, em termos da língua e do conhecimento, e gostar de aprender. Mas é preciso aceitar que qualquer aluno possa estar em turmas de diferentes níveis. 
Os pais nunca devem falar mal dos professores?- Nunca. Podem dizer: “Se fosse eu, não faria assim, mas aprende tudo o que puderes com essa pessoa.”
Nas férias do Verão, os alunos devem continuar a estudar?-Primeiro, é necessário ir com eles para a rua, depois pô-los a ler. Ler pelo prazer. Até podem oferecer uma recompensa: “Lê dez livros e oferecemos-te uma viagem.” Se não forem bons leitores, não serão bons alunos.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

No rasto de Gavrilo Princip

A revista Ler, da Fundação Círculo de Leitores, acaba de entrar na sua 3ª série com a recente publicação do nº 134, alusivo a Junho.
Entre as obras a merecerem divulgação nesta edição conta-se o título de Tim Butcher, O gatilho (a ser publicado brevemente com a chancela da Bertrand), de que a revista publica capítulo (páginas 106-117) sob o título “Tudo estava preparado para começar em Sarajevo”. É, obviamente, a história de Gavrilo Princip, o jovem de 20 anos que, em 1914, quando o mês de Junho estava a acabar, pôs o seu nome na História ao ter disparado sobre o arquiduque Francisco Fernando.
Nesta obra, Butcher propõe-se fazer o percurso de vida de Gavrilo a partir das suas origens, na aldeia de Obljaj, onde contactou com familiares do clã Princip. Duas descobertas importantes: numa pedra, bem próximo das ruínas do que foi a casa da família, o autor confronta-se com a inscrição “G.P. – 1909”, uma “descoberta eletrizante” de algo com a assinatura da personagem em busca da qual Butcher corre. Mais adiante, uma revelação de Mile, um familiar que não chegou a conhecer Princip (nasceu em 1930), sobre a inscrição naquela pedra: «Sempre nos contaram que, enquanto estava a fazer essa inscrição, um amigo seu chamado Spiro Maric lhe perguntou por que razão estava a fazer aquilo. Ele disse que era porque ‘um dia, as pessoas vão saber o meu nome.’»
Uma história que promete e que o narrador faz questão de tornar próxima do leitor, quase como se ambos estivessem na mesma descoberta. E somos levados a ter um olhar de simpatia sobre a personagem que motiva a história… não fosse ela a que disparou o gatilho que aceleraria o início da Primeira Guerra Mundial!
 

sábado, 6 de julho de 2013

José Pacheco Pereira na "Ler"



A revista Ler, de Julho-Agosto (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores, nº 126), traz, pela mão de Ana Sousa Dias, uma entrevista com José Pacheco Pereira, peça que vale bem a pena ler por estarmos perante uma reflexão humanista, culta, que vai muito além do papel de comentador. Aqui ficam alguns excertos pela ordem por que surgem na conversa.

Saber - "Há uma certa hostilidade em relação ao saber, mesmo [ao] tipo de saber que é um saber de amador, no verdadeiro sentido do termo. Há mais defesa da ignorância, particularmente da parte daqueles que acham que sabem."
Prosápia - "A prosápia tem uma proporção inversa com a sabedoria."
Álvaro Cunhal - "É um homem muito corajoso (...). É claramente um intelectual, até naquilo em que se sente mal por ser intelectual, a tentativa de forçar uma proximidade com o mundo operário que ele na realidade nunca teve. (...) Ele teve a fé do século XX, o comunismo, uma fé que tem uma componente religiosa, uma determinação identitária que também existe no comportamento religioso, de tal maneira que ele morre com uma grande amargura. (...) É um homem que reconstrói a sua própria identidade a partir do que acha que deve ser, não a partir do que é. (...) Ele é um dos grandes portugueses do século XX e molda de uma forma importante a História portuguesa e a História do mundo. A sua influência no movimento comunista mundial não é despicienda (...)."
Europa - "Os grandes desafios têm a ver com a dificuldade que a Europa tem em entrar no mundo global. Quer as vantagens e não quer os inconvenientes, as vantagens de ser uma zona de paz e prosperidade, e não quer mudar os seus erros económicos históricos, não quer ter Forças Armadas, não quer ter Defesa, portanto não quer ser autónoma nas relações internacionais, que são dominadas desde sempre pela paz e pela guerra. Quem não seja credível nessa área não tem papel na política mundial. Isso é preocupante."
Liberdade - "Há muito tempo que as pessoas fizeram um trade off que é muito perigoso entre a liberdade e a segurança. Aceitam. Aceitam que haja câmaras na rua e que os filmem, aceitam que os Governos proponham a divulgação dos nomes dos mais pobres que recebem casas nos bairros sociais, aceitam que os Governos queiram controlar a velocidade através das horas a que se entra e se sai da autoestrada, aceitam que o fisco possa saber tudo o que se compra. Só ainda não aceitaram pôr um chip como os cães, porque ainda parece muito intrusivo, mas na verdade a nossa sociedade caminha para que as pessoas aceitem um sistema de vigilância total."
Crise - "Vamos sair da crise com um Estado disforme, não mais pequeno mas disforme, um Estado mais autoritário, mais intrusivo. Numa sociedade em que o tónus é dado pela classe média, o único processo dinâmico é o empobrecimento, a passagem da classe média para a pobreza."
Decência - "As pessoas sabem distinguir o que é decente e o que é indecente. Uma das razões por que a linguagem política à esquerda é muito pouco eficaz para exprimir o que se passa nos dias de hoje é que ela substituiu um elemento de indignação que é moral por um discurso político que é restritivo."
Revolta moral - "O tipo de desafios que se coloca hoje, em que muita gente é maltratada, muita gente está a ser conduzida à miséria por incompetência, ignorância e por experimentalismo social, exige uma revolta moral que está muito para além da esquerda e da direita."

terça-feira, 2 de abril de 2013

Hoje é o Dia Internacional do Livro Infantil


Cartaz de Maria João Worm


Alegria dos livros à volta do mundo

Lemos juntos, tu e eu.
Vemos que as letras formam palavras
e as palavras se transformam em livros
que seguramos na mão.
Ouvimos murmúrios
e rios agitados correndo pelas páginas,
ursos que cantam à lua
melodias divertidas.
Entramos em castelos misteriosos
e das nossas mãos crescem árvores em 
flor
até às nuvens. Vemos meninas corajosas 
que voam
e rapazes que pescam estrelas 
cintilantes.
Tu e eu lemos, dando voltas e mais 
voltas,
alegria dos livros à volta do mundo.

Pat Mora (trad. Maria Carlos Loureiro)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Máximas em mínimas (95) - Ler


“Costumo dizer que ler é como namorar: quem acha que não gosta é porque ainda não encontrou o parceiro certo.”
Ana Maria Machado
(in Francisca Cunha Rêgo. “Ana Maria Machado – Sempre as palavras”. JL – Jornal de Letras. Lisboa: nº 1104, 23.Janeiro.2013, pg. 15)

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

terça-feira, 3 de julho de 2012

Memória: Jorge Figueira de Sousa (1931-2012)



Não conheci Jorge Figueira de Sousa pessoalmente. Conheci a obra dele, no âmbito do que é ser livreiro, através de pessoas amigas. Participei na “Carta de Gentes do Livro”, em Novembro passado, quando o blogue Encontro Livreiro promoveu uma homenagem ao livreiro madeirense, por dever de leitor, assinando a homenagem e levando outros a que o fizessem também.
Esperava tê-lo visto homenageado neste 10 de Junho, mesmo porque a carta assinada em Novembro apelava a instâncias e a figuras como o Presidente da República e o Primeiro-Ministro. Essa distinção no Dia de Portugal não aconteceu. Agora, o livreiro partiu. Qualquer homenagem póstuma será oportuna, mas podia ter tido mais oportunidade há uns tempos atrás. De resto, a revista Ler (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores), no seu último número, de Julho (nº 115), que não sei se ainda chegou ao conhecimento de Figueira de Sousa, lamentava a falta cometida no seu barómetro “Sobe & Desce” – “Homenagem – Apesar do abaixo-assinado, o livreiro da Esperança não foi distinguido no 10 de Junho. Devia.”
Umas páginas adiante, na mesma edição, Sara Figueiredo Costa faz reportagem sobre o livreiro do Funchal em pouco mais de duas páginas sob o título “O negócio dos Figueira de Sousa”, chamando a atenção para a “maior livraria de Portugal”, na rua dos Ferreiros, fundada em 1886, que redescobriu a originalidade de expor os livros mostrando-lhes a capa, não só das novidades, mas também das existências nos fundos bibliográficos, o que permite aos leitores (re)descobertas importantes.
Conheço várias pessoas que por esta livraria passa(ra)m, que ali começaram a formar as suas bibliotecas, que ali acorrem sempre que se deslocam ao Funchal. Todas me falam desse poder mágico, dessa energia que brota dos livros e que arrebata e faz leitores. Um sucesso devido também a Jorge Figueira de Sousa.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Hélia Correia na "Ler"

A entrevista que Carlos Vaz Marques fez a Hélia Correia e que o número deste mês da revista Ler (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores, nº 112, Abril 2012) publica é peça a considerar.
No próprio e excelente estilo de Vaz Marques, o pretexto da conversa é a publicação recente do poema A terceira miséria (Relógio d’Água) de Hélia Correia, perpassando pelas suas oito páginas o retrato da entrevistada, uma tela cheia de originalidade, iniciada com os ensinamentos recebidos dos gatos e da Grécia e finalizada com uma confissão resultante de um tratamento que acabou por rejeitar porque… “estive quase a ser normal, imagine.”
Fala-se da Grécia e da cultura grega, da poesia, do “mundo” literário, da escrita, da leitura, da vida. Uma entrevista a alguém que faz o seu mundo e que faz o mundo seu. Peça a ler.
E, sobre o presente, uma (longa) citação a reter, quando todos andamos preocupados com os valores em que nos movimentamos: “Não há nada que escape ao escândalo que o ser humano criou para os dias de hoje. As pessoas falam muito de valores mas eu não gosto muito de falar de valores porque isso implica um sistema moral que se considera mais perfeito do que o dos outros. Não falo, por isso, da falta de valores, hoje. Até porque há grandes valores, por exemplo entre os jovens. Há o valor maravilhoso da amizade, que está muito implantado. Se eles não têm outras virtudes é também porque não podem, porque estão lançados na arena dos gladiadores e têm de lutar até à morte para não serem mortos. Aí, não pode haver virtude nenhuma. Também não gosto nada da palavra ‘virtude’, que é romana e própria dos homens: é a qualidade do homem. Como é que se pode tipificar este escândalo? É o completo voltar de costas à vida e ao louvor da vida. Sendo que para mim a vida é a natureza e todos os seres que ela contém.”

domingo, 20 de novembro de 2011

George Steiner em duas (boas) conversas

De George Steiner podemos ler duas boas conversas recentemente publicadas entre nós: uma entrevista na revista do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e uma conversa com António Lobo Antunes na revista da Fundação Círculo de Leitores. Em ambas as peças há muitos pontos comuns, mas ambas são diferentes, sobretudo pelas motivações que as originaram. Ambas vale a pena ler.

O terceiro número da revista Letras Com Vida (Lisboa: CLEPUL, 1º semestre de 2011), maioritariamente dedicado ao centenário da Universidade de Lisboa, contém entrevista com George Steiner, feita em Cambridge por Béata Cieszynska e José Eduardo Franco (pp. 9-17). Não sei se há entrevistas imperdíveis, mas há, pelo menos, entrevistas que valem a pena e perante as quais sentimos que perderíamos algo se não as lêssemos…

A conversa com Steiner passa pela reflexão sobre o mundo, sobre a actualidade – o papel da Humanidades, uma outra organização das universidades, as imagens da Europa e da América, as possibilidades do futuro, a comunicação, a juventude, a leitura, a ciência, as relações com o Leste, os conflitos mundiais do século XX, os fundamentalismos, a religião, o futebol e a literatura portuguesa. Ouve-se Steiner – e prefiro aqui o verbo “ouvir” em vez do “ler” – e fica-se a pensar sobre o mundo e sobre o papel que nos cabe ou que não nos é dado. As visões apresentadas não são propriamente optimistas – o século XX foi “o século mais bárbaro que conhecemos” e isso tem consequências; a juventude anda desencantada porque a esperança é algo cada vez mais ausente; a globalização pode unir, mas tem uma marca e a nova forma de estado é “a corporação multinacional”, tendo as questões de nacionalidade passado a uma espécie de tribalismo. Fenómenos como o tédio podem tornar-se perigosos, lembrando Steiner que “antes de 1914 as pessoas estavam entediadas, a sua própria cultura do luxo não as entusiasmava” e que “hoje os jovens andam entediados, perigosamente entediados”. Uma parte importante da esperança em algo melhor estará na ciência, que trará possibilidades que mudarão “irreversivelmente o futuro da Humanidade”.

Quanto à literatura portuguesa, Steiner elege três autores: Pessoa – “perceber Pessoa é ouvir as vozes dentro de nós” –, Saramago – cujo O Ano da Morte de Ricardo Reis leu e releu e considera ser “sempre um livro maravilhoso” – e Lobo Antunes, “o maior escritor português vivo da actualidade” a quem “Portugal não deu ainda o devido reconhecimento”. Uma simpatia forte vai também para Camões, de que não há uma boa tradução inglesa, mas que merece uma afirmação contundente de Steiner: “falta à nossa cultura Europeia o conhecimento do génio de Camões”.

Finalmente, Steiner, respondendo a uma pergunta sobre a relação com o epíteto de “mestre” que lhe atribuíram, comenta: “O que tentei ensinar, a vida toda, foi a ler um pouco. Ler seriamente. Ler com os outros.” E, não por acaso, as últimas palavras da entrevista vão para a poesia, “um luxo necessário”, porque dela não estarão ausentes a música nem o pensamento supremamente elaborado. “Não nos esqueçamos, relembra Steiner, de que nunca os poetas tiveram tanta importância, tanto poder, como no meio do horror que foi o Estalinismo”.

Uma outra conversa com Steiner povoa o número de Novembro da revista Ler (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores, nº 107, pp. 34-52). No final da entrevista dada à Letras Com Vida, Steiner manifestava o desejo de conhecer Lobo Antunes pessoalmente; na revista Ler, o encontro acontece e o que o leitor tem é uma conversa entre o romancista Lobo Antunes e o crítico Steiner, havida em Cambridge, em Outubro passado.

Nota-se que o fascínio por este encontro é comum aos dois, bem como o elogio que cada qual faz ao seu interlocutor, mas a conversa vai pela análise do mundo actual, pelas relações entre povos e culturas, pelo ensino e pela escrita, pela literatura, onde saltam nomes fortes que um e outro comentam, nem sempre comungando das mesmas opiniões.

Relativamente à entrevista anterior, a vantagem desta conversa é a de os dois conversarem sem roteiro prévio, um pouco à medida dos prazeres e dos momentos, das recordações e das experiências pessoais. Se, no caso da entrevista, o interesse advém do encontro com o pensamento de Steiner, na conversa com Lobo Antunes, o interesse passa também por aí, mas torna-se evidente a dominância dos livros, da ficção, dos grandes nomes, da procura dos clássicos para um e para outro – “o clássico permanece sempre novo”, dirá Steiner – e do que cada um neles viu.

Interessante é a forma de o mundo entrar nas vidas de cada um – Lobo Antunes, que Steiner aproxima de Tchekov ou de Faulkner e para quem os grandes nomes e substantivos abstractos são “a coisa mais perigosa do mundo”, retrata a vida nas suas personagens que, um dia, poderá “encontrar na esquina da rua”; Steiner assume-se como pensador, como crítico, como professor (a quem o que mais custou foi deixar o ensino): “O bom professor abre livros aos outros, abre momentos aos outros. E eu tive alunos muitíssimo dotados, o que foi um grande privilégio: saber que eles são mais dotados do que eu próprio.”

domingo, 2 de outubro de 2011

Inês Pedrosa entre a morte da literatura e os direitos de autor

Na revista Ler deste mês (Lisboa: Círculo de Leitores, nº 106), Inês Pedrosa escreve sobre "A morte da literatura", onde diz, a dado passo:
Quando morre um escritor os seus livros têm um pico de vendas – derradeiro e irónico prémio. Depois desaparecem das notícias e, estando impedidos de dar entrevistas provocatórias (embora às vezes apareça uma ou outra inédita, a título póstumo…), vão-se sumindo. Ficam os livros – enquanto houver editores que entendam a edição como um serviço ao futuro.
A protecção dos direitos dos autores mortos é, demasiadas vezes, o seu segundo enterro. Durante 70 anos a publicação fica à mercê dos herdeiros – que muitas vezes se desentendem, ou pretendem fazer do seu antepassado uma potencial mina de ouro. Vinte e cinco anos seria justo – para honrar os filhos ou os mais próximos. José Rodrigues Miguéis, por exemplo, não merecia estar tão morto como está, por falta de edição. Isso, sim, é a morte da literatura.”
Acrescentar alguma coisa? Quanto aos herdeiros, há também os que desvalorizam a obra e contribuem para o esquecimento. E, quanto a Miguéis, bem recordo que, quando há cerca de três anos, pensámos, na minha escola, que os alunos deveriam ler Uma Aventura Inquietante, rapidamente tivemos de desistir porque não era possível encontrá-la no mercado… E de quantos outros autores podemos falar nas mesmas circunstâncias?

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Acordo Ortográfico na revista "Ler"

A história do mais recente acordo ortográfico ainda está muito mal contada. E, provavelmente, continuará mal contada. Já toda a gente percebeu que a aprovação deste acordo foi uma questão política de significado duvidoso – não foi uniformizada a ortografia entre os lusófonos, são permitidas variações ortográficas diversas mesmo para os lusófonos de um país, as bases do acordo permitem a confusão da pronúncia em algumas palavras, etc., etc.
O ano lectivo vai começar, sendo as escolas o primeiro espaço em que, oficialmente, vai entrar o acordo ortográfico, mas nem todos os manuais foram revistos em conformidade, o que até se compreende. Os periódicos lá têm vindo a aderir ao acordo, num gesto que pareceu inovação – afinal, devem, também eles pugnar pela ortografia –, mas muitos colaboradores não aderem a essa nova escrita e fazem questão de o dizer numa nota em final de artigo.
Poderá não tardar muito e vir aí uma lei proibitiva da ortografia tal como a praticamos hoje… em defesa de um acordo ortográfico que não dá garantias, de um acordo ortográfico que nasceu com o propósito de uniformizar e poupar e acabou como vemos!
A revista Ler, na sua edição de Setembro, vai abordar o tema. E, a adivinhar pela apresentação, promete!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Umberto Eco na "Ler"

Umberto Eco foi a personalidade que Carlos Vaz Marques entrevistou para o número da Ler de Abril (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores, nº 101). O pretexto foi o mais recente livro de Eco, O Cemitério de Praga, mas a entrevista vale por tudo quanto este académico, romancista, leitor, semiólogo italiano nos diz. Ficam alguns passos…
Linguagem – «É esse o poder da linguagem: serve para dizer a verdade mas também para criar coisas que não existem, fazendo crer que têm existência real.»
Realidade – «A realidade é muito mais romanesca do que a imaginação. É por isso que em todos os meus romances sempre recorri a fontes científicas verdadeiras. Porque elas eram mais cómicas, mais dramáticas, mais surpreendentes do que aquilo que pudesse inventar.»
Mentir e fazer de conta – «Mentir é dizer o contrário daquilo que se sabe ser verdade. Digo-lhe, por exemplo, que não está mais ninguém cá em casa. Como sei que a minha mulher está ali dentro, estou a dizer-lhe o contrário da verdade e o contrário daquilo que sei que é verdade, de modo a que você acredite em qualquer coisa falsa. Isto é uma mentira. Outra coisa é dizer o que é falso: seria dizer-lhe que ela não está cá mas sem saber que afinal está. (…) A narração é fazer de conta. E o que é fazer de conta? (…) É um jogo em que, por exemplo, eu digo que vou dar-lhe um murro. Faço de conta que vou dar-lhe o murro mas não lho dou. (…) Fazer de conta é, portanto, o modo de falar a alguém dizendo-lhe: ‘Tu sabes que aquilo que te vou contar não é verdadeiro, mas deves aceitar o meu jogo e fazer de conta que ele é verdadeiro.’ (…) É uma característica da narração, em geral. Da arte narrativa, que nos propõe mundos possíveis, mas nos quais vivemos como se fossem reais. Começamos mesmo a considerar verdadeiros certos personagens, de tal maneira que eles emigram para fora do livro. Quer dizer, D. Quixote existe entre nós. Não temos de ir à procura dele no livro de Cervantes. (…) Por um lado tomamos o mundo narrativo da literatura como se fosse verdadeiro e por vezes tomamos o mundo real como se fosse uma narração.»
Romance histórico – «Os romances históricos são assim: colocam em cena personagens históricos. Habitualmente, as grandes figuras aparecem como pano de fundo. (…) A verdadeira História é representada por personagens de ficção.»
Sábio – «Um sábio que passou a vida a estudar borboletas não quer tornar-se uma borboleta. Porque como borboleta teria uma vida demasiado curta.»
Prémios literários – «São uma forma de fazer publicidade ao livro. A um livro em particular e ao livro em geral. Tornam as pessoas sensíveis à existência de livros. São como uma campanha publicitária para a preservação das árvores. As pessoas, assim, pouco a pouco, habituam-se à ideia de que não devem derrubar as árvores.»
Enciclopédia – «O que é a enciclopédia? É o conjunto das notícias controladas pela comunidade científica que nos diz que vale a pena saber isto e não vale a pena saber aquilo.»
Computador e automóvel – «A chegada do computador foi o que houve de mais espantoso. Mudou realmente a vida de toda a gente e mais rapidamente do que qualquer outra coisa. Os primeiros computadores pessoais apareceram em 1981. Portanto, no espaço de 30 anos, mudaram a nossa vida. O automóvel demorou um século a mudar as coisas.»

domingo, 6 de março de 2011

O número 100 da revista "Ler"

Já está nas bancas o número 100 da revista Ler (da Fundação Círculo de Leitores) correspondendo à sua 101ª edição, uma vez que da colecção faz parte o número 0 (zero), saído no Outono / Inverno de 1987, com a indicação “fora do mercado” (o número 1 corresponderia ao Inverno de 1988, já ao preço de 300$00, algo como 1,50 €).
Em torno do número 100 andam as recolhas que esta edição apresenta: “100 capas”, “100 imagens de páginas”, “100 livros”, “100 figuras”, “100 ideias para o futuro” e “100 citações”, antologias a partir das colaborações e das entradas na revista ao longo da sua história. Depois, vários dos seus cronistas dissertam sobre essa simbologia do centésimo número ou sobre o que foram as 100 saídas da publicação, com destaque para o nome que é colaborador desta revista desde o seu número zero: José Guardado Moreira.
Por falar no número zero, dirigido por António Mega Ferreira, algumas ligações a Setúbal eram nele evidentes: o grafismo era devido ao setubalense José Teófilo Duarte; era anunciada a obra Março Desavindo, de Mário Ventura (nome ligado a Setúbal e à criação do Festróia).
E, neste número 100, dirigido por Francisco José Viegas, também passam diversos nomes que cruzaram a sua história com a região de Setúbal, a saber: nas “100 figuras”, Manuel da Fonseca (de Santiago do Cacém), Pedro Tamen (a viver nas terras de Palmela), Al Berto (de Sines), António Osório (ligado a Azeitão), Luiz Pacheco (que por Setúbal peregrinou), Fernando Campos (que incluiu a Arrábida no seu romance histórico); na rubrica “100 citações”, uma reflexão de António Osório sobre a palavra – “Mas eu entendo que as palavras precisam de ser limpas do sarro que as envolve. Do sarro, do lixo comum. E assim as palavras podem purificar-nos.”
O leitor confronta-se também com uma entrevista a George Steiner conduzida por Beata Cieszynska e José Eduardo Franco. O ensino, o papel necessário das Humanidades, a supremacia da economia ou a corporação multinacional, a crise europeia, a história, a necessidade de ler, as redes sociais e a cultura portuguesa são temas por que passa este académico de Cambridge. Conhece bem Fernando Pessoa, José Saramago, António Lobo Antunes e gostaria de conhecer Camões – “Precisamos de Camões – falta à nossa cultura europeia o conhecimento do génio de Camões”, diz. E, já agora, mais uma achega, que é um bonito elogio à leitura: “Eu sou muito velho, mas tento, todos os dias, ou quase todos, aprender um poema, ou fragmentos de um poema, de cor, porque é assim que se agradece uma bela obra. Que outra maneira tenho eu de agradecer a Dante, a Cervantes, a Lope de Veja ou a Shakespeare?”
Com estes nomes grandes da literatura se cruza ainda o texto assinado por Harold Bloom, “O cânone do génio”, justificação de uma obra, Genius, cuja tradução para língua portuguesa é anunciada para este ano. A problemática em torno daquilo que define um génio é o eixo deste ensaio: a sua vitalidade, a sua sabedoria, o facto de alimentarem civilizações, a sua indispensabilidade. O texto termina com um aviso para os tempos em que somos protagonistas: “Não podemos enfrentar o século XXI sem esperar que ele nos traga um Stravisnki ou um Louis Armstrong, um Picasso ou um Matisse, um Proust ou um James Joyce. Desejar um Dante ou um Shakespeare, um J. S. Bach ou um Mozart, um Miguel Ângelo ou um Leonardo é pedir demais, uma vez que os talentos de tal magnitude são muito raros. Contudo, desejamos, necessitamos de algo que esteja acima do século XXI, seja lá o que for.”
A Ler tem sido assim: múltipla, surpreendente, englobando no seu recheio escritores, cientistas, pensadores, livreiros, leitores, livros, escritas e muito mais. Um acervo de tal forma importante que bem se justificaria a publicação de um índice, tal como é justificada a curiosidade perante cada número que sai para as bancas.
Concluo como Guardado Moreira no final da sua crónica evocativa que entra neste número 100: “e agora, pouco dado a nostalgias, aguardo”, lendo, “a próxima chegada do nº 200”!

sábado, 7 de março de 2009

António Barreto - mais umas dicas sobre leitura

A revista Ler (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores), na sua saída mensal, é referência indispensável pela vida que dá aos livros, à leitura, à opinião e à cultura. O número de Março, o 78, já está nas bancas. E motivos de interesse não lhe faltam. Destaco a entrevista a António Barreto, figura de capa também, feita por Carlos Vaz Marques, num estilo em que a personagem (se) fala, (se) diz e (se) pensa. E, dela, sete excertos. Que são análise, leitura e conselhos.
Leitura online –O modo de leitura, a pausa, o sossego, a ponderação, a moderação, a reflexão, a nota, a posição pessoal, geográfica, física com que você lê jornais e lê livros, tudo isso está em vias de extinção, a benefício dessas novas formas que são mais rápidas, que seguramente proporcionam menos reflexão. (…) O que você lia no comboio, o que lia num sítio fora de casa, sem o computador na mão, o que lia voltando para a frente e para trás, escrevendo notinhas, escrevendo no canto dos livros, escrevendo num caderninho que tem ao lado, não creio que seja possível fazê-lo com um palm (…) ou com um laptop, onde tudo está feito para ter uma informação rápida. Com um telemóvel, você, hoje, já consegue ter inúmera informação: tudo sintético, tudo compacto, tudo resumido. Os sentimentos são resumidos, são condensados. As palavras, as frases, o discurso, a narrativa – é tudo cada vez mais concentrado. Porque já se está a viver de uma maneira diferente, a correr.
Ler –Ler implica ter uma vida para a leitura; que na sua vida tem de haver espaço para a leitura. Quando você já não tem espaço para a leitura, não é o cheiro [do livro] que vai substituir o que quer que seja, não é o objecto físico que conta.
Ler em Portugal –Os portugueses aprenderam a ler muito tarde. (…) Eu não tenho nenhuma crença mística nas nações, mas elas existem. Os povos existem. Há uma memória colectiva. Quando, na nação portuguesa, metade ou dois terços das pessoas souberam ler, isso aconteceu com mais de um século de atraso, pelo menos, em relação a países como a Inglaterra, a Dinamarca, a Suécia.
Escola e leitura, dantes –A escola foi uma ajuda muito madrasta da leitura, em Portugal. (…) Se não fosse a minha família (…) e se não fosse um ou dois professores cujos nomes mais de 50 anos depois eu recordo, a escola não me tinha ajudado. A escola do meu tempo não incitava à leitura. Os que gostavam de ler era por outras razões, não era por causa da escola.
Escola e leitura, hoje –Passaram 50 anos e, por razões diferentes, a escola hoje destrói a leitura. Seja com a análise estruturalista e linguística dos textos, seja pela ideia de que a escola tem de ser mais a acção e tem de ser mais projecto e mais mil coisas que fazem a nova escola. A leitura na escola é a última das preocupações.
MagalhãesDa maneira como o Governo aposta na informática, sem qualquer espécie de visão crítica das coisas, se gastasse um quinto do que gasta, em tempo e em recursos, na leitura, talvez houvesse em Portugal um bocadinho mais de progresso. O Magalhães, nesse sentido, é o maior assassino da leitura em Portugal. Chegou-se ao ponto de criticar aquilo a que chamaram cultura livresca. O que é terrível. É a condenação do livro. Quando o livro é a melhor maneira de transmitir cultura. Ainda é a melhor maneira. (…) O Magalhães (…) foi transformado numa espécie de bezerro de ouro da nova ciência e de uma nova cultura, que, em certo sentido, é a destruição da leitura.
Levar um jovem até à leitura –No essencial, chamar-lhe a atenção para o sentido, para a narrativa, para a história. É como o amor – ou o sexo, para ser mais bruto e cru: você sabe que os sentimentos amorosos e sexuais têm, algures, uma componente bioquímica. São uns produtos que se chamam feromonas ou lá o que é e que desencadeiam umas operações no cérebro, no hipotálamo, no sistema nervoso, mas não é isso que faz o amor. (…) Você não diz a ninguém: as minhas feromonas e as tuas… Não é isso que conta. O que conta é o sentimento, o ver, o beijar. Isso é que conta. É isso que se deve ir buscar à literatura, não a química.

domingo, 7 de setembro de 2008

Eduardo Lourenço - "O homem que ensina Portugal a pensar"

O último número da revista Ler (Lisboa: Círculo de Leitores, nº 72, Setembro.2008) tem vários assuntos com interesse, como se pode ver na apresentação da capa, ao lado. Da entrevista que Carlos Vaz Marques fez a Eduardo Lourenço, em que pelos seus 85 anos passam a vida, a literatura portuguesa, o pensamento, a escrita, a leitura e o saber, apresento alguns destaques.
Livro – “O relacionamento com os livros – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas. Faltará qualquer coisa quando a nossa relação com eles for puramente electrónica.”
Geração – “Cada geração não é mestra de si mesma. Há sempre um ou dois que são um pouco as referências ou as pessoas que influenciam os outros. Ou porque são mais velhos ou porque são mais brilhantes.”
Poesia – “A grande poesia é aquela que, de repente nos oferece um mundo, no qual a vivência deste se altera em cores e dimensões não sonhadas. É a criação de um outro mundo que se acrescenta realmente ao nosso mundo visível. É isso e não os versos que são muito bonitos.”
Camões – “Tem uma percepção dos valores humanos que não é essa, tranquila e tranquilizadora, que a ortodoxia, a visão católica normal do mundo inculcava. Há já ali uma grande angústia. Apesar de ele ser o autor da nossa epopeia, há nele uma visão pessimista do mundo. É uma visão que anuncia várias coisas.”
Fernando Pessoa – “Não há questão nenhuma, ainda hoje, que nos interesse, que de uma maneira ou de outra não esteja na obra do Pessoa. (…) O Pessoa, se o releio, é sem a sensação de releitura. Se estou muito tempo sem o ler, torno a receber as mesmas impressões, os mesmos choques.”
Homem – “O Homem é um ser ficcionante. Independentemente do que seja o objecto dessa ficção. Nós estamos sempre ficcionando. A nossa relação com o real é uma relação imaginária.”
Escritor – “O que me interessa é o auto-retrato que cada um de nós traça escrevendo. Seja o que for. Nós não precisamos de psicanalista para nada. A gente dá-se. Vende-se. A escrita é realmente a escrita do nosso inconsciente. Uma pessoa não pode trair-se a si própria.”
Outro – “Eu próprio sinto que estou em dívida. Estou em dívida para com a Humanidade inteira, de qualquer modo.”
Gabriela Llansol – “É um caso. Penso que muito se falará dela no futuro. Provavelmente, será – penso eu – o próximo grande mito literário português. A escrita dela é fulgurante. Não há nada que se possa comparar àquilo. (…) Também ela, de uma maneira diferente do Pessoa, vem de um planeta estranho: é aquele mundo flamengo, aqueles Boschs, aquele misticismo renano, aquelas coisas complicadas que aparentemente têm pouco a ver connosco. Já tiveram, em tempos. É poesia da mais alta. Sem se oferecer imediatamente com esse valor da poesia.”
Gostar – “Não é obrigatório gostar da Gioconda. Mas é uma pena não gostar da Gioconda.”
Pérola – “Há um poema extraordinário do Goethe, em que ele conta que Jesus ia com os discípulos, lá na Galileia, e depararam com o cadáver de um burro exposto ao sol. Já só ossos. Os discípulos começaram a falar das orelhas e disto e daquilo, a brincar mais ou menos malevolamente com o pobre cadáver do burro. E Jesus disse-lhes: ‘Olhai para os dentes dele, brilham como uma pérola.’”

domingo, 27 de abril de 2008

Já chegou a "Ler"

A revista Ler, do Círculo de Leitores, ressurgiu. Com novo formato e a qualidade que sempre a caracterizou. Dirigida por Francisco José Viegas, que já a dirigira entre 1990 e 2000 (nº 9 a nº 48). E volta-se a sentir o prazer de viajar pela escrita da literatura e da edição. A partir desta saída – com o nº 69, correspondente a Maio –, a revista terá periodicidade mensal, depois de ter acompanhado o ritmo das estações.
Após dois anos de interrupção (o nº 68 foi publicado em 2006), é bom o reencontro com a Ler, ideia, aliás, perfilhada pelo próprio director, que escreve no editorial: “O número que o leitor tem nas mãos é apenas o recomeço de uma ideia que não se perdeu e não poderia perder-se, apesar de ter mudado o seu rosto.”
Pela sua cerca de centena de páginas passam motivos diversos e cativações plurais. Há as entrevistas longas com António Lobo Antunes (em luta contra a intelectualidade, testemunhando que a doença o mudou, falando do amigo Cardoso Pires e de outros, denunciando as suas preferências literárias) e com Paulo Teixeira Pinto (o novo dono da Guimarães, na sua vertente de esteta e de amador de livros e de pintura, que se comenta como estando na entrada de uma quarta vida, depois da política, da academia e da banca) e a entrevista curta com Diogo Pires Aurélio (mais específica, sobre a filosofia e a política). Há o dossier “Os 50 autores mais influentes do século XX e o que aprendemos ou devíamos ter aprendido com eles”, organizado por José Mário Silva, por onde passam os nomes de todas as bibliotecas e a cultura do século, com chamadas de atenção, em duas ou três linhas, para “o que nos ensinou” cada um deles. Há ensaio, como o de Miguel Real, sobre as heterodoxias de Eduardo Lourenço, caminhos de antecipação e de pensamento. Há apreciações a livros, em extensão variável, de géneros díspares, onde até cabe o comentário à última edição do Dicionário de Espanhol-Português da Porto Editora. Há pré-publicação (em extractos), de Lainez e Cortázar. Há autores que se dizem e (se) mostram, como Teolinda Gersão (em escrita de um romance) ou Pedro Tamen (entre a tradução e a sua casa em Palmela). Há crónicas (muitas), entre as penas de Abel Barros Baptista (o primeiro neste número) e de Onésimo Teotónio de Almeida (o último, com um texto sobre a escrita, o ciúme e a rivalidade entre sportinguistas e benfiquistas). Há espaço para ler e pensar, para escolhas e deleites, para esperar pelos números que se seguirão.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Francisco José Viegas volta à "Ler"

Francisco José Viegas vai voltar à revista Ler, editada pelo Círculo de Leitores. A notícia é boa, por duas razões: pelo crédito do nome do director no mundo dos livros e pela revista, que, desde a Feira do Livro de 2006, não voltou aos escaparates.
Foi com o número de Outono/Inverno de 1987, com 78 páginas, que a Ler se iniciou. Era o nº 0, “fora do mercado”. Dirigia-a António Mega Ferreira. O grande entrevistado era José Cardoso Pires, a propósito de Alexandra Alpha, em peça de… Francisco José Viegas. No mesmo número, havia ainda outro importante destaque para obra a sair brevemente – eram as Histórias para ler e deitar fora, de Joaquim Letria, apresentadas por Inês Pedrosa. Outros autores que colaboraram com escrita para este número inaugural foram João de Melo, José Mattoso, Joel Serrão, Luís Filipe Barreto e Clara Pinto Correia.
Personalidades de capa e de tratamento foram Lídia Jorge (nº 1, do Inverno de 1988, a 300$00), Vergílio Ferreira (nº 2), Vasco Graça Moura (nº 3), José Saramago (nº 6) e novamente Cardoso Pires (nº 8). Entre os dez primeiros números, vários temas passaram também por outras capas: o livro escolar (nº 4), a Itália (nº 5), a Revolução Francesa (nº 7) e a “Geografia dos Escritores” (nº 10).Foi no nº 9, do Inverno de 1990, que Francisco José Viegas passou a constar como director da revista, edição para que foram entrevistados João de Melo e Luís Amaro e em que escreveram Vaclav Havel, João Barrento, Manuel Hermínio Monteiro, Baptista-Bastos, Ernesto Rodrigues e Mário Cláudio, entre outros.
Francisco José Viegas dirigiu a revista até ao nº 48 (Inverno de 2000, quando o preço de capa era de 800$00). A partir do nº seguinte, e até ao último número saído (em 2006), a direcção da revista esteve a cargo de Mafalda Lopes da Costa.
Como curiosidade, registe-se ainda que os primeiros 14 números da revista tiveram a direcção gráfica de José Teófilo Duarte, nome ligado a Setúbal e com obra reconhecida no mundo editorial.
O regresso da Ler, pela mão de Francisco José Viegas, está anunciado para a Primavera.
[fotos: capas dos números 0 e 68 da Ler, de 1987 e de 2006, respectivamente]