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domingo, 2 de agosto de 2026

Entre livros e leituras

 


“Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” Assim escrevia José Régio (1901-1969), em 10 Abril de 1923, em Vila do Conde, no seu diário (em Páginas do Diário Íntimo, 1994). Este registo surgia no final do dia, que fora chuvoso, no espaço de pensamento e de refúgio, abrindo portas ao diálogo com os livros, com as memórias do lido ou com a antecipação das leituras.

Uma quase conversa com a biblioteca, pois, que deixava de ser o alinhamento e a ordem para ser o turbilhão das ideias! Uma angústia ou um prazer, no jogo com o acervo em que se alojam histórias, pensamentos, saberes, desejos e memórias! Uma visão quase contrária àquela que Rita Ferro (n. 1955) revelou em Veneza pode esperar (2014), também um diário, quando disse, quanto aos livros, que “podemos ler muitos, mas para nossa tortura só parecem contar os que não lemos.”

E vem à ideia a pergunta clássica que salta de quem chega perante a biblioteca, assente nas estantes, nos móveis e pelo chão: “Estes livros já foram todos lidos?” A melhor resposta que conheço foi dada por Afonso Cruz (n. 1971), no primeiro volume de O vício dos livros (2021): “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.”

A importância do leitor é fundamental para que o livro se realize, é verdade, apesar de o leitor, como os livros, não ter prazo. Perante um livro, está-se sempre à espera de que ele seja aberto, folheado, visto, lido, sob pena de não ter vida. Escreveu Massimo Recalcati (n. 1959), em A libro aperto (2018), que “um livro fechado é, na verdade, um contrassenso: não é um livro. Como o mar, o livro é uma imagem extraordinária do ‘aberto’. Abre o mundo em vez de o fechar. Um livro é um mar e não um muro.”

É essa abertura do livro que nos permite viver outros tempos, noutros lugares ou diferentes histórias, uma verdade que Yu Hua (n. 1960) bem explicou em China em dez palavras (2018): “Se existe na literatura alguma força mística, penso que será esta — a possibilidade de encontrar numa obra de um escritor de outra época, de outro país, de outra língua e cultura, experiências que nos pertencem.”

Ruben A. (1920-1975), com o seu conhecido sentido de humor, registou no sexto volume de Páginas (1970) um conselho interessante, com o seu quê de ironia e de crítica: “Cada médico, ao visitar um doente, receitava-lhe uma dose de literatura. O doente, ou morria, ou ficava sarado. Mais: enquanto se lê não há tempo para maldades, a existência humana pode não melhorar com a receita de leituras, mas de certeza que não piora, o que já é notável.”

Obviamente, a leitura (ou o livro) não tem lugar nas prescrições médicas. Mas as suas vantagens têm sido divulgadas por muitos dos seus praticantes — Fernando Pessoa (1888-1935), através do heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego (1982), explicou que “há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua (...), imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher (...), frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana”; Resendes Ventura (1936-2013) considerou que “um bom momento de leitura tem de ser um momento de felicidade” (em Papel a mais, 2009); Tolentino Mendonça (n. 1965), em O que é amar um país (2020), lembrou que “em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” 

A escolha do leitor nem sempre é clara: às vezes, é para descobrir; noutras, para relembrar; também para encontrar outros sentires; ainda, para saber. O leitor não exige ao livro o remédio para (todos) os males, mas sabe alguma coisa do seu caminho de leitor: “O hábito de ler não faz necessariamente com que sejamos melhores pessoas, mas ensina-nos a observar com o olhar da mente a vastidão do mundo e a imensa variedade de situações e seres que o habitam. As nossas ideias tornam-se mais ágeis e a nossa imaginação, mais luminosa.” Quem o disse foi Irene Vallejo (n. 1979) na obra recentemente publicada entre nós, Manifesto pela leitura.

Afinal, Ruben A. talvez tenha razão na proposta prescritiva...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1810, 2026-07-29, pg. 10.


sábado, 25 de abril de 2026

Proibido por inconveniente (3)



Os serviços da censura actuavam também sobre obras cuja finalidade principal era a criação literária, agindo de forma igualmente implacável, como pode ser visto numa parte da exposição “Proibido por inconveniente”, que mostra peças do Arquivo Ephemera na Escola Superior de Educação até 30 de Abril.

Em 21 de Março de 1962, José Vilhena (1927-2015) via proibida a sua obra Branca de Neve e os 700 Anões— “faz abertamente propaganda comunista, achincalha com diatribes dissolventes a família, a ordem social e a religião católica, é escrito com linguagem desbragada, tem passagens da mais baixa obscenidade, ilustrações imorais e tão maciça é a sua inconveniência que ocioso se torna fazer citações”, dizia o censor. Em jeito de parênteses, associe-se este tipo de argumentação sobre a defesa dos valores morais e familiares às razões que levaram à proibição, em 30 de Maio de 1952, da obra Harmonia e Desarmonia Conjugais, de A. César Anjo (1915-1969): “Trata-se de uma ‘porcaria’ desmoralizadora e desmoralizante, encapada no disfarce pum pseudo-cientismo técnico que só pode enganar primários ou muito incautos. Julgo de proibir rigorosa e urgentissimamente, por se estar a vender na Feira do Livro com toda a força, numa sementeira maléfica de todas as horas.” Ainda na década de 1960, Luandino Vieira (n. 1935) teve o seu livro Vidas Novas apreciado em 6 de Dezembro de 1967 por um censor que registou: “Este livro é constituído por uma série de oito contos de natureza subversiva escritos pelo ‘terrorista’ angolano que foi notabilizado por ter sido objecto da escandalosa atribuição do grande prémio da Novelística da Sociedade Portuguesa de Escritores (...) Em todos estes contos se nota uma acentuada tendência anti-portuguesa e agressividade contra a PIDE. Propõe-se a sua proibição.”

Já na década seguinte, de 26 de Fevereiro de 1970 é o parecer sobre O Libertino Passeia por Braga, de Luiz Pacheco (1925-2008), defendendo a proibição porque “é um livro pornográfico e politicamente inconveniente”. Em 25 de Maio de 1972, era lavrado o parecer sobre Novas Cartas Portuguesas, de Maria Isabel Barreno (1939-2016), Maria Teresa Horta (1937-2025) e Maria Velho da Costa (1938-2020), título “que preconiza sempre a emancipação da mulher em todos os seus aspectos”, com alguns excertos entendidos como “uma ofensa aos costumes e à moral vigente no país”, razões suficientes para propor a proibição e para o livro ser enviado “à Polícia Judiciária para efeitos de instrução de processo-crime”.

Outras obras tiveram “leituras” mais permissivas, provavelmente pela aceitação que os autores tinham junto do público... Vindima, de Miguel Torga (1907-1995), apreciado em 29 de Outubro de 1953, apesar de fomentar “o desrespeito social”, foi autorizado, mas com uma restrição: “As obras deste autor não devem ser consentidas em agremiações operárias, por razões óbvias.” Em 25 de Maio de 1960, dizia o censor sobre a obra Novelas Eróticas, de Manuel Teixeira-Gomes (1860-1941), que continha algumas passagens com “aspecto de imoralidade”, mas era “obra literária de alto mérito”, pelo que propunha a autorização, mas “sob a condição de apenas ser publicado em tiragem fora do mercado”.

Fácil será imaginar o estado de espírito que a acção da censura gerava nos autores e no público e a forma como ela condicionava o saber, obediente que estava a princípios como a repressão política ou o controlo dos espíritos. O papel que a proibição pode ter na descoberta de alternativas não foi descurado no tempo em que a censura agia — como se pode ler no roteiro disponível na exposição, houve várias formas de resistência e de contorno da situação: as jurídicas (reclamações, pedidos de revisão, abaixo-assinados) e o recurso “a truques como o uso de pseudónimos, o evitar referências a nomes perigosos, o estabelecimento de circuitos directos ou camuflados de edição e circulação de obras”, sempre visando “romper a cortina que ocultava o país real e os problemas e as lutas que nele ocorriam”.

Mas, se o público continuava a procurar, às escondidas, o que era proibido, também se teve de contar com a presença da auto-censura, que muitos autores se impuseram, não para dizerem o contrário do que pensavam, mas para o afirmarem de maneira controlada. Mário Dionísio, na obra já citada, Passageiro Clandestino, questionava-se se se devia ignorar a censura quando ela estava sempre presente e lembrava uma história — “ainda há pouco, uma romancista portuguesa, para vincar esta triste limitação, dizia, na República, que escrevera todo o seu último romance com o retrato do Director da Censura em cima da sua secretária”... E, sobre o mesmo fenómeno, Ruben A. (1920-1975, que teve problemas com o regime salazarista) bem testemunhou no sexto volume de Páginas (1970): “O que sinto mais terrível de tudo é o eu próprio fazer a primeira censura, quando escrevo já estou a fazer-me censuras, a ver se passa, equilibrar a prosa, falar nas entrelinhas, mentir. Esta censura mental, esta rede que coloco no pensamento é que é o verdadeiro drama.”

A tal inconveniência que levava à proibição pode hoje ser vista nas suas próprias fragilidades e contradições, mas ela vivia sobretudo para condenar a criação, o saber, a informação e... o acto de pensar.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1743, 2026-04-22, pg. 10.


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Ouvintes e falantes que somos...



Andamos em tempo de discursos promissores do paraíso na terra (sem que se diga como) e repletos de observações sobre os outros (que são os potenciais adversários), replicados e anotados em não menor estilo de campanha por quem se diz ser comentador... Vem à memória, para contrariar, um poema que corria nos manuais escolares da escola primária, “Vozes dos Animais”, jogo com os verbos que designam as vozes de quase quarenta animais e conclui com o humano: “A fala foi dada ao homem, / Rei dos outros animais. / Nos versos lidos acima, / Se encontram, em pobre rima, / As vozes dos principais.” O autor não se tinha em grande conta como poeta, mas o texto vingou e permaneceu e, em 1883, Antero de Quental, na sua recolha Tesouro Poético da Infância, incluía este poema de Pedro Dinis (1839-1896), nome de quem pouco se sabe. Camilo Castelo Branco também o antologiara no seu Cancioneiro Alegre (1879), escolhendo um outro texto, mas mencionando ser “Vozes dos Animais” o seu mais conhecido poema, um conjunto “de quadrinhas recitadas pelos nossos pequenos” onde “destila dos seios o leite da instrução primária em apojadura copiosa”.

Ao destacar o homem por ser a criatura que fala, Pedro Dinis intuía que tal superioridade advinha do acto de pensar e do saber, fases primeiras para que a fala seja consistente, fundamentada. Apesar de se saber isso, a verdade é que o esquecimento nos atraiçoa muitas vezes. Assim, na lembrança sobre a oportunidade da fala, recorra-se a Julian Barnes, que nos transmite, quase proverbialmente, o que deveria ser levado como máxima de vida: “Sobre aquilo de que não sabemos falar devemos guardar silêncio.” (in O Sentido do Fim, 2011) Contudo, atrever a incluir este princípio na argumentação é difícil... pois a qualidade da argumentação na discussão e partilha de opiniões nem sempre é preocupação e os hábitos legitimam o falar “porque sim”, confundindo as noções de direito adquirido, liberdade de expressão e ignorância.

Uma outra farpa no discurso é a das condicionantes com que o querem formatar, mais com o objectivo de destruir ideias ou quem as profere. Na narrativa Desisto (2006), Philippe Claudel chamou a atenção para isso, ao dizer: “Hoje em dia, toda a gente evita chamar as coisas pelos nomes: um cego é um invisual, um animador de televisão um artista, os mortos em breve serão não-vivos.” Esta observação ganha acuidade hoje, tempo em que os cuidados em torno dos substantivos (prefiro esta designação àquela que a gramática instituiu, designando-os como “nome”) e dos adjectivos utilizados condicionam a expressão e facilmente servem para fazer desmoronar uma ideia ou para se ser acusado de coisas que nem tinham passado pela cabeça do falante.

Com mais ou menos habilidade, quem fala facilmente pode chegar à falácia (um raciocínio incoerente e não fundamentado, aparentemente verdadeiro) e o objectivo do discurso como forma de aproximação entre humanos facilmente se esvai, com proveito apenas para uma das partes. Deve-se a Eurípedes, na peça teatral As Bacantes, uma análise como esta: “Quando falta o bom senso ao homem audaz e simultaneamente poderoso e hábil na palavra, ele torna-se um cidadão perigoso.” Eurípedes, vivendo no século V antes de Cristo, sabia o que pode um discurso hábil fazer, mesmo que assente sobre erros ou mentiras, sobretudo se não houver o discernimento necessário à análise e reflexão sobre o mundo. O papel do ouvinte, muitas vezes passivo ou na pele do adepto fervoroso, presta-se à situação, sobretudo se se valorizar o espectáculo ou o sentir grupal (venha ele por razões sociais, profissionais, políticas, desportivas ou outras). A verdade é que a responsabilidade do ouvinte é grande, mas, muitas vezes, anulada, como se infere do que escreveu Italo Calvino, em As Cidades Invisíveis (1972): “Eu falo falo, mas quem me ouve só fixa as palavras que deseja. (…) Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido.” Será pouco, convenhamos, para aquilo que deve ser um ouvinte...

Foi Ruben A. (falecido há meio século), com a sua causticidade e análise provocatória, que, no segundo volume do relato autobiográfico O Mundo à Minha Procura (1966), gravou este pensamento: “Sempre notei que na vida portuguesa não há qualquer relação entre os discursos que se proferem, parangonas que os jornais estampam, e a vida real do País. (...). Em discursos devemos ser o primeiro país do mundo, não só pela quantidade, mas pela diversidade de estilos e de assuntos que cada ser genial abarca diante de um público numeroso e atentamente interessado.”

Um olhar assim condicionado sobre a vida leva a que se siga o que Oscar Wilde desmascarou: “Aquilo de que se não fala nunca aconteceu. É apenas a expressão que dá realidade às coisas.” (in O Retrato de Dorian Gray, 1891) O problema parece residir, então, na selecção dos (prováveis) acontecimentos. E, consequência disso, com frequência, a discussão da actualidade passa pela discussão do que foi dito e como foi dito e não pelo tema do que foi feito ou do que falta ou do que deveria ser feito. E, já agora, do “como” deveria ser feito, uma tónica em que o discurso político é sempre hábil na arte da fuga e na arte (pouco) argumentativa...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1617, 2025-10-08, pg. 2.

     

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Ana Mata: inscrever Florença pelo olhar



“Fui com o objectivo preciso de me ir espantar. Fui seguindo a ideia de passear o mutismo, nesse princípio de desejo de ser olhar aberto e recepção. (...) Fui anónima: tanto para atravessar a cidade, como para ser atravessada.” Assim descreve os seus sentimentos a setubalense Ana Mata (n. 1980), no momento que antecede a narração dos dias passados no visitado paraíso da arte, itinerário contado em Carta de Florença (Sr Teste Edições, 2024).

Ainda que o título nos remeta para o estilo epistolográfico, a verdade é que nesta obra se mesclam também registos diarísticos e de memória, com a reprodução de duas dezenas de águas-fortes com tinta sanguínea, gravuras a partir de peças vistas nas mostras que o espaço florentino permitiu. A intenção deste registo, em que se misturam o tom autobiográfico e a faceta ensaística, surge logo no início, sublinhada em três aspectos: “Esta escrita serviu o sentimento de aventura íntima, a que não desmaiasse no caos, a minha permanência na experiência.” Descoberta e continuidade na memória são, pois, dois tons fortes nesta visitação (no que esta palavra sugere de curiosidade e de abertura) realizada em Março de 2023, afigurando-se o registo escrito como a forma de albergar o que poderia ser a “síndrome de Florença”, caracterizada pela comoção perante o fascínio da arte.

A viagem foi preparada — “Comecei, antes de ir, a viagem a Florença”, escreve Ana Mata logo no início da narração para dar conta de que se deixou povoar pelas imagens antecipadamente recebidas, impressão forte que impregnou a necessidade de ir “à presença”. Como antecedentes da partida, a recomendação de amigos associou-se a leituras de outras experiências do mesmo itinerário legadas por relatos de Stendhal e de Rilke ou por um poema de Bernardo Pinto de Almeida, de maneira que melhor se cumprisse a intenção da viagem.

Perante as obras vistas, foi forte a impressão sentida pela figura humana, pela elegância dos gestos nos quadros, pela expressão de dor, pela força dos pormenores. Deslumbramento e comoção não faltam neste relato intenso, como no momento em que se fala dos quadros de Fra Angelico, vistos no Museu de S. Marcos: “Há pinturas pequenas e tão delicadas que me parecem terem sido pintadas num estado de oração íntima”. O cerne do sentimento perante estas telas cola-se às raízes de quem contempla: “Estou grata pela religiosidade que me deram em criança, mesmo se já não cumpro os ritos ou se procuro outros lugares de infinito. Se tivesse uma repulsa pelo religioso, pelas histórias de Cristo, de Maria, dos anjos, não veria estas obras da mesma maneira, tendo então um filtro que creio que bloquearia o seu sentimento profundo.”

Todo o livro de Ana Mata é uma tentativa para que se cumpra o que revela quase no final — “Agora quero que Florença permaneça.” A reflexão surge a bordo do avião, em regresso a Lisboa. “Que fica deste convívio imenso com estas obras feitas por uma humanidade grandiosa, magnífica, que aponta para o alto? Que fica também desta lição de humildade? Andei de corações nos olhos, com esse filtro apaixonado que tanto activou a hemoglobina nas minhas sanguíneas.” E, como conclusão: “Agora, os nomes dos lugares do mapa já não me são abstractos. Florença inscreveu-se.” Uma “inscrição” a tal ponto forte que as sanguíneas a partir de Botticelli, Caravaggio, Tiziano, Memling, Fra Angelico e outros têm de fazer parte do livro, uma forma de apropriação a cargo da visitante.

Partilhar a arte vista em Florença neste livro é um pouco como admirar a cidade banhada pelo Arno, atravessado por pontes, a partir da praça Miguel Ângelo, um misto de distância e de impossibilidade de tudo apreender ou uma relação de sedução. Nesta cidade da Toscana, também Ruben A. (1920-1975) sentiu o fascínio, relatado em Páginas - III (1956): “Florença tem coisas demais e é como uma mulher possessiva que tem sempre qualquer pormenor ainda não visto — sair de Florença é sentir o mesmo alívio de liberdade em semelhança a férias conjugais. Na nossa vida há momentos só nossos tão intimamente nossos que ninguém pode tentar sequer incluir-se.” A metáfora é forte, revelando a vontade de continuar a descobrir o espírito da cidade, o de olhar a arte, nela se inscrevendo.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1407, 2024-11-06, pg. 10.


quarta-feira, 3 de abril de 2024

Imagens contra a estupidez



Vinte anos depois de Maria Severa Onofriana, conhecida como “Severa”, ter falecido (quando contava 26 anos, em 1846), um autor dramático seu contemporâneo, Ernesto Biester (1829-1880), defendeu a opinião de produzir uma peça trazendo-a para protagonista. Se houve quem o apoiasse, também existiram aqueles que, à luz da moralidade pública, condenaram a ideia, argumentando, segundo Júlio de Sousa e Costa, que “pôr em cena a vida de uma mulher perdida chamaria o pecado sobre as cabeças do autor, actores, actrizes, ponto, espectadores, toda a gente, enfim, que fosse deliciar-se com as cenas copiadas da Mouraria...” Sousa e Costa relata este episódio na obra Severa, biografia publicada em 1936, rematando com o seguinte comentário: “Toda a vida há-de haver gente estúpida e é isso que faz com que o mundo se torne imensamente divertido.” A verdade foi que os tais defensores moralistas foram fortemente satirizados por causa desse “cuidado” moralista, o que justificou a observação de Sousa e Costa.

Mesmo retirando o comentário do contexto que o originou, o que nele é dito mantém a sua validade. Que o digam as cenas do quotidiano a que vamos assistindo, nos mais diversos circos e palanques, a exigirem que tenhamos nervos de aço ou a nossa gargalhada perante o ridículo... O aflitivo, no panorama, é que a estupidez se sabe afirmar sem nada recear, num jogo de palavras, num esgar de risos e de sobranceria, num gesticular e vociferar com desaforo, numa defesa de ideais em que não dá para acreditar - a geografia dos acontecimentos recentes, viremo-nos para ocidente ou para oriente ou comecemos aqui mais perto, torna evidente a pujança e a matreirice da estupidez.

Eugénio Lisboa, num texto inserido no livro Poemas em tempo de guerra suja (2022), retratou-a em grande tela: “A estupidez é a mercadoria / mais bem distribuída deste mundo: / ela veste-se de demagogia / ou do que quer que seja de imundo. // A estupidez é um grande muro, / que oferece ao inteligente / a resistência do escuro duro, / que se ergue forte e prepotente. // Ela exibe estrelas de general / e ri-se à grande dos que são sábios: / permite-se, à vontade, ser boçal, // saindo barbaridades dos seus lábios. / A estupidez sabe prevalecer / e sabe, sobretudo, não temer.”

E será sempre uma luta inglória o diálogo com a estupidez, mesmo que se invoque a competência democrática ou a pluralidade para tal, pois até valores como a vida parecem insignificantes perante a estupidez. Foi Ruben A. (1920-1975) quem o disse no terceiro volume de O mundo à minha procura (1968): “Para a estupidez, não há argumentos, por mais inteligente que seja o einstein. (...) Um ditado alemão define perfeitamente esta conjuntura: Contra a estupidez até os Deuses lutam em vão.” E, num outro passo da mesma obra, relacionou a estupidez com a tragédia: “Falar com um ser estúpido que tem opiniões, este é o drama da existência.”

Há aprendizagens que vamos fazendo nestes percalços que a vida proporciona, chegadas, muitas vezes, depois de percursos longos. Uma das primeiras coisas que ouvi de um amigo de longa data, bem mais velho do que eu, foi a recomendação de não contra-argumentar com a estupidez, porque, no final, é ela quem ganha, não por mérito do que apresenta, mas por sabotagem da realidade, recurso ilusório e atraente para incautos. Numa crónica incluída na obra O país do solidó (2021), J. Rentes de Carvalho, um pensador crítico dos quotidianos, deixa o aviso: “A estupidez é contagiosa e demasiadas vezes é ela quem vence.”

E a conclusão torna-se óbvia: porque não investem os cientistas numa vacina contra a estupidez? O mundo e a vida seriam mais fáceis, mais felizes, menos enganadores, mais de todos.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1272, 2024-04-03, pg. 10.


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Livros amordaçados (2)


Poemas de Egito Gonçalves, in A Viagem com o teu Rosto - proibido em 1959

Em 1970, no sexto volume de Páginas, Ruben A. (1920-1975) confessava: “O que sinto mais terrível de tudo é o eu próprio fazer a primeira censura, quando escrevo já estou a fazer-me censuras, a ver se passa, equilibrar a prosa, falar nas entrelinhas, mentir. Esta censura mental, esta rede que coloco no pensamento é que é o verdadeiro drama.” Um quarto de século antes, ao Diário de Lisboa (17 de Novembro de 1945), Ferreira de Castro (1898-1974) dava longa entrevista sobre o tema da censura, puxada para a primeira página sob o título “O momento político: ‘O mal não está apenas no que a Censura proíbe mas também no receio do que ela pode proibir’ - diz-nos o escritor Ferreira de Castro”.

Ambos os escritores estavam a referir-se à mesma coisa - a auto-censura e o papel que os serviços de censura desempenhavam na criação artística. E Ferreira de Castro ia mais longe, ao afirmar: “O que se tem estado a fazer em Portugal é desfalcar o futuro do legado espiritual que lhe podíamos deixar. (...) Os livros nacionais publicados na última década estão, geralmente, deformados pelos seu próprios autores, receosos da censura.”

Ao percorrermos as justificações para interdição ou recomendações de alteração reproduzidas em Obras proibidas e censuradas no Estado Novo, não restam dúvidas sobre a forma como esta influência se exercia. Joaquim Lagoeiro (1918-2011) viu a decisão final para o romance Os Fraldas, em despacho de Junho de 1950 - “autorizado com cortes”, baseado no parecer que argumentava ser o livro “profundamente mau”, questionando se o autor “poderá refundir o livro, de modo a fazer desaparecer a feição comunista que actualmente apresenta” e admitindo: “atendendo  às condições presentes, julgo que será de autorizar com os cortes que fiz a azul.” De igual modo, a obra Romances do mar, de Bernardo Santareno (1920-1980), impressa em 1955, repositório de “versos maus, doentios, irreligiosos, associais e imorais, numa palavra, deseducativos”, levou o director a despachar: “Poderá ser publicado, desde que seja suprimida a poesia ‘Romance do Pescador Velho’”.

Não havendo dúvidas sobre o papel que a  censura queria exercer sobre a consciência dos escritores, também perpassa, em situações variadas, uma sensação de hipocrisia por parte dos decisores, sobretudo relacionada com as inconveniências que pudessem resultar das interdições, como foi o caso da obra Bichos, de Miguel Torga (1907-1995), que, em 1951, teve o seguinte despacho: “Este livro (...), embora inconveniente, não foi autorizado nem proibido, por razões óbvias”, pois o autor é “escritor de forte poder de aceitação por leitores de deficientes recursos espirituais”, que “procura motivos sugestivos, em prol da descrença, da aversão ao dirigente ou ao afortunado, fomentando o desrespeito social.”

Caricata, pelos motivos invocados, se torna a razão da proposta de proibição da  Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica, organizada em 1966 por Natália Correia (1923-1993): “não é possível admitir que seja viável a circulação deste livro em Portugal, dado o seu carácter pornográfico.  (...) Fica-nos a impressão de que esta obra pretende ser a contribuição comunista para as comemorações bocageanas que estão em realização.”

É evidente que a prática da censura durante o Estado Novo quis construir normas para controlar mentalidades. Mas as consequências foram brutais - como Álvaro Seiça recorda, elas foram “físicas, materiais e psicológicas”, com escritores exilados e violentados, numa prática que permitiu mesmo que alguns fossem publicados “para não levantar ‘publicidade’ inoportuna após vários anos de circulação, sendo negadas recensões ou citações nominais em jornais”. Em suma: uma morte que pretendeu ir muito além daquilo que seria o acto de escrever, visando a limitação na criatividade, na opinião e na denúncia. No fundo, o amordaçar do livro e do pensamento, prática que este catálogo Obras proibidas e censuradas no Estado Novo pretende não se repita!

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1009, 2023-02-08, pg. 10.


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Ruben A.: liberdade no pensamento e na escrita


 

“Para os que quiserem dados objectivos de catalogação, informo que nasci no dia 26 de Maio de 1920, na Praça do Rio de Janeiro, número 25, 1º andar, em quarto que dá para o jardim chamado do Príncipe Real e que tem por lá a árvore mais extraordinária da cidade de Lisboa. Até essa altura eu era propriedade de minha Mãe.” O aviso consta na abertura do primeiro volume de O mundo à minha procura (1964), de Ruben A., nome literário de Ruben Alfredo Andresen Leitão (1920-1975), obra que teve mais dois volumes (1966 e 1968).

A escrita autobiográfica é uma das partes significativas da bibliografia de Ruben A. - Páginas (seis volumes, entre 1949 e 1970) e Um adeus aos deuses (1963) são os restantes títulos, todos com uma escrita vertiginosa, alheia a escolas, única, ao ritmo dos acontecimentos, que alia a cultura, a alegria, o gosto e as histórias intensas de uma vida, contada desde a infância, num misto de memórias, diário, relato de viagens, ironia, literatura, reflexão, inovação - “Escrevo por uma necessidade vital, biológica, fisiológica, anti-séptica, antibiótica.” (Páginas, VI).

Esta intensidade trouxe-lhe amarguras logo no segundo volume de Páginas (1950): lido por Salazar, Ruben A. foi levado a abandonar o leitorado no King’s College e iniciar uma peregrinação difícil, mas sem que o entusiasmo o abandonasse. A escrita, essa, prosseguiria - “um tipo como eu sem caneta é como missa sem padre” (Páginas, III, 1956).

Ao longo dos dez volumes, surge também o retrato social do seu tempo nos mais variados planos. Apreciador do belo em todas as áreas, defende que “a classe de uma pessoa provém 75 por cento da boa educação, 20 por cento da cultura e os outros cinco por cento distribuídos por vários factores mais ou menos racionais” (Páginas, IV, 1960), apontando referências - “Classe: existir no mundo um museu onde só é permitido tocar Bach e Beethoven” (Páginas, I); também Inês de Castro, “a mulher com mais categoria na nossa pátria de pouca história de mulheres para contar” (O mundo à minha procura, II). Em oposição, cria uma personagem como o Dr. Barbosa e Costa, que passa aqui e ali, “a figura mais notável da minha imagística pessoal” (Páginas, VI), para justificar, talvez, que “raras vezes os títulos, os cargos, ou os canudos mudam a coluna dorsal instalada no esqueleto do indivíduo” (O mundo à minha procura, III).

O ideal estético levou-o à Grécia (com esfuziante relato em Um adeus aos deuses), onde visitou nu o Museu Nacional de Atenas - “disse ao director que para ver bem o museu tinha de me despir (...). Meus Deuses, foi a primeira vez que vi as estátuas contentes”. Assim exprimia o desejo “total, absoluto, de penetrar naquele mundo” das esculturas helénicas, autenticidade também experimentada quando, em Epidauro, teve necessidade de ler Ésquilo em voz alta no teatro, surpreendendo os outros visitantes.

A construção da liberdade passa por vivências como a república coimbrã “Babaouo”, a viagem num táxi londrino de 1933 (o “Lord Snob”) de Inglaterra até Carreço, a distinção acutilante entre o Ruben A. e o Ruben B., a invenção de palavras, um mundo em que cada vez se vê “menos teórico nas coisas da vida”.

Miguel Torga, que lhe foi próximo, classificou a escrita de Ruben A., quando soube do seu falecimento, como “a singularidade de um estilo desabusado, emblematicamente vivido” (Diário, XII), traços que devem determinar a sua leitura e o apreço do leitor de hoje.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 528, 2020-12-16, p. 2.

 

terça-feira, 26 de maio de 2020

Ruben A., 100 anos hoje



"Para os que quiserem dados objectivos de catalogação, informo que nasci no dia 26 de Maio de 1920, na Praça do Rio de Janeiro, número 25, 1º andar, em quarto que dá para o jardim chamado do Príncipe Real e que tem por lá a árvore mais extraordinária da cidade de Lisboa. Até essa data eu era propriedade de minha Mãe."
Ruben A., em carta ao leitor, em O Mundo à minha Procura - I (1964)