Mostrar mensagens com a etiqueta Almeida Carvalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Almeida Carvalho. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 30 de julho de 2020

De Setúbal se vê o mundo e o tempo que o faz



Se é verdade que os jornais narram o mundo por episódios que acrescem à medida da periodicidade, também constituem um documento datado (muitas vezes, fonte única) para que a História possa ser feita em qualquer momento, género de visitação ao passado, ali agindo os protagonistas dos tempos, desde o cidadão comum à mais destacada personalidade.

Se dúvidas existissem, bastaria olharmos o livro Setúbal no Centro do Mundo que acaba de sair, editado pelo jornal O Setubalense a partir de ideia do seu director, trabalho coordenado por Albérico Afonso Costa e devido a uma equipa de vinte colaboradores. O título faz justiça ao papel do jornal e localiza-nos (aos leitores e aos autores): Setúbal como miradouro onde o mundo e o passado podem ser revisitados, perspectiva útil para a imprensa dita regional, que deve noticiar o local sem esquecer o nacional ou o universal pelas implicações destes dois universos nas nossas vidas.

O pretexto do livro, trabalhado por uma equipa com ligações a múltiplas áreas do saber (declaração de interesse: sou um dos membros do grupo), foi o 165º aniversário do título jornalístico O Setubalense, puxado para o mundo da imprensa pelo sadino Almeida Carvalho em 1855, data em que O Setubalense se colou à identidade desta região, muito embora com algumas interrupções.

Estruturado em seis partes, Setúbal no Centro do Mundo sustenta-se em diversos vectores que favorecem o pendor narrativo, por um lado, e o encontro com momentos, acções ou personagens essenciais ao espaço setubalense, por outro. Do ponto de vista dos acontecimentos, estão eles organizados em dois grupos - os que têm a marca local, gerados a partir de Setúbal, e os que assentam em mais vastas latitudes, sejam nacionais ou internacionais. Desde 1855, foram escolhidos 55 factos ocorridos na margem do Sado, em áreas tão diversas quanto o associativismo e as colectividades, o lazer, a educação, o desporto, a política, o mundo do trabalho, a mobilidade, os investimentos em obras e melhoramentos, a industrialização, a afirmação de valores, a cultura, a economia, a religião ou a preocupação ambiental. No plano nacional ou internacional, o destaque caiu sobre 23 eventos, selecionados a partir da segunda fase de publicação do jornal (1916), todos de suma importância para o nosso estado de cidadãos pelas réplicas geradas - a título de exemplo, refiram-se a Revolução Russa, a guerra civil em Espanha, as duas guerras mundiais, a guerra colonial, a europeização do Benfica, as implicações do domínio soviético em diversos países, as visitas papais a Portugal, a entrada na União Europeia, o caso de Timor, o nobelizado Saramago ou o 11 de Setembro, todos eles contados a partir daquilo que O Setubalense escreveu na altura sobre os mesmos, via relato informativo ou texto de opinião.

Não se fazendo a história sem personagens, outra parte da obra é construída sobre perfis de 52 nomes ligados a Setúbal durante este século e meio ou sobre os quais houve eventos neste mesmo tempo. Por aqui passam nomes indiscutivelmente conhecidos e divulgados, associados a outros sobre os quais haverá menos conhecimento - Agostinho da Cruz, Américo Ribeiro, António José Baptista, António Maria Eusébio, Bocage, Francisco Paula Borba ou Jacinto João, entre outros, levam-nos à redescoberta, assim como Agripino Maia, António Joaquim de Melo, Armando de Medeiros, Mendes Dordio, José Augusto Coelho, José Bernardo ou Maria Emília Barradas, entre muitos outros, chamam à descoberta. De personagens se fala também num outro capítulo com notícias avulsas, coleccionadas a partir de 1855, tendo como protagonista o cidadão comum e as suas vivências do quotidiano, imagens do que a cidade foi também nas histórias que muitas vezes se não contam.

Finalmente, o jornal e a sua história, porque o leitor deve conhecer esta figura que lhe traz as notícias e as caras todos os dias, surgem num capítulo que contextualiza o tempo em que o jornal se criou e em que são lembradas as várias fases por que passou (por vezes interrompidas por acontecimentos políticos, razões económicas, situações de contexto) e num outro em que são visitadas algumas páginas que tiveram continuidade (das várias possíveis), normalmente ligadas à cultura ou ao pensamento.

Ao ter este livro uma mensagem de saudação do Presidente da República (e sabemos como Marcelo Rebelo de Sousa sempre foi ligado aos jornais), ele acaba por ser também uma homenagem à própria história da imprensa sadina e a todos aqueles que sistematicamente a fazem para garantir a opinião como um dos elementos-base da democracia. Este é, aliás, um dos aspectos pensado por Viriato Soromenho-Marques no texto introdutório, ao referir a necessidade de o homem “olhar criticamente o quotidiano de uma cidade”, depois de evocar uma interessante e feliz citação hegeliana - “a leitura dos jornais é a oração matinal do homem atento à realidade.”

Setúbal no Centro do Mundo é, pois, um livro para não esquecer - pelo que consegue coligir do muito que nos faz o que somos, pelas histórias que nos (re)conta, pelo contributo para a história local absolutamente interligada com o universal, com a vantagem de todos os contributos serem apresentados em textos curtos e autónomos. Podemos questionar-nos sobre os acontecimentos escolhidos ou as personagens selecionadas... Podemos, claro. Mas esta obra é apenas um olhar plural sobre a vida de uma região, necessariamente com escolhas, sempre discutíveis porque, na nossa livre opinião, conseguimos sempre encontrar um, dois (ou mais) eventos ou uma, duas (ou mais) personagens que deveriam constar. Mas há uma razão de fundo: uma escolha pressupõe os caminhos do essencial, sendo que o mundo se faz com o essencial e com tudo aquilo que o rodeia. Como se costuma dizer: um livro a não perder e a ser visitado sempre que apeteça olhar como chegámos até aqui.
J.R.R. O Setubalense: nº 447, 2020-07-30, pg. 2

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Para a agenda: Almeida Carvalho em documentos



O bicentenário de João Carlos de Almeida Carvalho teve várias realizações ao longo de 2017 e já em 2018. Agora vai ser uma mostra documental sobre esta personalidade multifacetada e comprometida com a história setubalense: "Almeida Carvalho - Aspectos bio-bibliográficos" é o título da exposição a visitar nas instalações do Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal a partir de 3 de Fevereiro (16h00). Imprescindível para a história local, diga-se desde já, com calendário de visita até 10 de Março. Para a agenda!

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Para a agenda: Almeida Carvalho e o Sal de Setúbal



Almeida Carvalho foi um coleccionador de factos e registos da história de Setúbal, desenvolveu actividade jornalística (fundou o periódico O Setubalense), interveio associativa e politicamente e esteve ligado à história do sal em Setúbal.
É justamente sobre esta última actividade de Almeida Carvalho que o leitor vai poder ouvir falar através de António Cunha Bento, também ele ligado à produção e à história do sal, com imensos conhecimentos na área da salinicultura. Na sexta-feira, 26 de Janeiro, pelas 21h30, no MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal). Para a agenda!

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Para a agenda: O tempo setubalense do Ultimatum Inglês



Como era Setúbal por altura de 1890, tempos do Ultimato inglês? Onde podemos ir buscar informações sobre esse tempo sadino? António Chitas, nome dedicado à história setubalense, poderá ter respostas para dar na sessão "Setúbal na época do Ultimatum Inglês", que terá lugar no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), na quinta-feira, 30 de Novembro, pelas 21h30. Uma acção da Comissão Executiva do Bicentenário de Almeida Carvalho, que celebra um nome que também se dedicou à história setubalense e ao jornalismo. Para a agenda!

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Setúbal homenageia Almeida Carvalho nos 200 anos do seu nascimento


Lápide de homenagem a Almeida Carvalho descerrada na tarde de hoje

Os dias de sexta-feira e de sábado, 8 e 9 deste Setembro, são ocupados pela memória e homenagem a João Carlos de Almeida Carvalho, um dos mais extraordinários coleccionadores de informações sobre a história de Setúbal e fundador do jornal O Setubalense, nas instalações do antigo Quartel do 11.
Com organização do Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), da Associação dos Municípios da Região de Setúbal (AMRS), da Câmara Municipal de Setúbal, do Arquivo Distrital de Setúbal, da Liga dos Amigos de Setúbal e Azeitão (LASA) e da Universidade Sénior de Setúbal (UNISETI), os dois dias são dedicados ao “Encontro de Homenagem a Almeida Carvalho”, tendo incluído a sexta-feira um momento para o descerramento de uma lápide evocativa na casa em que nasceu Almeida Carvalho, mesmo em frente ao antigo Quartel do 11.
As sessões de sexta-feira foram, sem favor, profícuas e de grande qualidade. Na parte da manhã, Fátima Ribeiro de Medeiros falou sobre as “Referências literárias em Acontecimentos, Lendas e Tradições da Região Setubalense, de Almeida Carvalho”, uma leitura atenta a todas as alusões literárias nessa obra de Almeida Carvalho que foi publicada na década de 1960, reunindo um (restrito) conjunto de notas do vastíssimo acervo deste investigador; seguiu-se Maria João Pereira Coutinho, que abordou o tema festivo sob o título “Do cerimonial religioso ao aparato régio: o contributo de Almeida Carvalho para o estudo das celebrações em Setúbal na Época Moderna”, comunicação em que a autora perpassou sobre o contributo dos registos de Almeida Carvalho para se conhecer um conjunto de elementos do quotidiano festivo em Setúbal; Carlos Mouro apresentou “Notas sobre a indústria de curtumes setubalense” para falar sobre a designada “Fábrica da Sola”, hoje esquecida, a demonstrar que a industrialização em Setúbal não tem ligações apenas com as conservas; Ernesto Castro Leal interveio com uma leitura sobre “Estado liberal e poder municipal: Almeida Carvalho e a Reforma Administrativa de 1855”, perpassando pelos editoriais assinados por Almeida Carvalho em O Setubalense e pelas críticas que este investigador fez à anexação de Palmela e de Azeitão no concelho de Setúbal em 1855; João Costa fez o ponto da situação do seu estudo sobre “O Tombo da Câmara de Palmela (Séc. XIV-XIX): Da arqueologia dos documentos à arqueologia a partir dos documentos - Um contributo de João Carlos Almeida Carvalho”, salientando o contributo importante de Almeida Carvalho para a reconstituição do Tombo de Palmela naquele período (haja em vista a perda e desaparecimento de muitos documentos alusivos à história de Palmela); Rogério Palma Rodrigues analisou “A Casa da Roda dos Enjeitados”, destacando o contributo dos elementos recolhidos por Almeida Carvalho para um estudo sobre este fenómeno na região de Setúbal.
A tarde teve os contributos de Carlos Tavares da Silva, ao falar sobre “Arqueologia e esboço paleográfico da Baixa de Setúbal”, em que resumiu as investigações arqueológicas levadas a cabo, contributos importantes para atestar a construção e o crescimento de Setúbal; Tânia Casimiro apresentou “Rituais de inumação em Almada (Sécs. XV-XVIII): Os casos de Murfacém e Igreja da Misericórdia”, em que deu conta das investigações levadas a cabo nestes dois pontos; Eurico Sepúlveda falou sobre “Cerâmica de paredes finas de Salacia Urbs Imperatoria - Recolhas de prospecção arqueológica”, apresentando resultados de descobertas alcacerenses; Pedro Miguel Lage surpreendeu com o estudo “Antigas Quintas de Setúbal: Espaços físicos e sociais”, dando nota da sua investigação em curso sobre as mais de 170 quintas da região de Setúbal que tem em estudo, estabelecendo relações familiares e patrimoniais nesse emaranhado por conhecer; Isabel Macedo contou a história sobre “A Casa da Comenda de Raul Lino: De torre medieval a residência de veraneio”, passando pelas várias fases daquele espaço da antiga freguesia da Ajuda; Fernando António Baptista Pereira estudou “Almeida Carvalho e o Convento de Jesus” para chamar a atenção para a necessidade de ser trabalhado o espólio legado por Almeida Carvalho.
Um programa intenso e de qualidade, que continuará amanhã, assim se assinalando o segundo centenário do nascimento de Almeida Carvalho (1817-1897).

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Para a agenda: Maio intenso


6 DE MAIO
Palmela
Comemorações do Centenário da Morte de Hermenegildo Capelo

6 DE MAIO
Jantar de angariação de fundos para a Igreja da Azeda (Setúbal)

12 DE MAIO
Casa da Baía
Apresentação do livro Médico Unicista: Ensaio sobre a Arte de Cuidar, de Cristina Pinho

17 DE MAIO
Biblioteca Pública Municipal de Setúbal
Universidade Sénior de Setúbal (CIMM) partilha aula sob o tema “Almeida Carvalho: notas biográficas”, por Carlos Mouro

19 DE MAIO
Associação de Socorros Mútuos Setubalense
Conferência “Almeida Carvalho e o pioneiro mutualismo local”, por Carlos Mouro

20 DE MAIO
Museu de Arqueologia e Etnografia de Setúbal
Seminário “Adobe de Setúbal”, com apresentação do livro O Adobe

21 DE MAIO
Casa da Baía
Apresentação do livro O Fantasma do Convento da Soledade, de António dos Santos

25 a 28 DE MAIO
Em vários locais
Festival da Música de Setúbal (7ª edição)

26 DE MAIO
Antigo Quartel do 11
Jornada Internacional Sebastião da Gama “Pelo Sonho é que Vamos” (ao longo de todo o dia), com apresentação do livro A Chave de Sebastião da Gama, de Ruy Ventura, e concerto pelo grupo e-Vox, ao final do dia, na Sociedade Filarmónica Perpétua Azeitonense

domingo, 23 de abril de 2017

Para a agenda: Almeida Carvalho em conferências



O bicentenário do nascimento de João Carlos de Almeida Carvalho continua a ser assinalado em Setúbal também através de conferências, que demonstram, pelos temas abordados, a personalidade multímoda que Almeida Carvalho cultivou. Para os tempos mais próximos, estão previstas três palestras: já em 28 de Abril, Albérico Afonso Costa fará o retrato de "Setúbal no tempo de Almeida Carvalho" (Biblioteca Municipal de Setúbal, às 21h30). Em Maio, Carlos Mouro, reputado (nem sempre reconhecido) investigador em história local setubalense, será autor de duas comunicações: uma, em 17, na Biblioteca Municipal de Setúbal, sob o título "Almeida Carvalho: Notas Biográficas" (às 16h00); a segunda, em 19, na Associação de Socorros Mútuos Setubalense, consagrada a "Almeida Carvalho e o pioneiro mutualismo local" (às 21h30).
Para a agenda!


domingo, 2 de abril de 2017

Para a agenda - Almeida Carvalho em mostra em Setúbal



No ano em que está a passar o 200º aniversário do nascimento de João Carlos Almeida Carvalho (1817-1897), o Arquivo Distrital de Setúbal apresenta "Mostra Documental - Almeida Carvalho nas suas múltiplas dimensões", iniciativa integrada no programa das comemorações deste duplo centenário. A abertura é já amanhã. Para a agenda!

sexta-feira, 24 de março de 2017

Para a agenda: Nos 200 anos de Almeida Carvalho, olhar a Setúbal de Seiscentos


Setúbal está a celebrar os 200 anos do nascimento de Almeida Carvalho, historiador da cidade e da região. Para hoje, pelas 21h30, uma conferência que abordará olhares sobre a Setúbal seiscentista por um olhar contemporâneo da investigadora Laurinda Abreu. No Museu de Arqueologia e Etnografia. Para a agenda!

domingo, 5 de março de 2017

Nos 200 anos de Almeida Carvalho: o seu contributo para a história de Setúbal


Em 31 de Março de 1897, o periódico setubalense O Elmano, em coluna necrológica, noticiava que, dois dias antes, tinha falecido, “depois de prolongada doença”, João Carlos de Almeida Carvalho. Logo nessa edição, o jornal não regateou elogios à personalidade que acabava de desaparecer da cena sadina: “com a sua morte, perde Setúbal um dos seus filhos mais ilustres e mais justamente considerados”. Nesse mesmo dia, em sessão da Câmara de Setúbal, o presidente “propôs e foi aprovado que se lançasse na acta um voto de sentimento pelo falecimento” da mesma individualidade. Mas a edição seguinte, saída em 3 de Abril, voltava a invocar Almeida Carvalho, pondo a tónica na sua obra, dizendo tratar-se de “um investigador de rara persistência e notável erudição” e fazendo considerações quanto ao destino a ser dado ao seu espólio – “Setúbal tem uma Biblioteca Pública; nessa Biblioteca é que deve ser arquivada a história que ele investigou e redigiu com tão crisolada dedicação. É aí que ela se tornará um manancial de estudo, que poderá ser apreciada pelo mundo culto e ficará livre que algum estranho egoísta a oculte um dia, roubando ao autor a glória que lhe pertence”.
Pelo mesmo diapasão afinava outro jornal da cidade, O Districto, que, em 4 de Abril, comentava sobre Almeida Carvalho: “dum escrúpulo inexcedível sobre a veracidade e exactidão dos factos que se propunha narrar e comentar, prosseguia de indagação em indagação, sendo-lhe difícil obter pleno convencimento a respeito deles, circunstância esta que, a par doutras, concorreu para ficar inédita a sua obra”.
Muitos anos iriam passar sem que à figura de Almeida Carvalho fosse atribuída a importância que, de facto, merecia. Nota disso dava Montalvão Machado em crónica assinada no jornal O Setubalense, de 8 de Junho de 1960, abordando o esquecimento e o desrespeito pela memória desta figura do século XIX: “Vem a propósito dizer que a injustiça dos homens ainda não cessou, visto ter-se entendido que a dívida a tão ilustre filho de Setúbal e célebre plumitivo ficava saldada dando o seu nome a uma pequena ruela do Alto do Viso”. Com efeito, o nome de Almeida Carvalho fora atribuído a uma rua do Bairro Melo (ainda hoje existente, entre as ruas do Baluarte de S.Amaro e do Clube Desportivo de Palhavã), na freguesia da Anunciada, aquando da expansão da cidade para esses limites, pelo primeiro quartel do século XX. Mas… além da placa toponímica, que inseria, a seguir ao nome do homenageado, a legenda “Investigador da História de Setúbal”, acrescentando-lhe o respectivo período de vida, nada mais tinha lembrado aquele que foi o grande responsável pela recuperação de elementos sobre a historiografia sadina, pelas escavações em Tróia e pela criação do primeiro jornal em Setúbal, em Julho de 1855, O Setubalense de seu nome.

homem  de  cultura

O conhecimento da obra de Almeida Carvalho só viria a acontecer por finais da década de 60, logo que o seu espólio passou para a Junta Distrital de Setúbal e que alguns títulos foram publicados. A demora na divulgação da sua obra encontra paralelo na dificuldade que a própria vida de Almeida Carvalho foi, pelo menos a acreditar na narrativa autobiográfica que nos legou.
Quando, por 1968, a Junta Distrital sadina resolveu publicar os sete volumes da obra Acontecimentos, Lendas e Tradições da Região Setubalense, anotada por Óscar Paxeco, as “Memórias do Autor” constituíram o primeiro desses tomos, com cerca de 80 páginas. Trata-se de um relato de vida dorido, tal como se deixa adivinhar logo pela primeira frase – “Faz-me bem ao coração reviver tanto as alegrias fugidias que neste mundo gozei, e que desapareceram já, como as lágrimas que dos olhos me caíram nos momentos mais angustiosos da existência”. Assim, Almeida Carvalho regista a sua vida com o objectivo de reviver os momentos felizes e de exercer a catarse sobre os tempos menos bons (sobretudo a morte de dois dos seus três filhos e da esposa) e também para fazer valer a sua verdade e a explicação dos factos em que se envolveu.
Nascido em 5 de Março de 1817, numa casa da então Rua da Praia (hoje, Avenida Luísa Todi), filho de António Coelho de Carvalho e de Ana Rita de Almeida e Silva de Carvalho, o jovem João Carlos seria baptizado dez dias depois na igreja de S.Sebastião, tendo por padrinho o avô João Carlos de Almeida Soares e por madrinha Nossa Senhora Mãe dos Homens, invocação que assenta sobre imagem da Capela do Bonfim. A vida escolar de João Carlos foi permanentemente contrariada, ora pelas personagens de aspecto duvidoso que ensinavam e pelos métodos que usavam, ora pelo próprio pai, que estava mais interessado numa aprendizagem acelerada do pequeno para que, o mais rapidamente possível, começasse a trabalhar. Com efeito, se os jovens só podiam empregar-se em serviço do reino com 25 anos, António Carvalho conseguiu o emprego para o filho quando este tinha apenas 15 anos, como ajudante do escrivão da Correição da Comarca de Setúbal, lugar que era ocupado pelo pai – “e comecei a trabalhar como escrevente, para, com o produto do meu trabalho, me vestir e calçar”.
Depois, mercê dos conflitos entre absolutistas e liberais, e devido às responsabilidades do pai, a família esteve dividida, porquanto o pai teve de andar fugido dos liberais e levou o filho mais velho, João Carlos, para o acompanhar. Contudo, este jovem viraria liberal. De resto, ao longo dos tempos, Almeida Carvalho teve várias oscilações no percurso político, talvez pela instabilidade da época, talvez por alguma independência quando a causa era a defesa da sua terra natal, sentimento muito arreigado, uma vez que viveu entre Setúbal, Lisboa e Loures, num percurso também de incertezas que ele próprio invoca no final da autobiografia como razão para o ostracismo a que o votaram na sua vila.
Taquígrafo no Senado, onde foi vítima de várias injustiças profissionais, sempre se esforçou por evoluir na área do saber, sobretudo nos domínios da História e da Jurisprudência, num percurso fundamentalmente autodidacta, permitido pelo que ganhava – “todos os meus livros e propinas eram pagos com o meu ordenado, não sendo difícil assim acreditar quanto me aplicaria, ávido de me instruir”. Da importância e variedade do seu espólio bibliográfico se poderá fazer uma ideia através do título dado, em Junho de 1936, por José Santos à lista de livros que a Livraria Lusitana, de Lisboa, ia leiloar – Catálogo de uma magnífica e valiosa colecção de livros verdadeiramente notáveis dos séculos XVI a XX, a maioria dos quais pertenceram à importante biblioteca do distinto advogado, proficiente taquígrafo e brilhante jornalista setubalense Dr. João Carlos de Almeida Carvalho, rol que reunia cerca de mil e seiscentos títulos.
Por Novembro de 1849, com outras figuras setubalenses, designadamente Manuel da Gama Xaro e Domingos Garcia Peres, Almeida Carvalho, sob protecção do Duque de Palmela, criava a Sociedade Arqueológica Lusitana, instituição científica que tinha como objectivo proceder às escavações em Tróia e fundar um museu em Setúbal. No entanto, por morte do Duque (cerca de um ano depois), a Sociedade acabaria por se extinguir, passando o seu espólio para a Academia de Belas Artes de Lisboa.

homem  de  acção

A fundação do primeiro jornal setubalense, em 1855, não terá sido estranha ao facto de, na margem sul do Tejo, se verificar que todos os investimentos fomentistas tinham lugar na outra banda. Daí que, entre as reivindicações apresentadas pelo jornal, cujo redactor-principal era Almeida Carvalho, tenha estado o caminho de ferro para Setúbal, a exploração das salinas, o progresso agrícola, a defesa da moralidade pública. Pela mesma altura, esteve também na fundação da Associação das Classes Laboriosas de Setúbal, uma organização de carácter mutualista, a que presidiu. No entanto, este empenho trouxe-lhe alguns dissabores, sobretudo quando, na noite de 31 de Agosto de 1855, se dirigia para casa e foi assaltado e esfaqueado por alguém que se pôs logo em fuga, tendo Almeida Carvalho estado entre a vida e a morte durante algum tempo. O patife acabaria por se confessar, mas teve a absolvição da justiça. A autoria moral do crime estaria relacionada com ameaças recebidas por Almeida Carvalho devido ao conteúdo do jornal… que tinha sido uma força para o aparecimento da Associação.
Da sua colaboração em O Setubalense registou Fran Paxeco que, “conquanto política, destinava-se quase exclusivamente a pugnar pelos melhoramentos morais e materiais da cidade, cujos interesses defendeu sempre”. A participação jornalística de Almeida Carvalho estendeu-se ainda a títulos como Revolução de Setembro, A Justiça, A Nação e Archivo Pittoresco, havendo sempre como pretexto Setúbal.
Do ponto de vista da investigação histórica, a busca apurada e um cuidado perfeccionista levaram a que este homem muito pouco tenha deixado publicado e muitíssimo mais tenha deixado recolhido. Foi autor dos relatórios da Sociedade Arqueológica Lusitana (o primeiro foi publicado em livro em 1851; o segundo, em jornal, em 1857), de Duas Palavras ao Autor do Esboço Histórico de José Estêvão (de 1863, constituindo uma reposição da verdade e uma refutação ao escrito de Jacinto Augusto Freitas de Oliveira) e de A Sociedade Arqueológica Lusitana (de 1896). Todo o restante trabalho era reconhecido, mas não conhecido – Pinho Leal, em Portugal Antigo e Moderno, referia que a obra que Almeida Carvalho estava a escrever sobre a história de Setúbal era “importantíssima” e desejava que houvesse editor para ela…
Hoje, o seu espólio está disponível para consulta pública no Arquivo Distrital de Setúbal, tendo, em 1996, sido publicado o índice das 144 caixas que o constituem, trabalho devido a Carlos Dinis Cosme, Maria Luísa Melo e Luís Agostinho Neves.
Ao longo deste ano, vão acontecer diversas iniciativas para assinalar o bicentenário do nascimento de Almeida Carvalho, conforme pode ser lido aqui.

Texto inicialmente publicado no Jornal da Região – Setúbal / Palmela (dir: Albérico Fernandes. Setúbal: nº 193, 15.Janeiro.2002, pg. 9) e republicado em Histórias da Região de Setúbal e Arrábida (Setúbal: Centro de Estudos Bocagens, 2003, vol. I, pp. 121-127). Foto a partir da página facebook da LASA.