Mostrar mensagens com a etiqueta Palmela. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Palmela. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de outubro de 2024

Cecília Matos mostra como José Bárcia fotografou Setúbal e Palmela



Trinta anos foi o tempo que Cecília Matos levou a amadurecer o plano de trazer para a memória o itinerário artístico e biográfico de um dos importantes fotógrafos portugueses da primeira metade do século XX, tempo de descobertas e de contactos com a obra e com testemunhos, que agora aparece sob o título de Os Dias de José Bárcia (1895-1917) (edição de autor, 2024), com informação acrescida no subtítulo, curta apresentação de parte do conteúdo — “a colecção fotográfica de Quinta do Anjo, Palmela e Setúbal”.

São cerca de 300 as fotografias integrantes desta obra, que podemos organizar em duas partes em torno do fotógrafo Bárcia (1873-1945). Na primeira, que traça o seu perfil biográfico, o leitor assiste a um recuo até às origens galegas do biografado, passando pelas suas apetências musicais e pela profissão de desenhador de obras públicas, até chegar àquilo que não foi a sua profissão, mas o seu gosto, a fotografia, sendo ainda de destacar o relacionamento com o olissipógrafo Júlio de Castilho, parte que também nos revela peças de correspondência epistolar de Bárcia com diversos destinatários (especialmente com Castilho). Cecília Matos faz o levantamento dos arquivos onde existe o acervo fotográfico de um autor que testemunhou pela imagem momentos tão importantes como a construção da nova Escola Médico-Cirúrgica (1906), o funeral real (1908) ou a construção do Hospital Júlio de Matos, articulando a sua investigação com a recepção que a obra de Bárcia teve na época e sobre quem Brum do Canto deixou dito ser autor de fotografias “reveladoras de estudo e muito apreciável capacidade artística” e a Ilustração Portuguesa (de 21 de Março de 1918) registou ser “o fotógrafo amador a quem a arqueologia olissiponense deve relevantes serviços”.

A segunda parte da obra é ocupada com o tempo em que Bárcia registou momentos de Setúbal, Palmela e Quinta do Anjo, em vindas da capital que muito ficaram a dever ao facto de uma sua tia, Amélia Várgea, ter sido professora, desde 1877, em Palmela e, a partir de 1894, em Setúbal. Tais instantes, motivadores de outras tantas fotografias, surgem muitas vezes com as legendas que o próprio artista registou, anotando nomes dos retratados, referências dos locais e, até, pormenores dos contextos desses momentos, por aqui passando as histórias de pessoas, de festas e do quotidiano ou os testemunhos de um passado ligado a narrativas familiares e locais.

Ao longo do livro-álbum, Cecília Matos procedeu também à transcrição de textos que documentam o que eram os locais fotografados e a vida nesse tempo que José Bárcia guardou, recorrendo a alguns testemunhos orais e a entrevistas por si realizadas a descendentes de pessoas que contactaram com o fotógrafo-artista (irmãs Adília do Carmo Cardoso e Maria da Graça Cardoso, Maria Neves Cipriano, Laura Cardoso e Maria Adelaide Chagas), a registos publicados de autores como Mário de Sampayo Ribeiro, Augusto Filipe Simões e Manuel Godinho de Matos, e a notícias da imprensa periódica (como Ilustração Portuguesa, Olisipo, Serõese Diário de Lisboa, entre outros títulos). 

Obra com cuidado estético assinalável, Os Dias de José Bárcia resulta de uma procura intensa nos acervos (Arquivo Municipal de Lisboa, Torre do Tombo, Museu de Lisboa, Arquivo Municipal de Palmela e espólio de Maria Ascenso, enteada do fotógrafo), mas também de factores importantes que Cecília Matos não esconde — o seu gosto pela história e pelas técnicas da fotografia, o seu interesse pela história local e o seu afecto às origens e à aldeia-natal, Quinta do Anjo. Por isso, também perpassa pelo livro uma preocupação de trazer a personalidade de Bárcia para a actualidade e de o chamar para a construção da identidade local, como refere: “Em 2023, se Bárcia fosse vivo, faria 150 anos. Agradeço-lhe a possibilidade que nos deu de viajarmos até ao passado e de ver como era a Quinta do Anjo no início do século XX, de imaginarmos como seria viver numa época ainda sem electricidade, sem telefones e sem automóveis.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1403, 2024-10-30, pg. 10.


quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Abril: 50 anos, 100 mulheres, 2 antologias

 


Meio século depois do 25 de Abril de 1974, torna-se imperioso haver testemunhos que contem o antes, revivam o durante e avaliem o depois, num percurso que seja construtivo e se oriente pela permanente edificação da liberdade e pelo contínuo engrandecimento da humanidade que somos. A data foi pretexto para Alexandrina Pereira desafiar uma centena de mulheres (50 do concelho de Palmela e outras tantas do concelho de Setúbal, de grande diversidade de profissões, muitas nascidas a partir de 1974) para testemunharem sobre as suas experiências, memórias e olhares sobre o feminino, registos coligidos em duas antologias, editadas com o apoio dos respectivos municípios — Abril, Nome de Mulher, para o caso de Palmela, e Liberdade no Feminino, para o de Setúbal, ambas publicadas recentemente.

Para Alexandrina Pereira, “esta variedade de testemunhos poderá ser objecto de estudo em vários meios, com enfoque nas escolas, e principalmente nos mais jovens, para que a memória não seja curta e a história não se repita”, intenção registada no volume editado em Palmela. Um segundo propósito, que completa o anterior, surge no título publicado em Setúbal, ao desejar que “cada página deste livro seja um grito de libertação perante quem foi fechando um círculo à volta da condição feminina”, poder responsável por remeter as mulheres para a “ignorância imposta por leis que as submetia às mais humilhantes situações.”

Os temas que perpassam por esta centena de testemunhos, muitas vezes eivados de reflexão quanto ao presente e quanto ao futuro (mesmo que as aprendizagens advenham do relato transmitido por familiares), são comuns às duas antologias: as condições difíceis de vida antes do 25 de Abril, as memórias da guerra colonial, as lembranças do que era a escola, a falta de liberdade e a prisão, o medo da polícia política, o papel de subserviência atribuído à mulher, o fascínio pelas promessas pressentidas com a Revolução, a força da manifestação no primeiro Primeiro de Maio, o entusiasmo perante uma figura como José Afonso, a influência e aprendizagem vindas das mães e das avós (sobretudo nos testemunhos de mulheres que nasceram após 1970), as referências ao que falta cumprir como direito e garantia de bem-estar social (no âmbito da saúde e da justiça e na afirmação da democracia e da liberdade, tópico que, em alguns casos, reacende a questão do medo e a indignação perante o populismo).

Por muitos dos testemunhos passam momentos de comoção, que foram vividos na primeira pessoa: o ter tido o primeiro cerco da PIDE aos 16 anos (Antonieta Santos), a dureza da vida da conserveira e os cenários de violência doméstica sobre a mulher (Emília Mondim), a vivência da ruralidade (Felisbela Rilhó), o medo da PIDE e dos traidores (Fernanda Pésinho), o castigo infligido na escola por uma professora esposa de um agente da PIDE a uma miúda cujo pai trabalhava em jornal que dava voz à oposição (Isabel Castan), a felicidade das aprendizagens de um percurso de activista (Natividade Coelho), entre outros que constam no volume editado em Palmela; o exemplo vindo da vida em que a mãe disse “não” à humilhação (Cátia Oliveira), a comoção ao ver com o pai a libertação dos presos de Caxias (Dina Barco), a história de família e de afirmação de identidade (Helena de Sousa Freitas), o peso de viver ao pé das instalações da PIDE  e de assistir ao “teatro de sombras” dos informadores (Isabel Victor), a história da mãe que se indignou porque o Estado não assumia a trasladação dos jovens mortos na guerra colonial (Maria Luís Bento), a dura experiência das desigualdades sociais e consequente indignação (Rita Drouillet), entre outros que povoam o livro dos testemunhos de Setúbal.

Quanto ao futuro, as ideias que perpassam são de confiança num regime livre, ainda que muitas vezes exista a apreensão quanto aos perigos — com 40 anos, Ana Pereira, de Palmela, considera: “Agora, crescida, volto a ter medo. Tenho medo de que o fascismo volte embrulhado num papel dourado coberto de populismo. Tenho medo de que as canções de Abril percam as suas palavras e nos esqueçamos de quem lutou e quem morreu pela luta. Tenho medo de que tenhamos perdido o poder da palavra. E o ‘medo’ é das palavras que mais evito usar, mas prefiro ter medo a ser inconsciente.” Helena de Sousa Freitas, de Setúbal, com 48 anos, construiu o seu texto em diálogo com a mãe, Adélia Lino Rapaz, a quem dá a última palavra no testemunho: “Se houver que desenterrar os tempos velhos, que seja para estudar os erros ali cometidos e evitar repeti-los, nunca para matar supostas saudades. E, em seguida, é devolvê-los à sepultura e enterrá-los bem fundo. Sobretudo, enterrá-los bem fundo!”

Convicção e confiança são, assim, dois pilares fortes na sustentação do futuro... construídos sobre a base da memória, que não permite que a história seja traiçoeira.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1398, 2024-10-23, pg. 10.


quarta-feira, 17 de julho de 2024

Contar o Centenário do Palmelense FC por fotos



“Aos oito dias do mês de Abril do ano de mil novecentos e vinte e quatro, reuniu-se na Farmácia Matos, na vila de Palmela, um grupo de amigos do Sport a fim de levar a efeito a organização d’um club de Foot-ball. Sendo nomeado para dirigir os trabalhos da organização d’este club o Sr. José Trajano Godinho de Matos, Higino Caetano, António Diniz Cardoso, como Presidente, secretário e tesoureiro. Sendo aprovado por unanimidade que este club ficasse com o nome de Palmelense Foot-Ball Club.” Este é o início da primeira acta das assembleias do clube palmelense, texto em que segue a lista das 82 pessoas que se inscreveram como sócios fundadores.

O documento cujo início se transcreve abre o livro Centenário Palmelense FC - Uma Vila, um Castelo, o Nosso Clube, coordenado por Ângela Camolas e Luís Pedro Mares, obra recente, que utiliza a fotografia (cerca de 220 imagens) como meio para testemunhar alguns momentos da história do grupo desportivo. Reproduzido é também o segundo documento fundador do clube — a autorização de funcionamento, dada pelo Governo Civil de Lisboa em 21 de Novembro de 1925 (na altura, Palmela pertencia ao distrito de Lisboa, pois não tinha ainda sido criado o de Setúbal).

O que sobressai das reproduções apresentadas (datadas do período entre 1931 e 2024) é a valorização das equipas desportivas, sejam elas do futebol, do ciclismo, do judo, do basquetebol ou do atletismo, nos diversos escalões, havendo algumas que mostram momentos importantes para a história e investimentos no clube — sorteio para a aquisição do prédio da sede (1932), construção e inauguração das bancadas (1963), compra do mini-autocarro (1982), participações na Festa das Vindimas, obras para a colocação do novo sintético (2015), inauguração do Centro Médico (2021) — e outras que dão conta de algumas das melhores classificações obtidas — equipa de juniores campeã da II Divisão da AFS (1973) e da I Divisão Distrital da AFS (1991), equipa de séniores campeã da I Divisão Distrital da AFS (1987 e 1992) e campeã distrital da II Divisão da AFS (2011) e os palmarés conquistados pelos iniciados, benjamins e juvenis (2023).

O livro vive também de alguns testemunhos registados, elucidativos do apego ao clube e do significado de ser seu membro, como são os casos de Aurita Ferreira (que chega a afirmar ser seu sonho “morrer a ver o Palmelense”), João Camolas (satisfeito por a vida o ter deixado viver o centenário do clube), Nicolau da Claudina (a relembrar episódios da compra do mini-autocarro), António José dos Santos (para quem o clube “é a mística de uma terra”), Hélder Paizinho (que manifesta a sua gratidão ao clube), António Júlio Caleira (com os seus mais de 500 jogos feitos), Luís Crispim (com dificuldade em descrever o que sentiu aquando da subida à 3.ª Divisão Nacional), Manuel Simões Baptista (que, aos 71 anos, no grupo de veteranos, garante defender a sua cor “com a mesma garra” de quando começou) e Armando Silva (sensibilizado pela atribuição do seu nome ao balneário da equipa principal).

Por estas páginas corre vida e entusiasmo de todos aqueles que, ao longo de um século, têm dado o melhor da sua emoção e esforço ao clube. Pena é, no entanto, que por estas páginas não passem duas listagens que cremos serem igualmente importantes para o que tem sido a afirmação do Palmelense FC: a das equipas dirigentes desde o seu início (pelo menos com as composições possíveis) e a dos palmarés conquistados.

A fechar esta quase fotobiografia sobre o centenário do Palmelense FC, surge a perspectiva do futuro, que parece estar garantida pela importância dada à formação infantil e juvenil. Foi o escritor Ruben A. (1920-1975) que deixou registado algures que a “bola é pássaro sem asas, aparece e desaparece”, frase obviamente poética que diz muito sobre a energia transmitida pelo jogo e sobre a sua importância para a vida. E, se dúvidas houvesse, as afirmações que encerram o livro são devidas a três jovens que explicam, em enunciados simples mas cheios de expressividade, a razão por que se ligam ao clube: “No Palmelense jogo à bola faço amigos sou feliz” (Vasco Barrocas), “Treinar e jogar com os amigos” (Diogo Charrão) e “Palmelense é vida” (Vicente Mares).

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1338, 2024-07-10, pg. 9.


quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Pedro Tamen entre Bocage e a Rua de Nenhures



Numa entrevista a Carlos Vaz Marques na revista Ler (nº 99, Fevereiro.2011), Pedro Tamen (1934-2021) definiu a importância da poesia: “é, para mim, um permanente arranhar o mundo, com unhas na cal, para tentar encontrar coisas que se pressentem por detrás do branco uniforme do mundo e da vida.”

Era isso, então, que andava a fazer desde que, em 1956, saiu o seu primeiro livro, Poema para todos os dias (ed. Autor), obra em que haveria de registar marcas que pontuariam os seus títulos subsequentes: a escrita da poesia como elemento fixador ("Ontem / (ainda ontem) / aconteciam verdadeiras coisas, / aconteciam muitas e sérias coisas. / E, agora, neste seco papel, / tudo volta, e eu vejo."), a força da palavra ("Não há montanhas se não há palavras"), a capacidade de surpreender o leitor pela palavra intrometida ("Não penso, faço, / não estrada, sigo"), o apelo aos jogos de sonoridades ("e o dia perto, porto, parto ferido"), o engenho de (re)inventar significados ("aleluia-se um gesto"), o amor ("em ti não busco mais do que pensar-te"), o tempo ("o tempo todo corre num cigarro, / no suor a cair, e no ficar."), as marcas autorais ("formado em direito e em solidão" ou "Sentidos frios de pesadas frases / Ai Pedro, Pedro, tu que frases fazes?"), a subtileza na forma de apresentar, de visitar e de escrever a poesia ("Em segredo, como quem vai ao armário de si próprio, / rodo a fechadura (range) e abro.").

O jogo de palavras será constante em Tamen, ajudado por alguns mestres, como Bocage, que puxou para um poema no livro Analogia e Dedos (Oceanos, 2006), conjunto que quase configura uma mitologia do poeta: “Já não sou. Já não serei / se fui. Agora à cova / além dos ossos e caroços / muito mais descerá. / O verso, o riso, o vinho, / a mão ladina sobre a carne morna, / tantas coisas sentidas, ressentidas, / intenções, bolandas, entreactos, / entradas por saídas, choros finos: / muito mais descerá. // Não sou, é certo, e não serei, / mas no descer de tudo / já nem fui.” 

Quando passou a viver em Palmela, Pedro Tamen por lá encontrou uma Rua de Nenhures, nome estranho sugerindo um não-lugar, que deu título para livro (Publicações Dom Quixote, 2013), com 64 curtos poemas centrados num “tu”, por onde passam referências associadas à luz, ao mar e ao fogo, na procura do momento desejado - “Cheguei do fundo das ravinas, / (...) / e o coração, / salvei-o, essencial e concentrado, / para que, chegado ao lar do milho, / to pudesse entregar nas mãos iluminadas / ao sol incandescente dos teus olhos.” Desde este poema, quase no início, até ao último (“Sentas-te no muro, lá no alto, / nem me vês tropeçar nas pedras desta rua.”), o amor intensifica-se pela voz (“Cotovia perto / cantas. / (...) / cotovia perto, / meu amor, meu amor.”) ou pelo tacto (“Deixo os dedos enrugados navegar / no mar de leite”), ajudado pelos jogos de palavras - “Troco-me por ti. / Na brasa da fogueira mal ardida / renovo o fogo que perdi, / acendo, ascendo, ao lume, ao leme, à vida.” O “tu”, procurado e incorporado, surge transformador - “sinto (...) / que a lanterna de bolso que tu és / me devolve a paisagem de largueza / que a ti devo, deverei ou deveria, / a inconstante chuva de alegria.”

“Tentar encontrar coisas que se pressentem”, o desafio que Pedro Tamen legou.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 678, 2021-08-04, p. 9.


sábado, 31 de julho de 2021

António Rodrigues Correia: Uma vida com as pessoas


Conheci António Correia em 1988. Ficámos amigos a partir daí. No ano lectivo seguinte, fui leccionar para a Escola Secundária de Palmela, onde fomos colegas. Cultivámos sempre a amizade: em horas boas e menos boas. Há tempos, o director de O Setubalense, Francisco Rito, conversou comigo sobre nomes para serem entrevistados para o número do 166º aniversário daquele título regional. Logo me lembrei ao António Correia pela sua experiência, pelas suas histórias e porque é uma referência (não só para mim). Convidou-me Francisco Rito para ser eu a entrevistar. Aceitei com gosto e com receio - é difícil seleccionar quando nos vemos dentro da história...
Numa destas tardes, houve uma conversa de 2 horas entre mim e António Correia. Forte em memórias e em histórias. Um trajecto invulgar, com comoção à mistura. Ouvi a gravação duas vezes e redigi o retrato possível, tendo em conta as limitações de espaço no jornal - mesmo assim, Francisco Rito permitiu que a peça jornalística excedesse em mais um terço os limites. Fico com pena de não ter contado tudo, de ter deixado na gravação algumas interessantes histórias. Mas teve de ser.
Aqui vai o que saiu n'O Setubalense de ontem - a edição que assinalou os 166 anos do título (nº 675, 2021-07-30, pp. 158-159). (clicar sobre as imagens para leitura)


sexta-feira, 30 de julho de 2021

Memória: Pedro Tamen (1934-2021)


 

Por meados de Maio de 2007, conheci Pedro Tamen. Foi numa sessão intitulada “Encontro com Pedro Tamen”, realizada em Palmela (para onde o poeta viera residir), na Biblioteca Municipal,  que a minha amiga Isolina Jarro me convidou para apresentar.

Conhecia alguns dos títulos de Tamen, fui ler os outros. E a sessão foi interessante, numa relação entre leitura de poemas e considerações, jogos de palavras e episódios biográficos, conversa e algum humor.

Fez-me seu amigo e, de cada vez que saía um livro seu, sentia o prazer de o receber com palavras simpáticas.

Encontrámo-nos algumas (poucas) vezes. Fui sabendo dos seus prémios pelas notícias, fui sabendo do seu estado de saúde à distância.

Partiu ontem. E fica um vazio que ultrapassamos ao pegar nos livros e ao ler os seus poemas. Obrigado, Pedro Tamen!


Do livro Horácio e Coriáceo, de 1981, a “Fábula Redonda”:

 

                  Um bando de pombas voa

                  algo de banda, mas pumba,

                  um caçador que as chumba

                  abate a pomba de proa.

 

                  Furtivo; mas apregoa

                  a proeza que o enfuna.

                  Outra pomba, boa aluna

                  de sua mestra falcoa,

 

                  procura, de asa fincada

                  no bico, com que redima

                  tanta justiça ultrajada:

 

                  do caçador se aproxima,

                  por ira e vento levada,

                  e pumba, caga-lhe em cima.


sexta-feira, 19 de julho de 2019

Tarquínio Reis: referência maior de Palmela



Tarquínio Reis é figura incontornável para se contar a vida de Palmela. Nascido no início de Dezembro de 1925, Tarquínio Reis tem sido um homem que tem preservado as tradições, que se dedicou ao movimento associativo (como dirigente, como associado, como fundador de associações) e à solidariedade social.
Desde que o conheci, há uns 30 anos, sempre o vi com enorme admiração. Aprendi com ele, estive com ele na direcção do Grupo dos Amigos do Concelho de Palmela (GACP), somos amigos.
Esta gravação, da responsabilidade do Museu de Palmela, contém cerca de 8 minutos de entrevista feita a Tarquínio Reis por Pedro Ralo e Teresa Sampaio, em que o destaque vai para as histórias em torno das músicas de Palmela, terra de duas sociedades filarmónicas. Excelente contador de histórias, este Tarquínio, não só porque as sabe contar, mas também porque as viveu e porque delas foi protagonista.

quarta-feira, 24 de abril de 2019

António Correia: o cidadão, o professor, o amigo



Conheci o António Correia como professor na Escola Secundária de Palmela, quando lá fui colocado, em 1989. Foi meu colega, foi director da Escola (Conselho Directivo), foi meu orientador durante a profissionalização em serviço, foi (é) meu amigo.
O António Correia é sempre um mestre. Sem favor! Tive o privilégio de trabalhar com ele. Tenho o privilégio de o ter como amigo. Tenho tido o privilégio de aprender com ele. O discurso que ouvi neste filme é o mesmo que me contou noutras alturas. Sem ser pretensioso, sem ultrapassar o que lhe é devido. Excelente testemunho, António Correia! Obrigado por tudo.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Joaquim Rasteiro e as histórias da Península da Arrábida (Azeitão, Palmela, Sesimbra)



A revista O Arqueólogo Português começou a sua publicação em 1895 sob a direcção de José Leite de Vasconcelos (1858-1941), tendo-se dividido até hoje em cinco séries, a primeira das quais, em 30 volumes, a mais longa, publicada até 1938. A revista, uma referência indiscutível na área da arqueologia, surgiu no âmbito do Museu Nacional de Arqueologia, criado dois anos antes por Leite de Vasconcelos.
A temática sadina passou pelas páginas da revista desde o seu primeiro número, que teve também um colaborador setubalense, Manuel Maria Portela (1833-1906). No segundo número, de 1896, os temas das terras do Sado continuaram a ser abordados e outro setubalense ali assinou um texto, o arqueólogo António Inácio Marques da Costa (1857-1933). Foi ainda neste segundo número que Leite de Vasconcelos publicou a notícia “Questionários Arqueológicos”, dando publicidade a trabalho encetado a nível nacional dois anos antes: “A Comissão dos Monumentos Nacionais fez imprimir, em 1894, e distribuir por diversas pessoas, os seguintes questionários, com o fim de recolher elementos para o estudo da arqueologia portuguesa.” Seguia-se o referido questionário, dividido em assuntos gerais e em informações de carácter militar.
No número seguinte de O Arqueólogo Português, o terceiro, de 1897, surgia a primeira resposta a este questionário, devida a Joaquim Rasteiro (1834-1898), ocupando as primeiras 48 páginas da publicação sob o título “Notícias Arqueológicas da Península da Arrábida”, com a nota de rodapé que esclarecia ter sido o artigo escrito no período de 1893-1894. Ao longo do texto, outras notas vão aparecendo, devidas a José Leite de Vasconcelos, umas vezes contextualizando algumas informações, outras vezes estabelecendo relações com outros estudos.
Joaquim Rasteiro, azeitonense, autodidacta, investigador, político e proprietário, foi autor de diversas publicações sobre história local da sua região, de entre as quais se destaca Palácio e Quinta da Bacalhoa - Inícios da Renascença, editada em 1895 (que mereceu edição fac-similada em 2003). As “Notícias Arqueológicas da Península da Arrábida”, que redigiu, seguem o plano do inquérito da Comissão dos Monumentos Nacionais e abrangem os termos de Azeitão, Palmela e Sesimbra.
Recentemente, Bernardo Costa Ramos, azeitonense e divulgador da história da sua terra, promoveu a edição deste texto de Joaquim Rasteiro (Azeitão: A Páginas Tantas, 2018), mantendo a ortografia da época e assim justificando o trabalho apresentado: “por um lado, proporcionar a todos aqueles que se interessam pela nossa história de disporem em formato livro do texto original, tornando-o mais legível e de uma partilha mais célere; por outro lado, prestar homenagem aos grandes homens azeitonenses que contribuíram para fixar essa mesma história”. O livro contém ainda uma nota biográfica de Joaquim Rasteiro elaborada pelo filho, que mantinha o nome do pai, publicada no semanário dominical O Azeitonense, em 7 de Setembro de 1919. A iniciativa da edição de 2018 foi indiscutivelmente louvável, embora devesse ter tido maior divulgação e mais substancial tiragem.
A intenção de Joaquim Rasteiro não se limitou a constituir uma resposta ao inquérito da Comissão; a esse apelo, acrescentou o seu propósito de “segurar o que tende a cair no olvido, juntar o que há disperso, fazer que se saiba o muito que se cala”, vontade tanto mais acentuada quanto as duas instituições que mais perpetuavam a história e as artes - as “famílias religiosas” e a “instituição dos morgados” - estavam extintas e, assim, urgia “segurar por novos meios quanto tende[sse] a esvair-se”.
As descrições que Rasteiro apresenta no seu texto decorrem da sua observação, do seu contacto com os sítios ou com as peças que descreve, não especulando, mas chamando a atenção para as condições de sobrevivência dos testemunhos artísticos - por exemplo, quando se refere ao Palácio da Bacalhoa, considera ser “um monumento a que bem caberia a guarda do Estado” em virtude da “forma e disposição das suas construções, pelos seus azulejos e medalhões esmaltados, pela significação artística do conjunto”. O conjunto da sua descrição é valorizado pelas informações de cunho histórico (que na época eram conhecidas) associadas a cada um dos itens, estabelecendo a diferença entre o que é comprovável em termos de conhecimento e o que diz respeito a tradições ou crenças construídas - por exemplo, ao mencionar o paço dos Duques de Aveiro, diz que “modernamente inventou-se que dos reclusos [jesuítas ali custodiados]31 por 73 se finaram de tanto penar nas cadeias de Azeitão”, afirmação que imediatamente contesta: “É falso. Nem um só aqui morreu. Os livros do registo paroquial não acusam um óbito sequer de jesuíta.”
Pelo escrito de Rasteiro passam as antas (existência suposta na zona de Sesimbra), as cavernas ou grutas (lapas do Médico, de Santa Margarida e da Greta), as grutas artificiais pré-históricas (Quinta do Anjo), as pedras de raio, os restos de povoação (vestígios romanos na antiga freguesia da Ajuda), as moedas e outros objectos romanos, os objectos e moedas árabes, as tradições locais (ermida de Santa Maria da Vitória), as designações locativas (Azeitão, Coina-a-Velha, Vila Nogueira de Azeitão, Vila Fresca de Aseitão, Portela, Casal do Bispo), as fortificações ou edifícios atribuídos aos mouros na voz do povo (castelo dos Mouros, covas da Moura, castelo de Coina), os monumentos-palácios (Bacalhoa, Duques de Aveiro, Calhariz), as igrejas (de S. Lourenço e de S. Simão), as ermidas (do Bom Jesus, dos Remédios), os túmulos (na igreja de S. Tiago, em Palmela, e no mosteiro da Piedade, em Azeitão), os cruzeiros (das Necessidades), os brasões (Bacalhoa, capela das Necessidades, quinta do César, quinta Nova e quinta Velha, quinta das Torres, entre outras), as imagens de pedra, as imagens de barro, as pinturas em tela, as custódias, outros objectos de culto (alfaias diversas de arte sacra), as tapeçarias (em longo inventário), as inscrições (em enumeração pormenorizada), as antiguidades a que não pode marcar-se origem conhecida (lápides do chafariz de Aldeia Rica e da quinta do Visconde de Montalvo), os montes fortificados, os castelos de Sesimbra e de Palmela, as torres, os factos históricos das fortalezas (de Coina, Sesimbra e Palmela) e as fortalezas prisões de Estado (Palmela, Outão, paço dos Duques de Aveiro).
A leitura deste registo devido a Joaquim Rasteiro torna-se interessante porque o texto abdica de considerações laterais e vale na sua simplicidade, assertividade e objectividade; permite ao leitor uma viagem a um tempo e a um espaço de reconstrução da identidade; afirma uma riqueza patrimonial e histórica da região da península arrábida; é um elemento-base incontornável a ser considerado na bibliografia local.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

"Ainda que a nuvem passe por cima da luz", uma coreografia contra o "bullying"



"Ainda que a nuvem passe por cima da luz" é um trabalho de mérito, inteligente, sentido, imprescindível. 
Concebido por Sofia Luz, jovem palmelense, e pelo seu grupo de dança, é necessário que seja visto e reflectido. O tema é o bullying, algo que preocupa a sociedade de hoje. A música, a dança e as palavras caracterizam-no, mas também incentivam à coragem. Peça notável! A ver, em cerca de sete minutos que não serão um desperdício...

segunda-feira, 30 de abril de 2018

Grande Guerra - Saudação aos combatentes palmelenses


Os deputados da coligação PSD/CDS da Assembleia Municipal de Palmela apresentaram voto de saudação aos combatentes palmelenses que participaram no Corpo Expedicionário Português (CEP), na Primeira Guerra Mundial, iniciativa que teve unanimidade.
O concelho de Palmela já anteriormente homenageou os seus combatentes e aqueles que tombaram na Grande Guerra, como, por exemplo: na exposição “Quadros da Guerra 2015” (entre Setembro e Dezembro de 2011); na exposição bibliográfica “Quando os Portugueses andaram na Grande Guerra”, na Biblioteca Municipal de Palmela, entre 14 de Janeiro e 11 de Fevereiro de 2012; na inauguração de memorial a propósito, em 1 de Novembro de 2012; na “newsletter” do Arquivo Municipal de Palmela de Setembro de 2013, em que foi dado destaque aos combatentes palmelenses mortos durante o conflito. Abaixo se reproduz notícia sobre a moção apresentada pela coligação PSD/CDS, saída em O Setubalensede hoje.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Águas de Moura: Sobreiro "Assobiador" é "árvore do ano"



O sobreiro conhecido como “Assobiador”, em Águas de Moura, no concelho de Palmela, mereceu hoje o título de “Tree of the Year”, depois de uma votação do público que o tornou vencedor com 26606 votos, seguido dos ulmeiros ancestrais de Cabeza Buey (Badajoz, Espanha), com 22323 escolhas, e do carvalho ancião da floresta de Belgorod (Dubovskoye, na Federação Russa), com 21884 indicações.
Na página da organização, que pode ser lida aqui, a história do “Assobiador” é assim contada: “O Assobiador deve o nome ao som originado pelas inúmeras aves que pousam nos seus ramos. Plantado em 1783 em Águas de Moura, este sobreiro já foi descortiçado mais de vinte vezes. Além do contributo para a indústria, é impossível quantificar o seu impacto na manutenção do ecossistema e no combate ao aquecimento global. Com 234 anos, o Assobiador está classificado como ‘Árvore de Interesse Público’ desde 1988 e inscrito no Livro de Recordes do Guinness como ‘o maior sobreiro do mundo’!”

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Para a agenda: Fortalezas Abaluartadas em Palmela e S. Julião da Barra



Para comemorar o Dia Nacional dos Castelos, vai acontecer em Palmela (dia 7) e na Fortaleza de S. Julião da Barra (dia 8) um curso sobre "As Fortalezas Abaluartadas na História e na Arte Portuguesa", com um programa diversificado que aqui se divulga. Para a agenda!


sábado, 30 de setembro de 2017

Vinhos da Casa Ermelinda Freitas: Uma história feita de sentido



A revista do Expresso de hoje traz entrevista com Leonor Freitas (nº 2344, 2017-09-29, pp. 56-63), o rosto e a vontade que, nas duas últimas décadas, criou e desenvolveu a marca Ermelinda Freitas no mercado vitivinícola a partir da região de Palmela-Setúbal.
Vale a pena ler a entrevista em que se percebe a história da empresa e da marca, aliada à história da família, numa conversa conduzida por Carolina Reis em que se evidencia também o papel da vontade, da humildade, da coragem e do testemunho. O percurso de Leonor Freitas é a corrida atrás de um sonho e de uma identidade, por onde correm lágrimas, esforço e um incondicional apego às raízes. Sentimos o prazer de ser contada uma história em que mesmo as designações comerciais para os vinhos têm uma justificação: "Tudo tem história, tudo é sentido!" é a última frase da entrevistada, que podia ser a primeira, de tal forma a entrevista é coerente. A ler!

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Para a agenda: Almenara - Um ritual entre Palmela e Lisboa



Palmela e Lisboa vão assinalar "Almenara", lembrança de Nuno Álvares Pereira que, a partir do castelo de Palmela, através do fogo, anunciou aos companheiros de Lisboa a sua proximidade, assim incentivando à defesa da capital.
Para a agenda! Com as recomendações que a organização faz.


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Nuno Gil - Quando a doçaria se mistura com a identidade



Ele quer mostrar marcas da identidade através da doçaria, arte em que mistura sabores e aromas, ginja e moscatel, laranja e mel, queijo e feijão. Doçuras, claro, mas que carregam símbolos e outras artes! Ele mistura aos doces o saber das histórias locais e a poesia. E tudo conflui numa sensação de prazer em que o gostar se faz a partir do degustar... Ele é Nuno Gil, pasteleiro em Palmela, na Confeitaria S. Julião, autor de gulodices como os bolos “D. Filipe”, “Santiago”, “Pastel de Laranja de Setúbal”, “Pastel de Ginja”, “Queijada do Anjo”, “Caramelos”, “Brisas do Sado” e, agora, o “Bombom de Moscatel de Setúbal”. Tudo à venda por aí: no “Retiro Azul” e na Casa Mãe da Rota dos Vinhos, em Palmela, e na Casa da Baía, em Setúbal, por exemplo.
Para dar a conhecer a obra e as motivações, vale a pena ler a entrevista feita por Jorge Andrade, publicada aqui em 14 de Agosto. Depois, se ainda não o fez, vale mesmo a pena ir provar e apreciar!...

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Para a agenda: Palmela Wine Jazz, com Mário Laginha à mistura



Os vinhos de Palmela estão em grande promoção, uma questão que não é apenas de publicidade, mas que é sobretudo de qualidade. Entre 23 e 25 de Junho, o evento "Palmela Wine Jazz" vai animar o castelo de Palmela com música, prova e feira de vinhos. A não perder! Em 23, a programação tem ainda a presença de Mário Laginha. Mais uma razão para se estar! Para a agenda!


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Para a agenda: Concerto da Páscoa em Palmela



A Páscoa é também momento para a música. E já em 9 de Abril Palmela vai ter o Concerto de Páscoa, com música tradicional portuguesa no Cineteatro São João, pelas 17h00. Para a agenda!

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Para a agenda - Feira Medieval em Palmela



Entre 23 e 25 de Setembro, Palmela vai receber a Feira Medieval, tendo como tema "A sede da Ordem de Santiago vem para Palmela". Para a agenda!

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Para a agenda - As almenaras que atravessam o Tejo, entre Palmela e Lisboa



Por 1384, os castelhanos eram derrotados no Alentejo, na batalha de Atoleiros, graças à introdução de novas técnicas militares. Nuno Álvares Pereira era o chefe incontestado do exército português nas terras do Sul. No entanto, ainda mal saboreada a vitória, eis que Lisboa era cercada por D. João de Castela, numa acção que trouxe muitas tribulações e padecimentos à cidade. As hipóteses de ser posto fim ao cerco eram escassas, mas a população de Lisboa pôde receber um sinal de apoio a partir de Palmela, graças à vinda de Nuno Álvares do Alentejo.
Relata Fernão Lopes, no capítulo 147 da Crónica de D. João I: "Nun'Álvares foi comer a Coina e ali repartiu o esbulho per todos, sem havendo pera si parte alguma. E daí cavalgou e foi a Palmela; e, quando foi de noite, mandou fazer tais almenaras de fogo, de guisa que o viam os de Lisboa, por saberem os da cidade que estava ele ali e tomarem algum esforço. E certamente assim foi de feito, que o Mestre, quando viu aquelas almenaras de fogo em Palmela, bem entendeu que era Nun'Álvares que ali estava com suas gentes, e houve mui grande prazer, ele e todos aqueles que o viam; e mandou acender grandes tochas no grande eirado dos paços de el-rei, hu estonce pousava, por as verem de Palmela e lhe dar a entender que via suas almenaras e que lhe respondia com aqueles lumes, pois outra fala entre eles haver não podia. E assim esteve o Mestre per um bom espaço falando com os seus nos feitos de Nun'Álvares com aquele doce razoar e louvores quais tão leal servidor merecia de se dele dizerem."
Palmela contribuía desta maneira para a história das comunicações e para a história da vitória de Lisboa. Quando, em 1893, Oliveira Martins escrevia a biografia A Vida de Nun'Álvares, ali registava o sentimento dos lisboetas ao serem surpreendidos pelas fogueiras do outro lado do Tejo: "nas luzes de Palmela, em que se iam todos os olhos, viam tremer uma esperança", sendo Nuno Álvares Pereira apresentado pelo mesmo biógrafo como "a luminosa esperança de asas abertas no seu ninho de Palmela".
O projecto "Almenara", entre Lisboa e Palmela, a evocar este acontecimento e a celebrar o estabelecimento de pontes, vai ter lugar em 17 de Setembro, pelas 21 horas, contando com a participação dos grupos "Teatro o Bando" e "Companhia da Esquina".