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quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sabores e histórias de Sesimbra

 


A identidade local ou regional também é feita do que se cozinha e se come — se dúvidas houvesse, bastaria lembrar a quantidade de receitas (de carne, de peixe ou de doçaria) que, no nome, trazem associado o nome da localidade onde foram criadas (mesmo que recorrendo ao trivial “à moda de”), busca ainda mais interessante se folhearmos o Cancioneiro Popular Português, recolhido por José Leite de Vasconcelos (1858-1941), só publicado entre 1975 e 1983, e lermos a quantidade de versos dedicados às comidas locais, por onde passam os ingredientes (ervas, legumes), os animais (terrestres, aquáticos ou voadores), o pão (e os cereais), as frutas ou as bebidas (alcoólicas e não alcoólicas) característicos de muitas localidades do país, uma recolha que vive da literatura oral e constitui um extraordinário retrato etnográfico.

A gastronomia sesimbrense ganhou um registo interessante de histórias e de receitas ao ser publicado o livro A que sabe Sesimbra - Quando os sabores diferenciam um território (Junta de Freguesia do Castelo, 2025), obra resultante da pesquisa e coordenação de Maria Manuel Gomes, que, em texto introdutório, refere: “Ao longo deste livro, convidamos os leitores a descobrirem os sabores que definiram a identidade de Sesimbra, a conhecer os produtos típicos da região, como o peixe fresco, o pão, os queijos, a doçaria, e a saborear as tradições que perduram, resistindo ao passar dos anos.” O desafio posto aos leitores sentiram-no também muitos naturais das freguesias do Castelo e de Santiago, que, como é dito em nota final, “em conversas de café, entrevistas demoradas, através das redes sociais ou até em simples contactos telefónicos, (...) abriram as portas das suas memórias”, partilhando “os segredos culinários de família, aqueles que passam de geração em geração e que dão verdadeira alma a cada prato.” 

São quinze os capítulos que organizam esta colectânea de sabores, sempre apelando para a reunião dos convivas através da expressão “à mesa”, ordenados de acordo com o momento das refeições diárias (pequeno almoço, lanche), com os ingredientes predominantes (ovos, sopas e legumes, peixe, marisco, carne, caça), com o calendário festivo (santos populares, festas religiosas), com produtos regionais (doçaria, fruta, mel, vinho) ou com situações específicas (doença), apresentando um conjunto próximo da centena e meia de receitas.

Associada às várias receitas, aparece, frequentemente, uma rápida alusão à preservação do património local, como acontece ao mencionar as papas de abóbora (“são hoje memória viva de uma gastronomia popular, marcada por ingredientes locais, sazonalidade, e uma forte ligação à terra”, representando “um património imaterial que merece ser valorizado, não apenas no seu valor nutritivo, mas também pelo testemunho que dão de um modo de vida simples, resiliente e profundamente enraizado na cultura rural portuguesa”), assim como se reaviva a memória de passados recentes, como no exemplo da batata frita do Zé Tucha (“era junto às rampas de acesso à praia ou à saída do autocarro que levava os jovens para o antigo Colégio Costa Marques que o encontrávamos a vendê-las, sendo quase impossível resistir ao cheiro que se espalhava no ar”), ou se insiste nas marcas identitárias que construíram o quotidiano, servindo de exemplo o que é dito sobre os rabos de sardinha cozidos em água e sal (“um alimento com história, feito da relação íntima entre o mar, o trabalho e a mesa”) e também sobre a farinha torrada sesimbrense (“alimento energético levado pelos pescadores para o mar ou pelos trabalhadores para o campo, servindo como reforço alimentar nos longos dias de faina”).

Por esta recolha passam também apontamentos curiosos, construtores da identidade, como: o episódio da encomenda de 660 empadas de piscos (que exigiam 2304 pássaros) pelo Marquês de Tancos em 1770 ao sesimbrense  Fonseca Pacheco; a utilização do cozido à portuguesa para a celebração de determinados momentos, como na Festa das Chagas; a crença na utilidade da mioleira de borrego com ovo (“acreditava-se que, por ser ‘comida de cérebro’, ajudava no desenvolvimento e na inteligência dos mais pequenos”); o hábito, na vila de Sesimbra, de, “ainda antes do casamento, os noivos oferecerem pratos de bolos aos vizinhos e familiares que não participariam directamente na cerimónia”; ou a prática do leilão das fogaças, em Alfarim, no dia de Natal, após a missa, cujo “valor angariado com a venda revertia para as festas locais e para obras de beneficência da Capela” local. A memória dos sabores encontra também, por vezes, um momento de sensibilidade poética, como quando se referem os malacuecos, mistura de açúcar e de muitas cores que alimentavam a delícia das crianças — “estes matacões coloridos não eram apenas guloseimas: eram pequenas alegrias de bolso, símbolos de infância e de um tempo em que um simples caramelo podia encher o dia de doçura e fantasia”...

Para que o leitor não se sinta excluído, além de ter a possibilidade de experimentar as sugestões, no final, há ainda uma dúzia de páginas em branco com o sugestivo título “Lembra-se de mais alguma receita?”, convite para que cada um entre no livro e o complete à sua maneira, listando ingredientes e prescrevendo a confecção ou lembrando histórias associadas à alimentação...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1647, 2025-11-19, pg. 9.


segunda-feira, 15 de setembro de 2025

João Aldeia conta o 25 de Abril de 1974 em Sesimbra



A primeira manifestação sesimbrense sobre a Revolução de 1974 em Sesimbra aconteceu em 30 de Abril desse ano, graças ao entusiasmo do mestre de pesca João Caparica, que chamou à participação a fanfarra dos Bombeiros com os intervenientes usando uma camisa “à pescador”; já no dia seguinte, em 1 de Maio, surgiu uma outra manifestação, ainda mais participada, em cuja liderança estava também gente ligada ao mar. O episódio é evocado no livro A Revolução de 1974 em Sesimbra, o mais recente título de João Augusto Aldeia, uma obra repleta de história(s) e de memória(s) sobre a vida e a sociedade sesimbrense antes e depois de 25 de Abril, num percurso a que não é alheio o facto de o próprio autor ter sido protagonista em algumas das acções, condição que é logo assinalada de início: “O facto de ter participado nos acontecimentos de um determinado período, numa dada comunidade,  constitui uma vantagem ou uma limitação para escrever sobre esses acontecimentos?” A resposta junta as vantagens e as desvantagens, umas e outras devendo ser pesadas criticamente.

É por isso que, a seguir, João Aldeia justifica esta obra: “As ‘leituras’ feitas em Sesimbra em torno da comemoração dos 50 anos da Revolução de 1974 — quer as oficiais, quer as outras — primaram pela indigência, omitindo aspectos relevantes da Revolução (causas, consequências, efeitos positivos e negativos na comunidade). Foi repisada a versão de que ‘antes não acontecia nada’ e que depois tudo foi ‘magnífico’, tudo ‘conquistas da Revolução’, com destaque, neste contexto municipal, para o ‘poder autárquico’. Ou seja: nem uma sombra de dúvida, nem a mínima assunção de aspectos negativos, nenhuma reflexão sobre as iniciativas das populações ou os actos da administração, e o respectivo sucesso ou insucesso.” A intensidade do comentário serve para apresentar globalmente o conteúdo do livro — “um relato sucinto da vida social, cultural e política, anterior e posterior à Revolução de 1974”.

João Aldeia perpassa, depois, por uma diversidade de áreas, tendo em vista um retrato tão completo quanto possível do que foi Sesimbra nesses dois tempos históricos, apresentando dados sobre a população, a actividade económica (pesca, agricultura, turismo, pequena indústria), a guerra colonial, a habitação, as tentativas de preservação ambiental, a actividade política, a questão assistencial, a cultura, a educação, o movimento associativo.

Ao longo da apresentação de dados, o autor não deixa de ser crítico, como quando refere a exaustão dos “pesqueiros” (“nunca foram feitos estudos científicos sobre o problema, uma das mais gritantes falhas do nosso sector científico”), ou quando aprecia a criação em 1998 do Parque Marítimo da Arrábida (que, “sem sólido fundamento científico, foi apenas um placebo”), ou a propósito da construção clandestina na Lagoa de Albufeira (em que poucas demolições aconteceram devido a interferência de Marcelo Caetano), ou sobre a definição dos limites territoriais do concelho (lamentando que a Câmara não tenha ripostado, aquando da publicação do inerente normativo em 1972, às exigências dos concelhos vizinhos de Almada e Seixal, “uma neutralidade difícil de explicar e de aceitar”), ou relativamente às intervenções com razoável conflitualidade levadas a cabo por um autarca como Ezequiel Lino durante os sucessivos mandatos (com consequências políticas e sociais locais).

O trabalho de João Aldeia é fortemente apoiado em dados estatísticos, em registos de imprensa, em documentação da época, em testemunhos diversos e na sua própria memória de participante (que várias vezes menciona, ainda que com modéstia e discrição). Este levantamento serve também para fundamentar a crítica feita à celebração do cinquentenário de Abril, que, não atendendo aos circunstancialismos locais e não procurando reflectir sobre a história, passou ao lado da “dinâmica comunitária” e da “saudável confrontação entre as diversas ideologias” que animaram o período pós-Revolução — exemplo claro dessa ausência de leitura crítica é o de não ter havido uma reflexão sobre as causas que terão levado ao declínio do movimento cooperativista em Sesimbra, muito forte a partir de 1975, ano em que foi criada a Cooperativa dos Apanhadores de Algas Estrela do Sul, ou sobre o aumento da abstenção nos actos eleitorais, no que isso tem a ver com a participação cívica.

A obra é concluída com uma “Cronologia resumida do século XX em Sesimbra”, cujo primeiro registo data de 11 de Abril de 1900, assinalando a “greve dos pescadores das armações de pesca, com intervenção militar que provoca três mortos e numerosos feridos”. Curiosamente, o último registo desta cronologia respeita também à pesca, datado de final de 1999 — “em consequência da não renovação do acordo de pescas entre a União Europeia e Marrocos, a frota sesimbrense da pesca com aparelho de anzol (com cerca de 600 pescadores) ficará parada e a receber subsídios, durante dois anos.” A história local é, muitas vezes, uma boa imagem daquilo que é a história da participação...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1597, 2025-09-10, pg. 10.


quinta-feira, 3 de julho de 2025

Mané Gomes: o diário da Presidente da Junta

 

 

Em férias, em “La Serenissima”, uma chamada sobre o que se estaria a passar na Lagoa de Albufeira. “E lá ouvi a história e a preocupação da senhora, as suas opiniões ‘técnicas’ sobre a abertura da Lagoa, como era nos anos 80, etc. (...) Estive a elencar tudo o que foi e está a ser feito, as manifestações, reivindicações, propostas de futuro, etc. (...) O nome deste livro não podia ser mais adequado!” Este é o fim do registo de 4 de Agosto de 2024 do diário que Mané Gomes resolveu partilhar com os leitores, Sei que estás de férias mas... (ed. Autor, 2025). Como subtítulo, explica-se: “diário de uma inexperiente Presidente de Junta de Freguesia”, no caso, da freguesia do Castelo (Sesimbra), percurso de 365 dias, entre 29 de Agosto de 2023 e 27 de Agosto seguinte. No entanto, a “inexperiência” é apenas uma forma de dizer “aprendizagem”, assumindo a autora integrar ao longo do livro “160 conselhos para autarcas”, resultantes da sua experiência e ajustados a situações com que se deparou (e que surgem relatadas).

Quando Mané Gomes inicia o diário, já vai a meio do seu segundo mandato como presidente da Junta, tempo que lhe possibilitou olhar de forma crítica quanto ao que é exigido, quanto ao empenho e quanto ao que também é esperado pela sociedade. Logo na introdução, a justificação para esta partilha parece clara: “Precisava de escrever este livro. ‘Exorcizar’, como costumo dizer, as aventuras e desventuras da vida de autarca. Vida para a qual não me preparei e por que nunca pensei vir a enveredar.” Depois, enuncia três propósitos: o contributo desta escrita para o seu próprio desempenho, a intenção de o livro poder ser um guia “para aqueles que nestas tarefas se poderão sentir sozinhos e abandonados” e o carácter de homenagem a todos os que acompanharam o percurso.

Neste ano de registos, o leitor assiste, sobretudo, à acção decorrente da função que a autora desempenha, ainda que haja espaços para falar, de forma discreta, da família (a perda da mãe, o acompanhamento ao pai, as relações no núcleo familiar), dos gostos pessoais (rádio, teatro, desenvolvimento turístico, artesanato, actividades caseiras), das convicções religiosas e dos amigos (com a preocupação de, relativamente a muitos deles, registar os seus nomes, em jeito de tributo justificado).

Valores como o respeito pela tradição (nas festas e nos costumes), o “marketing territorial” local, a apropriação do espaço público pelos fregueses (com o que isso implica de cuidado e responsabilidade), a construção de pontes no auxílio à resolução de problemas ou à concretização de sonhos (mesmo sabendo que “gerir sonhos é uma matéria sensível”), o trabalho com os outros, a presença do político junto das pessoas ou a solidariedade vão passando, sobretudo nos momentos em que a escrita mais resvala para a reflexão sobre o acontecido.

Assumindo o cargo como uma opção pessoal, sem ignorar o efeito sobre os seus mais próximos, Mané Gomes sente o percurso com oscilações, ora pelo entusiasmo das pessoas quando lhe chamam “presidente do povo” ou estão disponíveis para colaborar, ora pela incompreensão presente em muitas críticas que circulam sobretudo nas redes sociais (por vezes, sob anonimato) ou em atitudes menos correctas que pretendem desvalorizar o trabalho da equipa (por maledicência ou por dificuldade em aceitar um “não” como resposta).

‘Fazer’, ‘realizar’ e ‘acontecer’ são verbos que se adequam aos dias relatados, independentemente de a tarefa ser a solo ou com outros agentes (a equipa da Junta, o movimento associativo, cidadãos isoladamente). Daí também as considerações mais críticas quanto à eficácia de grande parte das reuniões, sobretudo aquelas que vivem do jogo político — depois de uma Assembleia de Freguesia: “Parece tiro ao alvo: a pessoa faz tudo pelo melhor, pela legalidade, com a preocupação de não falhar e ser transparente e depois vêm perguntas que não lembram ao diabo, das situações mais caricatas ou que já explicámos trinta vezes. Faz parte. Segundo me dizem, é política.” Daí também igual dose crítica quanto aos políticos que só se apresentam em tempos de conveniência eleitoral (numa procissão religiosa local, em 2024: “Este ano éramos só quatro autarcas. Para o ano, eleições... Vamos ter de tirar senha! Aparecem os atuais, os candidatos e sei lá mais quem!”), desejosos de serem fotografados e de ocuparem os lugares mais visíveis (“Cada vez importo-me menos se fico à frente para a foto. (...) ESTAR PRESENTE. Está em maiúsculas pois não basta aparecer, tirar uma foto, engolir um pau de vassoura para aparecer e dar uns sorrisos.”).

Publicar um diário como este quando ainda se está a exercer a função que o originou, implicando considerável grau de exposição, vale pelo desprendimento e pela necessidade de haver a voz de quem está do lado de lá, mostrando o esforço, o feito, as reacções, as dificuldades e a continuidade da acção. Assim contadas as coisas, esta partilha pode tornar-se aprendizagem de tolerância e consciência dos processos, muito embora a diarista não ignore os riscos, como confessa, com certo humor, quando o diário ainda vai a pouco mais de meio — “Tenho a leve impressão de que este livro dará origem a um sem-número de crónicas e ‘posts’ para sanguessugas... é só um palpite. Mas, como me considero uma empreendedora, sempre dou trabalho e inspiro outros!!!” Por inspiração... em tempos de eleições, a atenção aos “160 conselhos para autarcas” pode ser uma boa prática formativa, sobretudo se cada conselho for acompanhado da leitura do relato que o motivou...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1562, 2025-07-02, pg. 10.


quarta-feira, 27 de março de 2024

Motorizações nos barcos sesimbrenses lembradas por João Aldeia



“Para além da materialidade das embarcações, das velas, dos apetrechos de pesca, dos motores, das sondas e radiotelefones, o património cultural marítimo é constituído pelo modo como se utilizavam esses equipamentos: como se velejava, como se remava, como se pescava, e ainda pelos saberes, crenças, rituais, tragédias, humor, etc.” Esta afirmação, justifica-a João Augusto Aldeia com a necessidade da criação de um Museu Imaterial do Mar de Sesimbra, projecto para o qual o seu livro Primeiras motorizações de embarcações de pesca de Sesimbra (1926-1932) (ed. Autor), há dias apresentado, é um digno contributo, resultante de passeio aturado pelos arquivos sobre as embarcações e de testemunhos recolhidos na memória daqueles que, directa ou indirectamente, participaram na faina sesimbrense.

Sesimbra é uma das terras que integram um roteiro camoniano feito a partir d’ Os Lusíadas, obra que a menciona no momento em que, no canto III, Vasco da Gama conta a história de Portugal ao rei melindano, evocando as conquistas de Afonso Henriques e referindo-se à “piscosa Sesimbra”. Essa adjectivação, resultante da abundância de peixe, foi o marco de um percurso que, no século XX, encontrou o revés, levando o pescador local a reinventar a profissão até aos limites do possível, ao mesmo tempo que se gera a ideia de em Sesimbra existir um dos maiores portos de Portugal - criticamente, anota João Aldeia: “pode ser que o seja estatisticamente, mas não é com o peixe das suas águas nem com a qualidade que outrora lhe deu prestígio.”

Mesmo por estas contingências que o passar dos tempos trouxe, vale a pena organizar a memória, falando dos marítimos, dos carpinteiros navais e dos mecânicos que deram identidade ao local através da arte da pesca. Nessa tarefa, valoriza este livro apontamentos sobre essa arte, pugnando pela divulgação da sua história e avançando com possibilidades interpretativas para a construção dessa mesma identidade - curiosa é a aproximação semântica que o autor faz entre a expressão “vela de espicha” e a designação Espichel, que dá nome ao cabo, mostrando mesmo a sobreposição da vela com a carta orográfica local.

Assunto como a motorização das embarcações sesimbrenses, iniciada em 1926, leva-nos a um olhar sobre as adaptações feitas - passar dos remos para o motor, publicitar os equipamentos, alterar aspectos das embarcações (no cavername, por exemplo), novas técnicas a dominar, diferentes graus de especialização nas companhas, formas de resolver problemas resultantes da transformação (como o da interferência dos motores sobre a agulha das bússolas, por exemplo), novos desafios de segurança (não escapa à memória o incêndio a bordo da barca “Gemeniana”, em 1928, que usava um motor de automóvel adaptado, e consequente naufrágio da mesma), formas de abastecimento de combustível, entre muitas outras.

João Aldeia põe o leitor em contacto com mais de duas dezenas de protagonistas da história do tempo abrangido, actores neste processo de motorização, nascidos entre 1869 e 1905, extremos ocupados por dois membros da mesma família, pai e filho: Zózimo das Chagas e Zeferino das Chagas, respectivamente. Quanto às embarcações, na ordem da meia centena, são apresentadas no seu breve historial, com nomes ricos do ponto de vista simbólico - com predominância dos nomes femininos -, havendo uma delas, “Luz do Calvário”, que teve a sua companha imortalizada na literatura pela pena de Raul Brandão, em viagem de Fevereiro de 1923, relatada na obra Os Pescadores (publicada nesse mesmo ano e com nova edição no ano seguinte).

O livro de João Aldeia, que se percebe ser resultado de um empenho pessoal e emotivo (dedicado ao pai, que foi serralheiro mecânico e trabalhou para a frota pesqueira local), conta uma história que é longa e cheia de coisas a descobrir, numa linguagem acessível, que permite o (re)encontro com rostos que fizeram Sesimbra e chama a atenção para um sector importante nas dinâmicas locais que tem sido objecto de pouco estudo, não só em Sesimbra mas também na região. A motorização dos barcos é o pretexto deste estudo, mas é também uma chamada de atenção para a memória.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1268, 2024-03-27, pg. 2.

 

quinta-feira, 21 de março de 2024

Patrícia Reis e uma história em Sesimbra

 


“Agora já não posso perguntar” é uma frase que comporta diversos olhares: a dimensão do tempo entre um presente e o passado; uma certa nostalgia ou lamento pelo confronto com a impossibilidade permanente; a necessidade de se perguntar perante os mistérios que a vida e o mundo apresentam. Todas estas linhas se cruzam na narrativa a que a frase dá o título, alimentando o livro Sesimbra, de Patrícia Reis, o primeiro da colecção “Portugal” (Centro Atlântico, 2024), história povoada também com fotografias devidas a Libório Manuel Silva, numa combinação que respeita o propósito da série: “o mesmo horizonte para a ficção e a realidade, em que criatividade literária e riqueza fotográfica mergulham na nossa geografia.”

A história vive com as memórias de um narrador de 59 anos, que aproveita o que aprendeu para dar imagem da família, dos afectos, das crenças, das convicções, da terra, das vivências desde a infância, num percurso em que não faltam os familiares pescadores, a paixão futebolística pelo Clube Desportivo de Sesimbra (ainda que designado pelo seu anterior nome, Ases Futebol Clube, devido a uma ligação familiar), o caminhar pela vila, uma certa identidade da vida local e alguns momentos de humor (como o da justificação apresentada para a opção quanto à cor da viatura 4L dada por Nicolau, o pai do narrador).

As lembranças da personagem principal recuam aos seus 9 anos, tempo de 1974, marco cronológico importante para quem foi assistir à revolução em Lisboa, levado pelo pai e pelo tio, ambos numa euforia de vitória que ajuda à decisão de partirem de madrugada para serem testemunhas do momento histórico - a criança pouco entendia, mas ficou-lhe gravada a frase do pai para o tio, de incentivo e de pressa: “Foi hoje, está a acontecer agora mesmo, trouxe o carro, vamos.” Perplexo fica o jovem: “Naquele tempo não se ia a Lisboa por uma razão qualquer, só por algo importante, uma consulta médica, alguém de família que chegava de comboio, raramente de avião, só tínhamos uns primos que podiam vir de avião, viviam nos arredores de Paris, mas já não os víamos há uns anos.” O mistério para a viagem desvanecia-se lentamente, ainda que o pai explicasse: “Vamos a Lisboa ver a revolução. (...) Vamos deitar estes gajos abaixo de uma vez por todas.”

A revelação da importância deste momento vai, depois, sendo dada pela mãe, Delmina, mulher reservada, mas arguta e sensível para transmitir ensinamentos e valores - quando, em Maio de 1974, a televisão informava sobre o fim do processo das três Marias, a mãe comoveu-se e explicou ao jovem: “Quando uma mulher é julgada por algo que não fez é como se fôssemos todas julgadas, todas as mulheres.” Têm as mulheres papel importante nesta história - além da mãe, também a irmã mais nova do narrador, Rosa, construtora da sua autonomia, desvinculada da terra mas não da família, que optou pela vida na capital; e ainda Susana, professora, que, num percurso inverso, vem de Lisboa para Sesimbra, para construir uma história de paixão e para sentir a família, “o melhor porto de abrigo de todos”, como dizia Nicolau.

“Eu fui ver a revolução, é verdade, mas mantive o alívio de ter regressado a Sesimbra. E a vida correu como correm todas as vidas. Com as dificuldades de sempre, as guerras da malta da pesca, a Câmara Municipal que não sei o quê, as festas, o dia do santo no 4 de Maio... a lenda que me perseguiu na escola.” Personagem fiel à sua terra, o narrador faz passar algumas observações que dão relevo à identidade: a confiança entre as pessoas (“hoje vivo numa aldeia do concelho, com o mar à minha beira, vou comprar legumes ao meu vizinho, conheço as pessoas pelo nome. Se sair e não tiver dinheiro, por ter deixado a carteira esquecida num outro casaco, não é uma questão, vá-se lá embora, paga depois, num outro dia, quando der jeito.”); a proximidade e o sentido familiar (“Sesimbra também é isso, famílias que se prolongam, que se mantêm agarradas como correntes de ferro de uma âncora”); a epopeia da vida (“as histórias do mar e das gentes de Sesimbra passam de geração em geração”). Pelas memórias, passa também o sentido da aprendizagem dos afectos - “o meu pai olhava para a minha mãe com a devoção dos amorosos e isso deixou uma marca indelével em nós” -, valores que se reproduziram na personagem que conta.

Está o leitor perante uma história bonita, que se passeia pelos contornos entre a vila e o Espichel, alimentada de olhares e de dizeres, de proximidades, de espaços e de figuras com que nos podemos cruzar, valorizando as histórias locais e um olhar poético sobre a vida.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1263, 2024-03-20, pg. 10.

 

quarta-feira, 25 de maio de 2022

Manuel J. Palmeirim e a poesia que Sesimbra tem



Em 1963, iniciava-se a colecção literária “Poesia Sesimbrense”, patrocinada pelo jornal O Sesimbrense, com a publicação de 7 Poemas de Sesimbra, de Manuel J. Palmeirim, colaborador habitual daquele periódico, em cuja nota introdutória a obra é apresentada como homenagem a dois poetas da terra, Gilberto Cerqueira Pinhal (Gil do Mar) e José de Andrade Júnior (Zé Preto), ambos falecidos na casa dos vinte, em 1951 e em 1948, respectivamente, revelando-se ainda que três dos poemas tinham já sido publicados n’ O Sesimbrense, subscritos pelo pseudónimo de Tristão Sesimbra.

Abre o livro uma citação de Os Pescadores, de Raul Brandão, excerto do registo dedicado a Sesimbra, de 1923, forma de homenagear quem talvez mais emotiva e realisticamente escreveu sobre os pescadores na literatura portuguesa, quadro que se cruza com o poema “Pesca”, canto da emoção e da alegria do pescador.

“Sesimbra” é o primeiro poema, louvando o sítio, congregando a pesca, os chamadores, a lota, o poente, o risco das tempestades, o lamento da dor, o baloiçar perigoso das ondas. O sofrimento e a dureza são contrariados no final por força do retrato lírico - “Tu ficas mais alta / cada novo dia: / se escondes a dor, / descobres poesia.” Em jeito de refrão, que compromete o poeta, todas as estâncias se concluem com os versos “Sesimbra é assim, / comigo e sem mim”, ainda que intercalados por um outro verso, retomado do início da estrofe. A paisagem surge também em “Castelo Velhinho”, glorificação da história da fortaleza, numa viagem pelo tempo, ora personificando a pedra como testemunha dos feitos, ora fantasiando visões de momentos do passado, com um refrão que tonifica o tempo (“Corre, corre o tempo, sem parar. / Traz contos e lendas para nos contar.”) e um final algo crítico e disfórico - “Mudaram-se os tempos. As guerras de agora / São inda piores, mais maquiavélicas. / Heróis não existem. Deitaram-nos fora / Os inventos novos, novas armas bélicas.”

O espaço é valorizado em “Na estrada marginal”, recanto de “imensa ternura” numa “noite cálida”. Local de descobertas e contemplações, de afectos e seduções, ali, “pares de namorados arrulham”, a noite torna-se cúmplice na sua “escuridão lasciva”, o marulhar das águas é “um ruído de beijos” e o poeta sente-se “em fogo”, descontrolado por intensa vivência. Também de espaço se trata em “Bairro dos pescadores”, povoado por “cubos alinhados / no alto do morro”, casario de onde brota o cansaço, a saudade, a dureza da vida, o desespero, tons que desaguam em desgosto e indignação - “O mar não dá peixe, / a casa é sem pão, / o ralho é comida. / Ai, quem não te deixe / outra profissão!... / Que raio de vida!”

A memória do amigo Gil do Mar, falecido “da mesma morte de Cesário Verde e de António Nobre”, corre no soneto “Desalento”, momento de rejeição até ao desfalecimento e à recusa - “Prendem os pés infindos lamaçais. / E é tudo um chavascal imenso e escuro / Neste mundo ruim, selvagem, duro!” Contrariando este pesar, o livro finaliza com “A lenda do Senhor Jesus das Chagas”, evocação do aparecimento do salvador no meio de procela, num “quatro de Maio igual a tantos mais”, data associada ao sofrimento e à dor e à “titânica luta” quotidiana levada a cabo pelos pescadores. Imagem de serenidade, “assim veio a Sesimbra o bom Senhor das Chagas, / que ainda hoje acalma, ao pescador, as vagas”.

Pelos versos de Palmeirim passam a glória e o desespero, a história e a humana fragilidade, num tom lírico a que não são alheias temáticas tradicionais na literatura portuguesa.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 855, 2022-05-25, p. 9.


sábado, 23 de fevereiro de 2019

Joaquim Rasteiro e as histórias da Península da Arrábida (Azeitão, Palmela, Sesimbra)



A revista O Arqueólogo Português começou a sua publicação em 1895 sob a direcção de José Leite de Vasconcelos (1858-1941), tendo-se dividido até hoje em cinco séries, a primeira das quais, em 30 volumes, a mais longa, publicada até 1938. A revista, uma referência indiscutível na área da arqueologia, surgiu no âmbito do Museu Nacional de Arqueologia, criado dois anos antes por Leite de Vasconcelos.
A temática sadina passou pelas páginas da revista desde o seu primeiro número, que teve também um colaborador setubalense, Manuel Maria Portela (1833-1906). No segundo número, de 1896, os temas das terras do Sado continuaram a ser abordados e outro setubalense ali assinou um texto, o arqueólogo António Inácio Marques da Costa (1857-1933). Foi ainda neste segundo número que Leite de Vasconcelos publicou a notícia “Questionários Arqueológicos”, dando publicidade a trabalho encetado a nível nacional dois anos antes: “A Comissão dos Monumentos Nacionais fez imprimir, em 1894, e distribuir por diversas pessoas, os seguintes questionários, com o fim de recolher elementos para o estudo da arqueologia portuguesa.” Seguia-se o referido questionário, dividido em assuntos gerais e em informações de carácter militar.
No número seguinte de O Arqueólogo Português, o terceiro, de 1897, surgia a primeira resposta a este questionário, devida a Joaquim Rasteiro (1834-1898), ocupando as primeiras 48 páginas da publicação sob o título “Notícias Arqueológicas da Península da Arrábida”, com a nota de rodapé que esclarecia ter sido o artigo escrito no período de 1893-1894. Ao longo do texto, outras notas vão aparecendo, devidas a José Leite de Vasconcelos, umas vezes contextualizando algumas informações, outras vezes estabelecendo relações com outros estudos.
Joaquim Rasteiro, azeitonense, autodidacta, investigador, político e proprietário, foi autor de diversas publicações sobre história local da sua região, de entre as quais se destaca Palácio e Quinta da Bacalhoa - Inícios da Renascença, editada em 1895 (que mereceu edição fac-similada em 2003). As “Notícias Arqueológicas da Península da Arrábida”, que redigiu, seguem o plano do inquérito da Comissão dos Monumentos Nacionais e abrangem os termos de Azeitão, Palmela e Sesimbra.
Recentemente, Bernardo Costa Ramos, azeitonense e divulgador da história da sua terra, promoveu a edição deste texto de Joaquim Rasteiro (Azeitão: A Páginas Tantas, 2018), mantendo a ortografia da época e assim justificando o trabalho apresentado: “por um lado, proporcionar a todos aqueles que se interessam pela nossa história de disporem em formato livro do texto original, tornando-o mais legível e de uma partilha mais célere; por outro lado, prestar homenagem aos grandes homens azeitonenses que contribuíram para fixar essa mesma história”. O livro contém ainda uma nota biográfica de Joaquim Rasteiro elaborada pelo filho, que mantinha o nome do pai, publicada no semanário dominical O Azeitonense, em 7 de Setembro de 1919. A iniciativa da edição de 2018 foi indiscutivelmente louvável, embora devesse ter tido maior divulgação e mais substancial tiragem.
A intenção de Joaquim Rasteiro não se limitou a constituir uma resposta ao inquérito da Comissão; a esse apelo, acrescentou o seu propósito de “segurar o que tende a cair no olvido, juntar o que há disperso, fazer que se saiba o muito que se cala”, vontade tanto mais acentuada quanto as duas instituições que mais perpetuavam a história e as artes - as “famílias religiosas” e a “instituição dos morgados” - estavam extintas e, assim, urgia “segurar por novos meios quanto tende[sse] a esvair-se”.
As descrições que Rasteiro apresenta no seu texto decorrem da sua observação, do seu contacto com os sítios ou com as peças que descreve, não especulando, mas chamando a atenção para as condições de sobrevivência dos testemunhos artísticos - por exemplo, quando se refere ao Palácio da Bacalhoa, considera ser “um monumento a que bem caberia a guarda do Estado” em virtude da “forma e disposição das suas construções, pelos seus azulejos e medalhões esmaltados, pela significação artística do conjunto”. O conjunto da sua descrição é valorizado pelas informações de cunho histórico (que na época eram conhecidas) associadas a cada um dos itens, estabelecendo a diferença entre o que é comprovável em termos de conhecimento e o que diz respeito a tradições ou crenças construídas - por exemplo, ao mencionar o paço dos Duques de Aveiro, diz que “modernamente inventou-se que dos reclusos [jesuítas ali custodiados]31 por 73 se finaram de tanto penar nas cadeias de Azeitão”, afirmação que imediatamente contesta: “É falso. Nem um só aqui morreu. Os livros do registo paroquial não acusam um óbito sequer de jesuíta.”
Pelo escrito de Rasteiro passam as antas (existência suposta na zona de Sesimbra), as cavernas ou grutas (lapas do Médico, de Santa Margarida e da Greta), as grutas artificiais pré-históricas (Quinta do Anjo), as pedras de raio, os restos de povoação (vestígios romanos na antiga freguesia da Ajuda), as moedas e outros objectos romanos, os objectos e moedas árabes, as tradições locais (ermida de Santa Maria da Vitória), as designações locativas (Azeitão, Coina-a-Velha, Vila Nogueira de Azeitão, Vila Fresca de Aseitão, Portela, Casal do Bispo), as fortificações ou edifícios atribuídos aos mouros na voz do povo (castelo dos Mouros, covas da Moura, castelo de Coina), os monumentos-palácios (Bacalhoa, Duques de Aveiro, Calhariz), as igrejas (de S. Lourenço e de S. Simão), as ermidas (do Bom Jesus, dos Remédios), os túmulos (na igreja de S. Tiago, em Palmela, e no mosteiro da Piedade, em Azeitão), os cruzeiros (das Necessidades), os brasões (Bacalhoa, capela das Necessidades, quinta do César, quinta Nova e quinta Velha, quinta das Torres, entre outras), as imagens de pedra, as imagens de barro, as pinturas em tela, as custódias, outros objectos de culto (alfaias diversas de arte sacra), as tapeçarias (em longo inventário), as inscrições (em enumeração pormenorizada), as antiguidades a que não pode marcar-se origem conhecida (lápides do chafariz de Aldeia Rica e da quinta do Visconde de Montalvo), os montes fortificados, os castelos de Sesimbra e de Palmela, as torres, os factos históricos das fortalezas (de Coina, Sesimbra e Palmela) e as fortalezas prisões de Estado (Palmela, Outão, paço dos Duques de Aveiro).
A leitura deste registo devido a Joaquim Rasteiro torna-se interessante porque o texto abdica de considerações laterais e vale na sua simplicidade, assertividade e objectividade; permite ao leitor uma viagem a um tempo e a um espaço de reconstrução da identidade; afirma uma riqueza patrimonial e histórica da região da península arrábida; é um elemento-base incontornável a ser considerado na bibliografia local.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Para a agenda: Mozart em Sesimbra



Mozart vai estar em Sampaio (Sesimbra), no Centro de Estudos Culturais e de Acção Social Raio de Luz, em 17 de Junho, pelas 15h30, através de Carlos Otero - "Conversando com Mozart" é o título da palestra, que tem entrada livre. Para a agenda!

terça-feira, 30 de maio de 2017

Para a agenda: Memórias de quando Agostinho da Silva esteve com Sesimbra




Três anos depois, a obra Agostinho da Silva em Sesimbra, de Pedro Martins e António Reis Marques, regressa em nova edição “revista e muito ampliada”. Foi em 2014 que a primeira edição surgiu, publicada pelo Centro de Estudos Bocageanos, em Setúbal, como referi aqui; a edição que agora vai ser apresentada ao público tem a chancela Zéfiro e terá lançamento em Sesimbra, na Fortaleza de Santiago, em 3 de Junho, pelas 15h00, com apresentação de João Augusto Aldeia e Duarte Drumond Braga. A ocasião servirá ainda para homenagear o 90º aniversário de António Reis Marques, investigador sesimbrense. Para a agenda!