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sexta-feira, 11 de abril de 2025

Abril, cravos e poesia (2)

 


A permanência dos sonhos que Abril trouxe, como alimento da liberdade e do futuro, ressalta em várias mensagens presentes neste São Cravos, como no poema de Analita Santos, que, no terceto final, deixa o desafio: “Hoje, a cada dia, há um abril a reiterar. / Há outros cadeados e passos a percorrer, / para que o grito de abril continue a renascer.” Incisivo no dever de proteger os cravos de Abril é Artur Ferreira Coimbra, que, na “Carta de um avô aos netos sobre os dias de Abril”, lembra o antes e o depois e exorta os descendentes: “Meus netos: regai em cada hora os cravos da liberdade, para que não / Mirre o vermelho da esperança no coração dos dias que vão nascendo.”

O poema assinado por Maria Manuela Mendes Ribeiro, formado por seis quadras, tem a particularidade de fazer perguntas, usando anaforicamente a expressão “quem sabe hoje em dia” para enaltecer quem fez despertar a luta por um Abril promissor e apresentar um quadro da tristeza do passado (marcado pela perseguição, pelo sofrimento, pela tortura da prisão, pela ousadia da luta de uns tantos), levando o leitor a pensar na responsabilidade de sentir que o “Abril cantado” é muito mais forte do que a alegria resultante de um feriado... É Maria Quintans quem lembra a intensidade da data cinquentenária: “abril será sempre a / varanda aberta / onde nos sentamos a / admirar o sobrenome / da vida.” A mesma emoção de Abril é trazida por Rita Taborda Duarte, num jogo em que não faltam palavras recriadas e cuja última estrofe, pela força da repetição, pretende afirmar o essencial da liberdade: “Dar uma no cravo / outra no cravo / outra cravo / outra no cravo”.

No conjunto dos poetas antologiados, vários nomes estão ligados à região de Setúbal, como Alexandrina Pereira (que poetiza Abril, lembrando que: “Um grito surgiu da alma de um povo. / Ergueu-se um país que nasceu de novo.”), Álvaro Giesta (com um poema de louvor aos que fizeram e sonharam o anúncio de Abril), António Manuel Ribeiro (que traça um retrato do que “era um país em forma de aldeia” até ao momento em que “veio da noite o piparote” que “dobrou o regime por dentro”), Dina Barco (cujo texto nomeia Abril em todos os seus versos, enaltecendo as bandeiras do sonhado e desejado), José-António Chocolate (que põe a expressividade lírica em favor da data: “Era abril e outro mês não podia / ser mais forte, de esplendor e beleza, / ter luz clara e anunciar novo dia.”) e Sara Loureiro (apregoando, num poema que vive do sensorial, que “a liberdade foi um grito não murmúrio” com gosto “a plasma a vida a sonho transparente”). Três outros poetas participantes, como António Canteiro, Luís Aguiar e Xavier Zarco, foram vencedores de prémios literários ligados a Setúbal, designadamente os que têm como patronos os poetas Bocage e Sebastião da Gama.

A participação poética do coordenador desta obra, Luís Aguiar, cifra-se num texto feito de memórias e de aprendizagens, dedicado ao pai, “militar de Abril de 1974”. O seu final é, talvez, a melhor justificação para a existência de um livro como este, associando o conhecidíssimo cartaz concebido por Sérgio Guimarães, a memória e a necessidade da escrita: “Recordo-me do cartaz com um menino de cravo na mão / a silenciar uma G3 - ímpeto de um pássaro livre -, / já que a liberdade a todos pertence, e se alastra, certamente, / às amargas recordações, mas que são imunes ao olvido, / visto que o peso da memória também pode, um dia, habitar um livro.”

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1507, 2025-04-09, pg. 10.


segunda-feira, 7 de outubro de 2024

Na apresentação pública de "O Inquieto Verbo do Mar", de Sebastião da Gama

Foi no final de tarde sexta-feira, 4 de Outubro, que a Associação Cultural Sebastião da Gama, a editora Assírio & Alvim e a Câmara Municipal de Setúbal procederam à apresentação da obra O Inquieto Verbo do Mar, volume de poesia reunida de Sebastião da Gama, que organizei, sessão em que intervieram André Martins (Presidente da Câmara Municipal de Setúbal), Lourenço de Morais (Presidente da Direcção da ACSG), Viriato Soromenho-Marques (que apresentou o livro) e eu próprio, com poemas ditos por Dina Barco e João Completo.
Aqui fica o registo da sessão, devido ao trabalho do amigo Simões Silva, com abraço grato.

segunda-feira, 19 de março de 2018

Para a agenda: Dia Mundial da Poesia em Setúbal com maratona poética e mais...



Entre as 09h30 e as 23h00 de 21 de Março, Setúbal vai celebrar o Dia Mundial da Poesia num programa bem preenchido, o da "VIII Maratona da Poesia de Setúbal". Apresentação de livros (de Alexandrina Pereira e de Dina Barco), sessões de leitura de poemas, evocação de Bocage (com José Nobre), música (com Manuel Guerra) e uma conferência sobre Miguel Torga (com José Cymbron e Eugénio Lisboa), eis um programa a convidar.


A celebração do Dia Mundial da Poesia vai também ser acontecimento no Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), em sessão prevista para as 21h30, com a presença de Sara Loureiro e António Marrachinho, que dirão poemas, e com uma mini-Feira do livro de poesia.
Para a agenda, inevitavelmente!

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Para a agenda - Pessoa em pessoal leitura



Fernando Pessoa chega na noite de uma sexta-feira de arte e ciência, convidado por Synapsis: em 23 de Setembro, pelas 21h30, no Museu de Arqueologia e Etnografia, em Setúbal, na companhia de Dina Barco e Deolinda Ferreira. Para a agenda!

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Para a agenda - Dina Barco e Zé Nova, a dupla num livro



Dina Barco nas palavras. Zé Nova nos desenhos. Os nossos olhos sobre as páginas de Poemas para nada, saído da imaginação dos dois. Na Casa da Cultura, em 12 de Abril, pelas 21h30. Para a agenda.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Para a agenda - Dina Barco e o diário da Sara



Dois anos depois de nos ter apresentado a personagem Sara às voltas com o seu diário, Dina Barco dá-lhe sequência, continuando a vida da jovem que se mostra. Desta vez, em Diário de Sara (quase irmã), a ser apresentado a 30, Sábado, pelas 17h30, no Clube Setubalense. Para a agenda!
Aditamento, em 26 de Novembro: A apresentação será às 21h00.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dina Barco: "Diário de Sara, a Verde"


“Mãe, tens muitos diários cá em casa?”, quis saber Sara, um dia. Pensando nos seus diários da juventude, a mãe confessou que já os destruíra, mas a adolescente logo corrigiu a pontaria – “Não é desses que estou a falar. Quero saber de diários como o de Anne Frank e o outro que andaste a ler!” E a mãe procedeu a rápido inventário do que podia ser encontrado nas estantes lá de casa: Miguel Torga, Sebastião da Gama, José Saramago. Mais tarde, nessa sexta-feira, Sara registaria: “Pelos vistos, a moda dos diários-livros não é coisa recente. Não sei se foi a Anne Frank que começou, embora involuntariamente, coitada, porque duvido que isso a preocupasse enquanto vivia escondida dos nazis. O certo é que, uns anos mais tarde, no meio de outra guerra, a Anne serviu de inspiração à Zlata Filipovic. Depois apareceram a Joana (da Lua), a Sofia (& Cª) e uma tal Bridget Jones (…) Agora há diários para todos os gostos: cruzados, secretos, de bananas, de totós, de vampiros…” E logo veio a decisão da jovem: “Mesmo assim, resolvi experimentar a receita para ver se acabo com as crises financeiras cá de casa. Se os outros escrevem, porque não eu, que até tenho sempre boas notas a Português?”
Está encontrado o pretexto para este Diário de Sara, a Verde, de Dina Barco (Ilustr.: Raquel Barco. Setúbal: ed. Autor, 2011), volume de oitenta páginas, corrido no tempo de um ano escolar, entre o primeiro de Setembro e o 25 de Junho. O género é a forma de escrita diarística juvenil sobre uma história ficcionada e os modelos são vários, como referido acima.
De leitura bastante acessível, transmitindo os sentires de Sara, uma jovem do 6º ano, que vive com a mãe, na cidade do Sado, neste Diário vai a protagonista partilhando com o leitor as preocupações da idade – as amizades, os amores, as zangas, a cumplicidade com a mãe, a escola, o espírito de grupo, a família, as descobertas, a ausência do pai, a identidade…
Por este caminho passam, sobretudo, as aprendizagens e os olhares de uma adolescente atenta à vida – sobre a amizade (“Sabe tão bem fazermos os outros felizes!”), sobre as dificuldades dos outros (ao saber a história de Fábio, desabafa: “deve ser horrível andar a viver daquela maneira, empurrado duns sítios para os outros, sem um único adulto em condições que se preocupe com ele… Como é que eu seria se tivesse uma vida assim?”), sobre os rapazes (“Parece que nem vives neste mundo. Então não sabes que quando os rapazes coram é porque estão apaixonados?”, ensinou-lhe a Inês), sobre o apoio da mãe (“Não ganha muito e portanto também não podemos ter luxos, mas eu não trocava a minha vida por nada! Damo-nos bem, divertimo-nos juntas, fazemos programas interessantes… Ela não sabe, mas é a pessoa que eu mais admiro no mundo.”), sobre os efeitos da paixão (“quando aparecem paixões pelo meio é normal que as amizades se ressintam um pouco”), sobre o primeiro beijo (“depois os lábios dele tocaram os meus e senti uma onda de calor que me deixou literalmente a flutuar”), sobre o sentido das aprendizagens (“já percebi que dentro e fora da escola a vida é assim mesmo, feita de mudanças que nos estão sempre a pôr à prova e a fazer aprender mais qualquer coisa”). E passam também as preocupações sociais (o custo de vida, a solidariedade, a amizade, as cautelas no uso da net, cuidados ambientais), as imagens sadinas (Arrábida, Teatro Animação de Setúbal, Coral Luísa Todi, Coral Infantil de Setúbal, Vitória Futebol Club, Parque Urbano de Albarquel, Museu Oceanográfico, Lapa de Santa Margarida, José Afonso, Casa da Baía), a pedagogia sobre a saúde (alimentação).
Quanto ao cognome “a Verde”, Sara adquiriu-o graças a um projecto que desenvolveu na escola, assumindo uma perspectiva crítica quanto às práticas pouco amigas do ambiente levadas a cabo no meio escolar. A sua forma de afirmação, o seu espírito crítico e a sua convicção granjearam-lhe simpatias e constituíram mesmo um passo determinante para o encontro com o rapaz de quem gostava, assinalando um momento de tal crescimento que, num registo de Junho, a levará a escrever: “Faltam só duas semanas para vermos terminado o ano lectivo mais feliz da minha vida!”
O final do livro é de encontros: apaixonada, Sara consegue reconhecer que a mãe estava perante o mesmo sentimento. E, perante as dúvidas de como poderia ser a sua relação com o namorado da mãe e com a filha dele, a Sara revela-se ainda um outro segredo que lhe traz alegria: o destino das duas jovens já se tinha cruzado, ainda que nenhuma delas o soubesse.
Diário de Sara, a Verde é livro de leitura fácil, que pode suscitar diálogos e momentos de escrita. Não sabe o leitor se Sara deu cumprimento à última promessa que deixou exarada na derradeira página do diário – perante o entusiasmo da descoberta final, que Sara conta já tarde, “cansada e com muito sono”, conclui o texto, dizendo: “Agora vou dormir. Feliz. O resto fica para depois.” Se o “resto” for a continuação do trajecto de Sara, pode ser que, um dia, o leitor se cruze com ele… Não se perderia nada, tanto vale a pena haver retratos de jovens felizes com as suas descobertas!