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quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Em dia de Fernando Pessoa (2), 82 anos depois da partida



"A literatura é a melhor prova de que a vida não chega". Em qualquer lugar...

domingo, 5 de novembro de 2017

Entre Setúbal, a Arrábida, a literatura e o turismo



Há dias, no Portinho da Arrábida, uma fotografia de acaso recriava a história de “A Pequena Sereia”, de Hans Christian Andersen... Esse conto do escritor dinamarquês nada tem a ver com Setúbal. Escrito em 1837, Andersen só visitaria a região do Sado quase três décadas mais tarde, em 1866, deixando relato dessa visita na obra memorialística Uma visita em Portugal em 1866. A região entusiasmou-o ao ponto de ter registado que em Setúbal encontrara o paraíso terreal! Por cá, não terá escrito muito, mas confessou ter sido em Setúbal que encontrou a inspiração para o conto “O Sapo”.
Fosse por essa inspiração, fosse pelo que escreveu sobre Setúbal, Andersen poderia ser motivação para visitar as margens do Sado... Ao ver a informação de que a Regent Seven Seas Cruises tem rotas motivadas pela literatura, designadamente uma que, em Itália, leva os visitantes a Portofino e à aldeia de Sestri Levante, cuja baía o escritor dinamarquês baptizou como “Baía das Fábulas”, temos de pensar como poderia ser interessante Setúbal entrar nesses roteiros de literatura e de turismo.
Já houve várias oportunidades em que Setúbal como motivação literária podia ter sido capitalizada, sobretudo se associada à Arrábida. Agora, que a região parece estar na moda e é procurada por nacionais e estrangeiros, bom seria que esse trunfo cultural viesse também à superfície. Muita gente escreveu sobre Setúbal e uma rota apoiada nesses dizeres consolidaria identidades e fomentaria relações, estou certo.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Para a agenda - Três formas de assinalar o centenário da Grande Guerra


Três formas de assinalar o centenário da Grande Guerra: uma conferência por Joaquim Santos, no Casino da Figueira, em 16 de Outubro; uma exposição de temática interessante - "A Grande Guerra e a Literatura", na Biblioteca Municipal Afonso Duarte, em Montemor-o-Velho, ao longo de Outubro (pena que a fotografia do cartaz não seja da 1ª Grande Guerra!); outra exposição, que promete carácter abrangente, "A Grande Guerra - Das colónias às trincheiras da Europa", incluindo uma conferência por Luís Alves da Fraga, no Museu Militar do Porto, também em Outubro. Para as agendas!






sábado, 19 de outubro de 2013

Salman Rushdie e o poder da literatura no nº 2 da "Granta"



O nº 2 da edição portuguesa da revista Granta já anda por aí. Entre os muitos textos, um de Salman Rushdie, que li hoje, alberga-se sob o título de "Mas já nada é sagrado?" e o tema da revista é o "poder". Imagine-se sobre que poder Rushdie escreve... Isso mesmo: sobre o poder da arte que é a literatura.
Do que conheço sobre o assunto, é um dos textos mais bonitos que responde ao porquê de se escrever ou ao porquê de se ler... ou aos dois em conjunto. Vale a pena.
Deixo duas citações, profundas e intensas. A primeira: "O espaço interior da nossa imaginação é um teatro que nunca pode ser fechado; as imagens aí criadas compõem um filme que ninguém pode destruir." E a segunda: "A literatura é o único lugar em qualquer sociedade onde, na privacidade das nossas próprias cabeças, podemos ouvir vozes que falam de tudo de todas as maneiras possíveis."


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Brissos-Lino: a propósito de "Fado - A torcer o destino"



Quase uma centena de páginas depois de começar a narrativa que integra a obra Fado – A torcer o destino, de José Brissos-Lino (Lisboa: Novos Autores, 2013), há uma frase-chave sobre a personagem Maria João – “não era da terra e ninguém sabia exactamente de onde viera”.
Está o leitor em companhia da personagem que vai sustentar toda a história, Maria de Fátima por nascimento, que assume o seu trajecto mudando o nome para Maria João (e, depois, para Mary Jane), numa atitude de escolha do nome mais adequado (questão identitária), um pouco a misturar atributos de géneros, a tornar-se um ser outro a partir do momento em que descobre que a vida pode ser outra coisa. Com efeito, a frase que seleccionei mais não é do que um indício do que pode vir a ser a trama desta história – a descoberta da história da própria personagem, num percurso de reconstrução da identidade, num recuo até às origens, sempre dando crédito à sua força de viver o presente.
Essa frase marca a viragem no curso da narrativa, que passa a viver em torno dessa personagem de enigmática origem e de não menor enigmática forma de ser e de ver o mundo. Mas, por outro lado, é também o percurso de descoberta que Maria João vai fazer o responsável pela coerência da narrativa, a explicação para outra não menos enigmática figura que surpreende o leitor desde o início, o Algarvio, pescador em Setúbal, que se sentia mais seguro sobre a água do que sobre a terra.
A história de Maria João é um itinerário através de enigmas, não só do seu (quanto à sua origem), mas também dos de outros – como o de Arcanjo ou o da própria organização denominada “Fadistas”, em que acaba por colaborar.
A narrativa passa por locais como Setúbal, Santiago do Cacém e Lisboa (em Portugal) e Nova Iorque (nos Estados Unidos), todos eles albergando os seus segredos e outros tantos conjuntos de histórias ou episódios que vão marcando o todo que Fado é, haja em vista segmentos como os dos encontros com o jovem poeta Sebastião da Gama, com o eremita da Arrábida (figura entre o humano e o profético) ou com o moleiro Arcanjo (figura que só por si valeria uma longa história, mestre que despoleta o percurso de demanda em Maria João); haja em vista ainda trechos com pequenos quadros que vivem pela sua autonomia também, como os da procissão da Senhora do Monte, da matança do porco, do Monte dos Malucos, do Cabeça de Abóbora ou dos tratadores enjaulados no Jardim Zoológico.
Quanto às personagens, os seus nomes carregam frequentemente uma dimensão simbólica com resquícios mais ou menos bíblicos, pelo menos proféticos e sábios, sendo que algumas das figuras surgem retratadas numa dimensão que ultrapassa o humano, assumindo-se como marcos ou referências, com um saber indiscutível aliado a uma simplicidade desconcertante. O narrador não passa incólume pelo meio destas figuras, deixando que o seu ponto de vista surja frequentemente grudado ao pensamento das próprias personagens, numa quase relação de identificação, sobretudo com Maria João.
O tempo desta história ocorre entre Fevereiro de 1941 e Setembro de 1945, percurso fortemente marcado por indicadores históricos conhecidos: o ciclone de 1941 marca o início da obra e da história, descrição bem construída quanto aos efeitos locais e também quanto ao retrato calamitoso que deixou como herança, podendo mesmo ser visto como metáfora de outros ciclones que assolavam o mundo, à data – o do regime político em Portugal, que aprisionava, com referências múltiplas à polícia política e à perseguição, e o da Segunda Grande Guerra, também ela um intenso marcador do tempo nesta história, que se conclui, de resto, com a assinatura da rendição japonesa, em Setembro de 1945, quando o grupo “Fadistas” é desmantelado e Maria João, agora Mary Jane, vive fase de sucesso e de estabilidade nos Estados Unidos, o “eldorado” para todos os que da Europa tinham fugido na primeira metade da década de 1940.
Por este romance circulam personagens históricas como Peggy Guggenheim, Max Ernst, Saint-Exupéry, Salazar, Aristides Sousa Mendes ou Sebastião da Gama; passam referências à Grande Guerra, ao regime político, à Polícia de Vigilância e Defesa do Estado, aos espiões que povoavam Lisboa e a zona do Estoril, às falsificações documentais, aos recursos usados para a expressão crítica e oposicionista – como é paradigmático o caso do nome Lazaras dado ao burro por Arcanjo, anagrama de Salazar. A região de Setúbal revê-se também neste trajecto, com referências à vida dos pescadores, ao Sado, à Arrábida, à fábrica de óleo de baleia, ao desenho da cidade ou ao acidente com uma aeronave em Tróia.
Algumas das personagens vão fazendo aprendizagens ao longo da história, sendo o caso mais evidente o da própria Maria João, que começa um percurso de regras numa organização, paradoxalmente a actuar à margem da lei, passo que concilia a personagem consigo própria, ela que se definia à custa de uma metáfora, que contrariava toda a norma: “O pensamento é um cavalo selvagem a correr nos campos, não o posso amarrar.”
Maria João, que descobre a sua data de nascimento e a origem da morte da mãe numa lápide de cemitério, é a personagem que pauta o avanço da narrativa e que também a faz pausar com o recurso ao “flashback” da sua memória ou da tentativa de reconstituição do seu percurso de vida. Esta personagem lida com tanto à-vontade com o universo agitado onde existe “o ronco irritante dos automóveis em coro nas ruas a engasgarem-se nas subidas mais íngremes” como com o “interior despovoado, sem vivalma”, da “cidade dos mortos”, duas imagens que são também os extremos da sua história – o vazio que se fizera quanto aos primeiros tempos da sua vida e a plenitude que encontrou ao descobrir a sua história, afinal, o poder da inscrição.
Fado – A torcer o destino tem, assim, o título plenamente justificado, estabelecendo a circularidade entre o “fado” e o “destino”, ao mesmo tempo que proporciona ao leitor o contacto com momentos que também fizeram a identidade e o retrato do século XX, deixando que da sua personagem principal irradie o ritmo que formata e condiciona a própria história, uma história que cada leitor faz de cada vez que procura afinidades no universo que são as vidas das personagens.


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Adversidade – “Quando vem a adversidade sabe sempre bem encher o peito e fazer-lhe frente. Mostrar-lhe que um dia ela há-de passar, por ser episódica ou mesmo cíclica, e nós ainda continuaremos por cá, porque a vida é nossa e não dela. É a nossa vingança secreta.” (pg. 106)
Aparência – “Nesta vida temos de ser sempre camaleões, estar sempre a mudar de aparência. Num dia senhor, noutro dia operário. Num dia dama, noutro dia criada. Não nos podemos arriscar a ser reconhecidos pela roupa…” (pg. 176)
Casa – “A nossa casa é onde está o nosso coração.” (pg. 52)
Conflitos – “Os conflitos entre os homens, apesar de estúpidos na sua natureza o mais que se possa imaginar, são sempre episódios pontuais na eterna linha do tempo.” (pg. 250)
Coragem – “Ser corajosa não é ter medo. (…) Ser corajosa é enfrentar a situação, mesmo quando temos medo.” (pg. 64)
Dor – “A melhor maneira de lidar com a dor de uma pessoa é (…) exorcizá-la pela via do disparate e da loucura. Resulta no momento, pelo menos.” (pg. 164)
Estar consigo – “Quem está sempre rodeado de muita gente não tem tempo, nem condições, de ficar consigo mesmo. Está centrado nos outros, na forma como comunica, na opinião das pessoas, nos seus sentimentos e ideias. (…) Qualquer pessoa precisa de ter momentos a sós consigo mesmo, reflectir nas suas próprias ideias, sentimentos e sensações. Se não o fizer, corre o risco de viver sempre em função do eco que recebe dos outros sobre si mesmo.” (pp. 45-46)
Guerra – “A guerra é uma fábrica de órfãos e de viúvas. E de loucos.” (pg. 29)
Morte – “Tudo o que fala em morte incomoda as pessoas.” (pg. 157)
Tempo – “Um minuto é um minuto e um segundo é um segundo. Tudo conta. Se querem ser bons profissionais têm de ser pontuais. Se marcamos qualquer coisa às cinco, é mesmo às cinco, não é às cinco e dois minutos. Se (…) falharem um minuto, falham em qualquer coisa.” (pg. 186)
[Na apresentação da obra, em 4 de Outubro, no Salão Nobre da CMS]

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Para a agenda - "DiVersos", nº 18





Com a presença de três dos poetas incluídos (José Manuel Teixeira da Silva, Luciano Moreira e Teresa Ferro), naturais do  Porto ou fixados na região, e dois dos tradutores (José Carlos Marques e Teresa Ferro), também aqui fixados, será apresentada a série DiVersos - Poesia e Tradução, a propósito da publicação do seu n.º 18. Na sexta-feira, 17 de maio, às 18:15, no Porto, no Palacete Viscondes de Balsemão, à praça Carlos Alberto n.º 71.
Fundada em 1996 por quatro poetas e/ou tradutores naturais do Porto ou ao Porto ligados, a DiVersos é já hoje em Portugal uma das publicações de poesia mais longevas. A sua ligação ao Porto em nada impede que seja também decididamente universal, tendo até hoje traduzido mais de 130 poetas de 16 línguas diferentes e inserido poemas em língua portuguesa de mais de 130 autores, incluindo numerosos poetas do Brasil, e alguns de outros países de língua oficial portuguesa ou a eles ligados (Angola, São Tomé, Moçambique).
Obviamente… para a agenda!


domingo, 16 de dezembro de 2012

Mario Vargas Llosa: a literatura, a cultura, a democracia, a política e a contemporaneidade


No suplemento “Ípsilon” que acompanhou o Público de 14 de Dezembro, Mario Vargas Llosa é entrevistado (páginas 14-16) a propósito do seu mais recente livro traduzido para português – A civilização do espectáculo. Por essa conversa do Nobel da Literatura peruano (2010) com António Rodrigues perpassam ideias que nos deviam abalar, abordando temas tão importantes como a cultura e a política, a democracia e a crise que nos cerca. E andam todos ligados… Deixo alguns excertos.
Literatura e civilização – «(…) A literatura cumpriu uma função nevrálgica na evolução da humanidade. É difícil prová-lo, porque a literatura opera de forma muito subjectiva na intimidade das pessoas, mas eu acho que a fantasia, a sensibilidade, o espírito crítico desenvolveram-se extraordinariamente graças às fábulas, às lendas, aos mitos e, logo, aos continuadores desses géneros que são a poesia, o romance. O mundo é mais livre, mais crítico devido ao desassossego em relação ao mundo real, atiçado por esse olhar crítico perante o mundo que é a literatura. A cultura, em geral, e a literatura, em particular, estão sempre a expor-nos às ideias da perfeição, da beleza, da coerência, de uma ordem que não existe no mundo real; nesse sentido, têm servido como o motor do progresso da civilização. Pode ser uma ideia romântica, mas não acho que seja desmerecida pela realidade. (…)»
Banalização da cultura – «(…) O valor das coisas é fixado por certos padrões culturais, estéticos, e é isso que hoje está muito ameaçado pela banalização da cultura. Há um factor que tem a ver com a educação, no sentido mais amplo da palavra – não só com o professor e a escola, também com a família, com a imprensa, com a informação que chega aos cidadãos, tudo isso marca uma certa orientação na maneira como se formam os cidadãos. E é a formação que hoje está muito estragada pela decadência de uma cultura que procura apenas entreter, divertir, muito mais do que preocupar, formar. Uma cultura que responde pela existência hoje de uma prática de avestruz: não ver, não entender. (…)»
Tempo das crises – «(…) São as ideias que fazem funcionar uma sociedade e que estão por trás das instituições, incluindo as instituições económicas. Acho que esta crise terrível, cívica, moral, por trás da grande crise financeira e económica que vive o Ocidente deriva, em parte, da crise da cultura. (…)»
Cultura e democracia – «(…) Por que razão a democracia se deteriorou tanto? Porque não há fé, não há confiança nas instituições democráticas; há um grande desprezo pela política, por se acreditar que é corrupta, medíocre. Ora, isso não é um problema social, é um problema cultural. A cultura não é só a arte, a literatura, a cultura é a vida inteira de uma sociedade – não está apenas na espuma, mas nas raízes da problemática social. (…)»

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Vasco Graça Moura e o cânone literário

No Diário de Notícias, Vasco Graça Moura escreve sobre o cânone literário e a sua importância na educação e no domínio da leitura, na cultura geral e na formação estética. Um texto de opinião a ler, sem tendências saudosistas, mas com preocupações culturais e de identidade, que aflora uma questão já desde há muito sentida.
Naturalmente que, quanto a este assunto, o vazio que foi sentido durante uns tempos está já a ser ultrapassado, haja em vista a preocupação dos programas da disciplina de Português e as suas indicações alusivas à competência da leitura ou o Plano Nacional de Leitura ou a dinamização que tem sido promovida pelas bibliotecas municipais e pelas bibliotecas escolares ou a promoção que da leitura tem sido feita por muitos professores em projectos diversos!
Mas a preocupação expressa por Vasco Graça Moura quanto à utilização do cânone literário na escola, construído com base na qualidade e literária e na importância cultural, deve ser uma constante.


domingo, 14 de agosto de 2011

Urbano Bettencourt - uma escrita fina...

... de ironia inteligente, com humor quanto baste, divertida, que mexe com o leitor.
Um exemplo?
Este, retirado de Que Paisagem Apagarás? (Ponta Delgada: Publiçor, 2010), que, em boa hora, foi apresentado em Setúbal pelo Manuel Medeiros há uns meses. Ei-lo:

Vida Social
Ele frequentava muito a literatura.
Para falar de gastronomia, citava o lascivo e doce passarinho de Camões. Os transportes marítimos não passavam sem dois ou três versos do poeta Alegre. A ecologia vinha, por norma, acompanhada de uns excertos de Sophia. O boletim meteorológico pendia sempre para umas frases de Nemésio. E até os problemas oftalmológicos desembocavam fatalmente em Saramago.
Era o perfeito socialite da literatura.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Duarte Ivo Cruz e a Índia no teatro português

Apesar de a Índia ser o grande motivo da epopeia camoniana, a verdade é que ela não constitui uma temática forte na dramaturgia portuguesa, sendo ultrapassada por outros momentos históricos. No entanto, os textos dramáticos portugueses que abordam a Índia pautam-se pela qualidade, ainda que tendo como motivação comemorações ou figuras e com uma visão a partir de Portugal. Este é o ponto de partida de Duarte Ivo Cruz na obra O Tema da Índia no Teatro Português (Col. “Essencial”. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 2011).
Facilmente nos recordamos de Gil Vicente, o pai do teatro português e também o responsável pela inserção desta temática no texto representado, haja em vista o Auto da Índia, representado em 1509, em tom crítico e até contundente, “politicamente incorrecto”, dirá Duarte Ivo Cruz. No entanto, o rumo alterar-se-á e o teatro dará primazia às terras de África no que ao fenómeno da Expansão diz respeito.
Ivo Cruz faz a revisão essencial – correspondendo ao desígnio que norteia a colecção, de resto – da dramaturgia ligada à Índia, passando por nomes como Camões (mesmo porque o seu Filodemo foi lá estreado em 1555), António Ferreira (Fanchono, 1554) ou Simão Machado (Comédia do Cerco de Diu, 1601), entre outros, mencionando também o teatro que era feito a bordo ou o que tinha propósitos missionários.
A época romântica, mesmo pela dinâmica que ao teatro incutiu Garrett, dará alguma importância à Índia, mas sem elevado compromisso. Marco importante para o temário da Índia no teatro português é o final do século XIX, aquando da comemoração do quarto centenário da viagem do Gama, com direito a concurso nacional, tendo-se falado das obras de Marcelino Mesquita, Silva Gaio, Lobo de Ávila ou Júlio de Castilho, entre outros nomes. No entanto, algumas das obras não chegaram a ser representadas e outras nem foram publicadas.
Apesar de nesta temática terem investido nomes importantes, como Lopes de Mendonça, Carlos Selvagem ou Ramada Curto, a verdade é que outros dramaturgos de relevo do século XX e mais recentes, como Romeu Correia, Natália Correia, Helder Costa ou Luzia Maria Martins, procuram a Índia apenas através de personagens que por lá passaram, o que leva Ivo Cruz a considerar que “o século XX, e já agora, esta primeira década do século XXI, deixa cair em parte o temário indiano”.
A conclusão só pode ser uma: “A Índia, como realidade concreta e quotidiana, mas sobretudo como expressão histórica, constitui de facto um dos temas centrais da dramaturgia portuguesa: mas (…) fica muito aquém, pelo menos em quantidade, do grande tema da Expansão e da colonização africana”.
A retrospectiva sobre este tema é rápida, mas elucidativa. As obras referidas não são analisadas com delongas, mas ficam as referências para mais aturada leitura. Ivo Cruz consegue provar o essencial da sua tese – a da riqueza do tema, em simultâneo com a pobreza quantitativa da produção. Questão genuína de Portugal? O autor não o diz, mas conclui o seu percurso com uma citação de Luís António de Araújo, de 1779, que, ao analisar as causas da decadência do gosto no teatro, escrevia: “Ah! E de que prejuízos não enchem o público aqueles que só se ocupam em lisonjear-lhes as suas paixões! Por isso vemos mais sujeitos inclinados a ler a história de Carlos e Rosaura do que a de Vasco da Gama!” Será que esta pergunta não tem actualidade, nesta como noutras áreas?

sábado, 25 de junho de 2011

Nuno Júdice em entrevista

A revista “Única”, que saiu com o Expresso de hoje, traz uma entrevista com Nuno Júdice feita por Clara Ferreira Alves, que vale a pena ler. Por lá perpassa o mundo e o compromisso do escritor, o papel das livrarias na leitura, a literatura actual, os valores da literatura portuguesa e os seus nomes esquecidos, o acordo ortográfico… São palavras de poeta, de professor, de teórico, de leitor e de pensador aquelas que Nuno Júdice nos deixa e de que destaco alguns exemplos.
Livrarias – «As livrarias perderam a função de estimular o leitor, encaminhá-lo para a escolha apropriada, pela qualidade do livro. Os livreiros dantes tinham esse conhecimento da vida literária.»
Liberdade – «Nunca vivemos tão livres, mas o pensamento é hoje muito pouco livre.»
Cânones – «Hoje, o cânone é o do mercado. O que obedece a uma construção a que o leitor estará habituado. Se o escritor quiser vender (…) embora muitos desses livros até possam ser bem construídos. Coerentes. São superficialmente obras literárias, mas estarão para a literatura como o McDonald’s está para a gastronomia. O que estamos a consumir como literatura são produtos em série. Nada a ver com a invenção, a criação literária. O que o escritor tem de fazer é romper com as normas, ir além das normas. Como aconteceu antes.»
Leitura e literatura – «A literatura desapareceu da terminologia do português. Tem de haver um mínimo de leitura obrigatória que corresponda a uma ideia de história da literatura. Ler só contemporâneos não faz sentido, porque se perde o que está por detrás, o fio condutor.»

sábado, 6 de novembro de 2010

Estudos Locais de Setúbal (1) – Luís Souta e a escola dos escritores ligados a Setúbal

No II Encontro de Estudos Locais do Distrito de Setúbal, que decorreu ontem e hoje, assisti à conferência de Luís Souta (acontecida ontem), de que gostei, pelo cruzamento com identidades e com a cultural local, sem esquecer o mais vasto âmbito da cultura portuguesa.
Intitulada “Na escola da dor e do sofrimento, segundo cinco escritores do distrito”, Souta acentuou tratar-se de um conjunto de retratos feitos a partir de obras literárias, passando por obras de Mário Ventura, Maria Rosa Colaço, Romeu Correia, Manuel da Fonseca e Sebastião da Gama (tendo ainda havido remissões para Carlos Ceia e para Matilde Rosa Araújo), pretendendo mostrar “o olhar da literatura sobre o universo escolar”.
A originalidade da leitura de Luís Souta foi interessante, bem para lá da discussão do autobiografismo na literatura, mostrando que a ficção nasce de realidades, aí incluindo realidades vividas. A evocação de Manuel da Fonseca veio bem a propósito ou não tivesse sido ele a figura destacada (e presente) no I Encontro de Estudos Locais do Distrito de Setúbal que se realizou há 22 anos; também Romeu Correia, outro contador de histórias, mereceu ser lembrado, ele que tem tido a sua obra quase esquecida; igualmente a recordação de Rosa Colaço e desse mítico (e quase fundador) livro que foi A criança e a vida fez recuar no tempo, chamando a atenção para a sensibilidade que, desde cedo, pode invadir a escrita; Mário Ventura foi mencionado a propósito da história de Miguel Zuzarte e, não sendo de Setúbal, por aqui viveu e empurrou o nome da cidade para a história do cinema em Portugal – haja em vista a realização do Festroia –, motivo que levou Souta a sugerir que o nome de Mário Ventura deveria ser atribuído ao Auditório Charlot, espaço municipal sadino de encontros e de cinema (proposta certeira, diga-se, e a merecer ser levada avante); Sebastião da Gama foi chamado pelo seu Diário, obra de referência para a pedagogia e para o pensamento do professor, sobre ela afirmando Luís Souta que “é suposto num estágio o professor aprender”, mas Sebastião da Gama foi “um professor em formação que produziu um texto formador que veio a marcar a pedagogia”, outra forma de dizer que o Diário do poeta da Arrábida, registo do que foi o seu ano de estágio na Escola Veiga Beirão, é a marca de “um professor reflexivo”.
Luís Souta proporcionou, desta forma, um outro olhar sobre a escola. De outros tempos e igual para todos, é certo, mas valorizando a experiência e a literatura, chamando a atenção para a pluralidade de leituras que a arte pode conter.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Do Jogo ao Texto - Quando os alunos se encontram com a literatura

Ontem, na minha Escola, foi a apresentação da antologia de textos literários escritos por alunos intitulada Do Jogo ao Texto, alusiva a este ano lectivo, sessão que contou com alguns dos autores a lerem os seus próprios textos e com as intervenções de três grupos musicais participados por alunos da Escola.
Do Jogo ao Texto nasceu há 20 anos, perfeitos em Maio passado. Nessa altura, Maio de 1990, saiu o primeiro volume desta antologia, reunindo colaborações de meia centena de jovens. Depois, anualmente, até 1993, saíram mais três volumes. Dez anos passados, em 2003, surgiu a quinta edição deste projecto. E, volvidos mais sete anos, agora, foi a vez do sexto. No total, até hoje, 430 alunos deixaram palavras de criação neste suporte, em cerca de 400 páginas, alguns deles nunca tendo chegado a pensar que iriam ter o seu nome num livro por edição escolar que fosse.
Ainda agora isso aconteceu: quando enviei um mail aos alunos autores a dizer o que ia acontecer, uma aluna pensou que seria uma piada que o professor estava a fazer e não quis acreditar… e teve de certificar a informação com outras pessoas e, depois, comigo. “Não imaginava ser possível, professor!”
Nutro um certo carinho por este projecto, porque lhe dei início, tendo, nos anos seguintes, passado a responsabilidade de o manter a uma equipa que partia do seguinte princípio: aproveitar os textos de qualidade literária produzidos pelos alunos para que, no final do ano lectivo, houvesse uma antologia dessas mesmas peças. E assim tem sido, com envolvimento de professores, de turmas, da Escola, com entradas pela fruição estética e pelo aprender a desvendar os segredos que a literatura insiste em guardar e revelar.
Por esta selecta passam trabalhos amadurecidos, nuns casos, trabalhos surgidos de repente, noutros casos. Há textos que foram produzidos, revistos, demoradamente elaborados; há textos que surgiram em momentos especiais, como em testes ou trabalhos feitos na lufa-lufa das aulas. Há textos individuais e textos colectivos, uns e outros agora dados à partilha. Todos valem pela criatividade, pela mensagem, pelo tema, pelo esforço, pela experiência, pela estética.
A edição deste ano aloja 60 páginas por onde passam poemas e prosa, diários simulados, cartas a personagens, continuações de textos literários lidos em aula, recriações sobre a vida, sobre o amor, sobre a felicidade e sobre as dores, em português, em inglês e em moldavo.
É uma gota, eu sei. Mas que valeu a pena pelas alegrias que transpareceram nos rostos dos alunos ao lerem-se e ao lerem o que os outros escreveram. E também nos olhares dos pais que, na tarde de ontem, assistiram à apresentação.
A edição deste ano lectivo, a sexta, teve ainda a colaboração de uma dezena de professores e da Câmara Municipal de Palmela, através do Programa de Apoio a Projectos de Escola.

OS ROSTOS DAS EDIÇÕES ANTERIORES

Capas de Do Jogo ao Texto, de 1990, 1991 e 1992

Capas de Do Jogo ao Texto, de 1993 e 2003

sábado, 17 de outubro de 2009

Máximas em mínimas (51)

SUPER-HOMENS OU SUPER-PERSONAGENS
“Os romancistas têm o condão de criar personagens super-humanas, cujas biografias nos fazem entrever angélicos habitadores das regiões cerúleas – porque na terra, por melhor que se esquadrinhe, não se encontram. Que, lá verdade, verdade: o Artista Máximo, às vezes, consente que à terra desçam anjos de incomparável formosura, com almas de pura essência divina. Mas só de séculos a séculos isso acontece. Também se Deus se lembra de encher o mundo de criaturas superiores, os romancistas perdem a originalidade e a faculdade de inventar.”
Manuel Boaventura. Contos do Minho. Barcelos: Companhia Editora do Minho, 1927, pg. 118.

sábado, 9 de maio de 2009

O livro de Ubaldo Ribeiro, a censura de um supermercado e a opinião de Pedro Mexia

A bunda e a ameaça
«Que maçada, mais um artigo sobre a liberdade de expressão, como se a liberdade de expressão estivesse em causa, mais um texto sobre a censura, como se houvesse alguma censura. Isso não são assuntos reais, assuntos importantes, assuntos que interessem aos portugueses, é apenas entretenimento de intelectual, de desocupado, de burguês.
Gostava que o parágrafo anterior fosse uma caricatura, mas cada vez mais corresponde ao que ouço em conversas sempre que alguém defende à mesa a liberdade de expressão. Cada vez mais as opiniões restritivas das liberdades vão sendo mais aprovadas. Não se pode desenhar um Papa com um preservativo no nariz. Não se pode mostrar um Che de bigode hitleriano. Não se pode fazer piadas com as amantes de Salazar. Não se pode publicar cartoons de Maomé. Não se pode ter linguagem preconceituosa. Não se pode. Há nessa matéria uma grande aliança, uma das mais importantes do nosso tempo, entre os reaccionários conservadores e os reaccionários progressistas. Gente que "até concorda" com a circulação livre de palavras, imagens e ideias, "mas com limites". Os limites deles, bem entendido.
É por isso que tudo o que seja atentado à liberdade de expressão deve ser denunciado, criticado, satirizado. Há muito lixo, muita coisa duvidosa, questionável? É possível e provável, mas entrar nessa discussão é já entrar num jogo viciado. Quando a liberdade de expressão é atacada, não se discutem minudências. Há muitas coisas de que eu não gosto, mas não quero viver num mundo em que só exista aquilo de que gosto ou com que concordo. Somos todos crescidinhos, vivemos em sociedades conflituais e complicadas, há que aceitar o conflito e a complicação, encaixar os ataques, as opiniões ofensivas, fazer boa cara à indispensável selva que é viver com os outros.
Por isso, quando uma cadeia de supermercados recusa, pela segunda vez, pôr à venda um romance que considera "pornográfico", convém não encolher os ombros. A Casa dos Budas Ditosos (1999) é uma confissão sexual de uma sexagenária, culta e desabrida, e que cultiva um pansexualismo desenfreado. De "tomar nas coxas" até "comer os amigos", o texto é uma festa pagã de "puxa roupa, tira roupa, aperta pau, dá chupão, chupa peito, lambe xoxota". Daí não vem mal ao mundo. O autor, João Ubaldo Ribeiro, Prémio Camões e um dos grandes escritores brasileiros, é surpreendentemente generoso connosco, e a protagonista até diz: "Aliás, fode-se muito bem em Portugal, ao contrário do que eu suponho ser a opinião generalizada. (...) Vi muitas belas bundas em Portugal, que lá não são chamadas de bundas, mas de cu mesmo, que lá nem é palavrão, veja como são as coisas, grande país subestimado. Bundas de homens e mulheres. Toda mulher portuguesa dá a bunda, ou pelo menos dava, para manter a santa virgindade vaginal, como aqui. Hoje, com a entrada na Comunidade Europeia (...) não sei mais como estão as coisas." É destas passagens que vêm os inomináveis perigos de que nos querem de novo proteger, como antes se protegia a santa virgindade?
É uma infantilidade que gera infantilidades. A recusa da venda de um livro por ser considerado pornográfico tem três abordagens possíveis. Há quem se entretenha a discutir se a obra é realmente pornográfica, como se a literatura não estivesse cheia de sexo explícito, e como se a pornografia, de Sade a Houellebecq, não tivesse uma tradição estabelecida. Há quem se dedique a defender o direito dos supermercados em recusarem vender o que bem entendam, como se não houvesse nenhum problema em que um cavalheiro que lida com stocks de iogurte possa decidir os livros que devemos comprar. Escreveu João Ubaldo, quando soube da notícia: "Viva o Povo Brasileiro [outro dos seus romances] ainda está sendo examinado para ver se pode ser vendido na rigorosa rede. Pôde ser adotado duas vezes (o máximo que a lei permite) pelo Ministério da Educação da França como o livro-texto para o Exame de Agregação de língua portuguesa, mas tem que ser examinado por vendedores de supermercado, para ver se é leitura permissível aos portugueses." E ele que até tinha elogiado as nossas bundas.
Há um terceiro modo de ver esta questão, que me parece o mais adequado: discutir se é admissível que não se venda um livro por causa de pichotas e coninhas, coisas que todos mais ou menos vamos tendo, que inundam uma cidade, que caíram na banalidade. Uma loja tem margem de liberdade para escolher aquilo que vende, de acordo com juízos comerciais. Mas quando uma cadeia de estabelecimentos comerciais faz juízos morais sobre obras de ficção, aí já ultrapassámos uma fronteira perigosa, a fronteira que daria também carta branca a um administrador de condomínio ou a uma empresa de telecomunicações para fazerem escolhas sobre a nossa vida.
Se eu quiser comprar A Casa dos Budas Ditosos, não aceito que me respondam que não vendem o livro porque acham que a protagonista é uma badalhoca. Algumas pessoas cujo amor à liberdade é reconhecidamente diminuto enchem a boca com a liberdade de comércio nestas circunstâncias. Mas a liberdade dos comerciantes não se opõe à liberdade das pessoas. Se eu quiser ler um romance lúbrico, escrito por um grande escritor da língua portuguesa, ou pequeno que fosse, tenho todo o direito a isso, e não reconheço a ninguém o direito a fazer juízos morais que me impeçam o acesso a esse romance. Dirão que quem proíbe não causa grande dano, porque há sempre quem permita. Mas pensem: uma pessoa que proíbe deseja que toda a gente proíba. Essa é que é a grande ameaça.»
Pedro Mexia. "A bunda e a ameaça". Público ("P2"): 09.Maio.2009

domingo, 3 de maio de 2009

Já tínhamos percebido que havia gostos duvidosos na escolha de livros para venda em alguns locais

Ubaldo Ribeiro "chateado" com proibição de livro
«O Grupo Auchan (Jumbo) decidiu proibir, pela segunda vez em dez anos, a venda do romance A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, nos seus hipermercados. O fundamento desta medida é o carácter pretensamente pornográfico da obra, repudiado pelo seu autor."Amigo Nelson, lá vamos nós outra vez", comenta o escritor brasileiro numa mensagem enviada ao seu editor português, Nelson de Matos.
"Não há razão nenhuma para essa censura", diz Ubaldo Ribeiro. "Imagino que eles também não vendam Henry Miller ou outros autores desse tipo". Pedindo ao editor que "não se incomode nem se aborreça", o escritor declara-se "chateado" com "este acto censório", que qualifica como "irónico" e quase "suspeito": "Parece uma jogada sua de marketing para poder aumentar as vendas do livro, coisa que sucedeu da primeira vez".
João Ubaldo Ribeiro lembra que a obra foi adoptada em exames de acesso por universidades brasileiras e francesas. Refere-se ao êxito da edição do livro na Alemanha, país onde é leitura recomendada aos diplomatas que são destacados para o Brasil.O escritor afirma ainda que "está a ficar velho de mais" para se "incomodar com estas coisas". E assegura, a concluir: "Por nada disto é afectado o meu amor por Portugal. Posso dizer a esses portugueses que, por mais que eles queiram o contrário, Portugal também é meu".
A primeira proibição de A Casa dos Budas Ditosos foi há dez anos, quando Nelson de Matos era editor das Publicações Dom Quixote. Uma nova edição, lançada agora pelas Edições Nelson de Matos, volta a ter a mesma sorte. "O Grupo Auchan não vende produtos do foro pornográfico. O referido livro enquadra-se neste conjunto de artigos", explicou na semana passada ao semanário Expresso a agência de comunicação que representa o grupo. Uma segunda obra do mesmo escritor, Viva o Povo Brasileiro, está também retida para apreciação.
"Tudo isto é lamentável", disse Nelson de Matos ao PÚBLICO. "Considerar o livro pornográfico é um acto de gaguez de espírito". O editor lembra que João Ubaldo Ribeiro foi galardoado em 2008 com o Prémio Camões, o mais importante em língua portuguesa, pelo conjunto da sua obra. E que, este ano, o Brasil é o país convidado da Feira do Livro de Lisboa. Por isso, não tem dúvidas em considerar "um acto inamistoso" a proibição de livre circulação da obra por parte do Grupo Auchan:"Indigno-me contra isso, mesmo que a empresa deixe de adquirir os meus livros.
"As manifestações de apoio e solidariedade continuam a chegar, tanto da parte de figuras públicas como de gente anónima, diz o editor. Muitas das reacções vêm do Brasil, onde o caso teve várias referências nos media.»
Carlos Pessoa. Público: 03.Maio.2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

António Lobo Antunes - anunciar o fim em vésperas de livro novo?

João Céu e Silva publica no Diário de Notícias de hoje o que ficou de uma entrevista com António Lobo Antunes. Dois destaques: o próximo livro e o fim anunciado (?) da publicação.
Quanto ao próximo título, Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?, o tom de Lobo Antunes deixa o desafio: "É um livro óptimo para dar um trabalhão à crítica. Eu queria fazer um romance à maneira clássica, que destruísse todos os romances feitos desse modo." Quanto ao futuro da obra… alguns excertos:
ACABAR - «(…) Vou publicar este livro que acabei agora e escrever um último livro para arredondar a obra. Essa é a minha ideia. Depois, nessa altura, quando sair esse livro que arredonda, que eu penso que me levará dois anos de trabalho - se conseguisse começá-lo este ano -, acabam os romances, acabam as crónicas, acaba tudo e não publico mais nada. A minha voz falada ou escrita já não se ouvirá mais. (…)»
APANHAR - «(…) Eu fui apanhado por toda esta engrenagem editorial, de agentes, disto tudo que era um mundo inimaginável quando o meu primeiro livro saiu. Não conhecia ninguém, nada, nem um único escritor e a maior parte dos meus amigos - os meus camaradas na guerra - nem sequer sabiam que eu escrevia. (…)»
ESCREVER - «(…) Eu escrevo porque se não escrever a minha vida fica sem nexo e sentido. Parece que me construí a mim mesmo para isto. Não era para publicar, era para escrever e fui apanhado por uma engrenagem. (…)»
CALAR - «(…) Há já muito tempo que penso em voltar a calar-me e fazer como na adolescência: escrevia as coisas, corrigia, corrigia e depois destruía. Depois fazia outro, corrigia e destruía… E andei nisto anos. (…)»

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Le Clézio (n. 1940), Nobel da Literatura 2008, hoje

"À Raga, on est pénétré à chaque instant par le sentiment diffus, inexplicable, de la divinité.
Il y a d’autres endroits dans le monde où ce sentiment peut surgir. Dans la lande, en Bretagne, ou dans les ravins au coeur de la forêt vosgienne. En Islande, où l’on est si prés des bouches à feu de la terre, ou encore dans le désert mineral balayé par le vent. J’imagine que la banquise de l’Antarctique peut donner ce sentiment.
À Raga, cela vient de la conjonction d’une nature violente et de la douceur des hommes qui l’habitent. Il y a quelque chose de dénudé dans la pierre noire, la brutalité de la falaise, et en même temps la force des plantes, l’eau en suspens dans l’atmosphère. En résumé, c’est volcanique.
Il n’y a pas de volcans à proprement parler sur Raga. Une légende racontée par Willie Bebé explique pourquoi les volcans sont présents à Ambrym, et absents de Raga. Il y a très longtemps, deux vieillards irascibles habitaient chacun d’un côté du detroit. Un jour, le vieillard de Raga lança un tison enflammé à son rival: “Tiens, ainsi tu n’auras plus jamais froid.” L’autre, en réponse, lâcha une fumée vivante sur Raga: “Tiens, pour te tenir compagnie la nuit!” Depuis ce temps, les volcans brûlent à Ambrym, et les moustiques harcèlent les habitants de Raga.
L’esprit divin imprègne ces îles. L’esprit, et non pas la religion. Sans doute faudrait-il dire ce que Vincent Boulékone dit de la culture en général, et des musées en particulier. Qu’à Raga, c’est l’île tout entière qui est un musée. Et l’île tout entière qui est un temple.
"
Le Clézio. Raga - Approche du Continent Invisible.
Col. "Points" (P1798). Paris: Éditions du Seuil, 2006, pp. 77-78.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Agora, que o ano lectivo está a começar... (2)

Desidério Murcho escreve no Público de hoje uma crónica interessante intitulada "Lavoisier e a Escola", que pode constituir motivo de reflexão para o que vai ou pode ser o contributo de cada um para alguma felicidade na escola (clicar sobre a imagem para ler).
A propósito da leitura de Os Maias, Desidério Murcho traz García Marquez, traz o seu tempo de estudante, traz o quão perniciosas foram as análises "formalistas", traz memórias de falsa literatura, traz a luta entre a paixão de ler e o desinteresse pela cultura... Esta história passa um pouco pelas memórias de todos e também todos nos lembramos do professor Keating (de O Clube dos Poetas Mortos) a aconselhar os alunos que rasgassem as páginas introdutórias de um manual escolar pelas "aberrações" que ali eram ditas, por pretenderem ensinar a "medir" a poesia presente num texto literário... Desidério Murcho foi buscar a leitura d'Os Maias, mas podia ter ido buscar a d'Os Lusíadas, em que muita gente perdia o gosto da leitura em favor do desgosto da divisão das orações... Obviamente, o que tem faltado no meio de tudo isto é o encontro com a razoabilidade, algo que tem que estar entre o prazer de ler e de imaginar e recriar e o estudo da construção de uma obra de arte, um bom desafio, de resto, para todos...

quarta-feira, 2 de abril de 2008

De como Hans Christian Andersen entra neste dia...

No dia de hoje, há 203 anos, nascia em Odense, na ilha dinamarquesa da Fiónia, Hans Christian Andersen, no seio de uma família humilde. A criança cresceria a sonhar com um futuro no teatro e com um destino famoso. Não foi na arte de representar que o nome se lhe fez, mas na escrita, sobretudo nos contos e nos relatos de viagem.
156 contos constituem a obra essencial de Andersen, um conjunto que tem sido um maná para jovens e adultos, para edições ilustradas e cinema, para imaginações e paixões pela leitura, bastando lembrarmos títulos como A menina dos fósforos, A polegarzinha, A pequena sereia ou O soldadinho de chumbo. O entusiasmo foi a tal ponto que algumas das suas personagens estão figuradas na arte pública, com monumentos conhecidíssimos, como a sereia, em Copenhaga, ou o soldadinho, em Odense.
Durante oito meses, Andersen foi ainda contemporâneo de Bocage. Não foi por essa razão que o contista veio a Setúbal em 1866, mas porque, em 1828, em Copenhaga, conheceu os irmãos O’Neill, tendo Jorge, em 1865, convidado Andersen para uma visita a Portugal, peregrinação que teve lugar no ano seguinte: assim, em Janeiro de 1866, Andersen saía de Copenhaga para chegar a Lisboa em 6 de Maio. Um mês depois, em 8 de Junho, estacionava em Setúbal, onde ficou cerca de um mês, até 9 de Julho, na Quinta dos Bonecos, então propriedade da família O’Neill.
Desta viagem deixaria Andersen relato na obra Uma visita a Portugal em 1866, onde se pode lembrar a sua chegada a Setúbal: “A carruagem de Carlos O’Neill esperava-nos na estação e logo partimos atravessando uma parte da cidade, onde não faltavam as janelas pintadas de verde, passando pelos arcos do aqueduto, ora sobre areia funda, ora sobre um solo duro, com rocha a nu. O caminho parece ter surgido aqui por si próprio, uma espécie de estrada natural, nalguns pontos tão estreita que a carruagem mal podia passar, noutros com largura bastante para quatro. À primeira vista, julguei ver em todos os desvios postes telegráficos, mas quando os observei de mais perto, revelaram-se-me em profusão e majestade, aloés floridos, ao lado uns dos outros, com troncos certamente de mais de dez alen e com umas trinta ramificações. Pareciam candelabros de bronze, tendo em cada braço uma taça com flores amarelas. Na minha frente, ao alto, via o castelo de Palmela, cada vez mais próximo, entre frondosas árvores projectando sombras copiosas, o convento agora abandonado de Brancanes e perto deste a minha nova casa, a Quinta dos Bonecos, de Carlos O’Neill, como pela sua novidade foi denominada pelos vizinhos. (…)
Em Setúbal ainda, Andersen começou a escrever o conto O Sapo, depois de, na quinta, ter observado o animalzito perto de um poço: “O poço era fundo (…). Aí vivia uma família da raça dos sapos.” E, depois, um sapito quis ver como era o mundo fora do poço… e foi personagem de um conto.
É evidente que Setúbal tem lembrado Andersen: o seu nome está registado na toponímia e, na Avenida Luísa Todi, quase em frente ao Hotel Esperança, existe um abeto, ali plantado por iniciativa de Manuel Medeiros em 29 de Outubro de 1998.
Mas a memória de Andersen está mundialmente ligada à data de hoje, em que se celebra o Dia Internacional do Livro Infantil, muito embora os contos originais de Andersen nem sempre tragam a alegria e o contentamento às crianças, pois a tristeza e a dificuldade da vida são neles constantes!
[fotos: algumas obras de Andersen; em Billund, na Legolândia, monumento a Andersen em peças "Lego";
a Quinta dos Bonecos na actualidade; abeto anderseniano na Avenida Luísa Todi, em Setúbal]