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quarta-feira, 10 de novembro de 2021

Palavra(s) de Alexandre O’Neill



São do poema “Entrevista”, saído em 1979 no livro Uma saca de orelhas, os versos “Diz-lhe que estás ocupado / a entrevistar-te a ti mesmo / mesmo porque se não / o pões desde já porta / fora estás quilhado vai / espiolhar-te apalpar-te (...)”. Quem assim escrevia era Alexandre O’Neill (1924-1986), poeta vindo do Surrealismo, neto de escritora (Maria O’Neill) e trineto de Carlos O’Neill e de Adelaide Custance, proprietários da Quinta dos Bonecos, em Setúbal, quando Andersen lá esteve (1866).

Neste poema se inspirou Joana Meirim para o título de ‘Diz-lhes que estás ocupado’ - Conversas com Alexandre O’Neill (Tinta-da-China, 2021), dezasseis entrevistas, entre 1944 e 1985, assinadas por nomes como Adelino Gomes, António Mega Ferreira, Baptista-Bastos, Clara Ferreira Alves ou Fernando Assis Pacheco, entre outros.

Assumindo-se, em 1944, como poeta “por tendência própria e por educação”, logo ali dirá: “Desde cedo que leio bons poetas”, princípio que se manteve, como repetiu em 1977 - “um poeta ler outro poeta é muito importante: coloca-nos em confronto com outras experiências.” Da mesma forma, os poetas importantes se mantiveram na sua lista, logo apresentada na primeira entrevista - Pessoa, Nemésio, Torga, por Portugal; Bandeira, Drummond, Cecília Meireles e outros, pelo Brasil. Referências importantes porque a poesia é trabalhosa, como explicava em 1959 - “Na inspiração guedelha-ao-vento e soltura não acredito. Só para filmes e biografias romanceadas. A disposição irresistível para escrever, o rumor anterior ao ritmo, podem chamar-se momentos de inspiração, mas só a atenção contínua ao rumor, o abrir o ouvido para dentro, leva pouco a pouco ao ritmo e do ritmo ao verso.” E, em 1968, a sua identificação como poeta: “Sou parecidíssimo com a minha poesia. (...) Escrevo para registar o que é fugaz. Para deter as coisas. Para registar certos factos. Parece-me que é isto. Escrevo para registar, para fixar, para demorar.”

Poeta bem conhecido, O’Neill era, no entanto, crítico relativamente ao mundo dos escritores, como justificou em 1973: “Isso está directamente relacionado com o meio literário português. É a reacção a certo empolamento que há em muitos escritores. Certa importanticidade sumamente ridícula.”

As entrevistas com Alexandre O’Neill não eram fáceis - Eduardo Guerra Carneiro, em 1973, escrevia no preâmbulo: “Se não foi difícil encontrar o entrevistado, fácil não foi a entrevista. Mas, mesmo aos soluções, a entrevista fez-se. Depois, tesoura de um lado, cola do outro: a montagem. Talvez não seja a melhor, mas foi o que se pôde arranjar.” E, quatro anos depois, seria Francisco Dionísio Domingos a explicar: “É difícil falar com Alexandre O’Neill”, pois “fala como se estivesse a fazer um ou vários poemas, mudando aqui e acolá de tom.”

Pelas conversas aqui apresentadas passam referências ao Surrealismo em Portugal e às suas dissidências; ao tom muito rural do Neo-Realismo, sem ter havido, por exemplo, um romance citadino; à operação exercida pela censura e aos actos de auto-censura; à crítica aos recitadores de poesia que fazem dela “um acto fúnebre” (1983); aos efeitos da abordagem académica da literatura, pois “quando há tese, há cadáver” (1982); aos trocadilhos da sua poesia e à influência na publicidade, área em que trabalhava; a um olhar nem sempre feliz sobre a sociedade e sobre a solidão, apesar de “a descoberta da poesia ser sempre uma coisa extremamente solitária” (1983).

Prolongamento da própria poesia de O’Neill, estas entrevistas são também um testemunho sobre o viver, como, em 1985, ilustrava na última entrevista recolhida: “A vida interessa-me, o que não me interessa é a vidinha. (...) Videirar, ou videirunha. O viveter francês, ou seja, ir vivendo.”

*J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 731, 2021-11-10, p. 9.


quarta-feira, 7 de abril de 2021

Andersen: um tempo feliz em Portugal em 1866



Em 3 de Maio de 1866, o dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) tomou a diligência de Madrid para Mérida, onde apanhou comboio para Lisboa, tendo como companheiro, por coincidência, Garcia Peres (que dali a quatro anos passaria a viver em Setúbal). A chegada à margem do Tejo aconteceu três dias depois, instalando-se Andersen na Quinta do Pinheiro (Sete Rios, Lisboa), propriedade de Jorge O’Neill. Em 1868, consequência desta viagem, publicava o relato Uma visita em Portugal em 1866, só editado em português em 1971, em tradução do setubalense Silva Duarte (1918-2011).

A memória que Andersen levou de Portugal foi de um tempo feliz, num “paraíso”, em que não se cansou de classificar o que por cá sentiu como momentos de bem-estar que lhe faziam lembrar a sua Dinamarca - estava, portanto, “em casa”, situação que também lhe foi proporcionada pelo facto de privar com amigos antigos.

Depois de atravessar a fronteira entre os países ibéricos, Andersen anotava: “Que transição, ao entrar em Portugal, vindo de Espanha! Era como sair da Idade Média para entrar no presente. Via à minha volta casas acolhedoras caiadas de branco, matas cercadas por sebes, campos cultivados e nas grandes estações podia-se sempre tomar qualquer refresco. Aqui haviam chegado também, como uma brisa, as comodidades dos tempos modernos da Inglaterra, ou do restante mundo civilizado.”

Esta viagem de Andersen começara em 31 de Janeiro, em Copenhaga, cidade onde regressaria apenas em 9 de Setembro; em Portugal, o contista dinamarquês esteve entre 6 de Maio e 14 de Agosto, data de embarque para Bordéus. Nos três meses lusitanos, viveu em Lisboa (na Quinta do Pinheiro), em Setúbal (na Quinta dos Bonecos, de Carlos O’Neill) e em Sintra (na Quinta do Duche, de José Carlos O’Neill), com deslocações rápidas a Aveiro e a Coimbra.

Curioso pela cultura e pela identidade portuguesas, conheceu Feliciano de Castilho (em Lisboa) e Manuel Maria Portela (em Setúbal), convivas que lhe falaram de Camões e de Bocage. Perspicaz e com sentido de humor, não olhava o mundo sem lhe pôr a sua marca - dirá, em Lisboa: “O cemitério maior não o vi, tem o nome de Prazeres. Quase nos faz crer ter sido um humorista que baptizou o lugar. O mesmo sucede com o nome do palácio da Rainha: Necessidades.” A Setúbal dedicou um dos mais longos capítulos do livro - conheceu a cidade, andou pela Arrábida e S. Luís, chegou a Palmela, atravessou para Troia, participou na festa de Santo António, viu uma tourada. Deixou-se ofuscar pela Igreja de Jesus, ao comentar: “Pequena igreja das mais belas que até agora vi. Tem algo de aéreo e luminoso.” Na Praça de Bocage, associou-lhe o seu sentir de poeta: “A maior e mais bonita praça é incontestavelmente aquela que tem o nome do poeta português Bocage, nascido em Setúbal e que, como é frequente com os poetas, morreu em pobreza. Vai agora ser-lhe levantado um monumento, para o qual se está a fazer uma subscrição. Setúbal é orgulhosa do seu vate.” Efectivamente, Bocage ali viria a ter a sua estátua anos depois, em 1871...

É ainda sabido que, em Setúbal, Andersen arranjou motivo de inspiração para o seu conto “O sapo”, como documentou em anotações feitas em 1868.

Viajante persistente (30 viagens entre 1831 e 1873, equivalendo a nove anos fora da Dinamarca), Andersen descobriu-se em cada saída, o que lhe permitiu afirmar, ao concluir o relato da viagem a Espanha em 1862: “A vida é o mais maravilhoso dos contos.”

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 595, 2021-04-07, pg. 10.