Mostrar mensagens com a etiqueta natureza. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta natureza. Mostrar todas as mensagens

sábado, 23 de janeiro de 2021

A modernidade, a Natureza, a pandemia & outras coisas...


A modernidade não só dispensou o Criador, como escravizou o mundo natural da Criação à voragem de uma economia que deixa desertos no seu rasto. A partir do século XIX, o primado tecnológico transformou-se numa infeção cultural, que contaminou todas as esferas da existência. A natureza deveria submeter-se, obedientemente, a todos os desvarios do imperativo tecnológico que perdeu a mínima consciência dos limites.” (Viriato Soromenho-Marques. “Na vertigem da desrazão”. Diário de Notícias: nº 55430, 2021-01-23)


quarta-feira, 21 de março de 2018

Águas de Moura: Sobreiro "Assobiador" é "árvore do ano"



O sobreiro conhecido como “Assobiador”, em Águas de Moura, no concelho de Palmela, mereceu hoje o título de “Tree of the Year”, depois de uma votação do público que o tornou vencedor com 26606 votos, seguido dos ulmeiros ancestrais de Cabeza Buey (Badajoz, Espanha), com 22323 escolhas, e do carvalho ancião da floresta de Belgorod (Dubovskoye, na Federação Russa), com 21884 indicações.
Na página da organização, que pode ser lida aqui, a história do “Assobiador” é assim contada: “O Assobiador deve o nome ao som originado pelas inúmeras aves que pousam nos seus ramos. Plantado em 1783 em Águas de Moura, este sobreiro já foi descortiçado mais de vinte vezes. Além do contributo para a indústria, é impossível quantificar o seu impacto na manutenção do ecossistema e no combate ao aquecimento global. Com 234 anos, o Assobiador está classificado como ‘Árvore de Interesse Público’ desde 1988 e inscrito no Livro de Recordes do Guinness como ‘o maior sobreiro do mundo’!”

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

Sobreiro de Águas de Moura, uma "árvore europeia do ano"



A notícia vem no Público de hoje. Merece a leitura, porque o sobreiro merece o olhar e merece o voto. Sobreiro de Águas de Moura será a "tree of the year"? É votar...

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"Laudato Si'", a encíclica do Papa Francisco sobre a "casa comum" que temos



Em 24 de Maio, o Papa Francisco dava em Roma a sua segunda carta encíclica, Laudato Si’ – Sobre o cuidado da casa comum (Lisboa: Paulus Editora, 2015), conjunto de seis capítulos e quase duas centenas e meia de parágrafos em que a ecologia e o futuro são tónicas e em que o apelo à política e a cada um pontuam.
O retrato que o Papa traça do mundo quanto ao ambiente que caracteriza a “casa comum” não é novo, todos o temos visto, todos o pensamos. Mas, ao trazer para título da sua carta uma frase da oração de Francisco de Assis («laudato si’», «louvado sejas»), a figura mais ecológica de todos os tempos, e ao dizer que pretende com esta encíclica “entrar em diálogo com todos acerca da nossa casa comum” (perspectiva que cumpre ao citar pensadores de outras religiões, por exemplo), Francisco aponta para a responsabilidade que todos teremos na “desfiguração e destruição do ambiente”.
O ponto de partida é forte: “A Terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo.” Depois, é a passagem por áreas sensíveis para a temática do ambiente – o clima, a água, a biodiversidade, os recursos naturais – até à verificação de que a qualidade de vida humana surge fortemente deteriorada, acentuada pela degradação social, uma visão que pretende chamar a atenção para os decisores (e para todos) em prol de um mundo e de uma vida que possa ser mais justa, sem que tenham de existir os “descartados da sociedade”, porque a casa é de todos. Neste ponto, Francisco é incisivo, porquanto assume um ponto de vista crítico quanto às práticas com os mais fracos – “Muitas vezes falta uma consciência clara dos problemas que afectam particularmente os excluídos. Estes são a maioria do Planeta, milhares de milhões de pessoas. Hoje são mencionados nos debates políticos e económicos internacionais, mas com frequência parece que os seus problemas se colocam como um apêndice, como uma questão que se acrescenta quase por obrigação ou perifericamente, quando não são considerados meros danos colaterais.”
Francisco opta sempre pela chamada de atenção para o sentir destes outros, quase levando cada leitor a pôr-se na pele deles e a entender do mundo do seu ponto de vista. Talvez o mais importante alerta surja quando diz: “É preciso revigorar a consciência de que somos uma única família humana. Não há fronteiras nem barreiras políticas ou sociais que permitam isolar-nos e, por isso mesmo, também não há espaço para a globalização da indiferença.” Forte, esta ideia da “globalização da indiferença” que a todos apanha na onda da globalização que nos avassala!
É imbuído do espírito franciscano que o Papa fala do “gemidos da irmã Terra”, aliados aos “gemidos dos abandonados do mundo”, para assinalar aquela que é uma marca deste tempo – “Nunca maltratámos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos.” Inevitável é o salto para a definição do que é também a falta grave de hoje – “o pecado manifesta-se hoje, com toda a sua força de destruição, nas guerras, nas várias formas de violência e abuso, no abandono dos mais frágeis, nos ataques contra a natureza.”
O discurso papal vai sendo cadenciado por termos que o asseguram como um contributo para a discussão, de tal forma é vasta a lista de referências presente – desde documentos da Igreja oriundos de todos os continentes (incluindo uma referência a Portugal devida à carta pastoral “Responsabilidade solidária pelo bem comum”, da Conferência Episcopal Portuguesa, de Setembro de 2003) a citações de clássicos (Dante, por exemplo), de invocações dos seus antecessores até à presença de pensadores contemporâneos (Ricoeur, Chardin ou Guardini, entre outros) – ou de tal forma é a apresentação feita através de “propostas” (insistindo na ideia de “proposta”) para uma discussão maior.
O mais importante dessas propostas papais acentua-se a partir do capítulo IV, em que se fala de uma “ecologia integral”, depois de nos anteriores capítulos ter sido feito um retrato do mundo, em muito dominado pela crise do antropocentrismo contemporâneo. Percebe-se a ideia logo que é dito ser fundamental “buscar soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais”, porque “não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental.” Ecologia económica, ecologia cultural, ecologia do quotidiano – todas como responsabilidade de todos, porque “somos nós os primeiros interessados em deixar um planeta habitável para a humanidade que nos vai suceder”.
No plano das propostas de linhas de acção, o Papa Francisco insiste no diálogo, passando pela política internacional, pela busca de novas políticas nacionais e locais, pela transparência nos processos de decisão, pelo encontro entre as religiões e as ciências. Nesta insistência no diálogo, há ideias que nos fazem pensar: “A política não deve submeter-se à economia, e esta não deve submeter-se aos ditames e ao paradigma eficientista da tecnocracia. Pensando no bem comum, hoje precisamos imperiosamente que a política e a economia, em diálogo, se coloquem decididamente ao serviço da vida, especialmente da vida humana.” Outra: “A maior parte dos habitantes do Planeta declara-se crente, e isto deveria levar as religiões a estabelecerem diálogo entre si, visando o cuidado da natureza, a defesa dos pobres, a construção duma trama de respeito e de fraternidade.”
O último capítulo envereda pela área da “educação e espiritualidade ecológicas”, propondo a construção de uma aliança com o ambiente, de um outro estilo de vida, de uma postura de responsabilidade ambiental, de uma necessária paz interior, de uma atenção aos outros, coordenadas indispensáveis para a felicidade na Terra. E não é sem um sentido autocrítico que, a finalizar, o Papa classifica esta sua carta como uma “longa reflexão, jubilosa e ao mesmo tempo dramática”. Um texto que gira em torno de uma ideia de liberdade e de felicidade para o ser humano e da responsabilidade que cada um tem na construção desse trajecto, que se lê como parte de uma conversa e que, pela sua actualidade e proximidade, apela aos leitores, quase se sentindo necessidade de sublinhar um e todos os parágrafos, tão incisivos eles são!

Sublinhados
Identidade – “Quem cresceu no meio de montes, quem na infância se sentava junto do riacho a beber, ou quem jogava numa praça do seu bairro, quando volta a esses lugares sente-se chamado a recuperar a sua própria identidade.”
Crueldade – “A indiferença ou a crueldade com as outras criaturas deste mundo sempre acabam de alguma forma por repercutir-se no tratamento que reservamos aos outros seres humanos.”
Limite – “Cada época tende a desenvolver uma reduzida autoconsciência dos próprios limites.”
Homem e Natureza – “Sempre se verificou a intervenção do ser humano sobre a natureza, mas durante muito tempo teve a característica de acompanhar, secundar as possibilidades oferecidas pelas próprias coisas; tratava-se de receber o que a realidade natural por si permitia, como que estendendo a mão. Mas, agora, o que interessa é extrair o máximo possível das coisas por imposição da mão humana, que tende a ignorar ou esquecer a realidade própria do que tem à sua frente. Por isso, o ser humano e as coisas deixaram de se dar amigavelmente a mão, tornando-se contendentes.”
Trabalho – “Somos chamados ao trabalho desde a nossa criação. Não se deve procurar que o progresso tecnológico substitua cada vez mais o trabalho humano: procedendo assim, a humanidade prejudicar-se-ia a si mesma. O trabalho é uma necessidade, faz parte do sentido da vida nesta terra, é caminho de maturação, desenvolvimento humano e realização pessoal.”
Ética e Técnica – “Quando a técnica ignora os grandes princípios éticos, acaba por considerar legítima qualquer prática.”
Consumo – “Quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objectos para comprar, possuir e consumir.”
Simplicidade – “As pessoas que saboreiam e vivem melhor cada momento são aquelas que deixam de debicar aqui e ali, sempre à procura do que não têm, e experimentam o que significa dar apreço a cada pessoa e a cada coisa, aprendem a familiarizar-se com as coisas mais simples e sabem alegrar-se com elas.”

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Máximas em mínimas (98) - Afonso Cruz


Depois de ler Jesus Cristo bebia cerveja, de Afonso Cruz (Carnaxide: Santillana Editores / Editora Objectiva, 2012 – já com 3ª edição, de 2013), uma história bem contada pelo Alentejo dentro, um lote de máximas, organizadas por ordem alfabética e não pela ordem por que aparecem no livro.

Conhecimento – “O auto-conhecimento é uma coisa muito difícil, é como os cães, que roem ossos mas não roem os seus próprios ossos.”
Dor – “As nossas dores acompanham-nos até morrermos, como cães fiéis atrás dos donos.” 
Espaço – “Quando o espaço comum é demasiado pequeno, surgem  inúmeros problemas. Numa sociedade, se houver espaço, nunca há conflito.”
Futuro – “Conhecer o futuro dá cabo do presente.” 
Idade – “A idade de uma criança ainda é um fenómeno mitológico. Fenómeno que se perde com a adolescência. A partir de certa altura a cronologia passa a ser um número sem qualidades metafísicas. Os deuses greco-romanos perdem protagonismo e acabam por ser substituídos por leis físicas, por sebentas aos quadrados e, fatalmente, por um bilhete de identidade.”
Instinto – “O instinto é um processo admirável que se sobrepõe a todas as virtudes, mesmo às mais celestiais, castas e abençoadas.”
Morte – “A morte come muita coisa, mas deixa os ossos.”
Natureza – “A natureza é um lugar sem higiene nenhuma, cheia de bichos e de terra e de coisas desorganizadas. É o oposto dos jardins e das cidades e das hortas e do cimento. A natureza é o maior inimigo do homem civilizado.”
Sonho – “As coisas que imaginamos que irão ser o futuro, e jamais o serão, existem mesmo, mas num universo ao lado deste, coladinho a este. (…) Tudo o que pensamos acaba por acontecer, mas noutro lado a que não temos acesso.”
Tempo – “O tempo, nas relações, não anda necessariamente de trás para a frente, do passado para o futuro. É fácil verificar que uma mulher nova pode ser muito mais velha do que um velho e que um homem de idade impressionante pode ser uma criança. Nas relações, o tempo comporta-se de maneira diferente. O único relógio que mede o passar destes tempos são os sentimentos.” 
Trabalho – “Se o trabalho desse dinheiro, os pobres seriam ricos.”

terça-feira, 1 de maio de 2012

Máximas em mínimas (84) - António Mota


Sonho – “Muitas vezes a imaginação é mais importante que a realidade. (…) Os sonhos, às vezes, ganham raízes dentro de nós.” (in “O violão”)
Natureza – “A Natureza ainda é a melhor amiga.” (in “Os melhores amigos”)
Idade – “Contar os anos é uma coisa muito complicada. Até dez, conta-se bem.  Entre dez e quinze demora muito tempo a contar. Mas depois é uma grande confusão.” (in “Como se fossem lenços de mão”)
António Mota. O lobisomem (1994)

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Hélia Correia na "Ler"

A entrevista que Carlos Vaz Marques fez a Hélia Correia e que o número deste mês da revista Ler (Lisboa: Fundação Círculo de Leitores, nº 112, Abril 2012) publica é peça a considerar.
No próprio e excelente estilo de Vaz Marques, o pretexto da conversa é a publicação recente do poema A terceira miséria (Relógio d’Água) de Hélia Correia, perpassando pelas suas oito páginas o retrato da entrevistada, uma tela cheia de originalidade, iniciada com os ensinamentos recebidos dos gatos e da Grécia e finalizada com uma confissão resultante de um tratamento que acabou por rejeitar porque… “estive quase a ser normal, imagine.”
Fala-se da Grécia e da cultura grega, da poesia, do “mundo” literário, da escrita, da leitura, da vida. Uma entrevista a alguém que faz o seu mundo e que faz o mundo seu. Peça a ler.
E, sobre o presente, uma (longa) citação a reter, quando todos andamos preocupados com os valores em que nos movimentamos: “Não há nada que escape ao escândalo que o ser humano criou para os dias de hoje. As pessoas falam muito de valores mas eu não gosto muito de falar de valores porque isso implica um sistema moral que se considera mais perfeito do que o dos outros. Não falo, por isso, da falta de valores, hoje. Até porque há grandes valores, por exemplo entre os jovens. Há o valor maravilhoso da amizade, que está muito implantado. Se eles não têm outras virtudes é também porque não podem, porque estão lançados na arena dos gladiadores e têm de lutar até à morte para não serem mortos. Aí, não pode haver virtude nenhuma. Também não gosto nada da palavra ‘virtude’, que é romana e própria dos homens: é a qualidade do homem. Como é que se pode tipificar este escândalo? É o completo voltar de costas à vida e ao louvor da vida. Sendo que para mim a vida é a natureza e todos os seres que ela contém.”

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto VIII

* “O que é o passado? Isto: tempo que cada vez ocupa menos espaço (…). O presente – agora, este momento –, pelo contrário, ocupa todo o espaço que nos rodeia.” (est. 2)
* “Tudo é único e diverso na natureza. Ninguém quer equilíbrios numa floresta.” (est. 17)
* “Os homens fazem sempre o papel de turistas quando próximos da água.” (est. 26)
* “A hipocrisia é das velharias mais difíceis de o homem se livrar; apegou-se ao homem como o lixo ao trapo já sujíssimo de pó.” (est. 28)
* “Nem mesmo os santos, que não sejam mentirosos, têm o passado límpido. A suavidade permanente não é terrestre, é, sim, mentira, e falsa: ninguém acredita.” (est. 39)
* “O veneno, quando enviado em forma bela, é recebido como um condimento pacífico.” (est. 52)
* “Os amigos são animais como os outros. Muito mais inofensivos são os inimigos, pois mantêm-se longe, por medo da nossa arma ou preparando armadilhas que já esperamos, enquanto os amigos, esses, cheiram ombro a ombro a mesma flor que nós, dividindo, pela proximidade, a alegria que o mundo atira para um metro quadrado de jardim. / E os amigos dão conselhos, o que é perigosíssimo. Inimigos acumulam ameaças, mas essas suportam-se bem. (…) As ameaças dos inimigos são pois os verdadeiros conselhos.” (est. 53/54)
* “A ética não é assunto de células, envolve sim a vontade, a decisão inequívoca de avançar por um lado e não por outro.” (est. 64)
* “Somos inseparáveis do nosso pior. Pode-se fingir durante anos, mas cada um é inseparável da sua maldade. (…) A vida é desleal para os vivos porque ninguém se conhece por completo.” (est. 84)
* “Quando sozinhos e com os nossos hábitos não nos defendemos. Não há esconderijo para um homem que está feliz. E mais facilmente é caçado um cidadão apaixonado que um coelho num campo deserto.” (est. 87)
* “O dinheiro torna os homens previsíveis, como a galinha que segue até ao fim dos dias uma linha recta traçada no chão. O dinheiro existe nas montanhas, planícies, cidade e campo. Destrói reis, carpinteiros e santos. (E quando não há, ainda destrói mais.)” (est. 97)
Gonçalo M. Tavares. Uma Viagem à Índia. Alfragide: Leya / Caminho, 2010.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto VI

* “Para conheceres as melhores mentiras de um país ou de um homem terás que te sentar longamente ao pé dele. Ninguém mente aos gritos, de longe.” (est. 2)
* “Não se aprende a ser sábio como se aprende a resolver uma equação. Nas duas aprendizagens exige-se atenção total, é certo, mas há no caminho para a sabedoria mais obstáculos, como se algures, deuses de voz rouca tivessem assumido o compromisso de não deixar a filosofia sensata ocupar por completo os homens. E talvez a causa seja puramente egoísta, pois se todos fossem sábios quem precisaria de templos?” (est. 7)
* “O mar não é como o fogo em que uma pequena parcela dá ideia do conjunto: o mar não existe em caixas, não se mantém intacto quando passa para um aquário. O mar não é apenas água salgada, é a sua grandeza que lhe dá o nome.” (est. 18)
* “A coerência de uma coisa, de um objecto ou de uma pessoa, dispensa a inteligência dos outros, dispensa ainda a investigação. (A excitação depende mais daquilo que está escondido do que do visível, toda a gente o sabe.)” (est 22)
* “A Natureza é mais ágil no ataque do que na defesa: constroem-se cidades em cima de florestas, mas debaixo das estradas e dos estabelecimentos comerciais há uma vida animal que persiste e faz ruído.” (est. 24)
* “De entre os vários reinos e géneros animalescos, os mamíferos são de longe os que melhor põem a funcionar a amizade; mas mesmo assim, nessa amizade, surgem avarias constantes.” (est. 31)
* “Se a ligação entre os homens fosse perfeita não teria existido a necessidade de inventar a linguagem. Falar é a maneira mais civilizada de marcar uma distância de segurança; os animais rosnam entre si, os homens elaboram sobre o clima e citam autores clássicos. Mas ambas as acções têm o mesmo efeito.” (est. 32)
* “Há no escutar, que parece acto passivo e pacífico, uma estranha parte activa, que são os olhos. Escuta bem quem tem olhos atentos.” (est. 39)
* “A timidez não é um valor benéfico no campo de batalha. Ou se avança ou se foge muito rápido, hesitações demoradas transformam-se habitualmente na última acção de um soldado.” (est. 46)
* “Cada homem tem, de modo telegráfico, as duas faces: tem medo e mete medo. Um homem unilateralmente corajoso não existe, a não ser que seja unilateralmente pouco inteligente.” (est. 53)
* “O que é contar uma história senão esticar a distância entre a primeira palavra e a última?” (est. 69)
* “O sítio essencial de um corpo é o sítio por onde se começa a morrer ou por onde a doença é inaugurada. Cada morte diz qual o bocado do corpo que afinal deverias ter defendido.” (est. 70)
* “Perigos nunca fizeram adormecer, nem cansadas ficam as pernas que fogem ou perseguem.” (est. 95)
* “No mundo, o sofrimento ensina mais do que cem professores bem-intencionados. (…) Os sofrimentos não são todos da mesma espécie animal: de uns, sais aperfeiçoado, de outros, canino e obediente.” (est. 97)
Gonçalo M. Tavares. Uma Viagem à Índia. Alfragide: Leya / Caminho, 2010.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Gonçalo M. Tavares, “Uma Viagem à Índia”, canto II

“Embora a humanidade demore tempo a chegar a um sítio, devido a imprevistos espantosos e a obras no caminho, a natureza, essa, nunca se atrasa.” (est. 1)

“Um homem pode demorar mais tempo a percorrer a minúscula casa da mulher que deseja do que a atravessar o mundo, de uma ponta à outra, com mochila às costas.” (est. 5)

“As pessoas aperfeiçoam mais os engenhos mecânicos da corrupção e das traições mesquinhas que os da hospitalidade.” (est. 31)

“Quando numerosos, os homens, os animais, as plantas, as pedras e até as máquinas perdem a higiene do raciocínio individual.” (est. 32)

“O Destino não é uma decisão unívoca de um tribunal que só sabe desenhar linhas rectas.” (est. 41)

“O mundo, como qualquer outra coisa, apenas se torna belo quando pela beleza é olhado.” (est. 42)

“Cada língua poderá ser definida como um modo especializado de interromper o silêncio.” (est. 80)

“Um estrangeiro é sempre uma novidade, tanto verbal como no número de hábitos que traz para a paisagem.” (est. 85)

“A vaidade tem um único sentido, não expira. É substância que um atira para dentro de si mesmo, e aí fica, engrossando-o de nada e coisa nenhuma.” (est. 97)

“No fundo, cada vida, no geral, não é mais do que um estilo literário.” (est. 101)

Gonçalo M. Tavares. Uma Viagem à Índia. Alfragide: Leya / Caminho, 2010.

terça-feira, 1 de junho de 2010

José de Almeida - O golfinho chamado Fábula

“Estava um dia o Juca na sala, a ver televisão, e os seus olhos começaram a fazer pisca-pisca. Era sábado e ele estava há quatro horas a olhar para os desenhos animados. Tão cansado estava que não resistiu ao sono que insistia em enroscar-se em volta dele. Até que adormeceu a sério. Logo que adormeceu, começou a sonhar… Um sonho lindo a cores!” Esta é uma forma perifrástica de dizer o clássico “era uma vez”, vocacionado para levar o ouvinte – neste caso, o leitor – para o reino da imaginação, acompanhando o sonho do Juca.

É o início da história infantil Fábula – O pequeno golfinho roaz, de José de Almeida (Setúbal: ed. Autor, 2010), obra que contém ilustrações feitas por Marta Tomé, jovem leitora da narrativa, e que foi apresentada publicamente no Dia Mundial da Criança com Cancro.

O conto acompanha Juca, numa viagem pelo mar, em busca do golfinho roaz chamado Fábula, personagem irrequieta, habilidosa e brincalhona. Nesta demanda, Juca sai de barco, a bordo da traineira “Milú”, na companhia de pescadores como o Mestre Afonso, o Zé Navalhas ou o Baltasar, para, depois, mergulhar e encontrar amigos como a Dona Sapateira, a Dona Alforreca, o Senhor Carapau ou a Dona Lula, que lhe vão falando do mar e do feitio de Fábula.

Num espaço limitado pelo Cabo Espichel, ponto em que um golfinho começa a seguir o barco, e pela Caldeira, parque de diversão onde Fábula comete as suas acrobacias, o mar vai-se revelando a Juca, que também vai observando aquilo que ao oceano vai tirando beleza, vivendo a descrição também com objectivos pedagógicos – “Enquanto nadava, o menino reparou numa coisa horrível. O fundo do mar estava um nojo com tanto lixo que tinha. Eram latas, garrafas de vidro, ferros ferrugentos, sapatos velhos, eu sei lá que mais. Como se pode preservar o mundo marinho com estes comportamentos? Quem teria atirado aqueles objectos para o fundo do mar? Esta colónia de golfinhos-roazes não merece e tem de ser defendida por todas as crianças e adultos…”

O desejo impossível de Juca é ter o Fábula dentro de um vasto tanque de vidro para que as crianças o possam ver brincar, algo que aflige o golfinho, mas que Juca contorna – depois de uma temporada, serão os meninos quem virá brincar para junto da colónia de roazes, assim aprendendo a conhecer o mundo da Natureza. E, quando o acordo estava prestes a ser celebrado, eis que… como acontece nos sonhos das felicidades de cada um, Juca é acordado pela mãe, que o encontra deitado no sofá, adormecido. Fica-lhe a aprendizagem da beleza dos roazes do Sado e o sorriso sobre o espectáculo que quase lhe foi dado viver…

A linguagem acessível, o recurso à personificação, as ilustrações com traço infantil e a estrutura simples da história bem fazem deste texto de José de Almeida um sonho afável, que abre as portas para o convívio com a Natureza e com o mundo que nos rodeia.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

"Serra-Mãe", poema com 66 anos

Em 8 de Fevereiro de 1943, Sebastião da Gama, então a caminho dos 19 anos, compôs um dos seus poemas mais conhecidos, que, dois anos depois, teria como título de livro. Falo de "Serra-Mãe", texto que teve primeira publicação no jornal montijense Gazeta do Sul, na sua edição de 21 de Março desse ano (nº 637), onde saiu apenas com o título de "Poesia" (de que reproduzo o respectivo recorte) e assinado pelo pseudónimo Zé d'Anicha, construção artística de homenagem à formação geológica que do azul das águas espreita a Arrábida.
Dois anos depois, em 1945, era publicado o seu primeiro livro, Serra-Mãe, com a chancela da Portugália, ainda que custeado pela família. Nesse momento, o poema que escrevera dois anos antes, recebia o título homónimo do livro - "Serra-Mãe".

Sebastião da Gama (cujo 57º aniversário de falecimento passou ontem) colaborou no semanário montijense durante quase três anos, entre 1940 e 1943, com cerca de duas dezenas de textos.