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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Mário Balseiro Dias e a republicanização de Montijo

A história da implantação da República não se pode dissociar da história política de Montijo, como bem demonstra Mário Balseiro Dias na sua obra A Republicanização do Concelho de Aldeia Galega do Ribatejo (1881-1910) (Montijo: ed. Autor, 2010), que constituiu a sua tese de mestrado em História Regional e Local.
Com efeito, o ideário republicano alastrou em Aldeia Galega do Ribatejo (nome que, até 7 de Junho de 1930, foi dado a Montijo) desde cedo, pelo menos desde que, em 1870, José de Sousa Rama o começou a proclamar localmente. Não admira assim que o primeiro Centro Eleitoral Republicano criado na Margem Sul tenha sido o de Aldeia Galega do Ribatejo, em Março de 1881, e que, logo no ano seguinte, duas importantes figuras republicanas como Manuel de Arriaga e Magalhães Lima o tenham visitado.
Este Centro não teve longa duração, pois desapareceu em 1884, mas, na segunda onda da criação dos Centros Republicanos, novamente Aldeia Galega do Ribatejo levou a dianteira na Margem Sul, criando-o em Setembro de 1906 (em Palmela, surgiria apenas em 1908; em Setúbal, em 1909), para, em 1907, merecer a visita de outro republicano insigne, António José de Almeida. Os republicanos locais viriam, de resto, a ter visitas e presenças em comícios dos mais importantes nomes ligados ao republicanismo em Portugal, como aconteceu com, além dos citados, Afonso Costa, Bernardino Machado, João Chagas ou Miguel Bombarda.
A implantação da ideologia republicana em terras de Montijo não passou ao lado das querelas com as outras forças (como os monárquicos), nem deixou de parte a corrida à ocupação dos órgãos dirigentes de instituições como a Santa Casa da Misericórdia de Canha ou de outras associações locais. Certo é que, nas eleições de 5 de Abril de 1908, o Partido Republicano venceu em Aldeia Galega do Ribatejo por margem considerável, devido às razões que Balseiro Dias aponta: “o triunfo do PRP no município de Aldeia Galega resultou da sua propaganda, força e tenacidade, consequência da sua organização e disciplina, sem paralelo nos partidos monárquicos.”
Por estas e por outras histórias ligadas à republicanização de Montijo passa o livro de Mário Balseiro Dias, não esquecendo de registar que foi aquela “a primeira terra portuguesa a hastear, com carácter definitivo, a nova bandeira, após as vinte e três horas do dia 3 de Outubro de 1910” ou a circunstância da antecipação sentida em Aldeia Galega, Barreiro, Seixal e Almada ter sido crucial para o sucesso dos republicanos em Lisboa, em 5 de Outubro de 1910, uma vez que estas localidades permitiram o “controlo das comunicações e a dissuasão de eventuais tentativas de socorro à cidade por parte de tropas monárquicas vindas de outras regiões do país”.
O reconhecimento do papel desempenhado pela sociedade montijense na propagação do ideário republicano foi desde cedo reconhecido por um tribuno como António José de Almeida, que, na Câmara dos Deputados, disse, em Agosto de 1909: “Aldeia Galega é, talvez, a terra mais maciçamente republicana de Portugal”, um epíteto que o mesmo político sublinharia em visita ao Montijo, em Março de 1911, quando já estava instalado o novo regime: “Já no tempo da Monarquia Aldeia Galega era como que uma pequena República.”
É assim que o trabalho de Mário Balseiro Dias se revela escrupuloso na investigação e no relato, em linguagem acessível, fazendo emergir muitas figuras públicas locais que contribuíram para a construção do regime republicano. Esta obra, com amplas referências bibliográficas e fontes consultadas, é um bom caminho para se perceber o que foi a luta pelo controlo local (ou regional) que viria a dar a vitória aos republicanos, ao mesmo tempo que se constitui como elemento imprescindível para o conhecimento e estudo da republicanização da Margem Sul.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Em Setúbal, na noite de 4 para 5 de Outubro de 1910 e depois


Revolução na rua e fogo na Câmara
O jornal setubalense O Elmano, que se publicava aos sábados, na sua edição de 15 de Outubro de 1910, a primeira depois da implantação da República, trazia para primeira página, com letra destacada, a seguinte proclamação: "Viva a República Portuguesa - Está proclamada a República em Portugal! Implantou-a a Armada, o Exército e o Povo, no dia 5 de Outubro de 1910, para redenção deste belo país que a monarquia hora a hora ia mergulhando no charco lamacento da abjecção e da desonra. Foi a vontade suprema do Povo, do Exército e da Armada que salvou do aviltamento a nossa Pátria, erguendo-a tão alto que o nome português é hoje proferido em todo o mundo civilizado com respeito e admiração, fazendo recordar os antigos feitos, a bravura e heroísmo dos valentes e esforçados de Aljubarrota, Ormuz, Malaca e Buçaco, etc. Está proclamada a República! Honra e glória a todos que contribuíram para a sua implantação. Viva a República Portuguesa!"
por causa de uma bandeira
Esta adesão republicana manifestada pelo jornal não podia ser desligada do que em Setúbal se passara uns dias antes, precisamente na passagem de 4 para 5 de Outubro. Em texto de reportagem, a mesma edição do jornal conta que, no dia 4, corria na cidade a informação de que rebentara a Revolução. Pela falta de referências precisas, "crescia a ansiedade nos setubalenses", até que, pelas 19 horas, o republicano Leão Azedo chegava para recomendar prudência e aconselhar o povo a não fazer "manifestações desagradáveis com as quais a causa da República nada ganharia". Porém, grande manifestação andava já nas ruas, com entusiasmo difícil de conter. Pelas 21 horas, os manifestantes estavam na Praça do Bocage, dirigindo-se aos Paços do Concelho, onde havia uma esquadra de polícia, e pediram ao chefe que fosse hasteada no edifício a bandeira republicana. A pretensão foi negada, houve tiros de revólver e a multidão invadiu a esquadra. Pouco depois, conta o repórter, "manifestava-se o incêndio que rapidamente se comunicou a todo o edifício onde funcionava a recebedoria do concelho, administração, repartição de fazenda, terreiro municipal, tesouraria da Câmara, biblioteca pública, repartição de impostos, etc." E, mais adiante, ainda impressionado, o autor conta que "todo o edifício dos Paços do Concelho ficou destruído, não podendo salvar-se um único livro de escrituração municipal e da fazenda. Um puro vandalismo, no qual os republicanos não tiveram a menor intervenção, nem, dada a exaltação de ânimos, podiam evitar".
A multidão dirigiu-se depois para as instalações que pertenciam aos jesuítas, destruindo o que encontraram, e para Brancanes, onde havia o convento dos franciscanos, que foi também incendiado. Após uma noite de chamas e de manifestações, o dia 5 de Outubro faria chegar à cidade a notícia oficial da implantação da República pelas 10 horas. Os foguetes acompanharam então a alegria da população e as filarmónicas que desfilaram pela cidade a entoar "A Portuguesa". Pelas 17 horas, na varanda dos Paços do Concelho, era proclamada a Comissão Administrativa da Câmara, à frente da qual estava Leão Azedo.
edifício de azares
Após o incêndio, os serviços da Câmara passaram a funcionar nas instalações do Liceu, tendo as obras de recuperação dos Paços do Concelho sido demoradas.
Foi entre 1526 e 1533 que o edifício municipal fora construído na então Praça do Sapal, tendo a obra sido entregue ao mestre pedreiro Gil Fernandes, residente em Lisboa. Cerca de dois séculos mais tarde, por 1722, vendo que o edifício necessitava de obras, a população setubalense ofereceu-se para, durante três anos, contribuir para tal reconstrução. Em 1733, foi concluída a varanda. No entanto, o terramoto de 1755 viria a danificar tão fortemente a construção que houve uma disposição régia a criar um imposto sobre a carne para serem angariados fundos para a reconstrução que se impunha. O incêndio de 1910 foi a última vicissitude por que passou o edifício. Mas só em 1927 o arquitecto Raúl Lino foi convidado pela Câmara para elaborar o projecto de reconstrução dos Paços do Concelho, tendo o mesmo sido entregue no ano seguinte. Pelos finais de 1932, as reuniões do executivo camarário eram ainda no Liceu e, em 1933, um decreto do Presidente da República Óscar Carmona estabeleceu que o Governo receberia o Liceu e, em troca, avançaria com a construção do edifício da Câmara. A entrega da obra concluída viria a efectuar-se apenas em Maio de 1939.
O incêndio havido em 1910 deixou a marca de perdas irreparáveis ao nível de documentação e de fontes para a história e cultura locais. Lembra Fran Paxeco na obra Setúbal e as Suas Celebridades (Lisboa: Sociedade Nacional de Tipografia, 1930) que Luciano de Carvalho, responsável da Biblioteca Municipal que estava nos Paços do Concelho, chorou, porque "as chamas lhe tinham consumido o labor oculto de largos anos", centrado nas "pilhas da sua Bocageana, acompanhada por uma completa iconografia e o esboço do catálogo biográfico dos escritores setubalenses". Numa tentativa de compreensão dos acontecimentos, Paulino de Oliveira interveio numa sessão de Câmara, uma semana depois, para apreciar o sucedido, argumentando que o incêndio só se podia dever à "profunda má vontade do povo setubalense à polícia cruel, cuja esquadra se encontrava no mesmo edifício, pelas perseguições extremas que sobre ele exercia", sustentando que os factores determinantes terão sido o facto de a polícia ter recebido a tiro os manifestantes que queriam içar a bandeira republicana e o facto de os dirigentes não terem explicado à multidão as consequências do acto que iam praticar.
Uma das medidas imediatas tomadas pelo executivo foi a da decisão de serem publicados editais "convidando todos os credores do município a apresentarem as suas contas dentro de 30 dias", uma vez que a documentação desaparecera. Sem instalações próprias e num regime novo, a equipa do executivo municipal era constituída por Leão Azedo, Ezequiel Soveral Rodrigues, Manuel Livério, António Arronches Junqueiro, José da Rocha, Joaquim Brandão, Joaquim dos Santos Fernandes, José Augusto Coelho e Eduardo Mendes Belo, um grupo que, no jornal O Elmano, de 15 de Outubro, merecia a seguinte apreciação: "O que podemos já dizer é que todos os seus membros estão no firme propósito de trabalhar para o engrandecimento de Setúbal e para a melhor regularização dos serviços municipais".
João Reis Ribeiro. Histórias da região de Setúbal e Arrábida (vol. 1).
Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2003, pp. 175-178.
[foto: reprodução a partir de O Setubalense de hoje]

sábado, 2 de outubro de 2010

Preocupações da República

Ao entrar a semana do centenário da implantação da República, não é de admirar o destaque que a efeméride merece nas publicações periódicas. Destaco a revista Visão (nº 917, de 30.Set.2010) por trazer como encarte o facsímile de A Capital, de 5 de Outubro de 1910, e, sobretudo, por reunir os depoimentos de quatro nomes que chegaram ao lugar de Presidente da República – Cavaco Silva, Jorge Sampaio, Mário Soares e Ramalho Eanes – sob o título de “Os novos desafios da República”. Falando todos eles de coisas diferentes, assumem essa diversidade como o conjunto das preocupações actuais da República (que somos nós), num exercício de pensamento que nos deve servir de convite. Reproduzo excertos dos quatro testemunhos.
Aníbal Cavaco Silva – “(…) Entre os múltiplos desafios que se deparam às repúblicas contemporâneas poder-se-ão destacar os seguintes: Sustentabilidade ambiental – (…) Ainda não encontrámos a fórmula harmoniosa susceptível de, em simultâneo, preservar um ambiente saudável e garantir níveis de desenvolvimento capazes de satisfazer as expectativas materiais dos cidadãos. (…) Sustentabilidade energética – (…) Ou exigimos que todos se situem no mesmo nível de desenvolvimento (…) ou mantemos uma situação que, a breve trecho, colocará em risco as economias do Ocidente e o modelo social de redistribuição da riqueza que só um elevado crescimento económico permite. (…) A dependência energética não é apenas uma questão ecológica, mas também geoestratégica. Dela depende a sustentabilidade do planeta, desde logo, mas igualmente a viabilidade do modelo político, económico e social da Europa. Sustentabilidade social entre gerações – (…) Deve existir uma maior justiça social entre gerações, de modo a que os mais jovens não sejam lesados nas suas expectativas legítimas, os adultos de meia-idade não tenham de suportar encargos desproporcionados e os idosos não sejam alvo de exclusão ou de discriminação. (…)”
Jorge Sampaio – “(…) Ao Estado pede-se que reveja e corrija as causas da rigidez do mercado de trabalho, da lentidão da justiça, das regras vigentes da concorrência, da morosidade da administração pública, da desadequação da formação profissional, enfim, de todos os obstáculos ao investimento e à concorrência. Ao Estado pede-se lucidez em relação ao presente e visão de longo prazo. Lucidez na procura de sucedâneos para a impossível desvalorização que permitam, afinal, embaratecer os nossos produtos ou torná-los atractivos no mercado mundial; visão de longo prazo para que prossiga as reformas entretanto encetadas, que permitirão acelerar no país a revolução pós-industrial no contexto do seu papel de regulador estratégico. (…) Seremos capazes de ultrapassar as dificuldades. Para que isso aconteça, precisamos dos valores progressistas e democráticos da República. E necessitamos de vontade e capacidade de mobilizar os Portugueses, que são o fundamento da República. (…)”
Mário Soares – “(…) Estamos a viver uma crise global, que não sabemos até onde irá e como dela sair. Economistas da nossa praça, todos os dias, procuram convencer os nossos compatriotas que Portugal é um país em decadência, sem remédio. Não partilho esse derrotismo, que contagia alguns dos nossos compatriotas. Uma das ideias-força da I República foi restituir-nos o orgulho de sermos portugueses e sabermos enfrentar, com coragem e bom senso, os desafios que temos de vencer. (…) Precisamos de ter confiança em nós próprios e de ter coragem de vencer as dificuldades, tal como são. Sem pessimismo, nem optimismo: com determinação. (…)”
Ramalho Eanes – “(…) Para que a situação não venha a dar razão aos pessimistas, para que respondamos à nossa responsabilidade social inabdicável, para que invertamos a decadência em que o país escorrega, necessário será: que à Sociedade Civil portuguesa seja dita a verdade, toda a verdade, sobre a situação actual e suas consequências, não só previsíveis mas próximas já; que não caiamos na endémica tentação de encontrar um bode expiatório, que nos afaste da responsabilidade conjunta – Sociedade Civil e poder político – de responder, com coragem, com competente trabalho, com austero consenso, com preocupado aforro, à crise, pois, perante ela, não há inocentes (…). Indispensável, também, é, subsequentemente, estabelecer a arquitectura de um grande propósito colectivo possível e mobilizante, e estabelecer as estratégias para o alcançar, definir os métodos, instrumentos e meios para as realizar, e apresentar os mecanismos, do Estado e da Sociedade Civil, para controlar a eficácia da sua execução. (…) Difícil é o desafio, mas grandes são, também, agora, as oportunidades de nos reencontrarmos com a verdade do que realmente somos, do que é o país. (…)”

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Republicana curiosidade

Maria República é nome de mulher em Azeitão

Maria República deve o nome ao avô materno, um republicano convicto que o escolheu para a neta em homenagem aos que a 05 de Outubro de 1910 depuseram a monarquia em Portugal. Maria República Cordeiro nasceu a 02 de Novembro de 1912 e recorda à agência Lusa ter sido o pai da mãe, “o avô Serafim”, quem lhe escolheu o nome. “Porque era um grande republicano e como eu nasci pouco tempo depois da República, quis que eu me chamasse Maria República”, observa.
Aos 97 anos ainda se lembra do avô Serafim, nascido na aldeia de Pinheiros de Azeitão, freguesia de São Simão (Setúbal), tão adepto dos princípios republicanos que quis que a neta ficasse com o nome do novo regime. “A República nunca me disse nada de especial, até porque na altura era muito pequena, mas sempre soube por que me chamo Maria República”, indica esta senhora que aos 97 anos preserva lucidez de memória e de raciocínio. “Eu era tão novinha, queria lá saber da República, queria lá saber de política… mas lembro-me de a minha mãe contar que conhecia uma Natália República em Setúbal que era pelas minhas idades e que também ficou com esse nome por causa do 05 de Outubro de 1910”, acrescenta sorrindo.
Tal como se lembra de ouvir dizer aos mais velhos, “quando ainda era menina”, que a zona de Azeitão e de Setúbal tinha muitos republicanos. E de na família lhe terem falado do congresso do Partido Republicano, que se realizou em Setúbal em 1909.
Apesar dos 97 anos, Maria República, que há perto de 11 anos vive numa casa de repouso na zona de Azeitão, é a pessoa mais lúcida do lar, refere à agência Lusa a directora técnica da instituição. “Sempre foi uma pessoa muito independente e autónoma. Tão autónoma que ao princípio, quando para cá veio com o filho, era uma pessoa difícil”
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O Emigrante / Mundo Português: 8.Fev.2010

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Álvaro Arranja e a história do movimento operário no início do século XX

“Os finais do século XIX e o primeiro quartel do século XX são marcados em Setúbal, como em todo o país ‘urbano’, pela presença e coexistência, por vezes difícil, do movimento republicano e do movimento operário e sindical, predominantemente anarco-sindicalista.” Assim começa o último livro do historiador setubalense Álvaro Arranja, Anarco-sindicalistas e Republicanos – Setúbal na I República (Setúbal: Centro de Estudos Bocageanos, 2009), apresentado publicamente no fim-de-semana passado.
Ao longo das duas centenas de páginas, o autor vai provar essa dificuldade de coligação, que culminará em divórcio, dividindo o seu trabalho em duas partes: uma, de narração e interpretação histórica, a mais longa, partindo de fontes como a imprensa local, sobretudo a imprensa comprometida com o movimento operário; a outra, preenchida por uma dúzia de textos (documentais e uma cronologia), que consolidam o trabalho de Álvaro Arranja.
A história do associativismo e do movimento operário sadino recua a meados do século XIX, com o autor a fazer uma incursão no papel desempenhado pelo jornal O Setubalense, fundado por Almeida Carvalho em 1855 (o que faz deste título, ainda hoje em publicação, um dos mais antigos da imprensa portuguesa, se bem que não o jornal mais antigo, uma vez que houve várias interrupções na sua história), fortemente associado ao aparecimento da Associação Setubalense das Classes Laboriosas, em cuja criação Almeida Carvalho igualmente participou. Há também incidência sobre a primeira década do século XX setubalense no que respeita ao movimento operário, fortemente influenciada pela ocorrência de greves (dos pescadores, dos soldadores, dos conserveiros, dos marítimos, dos carregadores de sal, dos tipógrafos, dos condutores de sal, dos corticeiros, de mulheres operárias) e pelo aparecimento de jornais ligados ao operariado (O Produtor, “dos soldadores e do povo operário”, em 1900; O Trabalho, “da classe operária”, em 1900; O Libertador, “dos praticantes farmacêuticos”, em 1901; O Germinal, “defensor dos oprimidos”, em 1903).
Com estes elementos, fácil se torna perceber que o congresso do Partido Republicano, realizado em Abril de 1909, onde foi decidido o derrube do sistema monárquico pela via da revolução, tenha ocorrido em Setúbal, justificando Álvaro Arranja que, “em Setúbal, os republicanos sentiam-se em casa”, porque se tratava “de um dos centros urbanos mais influenciado pelo republicanismo, pela adesão aos princípios igualitários proclamados desde a Revolução Francesa”.
Tais ingredientes conduzem a uma esperança acentuada nos efeitos que poderiam advir da implantação da República (desejo que o historiador acentua com a descrição do que era o quotidiano operário nessa primeira década do século XX em Setúbal) e não é por acaso que a noite de 4 de Outubro de 1910 vê o edifício da Câmara Municipal a ser destruído por um incêndio, num acto que foi consequência da contenda entre os populares e a polícia.
De igual forma, as exigências à República se notam na região do Sado, tal como o prova a realização da primeira greve geral ocorrida em Fevereiro de 1911, que os trabalhadores das fábricas das conservas prolongaram até 12 de Março. A tensão agudiza-se com a morte de dois grevistas numa manifestação na Avenida Luísa Todi em 13 de Março (Mariana Torres e António Verruga), ocorrida quando a Guarda Republicana tentava conter grevistas (acto que, segundo o periódico O Trabalho, “foi o baptismo de sangue da jovem Guarda Republicana”, e que, de acordo com o jornal lisbonense Terra Livre, assinalou a data “que marca o divórcio da República com o operariado”).
As manifestações do movimento operário são acompanhadas por Álvaro Arranja até Janeiro de 1934, aquando da greve geral convocada pela CGT para o dia 18, contestando o salazarista Estatuto Nacional do Trabalho, que deu origem a prisões e a um recrudescimento da repressão, assim considerando o autor que esta foi a data da “última grande acção do movimento sindicalista que tinha enquadrado os trabalhadores portugueses na I República”.
Pelo livro de Álvaro Arranja vão passando figuras que obtêm para o operariado o estatuto de heróis, como Mariana Torres ou António Verruga ou como Jaime Rebelo (ligado à greve dos marítimos de 1931); vão passando cruzamentos com a expressão literária, com referências a criadores como Alves Redol (que, em Os Reinegros, evoca os trabalhadores mortos na manifestação de 1911), Jaime Cortesão (a propósito de um seu poema, “Romance do homem da boca fechada”, sobre Jaime Rebelo) ou Émile Zola (sobre o significado do seu romance Germinal e o simbolismo associado ao jornal de título homónimo que se publicou em Setúbal entre 1903 e 1913); vai passando a história da imprensa operária e sindical praticada em Setúbal, considerada a fonte de informação essencial para este trabalho (com destaque para os títulos O Trabalho, Germinal e A Voz Sindical, com capítulos específicos, bem como para a acção que opôs o poder político ao jornal O Setubalense em 1927); vai passando o pulsar da vida agitada e lutadora da Setúbal dessas três décadas, em parte ritmada pelas descrições e narrações jornalísticas, quase levando o leitor a presenciar os acontecimentos. Todos estes factores se conjugam para que este estudo constitua um bom elemento de informação e de explicação sobre alguns sucessos e insucessos das políticas da época, bem como um interessante documento sobre algumas marcas da identidade setubalense.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Algumas efemérides centenárias para 2010

Que em 2010 passa o centenário da República já tem sido muito badalado, há comissão própria, há incentivos a produção de trabalhos nas escolas e na sociedade, etc. Mas 2010 será também uma boa altura para falar de nomes a propósito de centenários, alguns deles já a raiar o esquecimento, quando disso não deveriam ser vítimas. Querem ver?
800 anos sobre o nascimento de João XXI, o papa português; 500 sobre o nascimento de Fernão Mendes Pinto; 300 sobre a morte de Manuel Bernardes; 200 sobre o nascimento de Inocêncio Francisco da Silva e 150 sobre o nascimento de Manuel Teixeira-Gomes. Depois, em primeiros centenários, temos os dos nascimentos de Beatriz Costa, Jacinta Marto, António de Spínola, João Mendes e Álvaro Perdigão (setubalense, 1910-1994). Como se vê, lista para gostos diversificados e de áreas não menos plurais. E, quanto a Setúbal, haverá ainda o centenário do nascimento de Cabral Adão (1910-1992), transmontano (de Vila Flor) que junto do Sado exerceu medicina, poetou, escreveu.
Mais haverá, claro. Irão aparecendo.

sábado, 10 de outubro de 2009

A República na minha Escola

Alunos da turma D de 12º ano da minha escola, orientados pela professora de História, apresentaram ontem à comunidade uma sessão sobre os 99 anos da República. Foram cerca de 60 minutos de evocação, de saber, de divulgação, de criatividade, de trabalho, de arte. Por ali passou o esforço de investigação sobre personagens ligadas à implantação da República; por ali passou a evocação do primeiro Presidente da República; por ali passou a poesia vinda das palavras de Antero de Quental, de Miguel Torga e de Manuel Alegre; por ali passou a música que interpretou e recriou "A Portuguesa" (que emocionou muitos dos presentes); por ali passou a generosidade de um grupo de alunos que fez encher um auditório para mostrar resultados do seu trabalho. Foi simpático, instrutivo, bonito e útil.
Não podia deixar de registar esta forma de, através do trabalho dos / com os alunos, a nossa contemporaneidade e o nosso passado serem vividos na Escola. Momento alto no (quase) início do ano lectivo, pois!

segunda-feira, 6 de abril de 2009

"Setúbal republicana" contada por Albérico Afonso Alho

Há uns tempos, Albérico Alho manteve no Jornal de Setúbal a secção "Oficina de Memórias", com textos alusivos à história da região de Setúbal que bem dariam um interessante volume de história local. Depois, a dita "oficina" acabou. Mas voltou agora, a propósito do republicanismo em Setúbal. A que aqui reproduzo saiu no Jornal de Setúbal de hoje e é a primeira de uma série sobre o tema. Vale a pena ir lendo, quer porque o autor tem investigação e provas dadas no âmbito da história local, quer porque o tema vem mesmo a propósito para que Setúbal esteja integrada nas comemorações nacionais. Pena é que o jornal, de distribuição gratuita, nem sempre se consiga encontrar...

Albérico Afonso Alho. "Oficinas de Memórias: Setúbal republicana - Do Congresso à Revolução". Jornal de Setúbal, nº 341, 06.Abril.2009.