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quinta-feira, 24 de julho de 2025

Entre a gramática e as rosas

 


“Em qualquer língua, e muito mais na nossa, saibamos que a primeira e principal virtude da língua é ser clara e que a possamos todos entender.” Quem assim escreveu foi o aveirense Fernão de Oliveira (1507-1580?), autor da primeira gramática sobre a língua portuguesa, publicada em 1536, Gramática da Linguagem Portuguesa.

Começava assim, para o português, o que deveria ser um tratado sobre uma língua como factor de identidade e o estabelecimento de um conjunto de normas para afirmação dessa mesma estrutura. Ao longo dos tempos, esse fulgor normativo vingou, por vezes tentando sobrepor-se à criação literária (que, muitas vezes, se caracteriza pela capacidade de transgredir criativamente a norma), nem sempre tendo havido o doseamento necessário para que a gramática fosse vista como um auxiliar em vez de ser uma finalidade... por vezes, tentando sobrepor-se à literatura e nem sempre conduzindo ao gosto de ler, infelizmente.

Foi em 16 de Março de 1949 que Sebastião da Gama (1924-1952), então professor de Português na Escola Veiga Beirão, em Lisboa, escreveu no seu Diário, um pouco em jeito de desabafo quanto à obsessão da gramática de muitos docentes: “Olho para o passado e vejo a Gramática. A Gramática. A Gramática. Eu nem sei como aprendi a gostar de ler. Talvez por uma predisposição interior, uma fatalidade. Deve ser, sim: porque os meus companheiros não liam e estou quase certo de que não lêem. (...) Os outros também fechavam os livros (ou não chegavam a abri-los... ) mas era por causa da Gramática.” E explicava, a seguir: “Porque é que se não ensina a Gramática, já sistematizada, senão depois de os escolares poderem já ver o que ela é e sobretudo depois de já gostarem das palavras? A palavra, para os gramaticómanos, é um cadáver numa mesa de anatomia; quem pode amar um cadáver? Depois da dissecação do estilo, a beleza, a música, a personalidade de cada palavra já não pode ser gostada pela criança, receosa de errar o género, o número, a forma da palavra que tem em frente; e receosa do oito, do sete, do seis da tabela; e receosa do ponteiro com que certos professores ensinam, impõem a gramática.” Talvez estes exageros tenham sido os responsáveis pela pertinente observação “O meu ídolo é a gramática portuguesa, à qual faço constantes heresias.”, deixada por Agustina Bessa-Luís (O livro de Agustina Bessa-Luís, 2007), ou por outra, mais arrojada, devida a J. Rentes de Carvalho, ao registar no seu diário: “Não recordo obra-prima da literatura saída das mãos de um especialista da gramática.” (Pó, cinza e recordações, 2014).

É forte o desafio do poeta-professor azeitonense, um quase grito de revolta, que encontrava sustentação nos ensinamentos que bebia do seu professor metodólogo, Virgílio Couto (1901-1972), autor do programa de Português para o ensino técnico em 1948, que defendia que o estudo da gramática tinha “corrompido a lição de Português, tornando em estéril esforço de exegese o que houvera de ser fecundo estímulo de formação mental e estética” e advogava que ele devia ser “não sistematizado, feito em presença dos casos ocorrentes no trecho”, conduzindo à aprendizagem “das normas pela observação reflectida dos fenómenos”.

Quando escreveu as suas memórias do ensino, Frank McCourt (1930-2009) reflectiu sobre o papel da gramática de uma forma metafórica e pacificadora — “A psicologia é o estudo do comportamento das pessoas. A gramática é o estudo do comportamento da língua.” (O professor, 2009) Terá passado por pensamentos como este a prática do professor que Sebastião da Gama foi, quando, em 26 de Julho de 1948, escreveu à sua amiga Leonoreta Leitão, a contar a última aula que tinha dado em Setúbal: “Ontem gostaria que estivesses na minha aula das onze. Foi a última às minhas meninas de Português — as únicas que eu tive em Português e que ensinei a amar a Poesia. (...) Ora, depois de terem cantado, uma delas leu umas palavras estupendas que escrevera e que acabavam por um ‘viva o sr. doutor! viva a Poesia — abaixo a gramática!’”

Não se trataria de uma rebelião, mas de um olhar a gramática como algo diferente dos códigos punitivos, mesmo porque, como Álvaro Laborinho Lúcio registou no seu romance As Sombras de uma Azinheira (2022), “a gramática é o local onde as palavras fazem as pazes” e “a poesia é o lugar onde as palavras se entregam ao poder do pensamento livre”, porque ela “está acima das palavras”, “são elas que lhe obedecem, que se lhe entregam.” Voltando a Sebastião da Gama e ao seu Diário, em 20 de Abril de 1949, ele auto-receitava-se: “Talvez não seja errado, portanto, dar-lhes agora, uma vez por outra e por sugestão dos textos, aquilo que na gramática é fundamental e útil. Ir traçando um panorama geral da Gramática em linhas simples – e, a enfeitá-lo, rosas, rosas, muitas rosas...” Princípio simples, mas fundamental!

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1577, 2025-07-23, pg. 9.


quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Arrábida e imagens da sua espiritualidade (1)

 


Quando abriu a janela e olhou para o exterior, a personagem só pôde exclamar: “Parece que o mundo foi criado daqui!” Este momento é relatado no romance As Terras do Risco, de Agustina Bessa-Luís, publicado em 1994 (Guimarães Editores). A frase, que exprime o maravilhamento de quem a diz, no momento em que olha a Arrábida, remete-nos para a expressão do sublime, algo impossível de ser descrito, por muitas tintas que se ensaiem, por muitas frases que se recomponham, por muitos ângulos que os olhares procurem, por muitas combinações em que os sons se concertem. 

Conseguir contar a beleza seria igualá-la, operação impossível porque o belo é único, irrepetível, envolvendo uma aguarela de mistério, uma linha de sentido que a Arrábida, esse espaço que corre desde a Comenda até ao Cabo Espichel, sempre tem albergado e suscitado. Com razão escrevia Luís Marques em 1990, no seu estudo intitulado Arrábida e a sua Religiosidade Popular (Assírio & Alvim): “A essência da serra continua a sobrepor-se a todas as obras e transformações já realizadas. Um espelho disso, que chegou aos nossos dias, verifica-se (...) na interpretação que dela fazem, designadamente, os amantes da natureza, os poetas, os religiosos e os investigadores. (...) Hoje, como ontem, apenas os que se deixam penetrar pela serenidade da sua paisagem ou pela sua sacralidade conseguem encontrar a imutabilidade e intangibilidade que a serra permanentemente desencadeia.”

Servem estas duas referências — da ficção, através de Agustina Bessa-Luís, e do ensaio, por intermédio de Luís Marques — para chegarmos à obra A Espiritualidade da Arrábida, iniciativa louvável do Grupo dos Amigos da Paróquia de S. Sebastião, acabada de publicar, que reúne duas dúzias de olhares contemporâneos sobre a Serra, distribuídos pela escrita e pela imagem em partes iguais, associando-se ainda a expressividade dos dois nomes indiscutivelmente mais arrábidos, pelo contributo inegável que deram para a integração desta Serra na tradição literário-cultural portuguesa: Frei Agostinho da Cruz, religioso e poeta, que neste espaço viveu os seus últimos quinze anos no século XVII, e Sebastião da Gama, poeta e professor, que também aqui se acolheu e construiu o seu poemário em torno da simbologia da Serra, na década de 1940. 

A emergência desta obra pode ser vista a partir do que António Melo, um dos obreiros deste projecto, regista no texto de apresentação: “Este livro pretende ser uma prova de admiração pela Beleza e Espiritualidade da Arrábida e por todos os que a conseguem preservar na sua imortalidade.” Trata-se de um propósito forte, porque reflecte um sentimento do presente, num contínuo espanto perante o sublime, e, simultaneamente, homenageia a múltipla partilha que gerações nos têm transmitido neste caminho que tem sido o descortinar as linhas de sentido associadas à geografia social, cultural e natural da Serra, a que, metaforicamente, na obra Terral, o poeta Miguel de Castro chamou “varanda de ver o mar” (Edições Estuário, 1990). A importância desta obra é assinalada também no prefácio que D. Américo de Aguiar subscreve, um pouco em tom confessional, pondo-se à prova e testemunhando a sua descoberta: “Não estava prevenido para o impacto da beleza do mar e da serra. Sempre viajei muito do Norte ao Sul da nossa terra, na maior parte das vezes pelo cinzento monótono das auto-estradas. (...) A serra da Arrábida pede-nos silêncio e alguma solidão. É um convite renovado ao subir da montanha.” A recomendação é um desafio, exactamente o mesmo que se pôs ao frade franciscano Agostinho da Cruz, que lhe permitiu registar a beleza da experiência numa exclamação elegíaca — “Ó Serra das estrelas tão vizinha, / Quem nunca de ti, Serra, se apartara!” São, aliás, estes dois versos que fecham o percurso sugerido pela organização textual deste livro, que contraria a progressão cronológica, partindo das reflexões contemporâneas para recuar até ao século XVII.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º1416, 2024-11-19, pg. 7.


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Uma noite com Luiz Pacheco

São cerca de três dezenas os textos que compõem Raio de luar (Lisboa: Oficina do Livro, 2003), conjunto de “artigalhada” produzida para jornais, em que revemos Luiz Pacheco na sua força e na sua coerência, apetecendo dizer com Rui Zink (que prefacia o livro): “Já fiz mais-valia com a leitura de Luiz Pacheco. Tradução: já ganhei muito com a sua leitura. E garanto que, nestes tempos cinzentos, não é coisa pouca, encontrar livros que nos dêem mais-valia.”
Pelas páginas de Raio de luar perpassam memórias e olhares sobre o mundo e sobre a cultura portuguesa, ao mesmo tempo que vai ficando um rasto autobiográfico assumido. Pacheco escreve sobre os outros para também falar de si. A variedade temática é grande, ocupando destacado e principal lugar a literatura, seja pelos nomes que são invocados, seja pelos assuntos trazidos (censura e liberdade, epistolografia, movimentos, vida editorial), seja pelas leituras que vão sendo acusadas.
A ironia e o riso surpreendem em muitas ocasiões, numa escrita que acompanha o gesto do próprio “escriba” – “onde o destempero das duas manas me deu enorme vontade de rir, foi quando a Clarinha revelou que tem medo do futuro. Medo de ficar sem emprego. É boa!” Mas também a pedagogia entra neste conjunto de textos, haja em vista a história de uma consulta no hospital de S. José, contada em “Granito? Não, obrigado”, que bem poderia constituir um texto de importância para o atendimento hospitalar… ainda que conclua com a promessa de, numa próxima consulta, transportar “uma moca tipo riomaior”…
Embora falando preferencialmente do que vê e lê, não esquece também as pequenas histórias do que viveu, em muitas ocasiões deixando que o eu se exponha – pelos sítios que frequenta (entre Palmela, no lar, e Setúbal, nas livrarias e na Biblioteca, por exemplo), pelo ambiente do seu quotidiano (o olhar sobre os companheiros de residência), pelas considerações quanto ao que lhe falta (“em Palmela, há um castelo, mas livrarias, que é delas?”, “Setúbal, cidade sob vários aspectos periférica em termos culturais”), pelas identificações (“o que mais me encanta neste livro é a alegria que ali julgo surpreender no acto da escrita”, dirá a propósito de O manto, de Agustina), pelas memórias agradáveis guardadas de alguns professores (Câmara Reys, que lhe indicou leituras, Vitorino Nemésio, o “labioso volúvel” que apreciava, ou António Gedeão, aliás Rómulo de Carvalho, verdadeiro “exemplo do humano”), pelo recuo até à infância alentejana (a propósito de uns poemas de Manuel Alegre), pelos “fait-divers” (como a sua entrada no filme Conversa acabada), pelo seu gosto e orgulho enquanto editor (“se há coisa que me encha de cagança é essa minha actividade de Editor, a qual excede de longe a de Autor e lanço daqui mesmo um desafio: não pode haver em Portugal nenhuma bibliotecazinha decente que não tenha lá um livro editado por mim – poesia ou teatro, cinema, ficção, ensaio”) e pela sua exposição do que considera ser um “escritor maldito” (título com que o cognominaram) em texto que encerra o livro.
Raio de luar lê-se de seguida, que o difícil é parar. E por essa escrita vai passando o tom oralizante de Pacheco, quase como se numa conversa estivéssemos… mas apenas ouvindo-o. Lendo-o, aliás.

sábado, 2 de agosto de 2008

Hoje, no "Correio de Setúbal"

Diário da auto-estima – 83
Escola – O ano lectivo chegou ao fim com a sensação generalizada de que foi mais desgastante do que outros, sobretudo pelo caminhar que o caracterizou, numa discussão com muito pouco sentido que nem ajudou a que as coisas fossem justas. No final, umas sessões de formação apressadas vieram tentar atenuar a pressão da avaliação do desempenho docente, com leituras nunca antes admitidas, dando a entender que se trata de uma invenção e de um sistema que vai ser benéfico, que vai ser construído pelos envolvidos, com insistência em tónicas como a transparência, a clareza e a abertura. Para se chegar aqui, bem poderiam os responsáveis ter pensado na formação em mais oportuno tempo, evitando desgastes e pressões que não facilitaram o ano lectivo e ajudando as escolas a construírem a sua avaliação de forma sensata e cordata! Cá estaremos para ver as voltas que ainda vão acontecer e as justificações com que vão ser fundamentadas.
Saramago – Mesmo próximo do Palácio Nacional da Ajuda, o carteiro acabava o café e dirigia-se ao balcão para pagar o custo do seu intervalo, quando viu prospectos da exposição sobre Saramago que no dito Palácio se mostrava. “Ah, não sabia! Mas sabe se está aberta ao fim-de-semana?” O homem do bar acenou que sim. “Tenho que ir lá ver… Não que seja leitor de José Saramago, mas sempre é um Nobel português e do meu tempo… Tenho que lá ir!” E arrancou, a completar o giro que lhe fora destinado, com a promessa de que ainda visitaria o que de Saramago se exibia. Não sei se o carteiro chegou a ir visitar Saramago ao Palácio. Mas, se não foi, perdeu uma bela oportunidade de se aproximar da formação da escrita, do processo por que se constrói um escritor, num mapa de referências culturais, sociais, históricas, num quotidiano de pesquisa, de labuta, de criação, num caminho em que se cruzam o teatro, a crónica, o jornalismo, o conto, o romance, a epistolografia, a política, a cidadania, a arte, numa saga entre o manuscrito, o dactilografado, o emendado e o produto final que um livro é, numa abertura em que os testemunhos dos leitores entravam também.
Agustina – “Dicionário Imperfeito” é o título do primeiro volume da colecção “opera omnia”, que vai reunir a totalidade da obra de Agustina Bessa-Luís e também o título do seu mais recente livro (Lisboa: Guimarães Editores). Constituído por pensamentos e aforismos retirados de textos não ficcionais de Agustina, este livro, organizado por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira, contém essências da trama agustiniana que muito ajudam a compreender as suas personagens e que constituem, além do mais, um bom conjunto de reflexões sobre o homem e o viver do século. Como exemplo, a citação sobre a “pequena sabedoria”: “Eu sabia pouco de tudo. Ainda hoje sei muito pouco de tudo, o que me causa embaraço quando vejo a tremenda bagagem de conhecimentos que têm as pessoas. Se ouvirmos tudo o que se diz nos autocarros, nas praias, nas repartições, ao fim do dia podíamos escrever uma enciclopédia em vinte volumes e até ter êxito com ela. Não há nada de mais aceitável do que a pequena sabedoria, os amores confessáveis e as histórias de doenças.”
Se eu e tu – Os meus alunos fizeram tercetos a propósito de um poema com este título, de João Pedro Mésseder. Agora, em fase de arrumações, tropecei em alguns. Reproduzo três: “Se eu fosse água e tu fosses fogo / abraçava-me a ti / sem nunca te apagar.”; “Se eu fosse sol e tu fosses lua / iluminaria a tua noite / mesmo em dias de tempestade.”; “Se eu fosse folha e tu fosses árvore / amava-te para sempre / até cair aos teus pés.”

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O "Dicionário Imperfeito", de Agustina Bessa-Luís

O mais recente título de Agustina Bessa-Luís é Dicionário Imperfeito (Lisboa: Guimarães Editores), obra organizada por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira, constituído por “ideias-chave, figuras, trechos significativos na obra de Agustina”, conjunto saído da obra não ficcional da escritora. Com esta obra, a editora inicia também a publicação da “opera omnia” agustiniana, seguindo-se os volumes da edição “ne varietur”.
Com quase meio milhar de entradas, entre “adaptação” e “vocação”, este conjunto de citações percorre os fundamentos e as crenças que constituem a trama da obra de Agustina, contributo importante para se perceber a forma como são urdidas as suas histórias e construídas as suas personagens, além de conter reflexões e ensinamentos sobre a identidade do tempo em que se está.
Por este livro perpassam ainda afirmações sobre pessoas (a começar na própria Agustina, em jeito de auto-retrato, e a continuar em Amadeo de Souza-Cardoso, Aquilino, Ingmar Bergman, Mário Botas, Camilo, Camões, Pascoaes, Dostoievski, Erasmo, Ferreira de Castro, Florbela Espanca, Freud, Greta Garbo, Garrett, Inês de Castro, Richter, Kirkegaard, Miguéis, Manoel de Oliveira, Pessoa, Marquês de Pombal, Régio, Francisco Sá Carneiro, Salazar, Santo António, D. Sebastião, Sidónio Pais, Mariana Alcoforado, Van Gogh, Vieira da Silva, Villon, Conde de Vimioso, Virgílio), sobre sítios (desde a “alma dos lugares” e passando por Barral, Brasil, Coimbra, Espanha, Porto, Foz do Douro, Hiroshima, Lisboa, Nova Iorque, Póvoa de Varzim, Rio de Janeiro, Roma, Sintra, Veneza), sobre sentimentos (amar, amizade, gratidão, sinceridade, simulação), sobre arte (artes plásticas, arquitectura, criação, escrita, literatura, poesia), sobre coisas (automóvel, computadores, guarda-chuvas, livros), sobre política (candidato, CEE, democracia, eleitor, governo, governantes, marcelismo, revolução de Abril), sobre personagens (Moby Dick, Tristão, Isolda, José do Telhado).
Na realidade, o que perpassa por este livro é a obra de Agustina e a sua visão do mundo, do tempo, da história e do país. Define a sua obra como “portuguesa, constituída por sentimentos e gente portugueses até à medula” e, se dúvidas houvesse quanto à importância deste livro para o conhecimento da obra da autora, bastaria ler citações como as encontradas para mulher (“O homem faz tentativas duma obra, a mulher opera sem necessidade de completar alguma coisa. Ela é um ser completo, princípio e fim, lugar, caso, dispersão do conflito em que a própria morte se descreve, se anuncia.”), pátria (“Eu amo a minha pátria para além dum comovido aldeanismo; amo-a como símbolo de todos os mundos de que somos parte. Acho que ela está reduzida a um cadáver de ideias e de actividades; a notícia política é como uma poeira que não deixa ver a cara das pessoas e as suas verdadeiras expressões.”), infância (“A infância vive a realidade da única maneira honesta, que é tomando-a como uma fantasia. Não tentem explicar o mundo a uma criança, que ela saberá despistar as provas oferecidas. Não lhe interessam provas, mas sim mistérios. Os adultos desempenham o papel de desmancha-prazeres: porque vigiam, porque ensinam, porque desprezam a imaturidade.”), fama (“Não há mal em não ter muita importância. Todo o calendário do comportamento humano está traçado para mentirmos a respeito dos nossos desejos e dos nossos humores. O homem não quer ser famoso; quando o é, isso resultou da sua harmonia com as suas aptidões e as necessidades colectivas. Mas é coisa que não se força, que não se ordena, apesar de as leis do marketing dizerem o contrário.”) ou educação sexual (“Fala-se do sexo como da colheita do chá em Tabriz, para usar linguagem do Eça. Mas do desejo ninguém fala. O desejo é temível porque nasce do impreciso e da ambiguidade. Todos os programas escolares que versam a educação sexual são duma perfeita boçalidade. O homem não se explica pelo que nele se regista, mas sobretudo pelo que nele se contempla. O desejo escapa à prática. É um espírito e, portanto, volátil. No olhar nublado dum adolescente vereis que ele entende isso, e cala.”).
Útil, pois, esta obra, que pode constituir uma iniciação a Agustina ou uma conclusão de Agustina. Pena, no entanto, que não sejam indicadas as fontes das citações. Ainda que a fonte seja a própria Agustina, certo é que, se houvesse indicações bibliográficas, por mínimas que fossem, seria interessante contextualizar as citações e ficar um repositório de bibliografia sobre a autora.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Oito máximas de Agustina (2)

De Vento, areia e amoras bravas (2ª ed. Lisboa: Guimarães Editores, 2007)

1. “Entre as fantasias que a ternura tem e o insulto, há um abismo."
2. “Toda a gente anda assustada neste mundo. Só que alguns fingem ou não o dizem. Há um monte de coisas que as pessoas não dizem.”
3. “As nossas esquisitices sempre nos parecem sensatas. Estamos sempre prontos a censurar os outros por motivos perfeitamente naturais se forem os nossos motivos."
4. “A vida das pessoas parece-se às vezes com as fitas, só que se passa mais devagar."
5. “Não se gosta todos os dias de tudo, nem dos pais, nem dos irmãos. É preciso pôr espaço entre nós e os outros, senão a malícia entra no coração como uma erva que cresça com o amor.”
6. “Há em destruir um prazer que não tem sentido, e por isso é um prazer. As crianças sabem isso. Abrem um brinquedo, dão-lhe outro significado, usam-no como se criassem algo de novo.”
7. “As coisas muito lindas assustam um bocadinho, como se não as merecêssemos e seja pecado olhar para elas. É por isso que tudo quanto é feio parece que nos dá força.”
8. “Um irmão que morre fecha a porta da infância para sempre.”

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Oito máximas de Agustina

1. “O meu ídolo é a gramática portuguesa, à qual faço constantes heresias.”
2. “Os homens são mais pecadores e as mulheres mais curiosas.”
3. “Somos sempre muito faladores com o insignificante e muito calados com o que nos assusta. Assusta-nos o íntimo das nossas vidas, por passarmos todas as portas sem pensar que elas se fecham para sempre atrás de nós. Não podemos voltar para compor o inacabado ou as palavras soltas ou a que faltou experiência.”
4. “Os jogadores não gostam de ganhar.”
5. “O que se imagina das pessoas é o que nos convence.”
6. “O que é a sorte? – pergunto-me. É sobretudo uma equação vertiginosa que se efectua entre os dados de que dispomos e os obstáculos que lhes são impostos.”
7. “Aos vinte anos a vida não é mesquinha, é, quando muito, ambiciosa. A ambição é a fortuna dos novos. Meu pai dizia: ‘A audácia ajuda a juventude’. Não ajuda, mas tem esse traço de candura que faz parecer tudo digno de ser concedido.”
8. “A virtude é o melhor caminho para o poder. Ela enleia, corrompe mais do que o crime, descobre nos homens profundas aptidões de sacrifício e de gratidão. Ao desejo, os homens preferem a gratidão de não serem incomodados mesmo com o melhor dos pretextos, que é o pecado puro e simples. Com as mulheres tentadoras os homens são solícitos; com as virtuosas são agradecidos, que é um sentimento que dura uma vida.”
Agustina Bessa-Luís. O livro de Agustina Bessa-Luís. 2ª ed. Lisboa: Guerra e Paz, 2007.