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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Rostos (180)

"La Paix se révèlant à l'Humanité - Hommage de la ville de Creil
à ses enfants morts pour la Patrie", em Creil (França)
[foto de Fátima R. Ribeiro]

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

António Oliveira e Castro: "Tambwe" ou o mundo pelos olhos de Eugénio

O mais recente romance de António Oliveira e Castro, Tambwe – A unha do leão (Lisboa: Gradiva, 2011), com ilustrações de Nuno David, é uma história que prende o leitor ao trajecto de uma personagem como Eugénio, figura que, ora procura a morte, ora assume o seu trajecto sozinho, ora peregrina até às raízes. A história é intensa e o leitor é convidado a passar por paisagens diversas, europeias (Portugal, França) ou africanas (Angola), por corredores diversificados de uma sociedade que nem sempre se rege pelos melhores princípios, convivendo com figuras da baixa política, com revolucionários, com mercenários, e tendo momentos de paragem, também fortes, em pensares de tempos de solidão ou em reflexão com figuras que constroem e se alojam na identidade.
É uma história dramática, em que o narrador dialoga com o leitor, tentando convencê-lo da verosimilhança das situações e levando-o a pensar a actualidade, o papel da política, o encaminhamento do mundo, o ser cidadão. É uma história dolorosa, com desvios e demandas, mortes e utopias, caos e ordem, poesia e horror, em que a liberdade e a prisão coexistem e a fragilidade do mundo e dos sistemas é posta à prova. É a história de uma solidão sempre e sempre testada, numa fuga ao tormento.
Sublinhados
Palavras – “As palavras, por maior que seja o seu conteúdo, não têm peso, sustentam-se de aparentes levezas, da aragem dos êxtases.”
Mistério – “Nem sempre o universo do homem se pode resumir ao encontro com a razão, na equação entram outras incógnitas, indecifráveis e misteriosas.” 
Faltas – “O que mais há na terra é paisagem e o que mais falta é o amor.”
Escrever – “Nenhum escritor escreve sobre acontecimentos insignificantes, procura sempre o lado sombrio, sujo, sanguinolento, colérico e escondido do Homem; descreve os campos de batalha onde se fuzilam os inocentes e assinam acordos de paz com os generais; o artífice da palavra relata, com a emoção de que é capaz, a loucura dos heróis, o medo dos cobardes; leva-nos até aos que jazem, na agonia da morte, debruçados sobre a terra que lhes escuta o lamento; faz-nos tropeçar nos corpos dilacerados que se espalham sobre os degraus dos edifícios em ruínas.”
Amor – “O amor é um fenómeno muito mais complexo que a morte; enquanto um regenera, o outro remete para o esquecimento.”
Vida – “Mesmo a vida mais verdadeira não passa do resultado do acaso, a que só a fé dos homens confere normalidade.”
Gerações – “O mundo acaba apenas para velhos que já não são capazes de se transformar, continua para os jovens generosos e sonhadores, que precisam de mudança.”
Futuro – “Nada, nada mesmo, obedece à lógica; apenas a aventura, o perigo, o risco, o sucesso imprevisto comandam o futuro.”
Castigo – “Os castigos são sempre subjectivos. Dependem de quem está no poder. Herói se vencer, traidor se for derrotado.”
História – “A história despreza os seus actores, reescreve-lhes o drama a seu bel-prazer; a qualquer instante pode matar num jogo de contradições, de paradoxos, de ironias, de injustiças; oportunista, caminha sobre uma estrada de cadáveres.”
Guerra – “A guerra não distingue os homens; tanto se lhe dá que sejam honestos ou assassinos, jovens ou velhos, pouco lhe importa que se encontrem exaustos ou frescos. Aliás, a violência tem especial predilecção pelos mais incautos, pelos mais fracos.”
Actor – “Apenas quando encarnam personagens que um qualquer dramaturgo inventou, os actores são belos, sedutores, insuspeitos, assim que abandonam o palco e a ribalta regressam à miserável condição humana que os agasalha.” 
Pátria – “Para que precisamos de nações? Os cidadãos precisam é de paz!”
Povo – “A história dos povos tem as suas regras, o seu tempo lento, mas as mudanças são muito mais definitivas quando a violência da guerra se torna conselheira da razão e das emoções.”
Trincheira – “Nas trincheiras, sempre morreram os jovens crédulos, cadáveres  condecorados com a crueldade do martírio. Indiferentes à hecatombe, os proprietários da pátria, latifúndio com milhares de hectares, que fazem crer ser também nossa, oferecem-nos o privilégio de lhes amanharmos o solo, de lhes produzirmos a riqueza.”
Horizonte – “A dimensão dos homens vê-se para onde olham, se para o umbigo, se para a montanha.”
Ambição – “Os homens, quando guiados apenas pela ambição, perdem a noção da realidade, escutam o umbigo quando tudo à volta se desmorona.”

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O "Dicionário Imperfeito", de Agustina Bessa-Luís

O mais recente título de Agustina Bessa-Luís é Dicionário Imperfeito (Lisboa: Guimarães Editores), obra organizada por Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira, constituído por “ideias-chave, figuras, trechos significativos na obra de Agustina”, conjunto saído da obra não ficcional da escritora. Com esta obra, a editora inicia também a publicação da “opera omnia” agustiniana, seguindo-se os volumes da edição “ne varietur”.
Com quase meio milhar de entradas, entre “adaptação” e “vocação”, este conjunto de citações percorre os fundamentos e as crenças que constituem a trama da obra de Agustina, contributo importante para se perceber a forma como são urdidas as suas histórias e construídas as suas personagens, além de conter reflexões e ensinamentos sobre a identidade do tempo em que se está.
Por este livro perpassam ainda afirmações sobre pessoas (a começar na própria Agustina, em jeito de auto-retrato, e a continuar em Amadeo de Souza-Cardoso, Aquilino, Ingmar Bergman, Mário Botas, Camilo, Camões, Pascoaes, Dostoievski, Erasmo, Ferreira de Castro, Florbela Espanca, Freud, Greta Garbo, Garrett, Inês de Castro, Richter, Kirkegaard, Miguéis, Manoel de Oliveira, Pessoa, Marquês de Pombal, Régio, Francisco Sá Carneiro, Salazar, Santo António, D. Sebastião, Sidónio Pais, Mariana Alcoforado, Van Gogh, Vieira da Silva, Villon, Conde de Vimioso, Virgílio), sobre sítios (desde a “alma dos lugares” e passando por Barral, Brasil, Coimbra, Espanha, Porto, Foz do Douro, Hiroshima, Lisboa, Nova Iorque, Póvoa de Varzim, Rio de Janeiro, Roma, Sintra, Veneza), sobre sentimentos (amar, amizade, gratidão, sinceridade, simulação), sobre arte (artes plásticas, arquitectura, criação, escrita, literatura, poesia), sobre coisas (automóvel, computadores, guarda-chuvas, livros), sobre política (candidato, CEE, democracia, eleitor, governo, governantes, marcelismo, revolução de Abril), sobre personagens (Moby Dick, Tristão, Isolda, José do Telhado).
Na realidade, o que perpassa por este livro é a obra de Agustina e a sua visão do mundo, do tempo, da história e do país. Define a sua obra como “portuguesa, constituída por sentimentos e gente portugueses até à medula” e, se dúvidas houvesse quanto à importância deste livro para o conhecimento da obra da autora, bastaria ler citações como as encontradas para mulher (“O homem faz tentativas duma obra, a mulher opera sem necessidade de completar alguma coisa. Ela é um ser completo, princípio e fim, lugar, caso, dispersão do conflito em que a própria morte se descreve, se anuncia.”), pátria (“Eu amo a minha pátria para além dum comovido aldeanismo; amo-a como símbolo de todos os mundos de que somos parte. Acho que ela está reduzida a um cadáver de ideias e de actividades; a notícia política é como uma poeira que não deixa ver a cara das pessoas e as suas verdadeiras expressões.”), infância (“A infância vive a realidade da única maneira honesta, que é tomando-a como uma fantasia. Não tentem explicar o mundo a uma criança, que ela saberá despistar as provas oferecidas. Não lhe interessam provas, mas sim mistérios. Os adultos desempenham o papel de desmancha-prazeres: porque vigiam, porque ensinam, porque desprezam a imaturidade.”), fama (“Não há mal em não ter muita importância. Todo o calendário do comportamento humano está traçado para mentirmos a respeito dos nossos desejos e dos nossos humores. O homem não quer ser famoso; quando o é, isso resultou da sua harmonia com as suas aptidões e as necessidades colectivas. Mas é coisa que não se força, que não se ordena, apesar de as leis do marketing dizerem o contrário.”) ou educação sexual (“Fala-se do sexo como da colheita do chá em Tabriz, para usar linguagem do Eça. Mas do desejo ninguém fala. O desejo é temível porque nasce do impreciso e da ambiguidade. Todos os programas escolares que versam a educação sexual são duma perfeita boçalidade. O homem não se explica pelo que nele se regista, mas sobretudo pelo que nele se contempla. O desejo escapa à prática. É um espírito e, portanto, volátil. No olhar nublado dum adolescente vereis que ele entende isso, e cala.”).
Útil, pois, esta obra, que pode constituir uma iniciação a Agustina ou uma conclusão de Agustina. Pena, no entanto, que não sejam indicadas as fontes das citações. Ainda que a fonte seja a própria Agustina, certo é que, se houvesse indicações bibliográficas, por mínimas que fossem, seria interessante contextualizar as citações e ficar um repositório de bibliografia sobre a autora.