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quinta-feira, 21 de junho de 2012

"Visto prévio" nos exames e outras derrapagens...


O excerto é da edição online do Público e os acontecimentos revelam o extraordinário país em que estamos. Se o que é relatado foi verdade, adeus credibilidade do sistema! Se o que é relatado foi verdade, há que pensar nas penalizações para os responsáveis pela fuga de informação e para os coniventes.
As associações são sempre perigosas e arriscadas, mas, há uns anos, houve uma história com atestados médicos de alunos do secundário em tempo de exames também ali para as mesmas coordenadas geográficas… Coincidências, claro! Mas tristes coincidências!
Neste caso, como nas “derrapagens” anunciadas da Parque Escolar – que terá sido uma “festa”, como há uns tempos Maria de Lurdes Rodrigues disse –, tem de haver responsáveis responsabilizados. Se assim não for…

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Aí estão os exames nacionais...

Começou na manhã de hoje o período dos exames nacionais, aberto com o exame de Língua Portuguesa do 9º ano. Prova acessível, equilibrada, pertinente, respeitando o programa, diversificada, culta, trabalhosa, valorizando mesmo a prática da leitura.
Tinha dito aos meus alunos que estivessem preparados para uma prova mais exigente do que nos anos anteriores, um pouco porque estava convencido desta necessidade, um pouco porque não se pode dar a ideia de facilitismo ou de menosprezo relativamente ao acto dos exames e do estudo.
Como muitos colegas, tenho estado convencido de que os resultados dos exames vão baixar, sobretudo depois de toda a onda de facilitismo nas transições e de facilidade nas provas a que a sociedade tem assistido. Veremos…
Nesta mesma manhã de exames, o jornal Público “descobriu” um eventual novo responsável pelos também eventuais maus resultados dos exames: o professor corrector. Depois do título “Resultados dos exames não dependem só do que os alunos sabem”, o lead respectivo na página do jornal (em suporte papel) adianta: “Falta de fiabilidade entre os correctores dos exames nacionais pode pôr em causa a equidade destas provas, alerta especialista em avaliação.” “Fiabilidade” em quê ou em quem?, perguntará o leitor, depois de ter sido levado a crer que será nos professores correctores.
Lê-se o texto e, afinal, qual é o problema? Carlos Barreira, universitário de Coimbra, “chama a atenção para a falta de fiabilidade entre os correctores, que considera ser um aspecto preocupante, pois também deste modo se pode questionar a equidade dos exames”. De facto, a questão está na qualidade dos critérios de correcção, ponto abordado por uma outra entrevistada ligada à área da Matemática. E na fiabilidade dos critérios de correcção. E na adequação dos critérios de correcção às provas. Recordo o exemplo dos critérios de correcção das provas de Língua Portuguesa de 9º ano do ano lectivo passado, que desfaziam o equilíbrio que a prova parecia apresentar… e os resultados foram o que se viu.
O "lead" do Público é, assim, menos correcto ou menos fiável e... verdade, verdadinha, não era necessária essa falta de cuidado. No final, o que ressalta da leitura dos comentários dos entrevistados é a necessidade de os critérios de correcção serem bem construídos e adequados. Bem pensados, é claro. Mesmo para que, depois, não se conjuguem no mesmo texto questões tão sérias (como a da qualidade dos critérios de correcção) com outras tão demagógicas como, por exemplo, quando Albino Almeida (das associações de pais) vem dizer que "os exames estão a avaliar o que as escolas não ensinam e o que os alunos não puderam aprender"... diatribe que me escuso de comentar.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Dos resultados no exame de Língua Portuguesa de 9º ano

A notícia foi divulgada pela LUSA e constituirá prato forte para serem tecidas mil e uma críticas ao ensino. Pelos meus alunos que participaram nos exames de Língua Portuguesa de 9º ano, estou satisfeito, pois a média dos seus resultados foi bem superior à média nacional deste ano e mesmo à média nacional do ano passado. Os parabéns são para eles, obviamente!
No entanto, devo dizer que, sabendo do que eles são capazes, imaginei, num primeiro momento, que iriam ter resultados ainda mais elevados; todavia, quando vi os critérios de correcção destas provas, fiquei sem saber que resultados apareceriam.
Participei na correcção de exames de Língua Portuguesa de 9º ano e há critérios de correcção que não compreendo e que nunca pratiquei enquanto professor na correcção dos trabalhos dos meus alunos. Duvido mesmo que haja quem os pratique… mas só posso responder por mim.
Exemplos?
A pergunta que pedia um texto expositivo a propósito da estrofe 84 do canto IV d’Os Lusíadas orientava o aluno para sete tópicos que deveriam constar na sua resposta, cotada com 10 pontos. O aluno tinha à sua disposição um espaço entre 70 e 120 palavras para responder, mas ignorava o que lhe podia acontecer se não respondesse aos dois primeiros tópicos – é que, no caso de falhar um desses dois tópicos (por erro ou por omissão), mesmo que os outros cinco estivessem excelentemente apresentados, a resposta era cotada com zero! E houve casos destes. Mais: se o aluno apenas mencionasse esses dois tópicos, tinha apenas dois pontos. E quais eram os tópicos? Indicar o episódio referido na estrofe e identificar o narrador. Repare-se que, pelo menos o primeiro, nem sequer era determinante para o resto da resposta, porquanto o aluno teria de tratar tópicos como os grupos de personagens envolvidos, o momento da acção, a apresentação de um elemento relativo ao espaço, o estado de espírito das personagens e indicar uma semelhança deste episódio com o do Adamastor. Ora, alguns dos tais cinco tópicos serviam perfeitamente para se perceber se o aluno sabia localizar o episódio ou não…
Outro exemplo: na classificação de uma forma verbal que estava no pretérito perfeito, se o aluno esquecesse o acento na palavra “pretérito” era o suficiente para que o tempo verbal fosse considerado incorrecto. Ora, a pergunta pretendia testar o conhecimento dos tempos verbais ou as formas de grafia? Compreendo que a falta do acento pudesse originar um desconto na resposta, mas daí a ser considerada sem pontuação...
A sensação com que fiquei, depois de ser confrontado com estes critérios, é que aquilo que aprendi e aquilo que tenho exercido – bem como muitos colegas – foi contrariado. Isto é: a perspectiva da avaliação dos saberes deve ser por aquilo que o aluno sabe e não por aquilo que o aluno não sabe.
Os critérios de correcção da prova de Língua Portuguesa de 9º ano da 1ª chamada terão, assim, uma parte da responsabilidade nos resultados. Provavelmente, com critérios semelhantes aos que são praticados pelos professores no quotidiano das escolas, muitos dos resultados na margem dos 40 e pouco por cento chegariam aos 50 e pouco por cento… sem que os níveis de exigência e de rigor fossem postos em causa.
Do meu ponto de vista, a prova da 1ª chamada de Língua Portuguesa viu o equilíbrio da sua concepção e orientação posto em causa por alguns dos critérios de correcção apresentados.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Do exame de Língua Portuguesa de 9º ano

No exame de Língua Portuguesa de 9º ano, que ontem aconteceu, Camões e a sua epopeia foram metidos de forma inteligente no enunciado, através de um excerto de José Saramago, de Que Farei com este Livro?.
Houve, no entanto, duas questões que poderiam ter sido mais pensadas, talvez retiradas: uma, que, remetendo para o óbvio, destoa um pouco do nível da prova – a nº 6, da Parte B, do I Grupo: “Relê as linhas 17 a 20. Indica a razão pela qual Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o pedido de protecção.” Ora, nas linhas 17 a 20, a personagem Camões diz ao Conde: “A carta pedia a vossa protecção para as oitavas que por cópia estão em vossas mãos e para as irmãs delas que em minha casa ficaram. Disse-vos que é uma obra composta sobre os feitos dos portugueses e a navegação para a Índia, em que esteve vosso avô como capitão-mor.” Resposta óbvia, com tão reduzido grau de dificuldade que dá (terá dado) para os alunos desconfiarem… De acordo com o cenário de resposta constante nos critérios de correcção, a solução é: “Indica que Luís de Camões dirige ao conde de Vidigueira o seu pedido, uma vez que há uma relação de parentesco entre o conde e Vasco da Gama, personagem da obra para a qual Camões pede protecção.”
A segunda observação relaciona-se com o último item da pergunta 9 da Parte C do I grupo, em que é solicitado um texto expositivo, que deverá seguir vários pontos, designadamente o de referir uma “semelhança entre [o episódio da partida das naus de Lisboa] e o episódio do Adamastor”. A gente pensa e lá vai encontrando umas aproximações, quais sejam as advindas de algum aventureirismo que se confronta com o desconhecido e com o perigo, por exemplo. Fica a sensação de que só se perceberá o que quer o autor da prova quando os critérios de correcção forem lidos. E eles aí estão: “Refere uma semelhança. Por exemplo: tanto «Despedidas em Belém» como «O Adamastor» são episódios da viagem para a Índia.”
Com tão banal semelhança, que dizer deste tipo de critérios?
Quanto ao resto, uma prova equilibrada, abrangente, valorizando a competência da leitura, mas também a cultura geral, ainda que podendo ter um grau de dificuldade mais considerável!...

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Direito ao copianço

Na disciplina de Investigação Criminal e Gestão do Inquérito ministrada no Centro de Estudos Judiciários, terá havido copianço no teste e houve a decisão de a todos os candidatos ser atribuída a nota 10, segundo os jornais de ontem.
Depois disto, vemos as justificações: “não fazer nada e branquear a situação não era razoável”, “repetir o teste era praticamente impossível”, “houve um conjunto extenso de alunos que não copiou”, “excluir toda a gente do curso era inimaginável”. Quatro razões para a atribuição de 10, devidas a um responsável do CEJ, reproduzidas no Jornal de Notícias.
A decisão colheu adeptos. E um representante da Associação Sindical dos Juízes Portugueses, ainda segundo o mesmo jornal, explicou que esta opção “equivaleu a anular a função classificativa do teste e não deixou de obrigar as pessoas a prepararem-se para o teste.”
Com estes argumentos, nem valeria a pena haver testes! Só pelo facto de os formandos estarem inscritos e irem às sessões já deviam ter, no mínimo, 15 (na escala de 0-20), imagina-se! É por argumentos destes que apetece não insistir na honestidade ou na verticalidade, sob pena de sermos considerados retrógrados… e é o convite a este facilitismo que domina a sociedade, ainda que, paradoxalmente, depois se não acredite em quem se formou à custa destes esquemas…
Afinal, copiar num teste ou num exame é ou não é fraudulento? E a fraude é ou não é punível?
O mais curioso é isto passar-se justamente no âmbito da justiça, onde nem devia ser imaginado! Com tais exemplos, qualquer aluno de 9º ou de 12º ano que, a partir do dia 20, esteja em exames tem direito a reclamar o direito ao copianço a troco da positiva mínima. É a lei da analogia… Ah, mas esses não podem, porque a norma dos Exames Nacionais diz que…
Por outro lado, o argumento do representante da ASJP, segundo o qual “pode ter havido algum equívoco, da parte [dos candidatos], sobre a natureza individual do teste”, também não colhe – é que até os jovens do 9º e do 12º anos têm de saber que os testes são individuais (tenham ou não cruzinhas) e não se confundem com trabalhos de pares ou de grupo!

sábado, 11 de julho de 2009

Hoje, no "Correio de Setúbal"

... a crónica do "Diário da Auto-Estima" que aqui publiquei em 27 de Junho. Sobre os exames de Língua Portuguesa de 9º ano e reacções dos alunos à prova. A propósito: na segunda-feira, já vamos ver os resultados desse exame... que me merecem preocupação, como já expliquei.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Exames do Ensino Básico: a Língua Portuguesa do 9º ano

Sou um deles. Já aqui deixei em aberto essa possibilidade (em 27 de Junho). Uma prova aparentemente equilibrada, onde pesaram muitas coisas e outras – que deveriam lá ter entrado – estiveram ausentes. No enunciado da prova, além das questões, os alunos podiam saber quanto valia cada resposta. No entanto, não sabiam – ninguém sabia, porque os critérios só foram divulgados depois da prova – o que era necessário para chegarem às cotações máximas ou o que os poderia levar a não terem sequer cotação nas respostas dadas. Três exemplos:
1º) As maiúsculas – uma resposta integralmente escrita em maiúsculas submete a cotação final a uma desvalorização de três pontos; o uso indevido de maiúscula inicial em qualquer resposta leva ao desconto de um ponto (se ocorrer até 2 vezes) ou de dois pontos (se ocorrer 3 ou mais vezes).
2º) No item sobre o episódio de Inês de Castro d’Os Lusíadas, a resposta deve contemplar um texto em que o examinando integra seis elementos, sendo um deles a indicação das personagens históricas mencionadas nas estrofes camonianas; no domínio dos conteúdos, se a resposta não identificar “inequivocamente as três personagens históricas mencionadas”, vale zero.
3º) No grupo de “funcionamento da língua”, a primeira questão pede ao aluno que indique, de uma lista de dez palavras, as cinco palavras graves (quanto à acentuação); o que o aluno não sabe é que só tem pontos nessa resposta se acertar em 5, em 4 ou em 3 das palavras graves (sendo necessário que, neste último cenário de resposta, não indique mais nenhuma palavra que esteja errada).
Naturalmente, gostaria que os meus alunos tivessem resultados que os compensassem pelo esforço que fizeram. Mas reconheço que critérios destes (que duvido que algum professor aplique ao longo do ano lectivo, sobretudo no domínio dos descontos) dificultam a resolução de uma prova com sucesso, havendo ainda a questão (que não é de somenos) de não terem sido divulgados previamente no que à tipologia da resposta respeita. Os critérios estão disponíveis na página do GAVE.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Exames do Ensino Secundário: o rol dos "culpados"

«"Menos investimento, menos trabalho e menos estudo" do lado dos alunos, comentou a ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues,a propósito dos resultados no exame de Matemática A, realizado por 38.303 estudantes. A média dos alunos internos (os que frequentam as aulas todo o ano lectivo, que são a maioria) desceu de 14 para 11,7 e a percentagem de retenções mais do que duplicou (de sete para 15 por cento), o que, segundo a ministra, se deve à difusão, pela comunicação social, "da ideia de que os exames eram fáceis". Em conferência de imprensa, o secretário de Estado Valter Lemos alargou o leque de responsáveis, juntando a Sociedade Portuguesa de Matemática e "partidos e pessoas com responsabilidades políticas". "É um desincentivo ao estudo e ao trabalho", sublinhou.»
Público: 08.Julho.2009

sábado, 27 de junho de 2009

Sobre exames, que se está no tempo deles

Diário da Auto-Estima – 102
Exames I – Os exames nacionais dos Ensinos Básico e Secundário têm causado pouco impacto nos media, ainda que algumas opiniões tenham já saltado para a ribalta a falar da facilidade e do futuro enriquecimento dos dígitos positivos na estatística. O costume. Os resultados o dirão e, como é óbvio, servirão para cimentar opiniões, ainda que diversas. O resultado de um exame vale o que está estabelecido e é também fruto de condicionantes momentâneas. É sempre a consequência de um princípio social e politicamente aceite. Deve ser ponderada a interpretação do que ele significa quanto ao valor do trabalho de um ciclo ou de um ano de estudos. Nos exames, o momento ou a estrutura da prova também contam para quem tem que a resolver. E estes aspectos também têm o seu quê de convencional. Depois, virão os “rankings”, uma amostragem ou uma seriação que vale o que vale porque existem muitas condicionantes escondidas para que os resultados sejam aqueles, a começar pelos melhores… E choverão as pressões quanto às opções, deslizar-se-á sobre o porquê de serem estas escolas e não outras no princípio ou no fim… como se tudo fosse um jogo de sorte ou de azar apenas… E tudo acalmará logo que a época passe!
Exames II – Leccionei Língua Portuguesa de 9º ano. Sei como os meus alunos foram para o exame. Todos partilharam a noção de que os enunciados de exame eram mais fáceis do que os testes havidos ao longo do ano lectivo. Isto podia causar-lhes ilusões, que tentei desfazer. O exame de Língua Portuguesa de 9º ano respeitava o programa, mas aparecer uma pergunta pedindo para assinalar, de uma lista de 10 palavras, as 5 graves é, do meu ponto de vista, descer a fasquia e pôr perguntas ao nível das provas de aferição de 4º ano. Por outro lado, não haver sequer uma alínea que testasse as funções sintácticas ou os recursos expressivos é falta que me parece exagerada. Tudo isto pode parecer pormenor, eu sei. Mas não é, porque, mesmo num exame, deve haver reflexão sobre a língua e sobre a matéria leccionada. E os alunos de 9º ano já têm condições para fazer isso! Consequência: “Ó professor, o exame foi fácil, bué de fácil!” Não sei porquê, mas fica-me sempre a dúvida de tal facilidade. “Vamos ver! Oxalá as notas sejam boas, claro!”, respondo. Vamos ver, pois!
OBS: Esta crónica deveria ter saído no Correio de Setúbal de hoje.
Por razões de calendário e de prazos de entrega, não saiu.

domingo, 24 de maio de 2009

António Barreto faz o balanço de um ano lectivo da escola

Aplicadores
«A publicação, pelo Ministério da Educação, do Manual de Aplicadores não passou despercebida. Vários comentadores se referiram já a essa tão insigne peça de gestão escolar e de fino sentido pedagógico. Trata-se de um compêndio de regras que os professores devem aplicar nas salas onde se desenrolam as provas de aferição de Português e Matemática. Mais precisos e pormenorizados do que o manual de instruções de uma máquina de lavar a roupa. Mais rígidos do que o regimento de disciplina militar, estes manuais não são novidade. Podem consultar-se os dos últimos quatro anos. São essencialmente iguais e revelam a mesma paranóia controladora: a pretensão de regulamentar minuciosamente o que se diz e faz na sala durante as provas.
Alguns exemplos denotam a qualidade deste manual: "Não procure decorar as instruções ou interpretá-las, mas antes lê-las exactamente como lhe são apresentadas ao longo deste manual." "Continue a leitura em voz alta: Passo agora a ler os cuidados a terem ao longo da prova. (...) Estou a ser claro(a)? Querem fazer alguma pergunta?" "Leia em voz alta: Agora vou distribuir as provas. Deixem as provas com as capas para baixo, até que eu diga que as voltem." "Leia em voz alta: A primeira parte da prova termina quando encontrarem uma página a dizer PÁRA AQUI! Quando chegarem a esta página, não podem voltar a folha; durante a segunda parte, não podem responder a perguntas a que não responderam na primeira parte. Querem perguntar alguma coisa? Fui claro(a)?" Além destas preciosas recomendações, há dezenas de observações repetidas sobre os apara-lápis, as canetas, o papel de rascunho, as janelas e as portas da sala. Tal como um GPS ("Saia na saída"), o manual do aplicador não se esquece de recomendar ao professor que leia em voz alta: "Escrevam o vosso nome no espaço dedicado ao nome." Finalmente: "Mande sair os alunos, lendo em voz alta: Podem sair. Obrigado(a) pela vossa colaboração"!
A leitura destes manuais não deixa espaço para muitas conclusões. Talvez só duas. A primeira: os professores são atrasados mentais e incompetentes. Por isso deve o esclarecido ministério prever todos os passos, escrever o guião do que se diz, reduzir a zero quaisquer iniciativas dos professores, normalizar os procedimentos e evitar que profissionais tão incapazes tenham ideias. A segunda: a linha geral do ministério, a sua política e a sua estratégia estão inteiras e explícitas nestes manuais. Trata os professores como se fossem imaturos e aldrabões. Pretende reduzi-los a agentes automáticos. Não admite a autonomia. Abomina a iniciativa e a responsabilidade. Cria um clima de suspeição. Obriga os professores a comportarem-se como robôs.
A ser verdadeira a primeira hipótese, não se percebe por que razão aquelas pessoas são professores. Deveriam exercer outras profissões. Mesmo com cinco, dez ou 20 anos de experiência, estes professores são pessoas de baixa moral, de reduzidas capacidades intelectuais e de nula aptidão profissional. O ministério, que os contratou, é responsável por uma selecção desastrada. Não tem desculpa.
Se a segunda for verdade, o ministério revela a sua real natureza. Tem uma concepção centralizadora e dirigista da educação e da sociedade. Entende sem hesitação gerir directamente milhares de escolas. Considera os professores imbecis e simulados. Pretende que os professores sejam funcionários obedientes e destituídos de personalidade. Está disposto a tudo para estabelecer uma norma burocrática, mais ou menos "taylorista", mais ou menos militarizada, que dite os comportamentos dos docentes.
O ano lectivo chega ao fim. Ouvem-se gritos e suspiros. Do lado, do ministério, festeja-se a "vitória". Parece que, segundo Walter Lemos, 75 por cento dos professores cumpriram as directivas sobre a avaliação. Outras fontes oficiais dizem que foram 57. Ainda pelas bandas da 5 de Outubro, comemora-se o grande "êxito": as notas em Matemática e Português nunca foram tão boas. Do lado dos professores, celebra-se também a "vitória". Nunca se viram manifestações tão grandes. Nunca a mobilização dos professores foi tão impressionante como este ano. Cá fora, na vida e na sociedade, perguntamo-nos: "vitória" de quem? Sobre quê? Contra quem? Esta ideia de que a educação está em guerra e há lugar para vitórias entristece e desmoraliza. Chegou-se a um ponto em que já quase não interessa saber quem tem razão. Todos têm uma parte e todos têm falta de alguma. A situação criada é a de um desastre ecológico. Serão precisos anos ou décadas para reparar os estragos. Só uma nova geração poderá sentir-se em paz consigo, com os outros e com as escolas.
Olhemos para as imagens na televisão e nos jornais. Visitemos algumas escolas. Ouçamos os professores. Conversemos com os pais. Falemos com os estudantes. Toda a gente está cansada. A ministra e os dirigentes do ministério também. Os responsáveis governamentais já só têm uma ideia em mente: persistir, mesmo que seja no erro, e esperar sofridamente pelas eleições. Os professores procuram soluções para a desmoralização. Uns pedem a reforma ou tentam mudar de profissão. Outros solicitam transferência para novas escolas, na esperança de que uma mudança qualquer engane a angústia. Há muitos professores para quem o início de um dia de aulas é um momento de pura ansiedade. Foram milhares de horas perdidas em reuniões. Quilómetros de caminho para as manifestações. Dias passados a preencher formulários absurdos. Foram semanas ocupadas a ler directivas e despachos redigidos por déspotas loucos. Pais inquietos, mas sem meios de intervenção, lêem todos os dias notícias sobre as escolas transformadas em terrenos de batalha. Há alunos que ameaçam ou agridem os professores. E há docentes que batem em alunos. Como existem estudantes que gravam ou fotografam as aulas para poderem denunciar o que lá se passa. O ministério fez tudo o que podia para virar a opinião pública contra os professores. Os administradores regionais de Educação não distinguem as suas funções das dos informadores. As autarquias deixaram de se preocupar com as escolas dos seus munícipes porque são impotentes: não sabem e não têm meios. Todos estão exaustos. Todos sentem que o ano foi em grande parte perdido. Pior: todos sabem que a escola está, hoje, pior do que há um ano.»
António Barreto. "Retrato da Semana - Aplicadores". Público: 24.Maio.2009

sexta-feira, 13 de março de 2009

Máximas em mínimas (45)

Para os cábulas (dos exames de outros tempos)...
"Ficaram no ânimo de muitos papás e de muitas mais mamãs ódios, maledicências contra os professores e o sistema de prestação de provas. Há-de suceder assim todos os anos e o drama há-de repetir-se, não sabemos durante quanto tempo ainda. É que esses papás e mamãs se esquecem de que na maioria dos casos, não é o sistema de exames que está errado, não são os professores os culpados dos fracassos do 'jovem e esperançoso rebento'. Enquanto reinar nas nossas escolas o prestígio da cábula, do copianço, do assopro; enquanto os nossos estudantes não se habituarem a, durante o ano lectivo, estudar para saber, em vez de tentarem fazer acreditar ao mestre que de facto estudaram, não há sistema de exames que contente os pais desses jovens embusteiros.
Não, senhor pai de família: quando o seu filho se gabar de que conseguiu copiar pela cábula as respostas às questões do ponto escrito, castigue-o e faça-lhe ver que isso não é digno dele nem do grupo que sauda a proeza com risos satisfeitos. Eduque-o; não deixe a educação dele ao cargo exclusivo do liceu; e verá que depois não terá motivo de queixa, nem dos mestres, nem dos examinadores do seu filho."
Aqui e Além - Revista de Divulgação Cultural. Dir.: Carlos A. Dias Ferreira. Dafundo: nº 2, Maio-Agosto.1945, pg. 80

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Alteração de critérios de avaliação em exames nacionais do 12º ano - O que se avalia?

«Exames Biologia e Geologia e Português – Alteração de critérios de correcção de exames nacionais preocupa professsores – A anunciada alteração nos critérios de correcção nas respostas fechadas de "verdadeiro/falso" nos próximos exames nacionais de Biologia e Geologia e de Português está a indignar e a preocupar professores e alunos. Mónica Maia-Mendes, da Ordem dos Biólogos (OB), considera que, a verificar-se, as consequências são "muito graves"; Edviges Ferreira, vice-presidente da Associação de Professores de Português (APP), pensa que será "um escândalo".Para se perceber o que está em causa, basta comparar o que se verificou no ano passado com o que pode acontecer este ano. Por exemplo: na prova de exame de Biologia e Geologia da 2.ª fase de 2008 existiam quatro questões de resposta fechada "verdadeiro/falso". E essas quatro tinham, cada uma, oito afirmações que os alunos deviam assinalar como verdadeiras ou como falsas. Obtinham a classificação máxima, 10 pontos (ou um valor), se acertassem sete, ou seja, ainda que errassem uma. E havia classificações intermédias - sete pontos (para quem tivesse cinco ou seis respostas certas) e três pontos (para três ou quatro). Este ano é diferente no que respeita às provas da disciplina de Biologia e Geologia e da de Português, ambas para o 11.º ou 12.º anos. De acordo com o Gave - Gabinete de Avaliação Educacional (http://www.gave.min-edu.pt/), a cotação total do item só é atribuída "às respostas que identifiquem correctamente todas as afirmações". "São classificadas com zero pontos as respostas em que pelo menos uma das afirmações é identificada de forma incorrecta", "não há lugar a classificações intermédias", pode ler-se. (...)»
O que se pretende avaliar com um exame? O que se pretende avaliar com um teste? O que o aluno sabe ou o que o aluno não sabe? Não é apenas um jogo de palavras; é uma interrogação com que fui confrontado na minha formação e que me preocupa aquando da elaboração de um teste.
Há dias, li a justificação que Sebastião da Gama apresentou para um projecto de ponto de exame em Março de 1950 (publicada na 13ª ed. do Diário). E assim dizia o primeiro considerando: “Quero que o exame seja apenas mais uma aula – e, daí, que seja ameno e agradável; que ensine ainda – em vez de se limitar a averiguar do aprendido; que apareça tão naturalmente, tão fatalmente, como aparece uma aula qualquer: flor que tem a sua raiz, o seu caule, as suas folhas, a sua seiva, em muitas aulas anteriores; inadmissível, sem elas, a sua existência.”
Que distância de princípios! Que diferença de princípios! Para melhor? Por justiça com o saber?

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Minudências (25)

Notas & notas (II)
«A média da segunda fase do exame nacional de Matemática A do 12º ano não atingiu os nove valores, registando um resultado pior que o do ano passado (9,3) e contrariando, assim, a tendência positiva da primeira época em que a média foi de 12,5 valores – a melhor dos últimos anos.» O texto é do Público, mas a notícia já começou a ser divulgada ontem. Questiono-me quanto à validade dos argumentos usados pela tutela do Ministério da Educação para explicar a subida dos resultados em Matemática na 1ª fase, quando dizia que esses bons resultados se deviam ao "efeito combinado de três factores": "mais tempo de trabalho e estudo por parte dos alunos acompanhado pelos professores no âmbito do Plano de Acção para a Matemática", "provas de exame correctamente elaboradas, sem erros e com mais tempo de realização" e um "maior alinhamento entre o exame, o programa e o trabalho desenvolvido pelos professores". Aqui temos como as notas dos exames do Ensino Secundário podem ser transformadas num hino de propaganda. Aqui temos como é utópico, por exemplo, avaliar um professor tomando como uma referência o desvio entre as notas que o professor atribuiu e as que os seus alunos obtiveram no exame nacional. Quem garante que as provas de exame são melhores referências do que as provas feitas ao longo de um ano lectivo? Quem garante que os alunos que vão à 1ª fase são melhores do que os que vão à 2ª fase? A análise dos resultados dos alunos não pode resultar de uma precipitação de conveniência temporal, tem que ser estudada e pensada. Só assim terá interesse para melhorar processos e resultados. O resto…

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Minudências (24)

Notas & Notas
Os resultados dos exames do Ensino Secundário e do Ensino Básico, sobretudo os da disciplina de Matemática (mas também outros), têm alimentado uma discussão um tanto pacóvia e bem à portuguesa. Se os resultados tivessem sido maus (de preferência pior do que os do ano anterior), seria feito o gosto aos catastrofistas, que desancariam a escola, as condições, o Governo e mais mil e uma coisas; como os resultados foram melhores em termos globais, os catastrofistas alimentam a própria catástrofe, duvidando dos resultados, e o Governo explica que o êxito se deveu ao trabalho dos professores e dos alunos e a programas implementados.
Reconheço que o grau de dificuldade de algumas provas foi mais baixo do que em anos anteriores; os próprios alunos o notaram. Reconheço que este quase louvor ao trabalho dos professores é algo estranho, sobretudo depois de toda a ideia que o poder ajudou a criar sobre o trabalho dos professores até há uns meses atrás (pessoalmente, não me agrada este trajecto entre a desconfiança e a confiança tão subitamente implementado). Mas também reconheço que partir dos resultados deste ano para atirar foguetes ou para exagerar nas tintas do facilitismo... não passa de exageros e daquele opinar da mesma maneira sobre tudo e especialmente sobre educação, em que alguns teimam que está tudo cada vez pior.
É fácil fazer demagogia com a educação, seja ela a favor do poder ou contra o poder. É fácil, reconheço. Temo-lo visto. O futuro dirá se houve acasos ou propósitos. Mas também seria necessário que os que se assumem como duvidosos e os que se apresentam como certos e defensores dos métodos se situassem um pouco mais próximos da virtude...