Arlindo Mota é poeta, romancista e estudioso de assuntos vários, com vasta obra já publicada. O próximo título sairá em 19 de Maio, com apresentação na Casa da Cultura, em Setúbal, pelas 18h00. Motivo é a história da democracia na região sadina sob o título Margem Sul - A Emergência da Democracia de Abril no Distrito de Setúbal, em edição da Associação de Municípios da Região de Setúbal. Para a agenda!
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segunda-feira, 15 de maio de 2017
quinta-feira, 21 de agosto de 2014
Duas marcas da prática política no nosso país
1)
«Em matéria de reformas sou licenciada já assisti a reformas do ensino da
linguagem da administração do vocabulário dos costumes e sei lá que mais e só
uma coisa é certa essa coisa é que “atrás de reforma vem reforma” tão certo
como dois e dois serem quatro e que para reformar não há como os portugueses
que reformam rerreformam e rerrerreformam e está tudo sempre a pedir reforma
enfim como já percebi que a reforma é a vocação natural da Pátria (…) sento-me
na minha cadeira e deixo-as passar porque as reformas são como o vento passam
sempre até vir outra mais tarde ou mais cedo embora para dizer a verdade venham
quase sempre mais cedo.»
2)
«Está tudo na mesma e estar tudo na mesma quer dizer que os partidos não se
entendem e os partidos não se entenderem é estarem a ter conversas uns com os
outros para depois mandarem comunicados a dizer que não se entendem eu cá por
mim acho que eles podiam poupar as línguas eliminando as conversas e mandando
logo os comunicados sempre se poupava papel nos jornais e sempre se poupava a
nossa paciência que está a rebentar.»
Os leitores mais atentos reconhecerão o estilo: as
redacções da Guidinha, essa personagem criada pelo Luís de Sttau Monteiro (1926-1993), que
compunha crónicas humorísticas e apimentadas sobre os hábitos sociais, lidas
avidamente no Diário de Lisboa ou em O jornal. Os dois excertos que
apresento mantêm-se oportunos, apesar de terem data: ambos foram publicados em O
jornal, o primeiro em 22 de Junho de 1979 e o segundo em 8 de Setembro de
1978. Isto é: 35 anos não alteraram algumas práticas políticas do nosso país!
Algumas crónicas da Guidinha podem ser lidas em Redacções da Guidinha (Lisboa: Areal Editores, 2003), que recolhe uma selecção de algumas saídas no Diário de Lisboa entre 1969 e 1970, e em A Guidinha antes e depois (Lisboa: "O Independente", 2004), compilação de vários textos surgidos entre 1972 e 1979 em ambos os jornais.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
A política como jogo - Os deputados "municiados"
Ontem, ouvi o deputado Nuno Magalhães na Antena 1 a justificar o encontro entre os deputados do CDS e do PSD com o Governo, a propósito da proposta de orçamento, como uma medida útil e necessária para todos estarem informados e para os deputados ficarem "municiados"... para o debate que se irá seguir, supomos.
Como as palavras são traidoras das intenções, ou, por outras palavras, como as palavras revelam as intenções de quem as profere, fácil se torna perceber que ir buscar o termo "municiar", ainda que como metáfora, só revela que a política não passa de um jogo, que, por vezes, é perigoso, como são todos os jogos de guerra. "Municiar" é termo do vocabulário militar, da área do belicismo. Como exemplo de prática democrática, é pobre, paupérrimo. A democracia faz-se com argumentos, não com balázios! Tem sido esse o nosso azar desde há bastantes anos...
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domingo, 15 de setembro de 2013
quinta-feira, 1 de agosto de 2013
Marcas dos libertários em Setúbal vistas por João Freire e Maria Alexandre Lousada
Pelo trabalho de João Freire e de Maria Alexandre
Lousada, Setúbal vê reconhecidos os seus pontos de contacto (e de acção) que a
integram num pólo importante do “movimento social crítico e alternativo”,
entendido como “identificação analítica de movimentos de acção colectiva (ou
para isso tendentes) que tinham por objectivo transformar de maneira profunda,
estrutural, a sociedade em que viviam, agindo essencialmente no plano social (e
forçosamente também no terreno económico), com rejeição da possibilidade de
concorrerem no plano das instituições políticas e do poder estatal”. Movimentos
deste género serão o anarquismo, o sindicalismo, o cooperativismo e “outras
manifestações públicas de sentido humanitarista”.
Na obra Roteiros
da memória urbana – Setúbal: Marcas deixadas por libertários e afins ao longo
do século XX (Lisboa: Edições Colibri, 2013), os autores deixam a garantia
de que Setúbal foi uma das cidades em que este movimento “foi particularmente
intenso e actuante”, haja em vista o crescimento de Setúbal no final do século
XIX e início do século XX devido à actividade marítima e à indústria
conserveira.
A obra surge dividida em seis partes: “Sítios com
história”, “Militantes”, “Sindicatos de trabalhadores”, “Jornais”, “Grupos e
associações” e “Bairros operários, piscatórios e populares”.
Relativamente ao primeiro grupo, são apresentados três
trajectos, dominados pela parte mais antiga de Setúbal ou “os três núcleos
tradicionais”, estruturantes que foram na construção da cidade e mesmo na
organização social – o centro da cidade, Troino e Palhais-Fontainhas. Nesses
três percursos são identificados 48 sítios com interesse para o “movimento
social crítico e alternativo”, nem todos de igual importância, alguns já
alterados na arquitectura, respeitando sedes de organizações e de jornais, de
oficinas, residências de personalidades militantes, locais de trabalho,
informações sobre as quais é fornecido algum contexto histórico.
Se os percursos são completos, diversificados e bem
orientados, há, no entanto ressalvas. Assim, na terceira proposta, aquando da
chegada ao Largo da Fonte Nova, é dito que o topónimo deriva do facto de tal
fonte ter sido trazida “do Largo do Sapalinho após a implantação da República”.
Ora, a designação “Fonte Nova” para este local existe já desde o século XIV,
ainda que não se saiba exactamente a sua origem. Uma segunda observação decorre
do facto de ser considerado “sítio” visitável (e identitário) uma pintura mural
existente na rua Fran Paxeco alusiva a Jaime Rebelo, na fachada de um prédio
abandonado. Ora, integrar uma manifestação de arte efémera num roteiro faz
correr o risco da sua rápida desactualização, uma vez que tal pintura pode
desaparecer – neste momento, tal prédio está entaipado, com o mural invisível
ao visitante e em degradação…
O capítulo consagrado aos “Militantes” biografa muito
sumariamente 53 nomes, considerados dos “mais destacados” (Afonso do Nascimento
Ventura, Álvaro Figueiredo Simões, Aniceto, António Augusto das Neves, António
Augusto Quaresma, António Casimiro da Silva, António Costa, António Francisco
de Sousa, António Luís, António Mendes, Bruno Palhares, Carlos Alberto, David
Augusto Correia, Emílio Freitas e Silva, Etelvina, Francisco José de Brito,
Francisco Rodrigues Franco, Jaime Rebelo, Januário da Conceição Sabino, João
Atanásio, João da boa-Viagem, João Maria Major, Joaquim Correia, Jorge José
Silva, Jorge Quaresma, José Alves, José Artur Quaresma, José Benedy, José
Bernardo, José Carlos Rates, José Franco, José Luís Martins dos Santos, José
Maria Canoa, José dos Reis Couto, José Viegas Samurrinha, Júlio da Purificação
Tavares, Justino Gomes, Laura Arrábida de Sousa, Leonardo, Leonídio Rodrigues,
Libânio Leal, Lino de Andrade, Luís Branco, Luís Matias, Luísa do Carmo Franco,
Manuel dos Santos Quintas, Manuel de Sousa, Mariana do Carmo Torres, Norberto
Valido, Raul Elias Adão, Sabina Lopes Condeça, Valentim Adolfo João e Xavier
Correia). Compreendem-se as limitações no traçar de uma biografia quando faltam
elementos, mas, relativamente a alguns casos, poderia haver mais precisão –
quem reconhecerá que Carlos Alberto, assim designado e com uma biografia
escassa, é o azeitonense Carlos Alberto Ferreira Júnior, que teve intensa
actividade profissional, política, cívica e cultural?
No capítulo “Sindicatos de Trabalhadores”, são indicadas quase 30 organizações para o período das primeiras três décadas do século XX,
número impressionante e que bem atesta o papel interventivo de Setúbal neste
movimento crítico e social, e, na parte respeitante aos “Jornais”, marcam
presença os emblemáticos Germinal e Voz Sindical, ainda hoje de consulta
obrigatória para conhecer a Setúbal de início do século XX e os seus movimentos
sociais. Quanto aos “Grupos e Associações”, também brevemente apresentados, o
número ascende a 22, um deles ainda com existência nos dias de hoje – Associação
Operária de Socorros Mútuos Setubalense, Grupo Anarquista Avante, Sociedade de
Instrução e Beneficência Germinal, Escola Liberal de Setúbal, Grupo de
Propaganda Livre, Grupo Germinal, Grupo Anarquista Rebeldes, Federação
Internacional de Regeneração Humana, Grupo Anarquista Os Cosmopolitas, Núcleo
das Juventudes Sindicalistas, Centro de Recreio e Propaganda Livre, Grupo Acção
Anarquista, Grupo Artístico Alma Nova, Grupo Esperantista Operário Nova Espero,
Grupo Anarquista Os Intransigentes, Grupo Solidariedade Humana, Universidade
Popular Portuguesa, Sociedade Promotora de Educação Popular, Ateneu de Estudos
Sociais, Grupo Esperantista Disvastiga Stelaro, Grupo Anarquista Os Activos e
Grupo Libertário de Setúbal. No capítulo dos “Bairros Operários, Piscatórios e
Populares”, pode o leitor ver como tais aglomerados criaram identidades ainda
hoje visíveis – Bairro de Troino, Bairro Libertário, Bairro dos Varinos,
Bairros de Palhais-Quevedo-Fontainhas, Bairro da Monarquina e Bairro Baptista.
A obra encerra com uma cronologia que permite ao
leitor seguir a vida política em Portugal e no Estrangeiro em paralelo com o desenvolvimento
do movimento social, num período entre 1864 e 1998, e com a “Lista de
militantes libertários de Setúbal”, em que constam 136 nomes, aí incluindo os
já mencionados no capítulo “Militantes”.
Título produzido no âmbito do projecto MOSCA (“Movimento Social Crítico e Alternativo”),
este contributo de João Freire e de Maria Alexandre Lousada revela-se
interessante para a identidade de Setúbal, embora pudesse ser mais completo. O
leitor poderá obter mais informação sobre este projecto e sobre outras
localidades já em roteiro no sítio http://mosca-servidor.xdi.uevora.pt/projecto/
quarta-feira, 10 de julho de 2013
Irrevogável semântica
Irrevogável
– adj. Relativo a dramatizações imbuídas de afirmação, esteve para ter novo
significado graças à interpretação intempestiva do governante e dirigente
partidário Paulo Portas (n. 1962), mas ficou com o mesmo significado. Passou a
designar governos que podem ser revogados, mesmo se a prazo e mesmo que por
causa de um “irrevogável”, por interferência do político e governante Aníbal
Cavaco Silva (n. 1939). Palavra impronunciável em situações que resultem de
decisões políticas.
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quinta-feira, 4 de julho de 2013
Da continuidade do teatro até ao risco da palhaçada
Corre o teatro de que escrevi ontem o risco de se tornar palhaçada? Temos nós, portugueses, de andar sujeitos a histórias de "tricas" e de jogos de ping-pong? E não há forma de incriminar estas criaturas que nos "governaram" e decidem abandonar o barco em que eles mesmos remaram para rumos sobre os quais não pediram conselhos? E sai-se do governo em alturas destas assim, virando costas a quem lhes pagou (e de que maneira), sem darem uma satisfação plausível, sem pelo menos mostrarem que nos respeitaram? E temos de continuar a suportá-los? Andamos todos a ser gozados. Alegremente. Tristemente.
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quarta-feira, 3 de julho de 2013
Ainda a propósito do teatro... kafkiano
Coincidências?
Há pouco, ouvi na televisão Alberto João Jardim a referir-se ao actual momento político português como algo de "kafkiano". Apesar de por norma não apreciar os comentários do governante madeirense, não pude deixar de reconhecer a oportunidade do adjectivo.
E não é que Jardim coincidiu nas datas? Ao chegar ao "google", vi a imagem de destaque... Passam hoje 130 anos sobre o nascimento de Kafka! A sorte que alguns políticos têm nas coincidências!!! E o azar que temos todos nós porque... data mais kafkiana não poderia haver!
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Não há pachorra para este teatro!
Recordo-me de ter aprendido com os mais velhos que as "garotadas" eram de evitar. Sobretudo porque ninguém nos levaria a sério a partir dali; sobretudo porque não eram marca de responsabilidade e de ser adulto; sobretudo porque eram desrespeito pelos outros. Recordo-me bem, porque ouvi o termo aplicado muitas vezes a situações e a pessoas que tinham deixado muito a desejar.
A situação por que estamos a passar na política portuguesa assemelha-se a essas situações. Porque ninguém percebe (?). Porque não podemos acreditar. Porque não nos respeitam. Porque fomos "enganados" com promessas de horizontes de esperança e agora se esquecem os sacrifícios que foram pedidos, os sacrifícios que têm sido sofridos, valentemente sofridos.
Há políticos que deveriam ter vergonha do que têm feito e não mais se deveriam apresentar como pretensas soluções (que não são, nunca foram, não sabem ser). Indignação, sim, porque temos sido gozados, porque à nossa custa nos têm culpado do que não fizemos (nunca fizemos), porque à nossa custa têm esbanjado tempo, dinheiro, paciência, recursos, respeito.
Não há pachorra para este teatro (sem ofensa à arte)!
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domingo, 26 de maio de 2013
Paulo Morais em luta contra a corrupção, por um imperativo cívico
Paulo
Morais, autor de Da corrupção à crise
(Gradiva, 2013), fundador da Associação da Transparência e Integridade, vice-presidente
da Câmara Municipal do Porto na equipa de Rui Rio, é entrevistado na “Revista”
do Expresso de ontem (nº 2117, pp.
46-52). Uma entrevista a ler, que explica muitos dos mistérios com que vamos
sendo brindados no quotidiano. Uma entrevista a ler, porque temos de saber.
Deixo alguns excertos.
A sedução como corrupção – “Um político
não se pode deixar contaminar, ou cair na sedução do croquete. Há a corrupção
material, comprar pessoas, e há uma corrupção aparentemente menos grave mas
gravíssima, que é a da sedução. Convites para jantar, fins de semana, quinzenas
de férias, bilhetes, etc.”
Dominar o líder – “Os poderosos ou
eliminam o líder ou dominam o líder. Foi o que aconteceu com Passos Coelho, que
entrou relativamente solto.”
Dos mercenários – “Os que andam com a
mão na massa, na sujidade, os mercenários, são 10 ou 15%. Mas são 15% que mexem
em 90% do Orçamento. São pessoas que se sentem seduzidas pela função, vereadores,
deputados, etc. Pelas borlas. Pelas facilidades e empregos.”
Corrupção em Portugal a aumentar – “A
corrupção em Portugal está a subir. Nos indicadores internacionais, entre 2000
e 2010, passámos de 23º para 33º. Somos o país que mais caiu na transparência
no mundo. O que mais regrediu. (…) Se a corrupção diminuir o país melhora.”
Partidos e (des)emprego – “No litoral,
ou nas áreas metropolitanas, estar ligado a um partido é garantia de emprego.
Nos pequenos municípios, no interior, não estar ligado é garantia para o
desemprego.”
Da justiça – “Na justiça, para notificar
um cidadão para prestar declarações, em vez de se fazer um telefonema manda-se
uma carta registada assinada por um procurador a fazer de escrivão e vai um
polícia fazer de carteiro. Kafkiano. Medieval. Justiça agressiva, medieval. A
justiça é gongórica, muita pompa e circunstância. Togas e becas, frases
bombásticas, e o tecto a cair da sala.”
As pontes sobre o Tejo, em Lisboa – “Expropriação,
já, da ponte Vasco da Gama. Não é um negócio, é uma mentira. (…) Percebi ao fim
de não sei quantos anos que os privados entraram com pouco mais de 20% do valor
da ponte. E ficaram não só com aquela ponte como com a outra e com as
travessias do Tejo.”
Resgate, qual resgate? – “Da troika
prefiro nem falar. Devíamos ter tido uma intervenção externa se tivéssemos tido
de facto um resgate. Mas não tivemos um resgate, tivemos uma intervenção para
garantir que o Estado português continuava a pagar os empréstimos à banca. Um
resgate é outra coisa. Existem resgates nas empresas, os chamados acordos de
credores. Processos de reestruturação da dívida em que se isola a exploração do
problema da dívida. Isto é um resgate. (…) Quando a primeira das despesas a
efectuar é dívida, isto não é um resgate, é um sequestro. Não vale a pena
dizermos que não vamos pagar, o que faz sentido é fazer um resgate a sério.
Reestruturar a dívida.”
Gastar acima das possibilidades – “A
história de que os portugueses andaram a gastar acima das suas possibilidades é
o maior embuste. São as três maiores mentiras. Essa é uma, outra é de que não
há alternativa à austeridade. E a terceira é a mania dos desvios, cada governo
que vem diz que havia um desvio do governo anterior. (…) Na Administração
Pública não pode haver desvios, as pessoas não têm a noção disto mas a despesa
pública carece de orçamentação. (…) Dizer que há desvios é brincar com as
pessoas.”
BPN e Alves dos Reis – “O caso BPN está
para este regime como o caso Alves dos Reis para a I República. (…) Se houver
uma investigação competente, conseguem identificar toda a gente. E confiscar os
bens.”
Da censura e da intervenção social – “Acho
que podemos criar uma forte censura social para dar a volta. Em Itália, durante
a operação Mãos Limpas, os políticos entravam nos restaurantes e as pessoas
atiravam-lhes moedas. O meu maior combate é contra o medo.”
quinta-feira, 2 de maio de 2013
Procurar o consenso
O consenso entre as várias forças políticas presentes no Parlamento já há muito que é desejado pelos cidadãos relativamente a questões estruturantes do país. Porque a prática política tem sido estúpida ao pensar que cada um que chega ao governo acaba de descobrir a pólvora e nada se tem interessado por encontrar consenso em torno de questões que vão para além de uma legislatura ou até de duas. No entanto, os partidos nunca quiseram saber disso para nada. Lamentavelmente...
Agora, a palavra da moda é "consenso". Apenas um problema: é que os políticos ainda não chegaram a um consenso sobre o que seja o consenso. Depois de este ponto estar resolvido, talvez se possam começar a desenhar consensos. Não creio é que seja com os políticos que temos. Lamentavelmente para nós!
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terça-feira, 25 de dezembro de 2012
D. Manuel Martins, os governantes e a mensagem de Natal
D. Manuel Martins no tipo de discurso a que sempre nos habituou, directo,
incisivo, contundente. Sempre admirei a frontalidade de D. Manuel e a sua voz,
que se tem erguido nos momentos mais críticos, é a da razão. Podemos
acrescentar às suas palavras que, antes das eleições, os potenciais candidatos
a primeiro ministro deveriam ser obrigados a dizer com quem se coligariam, em
que circunstâncias e que pessoas chamariam para formar governo.
É pedir muito,
eu sei. Mas, depois do que temos visto e do oportunismo que tem rodeado muitas
caras que passam pelos governos, seria o mínimo sinal de respeito pelos
eleitores. Penso que, a saber-se isso, muitas das pessoas que têm passado pelos
governos fariam alterar os resultados eleitorais e, por outro lado, haveria
mais cuidado na formação das equipas de governantes. Serão todos muito boas
pessoas, mas os sinais de incompetência, de impreparação e de pouca consideração
pelos governados têm sido constantes. No tempo pré-eleições somos todos uns
tipos porreiros e cumprimentados em demasia; depois, viramos uns cábulas, que
não trabalhamos, responsabilizados pelo caos a que se chegou, mal habituados…
Na televisão, ao darem a notícia destas considerações de D. Manuel
Martins, disseram que ele não deixou mensagem de Natal porque seria falta de
cortesia estar a apontar caminhos de esperança no contexto em que se está… Uma
pessoa ouve isto com um sorriso de compreensão e de concordância. Haverá mesmo
esperança quando se deseja um 2013 “dentro do possível” ou que o novo ano “vá
correndo”? Por isso, dispensam-se as mensagens governativas de Natal. Depois de
tudo quanto foi dito pelos governantes sobre os portugueses e dos “ralhetes”
sucessivamente cheios de sugestões, já se percebeu onde fica a esperança!
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segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Ainda sobre o feriado do 1º de Dezembro
Ontem, não pude aceder ao blogue. O feriado do 1º de Dezembro, o último feriado do 1º de Dezembro (quem sabe?) passou sob o signo das incertezas. Repito o que escrevi aquando do feriado do 5 de Outubro deste ano:
«Um poder que omite, suprime ou suspende o feriado que assinala a fundação do seu regime político (quando poderia ter optado por outros feriados) ou um poder que omite, suprime ou suspende o feriado que assinala a início da independência do país e do povo que governa (quando poderia ter optado por outros feriados) respeita os fundamentos histórico-culturais do país que dirige?»
Acabar, suprimir, omitir (ou o que quer que seja nesta luta pelo esquecimento) o mais antigo feriado português, símbolo da nossa independência e do que nos garantiu como país, só pode ser um acto de ignorância e de falta de respeito pela nossa identidade, mesmo que ela se construa agora com pins na lapela a mostrar a bandeira de Portugal, mesmo que dela se fale a propósito da necessidade de austeridade para garantia da independência! A independência também já entrou na era da globalização, tão (outrora) desejada e apregoada por alguns políticos no seu fascínio de serem grandes e conhecidos... Tristeza, grande tristeza!, a propósito destes pontapés que vão sendo dados em marcos que contribuíram - esses sim! - para a "fundação" ou "refundação" do que somos como país!
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quarta-feira, 17 de outubro de 2012
No estado a que Portugal chegou, é difícil encontrar melhor...
Concordo com Henrique Monteiro na sua crónica "Vamos falar a sério do próximo governo". Com efeito, já basta de falta de habilidade política, de massacre sobre as consciências dos portugueses, de derivas e desnortes, de incompetência na liderança, de avanços e recuos, de soluções impensáveis porque impraticáveis, de demagogia (seja ela oriunda da política, da finança ou de outra área qualquer). Já fizeram terramotos que chegassem. Já desmotivaram e desmoralizaram qb. Há que optar por outra solução porque a presente já não merece que se acredite.
Das várias encenações inventariadas por Henrique Monteiro, a última parece-me também a menos má. Por isso, a transcrevo:
«Remodelação do Governo atual - É, claramente, a minha opção preferida. Melhor ainda se o Presidente da República conseguir um acordo entre os três partidos subscritores da troika para a reforma do Estado (extinção de autarquias, institutos, observatórios e etc.), a relação com as PPP, revisão constitucional e uma política orçamental estruturada naquilo que foi aprovado (2/3 pelo lado da despesa e 1/3 pelo lado da receita). Para isto, apenas basta que saiam do Governo alguns ministros (como Relvas) que são mais problema do que solução, entrando outros com mais peso político. Seria também necessário que o Presidente usasse a sua influência positivamente, que o primeiro-ministro soubesse governar sem impor e que o líder do PS se sentisse à vontade para entrar neste jogo, controlando a deriva demagógica de alguma esquerda do seu partido. Devido a estas exigências de responsabilidade, é provavelmente a solução mais difícil.»
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terça-feira, 9 de outubro de 2012
Entre os avanços e os recuos... e o respeito que merecemos
Avançar e recuar... Avançar e recuar...
Percebo que, como truque de jogo, possa funcionar para ludibriar o adversário. Não entendo que os governantes o andem a fazer com os governados. É certo que os "erros" se devem corrigir; mas não é menos certo que haver Primeiro-Ministro e Ministros que anunciam coisas publicamente, em hora de grande audiência, com as implicações e os pesos conhecidos, para, no(s) dia(s) seguinte(s), retrocederem... ou é trabalho de casa mal feito ou é imaturidade ou é levar o descrédito ao máximo ou é querer gerar instabilidade social ou é banalizar as comunicações oficiais ou é tudo junto. Os governantes não se podem pôr na pele de comentadores nem conjugar os verbos do "achismo"; exige-se-lhes outra responsabilidade e outra forma de sentir que seja para os governados que lhes pagam e que os mantêm lá.
O pior é que esta crise dos "avanços" e "recuos" tende a alastrar a muitas áreas. Veja-se o que aconteceu, por exemplo, com as matérias dos exames do 12º ano!... Não eram necessários mais grãos de areia na engrenagem, não eram!
Tantas coisas que os governantes têm dito e que, depois, desdizem, ainda que sob a forma de "recuo", de "progressão", de...
Esta mania de tornar o sério banal; esta falta de pensar, de sentir os portugueses, de amadurecer, de decidir contando com o número máximo de variantes... tudo tem feito naufragar a confiança ou que resta (ou podia restar) dela!
Somos um povo que, como os outros povos, merece respeito! Só!
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sexta-feira, 5 de outubro de 2012
O último feriado de 5 de Outubro?
Um poder que omite, suprime ou suspende o feriado que assinala a
fundação do seu regime político (quando poderia ter optado por outros feriados)
ou um poder que omite, suprime ou suspende o feriado que assinala o início da independência do país e do povo que governa (quando poderia ter optado por outros feriados) respeita os fundamentos histórico-culturais do país que dirige?
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Do discurso do Ministro das Finanças
O
Ministro das Finanças de Portugal deu hoje conferência de imprensa que ouvi na
rádio. Apreciei o tom académico, técnico, que utilizou. Não duvido da eficácia
deste tipo de discurso perante os seus pares. Não duvido sequer da sua
competência na área. Duvido da sua capacidade política porque, queira-se ou
não, um ministro tem de ser um político também. E, no caso do Ministro das
Finanças, não foram as alusões à liberdade e ao princípio da independência com
que concluiu o seu discurso que salvaram o tom tecnocrático e elaborado (mesmo
com metáforas da economia), nada vocacionado para os contribuintes saberem,
afinal, umas coisas simples: quanto vão ter de pagar mais, o que resolvem estes
aumentos, quais foram os erros cometidos nos princípios que têm vigorado, o que
fica para fazer, por quanto tempo a situação vai ser esta de nos confrontarmos
com aumentos de impostos, com aumentos de impostos, com aumentos de impostos, o
que vai ser feito para não se repetirem eventuais erros, quais as razões que levam a sacrificar a educação, a segurança social e a segurança interna?
Nada
disto foi dito. Nenhum português pode pensar, depois da conferência de
imprensa, na forma como vai gerir a sua casa, a sua família, a sua vida. Nenhum.
Apenas se sabe que é uma carga “enorme” (adjectivo do Ministro), mas isso não
basta para fazer contas nem para se adivinhar em nome de quê. Rematar com a
liberdade, a democracia e a independência é poético, mas não é objectivo. E a
esses remates já o Almada Negreiros respondia no célebre Manifesto anti-Dantas…
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
Primeiro-Ministro citou "Os Lusíadas"...
O
Primeiro-Ministro citou ontem Os Lusíadas
numa homenagem a Adriano Moreira, dizendo que há “ventos favoráveis” a soprar
nas velas portuguesas. A metáfora é bonita, mas não sei se haverá muita gente
convencida disso…
É que,
mesmo n’Os Lusíadas, os ventos
favoráveis são atribuídos à ajuda de Vénus, a deusa protectora dos Portugueses.
Questão de literatura, como se sabe, artística, pois! Nem os navegadores
acreditavam em Vénus; pediam, isso sim, a protecção da “divina guarda”; o resto
– o pormenor dos ventos, das calmas, das tempestades – era um assunto da
Natureza.
Talvez o
Primeiro-Ministro tenha lido o Público
de ontem, que iniciou uma série de artigos sobre a relação dos Portugueses com
o mar. E justamente o texto ontem publicado expunha como título “Continuamos esmagados pelos Descobrimentos?” Hoje, estaremos mais esmagados por todo este
cenário de crise sobre crise que nos invade – e não me parece que seja só uma
questão de vento…
No
referido artigo ontem saído no Público,
Vasco Graça Moura, um dos entrevistados sobre o tema, lembrava que “no discurso
político há sempre um macaquear do discurso cultural”, pois fica sempre bem
demonstrar a ligação das orientações políticas à identidade cultural de um
povo. Resta saber se a viagem ajudada pelos ventos vai ser apenas uma aventura…
É que o momento histórico que o Primeiro-Ministro escolheu para citar também
teve muito de aventura e – é sabido! –, mesmo apesar dos “ventos favoráveis”
que nos levaram ao Oriente nessa altura, Portugal não ficou economicamente mais
rico depois dos Descobrimentos (e é de economia ou de dinheiro que se tem
andado a falar)…
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domingo, 23 de setembro de 2012
Seremos parvos?
A ver vamos no que vai dar. Isto é: veremos quais as operações de engenharia que vão suceder... Independentemente disso, estas afirmações tomam os portugueses por tolos. Reconciliar com as instituições? Quem estava zangado com elas? De tudo o que se tem passado, a responsabilidade é das instituições? Ou dos arrufos de algumas pessoas que as integram? E já agora: o Conselho de Estado "reconciliou" os portugueses com as instituições ou os governantes com os portugueses?
As voltas que a linguagem da política dá!...
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sexta-feira, 21 de setembro de 2012
"Comissão de acompanhamento à coligação"?
"PSD e CDS criam grupo de acompanhamento
da coligação" é o título de notícia na edição online do Público. Os "grupos de acompanhamento" são a versão
politicamente correcta para assinalar que uns desconfiam dos outros, não é?
A política dos
últimos tempos tem feito justiça à palhaçada! Pena que sejamos obrigados a
assistir!... Agora dá para perceber que todo o barulho se esvai com o salto de uma coligação para as autárquicas...
Será que a "troika" não tem também um pacote que obrigue à ética na política e ao respeito pelos cidadãos e pelos eleitores?
Desde muito cedo acreditei que era nosso dever votar e participar na política. No presente, cada vez mais dou importância àqueles que dizem que não mais irão votar porque se sentem enganados, defraudados, abandonados! Estes são mais sensíveis...
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