Mostrar mensagens com a etiqueta Aquilino Ribeiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Aquilino Ribeiro. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

O Camões que Isabel Rio Novo nos revela (1)

 


Em Junho de 1552, Camões envolveu-se num litígio com o estribeiro Gonçalo Borges, na zona lisboeta do Rossio, ferindo-o “junto do cabelo do toutiço”. Dois meses depois, o poeta estava na cadeia, no Tronco. Por Fevereiro de 1553, o ofendido perdoou a agressão por não ter ficado com maleita decorrente do acto, tendo chegado a acordo com Camões, devendo este suportar as despesas judiciais. Para que esta acção tivesse valor, o processo de perdão tinha de ser submetido a dois juízes — um deles foi o setubalense D. Gonçalo Pinheiro (1499-1567), na altura bispo de Viseu —, que deram parecer favorável.

Como teria sido a vida do mais conhecido poeta português nessa prisão designada como “Tronco”? Do que ali passou não ficou registo pormenorizado, mas há um soneto em que a mágoa camoniana do que ali sofreu pode transparecer — “Em prisões baixas fui um tempo atado, / Vergonhoso castigo de meus erros; / Inda agora arrojando levo os ferros, / Que a Morte, a meu pesar, tem já quebrado.” Na verdade, o soneto poderá referir-se a prisões outras de que a vida se encarregou, mas não deixa de poder estar ligado, pela ideia de sofrimento, ao tempo passado no “Tronco”...

Este apontamento serve para se chegar ao relato que compõe a obra Fortuna, Caso, Tempo e Sorte - Biografia de Luís Vaz de Camões, de Isabel Rio Novo (Contraponto, 2024), digna homenagem ao autor de Os Lusíadas. Neste momento da vida do poeta, o leitor consegue perceber a amargura e a dor vividas na cela pelo recurso que a autora faz a testemunhos da época, num tom em que se é quase convidado a participar numa visita ao castigado — “Imaginemos, pois, Camões numa cela do Tronco, os pés agrilhoados, no meio da escuridão mal dissipada pela luz tremeluzente da candeia espetada numa junta da parede. (...) A cadeia era penosa para o corpo, mas ainda mais violenta para o espírito. (...) Quando as visitas saíam e, com elas, saíam os raios de alegria ou distração, ficavam só as trevas, as paredes húmidas da cela, as noites que nunca mais acabavam, os dias arrastados e sempre iguais.”

As dificuldades em torno do percurso de vida de Camões iniciam-se com o seu nascimento, nas dúvidas quanto a data e local, ainda que, no século XVII, Faria e Sousa, seu biógrafo e comentador, tenha registado a descoberta de um assento de viagem para a Índia datado de 1550, em que consta, como possível passageiro, “Luís de Camões, filho de Simão Vaz e de Ana de Sá, moradores em Lisboa, na Mouraria, escudeiro, de vinte e cinco anos, barbirruivo”. Camões terá, pois, nascido em 1524 ou em 1525, datas nem sempre aceites, pois os documentos originais desapareceram.

Isabel Rio Novo segue esta hipótese quanto ao ano de nascimento, ainda que desvalorizando uma opção forçada por um ano ou por outro. Quanto ao local de nascimento, a biógrafa passa pelas várias possibilidades que a história tem encontrado em função dos gostos dos estudiosos, chegando a concordar com Aquilino Ribeiro, quando disse: “Basta saber-se que nasceu em Portugal, o mais é competição de campanário.” Perante as incertezas, regista o nascimento, no tom de reconstituição que logo prende a atenção do leitor: “No Porto, perto do Porto, ou quando muito em Coimbra, mas muito dificilmente em Lisboa, num qualquer dia do ano de 1524 ou 1525, Ana de Sá e Macedo deu à luz um menino, sendo assistida por outras mulheres experientes, parentes ou vizinhas. Certamente que o parto ocorreu em casa de familiares. Na época, só uma mulher solteira, sem família ou desprovida de quaisquer recursos teria o filho no hospital.” Assim vinha ao mundo, pelo lado paterno, o trineto de Vasco Pires de Camões (galego, de Camos) e de Maria Tenreiro (portuguesa), bisneto de João Vaz de Camões e de Inês Gomes da Silva, neto de Antão Vaz e de Guiomar da Gama e filho da já referida Ana de Sá e de Simão Vaz de Camões.

Até ao final, o livro vai fazer justiça ao título escolhido, retirado da primeira quadra de um soneto — “Verdade, Amor, Razão, Merecimento / Qualquer alma farão segura e forte, / Porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte / Têm do confuso mundo o regimento.” E é quase no final do derradeiro capítulo que a autora justifica a escolha: as quatro forças escolhidas, em nada dependentes da vontade humana, regiam o “confuso mundo” e a vida. E o curso dos dias de Camões — pelos valores, pelas ocasiões, pelas brigas, pelo saber, pela instabilidade, pelos devaneios, pelos (des)amores, pela memória, pelos contextos, pelos exílios, pela dor, pelo dever consagrado à pena e à espada — fez parte desse horizonte, em tudo contrário à segurança anunciada pelo primeiro verso...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1358, 2024-08-28, pg. 9.


quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Manuel Mendes na rota do Douro



“A terra e os homens reduzi-os à fruste expressão da arte que é meu ofício. Apenas uma molhada de singelas páginas de ‘roteiro’, colhidas pelos montes, ao sabor do acaso, a que à falta de melhor chamei ‘sentimental’, decerto por me haver tocado o coração quanto vi no meu deambular por essas serranias e esse prodigioso rio.” Assim Manuel Mendes (1906-1969) apresenta o seu livro Roteiro Sentimental - Douro (1964), o primeiro de uma trilogia que manteve a expressão “roteiro sentimental” no título, conjugando viagem e afecto pela via da escrita.

São quinze crónicas produzidas entre 1961 e 1963, inspiradas pela paisagem duriense, fortemente dominadas pela figura humana, sofrida e olhada de uma perspectiva de que não está alheio o neo-realismo - em São Salvador do Mundo, perante a dificuldade de exercer o cultivo no alcantilado da paisagem, o viajante anota: “Com assombro e com angústia, fica-se a pensar no destino desta mísera gente, na sua existência de bichos abandonados e bravios”, numa serra que é “teatro das dores e infortúnios deste homem tão indigente como heróico, diante de cujo trabalho e sacrifício temos de nos respeitar com respeitosa admiração.”

Manuel Mendes não se deixa impressionar apenas a partir do longe e a sua curiosidade leva-o a demandar os aspectos da vida naquele cenário que escorre desde Barca de Alva até ao Porto, com pormenores do quotidiano humano. Exemplo perfeito é o registo “Douro abaixo”, a mais longa crónica, relato da descida do Douro desde Pinhão até ao Porto num barco rabelo, diálogo com a Natureza e com os homens, dando conta do vocabulário específico dos “marinheiros” do rio e da sua arte, aproximando o leitor das conversas do arrais, o mestre Colino, homem que vai explicando e se sente a entrar para a história, não querendo que o ouvinte perca pitada e advertindo o viajante: “Pegue no livrinho e assente!” À mistura, são tecidas considerações sobre o que viria a ser o amargo futuro destes homens e desta região por razões tão diversas como a preferência por outros meios de transporte do vinho ou o papel dos ingleses sobre a economia local.

Estas viagens são pretexto para evocações de figuras como Camilo Castelo Branco (que andou fugido por Sabrosa cerca de 1848), Barão de Forrester (o inglês que pugnou pela qualidade do vinho do Porto, desenhou um mapa do Douro e acabou afogado no rio num acidente de barco), Fanny Owen (a jovem protagonista de uma história de amor dramática), Aquilino Ribeiro (cuja obra “será por longo tempo recordada”), Guerra Junqueiro (na visita a Quinta da Batoca, nas imediações de Barca de Alva) e Raul Brandão (no derradeiro texto, em olhar sobre a Cantareira, onde o Douro tem a foz).

Em torno do rio, há também a oportunidade para a lembrança do que foi a praga da filoxera no século XIX (lembrada pelos “mortórios” na paisagem), da destruição das cheias (sem se saber se “é o rio que transborda” ou “as coisas que por si irremediavelmente se afundam”), do movimento da vindima (e do retrato social dos homens e mulheres que ali labutam), da arte dos pedreiros fixadores dos socalcos com a participação das mulheres, dos trabalhos durante o inverno. E há também a evocação do momento de festa que é consoada (e da “roupa velha”) ou dos sabores, como as histórias em torno da alheira.

A dado passo, classifica Manuel Mendes estes seus escritos como “páginas de estudo e evocação”, resultantes de “empenho do espírito, amor à cultura”. E o leitor não pode deixar de se impressionar por estas telas que eternizam momentos do passado da região duriense, talvez indispensáveis para a fixação da identidade.

* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 966, 2022-11-23, pg. 9.


terça-feira, 12 de abril de 2022

Centésima crónica - Dos livros



De livros, e do que deles fica, se tem falado por aqui. Na centésima crónica, algumas justificações para a leitura e para os livros. Diversificadas, mas sempre com o prazer da leitura e do livro em fundo, por alguns dos que escrevem.
Afonso Cruz: “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.” - O vício dos livros (2021).
Alice Brito: “Pode-se frequentar um livro, um verso, uma página. Há livros que têm melhor vida que outros. Em carícias, sublinhados, empréstimos, conversas e paráfrases. Há livros que têm mesmo uma vidinha de lordes. Emprestam imaginários, personagens e vistas largas. São referidos, referenciados, estudados com deleite. São lidos por muitos olhos. À noite, de dia, às escâncaras ou clandestinamente. É a vida. Também há alguns que não valem nem o papel que gastam. Só dizem parvoíces.” - As mulheres da Fonte Nova (2012).
Aquilino Ribeiro: “Para uma criança, livraria que ela possa revolver e folhear à vontade é divertida como um presépio e mais instrutiva que uma escola. Frontispícios, gravuras, cul-de-lampes, vinhetas, que curso de humanidades!” - Anatole France (1923).
Dulce Maria Cardoso: "Os livros oferecem-se sem escolha a todos os que os quiserem ler. E, se redimem, fazem-no de forma tão caótica e tão insondável que ninguém poderá ter nisso qualquer esperança. Talvez os livros escrevam direito por linhas tortas. Como Deus." - na antologia O Prazer da Leitura (2011).
Eduardo Lourenço: “O relacionamento com os livros – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas.” - em entrevista a Carlos Vaz Marques, em Os escritores (também) têm coisas a dizer (2013).
Eugénio Lisboa: “Quando um livro nos impressiona e marca profundamente, a seguir a ele, nenhum outro livro nos parece apetecível.” - Vamos ler - Um cânone para o leitor relutante (2021).
João Bigotte Chorão: “Os livros podem fazer um erudito, mas é duvidoso que tornem civilizado quem o não seja.” - Diário 2000-2015 (2017).
José Régio: “Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” - Páginas do diário íntimo (1994).
José Tolentino Mendonça: “Em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” - O que é amar um país - O poder da esperança (2020).
Maria Judite de Carvalho: “Quem não lê não sabe o que perde. Os livros são os nossos melhores amigos, é uma frase feita mas é uma frase certa. Amigos que nos ajudam, que nos acompanham, que nos enriquecem com o seu saber, que nos dão momentos agradáveis de fuga ao quotidiano ou momentos pouco agradáveis mas necessários de chamamento à pedra da vida.” - Diários de Emília Bravo (2018).
Rita Ferro: “Livros são bússolas que me guiam nos momentos sem Deus, substitutos de um misticismo que não me foi destinado, ou que a vida, com os anos, foi dissolvendo.” - Veneza pode esperar - Diário 1 (2014).
Serafim Ferreira: “O livro será o melhor instrumento para decifrar todos os códigos e desvendar os paraísos artificiais (ou não) que pela eternidade hão de alimentar a aventura do homem.” - Olhar de Editor (1999).
Valter Hugo Mãe: “Nenhum livro se faz sem essa rendição à maravilha em detrimento da verdade.” - Contra Mim (2020).
* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 826, 2022-04-12, p. 11.

domingo, 11 de novembro de 2018

Valle-Inclán: As ruínas das coisas e das vidas que a guerra alimentou



“Era meu propósito condensar num livro os vários e diversos lances de um dia de guerra em França.” Assim começa Ramón del Valle-Inclán o seu livro A Meia-Noite - Visão Estelar de um Momento de Guerra recentemente editado em versão portuguesa (Porto Editora / Assírio & Alvim, 2018). Era, pois, intenção do autor relatar a guerra, a partir de diversas latitudes e a um tempo, de forma a haver uma visão de conjunto. Coisa impossível, como se imagina - e como o próprio autor admitiu no mesmo texto prefacial, ao dizer que “todos os relatos estão limitados pela posição geométrica do narrador.”
Valle-Inclán (1866-1936), galego, pertencente a um país que manteve a sua neutralidade aquando da Primeira Grande Guerra, cedo assumiu uma posição a favor dos Aliados, ao subscrever, em 1915, o “Manifiesto de los Intelectuales Españoles”. No ano seguinte, em Abril, por indicação do seu amigo Jacques Chaumié, tradutor, visitaria França, andando, pelos finais de Maio e início de Junho, pela “Frente”, na zona das trincheiras. Passados uns meses, entre Outubro de 1916 e Fevereiro de 1917, o periódico madrileno El Imparcial publicaria as crónicas resultantes dessa viagem, que Valle-Inclán reuniria em livro ainda em 1917, apresentando visões de uma guerra que só viria a acabar em Novembro de 1918.
Ainda na nota introdutória, Valle-Inclán refere já indicações do que viria a ser o sofrimento por causa da guerra, antecipando um quadro que foi real e dramático: “Quando os soldados de França voltarem às suas aldeias, e os cegos caminharem pelas veredas com os seus cães, e os que não têm pernas pedirem esmola à porta das igrejas, e os mancos correrem de um lado para o outro com alegre ofício de recebedores do dízimo; quando no fundo dos lares se nomearem os mortos e se rezar por eles, cada boca terá um relato distinto, e serão centenas de milhares os relatos, expressão de outras tantas visões, que acabarão por resumir-se numa visão, cômputo de todas. Desaparecerá então o pobre olhar do soldado, para criar a visão colectiva.” De facto, todas as marcas que ficaram da guerra, físicas ou psicológicas, assemelharam-se a um estado de ruína humana, povoado pela dor, pelo sofrimento, pelo desgaste e pela descrença. Depois de um século cheio de guerras como foi a época oitocentista, o menos desejado era o ciclo da guerra - mas foi exactamente o que aconteceu.
Nas trincheiras visitadas por Valle-Inclán, fedia “a morto como na jaula das hienas”, não se calando “o estrondo do canhão rolante pelo seu céu”. O desprezo pelo humano era intenso - “os ratos correm vivazes pelos taludes, as ratazanas aguadeiras pelo fundo lamacento, e rajadas de vento trazem frias pestilências de cadáver”. O repórter vai passando e o que vê são marcas dessa ruína que dos edifícios passa para os humanos e para as relações pessoais - se, de um e de outro lado, “as casas mostram os seus esqueletos vermelhos e fumegantes”, noutro ponto, são “cadáveres de alguns soldados alemães” que “flutuam nas águas” apresentando um aspecto de horror, “inflados e tumefactos”, uns sem cabeça, outros com marcas de flagelo nos corpos.
Os cenários descritos são infernais - aldeias a arder, personagens trágicas, bombas que cavam a terra. E, enquanto a tempestade de ferro atroa os ares na sua função destruidora, “os mortos ficam para trás, esmagados sobre a terra, seminus, com as roupas desfeitas pelas explosões” e os feridos “arrastam-se pelas esgaivas, procuram onde esconder-se, e, encontrando um local seguro, levantam os seus clamores pedindo socorro”. Para onde o olhar se dirija, “a névoa está cheia de vozes perdidas, empenhadas de dor”.
Foi Aquilino Ribeiro que, em Alemanha Ensanguentada (1935), registou sobre os bombardeamentos da cidade de Arras que “nesta linha se escreveu uma epopeia de sangue e de bravura que escurece a Ilíada”. Nessa viagem aos campos de batalha que Aquilino fez em 1928, embora assistindo-se já à reconstrução ensaiada pelos franceses, vai havendo sempre margem para registar as “árvores decapitadas”, a paisagem que “trasborda de melancolia” ou o chão em que “os mortos escutam”. Dez anos eram passados sobre o final da Grande Guerra e as marcas da dor e do sofrimento permaneciam, mesmo que sob as luzes da reconstrução. A mesma cidade de Arras foi apresentada, depois de destruída, por Valle-Inclán como “o espectro de uma cidade bombardeada”.
Na sua missão de observador, o cronista vai também contando histórias ouvidas, dramáticas de dor, pungentes no sofrimento que transmitem, como a da rapariga francesa grávida que se volta para o médico e clama: “Doutor, eu não quero ter um filho dos bárbaros!... Não quero carregar com este! Se não me liberta desta cadeia, mato-me!”
Valle-Inclán participou também numa viagem aérea de observação e sentiu como os soldados a tensão do assalto às trincheiras, ora classificado com qualitativos como “magnífico” e “pujante”, ora anulado o heroísmo perante um “cego impulso de vida sobre o fundo de dor e de morte”.
As crónicas são curtas (pouco mais de uma centena de páginas para quarenta capítulos), não ultrapassando o absolutamente necessário quanto a narração ou a descrição, mexendo sobretudo com a forma de sentir. O parágrafo final apresenta uma ideia premonitória do que será o final da guerra, trazida pelo nascer do dia que permite ver o que aconteceu durante a noite: “Nos átrios das velhas cidades estalam as granadas, caem as pedras das catedrais, os pórticos corados de santos tremem nos seus cimentos, rompem-se as rosáceas, e as andorinhas voam assustadas pelas naves desertas. À luz do dia que começa, a terra mutilada pela guerra tem uma expressão dolorosa, reconcentrada e terrível.”
Os textos deste A Meia-Noite - Visão Estelar de um Momento de Guerra encontram unidade no cenário catastrófico que se vai tornando visível, espécie de caos, num mundo povoado de destruição, construído de ruínas. As personagens que entram nas histórias são fugazes, ajudando a compor o sentido da dor, quase tendo necessidade de desaparecerem, não vá a ruína tomar conta delas...
Não sendo esta uma obra dominada pelo cunho autobiográfico de um combatente - que Valle-Inclán não foi -, é preenchida pelo traço autobiográfico do testemunho, questionando a guerra e todos os seus efeitos, confrontando o heroísmo humano com a morte, afinal o que mais hipóteses tem de acontecer numa situação de guerra. Rapidez, leveza e emoção, associadas a uma quase prosa poética, em que o ser humano se confronta com o inimaginável, são aspectos fortes deste livro, que ajuda o leitor a conhecer o cenário que os combatentes usaram, já que são eles, colectivamente, que agem em todas as histórias e que, pensando na vitória, semeiam a tempestade bélica.
Esta obra de Valle-Inclán é uma proposta de leitura para este tempo em que passa o centenário do armistício, uma proposta de leitura para que o mundo seja construtor de paz e não espaço de guerra.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Para a agenda: João Almeida, o último fuzilado, e outras histórias da Grande Guerra



Seis abordagens relacionadas com a Primeira Grande Guerra - “A recepção do antimilitarismo no movimento operário português”, “Os partidos políticos face à Guerra”, “Jaime Cortesão: Um intelectual perante a Guerra”, “Aquilino Ribeiro - Diário do início da Guerra”, “O impacto social e político da I Grande Guerra no movimento operário” e “O fuzilamento do soldado João Almeida - Da farsa de um julgamento à tragédia de uma execução” - constituem o conteúdo da obra João Almeida, o Último Fuzilado, e Outras Leituras da Grande Guerra, assinada por Albérico Afonso Costa e por João Reis Ribeiro e apoiada pelo Instituto Politécnico de Setúbal.
Está para breve, as provas já estão em revisão...

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Jean Jaurès, 100 anos depois, revisitado com Aquilino Ribeiro


 
No dia 1 de Agosto de 1914, o jornal L’Humanité, que Jean Jaurès fundara e dirigia, trazia, ao largo de toda a primeira página a notícia sobre a morte do seu director sob o título “Jaurès assassiné”.
Na noite do dia anterior (passam hoje 100 anos), Jaurès jantava com colegas e amigos no café “du Croissant”, em Paris, bem perto do jornal em que trabalhava e, pelas 21h40, era alvejado mortalmente por Raoul Villain, jovem nacionalista adepto da entrada na guerra. Assim terminava o percurso de 54 anos de um dos mais célebres oradores, chefe socialista, pacifista, que consternou a França, país que estava a um passo de entrar na Grande Guerra.
No dia anterior, em 30 de Julho, Jaurès publicara no L’Humanité um texto que reflectia a sua posição contra a entrada na guerra, que toda a gente achava emergente: «Les forces de paix pourront donc s’exercer. Le devoir redouble pour nous tous d’utiliser ces jours ou ces heures de répit pour dénoncer le crime, pour affirmer et organiser la solidarité des prolétaires de tous pays contre l’abominable menace.»
A segunda quinzena de Julho fora, de resto, vivida por Jaurès num incessante combate contra a guerra e em favor da paz. Célebre ficou o seu último discurso, em Vaise (Lyon), em 25 de Julho, perante numerosa multidão: «Je veux vous dire ce soir que jamais nous n’avons été, que jamais depuis quarante ans, l’Europe n’a été dans une situation plus menaçante et plus tragique que celle où nous sommes à l’heure où j’ai la responsabilité de vous adresser la parole.» Era a descrença na resolução diplomática do conflito que opunha a Áustria-Hungria à Sérvia desde o assassinato de Francisco Fernando (28 de Junho), com o receio de uma catástrofe, que, na verdade, se agigantava. E Jaurès avisava: «À l’heure actuelle, nous sommes peut-être à la veille du jour où l’Autriche va se jeter sur les Serbes, et alors Autriche, Allemagne se jetant sur les Serbes et les Russes, c’est l’Europe en feu, c’est le monde en feu. (…) La politique coloniale de la France, la politique sournoise de la Russie et la volonté brutale de l’Autriche ont contribué à créer l’état de choses horrible où nous sommes. L’Europe se débat comme dans un cauchemar.»
O pesadelo aproximava-se. E mais vertiginosamente do que parecia, como a História comprova.
No seu diário de 1 de Agosto de 1914, publicado sob o título É a guerra (1934, com reedição recente pela Bertrand), Aquilino Ribeiro, que estava em Paris, escrevia: «Pouco se fala em Jaurès, ídolo da multidão. Em tempo ordinário o seu assassínio teria provocado o massacre dos extremistas da “Action Française”; a revolta, talvez, do Paris popular. O mundo acaba de perder neste político de cabeça sempre erguida para o céu uma das suas generosas e magníficas forças. Era o tribuno por excelência. Ouvia-se com o mesmo prazer com que se ouve um trecho de Beethoven executado pela orquestra Lamoureux ou tirada da Antigone declamada pela Bartet. A última vez que me foi dado gozar tal prazer foi nas Buttes-Chaumont, combatiam os socialistas encarniçadamente a lei militar dos três anos. No bom gigante barbaçudo, passos pesados de cá para lá e de lá para cá de urso em jaula, olhos luminosos divisando para além do horizonte comum, voz martelada de sonoro metal, havia ao dispor, revolver, sacudir o auditório qualquer coisa da magnitude do vento a encapelar o mar. A Terceira República não conta personalidade mais alta. Em meu peito choro-o como se fôssemos do mesmo lar. Sempre aquela Rua du Croissant, a dois passos do bulevar, estreita, lívida, saco, assim a jeito de caixão com a tampa erguida à espera do defunto, me deu impressão de aziaga. Satisfez no sentido mortuário que lhe achei. Mas terrível absurdo do destino! Agora que Jaurès, ontem homem de todas as liberdades, inimigo jurado dos preconceitos, transigia com o movimento nacionalista, arrastado na corrente como coisa sem peso, nada ele, um fanático do nacionalismo, não se apurou ainda se com taras fisiológicas ou apenas com as taras que provêm de credo destemperado, o abate a tiros de “Browning”! Receoso, o Governo apressou-se a condenar o atentado, mandando grudar pelas paredes um cartaz de reprovação. Igualmente Poincaré. A estas horas o grande orador jaz de queixos atados entre as quatro tábuas do ataúde e ninguém eleva a voz. A Humanité tem um pobre ar de viúva estúpida, embebedada com pêsames e lágrimas. Nas páginas do número de hoje fala-se com mesura e baixinho. Hervé, na corneta do diabo, papel cor-de-rosa mas a cheirar mal, prega em largas parangonas: ‘Défense nationale d’abord! Ils ont assassiné Jaurès. Nous n’assassinerons pas la France’.»
Uma década depois, em 1924, Jaurès foi para o Panteão. Quanto ao seu assassino, Villain, foi julgado e libertado em 1919, exilou-se em Espanha e aí viria a ser fuzilado pelos republicanos em 1936.
 

domingo, 20 de maio de 2012

José-António Chocolate: «Todos os afectos»


Quando completou 50 anos de vida literária, Aquilino Ribeiro discursou para os amigos reflectindo a partir de uma pergunta: afinal, quem lhe tinha encomendado o sermão, ou, por outras palavras, o que o levara a trilhar um caminho semeando palavras em vez de fazer outras coisas que lhe dariam igualmente prazer? E a justificação era apenas uma: o apelo das palavras, do dizer, qual sina que se lhe impusera.
José-António Chocolate perfaz agora os 30 anos sobre a sua actividade poética e brinda os amigos com uma antologia de afectos que sobrevoa sete livros (Todos os afectos. Setúbal: Estuário, 2012). E cabe-nos perguntar: antologiar-se porquê? Não são muitos os poetas que se antologiam, mas, chegados a este ponto, pretendem buscar os arquétipos da poesia que os enformou, talvez reescrever os fundamentos e os pretextos da sua própria arte poética, talvez apurar o essencial do essencial porque a palavra poética tem esse poder de síntese e de afirmação universal, forma suprema de dizer através do canto. Mas o poeta antologia-se porque se escolhe a si próprio, seleccionando o melhor, o mais dizível, o mais forte da mensagem, numa quase exposição das tábuas da poesia, numa quase chieira do que foi o seu percurso.
Conheci o José-António Chocolate devido à poesia. Não sei quando foi, mas foi há tempo bastante, porque me lembro do nome dele em antologias e só depois em livro. Dessa poesia lida passámos depois para a poesia falada e encontrámo-nos em vários momentos para apreciar poesia. E tem sido curioso que os dizeres de José-António Chocolate se refugiem na riqueza da construção literária, com apreciações aos momentos e à vida que ressaltam de imagens poéticas, do burilar as palavras.
Se assim tem sido na vida, mais intenso tem sido na escrita. Repare-se, de resto, no poema “Essencial a poesia”, com que nos presenteia no grupo de inéditos que integra esta antologia. A sequência do poema é lógica e circular. No início: “O poeta renova-se na construção do verso.” No terceto final: “É essencial que a poesia transfusa tome / lugar no corpo do poeta, / seja criadora e seja sua criação.” Os caminhos que esta quase arte poética percorre aproximam os sentidos daquilo que é um permanente dar forma, seja por acção da terra viva, seja por intervenção da humana mão. O poeta assemelha-se ao artífice que pode estar nas formas que o oleiro constrói, na “linha que se entrelaça no bailado da agulha” ou na terra que faz germinar depois de esventrada. São imagens de criação estas, associadas ao trabalho e ao tempo, ao amor à arte e aos segredos da Natureza que ecoam no homem, que o poeta edificam.
Lê-se este poema e fica-se sem saber quem primeiro nasceu: se o poeta se o poema. Mas este texto, edificado sobre apenas duas estrofes, lança-nos naquilo que é o essencial da poesia de José-António Chocolate: o dizer da felicidade, muito mais do que a felicidade do dizer. Este poeta canta o amor, divaga pelo prazer, baloiça entre os sentidos, afirma o “eu” e a peculiaridade da sua visão do mundo, olha a humana condição, mede-se com o tempo, preocupa-se com a morte, pinta o gosto e o sabor da vida, integra a paisagem. Sempre numa situação de natural equilíbrio, em que a liberdade de ser se completa com a liberdade de criar, com a demanda da palavra mais certa, mais laboriosamente escolhida para valorizar o dizer.
E, a propósito deste dizer, não pode passar ao lado o Alentejo, molde certeiro e cadinho em que o poeta se amalgamou, dando oportunidades a poemas que poderiam – deveriam – integrar qualquer antologia que sobre o Alentejo se faça. Profundo respeito pelas origens, mais profundo reconhecimento pelas teias que entretecem o poeta, que assinala raízes, sublinhando figuras tão importantes como a avó ou a neta, uma e outra motivos de poema, com afectos materializados na palavra.
Poesia feliz é esta em que José-António Chocolate se antologia. Para tal concluirmos, bastaria um poema como “Apontamento”, que toma para motivo algo aparentemente insignificante: dois riscos, sobre a toalha, ao canto da mesa. E a operação poética constrói-se a partir daí pela decifração do desenho possível – o lavrar de um arado, num revolver de terra, os gumes a sulcarem uma vida. E a suma revelação – com este desbravar, confessa o poeta: “sangra o corpo / e canta-me a alma / o tempo vivido.” Outra forma de justificar a poesia. Outra maneira de a poesia se afirmar como torno em que o barro é a vida e a palavra e o oleiro é o poeta.
Trinta anos de palavras que se cantam e que reconstroem o quadro do poema maior, aquele que surge da oficina feliz, aquele em que a linha se “entrelaça no bailado da agulha”.
E, para voltar ao início, porque uma antologia é também o círculo necessário… todos percebemos a razão pela qual Aquilino Ribeiro disse que esta necessidade de semear palavras era uma sina… Os 30 anos atestam-no e Todos os afectos também. Sigam esta sina, pois!
[Lido na apresentação pública da obra, em 19 de Maio, ocorrida em Setúbal, no Salão Nobre da Câmara Municipal de Setúbal]

terça-feira, 20 de julho de 2010

Anatole France segundo Aquilino Ribeiro


Na tarde de 5 de Abril de 1923, Aquilino Ribeiro foi autor de uma palestra no Teatro Nacional, versando a personalidade de Anatole France. A sessão integrava-se num programa em benefício da publicação de uma antologia luso-brasileira na Alemanha. A apresentação do conferencista esteve a cargo de Cardoso de Oliveira, embaixador do Brasil, que não poupou elogios ao jovem escritor português, então com 38 anos e tendo já publicado títulos como Jardim das Tormentas (1913), A Via Sinuosa (1918), Terras do Demo (1919) e Malhadinhas (1922).
Logo desde início da palestra, Aquilino não esconde o seu fascínio pelo autor francês (que viria a morrer no ano seguinte), considerando-o “o génio mais representativo da latinidade” e um “sobrevivente da era que expirou”, isto é, da fase anterior à Grande Guerra (1914-1918). A adesão de Aquilino a Anatole France advém não apenas do conhecimento que detém da sua obra, mas também do facto de o ter visto duas vezes em Paris: uma, no cais do Sena, folheando livros nos alfarrabistas (elemento que serve de identificação entre as duas personalidades); outra, na Casa dos Estudantes, defendendo a utopia e convidando o público a “arquitectar repúblicas imaginárias como Platão, Tomás Morus, Campanella, Fénelon”.
Depois de relatar estes dois encontros, Aquilino aprecia a formação e descreve a obra do mestre, fazendo ressaltar a sua “personalidade pensante e artística”, com o afecto ao saber e à leitura e uma cultura profundamente humanista, percurso que levará o autor português a desprezar aqueles que, por esses tempos, em França, tentavam minimizar a obra de Anatole.
No final da conferência, Aquilino cita longamente um dos então mais recentes livros do seu mestre francês – La vie en fleur (de 1922) – com o objectivo de apresentar o retrato traçado do homem seu contemporâneo, com a ideia ainda no que fora o grande conflito vivido na Primeira Grande Guerra (feito a cujo início, em Paris, Aquilino assistira e de que nos deixou páginas diarísticas em É a Guerra, apenas publicado em 1934), condenando os senhores da guerra: “Os grandes industriais e os grandes financeiros têm interesse em ser belicosos não só pelos lucros que lhes trazem os fornecimentos de guerra como pelo incremento que o conflito traz aos seus negócios. De povo para povo, crê-se cegamente na vitória; duvidar, seria crime de lesa-pátria. As guerras, na maioria dos casos, são decididas por meia dúzia de sujeitos. A facilidade com que arrastam o povo é inacreditável; ainda que gastos e regastos, os meios a que recorrem não falham nunca. É da praxe lançar primeiro a público os enxovalhos recebidos do estrangeiro e que só podem ser lavados com sangue, quando, em boa moral, as crueldades e perfídias que a guerra engendra, muito longe de honrar o povo que as praticou só o podem cobrir de imortal infâmia.” Os comentários de Anatole France assentavam, pois, nesse conflito que se arrastou por mais de quatro penosos e mártires anos. E, a terminar, Aquilino vai ainda buscar outros ensinamentos devidos a Anatole no mesmo livro, verdadeiros princípios sobre o género humano: “Tenho os homens, em geral, por mais maus do que parecem. São uns e mostram-se outros. Obrigados a cometer acções que mereceriam a reprovação geral, escondem-se; na prática de actos que podem ser louváveis, exibem-se.”
O que atrai Aquilino em Anatole France é este conhecimento do ser humano, que não se pode esconder na literatura. E o autor de La vie en fleur será uma constante no percurso literário aquiliniano. A palestra interessou os editores e foi publicada logo nesse ano sob o título Anatole France – Conferência (Lisboa: Livrarias Aillaud e Bertrand, 1923).

domingo, 20 de setembro de 2009

Clássicos no "Expresso"

O semanário Expresso iniciou ontem uma colecção de seis livros intitulada "Clássicos da Humanidade", títulos inicialmente publicados pela Sá da Costa ao longo da década de 30, com sucessivas reedições até há bem pouco tempo, em que foi mantida a versão do texto mas houve a colaboração de novos ilustradores.
Trata-se de adaptações de obras clássicas feitas por escritores de nomeada como Aquilino Ribeiro, João de Barros ou António Sérgio, visando o público juvenil ou com dificuldade em aceder aos textos clássicos. Os objectivos destas obras estão, de resto, bem expressos no título que foi aposto à adaptação do poema épico de Camões, que esteve a cargo de João de Barros - Os Lusíadas contados às crianças e lembrados ao povo.
A colecção promovida pelo Expresso abriu com a adaptação feita por Aquilino Ribeiro da obra de Fernão Mendes Pinto, Peregrinação, e vai prosseguir com mais cinco títulos, a sairem semanalmente (Os Lusíadas, Viagens de Gulliver, A Odisseia, História Trágico-Marítima e A Eneida). Obviamente, pela qualidade das adaptações, pelas referências que estas obras constituem e pela necessidade de saber, recomendei aos meus alunos que convencessem os pais a adquiri-las (a Peregrinação, saída neste Sábado, foi oferecida e as obras seguintes terão o custo de 1,00 € a adicionar ao preço do jornal, factor a considerar, uma vez que o custo total da colecção será de 5,00 €, enquanto, se fossem adquiridos os mesmos títulos na edição normal, o custo dos seis livros ascenderia a cerca de 70,00 €...). Os livros têm um formato um pouco mais pequeno do que os correspondentes que estão a correr no circuito livreiro. Pena é, no entanto, que tenham sido omitidas as ilustrações, ainda por cima com a agravante de, na capa, constar a informação "Ilustrações de André Letria"! De facto, nesta edição, do ilustrador é apenas o desenho da capa, uma vez que os outros desenhos, que acompanham a edição normal, foram suprimidos... Claro que para a leitura é o texto o mais importante, mas não pode ser menosprezado o papel que a ilustração tem nas edições destinadas ao público juvenil, muitas vezes pelo esclarecimento adicional, pela recriação ou pela estética...

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Miguel Torga na Biblioteca Nacional

Os passos da vida de Miguel Torga podem ser acompanhados em exposição que está na Biblioteca Nacional, em Lisboa, com a presença da voz e da escrita do próprio. É a “Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento” do escritor, que já esteve em Amarante, Famalicão e Coimbra e que irá ainda até ao Porto, Bragança e Santiago de Compostela. Em Lisboa, Torga pode ser visitado até 12 de Outubro.
Por esta exposição passam imagens, livros, manuscritos, jornais e citações do Diário, o espelho em que Torga se quis deixar reflectido para a memória, feito ele mesmo com as memórias dos dias de uma vida que decorreu entre 1907 (12 de Agosto) e 1995 (17 de Janeiro).
Nas palavras do comissário da exposição, Carlos Mendes de Sousa, reproduzidas do catálogo, esta exposição é “o trajecto delineado pela vida e pela obra de Miguel Torga, revelando-se, deste modo, a extensão e a coerência do percurso de um dos maiores escritores de língua portuguesa do século XX”. A exposição é, então, um ponto de partida, um convite para a leitura e para o conhecimento de Torga, sendo, no entanto, pena que o espaço da mostra não tenha a profundidade necessária para uma visita sem estorvo e sem esforço, dada a sua exiguidade.
Em exibição estão também documentos sobre as perseguições que a polícia política moveu a Torga, assim como um abaixo-assinado protestando contra a apreensão de um dos seus livros, pouco tempo depois de o mesmo ter acontecido com Aquilino Ribeiro, que transcrevo: “O Governo Português, ao proibir a venda do 8º volume do Diário de Miguel Torga – proibição efectivada pela polícia na ronda às livrarias em 20 de Fevereiro – perpetrou novo atentado contra a dignidade da inteligência e a liberdade de expressão. Essa prepotência, vinda a seguir à apreensão do romance Quando os lobos uivam, e instauração de processo judicial ao seu autor Aquilino Ribeiro, não pode passar indiferente à consciência nacional, por muito habituada que ela esteja a ver açaimado hora a hora, dia a dia, tudo o que seja liberdade de pensamento e de expressão. Os abaixo-assinados protestam, com toda a indignação, contra mais esse atentado e afirmam ao admirável poeta e grande escritor que é Miguel Torga a sua inteira solidariedade.” Entre os subscritores estão José Cardoso Pires, Etelvina Lopes de Almeida, Fernando Piteira Santos, Pedro da Silveira, Manuel da Fonseca, Urbano Tavares Rodrigues, Jaime Cortesão, Raul Rego, Armindo Rodrigues e Manuel Mendes. Não estando datado, percebe-se ser de 1960, dados os factos relatados – publicação do oitavo volume do Diário nesse ano e apreensão de romance de Aquilino, que acontecera em Março do ano anterior. [foto a partir do catálogo da exposição]

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Aquilino Ribeiro na Alemanha, há 87 anos, no dia de hoje

Dois anos depois de terminar a Primeira Grande Guerra, Aquilino revisitou a Alemanha (país em que vivera por uns meses em 1912, em Berlim e em Parchin, e em que casara, em 1913, com Grete Tiedemann, de Meclemburgo, que conhecera na Sorbonne). Dessa viagem deixou um diário, mais tarde publicado sob o título de Alemanha ensanguentada (1935). Neste texto, que constitui o início desse registo e que foi escrito há 87 anos, no dia de hoje, são visíveis as contradições e as hesitações num país saído de uma guerra havia dois anos, com difícil aceitação do acordado em Versalhes, assim como se evidencia a capacidade de perscrutar o ser humano, que Aquilino detinha, num exercício de leitura de rostos, de gestos, de tempos. Não sendo das obras mais conhecidas de Aquilino (tal como acontece com o É a guerra, que ontem referi), nem o género literário por ele mais praticado (o diarístico), ambas são um muito interessante retrato dos tempos e da maneira de olhar o(s) outro(s). Para lembrar a sua escrita, hoje, segundo dia de Aquilino no Panteão.

Aquilino Ribeiro visto por Diogo de Macedo (1918) [de couramagazinefoto.blogs.sapo.pt]

De Herbesthal a Berlim. Segunda-feira, 20 de Setembro de 1920.
Seis anos de ausência, subversão pavorosa de seres e coisas, como iria encontrar eu a Alemanha? Pungido de curiosidade, entro na gare de Herbesthal – antigo território do Reich - , com o tecto esburacado pelas bombas dos aeroplanos e os vastos cais difundindo uma impressão molesta de vazio e de silêncio. Onde param os latagões rosados, de vistosa e irrepreensível farda que,
pro forma
, se debruçavam de sorriso e luvas brancas sobre a nossa bagagem de passageiros? Em vez deles corre a esgadanhar-nos nas malas e estudar o passaporte com minúcia inquisitorial uma cáfila zumbidora e prolixa. São belgas, constelação nova do martirológio, a quem esta cidade teutónica com a respectiva comuna de Eupen coube em quinhão de partilhas. Lê-se-lhes nos olhos e ademanes uma faustosa mas desconfiada hipertrofia. A tragédia guindou-os a primeiros heróis do género humano, e ainda não estão bem persuadidos. Quando se persuadirem de todo, agora que já nos tratam com sobranceria, quem poderá afrontar-lhes a magnitude?
O comboio fica parado uma eternidade; finalmente descola, deixando não sei que arrelia a fuzilar nos olhos belgas, ou porque lhes seja desagradável ver-nos de rumo à Germânia execranda, como se fosse dever nosso não querer dares e tomares com semelhante raça, ou porque se lhes acabasse o diabólico regalo de nos massacrar com manápulas fiscais encardidas e o olho fero de argos fronteiriços.
A perder de vista, até os fuminhos baços do horizonte, névoa de céu ou orla de bosque, a campina estende-se com a riqueza de tom própria das pastagens outonais após as primeiras chuvas. Vamos ladeando a encosta com losangos de matagal e de cultivo agarrados aos flancos e vacas, inumeráveis manadas de vacas, quebrando com sua mansidão e brancura o sonoro e quente verde. À roda, pelas sebes e codeços, pincharolam corvos e gralhos; isolados uns dos outros, pelos saracoteios, idas e vindas sem explicação, dir-se-iam na terra, em que se não lobriga homem, os pastores da vacada. O comboio mete direito ao vale, amplo e liso como tábua, com a fita branca dum riacho a serpentear por entre a procissão dos choupos; no remoto horizonte miríades de pássaros sarabandeiam sob dormentes e roxas nuvens; cá temos a
deutsche Landschaft
.
No rápido, que antes da guerra tinha bem maior velocidade, gela-se; gela-se não porque faça frio; à baixa de temperatura junta-se o gelo interior, uma quase endoença baforada por esta terra do Norte que ainda não acabou de digerir o mortulho de quatro anos de açougada. Os viajantes parecem entorpecidos; calados, cabisbaixos, cada um irá a mascar no seu problema, enquanto as bielas e cem rodas vão batucando sobre os railhes a sua sinfonia altivamente bárbara. Em Aachen, cidade para que foi recuada a linha da fronteira, as formalidades de sempre; os alemães são ainda as mesmas pontuais e despachadas máquinas, mas seus rostos, gestos, movimentos afiguram-se-me trair má vontade pelo que estão a fazer, e uma brusquidão que lhes desconhecia ou sabiam disfarçar. Pela carruagem dentro rompem as faces glabras, deslavadas, dos oficiais que fazem parte das tropas de ocupação. Armados, reluzentes de correias e de metais, espartilhados no dólman de campanha
caca d’oie
, alevantam um eco marcial e dão ao mesmo tempo ao comboio certo ar de internacionalidade.
Ponho-me a examinar-lhes as caras, cujo taciturno ou seriedade, se quiserem, não é mais que contenção ou fisionomia do animal lançado numa determinada pista. Os britânicos têm sempre no sentido um alvo a tocar. Vão a reflectir, ou devaneando como eu? Qual! Vão embalados no seu inconsciente, ruminando porventura o
corned beef, e parece que se não dignam reparar que vai gente ao pé deles. A vigília e inquietação são apanágio do espírito; o motor inglês é instinto e aí está a sua força. Sobem sem olhar para nós; passam diante de nós sem uma vénia; o comboio como o mundo é ring
para eles; eis a gente de alto lá com ela a quem os pregadores alemães, durante a guerra, chamavam em suas imprecações ao Altíssimo ‘malandragem escrofulosa dos nevoeiros’.
Até Colónia mal se ouve falar alemão; é língua no índice; de Colónia em diante invertem-se os termos e só em voz baixa se fala outro idioma. Mutação, de resto, radical: a carruagem perde a feição neutra, cosmopolita; é alemã; roda com segurança alemã; vai cheia de alemães em que se converteram por metamorfose imprevista, além doutros, o cavalheiro sorumbático que vinha connosco de Paris, aquele rapaz que entrou em Vervier e arranha o castelhano, e a menina sardenta, de cabelos de oiro, que se me inculcara estudanta de Cambridge. Simultaneamente sinto em torno a reacção contra tudo o que cheira em nós a estrangeiro, a nossa cara, a nossa língua, as nossas malas. Explica-se: vindos de oeste, se não éramos franceses, éramos de país latino na mais provável das probabilidades. E passamos a ser, surda, mas furiosamente abominados; abominados menos no inimigo que venceu do que no inimigo que ditou a paz, e não pelo que esta representa de desdoiro para o germano, pois não se considera batido pelas armas, mas pelo que ‘revestiu de prepotência e falta de generosidade’.
Não nos molestam com um gesto; não nos jogam a mais leve injúria ou motejo; mas afivelam, apenas porque estamos na presença deles, a máscara que lhes ignorávamos de desdém e os torna alarves. E é curioso vê-los naquele fácies, povo que não sabe desprezar, porquanto o desprezo como sentimento furta-cores coaduna-se pouco com o génio dos fortes e é timbre das naturezas requintadas. Fingem ainda abstrair que vamos ao lado, e uns, em tom moroso, tom de pessoas convalescentes, conversam de tudo menos da guerra, outros, especados aos cantos, simulam dormitar.
Quatro anos de inferno, a terrível decepção, o
Diktat de Versalhes tinham passado por eles; tinham passado e apenas pela contractura e o salmodeado da voz se notava, que não por mais nada. Vestiam todos com decência e exibiam anafado e poderoso cachaço. A não ser que a cabina não levasse mais que Kriegs-Gewinner
, novos-ricos da guerra.
Noite fora, as estações vão discorrendo e com elas nomes rolantes como armões de artilharia, bufarinhados pelo mundo nos artefactos
made in Germany; todas cegas de luz e amplas, mas soturnas, vincadamente soturnas, quando eram animadas. A Alemanha, pressinto-o, cobriu a fronte com cinzas e está de pé diante do catafalco das suas ilusões e dos seus dois milhões de mortos. Com os alvores do dia, ouço vozear: Brandeburgo! Na manhãzinha, em ansioso sobressalto, vejo pular Spandau à retaguarda, depois às duas mãos os subúrbios meio estremunhados de Berlim.
” (Alemanha ensanguentada. Amadora: Livraria Bertrand, 1975)

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Aquilino Ribeiro, no dia de hoje, há 93 anos

Há 93 anos, Aquilino Ribeiro estava em Paris a frequentar a Sorbonne. A Grande Guerra eclodiu no início do Verão e o escritor português registou em diário o que foi a vivência na capital francesa dos primeiros tempos da guerra, num tempo entre 1 de Agosto e 26 de Setembro, mais tarde (1934) publicado sob o título É a guerra. Hoje, Aquilino passou a estar no Panteão, mérito que lhe foi reconhecido pelo seu poder nas letras e na forma de retratar o homem na literatura. Divulgo o excerto desse diário relativo ao dia de hoje de há 93 anos, com Aquilino na efervescência e na tristeza da França, numa reflexão sobre o sofrimento, sobre o outro, sobre a memória, sobre a guerra.

Aquilino Ribeiro visto por Artur Bual (1964), reproduzido a partir de Boletim Cultural (Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian – Serviço de Bibliotecas Itinerantes e Fixas, VI série, nº 5, Novembro.1985)

Sábado, 19 de Setembro [de 1914]
Ansiedade; prossegue a grande batalha ao norte de Reims. Nas gazetas lavra igual alarido ao da semana em que os alemães, ladeando Liege, avançavam nos plainos do Brabante. Então o eminente recontro libertaria a Bélgica, pois não podiam ser apenas fortuitas coincidências aquela dos exércitos se acharem em Waterloo e cair na altura o aniversário da batalha que pôs cobro à tirania sangrenta de Bonaparte. Depois, nos Campos Cataláunicos, em que sucumbiu Atila, os mesmos oráculos descobriram novo signo fatídico da vitória. Agora é a presente batalha que vai rematar a contenda, acabando com Nabucodonosor e as suas hordas.
Ontem e hoje a ansiedade transluzia, como névoa muito fina, nos rostos, nas conversações, no próprio ar, parece, coada mais pelo instinto do que pelo cérebro, uma vez que depois de seis semanas de furibundo e constante combate nada de positivo se sabe sobre a sorte da guerra, como raros são em França os que tiveram notícia de que os seus caíram mortos ou feridos na açougada. Os jornais levam a impudência a dizer que em Berlim o preto é a cor que mais está em moda e que as gazetas alemãs regurgitam com as listas das baixas. E o excelente povo francês, acarneirado por duas molícies, a riqueza e o comodismo, não conclui que, ao contrário do que sucede na imperialista Alemanha, as famílias aqui não são advertidas de quando lhes cumpre pagar aos seus mortos o tributo das lágrimas. Para o Memorial da Glória entram apenas, ao menos neste entretanto, nomes de celebridades de cenáculo, de sacristia ou gente da nobreza. A miuçalha que morre não é digna de ser memorada; o seu nome vai para baixo da terra com o corpo, se este não fica a apodrecer a céu aberto ou não oferece pasto aos corvos; mais tarde, quando muito, se escreverá em lápide de pedra a erguer no adro das igrejas.
A serenidade, a existir de facto, tem esta explicação; sabe-se que caem alemães em barda, pois o proclamam a cada passo os comunicados. Dos franceses, moita; caem do monte; e, como caem do monte, não se sabe; cada um, em particular, não sabe do seu filho, do seu irmão, do marido de Fulana, do cunhado de Beltrana, que são os que lhe falam ao sentimento; está inquieto; mas não alarma ninguém com lutos e prantos. Por isso, quando os jornais falam nos miasmas que se evolam dos mortulhos imensuráveis de Charleroi e do Marne, o francês tem a seráfica ideia de que semelhante fedor provém apenas de carcaças
boches. Não cabe no seu raciocínio que à defesa ou ataque sangrento do inimigo corresponde, com leve diferença, igual morticínio nas fileiras dos seus. Não, lá caem por milhares; cá, por dezenas. Esta proporção algébrica está no âmago duma consciência que, ultrapassando as raias do sacrifício e da abnegação, assiste de venda aos acontecimentos. E eis como se demonstra que podem coexistir no mesmo povo, paredes a meias, nada contraditórios, um estado superior de civilização, gosto requintado, espírito egrégio, malícia, finura de maneiras, e o mais crasso sendeirismo, como enunciámos paralelamente quanto à Alemanha.
Reprimir as demonstrações da dor é virtude; estancar a dor, sublimando-se as almas até tirarem contentamento do holocausto, é literatura barresiana e mais nada. Os alemães podem ser diferentes dos franceses no génio, na bravura, no patriotismo; na dor são irmãos gémeos. Os centros nervosos procedem da mesma cepa ária; mais uns graus ao Norte, menos uns ao Sul, pode variar a capacidade de sofrer de maneira apreciável? Por cima das diferenças físicas a dor nivela o mundo; não são mais igualitárias as religiões.
Devido à cegueira em que anda mergulhado o povo francês quanto ao diagnóstico da guerra, nada mais furta-cores que o seu estado de espírito, amálgama provável de ansiedade, esperança, fanfarronada, transitórios frenesis, desesperos. Uns tantos algarismos e podia ruir o maravilhoso castelo da conformidade. O silêncio, nesta hora, é a grande razão de Estado.
La lutte continue, e é quanto de barométrico se sabe da mortualha.
” (É a guerra. Amadora: Livraria Bertrand, 1975)