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segunda-feira, 15 de setembro de 2025

João Aldeia conta o 25 de Abril de 1974 em Sesimbra



A primeira manifestação sesimbrense sobre a Revolução de 1974 em Sesimbra aconteceu em 30 de Abril desse ano, graças ao entusiasmo do mestre de pesca João Caparica, que chamou à participação a fanfarra dos Bombeiros com os intervenientes usando uma camisa “à pescador”; já no dia seguinte, em 1 de Maio, surgiu uma outra manifestação, ainda mais participada, em cuja liderança estava também gente ligada ao mar. O episódio é evocado no livro A Revolução de 1974 em Sesimbra, o mais recente título de João Augusto Aldeia, uma obra repleta de história(s) e de memória(s) sobre a vida e a sociedade sesimbrense antes e depois de 25 de Abril, num percurso a que não é alheio o facto de o próprio autor ter sido protagonista em algumas das acções, condição que é logo assinalada de início: “O facto de ter participado nos acontecimentos de um determinado período, numa dada comunidade,  constitui uma vantagem ou uma limitação para escrever sobre esses acontecimentos?” A resposta junta as vantagens e as desvantagens, umas e outras devendo ser pesadas criticamente.

É por isso que, a seguir, João Aldeia justifica esta obra: “As ‘leituras’ feitas em Sesimbra em torno da comemoração dos 50 anos da Revolução de 1974 — quer as oficiais, quer as outras — primaram pela indigência, omitindo aspectos relevantes da Revolução (causas, consequências, efeitos positivos e negativos na comunidade). Foi repisada a versão de que ‘antes não acontecia nada’ e que depois tudo foi ‘magnífico’, tudo ‘conquistas da Revolução’, com destaque, neste contexto municipal, para o ‘poder autárquico’. Ou seja: nem uma sombra de dúvida, nem a mínima assunção de aspectos negativos, nenhuma reflexão sobre as iniciativas das populações ou os actos da administração, e o respectivo sucesso ou insucesso.” A intensidade do comentário serve para apresentar globalmente o conteúdo do livro — “um relato sucinto da vida social, cultural e política, anterior e posterior à Revolução de 1974”.

João Aldeia perpassa, depois, por uma diversidade de áreas, tendo em vista um retrato tão completo quanto possível do que foi Sesimbra nesses dois tempos históricos, apresentando dados sobre a população, a actividade económica (pesca, agricultura, turismo, pequena indústria), a guerra colonial, a habitação, as tentativas de preservação ambiental, a actividade política, a questão assistencial, a cultura, a educação, o movimento associativo.

Ao longo da apresentação de dados, o autor não deixa de ser crítico, como quando refere a exaustão dos “pesqueiros” (“nunca foram feitos estudos científicos sobre o problema, uma das mais gritantes falhas do nosso sector científico”), ou quando aprecia a criação em 1998 do Parque Marítimo da Arrábida (que, “sem sólido fundamento científico, foi apenas um placebo”), ou a propósito da construção clandestina na Lagoa de Albufeira (em que poucas demolições aconteceram devido a interferência de Marcelo Caetano), ou sobre a definição dos limites territoriais do concelho (lamentando que a Câmara não tenha ripostado, aquando da publicação do inerente normativo em 1972, às exigências dos concelhos vizinhos de Almada e Seixal, “uma neutralidade difícil de explicar e de aceitar”), ou relativamente às intervenções com razoável conflitualidade levadas a cabo por um autarca como Ezequiel Lino durante os sucessivos mandatos (com consequências políticas e sociais locais).

O trabalho de João Aldeia é fortemente apoiado em dados estatísticos, em registos de imprensa, em documentação da época, em testemunhos diversos e na sua própria memória de participante (que várias vezes menciona, ainda que com modéstia e discrição). Este levantamento serve também para fundamentar a crítica feita à celebração do cinquentenário de Abril, que, não atendendo aos circunstancialismos locais e não procurando reflectir sobre a história, passou ao lado da “dinâmica comunitária” e da “saudável confrontação entre as diversas ideologias” que animaram o período pós-Revolução — exemplo claro dessa ausência de leitura crítica é o de não ter havido uma reflexão sobre as causas que terão levado ao declínio do movimento cooperativista em Sesimbra, muito forte a partir de 1975, ano em que foi criada a Cooperativa dos Apanhadores de Algas Estrela do Sul, ou sobre o aumento da abstenção nos actos eleitorais, no que isso tem a ver com a participação cívica.

A obra é concluída com uma “Cronologia resumida do século XX em Sesimbra”, cujo primeiro registo data de 11 de Abril de 1900, assinalando a “greve dos pescadores das armações de pesca, com intervenção militar que provoca três mortos e numerosos feridos”. Curiosamente, o último registo desta cronologia respeita também à pesca, datado de final de 1999 — “em consequência da não renovação do acordo de pescas entre a União Europeia e Marrocos, a frota sesimbrense da pesca com aparelho de anzol (com cerca de 600 pescadores) ficará parada e a receber subsídios, durante dois anos.” A história local é, muitas vezes, uma boa imagem daquilo que é a história da participação...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1597, 2025-09-10, pg. 10.


quarta-feira, 27 de março de 2024

Motorizações nos barcos sesimbrenses lembradas por João Aldeia



“Para além da materialidade das embarcações, das velas, dos apetrechos de pesca, dos motores, das sondas e radiotelefones, o património cultural marítimo é constituído pelo modo como se utilizavam esses equipamentos: como se velejava, como se remava, como se pescava, e ainda pelos saberes, crenças, rituais, tragédias, humor, etc.” Esta afirmação, justifica-a João Augusto Aldeia com a necessidade da criação de um Museu Imaterial do Mar de Sesimbra, projecto para o qual o seu livro Primeiras motorizações de embarcações de pesca de Sesimbra (1926-1932) (ed. Autor), há dias apresentado, é um digno contributo, resultante de passeio aturado pelos arquivos sobre as embarcações e de testemunhos recolhidos na memória daqueles que, directa ou indirectamente, participaram na faina sesimbrense.

Sesimbra é uma das terras que integram um roteiro camoniano feito a partir d’ Os Lusíadas, obra que a menciona no momento em que, no canto III, Vasco da Gama conta a história de Portugal ao rei melindano, evocando as conquistas de Afonso Henriques e referindo-se à “piscosa Sesimbra”. Essa adjectivação, resultante da abundância de peixe, foi o marco de um percurso que, no século XX, encontrou o revés, levando o pescador local a reinventar a profissão até aos limites do possível, ao mesmo tempo que se gera a ideia de em Sesimbra existir um dos maiores portos de Portugal - criticamente, anota João Aldeia: “pode ser que o seja estatisticamente, mas não é com o peixe das suas águas nem com a qualidade que outrora lhe deu prestígio.”

Mesmo por estas contingências que o passar dos tempos trouxe, vale a pena organizar a memória, falando dos marítimos, dos carpinteiros navais e dos mecânicos que deram identidade ao local através da arte da pesca. Nessa tarefa, valoriza este livro apontamentos sobre essa arte, pugnando pela divulgação da sua história e avançando com possibilidades interpretativas para a construção dessa mesma identidade - curiosa é a aproximação semântica que o autor faz entre a expressão “vela de espicha” e a designação Espichel, que dá nome ao cabo, mostrando mesmo a sobreposição da vela com a carta orográfica local.

Assunto como a motorização das embarcações sesimbrenses, iniciada em 1926, leva-nos a um olhar sobre as adaptações feitas - passar dos remos para o motor, publicitar os equipamentos, alterar aspectos das embarcações (no cavername, por exemplo), novas técnicas a dominar, diferentes graus de especialização nas companhas, formas de resolver problemas resultantes da transformação (como o da interferência dos motores sobre a agulha das bússolas, por exemplo), novos desafios de segurança (não escapa à memória o incêndio a bordo da barca “Gemeniana”, em 1928, que usava um motor de automóvel adaptado, e consequente naufrágio da mesma), formas de abastecimento de combustível, entre muitas outras.

João Aldeia põe o leitor em contacto com mais de duas dezenas de protagonistas da história do tempo abrangido, actores neste processo de motorização, nascidos entre 1869 e 1905, extremos ocupados por dois membros da mesma família, pai e filho: Zózimo das Chagas e Zeferino das Chagas, respectivamente. Quanto às embarcações, na ordem da meia centena, são apresentadas no seu breve historial, com nomes ricos do ponto de vista simbólico - com predominância dos nomes femininos -, havendo uma delas, “Luz do Calvário”, que teve a sua companha imortalizada na literatura pela pena de Raul Brandão, em viagem de Fevereiro de 1923, relatada na obra Os Pescadores (publicada nesse mesmo ano e com nova edição no ano seguinte).

O livro de João Aldeia, que se percebe ser resultado de um empenho pessoal e emotivo (dedicado ao pai, que foi serralheiro mecânico e trabalhou para a frota pesqueira local), conta uma história que é longa e cheia de coisas a descobrir, numa linguagem acessível, que permite o (re)encontro com rostos que fizeram Sesimbra e chama a atenção para um sector importante nas dinâmicas locais que tem sido objecto de pouco estudo, não só em Sesimbra mas também na região. A motorização dos barcos é o pretexto deste estudo, mas é também uma chamada de atenção para a memória.

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1268, 2024-03-27, pg. 2.

 

terça-feira, 30 de maio de 2017

Para a agenda: Memórias de quando Agostinho da Silva esteve com Sesimbra




Três anos depois, a obra Agostinho da Silva em Sesimbra, de Pedro Martins e António Reis Marques, regressa em nova edição “revista e muito ampliada”. Foi em 2014 que a primeira edição surgiu, publicada pelo Centro de Estudos Bocageanos, em Setúbal, como referi aqui; a edição que agora vai ser apresentada ao público tem a chancela Zéfiro e terá lançamento em Sesimbra, na Fortaleza de Santiago, em 3 de Junho, pelas 15h00, com apresentação de João Augusto Aldeia e Duarte Drumond Braga. A ocasião servirá ainda para homenagear o 90º aniversário de António Reis Marques, investigador sesimbrense. Para a agenda!

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Para a agenda: António Cagica Rapaz - A reedição dos contos



António Cagica Rapaz (1944-2009) é autor de um interessante conjunto de títulos ligados à identidade sesimbrense. Amanhã, na Biblioteca Municipal de Sesimbra, vai ser apresentada a reedição de Noventa e tal contos, trazidos por João Augusto Aldeia e Pedro Martins. Um bom pretexto para simpática leitura e para um olhar literário sobre Sesimbra. Para a agenda!