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quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Arrábida “serra-mãe” há 80 anos (5)

 


Quando Serra-Mãe saiu, Sebastião da Gama empenhou-se na sua divulgação, quer nas ofertas aos amigos e aos mais próximos, quer no envio para quem pudesse ser o seu leitor crítico. Uma das primeiras dedicatórias (talvez a primeira) terá sido para Joana Luísa da Gama, quando, tendo como data o Natal de 1945, o poeta autografou: “Para Ti, Amor, porque sabes ler os meus versos com uma voz que já se não distingue da minha.” Outras dedicatórias autógrafas existem, mas não datadas, ainda que se pense que serão do tempo entre a saída do livro e o ano seguinte — Mário Beirão (1890-1965) recebeu exemplar dedicado com traços da serra (“Para Mário Beirão, alma inquieta provida de clarões, a quem, na Arrábida, desceu a sombra de Agostinho a dar as boas-vindas”); no exemplar que seguiu para Miguel Torga (1907-1995), era manifestada a admiração pela obra já publicada do escritor e médico (“Ao Poeta admirável das Odes e de tudo o mais que me faz ser seu”); Luís Amaro (1923-2018), o amigo que conhecera no espaço da editora, teve o valor da amizade a iluminar a dedicatória (“Para o Luís Amaro: Nada mais me trouxera a Serra-Mãe do que a tua amizade e já tinha valido a pena”).

No mesmo dia 18 de Dezembro de 1945 (data em que o livro apareceu na montra da livraria, em Lisboa), Sebastião da Gama fez seguir um exemplar para José Régio (1901-1969), mas não terá havido resposta imediata, pelo que, em 7 de Fevereiro de 1946, o poeta azeitonense escrevia de novo para Portalegre: “É tão grande o interesse em que leia os meus versos e me diga, sem receio de melindrar-me se lhe não agradarem, o que pensa deles que me atrevi a vir pedir-lhe isso mesmo, contando com a sua benevolência.” Três meses depois, em 25 de Maio, era Teixeira de Pascoaes (1877-1952) o destinatário de uma carta em que o jovem poeta se apresentava: “Deixe-me dizer-lhe quem sou, para me perdoar um pouco a sem-cerimónia que tomei: sou um rapazola de vinte e dois anos que aprendeu a ser Poeta na Serra da Arrábida. Ali fui medrando entre moitas de alecrim e rochas penduradas sobre o Mar – e no Dezembro passado dei ao público o meu primeiro livro – Serra-Mãe. (...) Agora gostaria que lesse os meus versos com um bocadinho de carinho. E, se eles o merecessem, que me mandasse algumas palavras, que hão-de ser sinceras como as árvores, sobre o que sente da Serra-Mãe.”

Em data que não se consegue precisar, Régio respondeu, em jeito de explicação e de apreciação: “Devo dizer que terá tido influência em tal demora a perplexidade que me tolhe ao ter de pronunciar qualquer juízo sobre uma obra como a sua. Claro que esse juízo pode enganar-se ou errar — mas nunca deixar de ser sincero. Perante o meu Amigo, perante as gentilezas que me tem dirigido, e sobretudo pela influência que sinto das minhas coisas literárias no seu livro, a minha situação é ainda mais delicada. Creio que o seu livro é uma obra de hesitação e promessa, na qual o talento literário se torna incontestavelmente visível, como visíveis se tornam as influências várias. (…) É um livro que já promete muito e nos deixa à espera.” De Coimbra, Miguel Torga responderia, em 18 de Maio de 1946: “Nem posso medir o feito nem adivinhar o que está por fazer, louvo o que entendo e espero o porvir de boa-fé. Ora é isso o que me acontece agora com o seu livro. Não gosto de muita coisa que lá vem, e tenho dificuldade em vislumbrar os seus caminhos futuros. Mas estou em presença de um Poeta que escreveu: ‘Pequeno Poema’, ‘Nós’, etc. Resta-me, pois, festejar o que me parece conseguido, que é muito, e dar tempo ao tempo.”

De Amarante, Pascoaes não terá enviado resposta, mesmo apesar de nova insistência saída do Portinho da Arrábida em 6 de Agosto de 1946 — “Há talvez três meses mandei-lhe uma carta e o meu livro Serra-Mãe; sei que não é o senhor desses poetas que se calafetam dentro das suas torres de louros e não abrem a mínima frincha para falarem por ela a um camarada mais novo: por isso mesmo, lhe mandei o livro; e por isso mesmo tenho estranhado o seu silêncio. (...) Gostaria de saber qual o eco, se o tiveram, que os meus versos tiveram nuns e noutros.” Mesmo com esta persistência, parece não ter havido reacção de Pascoaes, uma opinião tanto mais importante para Sebastião da Gama quanto o poeta do Marão tinha já escrito sobre a Arrábida e sobre Frei Agostinho da Cruz. Aquando da sua viagem ao Norte, em meados de Setembro de 1951, acompanhado por Joana Luísa (sua esposa desde Maio desse ano), Sebastião da Gama marcou encontro com Pascoaes, relatado em crónica que publicou no Jornal do Barreiro, em 11 de Outubro de 1951 — da leitura de tal texto se conclui, como apontou António Mateus Vilhena (em ensaio sobre a correspondência de Gama para Pascoaes publicado em 2019), que “um dos assuntos que polarizou o diálogo (...) foi seguramente a Arrábida”. E, de toda a conversa, uma frase de Pascoaes impressionou o visitante: “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.” Não contendo estas afirmações uma apreciação ao livro inaugural do jovem, reforçam, pelo menos, o sentido de oportunidade da obra Serra-Mãe como um momento importante para o canto e para o louvor da Arrábida, pelo que terá sido, talvez, a melhor apreciação que Pascoaes poderia ter feito à obra...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1670, 2026-01-07, pg. 9.


terça-feira, 12 de abril de 2022

Centésima crónica - Dos livros



De livros, e do que deles fica, se tem falado por aqui. Na centésima crónica, algumas justificações para a leitura e para os livros. Diversificadas, mas sempre com o prazer da leitura e do livro em fundo, por alguns dos que escrevem.
Afonso Cruz: “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.” - O vício dos livros (2021).
Alice Brito: “Pode-se frequentar um livro, um verso, uma página. Há livros que têm melhor vida que outros. Em carícias, sublinhados, empréstimos, conversas e paráfrases. Há livros que têm mesmo uma vidinha de lordes. Emprestam imaginários, personagens e vistas largas. São referidos, referenciados, estudados com deleite. São lidos por muitos olhos. À noite, de dia, às escâncaras ou clandestinamente. É a vida. Também há alguns que não valem nem o papel que gastam. Só dizem parvoíces.” - As mulheres da Fonte Nova (2012).
Aquilino Ribeiro: “Para uma criança, livraria que ela possa revolver e folhear à vontade é divertida como um presépio e mais instrutiva que uma escola. Frontispícios, gravuras, cul-de-lampes, vinhetas, que curso de humanidades!” - Anatole France (1923).
Dulce Maria Cardoso: "Os livros oferecem-se sem escolha a todos os que os quiserem ler. E, se redimem, fazem-no de forma tão caótica e tão insondável que ninguém poderá ter nisso qualquer esperança. Talvez os livros escrevam direito por linhas tortas. Como Deus." - na antologia O Prazer da Leitura (2011).
Eduardo Lourenço: “O relacionamento com os livros – que vem de todos os livros que a gente lê quando é jovem – torna-os bocados de nós próprios. São as tábuas privadas das nossas leis. As escritas e as não escritas.” - em entrevista a Carlos Vaz Marques, em Os escritores (também) têm coisas a dizer (2013).
Eugénio Lisboa: “Quando um livro nos impressiona e marca profundamente, a seguir a ele, nenhum outro livro nos parece apetecível.” - Vamos ler - Um cânone para o leitor relutante (2021).
João Bigotte Chorão: “Os livros podem fazer um erudito, mas é duvidoso que tornem civilizado quem o não seja.” - Diário 2000-2015 (2017).
José Régio: “Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” - Páginas do diário íntimo (1994).
José Tolentino Mendonça: “Em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” - O que é amar um país - O poder da esperança (2020).
Maria Judite de Carvalho: “Quem não lê não sabe o que perde. Os livros são os nossos melhores amigos, é uma frase feita mas é uma frase certa. Amigos que nos ajudam, que nos acompanham, que nos enriquecem com o seu saber, que nos dão momentos agradáveis de fuga ao quotidiano ou momentos pouco agradáveis mas necessários de chamamento à pedra da vida.” - Diários de Emília Bravo (2018).
Rita Ferro: “Livros são bússolas que me guiam nos momentos sem Deus, substitutos de um misticismo que não me foi destinado, ou que a vida, com os anos, foi dissolvendo.” - Veneza pode esperar - Diário 1 (2014).
Serafim Ferreira: “O livro será o melhor instrumento para decifrar todos os códigos e desvendar os paraísos artificiais (ou não) que pela eternidade hão de alimentar a aventura do homem.” - Olhar de Editor (1999).
Valter Hugo Mãe: “Nenhum livro se faz sem essa rendição à maravilha em detrimento da verdade.” - Contra Mim (2020).
* J. R. R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 826, 2022-04-12, p. 11.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Luísa Dacosta: Como um rio que corre...



Primeiro andamento - Gerês, 1971: “A manhã abre tilintada de chocalhos, rumorejante de águas e pinheiros. Os pássaros debicam o nevoeiro que algodoa o Cávado e se escrameia como lã, deixando espelhar a raiz dos montes na quietude aquosa.” Segundo andamento - Faial, 1986: “Chão pouco de hortênsias muitas. Nascido entre conchas de azul: a do céu e a do mar. (...) Chão pontilhado do branco das casinhas térreas, com vacas mansas derramadas pelas vertentes, onde às vezes se aninha o medronho maduro de moinhos de velas quixotescas, a espadanar entre verdes.” Entre estes excertos passaram 15 anos, ambos devidos a Luísa Dacosta (1927-2015), no livro Na água do tempo (Lisboa: Quimera Editores, 1992), primeiro volume do seu diário.
Passa o leitor os olhos pelas duas citações e não pode avançar sem que pare - o poder metafórico de ambas é extraordinário no que elas contêm de sonoridades, de movimento, de visualização. A paisagem impõe-se em todo o seu fulgor, povoada, dinâmica, a sugerir temática para telas intensas. 
É longo o tempo que atravessa este diário: desde Agosto de 1948 até Dezembro de 1987. Se um diário implica fragmentos de tempo, associados ao curso dos dias, em Na água do tempo, essa fragmentação é superlativada na medida em que os excertos são dos anos (a única medida temporal precisa), quase sempre com a indicação do mês, frequentemente sem o registo do dia.
O que a diarista traz para este álbum do (seu) tempo é diversificado. Como a vida. Mas não podemos passar sem registar os momentos que dedica a pessoas, anónimas (encontradas na rua, nas viagens, na vida) ou conhecidas (a oleira Rosa Ramalho, os artistas José Régio - com quem teve relação de amizade longa, em Portalegre e em Vila do Conde -, Aquilino Ribeiro, Irene Lisboa, Júlio ou o padre espiritano Alves Correia), sempre a assinalar o quão bom foi o cruzamento com estas vidas e experiências, em páginas de ternura, de homenagem e de testemunho. Também as evocações trazidas pela literatura alimentam este diário nas referências de proximidade a Camilo Pessanha, a Cecília Meireles, a Camões. As latitudes constituem ainda uma área de preservação nesta memória: Matosinhos, Vila Real e A-Ver-o-Mar (três pontos de uma geografia intimista de criação de raízes), Óbidos, Portalegre, Timor (onde esteve em Setembro de 1975, epicentro da luta pelo domínio da ilha, em viagem atribulada, para partilhar experiências com docentes timorenses), Açores, Jerusalém, Rio de Janeiro. E também a sua vivência como professora, com entradas aqui e ali, sempre numa dimensão de valorização de atitudes do seu público, especialmente nas páginas redigidas entre 1971 e 1972, num género de “agenda escolar” em que reflecte sobre a prática pedagógica com os seus alunos, em páginas que muito fazem lembrar Sebastião da Gama.
A narradora apropria-se do mundo e dá-nos a medida do seu sentir sobre o que vê. E é assim que se desfia este diário, entre o real e o tratamento literário: percepcionando o exterior nas pessoas, nas paisagens, nos acontecimentos, e assimilando todas as sugestões que daí ressaltam para escrever os quadros dos seus momentos, dos seus dias. Numa escrita feliz, poética.
* "500 Palavras". O Setubalense: nº 388, 2020-05-06, pg. 10

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Frei Agostinho da Cruz na Arrábida: Os poemas do desassossego



Frei Agostinho da Cruz (1540-1619) está a ser tema de comemoração por passarem, em 2019, o quarto centenário da sua morte e, em 2020, os 480 anos do seu nascimento. Estando entre os poetas maiores da literatura portuguesa, a sua obra nunca mereceu um volume de conjunto durante a vida do poeta; só no século XVIII apareceria o repositório dos seus poemas. No século XX, foram os poemas de Agostinho da Cruz significativamente reunidos por Mendes dos Remédios (1918), Augusto Pires de Lima (1941), José Régio (1963) e António Gil Rafael (1994). Já mais recentemente, houve uma seleção de textos seus publicados com um prólogo de Dalila Pereira da Costa (Poemas da Montanha. Vila Viçosa: Serra d'Ossa Edições, 2010) e, no âmbito das celebrações que estão a decorrer, o poeta Ruy Ventura organizou uma Antologia Poética (Évora: Editora Licorne, 2019).

Quando, em 1771, são publicadas as Várias Poesias do Venerável Padre Frei Agostinho da Cruz (Lisboa: Oficina de Miguel Rodrigues), já tinham passado 150 anos sobre a morte do seu autor, que escolhera a Arrábida para passar os derradeiros anos da sua vida. Esta obra vem acompanhada do texto “Vida do Venerável Padre Fr. Agostinho da Cruz”, assinado por José Caietano de Mesquita (“professor de Retórica e Lógica do Colégio Real dos Nobres”), biografia pormenorizada que demonstra a adesão do autor ao espírito do biografado.
Relata Mesquita que Agostinho da Cruz não conseguiu a mudança de Sintra para a Arrábida com facilidade. Homem nada dado a títulos ou a cargos, apenas aos 65 anos aceitou ser guardião do convento de S. José de Ribamar, a instâncias do Provincial franciscano, explicando Mesquita que esta aceitação ocorreu porque o frade “assentou que por este meio facilitaria um despacho, que já de tanto tempo intentava, e era que se lhe desse licença para se retirar à serra da Arrábida, a viver solitário e apartado de toda a comunidade dos homens, de quem achava que nada devia esperar para si.”
A transferência não foi fácil, mas, ainda em 1605, no dia de S. José, Frei Agostinho, depois de renunciar à guardiania (cargo que ocupou por escasso tempo), conseguia a concordância superior. E comenta Mesquita: “Não cabia em si de júbilo Fr. Agostinho por ter alcançado esta felicidade por que tanto suspirava: na sua alma louvava infinitas vezes ao Senhor, dava-lhe repetidas graças de o chegar a tempo, em que só para ele e com ele havia de viver”.
A vida na Arrábida foi de recolhimento nos 14 anos que ali passou (ainda que com alguma curta interrupção), vivendo sozinho numa cela, fora da cerca do convento. Mesquita recorda que “foi visto muitas vezes derramar copiosas lágrimas, outras estar elevado e fora de si, sem dar tino de nada exterior e terreno”, em vida de oração e contemplação, associando-o aos antigos padres do deserto. Esta opção de Frei Agostinho continuou a não ser pacífica, sobretudo para os seus confrades que viviam no convento e discordavam da vida eremítica, mas a sua escolha e prática mantiveram-se inabaláveis.
Em 14 de Março de 1619, Agostinho morria na enfermaria que existia em Setúbal, com fama de santidade - “Espalhando-se pela vila a notícia da morte do servo de Deus, logo pela manhã acudiu à enfermaria grande número de pessoas não só a venerá-lo, mas a cortar-lhe pedaços do hábito, que guardavam como relíquias preciosas com que remediar os seus perigos e moléstias; e chegou nesta parte a tanto o excesso da devoção que foi necessário vestir ao santo cadáver novo hábito para decentemente se poder levar à sepultura”, narra Mesquita.
O relato assinado por Caietano de Mesquita quase decalca o perfil biográfico que, cerca de quatro décadas antes, de Frei Agostinho da Cruz fizera Frei António da Piedade na obra Espelho de Penitentes e Crónica da Província de Santa Maria da Arrábida (Lisboa: Oficina de José António da Silva, 1728-1737) ao longo de três capítulos que incluíram também uma mostra da poesia do frade franciscano (quatro sonetos, duas elegias e glosa a um mote). Relativamente à vida isolada de Agostinho da Cruz, refere Piedade: “Seguindo este varão apostólico as pisadas dos antigos Padres do Ermo, fechava as portas à sugestão dos pensamentos vãos, estando sempre ocupado.” Essas ocupações são mencionadas umas linhas adiante: “Por fugir pois a toda a ruína, que lhe podia maquinar o ócio, se a ele se entregasse, no tempo que lhe restava das suas obrigações e devotos exercícios, se divertia em fazer bordões que dava aos frades e oferecia aos Duques e Duquesas, quando o visitavam. Também pela inclinação que tinha à Poesia, compunha a vários assuntos espirituais muitos sonetos e outras variedades de versos.”
Pelos poemas de Agostinho da Cruz passa o seu desassossego. Não configurando um registo diário, ressalta, contudo, dos seus poemas terem eles sido escritos ao ritmo da vida, dos problemas, das reflexões, da oração. Bem terá ele dito na hora da morte, em jeito de recomendação, segundo Frei António da Piedade: “Não deixo contudo de lembrar aos mortais as angústias desta hora e lhes peço não guardem para ela o ajuste das suas contas, porque se expõem a perigo de as errarem pelo desassossego que padece a alma.” Vítor Aguiar e Silva, nessa obra incontornável que é Maneirismo e Barroco na Poesia Lírica Portuguesa (Coimbra: Centro de Estudos Românicos, 1971), bem considera que, na produção literária de Frei Agostinho da Cruz (como na de Camões, Diogo Bernardes ou Vasco Mouzinho de Quevedo), surge “uma poesia reflexiva, de análise psicológica ou de substância moral, dilacerada por dúvidas, congeminações e conflitos íntimos, que contrasta com a poesia sensorial, grandiloquente, teatral e patética, de teor descritivo e narrativo, que surge com frequência nos autores barrocos”...
Desprezando a vida palaciana, apesar de ter uma amizade forte com nobres, Agostinho exarou numa elegia a razão que o aproximava da Arrábida que o acolhera, aí deixando também, em jeito de testamento, o registo da sua derradeira vontade: “Agora, que de todo despedido / nesta Serra d’Arrábida me vejo, / de tudo quanto mal tinha entendido. // Com mais quietação livre me desejo / nela eu próprio cavar a sepultura, / que não junto do Lima, nem do Tejo. // Aqui, com mais suave compostura, / menos contradição, mais clara vista, / verei o Criador na criatura.” A ideia de para sempre permanecer na serra é retomada no final do poema: “Oh Serra das Estrelas tão vizinha, / quem nunca de ti, Serra, se apartara, / ou quando se partira esta alma minha / da terra, nesta tua me enterrara!” Ainda neste poema, a questão do desassossego sentido pontua num terceto: “Discorrendo dum noutro fundamento, / uma vez me perturbo, outra me indigno, / outra de mágoa pura arrebento.”
A Arrábida, em Frei Agostinho da Cruz, é um encontro último, final, que permite a união com o sagrado, num gesto de absoluta comunhão com o Criador, razão por que nunca desistiu de ver a serra como o seu refúgio, a única via que lhe permitiria chegar às estrelas.
Tão intensa ligação à Arrábida transformaria Frei Agostinho da Cruz no iniciador da tradição literária que tem tomado esta serra como motivo, num percurso que se estende até à actualidade, destacando-se, obviamente, mesmo por razões de proximidade e inserção geográfica, o nome de Sebastião da Gama (1924-1952), que não hesitou em convocar Agostinho da Cruz para os seus poemas em diversas ocasiões, como não duvidou sobre a necessidade de personificar a “serra-mãe”, trazendo-a para tema maior da sua produção poética. A Arrábida afigura-se, assim, como bem disse Teixeira de Pascoaes em conversa com o poeta azeitonense (Jornal do Barreiro: 11.Outubro.1951), como algo de essencial - “A Arrábida é que é o altar da Saudade. Eu pu-lo no Marão porque sou do Norte.” E, quanto a Frei Agostinho, responde Sebastião da Gama: “Esse adivinhou-lhe a essência, que foi como quem diz aos vindouros: Cantem agora. (Ele tinha tanto que falar de si mesmo, tanta amargura, tanta luta a contar!...)”
A Arrábida pinta(va)-se, pois, com as cores do desassossego, tornando-o questão essencial para a existência humana e para o sentir do(s) poeta(s)...

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Para a agenda: Eugénio Lisboa traz José Régio a Setúbal



Eugénio Lisboa é um nome que não precisa de apresentações, tão vasta é a sua obra, tão excelente tem sido o seu contributo para a cultura portuguesa! Em Setúbal, vamos ter oportunidade de o ouvir sobre um dos seus temas de eleição, sobre um dos autores para cujo conhecimento muito tem contribuído, sobre um poeta que é intemporal e é já um clássico - José Régio.
Uma organização da Casa da Poesia de Setúbal marcada para as 18h00 de 14 de Abril, sábado, na Biblioteca Municipal de Setúbal. Para a agenda!

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Para a agenda - As cartas de Régio para o irmão Antonino



José Régio, romancista, poeta, pensador, epistológrafo, diarista, ensaísta, nome máximo da cultura portuguesa do século XX. Não valerá a pena substantivar ou adjectivar, claro. Mais um volume de correspondência, desta feita com seu irmão Antonino. A apresentar em Lisboa, em 20 de Novembro. A ler, com certeza. Para a agenda.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

Adolfo Casais Monteiro: (um)a certa ideia de Europa



O dia 23 de Maio de 1945, uma quarta-feira, tem um registo incerto na cronologia da II Grande Guerra: provavelmente, terá sido o dia em que Himmler, com 45 anos, poderoso do III Reich, chefe das SS e da Gestapo, se suicidou, num trajecto vertiginoso de final de uma época, depois que Hitler cometera o mesmo feito no derradeiro dia de Abril e, sobretudo, depois que a paz voltara à Europa a partir de 8 de Maio. Na capital portuguesa, o jornal Diário de Lisboa desse dia 23 (dir.: Joaquim Manso. Lisboa: nº 8078) mostrava na sexta página uma pequena nota em que referia: “A Europa, durante cinco anos, correu em busca de abrigo para as tormentas da sua dor. Para onde? Para onde houvesse indício de aquietação, ao menos para onde o cenário não fosse o mesmo. (…) Agora, passado o temporal, cada um tenta a viagem de regresso.” Era o regresso dos exilados, de volta à Europa-mãe, numa tentativa de reencontro e de reconstrução de um continente de paz.
Nesse mesmo dia 23 de Maio [passaram há pouco 70 anos], acontecia um evento que não consta nas cronologias da II Guerra Mundial e que envolveu portugueses: aos microfones da BBC, António Pedro lia o poema Europa, de Adolfo Casais Monteiro, texto que só viria a ser publicado no ano seguinte (1946) por responsabilidade da editora Confluência (com desenho de António Dacosta), ainda que com alterações. Por 1945, António Pedro era autor de palestras na BBC, em que não poupava o regime alemão. Em 16 de Novembro desse ano, em carta, Casais Monteiro anunciava ao palestrante da BBC: “desde que o ouvi ler a minha Europa tornou-se uma espécie de pesadelo; a pura verdade é esta: queria umas boas horas de cavaco consigo – e não tenho vontade de aqui estar a falar só” e, mais adiante, refere a publicação do poema, que lhe será oferecido, por ser “a mínima justiça que lhe posso fazer”. Com efeito, o livro abre com a dedicatória “Ao António Pedro, que foi na hora própria a voz de todos os Portugueses que não esqueceram a sua condição de Europeus e cidadãos do mundo”. De uma só vez, três linhas de orientação sobre o ser português – a memória, a condição europeia e a cidadania.
O poema seria publicado no início de 1946 e, da parte de José Régio, mereceu uma apreciação epistolográfica datada de 24 de Fevereiro, a partir de Portalegre: “De facto, penso que ele não vale – como arte – uma página dos Adolescentes [de 1945]. Já sei que esta minha opinião também o não surpreende. Mas não acho mal que Você o tenha escrito e publicado. A poesia desse género tem dois grandes perigos: o mero interesse de actualidade – e a quase irresistível tendência para se sobrepor à poesia – à verdadeira poesia – a declamação retórica. Mas o seu poemeto salva-se menos mal desses terríveis riscos pela vibração de sinceridade que o atravessa.”
Constituído por cinco partes, o poema apela para a existência de uma Europa civilizada, com identidade, a ser recriada, valorizadora do homem. Logo na primeira parte, a ideia é a do sonho de uma Europa humanizada, rejeitando o que tinha acontecido antes: “Tua grandeza a fizeram / os que nunca perguntaram / a raça por quem serviam. / (…) // Europa, ó mundo a criar! // Europa, ó sonho por vir / (…) / Europa, sonho incriado. / (…) /// Europa, tu virás só quando (…) / O homem que sonhaste, Europa, seja vida!” Depois deste desafio deixado na abertura do poema, há a contemplação adequada ao tempo histórico “de discursos, / florindo em chaga, em pus, em nojo / (…) de guerras de fronteiras”, para, a seguir, ser marcado o espírito de vigilância e ainda o receio: “Os que não morreram velam. // (…) / o medo ronda, / o ódio espreita.” E o poeta intervém, no seu momento, sentindo o desdém pela obra cometida, pela destruição conseguida, pela desumanidade: “Olho num pasmo sem limites, / e fico sem palavras, / na dor de serem homens que fizeram tudo isto”, sendo o pronome a moldura para um quadro de terror – “esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira, / esta lama de sangue e alma, / de coisa e ser”.
Tão intenso trajecto só poderia terminar em protesto, em compromisso contra a malícia e contra a desumanização. As exclamações e as perguntas retóricas ajudam a pensar, numa condução para o repúdio pela obra feita – “De que são feitos os homens / (…) / que matavam ou deixavam morrer homens aos milhões?” –, levando a uma conclusão inevitável, forte – “O homem não se há de submeter à / violência” –, e a uma proclamação – “Só o homem livre é digno de ser homem!”, máxima que fecha o grito escrito.
O poema afirma-se em forma de declaração de intenções, num acto compromissivo com a vida e com o futuro, na busca de um paraíso cultural e humanizado, sonhado, capaz de curar a Europa devastada e sofrida que sobrevivia. Como José Augusto Seabra reconheceu (“Um poema português para a Europa”, prefácio à edição de Europa, em 1991 – Porto: “Nova Renascença” / Europalia), este era um texto de “apelo à fraternidade”, mas também de “prevenção lúcida” aos povos, aos políticos e aos países no sentido de serem afirmados valores como “a liberdade, os direitos humanos, a solidariedade social”.
O que a Europa foi depois, o que a Europa é agora, até que ponto a marca emblemática apregoada por Casais Monteiro se configurou… essas são outras questões que vão além da literatura e, especialmente, da poesia!