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sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O aluno Camus e o professor Germain (1)

 


Em 17 de Outubro de 1957, o Diário de Lisboa noticiava o nome do Prémio Nobel da Literatura desse ano, que a Academia Sueca revelara no dia anterior: “o escritor francês Albert Camus, pela sua importante obra literária que põe em relevo os problemas que hoje se apresentam à consciência dos homens.” Cerca de um mês depois, em 19 de Novembro, o laureado escrevia uma carta a Louis Germain (1884-1966), que fora seu professor no ensino primário: “Caro Professor Germain, Deixei que acalmasse um pouco todo o ruído que me envolveu nos últimos dias, antes de vir falar-lhe um pouco e de coração aberto. Acabam de me conceder uma grande honra, que não busquei nem pedi. Mas, quando soube da notícia, o meu primeiro pensamento, depois da minha mãe, foi para si. Sem o senhor, sem essa mão afectuosa que estendeu à pequena criança pobre que eu era, sem o seu ensinamento e exemplo, nada disto me teria acontecido.”

Esta é uma das vinte cartas trocadas entre Albert Camus (1913-1960) e o seu mestre, que integram a obra Caro Professor Germain - Cartas e Excertos, acabada de publicar (Livros do Brasil, 2023), pela primeira vez editadas em França no ano passado, embora algumas delas fossem já conhecidas.

Com a publicação desta correspondência, facilmente se percebe o significado do professor para o escritor franco-argelino. Já no seu romance A peste (1947), era feita uma referência ao papel do professor - “Não se felicita um professor por ensinar que dois e dois são quatro. Felicitar-se-á talvez por ter escolhido essa bela profissão.” E talvez não possamos ler esta citação sem saber que, dois anos antes, se dera o reencontro entre o ex-aluno Camus e o professor Germain, adiado desde que se tinham conhecido na Escola Comunal de Belcourt, em Argel, no início da década de 1920. 

Se Camus só contactou o professor cerca de um mês depois de ser conhecida a atribuição do Nobel, a resposta do mestre demorou apenas três dias - em 22 de Novembro, desde Argel, Germain congratulava-se com a honra do discípulo e com o reconhecimento que este expressara e desabafava: “São muitos os alunos que tenho encontrado ao longo da vida e que me dizem conservar de mim uma boa recordação, apesar da minha severidade quando era preciso. A razão é muito simples: amava os meus alunos e, de todos eles, um pouco mais aqueles que a vida desfavorecera.” Esta explicação servia para Albert Camus, cujo pai, combatente na Grande Guerra, falecera na batalha do Marne, em 1914, e servia também para Germain, que combatera na mesma guerra até ao final (embora tenha sido ferido na batalha de Nieuport), se justificar: “Quando me vieste parar às mãos, ainda estava sob o golpe da guerra, da ameaça de morte que, durante cinco anos, ela fez pesar sobre nós. Eu consegui voltar, mas outros, com menos sorte, sucumbiram. Vi-os como camaradas infelizes, tombando e confiando-nos os que cá deixavam. Foi pensando no teu pai, meu caro rapaz, que me interessei por ti, como me interessei por outros órfãos de guerra. Amei-te um pouco por ele, o melhor que pude, não tive outro mérito. Cumpri um dever sagrado a meus olhos.”

Camus nunca esqueceu os ensinamentos do professor Germain. Quando, num acidente de automóvel, faleceu, em 4 de Janeiro de 1960, estava a escrever um romance, que ficou inacabado e só foi publicado em 1994, O primeiro homem, obra repleta de referências autobiográficas em que são intervenientes as personagens Jacques Cormery, um possível alter-ego de Camus, e “Monsieur” Bernard, professor que deixa perpassar a imagem de Germain - aliás, em dado passo do manuscrito, Camus deixa escapar a verdadeira identidade da personagem, escrevendo: “Dans la classe de M. Germain, pour la première fois, ils sentaient qu’ils existaient et qu’ils étaient l’objet de la plus haute considération” (“Na aula do Senhor Germain, pela primeira vez, eles sentiam que existiam e que eram objecto da mais alta consideração”).

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: nº 1163, 2023-10-11, p. 8.


sábado, 22 de outubro de 2016

Bob Dylan - O silêncio indesejado


Bob Dylan e o seu silêncio. Um  silêncio ruidoso, por mim o digo. E subscrevo a crónica da Margarida Fonseca Santos. Lamento o silêncio. Porque se pode não aceitar... mas diga-se.
Por respeito relativamente às instituições. Por respeito ao mundo. Por respeito aos que o apreciam. Só!

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Bob Dylan, Nobel da Literatura 2016 - e então?




Corre grande rumor nas redes sociais quanto à atribuição do Nobel da Literatura a Bob Dylan. E depois? Porque a Academia surpreendeu? Porque é preciso chamar a atenção para valores diferentes daqueles que estão a governar o mundo e o "status quo"? Talvez se esteja mesmo a precisar de mudança, a clamar por mudança... assim o tempo e os acontecimentos sejam sinais!
Já em 1953 Winston Churchill (1874-1965) ganhou o Nobel da Literatura e... qual é a obra literária de que se fala do estadista? Na altura, a Academia Sueca justificou-se desta maneira: "mestria na descrição histórica e biográfica, bem como pela brilhante oratória em defesa dos valores humanos."
Quanto a Dylan, há poesia. O problema será haver música? Não rima a poesia com a musicalidade? E não haverá valores para um tempo que tem de mudar, forçosamente? E lá vem a justificação da Academia, segundo a imprensa: "por ter criado novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana". Não terá isto a ver com a literatura?
Diga-se de passagem que também não gostei de ouvir o Sérgio Godinho a testemunhar na rádio que os que discordavam desta atribuição o faziam por "dor de cotovelo"... Do Sérgio esperava mais, pelo menos que não escorregasse nessa tão portuguesa desculpa da "dor de cotovelo". A justificação para Bob Dylan tem de ser  encontrada na sua obra e não no alheio. E a discordância também... Coisas de "capelas", não é?
Parabéns, Bob Dylan!

E, já agora, acompanhe-se "Blowin in the wind" com a letra...

How many roads must a man walk down,
Before you can call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?
How many times must cannonballs fly,
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

How many years can a mountain exist,
Before it's washed to the seas (sea)
How many years can some people exist,
Before they're allowed to be free?
How many times can a man turn his head,
And pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

How many times must a man look up,
Before he can see the sky?
How many ears must one man have,
Before he can hear people cry?
How many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Tomas Transtromer, Nobel da Literatura 2011


Lisboa

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas calçadas íngremes.
Havia lá duas cadeias. Uma era para ladrões.
Acenavam através das grades.
Gritavam que lhes tirassem o retrato.

“Mas aqui!”, disse o condutor e riu à sucapa como se cortado ao meio,
“aqui estão políticos”. Vi a fachada, a fachada, a fachada
e lá no cimo um homem à janela,
tinha um óculo e olhava para o mar.

Roupa branca no azul. Os muros quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos mais tarde perguntei a uma senhora de Lisboa:
“será verdade ou só um sonho meu?”

Tomas Tranströmer (poema de 1966)
(21 Poetas Suecos. Lisboa: Vega, 1980. Tradução de Vasco Graça Moura)