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domingo, 2 de agosto de 2026

Entre livros e leituras

 


“Como eu gosto, espapaçado na cadeira, de olhar os meus livros alinhados na estante! São como soldados em fila. E às vezes, caem sobre mim, esmagando-me de visões. Não vejo quase nada. As frases saem-me aos solavancos.” Assim escrevia José Régio (1901-1969), em 10 Abril de 1923, em Vila do Conde, no seu diário (em Páginas do Diário Íntimo, 1994). Este registo surgia no final do dia, que fora chuvoso, no espaço de pensamento e de refúgio, abrindo portas ao diálogo com os livros, com as memórias do lido ou com a antecipação das leituras.

Uma quase conversa com a biblioteca, pois, que deixava de ser o alinhamento e a ordem para ser o turbilhão das ideias! Uma angústia ou um prazer, no jogo com o acervo em que se alojam histórias, pensamentos, saberes, desejos e memórias! Uma visão quase contrária àquela que Rita Ferro (n. 1955) revelou em Veneza pode esperar (2014), também um diário, quando disse, quanto aos livros, que “podemos ler muitos, mas para nossa tortura só parecem contar os que não lemos.”

E vem à ideia a pergunta clássica que salta de quem chega perante a biblioteca, assente nas estantes, nos móveis e pelo chão: “Estes livros já foram todos lidos?” A melhor resposta que conheço foi dada por Afonso Cruz (n. 1971), no primeiro volume de O vício dos livros (2021): “Os livros são seres pacientes. Imóveis nas suas prateleiras, com uma espantosa resignação, podem esperar décadas ou séculos por um leitor.”

A importância do leitor é fundamental para que o livro se realize, é verdade, apesar de o leitor, como os livros, não ter prazo. Perante um livro, está-se sempre à espera de que ele seja aberto, folheado, visto, lido, sob pena de não ter vida. Escreveu Massimo Recalcati (n. 1959), em A libro aperto (2018), que “um livro fechado é, na verdade, um contrassenso: não é um livro. Como o mar, o livro é uma imagem extraordinária do ‘aberto’. Abre o mundo em vez de o fechar. Um livro é um mar e não um muro.”

É essa abertura do livro que nos permite viver outros tempos, noutros lugares ou diferentes histórias, uma verdade que Yu Hua (n. 1960) bem explicou em China em dez palavras (2018): “Se existe na literatura alguma força mística, penso que será esta — a possibilidade de encontrar numa obra de um escritor de outra época, de outro país, de outra língua e cultura, experiências que nos pertencem.”

Ruben A. (1920-1975), com o seu conhecido sentido de humor, registou no sexto volume de Páginas (1970) um conselho interessante, com o seu quê de ironia e de crítica: “Cada médico, ao visitar um doente, receitava-lhe uma dose de literatura. O doente, ou morria, ou ficava sarado. Mais: enquanto se lê não há tempo para maldades, a existência humana pode não melhorar com a receita de leituras, mas de certeza que não piora, o que já é notável.”

Obviamente, a leitura (ou o livro) não tem lugar nas prescrições médicas. Mas as suas vantagens têm sido divulgadas por muitos dos seus praticantes — Fernando Pessoa (1888-1935), através do heterónimo Bernardo Soares, no Livro do Desassossego (1982), explicou que “há metáforas que são mais reais do que a gente que anda na rua (...), imagens nos recantos de livros que vivem mais nitidamente que muito homem e muita mulher (...), frases literárias que têm uma individualidade absolutamente humana”; Resendes Ventura (1936-2013) considerou que “um bom momento de leitura tem de ser um momento de felicidade” (em Papel a mais, 2009); Tolentino Mendonça (n. 1965), em O que é amar um país (2020), lembrou que “em tantos momentos da história, os livros foram (e são!) remos para guiar a jangada.” 

A escolha do leitor nem sempre é clara: às vezes, é para descobrir; noutras, para relembrar; também para encontrar outros sentires; ainda, para saber. O leitor não exige ao livro o remédio para (todos) os males, mas sabe alguma coisa do seu caminho de leitor: “O hábito de ler não faz necessariamente com que sejamos melhores pessoas, mas ensina-nos a observar com o olhar da mente a vastidão do mundo e a imensa variedade de situações e seres que o habitam. As nossas ideias tornam-se mais ágeis e a nossa imaginação, mais luminosa.” Quem o disse foi Irene Vallejo (n. 1979) na obra recentemente publicada entre nós, Manifesto pela leitura.

Afinal, Ruben A. talvez tenha razão na proposta prescritiva...

* João Reis Ribeiro. "500 Palavras". O Setubalense: n.º 1810, 2026-07-29, pg. 10.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Alfredo da Silva, o engenh(eir)o da CUF



Sobre o provincianismo lusitano, Fernando Pessoa criticou o escol português por “incapacidade de concentração voluntária, espírito de imitação e ausência de espírito crítico”. A seguir, emendava a mão: “Faço uma leve reserva quanto ao escol industrial: não há entre os nossos intelectuais, artistas, jornalistas ou políticos alguém cuja iniciativa e poder de coordenação se compare com os de, por exemplo, o Sr. Alfredo da Silva no campo industrial.” E concluía: “Por desastre, porém, e para mal nosso, o escol industrial não tem, por natureza, influência intelectual alguma, e assim não serve de vivificar o escol em geral.”

O texto pessoano, recolhido em Ultimatum e Páginas de Sociologia Política (1980), serve para José Manuel Sardica abrir a obra Alfredo da Silva e a CUF: Liderança, Empreendedorismo e Compromisso (Cascais: Principia Editora, 2020, com apoio da Fundação Amélia de Mello), justificando mesmo os três valores enunciados no subtítulo, nesta que é uma das primeiras iniciativas da programação dos 150 anos do nascimento do industrial que pôs o Barreiro no centro dos seus investimentos. 

Além do percurso da vida e obra de Alfredo da Silva (1871-1942), o leitor inteira-se também sobre as tensões políticas e laborais que assolaram os empreendimentos do grupo CUF, sobre uma nova visão da responsabilidade social empresarial relativamente aos colaboradores (gesto em que Alfredo da Silva foi quase pioneiro, criando habitações, escola, serviços de saúde - a origem da rede hospitalar CUF que hoje conhecemos -, formas de lazer, cantinas, protecção social para os trabalhadores das suas empresas, dinamizando a ideia de uma “família cufista”), estendendo-se a narrativa até à actualidade (grupos Sovena e José de Mello), pois esta obra se assume também como a história de uma família. Os vectores apontados por Sardica assentam numa gestão intensa nas fábricas do grupo, num reinvestimento dinamizando o seu crescimento, num compromisso patriótico e social, configurados num homem de lemas como “mais e melhor”, “ganhar se possível e perder se necessário” ou “o que o país não tem a CUF cria”, assim se sintetizando os trunfos que conduziram Alfredo da Silva: “planificar a médio e longo prazo, ser original e inovador nas escolhas de investimentos, calcular muito bem riscos e benefícios e solidarizar a riqueza pessoal com a riqueza criada.”

Marcas como Carris, Totta, Tabaqueira, Império, SG (Sociedade Geral), CUF, ou áreas como os adubos, as oleaginosas ou a construção naval foram os principais degraus por que passou a acção deste homem que, em 1908, chamou o centro da sua actuação para a Margem Sul, chegando a desejar ser sepultado no Barreiro, “pois, mesmo morto, queria estar sempre a olhar para as suas fábricas”. Passou circunstancialmente pela política (deputado por Setúbal em 1906) e cruzou ideias com políticos (João Franco, Sidónio Pais, Oliveira Salazar), nem sempre convergindo; sofreu quatro atentados, a que sobreviveu por sorte; viveu exilado em Espanha; contornou a onda revolucionária e grevista do início da República, a acusação de germanofilia que lhe foi imputada na Primeira Guerra, os efeitos do “crash” de 1929 e as dificuldades trazidas pela Segunda Guerra. Os seus restos mortais seriam trasladados para mausoléu no Barreiro dois anos após o falecimento.

A leitura acessível e a informação essencial povoam este livro, na perspectiva de cativar (também) o público estudantil para a investigação sobre a vida, a obra e o tempo do biografado, visando concurso a acontecer ao longo deste ano lectivo. Estamos perante uma biografia muito bem tecida, repleta de informação actualizada (chega a estabelecer correspondência dos valores do dinheiro com o tempo de hoje numa sensibilização à história económica), que não omite as vulnerabilidades do tempo e das circunstâncias, deixando claro, sobre Alfredo da Silva, que “a história da sua CUF é a sua história de vida”.

* J.R.R. "500 Palavras". O Setubalense: nº 505, 2020-11-11, p. 9.


quarta-feira, 26 de junho de 2019

Manuel dos Santos Rodrigues - Ofício poético em louvor da vida



“Não me considero um poeta.” É a primeira frase que salta neste Altar de Pena Escrita, de Manuel dos Santos Rodrigues (Ed. Autor, 2018), que carrega ainda o subtítulo de “Tríptico Poético”. Poucas palavras andadas, uma explicação: “Isto não quer dizer que não tenha momentos, raros talvez, mas genuínos, de sensibilidade poética”. E, logo a seguir: “nesses momentos, com um pouco de habilidade versífera, pode surgir um poema”.
Um poema é um estado, uma técnica, uma voz própria, resulta de um momento, congrega tudo isso? Um poema é o sublime de uma língua que se escreve? Um poema justifica-se? O “prólogo” que Manuel Rodrigues apresenta tenta fundamentar os momentos poéticos que constituem este livro, desde logo assinalando a capacidade metafórica e a alegoria que podem existir nas pequenas coisas - “Um dia, alguém passa e repara naquele pequeno pormenor. Visto ao longe, é massa indistinta na paisagem, mas eis que, tocado pela vista, brilha com um relevo particular, dotado de especial encanto.” A poesia exige então esse movimento que se estabelece entre o “parar” e o “reparar”, daí surgindo a revelação, uma descoberta - “Viesses tu, poesia, / e o mais estava certo”, escreveu Sebastião da Gama, assim como quem diz que a poesia cauciona a graça, impõe a maravilha.
O jeito deste “prólogo” é semelhante ao “imprimatur” aposto pela autoridade para que o livro possa ser publicado, com a diferença de que, aqui, é o próprio autor que o atribui - “Este será o meu único livro de poesia. Valerá a pena? (...) Ainda assim, publique-se.” Quase parece que o autor tem de se pôr de acordo com o poeta que se esconde para que o livro aconteça!
E o autor volta a intervir logo a seguir, agora sob a forma de “Manifesto”, um conjunto de dez quadras em defesa da forma de escrita, em contestação do Acordo Ortográfico, por onde circulam a ironia e a recusa, mesmo o maldizer, em jeito de bengalada mais camiliana que queirosiana, numa brincadeira poética que não pode ser lida sem o acompanhamento da nota que, no início adverte que o autor não segue o Acordo “por o considerar inconsistente do ponto de vista científico e incoerente do ponto de vista técnico”.
Só a partir daqui entra o leitor no caminho do Altar de Pena Escrita, obra que se apresenta organizada em três partes: “Memória”, “Insano Amor” e “O Canto e a Pena”. É obrigatório de imediato associar esta trilogia a três momentos de um percurso - desde “Memória”, o primeiro conjunto de poemas, que nos remete para o tempo mais distante, para os fragmentos que desse tempo ficaram gravados, até “O Canto e a Pena”, a última parte, que nos chama a atenção para o título da obra, a juntar a necessidade da expressão (o “canto” ou a escrita que coroa a vida) e o sofrimento e dificuldade que compõem a vida (a “pena”). A escolha dos títulos para estas partes acaba por ser uma decisão poética que lhes associa os epítetos de clássicos como Plutarco, Anacreonte e Estesícoro e ainda criações mitológicas como Eros (na segunda parte) e Apolo e Hades (na terceira), assim se conferindo um tom alegórico a esta obra.
De facto, o leitor está perante uma obra em que se misturam o autor e o poeta, nisso se estabelecendo um certo pacto autobiográfico, umas vezes mais assumido, outras vezes mais sugerido. Poderemos dizer que este Altar de Pena Escrita é uma autobiografia que se aloja numa alegoria, grande sucessão de imagens que se colam a momentos, a lugares, a gestos. Um exemplo: qual a função das seis histórias que iniciam a primeira parte do livro, sob o título “Fábulas”? As histórias são conhecidas e circulam em todo o lado - a raposa e as uvas, o corvo e a raposa, a rã e a vaca, a cegonha e a raposa, o lobo e o cordeiro, o burrinho e o lobo -, tenham elas chegado a partir de Esopo, de La Fontaine ou da tradução que Bocage de algumas fez. Se as fábulas remetem para os ensinamentos através das narrativas, também nos lembram a simplicidade dos primeiros textos orais e sugerem ainda o tempo da infância. Ora, o percurso inicia-se numa infância, que pode ter uma dupla interpretação: a infância do traçado autobiográfico e a infância da escrita.
Este grupo é ainda constituído por poemas que denotam a aprendizagem veiculada pela via religiosa e por outros em que a prova autobiográfica surge evidente, desde logo pela evocação de Marmelos, a aldeia do concelho de Mirandela em que o autor nasceu, designada por “aldeia pequenina” (em que o adjetivo tem a dupla leitura da dimensão do lugar, por um lado, e a associação à infância - logo a seguir, há um poema, “História de vida”, cujo primeiro verso recorre ao mesmo qualificativo, “quando eu era pequenino”). Outras marcas topográficas povoam esta primeira parte, todas fazendo parte do trajecto geográfico que seguiram os passos do autor, como Moçambique, Lourenço Marques, Ourique ou a terra africana. A estas referências espaciais, estão associadas vivências felizes, despertando alegria e nostalgia, que não é apenas dos sítios, mas também de um tempo, o da infância despreocupada e satisfeita, imaginativa e revivida, como se pode verificar no poema “No meu tempo de cow-boy”: “No meu cavalo de pau / Ia fazendo tau! tau! / Co’a pistola de madeira. / Desta forma, a tauitar, / Via as horas a passar / Sem nunca sentir canseira.” (com a particularidade daquele neologismo inventado para relembrar o poder da voz associado ao gesto de brincar).
A primeira parte conclui-se com o poema “Ocaso”, melódica forma de pôr fim a esse tempo infantil, ainda que passando em revista todos os estádios da vida - o sol vai-se embora com saudades da criança  que “não se cansa de saltar e de correr”, do jovem “a nascer para a poesia”, do par que debica “segredos de amor, do velho que risca com a bengala “como querendo traçar / os passos da sua vida”. Um poema que fecha uma das partes parece congregar um tríptico dos ciclos da vida, assim como se anunciar a continuidade...
A segunda parte, “Insano Amor”, corre sob o signo de Eros e, logo no primeiro poema, não podemos esquecer a imagem de Fernando Pessoa, ainda que sob a capa de Ricardo Reis: “Vem, senta-te junto a mim, / tranquilamente, na margem verde do regato, / e escuta este rumorejar interior...” Reis diria: “Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio. / Sossegadamente fitemos o seu curso (...) / Amemo-nos tranquilamente.”
Alguns poemas fazem ecoar estruturas da lírica amorosa galego-portuguesa, seja pela semelhança temática do questionamento da ausência - “Onde estás, por que não vens?” -, seja pelo recurso ao refrão, que vai deixando um ressoar de sentido no poeta - “Ai, Deus, onde irás tu!”. Outros textos acompanham Camões na sua forma de sentir o amor como algo impossível de definir - “Há uma incógnita pendente / Um não sei quê mal assente / Entre ti e mim.” - ou como algo que faz assumir uma nova identidade - “Concedessem os deuses a quem ama / transformar-se o amador na coisa amada / Unindo os corações numa só chama” - ou pelas ressonâncias de imagens como a do “cativo” de amor. O erotismo afirma-se também por via da invocação dos mestres (Bocage e Camões, de novo, para aqui chamados), demonstrando que a arte da sedução visa também aquilo que será a mais humana reacção - “Não quero honras, não, só quero engenho / Pra levar-te comigo para a cama. (...) / Dou-te versos, em troca peço beijos, / Só por amor construo os meus poemas.”
Este grupo de poemas consagrados à temática do amor e da paixão faz reviver mitos clássicos que lhe estão associados, como o do rapto de Europa, de Hero e Leandro, de Narciso. Por ele transitam também princípios como o “carpe diem” - “simples mortal que sou, sem vã magia, / contente de ir vivendo o dia a dia” -, como o da escrita enquanto momento de celebração - “Flor que eu celebro, em poesia ou prosa, / Acirrado p’la força do desejo.” Ainda nesta parte, é valorizada a dimensão artística da escrita - “Não me apetece / ler ou escrever / ou sequer conversar”, como se estas três acções fossem as mais importantes que dominavam o poeta -, bem como a dimensão autobiográfica (num texto “feito a pedido de um amigo, que, tendo de se ausentar, lhe confiou a sua amada”, o nome do autor aparece registado) - “Pra ti espero um dia regressar, / Mas deixo-te, entretanto, em meu lugar / O bom Manuel, um grande e fiel amigo.”
O texto que encerra esta parte contém um tom algo disfórico ao intitular-se “Poema de fim de Verão”, dominado por verbos que remetem todas as acções para um passado concluído, fechado, mesmo no que aos deuses respeita: “Afrodite sorriu, Dioniso falou, / Eros feriu, esse insano e cruel deus. / O ciclo fechou-se. Resta dizer adeus...”
O terceiro grupo de poemas, “O canto e a pena”, deixa-se dominar pelo par mitológico de Apolo e Hades, a aproximação à luz e à glória, por um lado, e a certeza do sofrimento e da morte, por outro. O poema que abre este ciclo, “Invocação”, sugere aquela parte da escrita épica em que é pedida ajuda às musas para que a arte não falte. Sendo disso mesmo que se trata, o terceto que o encerra afirma-se pelo pragmatismo e por alguma ironia - “Pudera eu ser Camões no grande engenho, / No engenho sim, mas não no triste fado, / Pois penas que me cheguem já eu tenho.” -, embora no poema seguinte, o poeta reconheça a sua modéstia - “Perdoa, pois, ó divina Poesia, / Que a minha oração seja um mero bocejo”.
Nesta secção, o percurso parece ser muito mais autónomo, mais distante do convencional, seja pela mistura do cantar ao desafio com a poesia de José Afonso e de Sophia, seja pela pressão do academismo, que é violentamente recusado - “Poético. Vulgarmente poético. Pouco me importa, / odeio a poesia. Há alturas em que a odeio. Melhor, não / odeio a poesia, odeio as figuras de estilo, a conotação, a / literariedade, a metáfora, essa peste que se mete em / tudo que se presume literário.” A vida do poeta é atrofiada pela cidade e deixa enredar-se nas imagens clássicas do labirinto, da efabulação, dos temas horacianos (retomando Ricardo Reis).
É o momento da aprendizagem dolorosa das incapacidades que governam as vidas, como a invencibilidade do tempo ou o desgaste da memória - “E dói, dói, dói - caramba, se dói! / esta incapacidade de aprisionar a memória, / que o tempo, esse, nem vale a pena tentar pará-lo.”
À medida que o livro se aproxima do final, também a geografia das origens vai ocupando um cada vez maior espaço, numa posição antípoda das referências do início. Aqui, é a procura de lugares míticos, antigos, repletos de simbologia, começando por um “marco miliário”, medidor de distâncias quilométricas ou temporais, cruzando a ponte romana, bebendo na fonte também romana, olhando Vilarinho das Furnas, contemplando ruínas, cumeando uma mitologia própria que se diviniza no Larouco.
Aqui chegados, o derradeiro poema toma o título do livro, justificando-o - é sobre esse “altar” que a obra é posta, seja ela a obra poética, seja o percurso que se conclui. A poesia mistura-se com a braveza, a dureza e a eternidade da pedra - “Em pedra escrevi teu nome, Poesia, / Na pedra dura em que minha alma habita. / Na pedra o escrevi com pena esguia / Na pedra pura do altar de pena escrita.”
Este poema surge como a celebração final, cerimónia de conclusão, prova de que esta escrita outra coisa não foi senão a prova de uma vida - seja ela uma biografia, seja ela uma viagem de aprendizagem da poesia. Não faltam os elementos simbólicos como o sangue e o fogo, elementos fortes para gravar, exprimir, destruir, renovar; não falta o “sacerdote” perante a ara em que ritualiza e oferece a vida em sacrifício poético. E fica a oração final: “Eu te invoco, Poesia, eu te conjuro / Sobre esta pedra dura derrama teu olhar / Aceita minha vida, meu sangue puro / Que deponho na pena escrita deste altar.”
Uma vida que se conta (ou que se alegoriza), um poema que se conclui, um livro que termina. “Viesses tu, poesia, / e o mais estava certo”, dizia Sebastião da Gama. Esta poesia certificou a certeza desta vida.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Para a agenda: Fernando Cabral Martins em Setúbal



Fernando Cabral Martins vai estar na Casa da Avenida, em Setúbal, no sábado, 20 de Janeiro, pelas 17h30. Em sessão moderada por José Teófilo Duarte, temas serão o livro A Flor Fatal e a dedicação pessoana que tem orientado este professor e investigador.
Fernando Cabral Martins coordenou o Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português (Lisboa: Editorial Caminho, 2008), é autor de Introdução ao Estudo de Fernando Pessoa (Porto: Porto Editora / Assírio & Alvim, 2014) e de antologias da obra pessoana. Excelentes motivos para pôr na agenda!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Em dia de Fernando Pessoa (7), 82 anos depois da partida



"Mar Português", um dos mais extraordinários poemas em língua portuguesa. Na loja do "Mundo Fantástico das Conservas Portuguesas", em Lisboa.

Em dia de Fernando Pessoa (6), 82 anos depois da partida



Fernando Pessoa: "Para ser grande sê inteiro." Em capa de caderno, para lembrar sempre... 

Em dia de Fernando Pessoa (5), 82 anos depois da partida



"Porque eu sou do tamanho do que vejo!" Num mural, em Lisboa.

Em dia de Fernando Pessoa (4), 82 anos depois da partida




"Tudo vale a pena se a alma não é pequena." Mesmo sobre um cartão de crédito de uma entidade bancária...

Em dia de Fernando Pessoa (3), 82 anos depois da partida



"O poeta é um fingidor!" Em Setúbal, num mural...

Em dia de Fernando Pessoa (2), 82 anos depois da partida



"A literatura é a melhor prova de que a vida não chega". Em qualquer lugar...

Em dia de Fernando Pessoa (1), 82 anos depois da partida



"Tenho em mim todos os sonhos do mundo". Numa livraria de Lisboa...

terça-feira, 13 de junho de 2017

Das palavras de António Vieira à efeméride de hoje, com Pessoa, Vieira da Silva e Santo António


Hoje, 13 de Junho, é dia comemorativo: do nascimento de Fernando Pessoa (1888), poeta maior; do nascimento da pintora Helena Vieira da Silva (1908); da morte de Santo António de Lisboa (1231). Uma trilogia de peso na cultura portuguesa, claro!

Fernando Pessoa (campanha "Abre Portugal", da Coca-Cola)


Maria Helena Vieira da Silva, Le Désastre ou La Guerre (1942)

"Sermão de Santo António às Sardinhas" (2017) (via FB)

Mas deixo o destaque em nome do jesuíta António Vieira, por ter sido neste dia de 1654 que, no Maranhão, proferiu o célebre Sermão de Santo António aos Peixes, uma peça de retórica que contém muito mais do que aquilo que parece - sobre a condição humana, sobre o bem e o mal, ainda que uma reflexão centralizada na crítica ao comportamento dos colonos do Brasil. E o pretexto é o comportamento dos peixes, com as suas vantagens e os seus desprimores, uma autêntica alegoria sobre o que é isto de interagirmos, de estarmos, de sermos.
Deixo três excertos, a merecerem reflexão ainda hoje, como se poderá ver pelo teor.

COMER OS OUTROS - “Cuidais que só os Tapuias se comem uns aos outros? Muito maior açougue é o de cá, muito mais se comem os Brancos. Vedes vós todo aquele bulir, vedes todo aquele andar, vedes aquele concorrer às praças e cruzar as ruas; vedes aquele subir e descer as calçadas, vedes aquele entrar e sair sem quietação nem sossego? Pois tudo aquilo é andarem buscando os homens como hão de comer e como se hão de comer. Morreu algum deles, vereis logo tantos sobre o miserável a despedaçá-lo e comê-lo. Comem-no os herdeiros, comem-no os testamenteiros, comem-no os legatários, comem-no os acredores; comem-no os oficiais dos órfãos e os dos defuntos e ausentes; come-o o médico, que o curou ou ajudou a morrer; come-o o sangrador que lhe tirou o sangue; come-o a mesma mulher que de má vontade lhe dá para a mortalha o lençol mais velho da casa;  come-o o que lhe abre a cova, o que lhe tange os sinos, e os que, cantando, o levam a enterrar; enfim, ainda o pobre defunto o não comeu a terra, e já o tem comido toda a terra. Já se os homens se comeram somente depois de mortos, parece que era menos horror e menos matéria de sentimento. (...) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos os estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.”
PEQUENOS E GRANDES - “Os pequenos são o pão quotidiano dos grandes; e, assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem.”
VAIDADE - “A vaidade entre os vícios é o pescador mais astuto e que mais facilmente engana os homens. E que faz a vaidade? Põe por isco na ponta desses piques, desses chuços e dessas espadas dois retalhos de pano, ou branco, que se chama hábito de Malta, ou verde, que se chama de Avis, ou vermelho, que se chama de Cristo e de Santiago; e os homens, por chegarem a passar esse retalho de pano ao peito, não reparam em tragar e engolir o ferro. E depois que sucede? O que engoliu o ferro, ou ali, ou noutra ocasião ficou morto; e os mesmos retalhos de pano tornaram outra vez ao anzol para pescar outros.”

sexta-feira, 21 de abril de 2017

"Portugal Futurista": um número de uma revista que é marco na cultura portuguesa



"Vida complexa e admirável a de hoje. Novas ambições e mais largos desejos. O homem como um divino génio do mal emancipa-se da tutela vergonhosa do Passado e da Tradição, liberta-se de si próprio e ele que tinha a cobardia da vida e a cobardia da morte - porque não sabia viver a grande Vida e não sabia morrer, ignorando que a morte é uma renovação - emancipado e liberto, audacioso e revoltado, agressivo e febril, sobe a todas as alturas, vai a toda a parte, reduz distâncias, detém a marcha do tempo e iguala-se a Deus, e ultrapassa Deus ainda...
Vida de agitação e velocidade... Correr, correr, correr vertiginosamente, não para chegar depressa ao fim, mas para que o fim não chegue tão depressa... Correr é criar a sensação e multiplicar a nossa vida... E a vida é longa não pelos anos que conta, mas pelas sensações que contém.
Todo o homem que sabe viver e quer viver desdobra-se, multiplica-se... O automóvel, o telefone, a telegrafia sem fios, os grandes transatlânticos, o cinematógrafo, o gramofónio, o aeroplano, modificaram o organismo humano, dando-lhe a omnividência e a ubiquidade. Os seus sentidos geraram novos sentidos..."

O leitor lê e, por momentos, pensa que está perante uma reflexão contemporânea, feita neste tempo; depois, à medida que avança a leitura, começam a surgir sinais de que o tempo de produção não será este, mas um outro que nos precedeu. É um texto actual, mudássemos-lhe nós os aparelhos e as máquinas com que finaliza a citação. Pois é: são os parágrafos iniciais do texto "O Futurismo", assinado por Bettencourt Rebelo, composição que se debruça sobre a "vida de hoje", o "homem dominador" e outras questões da época - um "hoje" que diz respeito a 1917, ano em que foi publicado o primeiro e único número de Portugal Futurista, revista dirigida por Carlos Filipe Porfírio, que teve assinaturas de Almada Negreiros, de Guillaume Appolinaire, de Mário de Sá-Carneiro, de Fernando Pessoa, de Blaise Cendrars e outros e desenhos de Santa-Rita Pintor e de Amadeo de Sousa Cardoso. Uma revista que, apesar de ser número único, ficou na história da literatura e da cultura portuguesas, em 42 páginas que constituíram uma pedrada no charco e que mereceram a apreensão das autoridades.
Está-se na celebração do seu centenário e o Público, em associação com a editora A Bela e o Monstro, fez sair hoje uma edição facsimilada da revista, uma obra a ler/ver e a guardar. As justificações podem ser muitas e abranger várias áreas do saber - Nuno Júdice, no Público de ontem, escreveu uma página sobre a história da revista, suficientemente esclarecedora e apelativa quanto ao interesse. Mas, para quem queira saber mais, pode-se recomendar, também de Nuno Júdice e de Teolinda Gersão, os textos introdutórios à edição facsimilada desta mesma revista, saída em 1981 (Lisboa: Contexto Editora). Se já não conseguir a edição saída em 1981, aproveite, pelo menos, a que veio com o Público de hoje...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Memória: José Fernandes Fafe (1927-2017)



De José Fernandes Fafe rezarão as cronologias e as notas biográficas. Por mim, recordo as leituras. E tenho de assinalar duas que me impressionaram.
A primeira, uma tradução. De Octávio Paz, também poeta, sobre Pessoa, outro poeta. Li O Desconhecido de Si Mesmo (Iniciativas Editoriais, 1980), curto ensaio de Paz sobre Fernando Pessoa, traduzido por Fafe, e fiquei rendido. Um ensaio em que não falta poesia. Um ensaio que já convenci alguns alunos a lerem. Começa assim: "Os poetas não têm biografia. A sua obra é a sua biografia. Pessoa, que duvidou sempre da realidade deste mundo, aprovaria sem hesitação que se fosse directamente aos seus poemas, esquecendo os incidentes e os acidentes da sua existência terrestre." E acaba desta maneira: "A poesia é o que fica e nos consola, a consciência da ausência. E renovo, quase imperceptivelmente, um rumo de algo: Pessoa ou a iminência do desconhecido."
Outro livro que recordo de Fernandes Fafe é Curriculum Vitae (Editorial Fragmentos, 1993), ilustrado por Graça Morais, um conjunto de reflexões sobre a vida e sobre a escrita, de que não resisto sem transcrever, igualmente, o início e a conclusão, sobretudo porque os dois fragmentos vêm a propósito neste dia do passamento do poeta e diplomata portuense.
Eis o início: "Detesto curricula. Sempre que tenho de apresentar um, alinhavo-o à pressa da irritação... E arranco da máquina uma vergonha de dactilografia, dados errados, lacunas... Mas que mal me fizeram os curricula?"
E o final? Certeiro, neste dia: "A morte é o de que não há metáfora. Se a desconhecemos totalmente, como podemos compará-la? E não havendo metáfora, não há linguagem. É o Silêncio. Sem nenhuma palavra para dizê-lo. Sem nenhuma sensibilidade para senti-lo."
Seja no que traduziu, seja no que produziu, Fafe foi eloquente. Obrigado.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Para a agenda - Pessoa em pessoal leitura



Fernando Pessoa chega na noite de uma sexta-feira de arte e ciência, convidado por Synapsis: em 23 de Setembro, pelas 21h30, no Museu de Arqueologia e Etnografia, em Setúbal, na companhia de Dina Barco e Deolinda Ferreira. Para a agenda!

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Para a agenda - "Orpheu" em Sesimbra



A revista Orpheu vai estar em discussão em Sesimbra na tarde de sábado, 24 de Outubro. O centenário é pretexto, mas os intervenientes e os temas a abordar falam muito alto e são motivadores. Cem anos depois, a revista de que só saíram dois números continua a dar que pensar, tecendo encontros entre Fernando Pessoa, Almada Negreiros e António Telmo, a coberto das leituras de Elísio Gala, António Carlos Carvalho, Rui Arimateia e Miguel Real. Na Biblioteca Municipal de Sesimbra. Para a agenda!

sábado, 19 de setembro de 2015

Fernando Pessoa chega de "Expresso"



O semanário Expresso iniciou hoje a distribuição gratuita da colecção “Obra Essencial de Fernando Pessoa” com o volume Mensagem e Outros Poemas, prefaciado por Fernando Pinto do Amaral.
Com edição coordenada por Ivo de Castro, cada uma dos nove volumes da colecção vai ser prefaciado por nome conhecedor da obra pessoana – Richard Zenith, Nuno Júdice, António Feijó, Ana Luísa Amaral, Rita Patrício, Clara Ferreira Alves, Miguel Tamen e Pedro Mexia são as assinaturas que se seguem para os restantes volumes.
Neste título de abertura, Fernando Pinto do Amaral usa o título “A matéria dos sonhos” para o seu prefácio e, depois de contar a história do aparecimento do único livro de Pessoa publicado durante a sua vida, estabelece um paralelo entre Mensagem e Os Lusíadas, sendo que “enquanto Camões nos conta a nossa História, a atitude de Pessoa é a de subentender nos leitores o conhecimento dessa História”. Outra dimensão abordada nesta apresentação relaciona-se com uma linha de leitura que passa pelo poder visionário, pela loucura, responsável por “distorcer ou alterar para sempre as coordenadas da realidade”, a que é cometida a capacidade de inovar, de construir, de dar alma ao mundo. Finalmente, o terceiro vector de leitura apontado é o da actualidade desta obra, assente sobre a realidade que nos rodeia e nos afoga – “Neste Portugal do século XXI, bem comportado e integrado numa Europa esvaziada dessa loucura – Europa essa onde o único valor parece resumir-se ao dinheiro e a alguns cadáveres adiados se ocupam a negociar orçamentos em Bruxelas enquanto milhares de cadáveres não adiados vão desaguando nas praias do Mediterrâneo –, um livro como Mensagem interpela os que não se resignam a essa tranquila mediania, insistindo em procurar outras dimensões onde possam projectar a sua febre de Além – uma febre perigosa ou insensata pelos padrões do senso comum, mas ainda assim uma febre que talvez nos faça alguma falta e de que Fernando Pessoa foi um dos soberanos intérpretes."

Um bom convite para uma boa visita à leitura pessoana!

sábado, 23 de maio de 2015

"Orpheu" - sublinhados no seu centenário



Em 1915, surgiu a revista Orpheu, sendo o primeiro número (alusivo aos meses de Janeiro a Março) dirigido por Luís de Montalvor e por Ronald de Carvalho e o segundo (referente ao trimestre de Abril a Junho) por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. O terceiro número não chegaria a ser publicado e só em 1984 apareceu a edição das respectivas “provas de página” (em fac-símile) pela mão da revista Nova Renascença e do seu director, José Augusto Seabra.
Neste ano de centenário, uma revisita às páginas da revista (cuja edição fac-similada dos dois números editados, em volumes autónomos, saiu recentemente com o diário Público) deixa-nos com a verdade de que a revista surpreende de cada vez que a ela se volta. Por aqui deixo uns sublinhados de Orpheu, pela ordem em que aparecem em dada um dos três números (a paginação da revista foi continuada de número para número, visando a organização em volume).

Eu – “Eu não sou eu nem sou o outro, / Sou qualquer coisa de intermédio: / Pilar da ponte de tédio / Que vai de mim para o Outro.” (Mário de Sá-Carneiro. “7”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 14)
Eu – “Por sobre o que Eu não sou há grandes pontes / Que um outro, só metade, quer passar / Em miragens de falsos horizontes / Um outro que eu não posso acorrentar…” (Mário de Sá-Carneiro. “Ângulo”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 15)
Tu – “Dentro da água dos teus olhos / minha alma treme como um lírio…” (Ronald de Carvalho. “Reflexos”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 25)
Mar – “Só o mar das outras terras é que é belo. Aquele que nós vemos dá-nos sempre saudades daquele que não veremos nunca…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 30)
Sentir – “Custa tanto saber o que se sente quando reparamos em nós!...” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 32)
Sonho – “O dia nunca raia para quem encosta a cabeça no seio das horas sonhadas.” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 34)
Sonho – “Só vós sois feliz, porque acreditais no sonho…” (Fernando Pessoa. “O Marinheiro”. Orpheu. Dir.: Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho. Lisboa: nº 1, Jan-Fev-Mar.1915, pg. 39)

Erro – “Eu fui alguém que se enganou / E achou mais belo ter errado…” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas sem suporte – Elegia”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 97)
Admiração – “Não admiramos o que a nós é estranho, sentindo então, o que já não admiramos?” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 117)
Ideal (em arte) – “O indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ânsia de ideal que mais do que o ideal para nós vale, essa ânsia, esse desejo infinito e jamais satisfeito, deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim da arte pura!” (Raul Leal. “Atelier”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 119)
Arte – “Toda a obra de arte é a justificação de si própria.” (Nota da redacção sobre os poemas assinados por Violante de Cisneiros. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 122)
Vida – “A vida é só o Espaço / Que vai da própria Linha / À sombra dela num traço. // Quando a Morte for vizinha, / Fundidas no mesmo Espaço / Será tudo a mesma Linha.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 123)
Presente – “Só sensações são Presente, / Só nelas vive a Verdade.” (Violante de Cisneiros. “Poemas – A Álvaro de Campos”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 124)
Infância – “Não poder viajar pra o passado, para aquela casa e aquela afeição, / E ficar lá sempre, sempre cirança e sempre contente!” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 147)
Longe – “Viajar ainda é viajar e o longe está sempre onde esteve – / Em parte nenhuma, graças a Deus.” (Álvaro de Campos. “Ode Marítima”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 149)
Eu – “Contemplo o meu destino em mim.” (Luís de Montalvor. “Narciso”. Orpheu. Dir.: Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro. Lisboa: nº 2, Abril-Maio-Junho.1915, pg. 156)

Vida – “Atapetemos a vida / Contra nós e contra o mundo.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Sete Canções de Declínio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 167).
Tempo – “Passar tempo é o meu fito, / Ideal que só me resta: / Pra mim não há melhor festa, / Nem mais nada acho bonito.” (Mário de Sá-Carneiro. “Poemas de Paris – Cinco Horas”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 174).
Deus – “Olho o Tejo, e de tal arte / Que me esquece olhar olhando, / E súbito isto me bate / De encontro ao devaneando – / Que é ser rio, e correr? / O que é está-lo eu a ver? // Sinto de repente pouco, / Vácuo, o momento, o lugar. / Tudo de repente é oco – / Mesmo o meu estar a pensar. / Tudo – eu e o mundo em redor – / Fica mais que exterior. // Perde tudo o ser, ficar, / E do pensar se me some. / Fico sem poder ligar / Ser, ideia, alma de nome / a mim, à terra e aos céus… // E súbito encontro Deus.” (Fernando Pessoa. “Além Deus – Abismo”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 186).
Política – “E vós também, nojentos da Política / que explorais eleitos o Patriotismo! / Maquereaux da Pátria que vos pariu ingénuos / e vos amortalha infames!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 200).
Jornalismo – “E vós também, pindéricos jornalistas / que fazeis cócegas e outras coisas / à opinião pública!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 201).
Portugal – “E ainda há quem faça propaganda disto: / a pátria onde Camões morreu de fome / e onde todos enchem a barriga de Camões!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Homem – “Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio / que Deus perdeu de vista o Adão de Barro / e com pena fez outro de bosta de boi / por lhe faltar o barro e a inspiração! / E enquanto este Adão dormia / os ratos roeram-lhe os miolos, / e das caganitas nasceu a Eva burguesa!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 202).
Vida – “Vivemos tão pouco / que ficamos sempre a meio caminho do Desejo.” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 205).
Natureza – “Ouve a Terra, escuta-A. / A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!” (José de Almada Negreiros. “A Cena do Ódio”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 209).
Sonho – “Os sonhos não podem ser incoerentes porque não passam de pensamentos / Como outros quaisquer.” (C. Pacheco. “Para além doutro oceano”. Orpheu 3 – Provas de Página. Porto: Edições “Nova Renascença”, 1984, pg. 221).

terça-feira, 24 de março de 2015

"Orpheu", 100 anos hoje



Com o subtítulo de "Revista Trimestral de Literatura", o primeiro número de Orpheu surgiu em Lisboa em 25 de Março de 1915, dirigido por Luís de Montalvor e Ronald de Carvalho. Passados três meses, em 28 de Junho, apareceu o número dois, dirigido por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro. Editada por António Ferro (1895-1956), a revista teve capa, nos  dois números, de José Pacheco (1885-1934). Colaboradores dos dois números foram Alfredo Guisado (1891- 1975), Almada Negreiros (1893-1970), Álvaro de Campos (heterónimo de Fernando Pessoa), Ângelo de Lima (1872-1921), Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), Eduardo Guimaraens (1892-1928, brasileiro), Fernando Pessoa (1888-1935), Luís de Montalvor (1891-1947), Mário de Sá-Carneiro (1890-1916), Raul Leal (1886-1964), Ronald de Carvalho (1893-1935, brasileiro), Santa Rita Pintor (1890-1918) e Violante de Cysneiros (pseudónimo de Côrtes-Rodrigues).
Na "Introdução", publicada no primeiro número, escreveu Luís de Montalvor: "Nossa pretensão é formar, em grupo ou ideia, um número escolhido de revelações em pensamento ou arte, que sobre este princípio aristocrático tenham em Orpheu o seu ideal esotérico e bem nosso de nos sentirmos e conhecermo-nos".
A reacção aos dois números da revista (de que há reedições a cargo de Edições ÁticaI pautou-se por classificações que reflectiam o escândalo provocado: "literatura de manicómio" e "doidos com juízo", entre outras. Textos para o terceiro número de Orpheu chegaram a ser impressos, não tendo, contudo, a revista sido publicada (foi feita edição das provas de página em 1984, sob a responsabilidade de Edições “Nova Renascença”). Entre os textos conhecidos para esse terceiro número contam-se como autores Mário de Sá-Carneiro, Albino de Meneses (1889-1949), Fernando Pessoa, Augusto Ferreira Gomes (1892-1953), Almada Negreiros, D.Tomás de Almeida (1864-1932), C. Pacheco (heterónimo de Pessoa) e Castelo de Morais (1882-1949), sendo o texto mais importante o de Almada ("Cena do ódio", depois publicado na revista Contemporânea, em Janeiro de 1923).
Sobre o papel desempenhado por Orpheu escreveu Fátima Freitas Morna: "é um caso particularmente interessante entre os muitos que lhe poderiam constituir paralelo na Europa povoada de 'ismos' e revistas dos anos que rodeiam a Primeira Guerra Mundial. Em vez de se proclamar como um movimento, ou órgão de um movimento, Orpheu aceita ser o lugar de choque e de trabalho de vários movimentos." (A Poesia de 'Orpheu'. Col. "Textos Literários", 26. Lisboa: Editorial Comunicação, 1982).
Ao longo dos tempos, o título Orpheu tem sido apontado como uma das revistas literárias mais revolucionárias e tem sido alvo de inúmeros estudos pelo papel desempenhado na expressão futurista em Portugal. Em Bruxelas, chegou a ser fundada uma livraria vocacionada para a literatura e cultura portuguesas a que foi dado o nome de “Orpheu”. Já neste ano, a revista tem sido objecto temático de várias publicações, como JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias (nº 1159, 4.Março.2015) ou Estante (FNAC: nº 4, Inverno.2015). Também recente é a edição filatélica de um selo desenhado sobre quadro de Almada Negreiros, alusivo ao centenário da revista (CTT, 2015). Na celebração destes cem anos da revista Orpheu, estão ainda envolvidas exposições (como a da Biblioteca Nacional) ou edições como 1915 – O ano do Orpheu, organizada por Steffen Dix (Lisboa: Tinta-da-China, 2015).
[foto: selo comemorativo do centenário da revista Orpheu - CTT, 2015]

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Fernando Pessoa: 80 anos de "Mensagem"



Em 1 de Dezembro de 1934, há 80 anos, era posto à venda o título Mensagem, único livro que Fernando Pessoa publicou em português. Para lá da simbologia que poderia haver na escolha da data para a entrada do título no circuito comercial por parte da editora Parceria António Maria Pereira, também é verdade que o livro esteve para ter o título de Portugal.
Se não o teve foi por influência de um amigo do autor e por uma decisão de rejeição. Com efeito, o nome do país andava a ser usado comercialmente em campanha promotora do nome “Portugal”. E Pessoa confessa num dos seus escritos: “O meu livro Mensagem chamava-se primitivamente Portugal. Alterei o título porque o meu velho amigo Da Cunha Dias me fez notar – a observação era por igual patriótica e publicitária – que o nome da nossa Pátria estava hoje prostituído a sapatos, como a hotéis a sua maior Dinastia.”
Onésimo Teotónio de Almeida cita texto de José Blanco a propósito do prémio atribuído a Mensagem em 1934: “A Mensagem não chegava às 100 páginas regulamentares, ao contrário do livro do padre Vasco Reis, pelo que concorreu à categoria B (poema ou poesia solta). Foi, como se sabe, por intervenção directa de António Ferro que o montante do respectivo prémio, para o qual a Mensagem tinha sido passada apenas por uma simples questão de número de páginas, foi elevado para 5000$00, exactamente o mesmo atribuído pelo regulamento à obra premiada na categoria A.” (in Pessoa, Portugal e o Futuro. Lisboa: Gradiva, 2014)
Vasco Reis, sacerdote flaviense, ganhou o prémio com A Romaria, também publicado em 1934. Mais tarde, passaria a assinar as suas obras, romances de teor colonial (entre outros: Cafuso, 1956; Filha de Branco, 1960; Caminhos, 1961; Queimados do sol, 1966), com o nome de Reis Ventura, pseudónimo de Manuel Joaquim Reis Barroso (1910-1992). Em vários momentos, o autor de A Romaria confessou que o verdadeiro vencedor do Prémio Antero de Quental de 1934 deveria ter sido Mensagem.