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domingo, 29 de janeiro de 2012

Três olhares sobre Trindade Coelho


 No número de 7 de Novembro de 1897 da revista Branco e Negro, aparecia um artigo de Trindade Coelho expondo o seu pensamento sobre o que seria um conto. Reconhecido como contista a partir da obra Os meus amores (publicado em 1891), o escritor de Mogadouro confessava as razões que o levavam a considerar o conto como uma arte do seu tempo: “É uma forma literária encantadora (conquanto não mencionada ainda nos livros didácticos); e o maior assunto, ou o mais complexo, cabe no conto, pela mesma razão que nas proporções delicadas de uma miniatura pode caber, desafogado, um grande quadro. Tudo se reduz a uma questão de processo; e pelo que toca à emoção, o conto pode dá-la mais intensa, creio eu, do que o romance. Depois, os próprios jornais, com a sua insistência cronométrica de todas as horas, o seu carácter de enciclopédia, a sua variedade, ou absorvem, ou fazem aborrecido, o hábito de ler demorado – e livros, são às dúzias, e na grande maioria livros maus, o que também desanima. A vida, hoje, e cada vez mais há-de ir a pior, é pouco extensa e muito intensa. Nada, pois, de coisas demoradas: tudo se quer breve, curto, incisivo, como essa linguagem do telégrafo, que é bem a deste fim de século alucinado…”
Depois deste enquadramento circunstancial e marcado pelo tempo, Trindade Coelho tenta definir a estrutura e o modo de fazer um conto, partindo do seu percurso: “Mas como se faz um conto? O que é o conto? Não sei. Quem o sabe? Tenho dele, desse delicado género de poesia literária, a visão de uma coisa redonda, sem princípio, nem meio, nem fim, e todavia geométrico e perfeito, como uma bola de fino marfim. Isto é talvez grosseiro, este modo de exprimir – mas confesso que não tenho outro e peço desculpa…” O leitor passa por este parágrafo e reconhece o tom dos contos do seu autor, eivados das características aqui anunciadas e sentidas, justamente o modo literário que deu a Trindade Coelho o reconhecimento na literatura, embora tenha sido autor de outra obra vasta nos domínios do direito, da didáctica e da cidadania.
Em 1949, Júlio de Lemos dava à estampa o opúsculo intitulado Elogio do contista Trindade Coelho (Lisboa: revista Ocidente), com meia centena de páginas, num texto assumidamente comprometido com o título – a única parcela da obra de Trindade Coelho aflorada é a dos contos e o ensaio percorre o que foi a recepção da obra Os meus amores, vista por numerosos escritores, críticos, admiradores, portugueses e estrangeiros. Esta obra é ainda importante pelas duas listagens apresentadas no final: uma, de bibliografia constituída por títulos de escritores que homenagearam Trindade Coelho; outra, dos periódicos que, entre 1879 e 1905, em geografias diversas (Bairrada, Braga, Bragança, Coimbra, Elvas, Famalicão, Lamego, Lisboa, Paris, Ponte de Lima, Portalegre, Porto, Serpa, Viana do Castelo e Viseu) e alguns por si fundados, mereceram a colaboração de Trindade Coelho.
Júlio de Lemos conhecia bem Trindade Coelho e entre os dois existiu uma relação epistolar, tendo a revista Limiana, publicada em 1912 e dirigida por Júlio de Lemos, dado a conhecer, em vários números, um total de 34 cartas de Trindade Coelho, escritas entre 1897 e 1907. Daí que não nos surpreenda o início deste Elogio: “Pelo que observamos há cinquenta anos e pelo que desde então viemos lendo e reflectindo, estamos convencidos de que com o aparecimento do livro Os meus amores principiou uma transformação na vida literária portuguesa.” O que estava em causa era uma crítica ao Naturalismo e àquilo que era visto como os excessos dessa fase, sendo enaltecido em Trindade Coelho “a literatura casta, suave, iluminada e emotiva, que nos banha a alma numa torrente de espiritualidade, bondade e graça, a literatura que respira saúde moral e, portanto, doce, límpida, repousante e construtiva”. Júlio de Lemos alia-se, assim, ao colectivo que escolheu para apreciar o conjunto de contos de Trindade Coelho, definindo que “as constantes artísticas de Trindade foram a pureza dos seus temas e da sua linguagem, a simplicidade formal e o amor à nossa terra, que tanto louvou e exaltou”, para o que contribuem a “naturalidade, singeleza, claridade rebrilhante, cadência, musicalidade”, sentindo necessidade de sublinhar a existência de uma “simplicidade estética” na obra em apreço.
A ligação de Trindade Coelho à terra onde nasceu foi devidamente destacada por outro escritor, João de Araújo Correia, alto-duriense e também contista, quando, no último dia de Junho de 1961, para assinalar o centenário do nascimento de Trindade Coelho, discursou na Casa de Trás-os-Montes, em Lisboa, sobre o Perfil trasmontano de Trindade Coelho, conferência que verteu livro (Lisboa: Portugália Editora, 1961), dizendo, logo no início, que o escritor de Mogadouro, apesar de ter andado por várias terras (Coimbra, Sabugal, Portalegre, Ovar e Lisboa), “nunca saiu de Mogadouro”, justificando: “nunca saiu de lá, porque lá lhe ficou preso o coração à rama dos negrilhos”.
Este é o ponto de partida para considerar o “trasmontanismo” do autor de Os meus amores, apresentado por ter sido um escritor “independente”, que “não se enamorou de modas literárias” e manteve, “em cada linha escrita do seu punho, Trás-os-Montes pintado por uma pena”, com as cores da rusticidade e da delicadeza. A melhor tela, segundo Araújo Correia, está nesses contos, que revelam “o cenário do planalto, os animais rasteiros e os passarinhos, a leiva e a nuvem, a árvore e o homem, os tonilhos contados à lareira em linguagem imaculada”.
No mesmo ano em que se assinalava o centenário do nascimento de Trindade Coelho, era publicada a obra de Rogério Fernandes Ensaio sobre a obra de Trindade Coelho (Lisboa: Portugália Editora), que continua a ser uma excelente leitura da obra do escritor trasmontano.
Rogério Fernandes começa por analisar o livro mais conhecido que é essa colecção de contos intitulada Os meus amores, para introduzir a questão da arte de narrar, bem como a reflexão sobre a eventual proximidade de Trindade Coelho da estética realista.
Sem dissociar a intenção do autor de contar histórias no cenário rural da sua região, trazendo para a literatura a simplicidade e a emoção do homem do campo, considera Rogério Fernandes que as narrativas de Os meus amores são “perfeitos como realização literária” e “consistem sempre na narração de um caso, elegantemente desenvolvido nos seus lineamentos principais e encerrado com soberba mestria”, além de haver nelas, “para além dos seus episódios e da caracterização de tipos, um pensamento moral e social subjacente”. Quanto à questão do realismo, pensa Rogério Fernandes que “o realismo de Trindade Coelho é, de facto, um realismo amável, uma poetização da realidade”, já que, “no espectáculo horroroso que a sua província oferecia, o autor de Os meus amores seleccionava, unilateralmente, aqueles elementos mais susceptíveis de uma idealização lírica.”
Quase metade do estudo é dedicado a outra faceta do escritor de Mogadouro: o seu envolvimento enquanto cidadão e a sua actividade em prol da instrução, da escola e da formação cívica. Rogério Fernandes passa pelas obras que exibem o pensamento social de Trindade Coelho com uma adesão de simpatia, demonstrando a verticalidade e o compromisso do escritor, com amplo recurso a citações de obras suas e a opiniões de seus contemporâneos. Alheio a honrarias, preocupado com a necessidade de instrução popular, autor de uma proposta de forma de ser cidadão, de Trindade Coelho nos dá este ensaio um retrato vigoroso e coerente, onde cabem momentos difíceis e um percurso de vida que acaba sinuoso, com o suicídio. Só um homem “que se bateu ardorosamente pela elevação material e intelectual do seu povo e pelo ressurgimento do País” pode ter mantido a sua independência ou o caminho da sua sinceridade nos moldes em que se apresentou em carta a Luís Derouet: “A sinceridade é indisciplinada; não transige. E eu, como sincero, sou intransigente, e seria sempre, por isso, um mau partidário – fosse do que fosse e de quem fosse”.
Os contos de Os meus amores não têm, felizmente, andado esquecidos e com facilidade se encontram reedições (igualmente acessíveis quanto a custos). O facto de esta ser uma obra recomendada para leitura no ensino básico também sustenta essa presença nos escaparates. Mais difícil será encontrar a recolha que Viale Moutinho fez, em 1985, de diversos contos de Trindade Coelho que tinham ficado em jornais ou se mantinham inéditos, sob o título de Outros amores (Lisboa: Editorial Labirinto), narrativas construídas na esteira de Os meus amores. Ler Trindade Coelho continua a ser um encontro com a sensibilidade e com as histórias que têm feito a identidade de Portugal. Os três contributos aqui lembrados constituem outros tantos pretextos ou convites para ler Trindade Coelho ou para ajuizar do que foi a sua importância na literatura portuguesa.

domingo, 4 de setembro de 2011

José Leon Machado, "Fluviais"

Se há justificação para um título como Fluviais, que reúne 37 narrativas, ela só pode ter relação com o que é a suposta vida de cada personagem, um corredor que, desde o nascimento à foz, é povoado por intrigas e problemas. Fluviais (Porto: Campo das Letras, 2001), de José Leon Machado, congrega, assim, quase quatro dezenas de caudais, uns mais tempestuosos do que outros – camilianos alguns deles –, mas todos no encalço de personagens mais ou menos misteriosas e detentoras de um segredo que a escrita vai desvendando.
Os contos estão divididos por dois grupos – “À sombra sob as parras”, com 21 histórias, e “Ao sol sobre as fragas”, com 16. O que separa uma e outra é a geografia em que as personagens se movem – no Minho, a primeira, em Trás-os-Montes, a segunda, ambas as regiões metonimicamente apresentadas por cenários como as “parras” ou as “fragas”, que as identificam; na primeira, girando as vidas na proximidade de Braga; na segunda, circulando entre Valpaços e a raia, com entradas na Galiza.
Por estes contos passam figuras que são os heróis das suas próprias vidas, por vezes com finais infelizes, num ambiente rural, em que a tasca é, frequentemente, centro – a do Canhoto, na primeira parte, a do Riqueto, na segunda – e em que convivem as infidelidades, as vinganças, as experiências de vida difíceis, a embriaguez, os amores contrariados, o contrabando, a emigração, as relações de vizinhança, a solidão.
Há personagens que se aproximam dos mitos – “De pé à ré, o pau como remo, em gestos lentos de quem está senhor do rio e do barco, parecia um deus”, referindo o tio Né, barqueiro, no conto “A Máscara da Ninfa” – e outras que vão construindo os seus próprios ditados, formulados à medida das suas necessidades e vícios – “Sem vinho não há alegria e antes alegria que tristeza; (…) tristeza bastava a que carregamos no lombo desde o berço”, pensava o Farra, no conto a que dá nome. Há personagens que se confrontam com questões intensas, como a descoberta da morte, no conto “O Armador” e há crítica de práticas habituais – “O que mais o espantava é que as pessoas, à frente de uma imagem por pintar, dificilmente se ajoelhariam e pronunciariam uma prece. Mas perante uma imagem pintada, imaginavam-se perante uma encarnação do santo”, reflecte Mestre Paulo em “Lascas de Cal”. E há o amor, curiosamente a determinar a abertura e o fecho do livro – idealizado, no início, em “A Máscara da Ninfa”, sugerindo a descoberta de uma ilha dos amores, e instintivo e realizado, no último conto, “A Professora Nova”, com o apelo do corpo a determinar a relação.
Contos breves são estes de Fluviais, que nos apresentam um modo de viver e de pensar longe de toda a globalização e constroem uma quase arqueologia do sentir humano, em que o instinto e a reacção a quente vencem, muitas vezes deixando o leitor desarmado perante finais inesperados ou rumos das histórias subitamente alterados.

sábado, 22 de janeiro de 2011

"Quartzo - Vidas de um Veterinário", de Manuel Cardoso

São vinte e três histórias e mais um “glossário breve” – as narrativas trazem-nos episódios rurais, o glossário é composto por cerca de três dezenas de termos ou expressões surgidos nas histórias para ajuda do leitor que lhes esteja menos habituado. É este o corpo do livro Quartzo – Vidas de um Veterinário, de Manuel Cardoso (Coimbra: Quarteto Editora, 2000).
A começar o livro, há um texto introdutório que justifica a escrita destas histórias. Curtas, elas são “tecidas de uma realidade vivida e simples, o dia-a-dia de um trabalho feito com empenho e dedicação, também com sacrifício e esforço, e bordadas de uma fantasia quão simples quão vivida também”, havendo, “nalgumas, a serenidade de um ritmo de épocas passadas; noutras, a premência de uma pressa que urge a prender o presente”. Característica comum a todas: “a paixão pela terra deste torrão precioso de Trás-os-Montes”.
Sendo o autor médico veterinário de formação e naquela região exercendo a sua actividade, fácil se torna concluir estarmos perante um registo autobiográfico, aqui e ali marcado por indicadores que o vão confirmando – como o nome de algumas personagens das histórias, que são as mesmas do círculo familiar do autor, ou a referência explícita ao próprio nome do autor, cumulativamente personagem e narrador, como acontece no texto “Visitas e Visitantes”.
Pelas histórias vai desfilando um mundo de crendices, de hábitos, de uma sociedade rural, em que os animais são a maior preocupação, seja pelo sustento, seja por serem vistos enquanto garante, em lutas que são pela vida e contra a morte ou contra o azar da doença, questões essenciais quando o que está em causa é a sobrevivência – seja dos homens, seja dos animais. Daí que o narrador considere a sua profissão de veterinário como algo que também dá para fugir à rotina, porque o homem se torna actor – “o pequeno grupo que se forma quando uma consulta é um bocado mais demorada é muitas vezes o colorido que faz desta profissão uma actividade em que a rotina é uma rara ocorrência”, em que “o interlocutor nunca é o doente mas o dono”, sendo que, “quando uma doença se declara, muitas vezes pior não é diagnosticá-la nem dar-lhe solução – é lidar com o dono do animal”.
Paralelamente, vai sendo mostrado que nem tudo é pacífico e que um profissional se faz com os conhecimentos da tradição, por vezes empíricos, mas também com a inovação, haja em vista o que é relatado no conto “O Detector de Metais”, em que tal equipamento se revela útil à detecção de objectos metálicos ingeridos pelos animais, mas cuja utilização causou espanto – “Uma das novidades que eu trouxe para cá quando acabei o curso foi o acto de não medicar animal nenhum sem lhe medir a temperatura e sem o auscultar. Isso causou-me algumas situações mais amargas com alguns colegas porque o costume era o de receitar pela história e sintomas colhidos a olho e levaram a mal que um franganote a principiar os ultrapassasse na mise-en-scène. Contudo, eu não desarmei e até reforcei a panóplia de possibilidades quando apareci a empunhar um detector de metais.”
Quartzo – Vidas de um Veterinário é, pois, a experiência de um joão-semana dos animais, já não montado numa égua, mas cavalgando um “Panda” ou um “UMM”, visto como salvador, como confidente, atendendo pastores, pequenos agricultores, ciganos, convivendo com a caça furtiva e as pequenas vinganças, com os mistérios da vida e da terra, penetrando nos modos de ser e nas intimidades familiares. Tudo isto valorizado por uma descrição da paisagem dos arredores de Macedo de Cavaleiros – geografia destes pequenos contos – decifrada com as cores do tempo e as tonalidades agrestes da serrania, com os cheiros intensos e os ruídos de um cenário que ganha animação graças ao homem que o povoa e nele se refugia.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Manuel Cardoso, "Um tiro na bruma"

A entrada do leitor em Um tiro na bruma, de Manuel Cardoso (Estoril: Principia Editora, 2007), é o enveredar por um romance histórico cuja acção se passa no final da segunda década do século XX, pelo convívio com a sociedade trasmontana de Macedo de Cavaleiros desse tempo e também pelo assistir ao lento e progressivo desmoronamento de um regime, percurso cheio de contradições e de paradoxos.
As “notas explicativas” com que o autor abre o livro servem ainda para transportar o leitor a esse tempo, seja fornecendo-lhe elementos de contextualização histórica (como o regresso dos combatentes da Grande Guerra, os conflitos entre monárquicos e republicanos, a pneumónica, a Monarquia do Norte, momentos e feitos que vão ter reflexo na narrativa), seja para confidenciar sobre os motivos que levaram a esta escrita, seja para esclarecer a linha de fronteira entre a história de uma família (a do autor) e de uma região e a ficção com que são compostas as personagens e as acções que dão corpo a esta trama.
Com efeito, a personagem central, Amadeu, médico, é construída sobre um antepassado do autor, protagonista enriquecido com o recurso a histórias, fotografias, notícias, relatos, documentos. E, para que dúvidas não restem sobre o fundo de verdade que foi pretexto desta história, o leitor é contemplado com um resumo do esquema genealógico, que abrange o tempo decorrido entre a segunda década do século XIX e o início do século XXI, fechando com a geração anterior à do autor.
A história de Um tiro na bruma inicia-se numa tarde chuvosa, fria e ventosa, quando Micas (mulher de Amadeu) e Luísa vão prestar apoio e solidariedade a Ana Pita. Nesse momento, “ouviu-se um estampido. Fora um tiro, decerto. Meio abafado. Mas fora um tiro.” O disparo acontece na primeira página do relato e, poucos parágrafos andados, fica o leitor a saber que Álvaro Ruivo, padrasto de Luísa, fora assassinado. O primeiro comentário sobre a vítima é feito por Micas, ao não lhe ser dada a certeza sobre o óbito de Ruivo: “O estafermo! Não se perdia nada. Que Deus me perdoe mas não se perdia nada! Deus às vezes podia mesmo mandar dar por aqui uma vista de olhos com olhos de ver nas almas que por cá andam!...”
Percebe-se que a história não vai girar em torno da descoberta do assassino. E, a partir daí, o leitor passa a acompanhar o quotidiano de Amadeu, comungando das suas reflexões e das suas dúvidas, assistindo ao desfiar da peregrinação pelas aldeias no atendimento aos doentes e no contributo para as estatísticas da saúde.
De vez em quando, uma ou outra lembrança entra na narrativa para recordar que o mistério sobre quem disparara sobre Álvaro Ruivo ainda se mantém. E algumas pistas vão contribuindo para sugerir um desfecho, que não chega nunca: porque não há sobre quem caiam suspeitas? poderá Amadeu ser incriminado? E, quando parece que este mistério do assassínio fica resolvido, mais por suspeitas do que por confissão ou por descoberta, o leitor está a enveredar por mais uma falsa interpretação que é dada para sossego daquela sociedade. É que a autoria do disparo só é conhecida no momento em que a personagem responsável por esse acto se quer fazer valer desse testemunho para mostrar a sua coragem e a sua decisão e capacidade de ir em frente, usando palavras que justificam o comentário inicial da Micas: “Já matei um! Sim, já matei um com um tiro só! O estupor! Tinha-se posto à força na minha mulher!”
Vai o leitor avançando nas peripécias que entretecem a vida de Amadeu e a escrita vai tomando marcas que em muito convocam Júlio Dinis (a figura do João Semana, a aproximação social, a ruralidade) ou Camilo (a rapidez e a certeza na acção) ou mesmo Eça (no pendor descritivo e na força visual, na minúcia com que nos são apresentadas personagens, paisagens, espaços, objectos e atitudes), sendo todavia evidente uma leitura de desencanto e de despedimento de um tempo, várias vezes acentuada: a sociedade apresentada como “um mundo onde tudo se desfazia e onde a autoridade parecia abandonar o terreiro a passos acelerados”; um país “a ir ao fundo! O povo quer nadar e não consegue! Quer comer e não tem o quê!”; uma personagem, Amadeu, que se sentia ir abaixo pela “situação política, o caos do país, a voragem de uma guerra civil que não tardaria a abocanhar todos os esforços para fazer de Portugal um país com nível, de Trás-os-Montes um canto com progresso”.
Um tiro na bruma é romance que bem caracteriza uma época de indefinições e de indecisões, que bem povoa a história local da região de Macedo de Cavaleiros enquanto espelho do que foi o sentir e o agir de um país na segunda década do século XX, e que, começando com um tiro anónimo, conclui com tiros bem determinados (a morte de Sidónio Pais, os bombardeamentos de canhões em Mirandela) e com a ameaça de um outro tiro certeiro. É uma história equilibrada, que procura raízes e passa por marcas de identidade nada distantes do que somos.

sábado, 3 de julho de 2010

Cabral Adão, o centenário

A Biblioteca Municipal de Setúbal mostra uma exposição bibliográfica alusiva a Luís Cabral Adão quando passa o centenário do seu nascimento, gesto importante para a memória que Setúbal deve guardar deste escritor e médico. Aqui reproduzo um texto que, há uns anos, escrevi para o Jornal da Região, evocando Cabral Adão e a "sua" pedra na Arrábida...

Pelas 21 horas do último dia de Abril de 1938, noite chuvosa e de vento, desembarcava na Praça do Bocage, em Setúbal, onde era então o terminal rodoviário de autocarros, um transmontano que vinha tentar a vida na cidade do Sado. Deixara Vila Flor (a sua terra, no nordeste brigantino), estava quase a fazer vinte e oito anos (nascera a 24 de Junho de 1910), trazia um curso de Medicina (1933) e a especialidade de estomatologia (1938), conseguira alugar casa na Rua Ocidental do Mercado. Chamava-se Luís Manuel Cabral Adão e viria a ter consultório na Travessa da Alfândega, virado para o Largo da Misericórdia.
Meio século mais tarde (o período necessário para as comemorações designadas por "bodas de ouro"), este homem era alvo de uma homenagem em Setúbal, a assinalar os seus 50 anos na cidade, tempo passado como médico, como cidadão e como escritor. Vários amigos juntaram-se em 30 de Abril de 1988, tendo vindo a Setúbal uma delegação de Vila Flor (que integrava o respectivo Presidente da Câmara, Alfredo Travessa Ramalho). Nessa tarde, dirigiram-se para a Arrábida e, na descida do Outão para a Figueirinha, na zona conhecida por Praia das Pedras, foi descerrada uma lápide, colocada sobre rocha que da estrada se despenha sobre a praia, contendo os seguintes dizeres: "Lá numa rocha, um dia, sem festança, / Alguém inscreverá esta lembrança: / Aqui viveu e amou Cabral Adão", versos que constituem o último terceto do soneto número XV do livro Panorâmica - Poemas a Setúbal, que teve primeira edição em 1963. A lápide contém ainda as referências "30-4-1938 / Bodas de Ouro / 30-4-1988".
Na ocasião em que foi inaugurada a inscrição, o homenageado relembrou: "Este é um ponto do litoral de Setúbal que eu comecei a escalar antes que poucos o fizessem. Há quantos anos? Nem sei". Depois, contou a história: "Quando o primeiro lanço da estrada da Secil para estas arribas chegava apenas ali ao alto, nas traseiras do farolim do Outão, trepei uma escada de travessas de madeira velha para descobrir o que havia para além da trincheira. Pé aqui, pé além, evitando pedras, desviando arbustos espinhentos, atento a qualquer resvalamento perigoso, desci ao areal estreito, mas mimoso, que separava umas fortes rochas do mar... O lugar era recatado, a beleza das ondas selvagens, dos alcantis, da insondável distância. Enamorei-me da prainha. Vim aqui mais e mais vezes". A frequência com que Cabral Adão começou a acorrer àquela nesga de praia, depois acompanhado pelos filhos (Luís Guilherme, Maria de Fátima, António Viriato, Maria Manuela, João Pedro e Aida Maria), levou a que as trabalhadoras da Secil fossem designando o local por "Praia do Dr. Adão", numa referência ao frequentador quase único daquele espaço na altura.
Quando Cabral Adão chegou a Setúbal, encontrou uma série de pessoas amigas de família, tal como recordou no discurso que fez no jantar desse dia de homenagem - o padre Cassiano Cabral, seu conterrâneo e prior de Santa Maria; o major Alfredo Perestrelo da Conceição, que fora amigo de seu avô em Bragança; António Gamito, que tinha sido colega de liceu do seu tio. Começando a conhecer a cidade e as pessoas, Cabral Adão poderia dizer, em 1988, referindo-se a Setúbal, que estava na sua "segunda terra-natal", onde a família crescera.
Fascinado pela paisagem, este médico e escritor seria o autor do conhecido epíteto "rio azul" atribuído ao Sado, que hoje está generalizado na promoção da região, inspiração que não será estranha ao facto de Cabral Adão ter vivido na rua Ocidental do Mercado, que permitia o contacto diário com o rio. O seu primeiro livro, repleto de crónicas sobre a região, foi publicado em 1953 sob o título de Flores do Rio Azul. Mas o mesmo fascínio pela cor do Sado o acompanhava em 1988, quando, no mesmo discurso, evocava o que sentira ao ver, cinquenta anos antes, "a coruscante seda do rio, este rio bonzão que roubou o azul ao céu pela calada duma noite de luar e ficou sem julgamento por falta de prova".
O território ligado ao Sado foi ainda o motivo da sua última crónica publicada no semanário O Distrito de Setúbal, em 31 de Março de 1992, intitulada "O Ribassado - Uma Utopia? Um Palpite?" (o jornal publicaria ainda, em 28 de Abril do mesmo ano, um outro texto de Cabral Adão sob o título de "Efeméride", que continha a mensagem que lera no descerramento da lápide quatro anos antes). A sugestão encaminhava-se no sentido de ser constituída uma província designada por "Ribassado", que Cabral Adão pincelava nas suas vertentes geográfica, etnográfica e humana, constituída pelos concelhos de Sesimbra, Setúbal, Palmela, Alcácer do Sal, Grândola, Santiago do Cacém e Sines. Na conclusão, dizia o cronista: "Utopia? Palpite? Confio na minha inspiração e estou a ver os habitantes da nova província responderem, ufanos, se perguntados nesse sentido: Eu sou do Ribassado! E, nas entradas de Setúbal, além da legenda Rio Azul, a que já nos habituámos, esta outra, bem vincada: Capital do Ribassado!".
Desde sempre ligado à imprensa, Cabral Adão deixou crónicas, poemas e contos dispersos por jornais como O Setubalense, Jornal de Notícias, Gazeta do Sul e A Voz de Palmela, entre outros. Além dos títulos já referidos, Cabral Adão foi ainda autor de Meu Liceu, Minha Saudade (1948), Paisagens do Norte (1954), As Flores do Arrozal e Médicos da Seiva (ambos de 1955), Gineceu (1958), Vila Flor (1966), Plectro a Jesus (1971, que o filho António conseguiu publicar no dia do aniversário do pai, em 24 de Junho) e O Homem da Terra (1986).
O pendor para a poesia que caracterizava Luís Cabral Adão levou-o a ser um dos fundadores da Arcádia da Fonte do Anjo, tertúlia de poetas locais do início da década de 50 em que também participou António Matos Fortuna, com quem Cabral Adão calcorreou a zona de Palmela (a cuja vila chamou "ninho de casas brancas à sombra dum castelo roqueiro", em Flores do Rio Azul) e Quinta do Anjo.
Matos Fortuna recordava ainda o carácter repentista e humorístico de Cabral Adão. Um dia, quando estavam na casa de seus pais, na Serra do Louro, Cabral Adão e outra visita, António Henriques, resolveram, por sugestão do médico, fazer quadras a despique, tendo começado António Henriques com estrofe alusiva à família anfitriã: "Lar português e cristão / De virtudes rico centro / Tem aspecto pobretão / Mas onze Fortunas lá dentro". A resposta de Cabral Adão foi imediata: "Palácio nobre da serra / Sem torreões nem colunas / Colmeia viva que encerra / A família dos Fortunas". Numa outra altura, passeando pela Serra do Louro, os dois amigos viram escrito a lápis num marco geodésico: "Eu chamo-me Sales Parente / E tenho uma dor num dente". Logo o médico puxou de lápis e redigiu resposta pronta: "Eu chamo-me Cabral Adão / E dava-te já solução".
Os registos literários do médico transmontano resultavam, na maior parte das vezes, das visitas a pé que fazia na região e dos contactos com as pessoas no seu ambiente de trabalho, não conseguindo dissociar as pessoas das paisagens. Sintomático é o texto sobre as mondinas, a quem chamou "flores do arrozal", que assim as valoriza: "São as mondinas. No esmalte verde das folhas quadriculadas, engastam-se os coloridos vivos dos seus trajos como as policromias dum mosaico mourisco. São papoilas, são malvas, são hortênsias que se vão mexendo lentamente, sempre vergadas para o chão, na faina útil de livrar a cultura das ervas parasitas que a podem debilitar. O trabalho das mondinas, visto de dentro, será muito natural, uma tarefa vulgar, como qualquer outro trabalho de campo. Mas visto de fora, visto com olhos de interessada análise, que espinhoso e duro é o trabalho das flores do arrozal!".
Os contactos com estas terras e com estas gentes deixou-os Cabral Adão em 6 de Agosto de 1992, quando faleceu na sua casa de Almada, vitimado por paragem cardíaca, dali partindo, no dia seguinte, para Vila Flor, para jazigo de família. O seu último acto cultural foi ainda para Setúbal, sua terra de adopção. Juntamente com outras figuras sadinas, colaborara num volume que recolhia fotografias de Américo Ribeiro, intitulado Um Tesouro Guardado - Setúbal d'Outros Tempos. A vida trocara as voltas ao fotógrafo Américo, falecido umas semanas antes da apresentação do livro. E, ironia das ironias, trocou-as também a Cabral Adão, que faleceu na véspera da apresentação do livro que pretendia ser uma homenagem à obra do amigo, sobre quem escreveu, em Março de 1981: "Nada vaidoso, um homem simples, uma sombra viva que perpassa aqui e ali, quase sem se dar por ele, célere, ágil, procurando ângulos, sorrisos, focando objectivas, dando ao gatilho: clic!". Um outro "clic" não permitiu a um nem a outro verem a obra...

A pedra de Cabral Adão, na Arrábida

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Bocage à vista (58) no seu mês - 3ª série

"O Cantinho do Bocage", em Chaves (colaboração de Quaresma Rosa)

sábado, 4 de julho de 2009

José Ruy e Amadeu Ferreira numa história da língua mirandesa

Ana faz pesquisas arqueológicas nas terras de Miranda. Uma chuva intensa que caiu durante a noite alagou as escavações, exceptuando um dos talhões, que apareceu enxuto porque a água da chuva desaparecera. Ana desceu e, ao ver uma abertura, entrou, rumando ao desconhecido, caindo no escuro, onde foi encontrar Atta, uma mulher do passado, que contou a sua história a Ana, uma mulher do presente. Trinta pranchas depois, a narrativa acaba. Tinha passado um quarto de hora na vida de Ana e um dos seus companheiros resgatava-a das profundezas. O que ele não soube foi que esse foi o tempo necessário para Atta conduzir Ana numa viagem pelo passado de um povo e de uma língua.
É este o argumento da obra Mirandés – Stória dua lhéngua i dun pobo (Lisboa: Âncora Editora, 2009), um álbum de banda desenhada de José Ruy, com texto coordenado cientificamente e traduzido para mirandês por Amadeu Ferreira (houve edição simultânea com texto em português).
O traço inconfundível de José Ruy (autor de adaptações para banda desenhada de obras literárias, de biografias e de outras histórias) recua aos tempos pré-romanos, assiste à romanização, convive com os visigodos, acompanha a fundação de Portugal, testemunha a construção do castelo de Miranda no tempo de D. Dinis… viaja na história da região, nas quezílias da vida de fronteira, e vê o desaparecimento e ressurgimento de uma língua como o mirandês, que José Leite de Vasconcelos, em finais do século XIX, trouxe para a comunidade científica. A história acaba fazendo referência à obra mais recente: a edição, na língua mirandesa, da adaptação em banda desenhada d’Os Lusíadas, obra a cargo de José Ruy e de Amadeu Ferreira. Isto, depois de ser lembrado o reconhecimento oficial da língua mirandesa (1999), bem como a existência de um programa para o seu estudo nas escolas.
É uma história de um povo, que tem que coabitar com os sucessivos invasores que o vão alterando; é a história de uma língua, que persiste e vai convivendo com as línguas que a visitam, designadamente com a portuguesa. Epopeia de um povo e de uma língua, ambos se mantêm porque persistem nas suas características, tal como Atta, a pastora, confidenciava à arqueóloga, revelando-lhe como a podia salvar: “Falando la nuossa lhéngua. La lhéngua ye l’alma dun pobo. Anquanto fur falada, l sou pobo nun se muorre.” História de identidade e de cultura, ambas falam pela voz de Atta, ainda, ao explicar a Ana a intensidade dos castros e o papel da memória: “La era an que bibes, Ana, puode tener mais quemodidades, mas estes castros, que ban rejistindo al lhargo de ls seclos, son l mil lhar, cumo la lhéngua mirandesa.” Um livro com uma história da História, pois. E com ensinamentos vários...

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Línguas para uma pátria

Sob o título "D. Fonso Anriqueç falaba mirandés?", Amadeu Ferreira escreve no Público de hoje sobre a importância da língua mirandesa no que à memória respeita.
L mirandés de hoije ben de la eiboluçon que tubo la lhéngua de l Reino de Lhion, na tierra de Miranda, al lhargo de cientos de anhos, sufrindo la anfluença de l pertués, de l castelhano i de outras lhénguas, mas mantenendo la sue matriç oureginal: lhéngua filha de l lhatin i pertenciente a la família de las lhénguas stur-lhionesas. Quando l reino de Pertual se custituiu, apartando-se de l Reino de Lhion, yá na tierra de Miranda se falaba lhionés i assi tamien serie ne l mais de l atual çtrito de Bergáncia. L pertués que ende hoije se fala ten muita palabra que bieno de l lhionés pa l pertués, i que ls dicionairos cunsídran, ls mais deilhes, cumo regionalismos stramuntanos.
Cumo ye sabido, l purmeiro rei de Pertual, D. Fonso Anriqueç, era filho dua princesa filha de l rei D. Fonso VI de Lhion, i essa princesa falarie lhionés cumo toda la corte lhionesa desse tiempo, a ampeçar pul rei. Al redror de D. Teresa stában sues aias, tamien damas lhionesas i falando la percipal lhéngua de l reino. Assi sendo, nun puode haber dúbedas de que l filho de D. Teresa, D. Fonso Anriqueç, haberá daprendido a falar l lhionés i serie essa la lhéngua que falaba cun sue mai, las aias que la circában i ls sous familiares lhioneses. Todos sabemos, tamien, que D. Fonso Anriqueç fui eiducado por D. Egas Moniç na region de Lamego, adonde se falaba l galhego-pertués, i tamien tenerá daprendido esta lhéngua, l que nun quier dezir que squecira la outra.
Podemos dezir que quando fui armado cabalheiro, na Catedral de Çamora, arrodiado puls sous familiares, D. Fonso Anriqueç falarie lhionés cun eilhes. L mesmo se haberá passado mais tarde quando assinou l Tratado de Çamora, feito na mesma cidade. Al lhargo de la bida bários cuntatos tubo cun sou primo, rei de lhion, i cun el falarie lhionés. Anque esto nun steia screbido an nanhun decumiento, cuido que dúbedas nun haberá de que assi fui: D. Fonso Anriqueç falaba lhionés, quier dezir, falaba ua lhéngua a que agora le damos l nome de mirandés.
Tal cumo muitos pertueses, que nun l son menos que ls outros, D. Fonso Anriqueç nun poderie dezir "la mie pátria ye la lhéngua pertuesa": a la ua, porque la pátria tubo que la custruir cun lhuita; a la outra, porque l reino que tornou andependiente falaba dues lhénguas, l galhego-pertués i l stur-lhionés, i esta serie tamien la lhéngua percipal de sou cunhado, D. Fernando Mendes II, de Bergáncia, casado cun D. Çáncia Anriqueç, armana de l nuosso purmeiro rei; mas subretodo porque l mito de la lhéngua inda nun habie sido custruído. Todo esto amostra que D. Fonso Anriqueç tenie cuncéncia de las dues lhénguas que se falában ne l reino que fundou, i dambas a dues se puoden cunsidrar cumo lhénguas fundadoras. Apuis desso, las dues lhénguas fúrun cumbibindo al lhargo de cientos d'anhos, i ls mirandeses fúrun adotando tamien la pertuesa, mas la lhéngua mirandesa puode reclamar de haber nacido an brício d'ouro tanto ou mais que la outra. Que bal esso? Mui pouco, yá que l amportante fui que l pobo trouxo la sue fala até als nuossos dies sien ajudas de naide, sien que l stado pertués neilha tenga ambestido un çue. Tratando-se dua lhéngua que stubo tamien na ourige de Pertual i fui falada pul nuosso purmeiro rei, l menos que se puode dezir ye que la gratidon nun ye frol que ls stados i sous gobernos cultíben.